Total de visualizações de página

domingo, 19 de março de 2023

A História na Travessia de Gerações

Cyro de Mattos


 

              A história caminha e avança na sua travessia através de gerações. Conceito importante da História, pode ser considerado como o ponto  em torno do qual  executa seus movimentos e manifestações. Tal geração afirmar-se-á se conseguir formar uma corrente, movimento ou tendência  de pensamento marcante no progresso social, nos costumes civilizacionais, nas políticas culturais ou na educação literária dos indivíduos. O grau de combatividade de uma geração está naturalmente na dependência do estado atual das coisas  com relação ao momento em que se afirma o desejo coletivo de mudança.

         Seja qual for a importância que se atribua ao tema e ao conceito preconizado, a noção de geração pode levar a pressupor, de modo equivocado,  que as gerações se sucedem de forma horizontal no curso da história. Na verdade pertencem à mesma geração, como é comum,  indivíduos nascidos próximos e dotados de afinidades culturais. Pode ocorrer que indivíduos pertençam a várias gerações numa mesma época. Ou acontecer discrepância  de idade e nem por isso  deixam de situar-se  na mesma geração, como no caso de Machado de Assis,  nascido em 1839, e Aluizio Azevedo, em 1857.

           Quando um homem nasce, se vê numa circunstância concreta, em que tem de viver e que é social em uma de suas dimensões, por consequência  histórica. Nos passos de Ortega e Gasset, o filósofo Julián Marias admite  que  a geração não é um conceito biológico e sim histórico porque decisivo não é  a idade biológica que cada homem tem, mas, sim,  sua inserção numa determinada dimensão de mundo. Não se desprezando o fator biológico,  releva-se    a importância do ser histórico correspondendo ao seu lugar e à sua época. Geração seria  um conjunto de indivíduos  pertencente a vários grupos de idade ou não, portadores de conteúdo determinado e cujas atividades, anseios,  tendências, perspectivas  e alcances norteiam-se no sentido de uma afirmação, que é a  sua afirmação geracional.

          

          Conforme Julián Marias:


 O homem está vinculado a uma circunstância determinada, a um aqui e um agora em que lhe coube viver. Sua historicidade é um modo de cativeiro ou servidão; ser é ser isto e não aquilo, viver é estar numa circunstância e nela fazer determinadas  coisas com exclusão de todas as outras. Mas, como no homem atuam as demais circunstâncias em que já esteve e tudo aquilo que lhe aconteceu e que ele fez, só quando se conhece isto  se pode tomar posse de si mesmo, se é dono de si mesmo e por conseguinte se é livre. O homem se evade de sua historicidade mediante  a história como saber, isto é, se afirmando radicalmente nela.”

          

           Adiante, ele acrescenta:

 

          “A história permite ao homem transmigrar hermeneuticamente de sua circunstância para outras, e dessa maneira as fazer suas; só com a história toma inteiramente posse de si mesmo e sai da estreiteza de sua circunstancialidade e das interpretações tradicionais recebidas, para alcançar a própria realidade, além de todas as interpretações. Só com a razão histórica – com a razão que é a própria história – pode o homem dar a razão de si mesmo e projetar livremente sua vida pessoal, a partir de sua realidade originária e irredutível. A história, o órganon da autenticidade. (Introdução à filosofia, p. 342).

 

            A geração seria assim  a unidade concreta da cronologia histórica autêntica.

            Pelo exposto, a realização da vida nos remete a duas faixas  de questões: o horizonte histórico de nosso viver e o fundo pessoal de nós mesmos, configurado pelo fato da vocação. É a travessia com a nossa vocação, idêntica aos que pertencem ao grupo de indivíduos, que incide em nossa afirmação e faz da vida humana individual um acréscimo importantíssimo em nosso destino de seres gregários, entre o pensamento e o sentimento, atributos que são pertencentes a nós mesmos.  

           Na travessia de gerações baianas não se pode deixar de ser considerada a Geração Revista da Bahia. Sucedeu à fulgurante geração de Glauber Rocha, o fundador do Cinema Novo. A órbita de atuação da Geração Revista da Bahia foi a literatura e outros campos do conhecimento humano, como o cinema e as artes plásticas.  

