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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

CONHECENDO E DISSEMINANDO A MENSAGEM (VIII) – Clóvis Silveira Góis Júnior


4.8. Área Urbana de Itabuna

            Enquanto a primitiva Boqueirão prosseguia em suas atividades, outro grupo formava-se, dessa vez na zona urbana, no centro da cidade. A primeira data conhecida para a organização da igreja local, aquela que seria a futura sede de Itabuna, foi o ano de 1921, conforme relato do pastor Henry Meyer, presidente da União Este Brasileira, a seguir transcrito:

“Prazer me foi estar com os crentes de
Itabuna. Faz apenas pouco tempo que
a obra tomou pé nessa região. Os
irmãos já fizeram bons progressos e
também operaram com diligência para
tornar a outros conhecida a última
mensagem de advertência. Teve lugar
a 26 de abril uma festa batismal,
sendo, pois, organizados os irmãos em
igreja que atualmente conta 24
membros”.

            Movido pela promessa bíblica constante em Mateus 28: 19 e 20, os crentes Itabunenses desenvolveram aqui uma igreja que seria ícone para outros lugares do Brasil. Em 1924, o casal José Aniceto de Souza e Catarina Souza, depois de muitos anos já sabedores da mensagem, finalmente selaram sua fé em Cristo, batizando-se.

            Portanto, até 1924, com base em depoimentos e nos registros encontrados, temos: Pedro Lima (batizado em 1910 pelo pr. John Lipke), Joaquim de Souza Porto (batizado em 1910/11), Antonio Caldas, Vitória (Vitorinha) de Jesus, José Aniceto de Souza (batizado em 1924) e Catarina de Souza (batizada em 1924 – esposa de Aniceto). Certamente, muitos outros nomes existem, mas a ausência documentária só permite, até aqui, evidenciar estes seis.

            A administração da Obra, sentindo o potencial da cidade, somou esforços para realização de conferências bíblicas, em 1925, capitaneadas por Gustavo Storch, que, além de  bom conhecedor das Escrituras, tinha uma carta na manga – o projetor – como ele mesmo conta:

“num grande salão no centro da
próspera cidade de Itabuna, realizei
uma série de reuniões em que usamos
alguns slides. Estas reuniões duraram
trinta noites consecutivas e o
atendimento foi muito bom”.


            Naquele momento, poderia ele ter ficado para trabalhar com os interessados, mas, em virtude do tamanho do campo e da insuficiência de ministros ordenados, precisou sair para o  Boqueirão e depois Pontal (Ilhéus), que também precisavam de assistência. Ele lamentou o açodamento das ações assim:

“O grande erro que geralmente somos
obrigados a fazer, por falta de tempo,
é deixar o ferro quando esse já está
quente, pois no tempo de maior
interesse, tenho que sair para ir a
outra cidade”.

            Ele usou uma alegoria bastante pertinente para o momento: “preparou-se o ninho e outros estão tentando estabelecer seus ovos nele”.

            A preocupação de Storch não era sem razão. Um dia após o final de trinta noites, um suposto médico iniciou uma série de palestras, contradizendo sua fala. Diante desse fato, é possível entender a preocupação apontada no parágrafo anterior. O pastor desejou que Jesus dissesse ao falsário o mesmo que bradou ao antigo Paulo, em sua fase pré-cristã: “dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões”, retirando dele igualmente a ignorância e a cegueira espiritual”.

            O pastor Leo B. Halliwell escreveu à Revista Adventista, em 1927, falando do progresso da obra na Missão Bahia-Sergipe, e confirma a existência de diversos interessados em Itabuna, os quais estavam sendo preparados, dessa vez, pelo colportor Cyríaco Leite. O próprio Halliwell dá continuidade aos trabalhos, apresentando uma série de reuniões doutrinárias, buscando não se reeditar a incômoda situação ocorrida em 1925. Dessa  vez, a exposição da Palavra alcançou qualidade invejável e resultados satisfatórios, mexendo inclusive com alguns membros de outras igrejas evangélicas, os quais chegaram a ser excluídos  por seus líderes: “Há completamente uma comoção dos círculos religiosos da cidade, especialmente porque dois membros foram expulsos da sua igreja por ter assistido as reuniões”.


(A GÊNESE DO ADVENTISMO GRAPIÚNA Cap. 4.8.)
Clóvis Silveira Góis Júnior

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Sobre o autor:

Clóvis Silveira Góis Júnior é trineto de Genoveva França Jacó (integrante do primeiro batismo adventista realizado em Boqueirão, no ano de 1918).
Servidor público federal há 30 anos, é graduado em Administração e licenciado em história. É casado com Iara Souza Setenta Góis, pedagoga, e tem dois filhos: Felipe e João.

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terça-feira, 11 de setembro de 2018

CONHECENDO E DISSEMINANDO A MENSAGEM (VII) – Clóvis Silveira Góis Júnior


4.7. O Êxodo


            Aquela igreja foi aos poucos se esvaziando em decorrência de vários fatores, principalmente da busca por melhorias financeiras. Já em 1923, boa parte dos componentes da família França Batista se deslocara para a região de Sapucaieira (Ilhéus) em busca de desbravar as matas para introdução de agricultura de subsistência que iria permitir a introdução de víveres e consequente sustentação dos filhos e agregados. Dentre aqueles desbravadores é importante realçar os seguintes nomes: Pedro França Batista e sua esposa Ernestina França Batista; Lúcio França Batista e sua cônjuge, Maria Rosa; e José Francisco Araújo e sua companheira, Jovina França Batista. Esta evasão não deixou de minar a força adventista de Boqueirão.

            Chegando a Ilhéus, reuniram-se em locais distintos até chegar ao ambiente da atual congregação, Simiro (1923 a 1928), Itapoã (1928 a 1930) e Sapucaieira (1930 em diante).  Tendo em vista a rejeição inicial por parte dos índios nativos, as conversões locais se arrastaram de forma lenta. O templo que existe atualmente foi inaugurado em 26 de dezembro de 1970, permanecendo como grupo até 1985, quando em nove de dezembro passou à categoria de igreja. Atualmente, uma numerosa congregação aguarda o momento certo para comemorar o centenário da chegada do Adventismo à região.

