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sábado, 26 de março de 2022

FERNANDA MONTENEGRO TOMA POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

 


A atriz Fernanda Montenegro toma posse na Academia Brasileira de Letras (ABL) no dia 25 de março. O evento, marcado para as 21h, acontece no Petit Trianon, no centro do Rio. Fernanda ocupará a Cadeira 17 da Academia, sucedendo o Acadêmico e diplomata Affonso Arinos de Mello Franco. 

Eleita com 32 votos para integrar o grupo de imortais no dia 4 de novembro de 2021, Fernanda estreita os laços da Academia com as artes cênicas. Autora do livro "Prólogo, Ato e Epílogo", sua autobiografia, a atriz de 92 anos é reconhecida como intelectual engajada e um dos grandes ícones da cultura brasileira. 

Fernanda é a primeira mulher a ocupar a cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras. O posto teve, como ocupantes, Sílvio Romero (fundador) – que escolheu como patrono Hipólito da Costa –, Osório Duque-Estrada, Roquette-Pinto, Álvaro Lins e Antonio Houaiss.

Premiada nacional e internacionalmente por sua carreira, Fernanda é a única brasileira já indicada ao Oscar de Melhor Atriz pela atuação em Central do Brasil (1998), de Walter Salles. Ela já venceu, também, o Emmy Internacional, o Festival de Berlim e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. A atriz também foi destaque em clássicos da Rede Globo como Doce de Mãe, Belíssima, Guerra dos Sexos, A Dona do Pedaço, entre outros.

Fernanda Montenegro nasceu em 16 de outubro de 1929 no Rio de Janeiro. Sua primeira experiência no teatro foi aos oito anos, em uma peça da igreja. Em 1950, estreou profissionalmente nos palcos ao lado do marido Fernando Torres, no espetáculo 3.200 Metros de Altitude, de Julian Luchaire. 

Em dois anos na Tupi, participou de cerca de 80 peças, exibidas nos programas Retrospectiva do Teatro Universal e Retrospectiva do Teatro Brasileiro. No período, foi vencedora do prêmio de Atriz Revelação da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, em 1952, por seu trabalho em Está Lá Fora um Inspetor, de J.B. Priestley, e Loucuras do Imperador, de Paulo Magalhães. Fundou, ainda, a companhia Teatro dos Sete junto de outros importantes nomes da cena teatral brasileira. 

Sua estreia na televisão foi em 1963, na TV Rio, com as novelas Amor Não é Amor e A Morta sem Espelho, ambas de Nelson Rodrigues. Passou, também, pela TV Globo e a TV Excelsior. Além de novelas, atuou em minisséries, com destaque para O Auto da Compadecida (1999).

Em 1999, Fernanda Montenegro foi condecorada com a maior comenda que um brasileiro pode receber da Presidência da República, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito "pelo reconhecimento ao destacado trabalho nas artes cênicas brasileiras".


https://www.academia.org.br/noticias/fernanda-montenegro-toma-posse-na-academia-brasileira-de-letras

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sexta-feira, 25 de março de 2022

O PRAZER – Gibran Khalil Gibran




O Prazer

 

            Então, um ermitão que visitava a cidade uma vez por ano, acercou-se e disse: “Fala-nos do Prazer”.

            E ele respondeu dizendo:

            “O prazer é uma canção de liberdade,

            Mas não é a liberdade.

            É o desabrochar de vossos desejos,

            Mas não é a sua fruta.

            É um abismo olhando para um cume,

            Mas não é nem o abismo nem o cume.

            É o engaiolado ganhando o espaço,

            Mas não é o espaço que o envolve.

            Sim, na verdade o prazer é uma canção de liberdade.

            E de bom grado eu vos ouviria cantá-la de todo o vosso coração; porém, não gostaria que perdêsseis vosso coração no canto.

            Alguns de vossos jovens procuram o prazer como se fosse tudo na vida, e são condenados e repreendidos.

            Eu preferiria nem condená-los, nem repreendê-los, mas deixá-los procurar.

            Pois encontrarão o prazer, mas não só ele.

            Sete são suas irmãs, e a última dentre elas é mais bela que o prazer.

            Não ouviste falar do homem que cavava a terra à procura de raízes e descobriu um tesouro?