            Com a dispersão da talentosa geração de Glauber Rocha, em 1964, outras gerações iriam despontar nos meios culturais de Salvador. A chamada Geração Revista da Bahia acontece nessa épocados de 1960. Seus jovens integrantes já demonstravam ser possuidores de certo instrumental crítico para a discussão dos temas literários e culturais.

            Este articulista fez parte da Geração Revista da Bahia, ao lado de  Alberto Silva, Marcos Santarrita, Ildásio Tavares, Ricardo Cruz, Adelmo Oliveira, Oleone Coelho Fontes, Fernando Batinga, Fernando Kraychete, o desenhista Nacif Ganem e o artista plástico Francisco Liberato, entre outros. Todos nós, iniciantes no fazer literário e na divulgação da cultura,  liderados pelo crítico e poeta Carlos Falck, o guru espiritual  do grupo, pretendíamos deixar nossa  impressão digital  no contexto literário e cultural da época. Alguns, como Ildasio Tavares e Marcos Santarrita, romperam tempos depois as fronteiras estaduais porque de fato elaboraram  uma obra significativa  no corpo do Brasil literário.   

          Geração Revista da Bahia. Levava esse nome porque o corpo redacional da  Revista da Bahia, órgão cultural da Imprensa Oficial, era formado pelos jornalistas Alberto Silva e Marcos Santarrita. A revista emprestava seu nome para denominar uma geração de promissores escritores e protagonistas culturais. Recebia em suas páginas colaborações desses novíssimos  intelectuais, contistas, poetas, ensaístas e desenhistas,  que tinham nos ombros o peso de susbstituir a  inquietante geração de Glauber Rocha,  a qual   havia sido dispersa pelo regime  militar de 64.  Era tarefa difícílima a de  uma geração constituída de jovens intelectuais substituir com o mesmo brilho aquela outra liderada pelo criador do Cinema Novo, que deixou pontos elevados na progressão da vida cultural de Salvador de Bahia.   

            Sempre com o apoio dos dois diretores da Imprensa Oficial, Germano Machado e José Curvelo, a Revista da Bahia foi para os artistas da geração 60, segundo Juarez Paraíso, responsável pela direção artística, o que significou os cinco números da revista Cadernos da Bahia, 1948, 1952, para os primeiros modernistas. Com Juarez Paraíso, a revista passou a ter um planejamento gráfico mais solto e moderno. Os números que foram lançados sob a sua responsabilidade artística foram enriquecidos com reproduções e ilustrações dos artistas Antônio Rebouças, Jamison Pedra, Hansen Bahia, Ângelo Roberto, Edsoleda Santos, Nacif Ganem, Manoel Araújo, Leonardo Alencar, Henrique Oswald, Riolan Coutinho, Edízio Coelho, Betty King, Francisco Liberato, Calazans Neto, Juarez Paraíso, José Maria, Sílvio Robatto, Genaro de Carvalho, Carlos Bastos, Raimundo Oliveira e outros.

          Considerando a idade biológica e afinidades culturais, o  elenco de intelectuais que formava a  Geração Revista da Bahia  pode ser ampliado  com os nomes de Luís Carbogini Quaglia, louvado contista do mar, Maria da Conceição Paranhos, poeta e ensaísta, Fernando Ramos e Guido Guerra, promissores romancistas,  José de Oliveira Falcón, o poeta de Canudos,  os cineastas Orlando Sena e Olney São Paulo e  o poeta Capinan.                                                                                                                                                       

            Na visão do ensaísta Cid Seixas, o mais importante lançamento de poesia na Bahia, no período compreendido entre 1964 e 1974, aconteceu com o livro ABC-reobtido, de Maria da Conceição Paranhos. O discurso da jovem poeta, com bases em pesquisa e   atualização estética, rejeitava os limites de certa retórica ornamental. Outro jovem intelectual baiano que desponta nas letras daquele período é Guido Guerra. Escritor de formação jornalística, ele trazia para a sua prosa de ficção os atritos e rupturas do homem cotidiano.