            Até 1929, onze anos depois do primeiro batismo, ainda encontramos registros da permanência de igreja de Boqueirão nas publicações oficiais. O South American Bulletin, editado nos Estados Unidos, em 1929, vol.5, número 6, em nota escrita por E. H. Wilcox, demonstra também a inconstância do homem à terra, sempre em busca de melhores lugares para continuar a luta pelo sustento e manutenção da vida:

                                        “O trabalho prosperou e cresceu.  E
                                        até breve havia uma igreja de 40
                                         membros num lugar conhecido como
                                         Boqueirão. Hoje a igreja não é tão
                                         grande, pois alguns membros se
                                          mudaram para outras partes, onde
                                            hoje outras Escolas Sabatinas têm
                                            surgido. Alguns mudaram-se para a
                                             cidade de Itabuna, onde hoje temos a
                                             desenvolver um trabalho próspero”.

            João Roberto Ramos saiu da localidade na década de 30, com grande parte dos filhos e netos.

            Concomitantemente às conferências realizadas na cidade de Itabuna em 1925, o pastor Gustavo Storch realizou trabalho evangelístico no Boqueirão, quando teve “o privilégio de batizar dez preciosas almas”.

            Tempos depois , em virtude do êxodo dos irmãos em busca das zonas urbanas ou mesmo outros locais rurais que os sustentassem melhor com suas respectivas famílias, aquela primitiva comunidade de crentes foi dissipada. Nada mais restava dos tempos áureos.

            Uma jovem senhora, irmã Avelina Marques (filha de Francina Evangelista dos Santos), residente em Boqueirão, tendo adquirido um exemplar do livro O Grande Conflito, vendido pelo colportor Generoso de Oliveira, promoveu a leitura comunitária para sua família,  vizinhos e trabalhadores rurais, o que gerou novo ânimo e interesse da maioria, tendo sido reavivados os cultos sabáticos da localidade. A igreja foi reativada e adoração acontecia na residência de Anatálio Batista (filho de Pedro Batista), o qual, também, era responsável pela direção do grupo. Esta segunda leva de adventistas também deixou a região. Hoje não existe um único representante de nossa igreja no Boqueirão.


(A GÊNESE DO ADVENTISMO GRAPIÚNA Cap. 4.7.)
Clóvis Silveira Góis Júnior

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terça-feira, 10 de julho de 2018

CONHECENDO E DISSEMINANDO A MENSAGEM (VI) - Clóvis Silveira Góis Júnior


4.6  Um teste de fé

            Um episódio marcante provou a fé dos neoadventistas. Vislumbro neste caso uma semelhança com a história narrada no Segundo Livro de Crônicas, capítulo 20, quando o rei de Judá, Josafá, foi afrontado e insultado por três nações cananeias. Faço aqui rapidamente um resumo de fato bíblico e, a seguir, passarei a relatar o que aconteceu no Boqueirão.

            Moabitas, amonitas e meunitas, povos vizinhos de Judá, resolveram se unir e pelejar contra os hebreus. Um mensageiro avisa ao rei Josafá sem esconder de que se tratava de grande multidão. O monarca teve medo e buscou ao Senhor e apregoou de imediato um jejum generalizado à nação. Diante do Templo, em prece, ele clama por socorro urgente, pois o inimigo já estava a caminho, não deixando de relembrar feitos antigos quando o Eterno libertara seu povo. Confiado na onipotência de Jeová e consciente da pequenez dos judeus, o rei clamou: “Ah! Nosso Deus, acaso, não executarás Tu o Teu julgamento contra eles? Porque em nós não há força para resistirmos a essa grande multidão que vem contra nós, e não sabemos o que fazer; porém os nossos olhos estão postos em Ti”. Toda a gente ali presente, calada, esperava uma resposta, um alento, um sopro de segurança. O Espírito Santo Se utiliza do levita Jaasiel e acalenta a multidão, afirmando não ter o que temer, pois Ele próprio, Deus, se encarregaria de protegê-los e guerrear contra a tríade inimiga: “Não temais nem vos assusteis por causa dessa grande multidão, pois a peleja não é vossa, mas de Deus”. E o mais interessante foi o que Deus mandou Judá fazer, em termos militares, bélicos e em relação ao uso da força – NADA! Para ouvintes boquiabertos, o Senhor falou: “Neste conflito, não tereis que pelejar; tomai posição, ficai parados e vede o salvamento que o SENHOR vos dará... Não temais, nem vos assusteis; amanhã saí-lhes ao encontro, porque o SENHOR é convosco”. Diante de tamanha promessa, Josafá teve certeza do livramento e, ali mesmo, ajoelhando-se com a nação, adorou por meio de um louvor comunitário.

            Em ato de obediência, no outro dia pela manhã, Josafá dispôs o exército e, à frente, o coral do Templo. Entendeu que,  numa guerra, o exército, mesmo que não fosse lutar, deveria estar presente, cabendo ao povo e aos cantores o louvor. Não teriam que se preocupar senão em prestar culto por meio do louvor. A fé viva e atuante é aquela que espera no Senhor: “Tendo eles começado a cantar e a dar louvores, pôs o SENHOR emboscadas contra os filhos de Amon e de Moabe e os do monte Seir que vieram contra Judá, e foram desbaratados”. Sem levantar uma espada, Judá venceu. Sem matar um judeu, os inimigo se autodestruíram, confusos,  sem entender, inicialmente, o porquê daquele momento adverso, infausto e tormentoso. O autoextermínio foi assim retratado: “Os filhos de Amon e de Moabe se levantaram contra os moradores do monte Seir, para os destruir e exterminar; e tendo eles dado cabo dos moradores  de Seir, ajudaram uns aos outros  a destruir-se.” Assim foi o fim daqueles que tentaram incomodar os eleitos do Senhor.

            E o que a comunidade adventista do Boqueirão, o primeiro núcleo de guardadores do sábado em Itabuna, tem a ver com essa história?

            Após a aceitação da mensagem bíblica por parte de alguma agricultores e trabalhadores rurais da comunidade que se uniram à Igreja  Adventista, houve uma mudança radical na forma de se comercializar, falar, reunir e escolher amigos. Novos hábitos, bem mais sadios, foram implantados. As rotinas foram alteradas, buscando-se algo mais próximo do Criador. Conversações frívolas, festividades vãs e ajuntamentos inúteis foram deixados para trás. Talvez o conjunto disso tudo acabou provocando despeito, zanga e mal-estar em alguns vizinhos não tão crédulos e zelosos pela causa de Deus. Um temerário fazendeiro da família Badaró, que morava nas adjacências, não aceitando ou mesmo aturando aquelas inusitadas reuniões de crentes, mandou um recado para João Roberto Ramos. “Se continuassem a ocorrer as reuniões sabáticas, ele mesmo iria com seus capangas obstruí-las, utilizando se necessário da força física e das armas”.