 

            E alguns de vossos anciãos recordam seus prazeres com remorso, como se fossem erros cometidos num estado de embriaguez.

            Mas o remorso é o escurecimento da alma e não o seu castigo.

            Deveriam, antes, recordar seus prazeres com gratidão, como recordariam uma colheita de verão.

            Todavia, se acharem conforto no remorso, deixemo-los se confortarem.

            E há entre vós aqueles que não são jovens para procurar, nem velhos para recordar.

            E no seu temor de procurar e recordar, desprezam todos os prazeres por medo de afugentar ou ofender o espírito.

            Porém, na sua renúncia está seu prazer.

            E, assim, eles também descobrem um tesouro embora cavem com mãos trêmulas à procura de raízes.

            Mas, dizei-me, quem é que pode ofender o espírito?

            Ofende o rouxinol a quietude da noite, ou o pirilampo, as estrelas?

            E poderá vossa flama ou vossa fumaça sobrecarregar o vento?

            Crede que o espírito é um poço tranquilo que podeis perturbar com um bastão?

 

           Muitas vezes, ao negardes a vós mesmos um prazer, nada mais fazeis do que represar vosso desejo nos recessos de vosso Eu.

            E quem sabe se o que parece omitido hoje não espera pelo amanhã?

            Mesmo vosso corpo conhece sua herança e seus direitos, e vós não o podeis iludir.

            E vosso corpo é a harpa de vossa alma;

            A vós pertence tirar dele música melodiosa ou ruídos dissonantes.

 

            E agora vós perguntais em vosso coração: ‘Como distinguiremos o que é bom no prazer do que é mau?’

            Ide, pois, aos vossos campos e pomares e, lá, aprendereis que o prazer da abelha é sugar o mel da flor,

            Mas que o prazer da flor é entregar o mel à abelha.

            Pois, para a abelha, uma flor é uma fonte de vida.

            E para a flor, uma abelha é uma mensageira de amor.

           E para ambas, a abelha e a flor, dar e receber o prazer é uma necessidade e um êxtase.

            Povo de Orphalese, nos vossos prazeres, imitai as flores e as abelhas.”

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran

 

Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

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O PRECURSOR

 

          Gibran foi sempre atraído pela ideia de que há, dentro de cada um de nós, um Eu maior, destinado a revelar-se um dia e a vencer.

          Cada um de nós é assim o precursor de si mesmo.

          E para chegar ao alvo, precisamos conhecer o caminho.

          Este livro procura sugerir o caminho através de duas preleções e 23 parábolas, todas escritas no estilo mágico de Gibran e variando em extensão de quatro linhas a quatro páginas.

          Dá ideia da beleza e força das imagens a curta história do catavento:

          “Disse o catavento ao vento: - Como és enfadonho e monótono! Não podes soprar numa outra direção a não ser no meu rosto? Perturbas a estabilidade que Deus me deu.

          E o vento não respondeu. Riu-se, apenas, no espaço.”

         

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quinta-feira, 24 de março de 2022

POR FALAR EM BOMBA ATÔMICA…LEMBREMO-NOS DO MILAGRE DE HIROSHIMA



Hiroshima destruída pela bomba atômica em 1945.

Os sacerdotes Hugo Lassalle (Superior dos jesuítas no Japão), Hubert Schiffer, Wilhelm Kleinsorge e Hubert Cieslik [assinalados no círculo da foto] estavam em Hiroshima no momento da explosão da bomba atômica. Eles se encontravam na casa paroquial da igreja de Nossa Senhora da Assunção, um dos poucos edifícios que resistiu à bomba. Um dos sacerdotes estava celebrando a Santa Missa, outro tomava o café da manhã e os demais se encontravam em dependências da paróquia.

 

Plinio Maria Solimeo

No dia 6 de agosto de 1945, solenidade da Transfiguração de Nosso Senhor e praticamente no fim da II Guerra Mundial, a aviação americana lançou sobre a cidade de Hiroshima, no Japão, a bomba atômica “Little Boy”, de urânio, que provocou a morte de 140 mil pessoas, mais de 70 mil feridos, e grande parte da cidade destruída. Três dias depois, a mesma aviação lançou a bomba nuclear de plutônio, “Fat Man”, sobre a cidade de Nagasaki. Essa bomba destruiu a catedral da Imaculada Conceição, matando muitos católicos que estavam no templo. Foi a primeira e única vez em que armas nucleares foram usadas contra alvos civis.

