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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O GOLEADOR TINDOLA E O GOLEIRO ASCLEPÍADES


O Goleador Tindola e 
O Goleiro Asclepíades

Crônica de Cyro de Mattos


O Janízaros era um dos times grandes do campeonato da Liga.  Um dos seus ídolos era o centroavante Tindola, apelidado de “Cabecinha de Ouro”, pelo cabeceio forte que sempre terminava em gol. Era um preto baixo, troncudo e musculoso. Fora responsável por vitórias maiúsculas do esquadrão azul e branco quando tudo parecia que estava perdido.

Quando o Janízaros jogava contra o Flamengo, os desportistas na semana não falavam em outra coisa pela cidade que não fosse o duelo entre os dois grandes times do futebol amador da Liga.  Surgiam comentários sobre o duelo à parte entre o centroavante Tindola, o implacável goleador no cabeceio, e o arrojado goleiro Asclepíades, o que tinha punhos de ferro e peito de aço.

Asclepíades era um preto forte, de estatura baixa para jogar no gol, mas saltava como uma fera esfomeada  para com as mãos fechadas  socar a bola. Saía  muito bem do gol, nas bolas cruzadas da intermediária  ou nas que vinham do escanteio. Havia sido um dos heróis da seleção amadora da cidade, que se sagrou campeã  no Torneio Intermunicipal Governador Antonio Balbino, disputado no Estádio da Fonte Nova, em Salvador. Fechou o gol na última partida contra a seleção de Alagoinhas.

O centroavante Tindola não resistiu ao soco que lhe desferiu o furioso goleiro Asclepíades no final da partida, em disputa pelo título do campeonato.  Ali mesmo na pequena área caiu estrebuchando. Foi levado às pressas para o hospital da Santa Casa de Misericórdia. E lá por vários dias permaneceu em observação pelos médicos de plantão, até que acordou no oitavo, a custo de muitas injeções e massagens no peito.

Um enfermeiro comentou mais tarde  com um dos torcedores do Janízaros que o centroavante Tindola,  também exímio cabeleireiro, em sua tenda instalada no Beco do Fuxico,  teve febre alta, suando muito quando deu entrada no hospital.  O quadro era  muito preocupante. Foi levado para a unidade de terapia intensiva, sem perda de tempo.

Quando retornou de lá para o apartamento, depois de alguns dias conseguiu com dificuldade pronunciar as primeiras palavras.  No delírio dizia com a voz trêmula:

          - Eu te perdoo, Asclepíades, meu caro amigo... mas não faça mais isso comigo... ainda quero criar meus filhos...

  Quando perguntaram ao Asclepíades, se não estava preocupado com a situação do Tindola, que dera para falar bobagens com os clientes, depois que saiu do hospital e retomou seu ofício de  cabeleireiro caprichoso  e barbeiro de navalha hábil,  na tenda “Gol  Cabeça de Ouro”,   ele respondeu que não via nada de mais no que tinha acontecido.

Afirmou com o rosto sério:

- Futebol é pra homem!” -  acrescentando:  -  Atacante que se cuide. Cara feia do Tindola ou de outro jogador atrevido, metido a goleador no cabeceio, nunca me meteu medo.
  
E, dando uma cusparada para o lado, com aquela cara feia que fazia quando partia para esmurrar a bola,  vinda na direção do atacante, em atenta posição para o cabeceio, finalizou:

- Na pequena área, atacante saia da frente, a bola é minha!


Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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