            Em período anterior, pré-aceitação do Adventismo, João Roberto resolveria a pendenga de outra forma, pois a coragem e a bravura sempre lhes foram características congênitas. Mas agora seria diferente, entregou o problema e o insulto nas mãos divinas. Diante da afronta ele confiaria em Deus. Apresentaria seus louvores e orações Àquele que poderia livrar os devotos.

            Chegando o sábado, os membros apresentaram-se na congregação como de costume, mas foram aconselhados pelo líder que não se sentassem em seus locais habituais. O grupo foi dividido em dois: homens na frente, armados com suas respectivas  Bíblias, e mulheres e crianças nos bancos derradeiros. Orações, louvores e intercessões levantadas aos céus pedindo livramento. E assim começou o culto. Sem alterações do ponto de vista do ritual sabático.

            Mais tarde ocorreu algo que fez alterar o batimento cardíaco dos fiéis mais inconstantes. Tiros são ouvidos! Pensavam tratar-se de um aviso dado pelo algoz de que ele estaria chegando com seu bando. O que fazer? A recomendação é que se continuasse com a programação e não fosse esquecido em momento algum que a proteção vem do Senhor. Mais estampidos! Orações e louvores redobrados, então! Assim foi durante toda a programação matinal. Mas os valentões não apareceram. O que aconteceu finalmente?

            Culto realizado, toda a membresia, agradecida, retornou aos seus respectivos lares. No trajeto ou mesmo durante aquela tarde tomaram ciência do que havia acontecido. Quando o grupo ofensor se preparava para ir ao local de culto, foi surpreendido por outro bando oponente, que estava ali para acertar antigas diferenças e rixas. O grupo que se preparava para atacar foi fortemente atacado! O temerário fazendeiro não morreu em virtude de ter se refugiado num local pantanoso existente nas cercanias de sua propriedade, ficando somente com a cabeça de fora para conseguir respirar enquanto os oponentes se rivalizavam!

            Que belo testemunho de fé viveram nossos pioneiros. Não tentaram promover defesa com suas próprias forças, mas confiaram em quem os podia ajudar. Enquanto o inimigo se preparava para atacar, os fiéis, tal qual no tempo de Josafá, oravam e cantavam louvores. E a Providência encontrou um meio de socorrê-los.


(A GÊNESE DO ADVENTISMO GRAPIÚNA Cap. 4.6.)
Clóvis Silveira Góis Júnior

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sábado, 5 de maio de 2018

CONHECENDO E DISSEMINANDO A MENSAGEM (V) – Clóvis Silveira Góis Júnior


4.5 Os batismos e o amadurecimento da fé


            Finalmente, a plenitude dos tempos havia chegado para Boqueirão. No dia 26/3/1918, numa terça-feira, depois de muita lama e três horas de caminhada, o colportor e obreiro Zacharias Martins Rodrigues chegava e gentilmente foi hospedado na casa de João Roberto Ramos. Mesmo local onde eram realizadas as reuniões sabáticas. Sem demores, iniciou estudos bíblicos acompanhados por 70 pessoas. No sábado seguinte, 30/3/1918, estabeleceu a primeira Escola Sabatina com a presença de 35 adultos e 12 crianças. Todos ávidos por ouvir a mensagem bíblica. Imagino que o tema do sermão no culto divino tenha tratado da Paixão de Cristo, pois o dia anterior foi sexta-feira santa.   Todas essas atividades foram possíveis de serem efetivadas por Zacharias, mesmo não sendo ele portador de curso teológico ou ter recebido ordenação de ministro. A administração do batismo e da Santa Ceia somente poderia ser concretizada por um pastor ordenado.

            O pastor Ricardo J. Wilfart veio de Pernambuco, onde morava, para visitar o Estado da Bahia, e Boqueirão, em hipótese alguma, ficaria de fora da sua agenda. A festa batismal, envolvendo doze almas, ocorreu em oito de abril de 1918 à beira do ribeirão do mesmo nome e foi sucedida por celebração da Santa Ceia, no local das reuniões já rotineiras. Wilfart narra da seguinte forma o acontecido: “No dia 8, fomos [de trem de ferro – provenientes de Ilhéus] para Itabuna e de lá dirigimo-nos a pé para uma fazenda de cacau, denominada Boqueirão que fica a distância de três léguas de Itabuna. Era essa a primeira vez que aquele povo recebeu a visita dum  ministro do Evangelho, e batizaram-se ali 12 pessoas”. O oficiante admirou-se com o conhecimento que possuíam da Bíblia e disse que “com grande surpresa minha, notei que havia ali um grande número de pessoas já bem instruídas”.

           O  obreiro Zacharias Martins Rodrigues conta o ocorrido assim: “Este irmão [Pr Wifart] chegou no dia 5, e no dia 8 tornamos a Boqueirão, onde 12 almas receberam o batismo onde também celebramos a Santa Ceia”.

            A sede daqueles camponeses pela Água Viva (João4:14) não ficaria por aí. Outros rurícolas ansiavam pela mesma decisão. Wilfart continua seu relato dizendo que “há ainda muitos outros naquele lugar que desejam dar esse passo, mas não o fizeram nessa ocasião por motivos diversos. Se Deus nos ajudar, teremos daqui a pouco um excelente grupo de testemunhas do poder do Evangelho naquela zona”.

            Em julho do mesmo ano de 1918, o ministro retorna ao Boqueirão quando mais seis pessoas selam sua fé com Jesus por intermédio do batismo.

            Pronto! Eis estabelecido o Adventismo nestas terras! Estava constituída a segunda igreja mais antiga da Bahia. O pastor Gustavo S. Storch, quando morou neste Estado, por volta de 1922, reconheceu o pioneirismo desse centro de adoração quando o classifica dentre os povos existentes, registro incluso em seu livro Venturas e Aventuras de um Pioneiro: “já existiam alguns adventistas na Capital, no Pontal de Ilhéus, no Boqueirão (perto de Itabuna) e no alto sertão do Estado”.