Devido à radiação, entre dois a quatro meses após os ataques atômicos, os efeitos agudos das explosões mataram entre 90 e 166 mil pessoas em Hiroshima, e 60 a 80 mil em Nagasaki. Durante os meses seguintes, várias pessoas morreram por causa do efeito de queimaduras, envenenamento radioativo e outras lesões, que foram agravadas pelos efeitos da radiação.

Nesse terrível cenário, ocorreu nessa cidade um fato surpreendente, que passou a ser conhecido como o “Milagre de Hiroshima”: quatro sacerdotes jesuítas alemães sobreviveram à catástrofe, inclusive a seus efeitos, apesar de estarem muito perto do local onde a bomba explodiu.

Esses religiosos eram os padres Hugo Lassalle (Superior dos jesuítas no Japão), Hubert Schiffer, Wilhelm Kleinsorge e Hubert Cieslik [assinalados no círculo da foto acima]. No momento da explosão, eles se encontravam na casa paroquial da igreja de Nossa Senhora da Assunção, um dos poucos edifícios que resistiu à bomba. Um dos sacerdotes estava celebrando a Santa Missa, outro tomava o café da manhã e os demais se encontravam em dependências da paróquia.

O edifício religioso sofreu apenas danos menores, como vidros quebrados, conforme escreveu o Pe. Hubert Cieslik em seu diário, mas nenhum dano em consequência da energia atômica liberada pela bomba. O Pe. Schiffer escreverá depois o livro O Rosário de Hiroshima, no qual narra tudo o que lhes sucedeu naqueles dias fatídicos.

Os religiosos atribuem sua preservação a uma proteção particular da Santíssima Virgem, pois “vivíamos a mensagem de Fátima e rezávamos juntos o Rosário todos os dias”.

Quando, mais tarde, esses jesuítas receberam tratamento médico, foi-lhes dito que devido à radiação eles teriam lesões graves, enfermidades, e inclusive uma morte prematura. Porém, contra todas as expectativas, tal não sucedeu. Nenhum deles teve qualquer transtorno físico.

Pelo contrário, em 1976 — 31 anos depois do lançamento da bomba —, o Pe. Schiffer participou do Congresso Eucarístico de Filadélfia, onde relatou sua história. Ele confirmou que os quatros jesuítas ainda viviam, sem nenhuma enfermidade. Isso foi comprovado por dezenas de médicos que os examinaram cerca de 200 vezes nos anos posteriores, não encontrando qualquer sinal da radiação em seus corpos.

O Pe. Hugo Lassalle continuou em Hiroshima, e em 1948 naturalizou-se japonês com o nome Enomiya Mabiki. De passagem por Roma, recebeu do Papa Pio XII autorização para recolher fundos destinados a reconstruir a igreja dedicada à Assunção de Nossa Senhora. Em 1959, com a elevação de Hiroshima a diocese pelo Papa João XXIII, ela passou a ser catedral. Sua construção começou em 1950 e foi concluída no dia 6 de agosto de 1954, nove anos após a explosão da bomba atômica.

É preciso dizer que a rendição do Japão se daria na solenidade da Assunção da Virgem aos Céus, 15 de agosto de 1945, poucos dias depois da explosão das bombas atômicas.

Hiroshima foi reconstruída totalmente, com aquela tenacidade própria aos filhos do Sol Nascente, contando hoje com mais de um milhão e cem mil habitantes.

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Fonte principal: https://www.aciprensa.com/noticias/el-milagro-de-hiroshima-jesuitas-sobrevivieron-a-la-bomba-atomica-gracias-al-rosario-50173?utm_source=boletin&utm_medium=email&utm_campaign=noticias_del_dia

 

https://www.abim.inf.br/por-falar-em-bomba-atomica-lembremo-nos-do-milagre-de-hiroshima/

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quarta-feira, 23 de março de 2022

POEMA DE PÁSCOA: A Jesus Cristo, Nosso Senhor




A Jesus Cristo Nosso Senhor

Gregório de Matos 

 

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-me; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

 


Gregório de Matos Guerra
, alcunhado de Boca do Inferno ou Boca de Brasa, foi um advogado e poeta do Brasil Colônia. É considerado um dos maiores poetas do barroco em Portugal e no Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa no período colonial. Wikipédia