                A geração Revista da Bahia enfraqueceu com a ida de Alberto Silva, moderno crítico de cinema  e jornalista de um texto primoroso, para o Rio de Janeiro, em 1967, e logo a seguir a de Marcos Santarrita. Junta-se a isso o falecimento de Carlos Falk. Fui  para Itabuna onde exerceria a advocacia durante muitos anos. Permaneceram  em Salvador aquelas outras jovens vozes vocacionadas  para fazer da vida um consistente projeto literário e cultural.  

             Os sobreviventes da Geração Revista da Bahia dispersos,  sem contar com a força aglutinadora de Carlos Falck, presenças importantes de Alberto Silva e Marcos Santarrita,  já não tinham a mesma motivação para se encontrar  na Biblioteca Pública, localizada na Praça Tomé de Sousa,  nos botecos e bares da Rua da Ajuda, durante noites de sábado, na livraria Civilização Brasileira, na rua Chile, em final de tarde,  por onde toda a cidade passava na semana. 

            Quando então se discutia as questões de literatura atual, muitas vezes com veemência,  em torno de Kafka, Sartre, Brecht, Pessoa, Proust,  Joyce e Faulkner. Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Adonias Filho. Drummond, Jorge de Lima e Cecília Meireles. Era questionada a problemática social do indivíduo através do pensamento de Ortega y Gasset, Marx e Lukacs. A geopolítica do Brasil através dos estudos de Josué de Castro, a formação da família patriarcal brasileira com Gilberto Freire ou a evolução política do Brasil sob o método dialético marxista de Caio Prado Junior.

 ---------------

Cyro de Mattos é ficcionista e poeta, publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha, Dinamarca e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro das Academias de Letra da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

 * * * 

sábado, 18 de março de 2023

O JARDIM DA PREFEITURA 

Por: Cláudio Apê Alves Freire.


 


Hoje, acordei mais nostálgico como de costume, retrocedi aos anos 60 e me deixei estar no jardim da antiga prefeitura de Itabuna: o famigerado Jardim da Prefeitura! 

Naqueles anos dourados, quando ainda adolescente, aquela legendária praça, era o point da juventude, onde tudo acontecia alusivo à paquera e modismos da época. Os dias de sábado e domingo, no turno da noite, funcionavam como uma apoteose dos acontecimentos semanais.

Entretanto, a preparação para aqueles momentos encantadores e prolíferos, já que muitos frequentadores constituíram famílias a partir dali, tinha seu start já na enfadonha segunda-feira, como se fosse um ritual.

 A expectativa era gradativa, à medida que os finais de semana se aproximavam. Preliminarmente, era preciso ter a “mina” já em vista. E, em caso de reciprocidade da garota, se desse mole ou bola, conforme terminologia da época, nada de titubear logo na abordagem, o papo tinha que ser fluente e interessante, para não ser tachado de porre. Para isso, ensaios eram fundamentais, a fim de se evitar vexames de última hora e expor a temida timidez. A aparência, também não podia ficar em segundo plano. As diretrizes e bases da paquera sempre preconizavam roupas da moda. Por exemplo: uma calça Lee, comprada na“ Ilha dos Ratos” em Salvador ou mesmo uma Topeka comprada nas Casas Sales ou em J.Rihan (de jovens e bons artigos) ,  combinadas com uma camisa de anarruga e uma botinha Calhambeque; caíam muito bem.  Perfume, sim, sempre ao gosto do usuário, podia ser o “Lancaster” ou a “English Lavander”.  Enfim, tudo tinha que ser criteriosamente programado, já que a concorrência era sempre acirrada, principalmente com os playboys oriundos de outras plagas, como Ilhéus, Salvador ou do sul do País.