            No início, a igreja consistia de parte de componentes de cinco ou seis famílias. Dentre os primeiros a receberem o batismo do Rio do Boqueirão, entre os anos de 1918 e 1919, podemos citar: João Roberto Ramos, Senhorinha Oliveira Ramos (esposa de João Roberto), Maria Ramos Lins (filha mais velha de João Roberto), Horácio Alves Lins (esposo de Maria Ramos), José Roberto Ramos (filho de João Roberto), Ana Oliveira Ramos (estudou no CAB – filha de João Roberto), Antonia Oliveira Ramos (filha de João Roberto), Genoveva França Jacó, Joaquim Alves de Melo, Rosa de Melo, Delfim Bastos,  Matilde Bastos, Lúcio França Batista, Pedro França Batista, Ernestina França Batista (esposa de Pedro França), José Francisco Araújo, Jovina França Batista (esposa de José Francisco), Josefina Jacó Ramos (filha de Genoveva e esposa de José Ramos), Francina Evangelista dos Santos e seu esposo, Vitória Preta e Maria Gracinda de Góes Melo (filha de Joaquim de Melo e Rosa de Melo).

            A congregação cresceu. O pastor Frederico W. Spies, mesmo como presidente da União Sul Brasileira dos ASD, mencionou o crescimento da obra no Nordeste, fazendo alusão ao batismo do Boqueirão assim: “Do mesmo modo que em Pernambuco, progride também a obra na Bahia. Há pouco foi batizado um número de crentes em Itabuna, no Sul deste Estado”. Já Wilfart, responsável local pelas missões, em 1918, lança loas à congregação local:

“Muito trabalho tem sido feito por 
esses fiéis irmãos, e agora se estão 
preparando para edificar uma casa 
decente para cultos, e uma escola 
paroquial; tudo isto como resultado de 
umas poucas páginas dadas, que 
continham a verdade para este tempo. 
Irmãos, espalhemos mais literatura, 
para que a seu tempo ceifemos”

            No mesmo ano. Boqueirão já aparece no quadro do relatório de dízimos do segundo semestre de União este Brasileira, juntamente com as igrejas de Pontal (Ilhéus), Genipapo, Plataforma (Salvador) e Maceió/Al.

            A membresia de Boqueirão cresceu a ponto de sua quantidade ser destaque na Missão Este Brasileira (Bahia, Sergipe e Alagoas) e, logo q seguir, Missão do Estado da Bahia (Bahia e Sergipe). O Relatório da Escola Sabatina do terceiro trimestre de 1918 acusa 33 membros assistentes. No último trimestre de 1918, o relatório já indicava 51 membros na congregação, configurando assim a maior quantidade de membros da Missão Este Brasileira, feito repetido em todo o ano de 1919, já com a criação da Missão Bahia, aumentando o número de membros para 54, mais do que o dobro da igreja seguinte, Pontal de Ilhéus, que possuía 24.

            Depois das primeiras cerimônias batismais, as atividades denominacionais foram estabelecidas de forma a se perpetuar a comunidade adventista e garantir a organização nas liturgias. Como todos eram neófitos, alguém teria que assumir a liderança da comunidade. A assistência pastoral era por demais dificultada pela ausência de ministros ordenados, bem como pela geografia avantajada do campo baiano.

            Nos anos subsequentes, até 1920, por escolha unânime, João Roberto Ramos sempre era escolhido como diretor dos cultos. Até que um fato estranho ocorre!

            Era costume se escrever, previamente, sermões doutrinários ou admoestativos em casa que, depois, seriam lidos perante a corporação nos dias de culto; ou mesmo produzir-se artigo que seria posteriormente encaminhado para publicação na Revista Adventista. Uma dessas anotações da lavra de João Roberto foi preservada, na íntegra, onde podemos hoje ter uma noção das preocupações que rondavam a mente do patriarca quando objetivava edificar sua congregação. O escrito é datado de 22 de março de 1920, o qual ele pretendia que fosse conhecido em momento oportuno, conforme se constata em suas linhas finais.

            Ele iniciou a alocução informando ao leitor da escolha dele para ficar à frente das reuniões. Em seguida, advertiu sobre os perigos de se conhecer doutrinas espúrias por meio da leitura de literatura não adventista. Certamente, pretendia manter intactos os ensinos arduamente apreendidos naquele lugar. Contou de sua ida aos Correios de Itabuna em busca de correspondências, tendo sido surpreendido por uma encomenda que não pediu, ou seja, um livro a ele endereçado. Surpreso, leu-o e refletiu sobre seu conteúdo, tomando de imediato uma decisão: “depois de ler e meditar um pouco resolvi coloca-lo no mesmo invólucro, riscar meu nome e aplicar a palavra ‘devolvido’ e tornar a colocar nos Correios onde recebi”. Vê-se aí a convicção depositada nos ensinos bíblicos por ele aceitos! Entendeu que o teor contido da  publicação poderia manchar seu cristianismo e posteriormente desviá-lo da fé, tão alegremente e persuadidamente recebida.

            No sábado seguinte, 20 de março de 1920, tornou os fatos narrados acima conhecidos por todos os seus irmãos. Pelo contexto explanado, entendeu ele que a literatura que lhe seria comprometedora lhe foi enviada exatamente numa tentativa de incutir em seu intelecto ensinos contrários àqueles que lhes seriam importantes para o exercício da liderança da congregação do Boqueirão. À igreja fez advertências quanto aos perigos de se conhecer outro evangelho senão o do Cristo Vivo: “Reunindo-se toda a congregação fiz saber a todos os irmãos estas ocorrências e aconselhei a todos que de agora em diante estivessem precavidos...”.

            O conteúdo da obra atormentou sua mente! Na madrugada de segunda-feira viveu um mau sonho. Muito atormentador foi o pesadelo! Talvez por isso deixou registrado para a posteridade. No final do seu texto ele exclama: “Caro leitor, necessitamos é orar sem cessar”!!

            Faço minhas as palavras de João Roberto! Reitero seu desejo! O que fica de aprendizado para nós, que vivemos num mundo no limiar da eternidade, é a preocupação do pioneiro em manter incólume sua vida espiritual e de sua igreja!  Seu rogo refletia sua vontade de participar de uma igreja militante, vitoriosa e preparada para se encontrar com Jesus!

            A publicação norte-americana The Youth’s Instructor de 16/11/1926, em artigo intitulado Vislumbres do leste do Brasil – Ilhéus e o cacau, assinado por H. U. Stevens, que conhecera pessoalmente a região Sul baiana, fez uma radiografia profunda da região cacaueira, não deixando de mencionar a igreja de Boqueirão.

“A maior igreja de adventistas do 
sétimo dia nesta parte da Bahia está 
localizada no Boqueirão, cerca de sete 
milhas de Itabuna, uma cidade no 
interior várias horas de passeio de 
trem  de Ilhéus. Ali temos uma igreja 
de cerca de cinquenta membros, os 
quais estão envolvidos no lucrativo 
negócio de cultivar cacau”.