Nascimento: 23 de dezembro de 1636, Salvador, Bahia

Falecimento: 26 de novembro de 1696, Recife, Pernambuco

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segunda-feira, 21 de março de 2022

MUNDICA PINDONGA – Nelson de Faria



Mundica Pindonga
Nelson de Faria

           A notícia nasceu mofina, desinteressante, naquela casa de porta e janela da Rua dos Sete Pecados. Engatinhou pela rua abaixo e foi crescendo. Disparada, passou ventando pelo Largo da Igreja. Engrossou mais ainda na Rua de Cima e atingiu, já gordota, a Ladeira do Cansa-Cavalos. Aí, na casa do Tonico Salatiel, parou um tiquim – a mó que descansando do esforço da subida. Voltou, desembestada, já arrebentando botões de braguilhas, alargando bocas em gargalhadas descontroladas. Os mais discretos paravam para ouvir os comentários ferinos e seguiam caminho,  de nariz franzido e, à flor dos lábios, um sorriso de incredulidade. Os que não tinham papas na língua comentavam o fato, sem caridade pela desgraça alheia. Outros, numa papeada danada, ouviam com atenção, levantavam os olhos para o céu:

          - Coitado do Joaquim-Mutamba! Homim bom, tá ali, sem fel, sem peçonha, sem nada...

          Na venda do Chico Quirino, um da roda falava alto:

          - Pois, não é que o Quincas-Mutamba se estrepou! Mundica desmoralizou o cujo de uma vez. Também, pra quê se engraçar com uma quenga daquelas?

          Confidenciavam-se, esgravatando-se o caso. Dizia Zé Orestes na botica de Sêo Arrudas, enquanto este suspendia a manipulação de um elixir depurativo:

          - A Mundica desceu as calças do lenheiro, prendeu a cabaça do cujo entre as pernas – nossa, que posição desgraçada, sô – e aplicou, nos traseiros dele, umas boas chineladas. Foi assim que me contaram, nhor sim... e eu estou vendendo o peixe pelo mesmo preço da compra...

          Filogônio Arrudas, o boticário, gostava de eufemismos, empregava palavras de pronúncia difícil, expressões em desuso. Fazia-se de letrado, de prestígio avantajado, abusando desse artifício. Falou, sorrindo:

          - Então, Zé Orestes, o glúteo do Quincas ficou como se fora cara de menino rico, sanguínea e edemática, não é assim?

          Zé Orestes confirmou, com um sorriso canalha na boca desdentada, embora não soubesse o significada daquelas palavras estranhas aos seus ouvidos. Estimulado pela curiosidade que lia na cara do boticário, Zé Orestas descreveu a cena com tanta riqueza de detalhes que Filogônio Arrudas e, logo depois, toda a cidade não tinham mais dúvidas:  Quincas-Mutamba apanhara – e de chinela! – de Raimunda Pindonga, dita Mundica Tomba-Homem, cuia das mais muito faladas do sertão de Cateriangongo. Não era aquela a primeira de suas façanhas comentadas. Diziam que ela já havia tirado a pevide de muito sujeito de pabulagem. Avalentoava-se à toa, a danada. Não deixava a mandioca pubar. Suas amigas mais chegadas falavam que a cuja era inté criatura prestativa, mão-aberta, dadeira sem limites. Mais porém, quando gostava de um homem – coisa não muito frequente – gostava mesmo muito, muito, desse gostar que deixa a gente de siso raleiro, não admitindo conselhos e insinuações. Sentia ciúmes e começava a beber. O pior de tudo era que um dedal de restilo esquentava o sengue dela, e era aquela lazeira. Trepava nos tamancos. Se o cabra não fosse esperto, virava molambo entre as pernas dela. Remanisca, forçuda pra danar, dava logo dois tombos no cujo, prendia-lhe os braços entre as coxas musculosas e se ria, depois, toda ancha, gozando a derrota do espevitado. Se o preferido, porém, era forte, cabra sem belida, de ideias alimpadas, a mulata, primeiro, afrouxava as carnes dele com carinhos de sustança; amolentava-lhe as forças com mixilanga somente dela conhecida e, quando percebia que o sujeito não aguentava mais uma gata pelo rabo, investia. Aplicava-lhe cabeçadas na barriga, jogava-o no chão, arranhava-lhe as bochechas. Despois... bom, despois, sentia remorsos da doidera praticada, passava meizinhas nas feridas do infeliz, chorava, chorava, implorando-lhe perdão. Despachava aquele, curtia jejum de homem dois ou três meses. Por via dessas coisas malucas, foi que o apelido “Tomba-Homem”, que nela se ajustava que nem visgo, pelo sertão se espalhou como azeite que se derrama em riba da água.