Mas, voltemos ao nosso cenário, Jardim da Prefeitura. Conforme dito, nos finais de semana, o desfile, sempre em círculos horários ou anti-horários, de acordo com o flerte, começava pontualmente às 20 horas e terminava, para as moiçolas sob rigorosas vigilâncias dos pais, impreterivelmente, às 22 horas, sob pena de serem submetidas à “brados retumbantes” e castigos pela desobediência. Para aqueles mais libertos, que podiam ultrapassar o horário “regulamentar” ou quando soltavam o “Homem nu” na praça, conforme de praxe, eram disponibilizadas duas emblemáticas programações as quais, às vezes, adentravam a madrugada do dia subsequente. 

A primeira, para os que tinham carro, era sintonizar a Rádio Mundial do Rio de Janeiro e ouvir a todo volume o programa intitulado, “Ritmos de Boite”, apresentado pelo precocemente falecido DJ Newton Alvarenga Duarte , o Big Boy. No programa, o DJ apresentava os sucessos de cantores e famosas bandas da época, como: Johnny Rivers, George Benson, Scott McKenzie, Beatles, Rolling Stones, The Mamas and The Papas, Herman’s Hermits , The Cowsills e outros.

A segunda programação, após o desfile do jardim, era a domingueira dançante do Itabuna Clube. Nesta, ao som dos conjuntos (como se chamava à época) Lord Ritmos, Os Grapsons e Joel Carlos, os casais se exibiam na dança dos mais diversos ritmos. Entre esses pares, destacavam-se os irmãos Humberto e Simone Netto, dando “calientes” shows nas músicas caribenhas; os irmãos Biró e Vera Apê, nos twist; Duduca Paixão e as mais diversas parceiras, no rock n’roll; e, Ceiça Sá e Gilsinho Rodrigues, nos boleros deslizados no bem cuidado salão encerado com cera Parquetina. Tudo isso ocorria, sob o vigilante olhar do rigoroso gerente do clube o Sr. Jacinto, que ao vestir algumas calças pouco compatíveis com a sua compleição física, ficava numa dúvida atroz: não sabia se reclamava dos casais que dançavam excessivamente coladinhos ou se ajeitava, as suas frouxas calças, colocando-as no prumo devido. Verdadeiro dilema, coitado!

Hoje em dia, apesar da praça ainda existir (Praça Olinto Leone), os points para esses fins mudaram de localização, principalmente com o advento do shopping center aliado às mudanças comportamentais dos jovens dos tempos modernos.

Entretanto, os programas citados, assim como outros (cinemas, teatros, piscinas do GTC e as lindas praias da vizinha cidade de Ilhéus) da então progressista cidade de Itabuna dos anos 60, preenchiam o tempo e os anseios dos jovens da terra, sem nada dever às grandes metrópoles do Brasil. Daí, a imensa saudade que todos os atores juvenis sentem daquela época de plena e irrestrita felicidade. Por isso é perfeitamente justificável esse meu acesso nostálgico neste dia, por saber que tudo alusivo àqueles tempos dourados, se iniciava na querida e saudosa praça do JARDIM DA PREFEITURA.

* * *

quinta-feira, 16 de março de 2023

NOTA DE UTILIDADE PÚBLICA  


Depois dos 60 anos, pode-se experimentar muitos tipos de doenças.

- Mas, o que mais me preocupa é a doença de Alzheimer.

- Não apenas porque eu não poderia cuidar de mim mesmo, mas,  porque isso causaria muitos inconvenientes para os membros da minha família.

- Um amigo médico ensinou a outro amigo, um exercício com a língua que é eficaz para reduzir o aparecimento da doença de Alzheimer, e esse exercício também é útil para reduzir e melhorar:

1 - Peso corporal

2 - Hipertensão

3 - Coágulo sanguíneo no cérebro

4 - Asma

5 - Miopia

6 - Zumbido no ouvido

7 - Infecção na garganta

8 - Infecção do ombro / pescoço

9 - Insônia

 

Os movimentos são muito simples e fáceis de aprender. Todas as manhãs, quando você lavar o rosto, na frente de um espelho, faça o seguinte exercício:

- Estique a língua e mova-a para a direita e depois para a esquerda por 10 vezes seguidas.

- Desde que ele começou a exercitar sua língua diariamente, houve uma melhora na retenção de seu cérebro.