            Os cultos eram realizados na residência de João Roberto e seguiam, quase em sua totalidade, os mesmos ritos atuais. Aos sábados, as crianças começavam a adoração em conjunto com os adultos até o momento do estudo da lição, quando se separavam para uma atividade paralela que lhes fosse compatível. Um único professor ministrava a lição, que na maioria das vezes estava encartada na Revista Adventista. Depois, foi ela publicada independentemente e em tamanho reduzido de 18 por 12 cm. A capa não era cartolinada, o que exigia do leitor um cuidado especial para não a danificar. As apostilas dedicadas aos infantis eram ilustradas, compostas de rolos grandes e coloridos, porém, com os versos áureos em inglês, provavelmente material ,advindo dos Estados Unidos. Cultos eram realizados, também, às quartas-feiras.

            Os sermões, alguns lidos na totalidade, cujos textos tinham sido previamente preparados em casa, eram proferidos somente pelos homens, uns cinco ou seis pregadores, o que era um número bastante significativo para o período.

            As atividades denominacionais destinadas às mulheres estavam relacionadas com a santa ceia (preparo do pão e das toalhas do lava-pés) e coparticipação na programação  da Escola Sabatina e lição dos menores. A atuação da ala feminina era maior em ações transdenominacionais, como na visitação missionária e atendimento aos doentes e carentes.

(A GÊNESE DO ADVENTISMO GRAPIÚNA Cap. 4.5.)
Clóvis Silveira Góis Júnior


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segunda-feira, 19 de março de 2018

CONHECENDO E DISSEMINANDO A MENSAGEM (IV) – Clóvis Silveira Góis Júnior


4.4. Em busca do ministro



            Em boqueirão, por volta do ano de 1915, fiéis já declinavam dos labores no sétimo dia. Liam a pouca literatura que possuíam, mas faltava-lhes alguém preparado para oficiar sermões e dirigir cerimônias e rituais cristãos. Anelavam por batismos! Queriam selar sua fé publicamente e obter o referendo dos céus! Mas como? Nunca UM PASTOR HAVIA PISADO EM Boqueirão. Depois dos folhetos, vieram colportores, mas estes não foram ordenados pela igreja para oficiar batismos. Estavam certos de que já obedeciam a Deus em tudo. Porém, tinham lido em Marcos 16:16 que “quem crer e for batizado será salvo”. Então, eles precisavam cumprir esta segunda parte. A volta de Jesus lhes parecia iminente e poderiam assim ficar fora do céu.

            A comunidade campesina do Boqueirão havia enviado cartas anunciando ao responsável interino pela Obra na Bahia a existência de interessados na localidade, mas sem sucesso. Insatisfeito com a situação, João Roberto Ramos encetou viagem a São Salvador para homologar sua salvação por meio do batismo. Imagine as dificuldades e os custos inerentes a uma viagem como essa há 100 anos. Não havia estradas carroçáveis para a capital e viagens marítimas via porto de Ilhéus deviam onerar bastante qualquer reserva financeira.

            Chegou a Salvador, inquirindo onde residiam os adventistas. Por fim, recomendaram-lhe uma Igreja Batista, onde, inicialmente, foi afavelmente recebido por quem lá se encontrava, naquele momento, fora do horário do culto: o zelador. Todas as dependências do complexo religioso lhe foram mostradas: templo, escola paroquial, salas de reuniões e o tanque batismal, onde, segundo o aplicado funcionário, João Roberto seria batizado no domingo. Aquela última palavra não soou bem para os seus ouvidos do nosso protagonista: Domingo!?

            “Que dia observam os cristãos dessa comunidade?” perguntou o irmão Roberto. Prontamente, próprio daqueles que tem o zelo missionário na veia, já certo de testemunhar mais uma conversão no próximo culto dominical, o zelador respondeu: “Guardamos o Domingo, dia da ressurreição de Cristo!” Começava naquele momento mais um embate teológico-leigo dos muitos que o fazendeiro Grapiúna iria travar em sua longa vida de cristão adventista. Fazendo uso de sua retórica e habilidade no conhecimento textual, garantiu: “Tenho lido a Bíblia muitas vezes durante os anos passados, porém nunca li que os filhos de Deus devem guardar o Domingo!”. O semblante do interlocutor decaiu rapidamente e, dando por finalizado o pequeno debate, exasperou: “Se o senhor quer ser judeu e guardar o Sábado, não deve nos procurar, mas ir procurar os sabatistas”. Provavelmente, apontando o dedo com certo desprezo para um determinado local, o zelador mostrou onde encontraria o ministro desejado. E lá se foi o dedicado irmão.

            A esperança de ver seu objetivo alcançado esmoreceu momentos depois, quando constatou a ausência do ministro por ele procurado. Não se encontrava em Salvador aquele que cerimonialmente e humanamente lhe conduziria aos pés de Cristo e Este anotaria seu nome no Livro da Vida. Na verdade, o presidente responsável pela Missão Nordeste (Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba e Pernambuco), no período de 1914 a 1920, era o pastor Ricardo José Wilfart, que morava em Caruaru/PE, e quem atendia interinamente no Estado da Bahia era o obreiro Zacarias Martins Rodrigues. Depreende-se daí que a casa apontada como residência do pastor na verdade era onde residia o obreiro e colportor Zacarias (que era considerado pelos leigos como um pastor), e este, quando escrevia algum artigo param a Revista Adventista, o fazia datando e assinando da Bahia, nome mais conhecido de Salvador à época. Ele próprio reconheceu, na Revista Adventista de fevereiro de 1918, p. 11, que estava ausente na visita que João Roberto fizera a sua casa. E, no mesmo ano, sua ausência foi justificada por meio da Review and Herald. São suas as seguintes palavras: “veio em minha casa uma série de interessados que haviam viajado longa distância do Boqueirão para Bahia, para convidar-me para ir lá. Eles voltaram, no entanto, muito desapontados, já que na época eu estava buscando outros interessados em outras partes do estado”.

            Chateado pela situação, mas não desesperançoso, magoado, mas não desiludido; abatido, mas não desanimado, retornou ao Boqueirão. Sua fé lhe sussurrava aos ouvidos que logo mais chegaria o dia em que não somente ele, mas todos os fiéis de sua comunidade mergulhariam nas águas, morrendo para o mundo secular e nascendo salvos para Cristo!