- Sua mente ficou clara e produtiva, e outras melhorias aconteceram

- 1 Ver melhor de longe

- 2 Sem tonturas

- 3 Maior bem-estar geral

- 4 Melhor digestão

- 5 Pouca gripe 

- 6 Ele se sente mais forte e mais ágil.

 Notas:

- O exercício da língua ajuda a controlar e prevenir a doença de Alzheimer.

A pesquisa médica descobriu que o exercício tem uma conexão com o grande cérebro.

Quando nosso corpo se torna velho e fraco, o primeiro sinal que aparece é que a nossa língua fica rígida, por isso tendemos a mordê-la.

- Ao exercitar a sua língua, você estimulará o seu cérebro.

Cada pessoa que recebe este boletim informativo deve repassar, para  ajudar a combater a doença de Alzheimer e melhorar qualidade de vida das pessoas e acabar com tremores nas mãos e pernas.

 

Vivendo e aprendendo. Compartilhe!

(Recebi via WhatsApp, sem menção de autoria)

* * *

O espelho biseautê

Ignácio de Loyola Brandão

 


Para Paulo Caruso, amigo de uma vida. Abri o e-mail de Raquel Naveira, escritora mato-grossense, veio uma poética crônica. Ela, assim que publica na sua terra, envia aos amigos. Fui atraído pela frase: 'Restaurou a antiga penteadeira, com o espelho de cristal bisotado e a banqueta de couro, que ficava no quarto dela, a sua mãe'. Bisotado. Há quanto, quanto tempo não lia, sentia, esta palavra?

Vi dona Maria do Rosário, diante da penteadeira - também se dizia psyché - com espelho bisotado, às vezes chamado de bisotê. Depois, Fanny Marracini ensinaria que em francês é biseauté. O que significava? Por mais que olhasse para o espelho, não entendia, só via mamãe feliz. Papai me dizia, 'não sei o que é, mas sua mãe quando se senta na penteadeira, fica tão bonita'. Seria o biseautê? Mas o que era aquilo?

Perguntava, não respondiam. Desconfiei que não soubessem, ou fosse coisa que criança não podia saber. Quantas vezes eu entrava na sala, todos murmuravam 'tem criança' e se calavam.

Custava me explicarem o que era biseautê? Ou bisotado? Essa coisa que fazia mamãe bonita, feliz quando saía para o cinema, para a reza na matriz, para uma festa? Mal ela saía, eu ia para o quarto e ficava a olhar para o espelho, para meu rosto, a fim de saber se eu estava mudado, era mais bonito. Não, não estava, era feio. Esquisito, me condenavam.

Um dia, percebi que na margem do espelho havia um pequena região diferente. Um mínimo rebaixo. Chanfrado, disse vovô Vital. Quando me olhei nele, me vi bonito. Somente naquela moldura. Assim descobri o que era biseautê. Beleza. Cada vez que entrava no quarto, me olhava naquele estreito território, onde eu era bonito. Seria o mesmo com mamãe?

Um dia, vi mamãe pentear o cabelo, passar ruge, apanhar uma bola de vidro com quatro letras, Coty, passar o perfume, meu pai entrou: 'Você está mais linda do que nunca!'. Seria também aquele perfume?

Um dia, dia mais horrível, a funcionária que ajudava na faxina deixou cair o cabo do escovão que dava brilho no assoalho, e o espelho partiu-se em mil. A dor de mamãe. 'Meu espelho, me fazia tão linda.' Ajudei a pegar os cacos, encontrei pedaços do bisotado. E se eu guardasse um pedacinho dele, poderia mudar minha cara quando estivesse sozinho? Mudando a cara, as meninas da classe sorririam para mim, afilhado dono do bar me daria um naco do lanche dela, tão apetitoso. Um dia, a professora leu minha redação, chamava-se composição, e disse: 'Nota cem. A melhor redação do ano. Quero que todo mundo leia para saber como se faz'. Tirei meu espelho do bolso, olhei, ouvi: 'Você é o menino mais bonito da classe', dito pela Neuce, irmã da professora Lourdes.