            Retornando aos seus, novas missivas são produzidas e encaminhadas ao obreiro Zacharias Martins Rodrigues. Ele responde-as alegando ausência em virtude de falta de tempo e também por questões administrativas:

“Ultimamente, recebi uma carta
destes irmãos, convidando-me que lhes
fizesse uma visita, pois, que existe ali
um bom grupo, a cujo pedido, porém,
não pude atender imediatamente por
falta de tempo e porque estava
esperando aqui o irmão Lipke”.


(A GÊNESE DO ADVENTISMO GRAPIÚNA Cap. 4.4.)
Clóvis Silveira Góis Júnior


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domingo, 18 de fevereiro de 2018

CONHECENDO E DISSEMINANDO A MENSAGEM (III) – Clóvis Silveira Góis Júnior


4.3 – Boqueirão


            A parti daqui, vou tentar reconstruir a trajetória dos pioneiros domésticos, ou seja, aqueles que, após selarem sua fé nas águas, continuaram a disseminar aqui seu cristianismo e diretamente ajudaram a formar o Adventismo que se instalou em toda a região cacaueira e sul baiana. São situações concretas do passado, colhidas da Revista Adventista e por meio do testemunho dos remanescentes dos pioneiros com quem tive contato direto.

            Em 1912, o colportor Manoel Margarido, de passagem pela região, distribuiu e vendeu literatura para fazendeiros; um deles foi Joaquim Melo. Sua família ficou interessada pelo assunto. O material é emprestado ou repassado à família de João Roberto Ramos, que se encanta com os ensinos e incorpora a mensagem ali contida, dando um passo adiante em relação aos vizinhos. Joaquim Porto também foi responsável por anunciar a boa nova àquelas pessoas por meio da página impressa. O próprio Ricardo Wilfart, administrador da obra no Nordeste, reconheceu  que “o interesse em Boqueirão foi despertado pela literatura vendida, em tempos passados, pelo irmão colportor Joaquim Porto”.

            Antes de pormenorizar um fato sucedido no Boqueirão, vou relembrar um episódio ocorrido em 1845 nos Estados Unidos, quando o Sr. James Hall e José Bates atravessavam juntos a ponte Fairhaven, no estado de Massachusetts. José Bates é tido como o pioneiro dos pioneiros entre os Adventistas do Sétimo Dia, o fundador mais interessante do Adventismo norte americano. Do grupo dos líderes iniciais, foi o primeiro a entender, aceitar e advogar o mandamento sabático. Por mais de um ano, ficou sozinho no movimento, defendendo tal ensino. Quando o Sr. James Hall, seu vizinho, passou por ele na ponte, saudou-o e fez a pergunta usual, de sempre, quando dois conhecidos se encontram: “Olá, capitão Bates! Que há de novo?”. Prontamente, carregado de zelo, respondeu: “A novidade é que o sétimo dia é o sábado do senhor nosso Deus!” (Ex. 20:10). A novidade para o ancião Bates era aquilo que mais martelava  seu intelecto! O Sábado era sua verdade  presente! E aquilo o consumia. O desconhecimento por parte de seus irmãos daquela verdade olvidada dilacerava seu interior. O Espírito Santo, agindo em sua mente e coração, impelia-o a falar daquilo que sabia ser um ensino necessário e plenamente em vigor! Diante de uma boa nova tão importante e defendida tão vigorosamente, Hall aceitou estudar o tema e em pouco tempo seria um observador do sábado.

            Imaginemos agora um encontro semelhante, só que dessa vez na América do Sul, na Bahia, no Boqueirão de Itabuna, lá pelos idos de 1910/1912, envolvendo um carpinteiro e um fazendeiro que se reuniam em suas horas de folga para estudarem o Texto Sagrado. Embora os aspectos físicos, culturais e geográficos relacionados a esses homens fossem diferentes dos norte-americanos, seus anseios espirituais eram idênticos.

            O encontro  concebido pode ter sido muito apropriadamente ocorrido num pontilhão sobre o riacho do Boqueirão, e José Aniceto de Souza, proveniente da cidade, pergunta: “Quais são as novidades, compadre?” Tal como Bates, consumido pelas descobertas bíblicas impulsionadas pelos folhetos que vizinhos lhe ofertara, prontamente João Roberto responde: “A novidade, Aniceto, é que o sábado é o  sétimo dia, e que precisamos observá-lo!”.

            A rapidez do momento não permitiria maiores delongas, mas um encontro mais pensado e demorado fora marcado para mais tarde, à noite, quando Aniceto poderia acalmar seu espírito atordoado e surpreso com aquela história.

            Mais tarde, naquele dia, os ripões, tábuas e martelos foram abandonados mais cedo por parte de Aniceto. Com certeza, a empreitada da nova barcaça seria atrasada, pois ele teria algo mais importante a buscar e realizar. Ele, munido de uma Bíblia que lhe fora presenteada por amigos da Igreja Batista em Itabuna (ainda existe e está em posse de parentes no Rio de Janeiro), apressara-se para o encontro que mudaria sua vida,  de seus familiares e da cidade que o abraçara em 1905, depois que saiu de Campo Formoso, em busca de dias melhores. E aquele seria, talvez, o melhor de seus dias.

            Na sede da fazenda Pacífica, o patriarca João Roberto Ramos, impaciente, esperava a chegada do amigo. Os facões, enxadas, caçuás e animais foram guardados, também, mais cedo do que de costume. Os afazeres agrícolas foram celeremente terminados naquele dia, e a atenção e educação dos seus oito filhos ficariam na responsabilidade única de sua esposa, dona Senhorinha Oliveira Ramos.

            Os textos já estavam marcados (também numa Bíblia adquirida por intermédio dos batistas Itabunenses), as anotações e folhetos sabatistas todos arrumados sobre a mesa. Somente a cabeça do fazendeiro estava um tanto desarrumada, em face de sua ansiedade momentânea. Com certeza, o encontro iminente e o estudo conjunto com Aniceto iriam definir o aprendizado daquilo que pautaria sua vida, de sua família e da futura Igreja Adventista que surgiria na região. Não somente Itabuna, como Ibicaraí e Floresta Azul, sofreriam as consequências daquele encontro e dos muitos que ainda ocorreriam!

            Aniceto vivia situações financeira e física  diferentes das vividas por João Roberto. Sua saúde não era das melhores, nem as economias domésticas. Provavelmente, o mal de Parkinson que o vitimaria já apresentasse alguns sinais degenerativos. Sua família exibia uma pré-divisão, exatamente em virtude de fatores religiosos, pois seu filho Sinphrônio de Souza começou a namorar uma jovem de família batista, o que levou Aniceto a buscar qualquer passagem bíblica que embasasse a guarda do Domingo. Não encontrando o pretendido e imaginado texto, discussões sérias ocorreram entre os dois. tinha dificuldade também em aceitar as proibições bíblicas em relação a algumas carnes consideradas imundas. Desde sua chegada em Tabocas, já havia frequentado cultos com os irmãos presbiterianos e com os batistas. Depois dos encontros com João Roberto, as coisas pareciam mais claras, conforme ele mesmo já havia descoberto em alguns versículos bíblicos. Mas a cisma familiar acabou adiando um pouco sua decisão de batismo.

            Aquela reunião foi fundamental para iniciação da propagação da tríplice mensagem angélica em Itabuna. E outros encontros advindos semelhantes, promovidos e participados por aqueles dois pioneiros, produziram a gênese da Igreja Adventista atual.

(A GÊNESE DO ADVENTISMO GRAPIÚNA Cap. 4.3.)
Clóvis Silveira Góis Júnior
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Sobre o autor:
Clóvis Silveira Góis Júnior é trineto de Genoveva França Jacó (integrante do primeiro batismo adventista realizado em Boqueirão, no ano de 1918).
Servidor público federal há 30 anos, é graduado em Administração e licenciado em história. É casado com Iara Souza Setenta Góis, pedagoga, e tem dois filhos: Felipe e João.

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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

CONHECENDO E DISSEMINANDO A MENSAGEM (II) – Clóvis Silveira Góis Júnior

4.2. Os Primeiros Batismos

            A mensagem-semente caiu em boa terra e um grupo residente na região do Boqueirão e outro na cidade de Itabuna foram os primeiros a conhecer e aceitar a verdade acerca do Sábado e a Volta de Jesus, em contato direto com os obreiros, ou indiretamente, por intermédio da literatura. O South American Bulletin – vol. 6, número 6, publicado nos Estados Unidos em 1929, em notícia assinada por W. H. Wilcox, concluiu que “alguns anos atrás, uns colportores fiéis entraram no distrito de Itabuna [Tabocas] para vender os nossos livros cheios da mensagem. Enquanto eles trabalhavam, oravam e diziam ao povo do grande plano da salvação e corações foram tocados.” Do ponto de vista espiritual, nada pode resistir à tríade dos céus: mensagem, trabalho e oração!

            A cidade de Itabuna, em 1910, três meses após sua emancipação, recebe oficialmente a mensagem adventista. O pastor John Lipke, já residindo em Salvador, promoveu aqui uma campanha de colportagem, pois a igreja objetivava crescer para o norte do país, e viu em nossa cidade um local interessante para o intento: “Lipke se mudou para a Bahia, no Nordeste do Brasil, onde evangelizava e vendia literatura”

            Os resultados foram alvissareiros! Lipke conta:

            “Enviamos os irmãos Queiróz e Pedro
            Baptista para Itabuna... onde o Senhor
            os abençoou fartamente  nas vendas de
            nossos livros... muitos  foram
            vendidos”.

            Finda a campanha, duas pessoas são batizadas por ele: Pedro Lima e Joaquim de Souza Porto.

            De Pedro, não se sabe praticamente nada, além de uma única nota na Revista Adventista, edição de setembro de 1911. Recebeu instruções teóricas e práticas de Queiróz  e Batista, tendo, logo em seguida, adentrado na colportagem. Já conhecia, inclusive, a verdade acerca do sábado desde 1908, mas, como não havia outros crentes sabatistas em Itabuna, não se uniu a qualquer outra congregação. A oportunidade de sua vida surgiu quando da chegada dos colportores. Lipke afirma que: “quando tomou conhecimento nosso e ouviu que guardamos o sábado, resolveu ser um membro da nossa igreja”

            Dele foi dito que se dedicou à colportagem, e nada mais. Desapareceram seus registros. Existe uma lacuna acerca de sua pessoa e dos rumos de sua missão. De todos os idosos adventistas ainda vivos no eixo Itabuna e Ilhéus, ninguém tem qualquer informação a prestar sobre sua pessoa. Produziram frutos suas vendas e atividades? Onde estão seus descendentes? Continuam nas fileiras do evangelho? Continuou Pedro a andar na fé? Cento e seis anos se passaram e, provavelmente, quando mais a vida correr pelos trilhos da História, menor a probabilidade de conhecermos a sua biografia. Fica seu nome como o pioneiro dos pioneiros, o primeiro de uma dezena de milhar daqueles que se submeteram ao batismo em águas grapiúnas. Em relação a Joaquim Porto, pela sua proeminência no Adventismo local e nacional, dediquei-lhe um capítulo inteiro.

            A seguir, transcrevo parte do que foi divulgado pelo periódico mensal adventista naqueles tempos idos. Acerca de Pedro Lima, John Lipke escreveu: “No fim do mês de outubro [1910] visitei os irmãos de Itabuna... No dia da minha partida batizei dois irmãos... Um destes, Pedro Lima, consagrou-se ao serviço de colportagem e já vendeu um bom número de livros”. Em relação a Joaquim Porto, ele próprio afirmou: “Fui batizado em outubro de 1911 [1910] na cidade de Itabuna, no estado da Bahia, entrando para a colportagem em fevereiro de 1912...”.

            Depois da boa receptividade da cidade em relação à literatura, bem como dos resultados quase que imediatos, implicando dois batismos, Lipke teve que retirar-se para acompanhar novos empreendimentos evangelísticos. Um bom grupo de indivíduos ficou motivado em continuar os estudos. “Em Itabuna, havia mais de 15 almas interessadas, quando tive de partir dali”. Deixou o colportor evangelista Camilo José Pereira para “desenvolver mais interesse”.

            A Review and Herald, datada de 28 de março de 1912 divulgou que, em Itabuna, algumas pessoas começaram a guardar o sábado: “A verdade está se espalhando rapidamente neste campo [Missão Este Brasileira]... Recentemente, através de nossos colportores surgiram interessados na parte Sul da Bahia... e alguns começaram a guardar o sábado, em Itabuna...” Uma provável alusão a Pedro Lima e Joaquim de Souza Porto e àqueles outros 15 interessados.

(A GÊNESE DO ADVENTISMO GRAPIÚNA Cap. 4.2.)
Clóvis Silveira Góis Júnior

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“Dentre as 1.783 cidades do interior do Nordeste, Itabuna detém a maior, quantidade de adventistas. Qual o segredo para tamanho vigor? Por que o Evangelho semeado pelos adventistas encontrou um terreno tão fértil? Que grupo de pessoas começou essa obra? De onde vieram? Que motivações tiveram? Como atuaram para estabelecer uma comunidade tão vigorosa?