É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'.

O Estado de S. Paulo, 12/03/2023

 

https://www.academia.org.br/academicos/ignacio-de-loyola-brandao

---------------

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

* * *

terça-feira, 14 de março de 2023

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: 14 DE MARÇO - DIA DE CASTRO ALVES

NAVIO NEGREIRO

Tragédia no mar



I

’Estamos em pleno mar. Doido no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm, cansam
Como turba de infantes inquieta.

’Estamos em pleno mar. Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro.

’Estamos em pleno mar. Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dois é o céu? qual o oceano?

’Estamos em pleno mar. Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas.

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode Nesta hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar, em cima — o firmamento!
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doido cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
Às vagas que deixa após.

Do espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga iônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu,
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais, não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí? Que quadro de amarguras!
Que canto funeral!  Que tétricas figuras!
Que cena infame e vil! Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros, estalar de açoite,
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar.

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos, o chicote estala.
E voam mais e mais.

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão…

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte,
… Adeus, amores, adeus!

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai pra não mais se erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas da amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúmulo de maldade,
Nem são livres pra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

VI

E existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 

Antonio de Castro Alves, natural de Cabaceiras, Estado da Bahia, nasceu em 14/03/1847 e faleceu aos 24 anos em 06/07/1871. Suas poesias, quase todas elas do mais espontâneo lirismo, foram enfeixadas num volume que denominou Espumas Flutuantes, cuja primeira edição saiu em 1870. Deixou ainda A Cachoeira de Paulo Afonso em 1876. Deste mesmo ano é o drama histórico Gonzaga ou a Revolução de Minas. Suas obras completas foram editadas em 1921 e contam inúmera reedições, sendo possivelmente o mais lido dos nossos poetas Juntamente com Tobias Barreto inaugurou uma nova fase na poesia brasileira – o condoreirismo.

* * *

quinta-feira, 9 de março de 2023

O brilho de Proust

Arnaldo Niskier



Com a saúde fragilizada desde a infância por conta da asma, a vida de Proust é, sem dúvida, o testemunho do permanente esforço para adaptação à doença, para a resistência ao sofrimento. Chegou até a dizer que 'a ideia da morte o acompanhava com a mesma constância quanto a da própria identidade'?

Estive no pampa gaúcho, soprado pelos ventos de Gilberto Schwartsmann, diretor da Biblioteca Pública Estadual de Porto Alegre, um notável colecionador literário, autor do livro 'A Amante de Proust' e membro da Academia Nacional de Medicina, para dizer algumas palavras sobre esse incrível escritor que foi Marcel Proust (1871-1922). Na capital do Rio Grande do Sul, não pude deixar de me lembrar do meu saudoso colega acadêmico Moacyr Scliar, autor de mais de 80 livros, falecido em 2011.

A harmonia da ascendência comum, o judaísmo, explica muita coisa das nossas crenças espirituais e literárias. Membro há 35 anos da Academia Brasileira de Letras, da qual hoje sou vice-decano, sempre me interessei, particularmente, pela cultura francesa. Talvez por isso seja natural que tenha recebido a 'Légion d´Honneur' e a Ordem das Letras e das Artes do governo francês.

Educação e Judaísmo são atividades que sempre estiveram entrelaçadas, como se pode observar no livro 'Ensaios Judaicos', do professor Jaques Ribenboim, experiente membro da comunidade judaica do Recife, que assinala: 'Existe uma tradição de letras no povo de Israel. O livro mais lido do mundo (a Bíblia) foi escrito por seus descendentes.'

O escritor judeu produz uma escrita judaica, embora não trate especificamente de temas judaicos. Marcel Proust teve um brilho especial na história do romance francês do século XX, particularmente em virtude do sucesso de 'Em busca do tempo perdido', obra publicada em sete partes, de 1913 a 1927. Nela está a ideia de que a obra literária tem por objeto voltar a encontrar, além do escoamento estéril da vida cotidiana e mundana, o universo espelhado pelo espírito e considerado, sob o aspecto da eternidade, que é também o da arte.