Estas questões motivaram o autor a escrever este livro.

O momento atual exige a produção de uma publicação que materialize e torne conhecida a história do Adventismo em Itabuna.

O objetivo da obra é resgatar o período mais primitivo do movimento (1910-1960). O estágio mais recente de nossa história não será tratado neste momento.

O presente material não pretende ser conclusivo ou exaustivo, mas uma pequena contribuição para que uma pesquisa mais intensa  e apurada seja realizada.”


(Contracapa do Livro)

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sábado, 25 de novembro de 2017

CONHECENDO E DISSEMINANDO A MENSAGEM – Clóvis Silveira Góis Júnior

4.1.  A Era dos Colportores


            O primeiro adventista do sétimo dia a pisar em Itabuna foi um colportor! A palavra colportor tem origem no idioma francês colporteur, que significa vendedor ambulante, aquele indivíduo que negocia de porta em porta, através de cidades diversas. O colportor bíblico, portanto, é aquela pessoa que vende ou distribui literatura de origem sagrada. No período da disseminação inicial do Adventismo, o Brasil era uma nação quase totalmente rural ou composta de cidades diminutas que não possuíam livrarias e com agências de correios precárias. Adquirir uma literatura não católica ou mesmo uma Bíblia fora das capitais era tarefa praticamente impossível. Estava criado, portanto, um campo de atuação perfeito para os colportores. As primeiras igrejas protestantes deles se utilizaram largamente para produzir a difusão da fé cristã.

            Eram, em sua maioria, pessoas sem preparo acadêmico e de origem humilde, porém destemidos e com bom conhecimento bíblico. Não eram trabalhadores assalariados, sobreviviam dos ganhos advindos das suas vendas. O lucro acabava sendo pequeno, pois precisavam arcar com despesas de transporte e hospedagem e, o que sobejava, desprendiam para o sustento da família, invariavelmente residentes em locais distantes. O sucesso para eles estava mais diretamente ligado às conversões resultantes da literatura vendida do que propriamente com a receita obtida.

            Durante a primeira fase da implantação do Adventismo no Brasil, os colportores foram decisivos, pois eram os principais obreiros, tendo em vista a insuficiência de pastores ordenados. O termômetro denominacional chamava-se colportagem. Quanto mais literatura era vendida ou distribuída, a liderança de igreja sabia que estava ocorrendo um interesse maior na mensagem e um consequente crescimento numérico de membros. “Entre os líderes adventistas, era considerado praticamente um axioma que a distribuição de literatura denominacional consistia numa pré-condição para o crescimento da Igreja”.

            Os colportores vendiam livros, distribuíam folhetos, davam estudos bíblicos, estabeleciam postos de pregação, faziam conferências bíblicas e formavam congregações. O pastor Clarence Emerson Rentfro, que passou oito anos no Brasil, tendo sido inclusive presidente da Missão Minas Gerais, período em que batizou mais de quatrocentas pessoas, afirmou num Concílio nos Estados Unidos, em 1924, que “os colportores eram os principais  responsáveis pelas conversões.” No mesmo evento, W. H. Williams (tesoureiro da Divisão Sul Americana), corroborando a afirmativa, avaliou que, “dois de cada três membros da União Este Brasileira haviam entrado para a igreja por causa da colportagem”. O evangelismo por literatura foi um fenômeno importantíssimo para o crescimento de igreja no Brasil.

            Possuíam um labutar muito difícil. Locomoviam-se das formas mais inusitadas para chegar ao destino desejado, muitas vezes a pé ou em lombo de mulas ou burros. Às vezes à noite, sob lama intensa ou por locais ermos. Os livros produziam  carregamento de transporte complexo. Eram profundamente pesados, mas ao mesmo tempo frágeis, os quais deviam chegar ao endereço final em boas condições. Isso demandava muito esforço físico e responsabilidade dobrada. Dormiam muitas vezes ao relento, ou em estalagens precárias, não poucas vezes sujeitos às pulgas, percevejos e ácaros, próprio de lugares com poeira e humidade. Sem falar na dificuldade em conseguir alimentação saudável e condizente com os ensinos constantes da literatura que socializavam,

            Outro grande obstáculo, este diretamente ligado ao objeto comercializado, era o analfabetismo. Como oferecer livros a uma população em que poucos sabiam ler? F. W. Spies, um dos primeiros missionários a chegar ao Brasil (1896), retrata a situação com a qual se deparou no final do século XIX: “O povo aqui é pobremente educado, não mais do que 15 por cento da população é capaz de compreender o que lê”.

            A mensagem bíblica adventista teve acesso ao Sul da Bahia, mais precisamente a Itabuna, primeiramente por meio dos colportores evangelistas que passavam rotineiramente por aqui. Há notícias esparsas disso já no ano de 1905. O crescimento rápido da população local, o aumento da circulação de dinheiro advindo do plantio e comercialização do cacau e a proximidade do porto de Ilhéus justificavam a presença deles. Durante o Juízo Milenar, teremos a oportunidade de folhear o Livro Memorial e constatarmos boquiabertos o que fizeram por esta região nomes como Manoel Margarido, Francisco Fernando Lobo Queiroz, Pedro Baptista de Mello, Camillo José Pereira, Joaquim de Souza Porto, Zacharias Martins Rodrigues e Generoso de Oliveira.

(A GÊNESE DO ADVENTISMO GRAPIÚNA Cap. 4.1.)
Clóvis Silveira Góis Júnior

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        Ao começar a ler este livro, “A Gênese do Adventismo Grapiúna”, o leitor é levado a entrar em contato com os fatos históricos relacionados à colonização da região cacaueira e à fundação de Itabuna, para em seguida conhecer os principais acontecimentos e personagens responsáveis pela implementação da igreja Adventista do Sétimo Dia na cidade.
          Com linguagem simples e acessível, o autor, Clóvis Júnior nos envolve num roteiro fascinante, fruto de um incansável trabalho de pesquisa, que nos permite conhecer toda a trajetória de fé e determinação dos pioneiros, desde o final do século XIX até o ano de 1960, data da inauguração da atual sede central da igreja em Itabuna.

          Graças à iniciativa do autor, a nossa comunidade adventista dispõe agora deste livro-documento, com registros e fotos do início da história do Adventismo na região. Ao término da leitura, certamente o leitor irá compreender porque Itabuna é a cidade do interior com o maior número de adventistas da região Nordeste do Brasil. (1ª orelha do Livro)

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