Com a saúde fragilizada desde a infância por conta da asma, a vida de Proust é, sem dúvida, o testemunho do permanente esforço para adaptação à doença, para a resistência ao sofrimento. Chegou até a dizer que 'a ideia da morte o acompanhava com a mesma constância quanto a da própria identidade'.

George Cattaui (1896-1974), escritor francês de origem egício-judaica, que publicou vários ensaios e biografias, analisou que o prazer na dor e na atribulação deveria, em parte, ser creditado ao sangue judeu de Proust, que o levava a considerar com desprezo ''o mundo inumano do prazer', e a defender o princípio de que 'toda a criação tem que exigir ascese e sacrifícios'. Para ele, a arte traduzia um valor absoluto. E a própria obra literária mostra muito bem a relação que existiu entre o romancista e o mundo que procurou apresentar ao leitor. Já se disse que a doença está para o romance de Proust, como o dinheiro na estrutura da Comédie Humaine . Há estudiosos que afirmam que ele foi 'o Balzac do fim da alta burguesia', que teria escrito 'o epitáfio da aristocracia francesa'.

Chumbo Gordo, 27/02/2023

https://www.academia.org.br/artigos/o-brilho-de-proust

-------------

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

* * *

  

terça-feira, 7 de março de 2023

Poemas de denúncia sobre

o rio Cachoeira motivam

novo livro de Cyro de Mattos



 

          Águas de meu rio é o novo livro de poesia de Cyro de Mattos, que acaba de ser publicado pela editora Ibis Libris, do Rio, com prefácio de Denise Emmer, poeta premiada em concursos expressivos nacionais, musicista, e um dos nomes importantes da poesia contemporânea brasileira. O livro é um poema longo dividido em vinte partes em que o poeta aponta com tristeza, em versos de lirismo agudo, a situação doentia do Cachoeira, outrora de águas límpidas e peixe em abundância, fonte de sustento para muitos e lugar de alegrias para meninos e gente grande. 

        Autor de 64 livros pessoais, entre o romance, conto, crônica, poema, ensaio e literatura infantojuvenil, o baiano de Itabuna Cyro de Mattos (cyropm@bol.com.br) já publicou vinte e dois livros de poesia para o leitor adulto, três deles com o tema inspirado no Cachoeira, formando uma trilogia do rio com esse Águas e meu rio. Os outros dois livros da trilogia são Vinte poemas do rio/Twenty River Poems, tradução de Manuel Portela, e O discurso do rio, constituído de trinta sonetos, ambos publicados pela EDITUS, editora da UESC. Esses dois livros foram também editados em Portugal, pela Palimage, de Coimbra, na coleção Palavra e Imagem, dirigida pelo poeta Jorge Fragoso. 

           Vinte Poemas do rio foi adotado por três anos para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz. Pequeno livro de versos cativantes, vem sendo estudado em escolas e universidades. Seus poemas foram declamados pelos alunos da Escola São Jorge de Ilhéus no Teatro de Ilhéus para um público que lotou as dependências do auditório.   

           Do livro Águas de meu rio é o poema VIII em que o poeta revela as suas relações afetivas com o rio de sua infância, quando o  cenário era de pureza e alegria.   

Leiam abaixo o poema.

 

VIII

aprendi a nadar em tuas águas

aprendi a mergulhar em tuas águas

aprendi a pescar em tuas águas

 

aprendi a sorrir em tuas águas

aprendi a cantar em tuas águas

aprendi a saltar em tuas águas

 

aprendi a flutuar em tuas águas

aprendi a dormir em tuas águas

aprendi a sonhar em tuas águas

 

enquanto as nuvens passavam

as borboletas voavam em bando

não querias que eu esquecesse tuas águas

 

  O Poeta e o Rio

   Afonso Manta

 

E vendo as águas do rio

e outras águas renhidas

o poeta Cyro reinventa

o mistério de nossas vidas.

 



Cyro de Mattos observa as lavadeiras quando

antigamente lavavam as roupas e estendiam 

nas pedras, que ficavam coloridas. 


* * *