          Ora, muito que bem. Quincas-Mutamba era sujeito estimável. Magro, pacato, pequeno de corpo, viúvo sem filhos, ganhava a vida fornecendo lenha às cozinhas da Rua dos Sete Pecados. Madrugadinha, no coice de dois jegues, ia longe, légua e meia ou mais, voltando à tarde. Entregava um feixe aqui, umas achas acolá. Recebia magros tostões, passava na venda do Nicácio, fazia suprimento de boca, engrossava uns dois martelos de pinga, saía meio troviscado. Desencilhava os jegues, examinava-lhes as cernelhas maceradas. Entendia-se melhor com eles do que com o resto dos mortais. Naquela vidinha de pobre, vivendo no seu canto, sem malquerença com os mais, não fedia nem cheirava. Daí a surpresa que causou a todos aquela notícia estuporada. Nem a cidade suspeitava de suas ligações amorosas com Mundica Pindonga. Daquele dia em diante, passou ele a viver numa consumição dos diabos. Inté os meninos da rua se riam dele. Quincas-Mutamba não teve mais sossego. Embezerrou-se. Não saía mais da venda do Nicácio, não deu mais palavra a ninguém. Quando o último tostão foi jogado sobre o balcão e o martelo de restilo lhe tremeu nas mãos incertas, Quincas-Mutamba esquisitou-se. Fechou o punho, esmurrou o balcão, berrou um nome safado.

          - É hoje, porqueira! Espandongo aquela peste!

          Voltou-se para o vendeiro, os olhos faiscando de ira:

          - Quero mais um trago, mais porém, não quero fiado, nhor não. Pra pagar ele, dou pra vosmecê o jegue ruano, bichin bom de carga pra danar.

          Surpreso, Nicácio falou, com brandura:

          - Não carece vosmecê se desfazer do bicho por via de uma talagada, nhor não. Boto na conta. Vosmecê merece mais...

          Quincas interrompeu-o, decidido:

          - Mais, porém, se eu morrer na empreitada? Gardecido, Sêo Nicácio, gardecido. Não lhe ofendo se não aceitar, ofendo?

          Nicácio retornou, conciliador:

          - Ainda que mal lhe pergunte, por que é que vosmecê está assim, meio animoso? Figuro que vosmecê não tá à revelia com alguém, ou tá?

          Quincas-Mutamba tomou fôlego, abaixou a cabeça, murmurou:

          - Quero exemplar aquela diaba!

          - Figuro que não é gente de sua estimação...

          - É de muita estimação, nhor sim. Mais porém...

          O resto da frase perdeu-se no ar, porque Quincas já estava na rua, trocando pernas.

 

          No FUNDO DO QUINTAL, ensaboando panos, Mundica cantava. Quincas-Mutamba nem salvou a pobre. Parou na frente dela – que lhe sorria um largo sorriso de boas-vindas – e foi insultando:

          - Vagabunda! Se é valentia que corre no tutano do seu braço, porqueira, prove agora, cuia sem-vergonha!

          Mundica sorria, encalistrada.

          - Que bicho foi que te mordeu, nêgo? Espiritou? Tu andou bebendo, não andou? Não sou de brigar assim, sem mais nem menos. A frio, brigo não. Se tu botar inflamação no meu sangue, te esbagaço o esqueleto todo!

          Acorreu gente, ouvindo a xirimbambada.

          Quincas não conversou. Fechou a mão, levantou o braço, desfechou o golpe. Apanhou o ouvido da mulher, e ela caiu estatelada. Animosamente, ela se levantava, quando recebeu outro trompaço, no mesmo lugar da primeira pancada. Aí, afocinhou de uma vez. Quincas pabulou:

          - Conheceu, porqueira? – Sorriu para a assistência, afrouxou o correão, puxou da faca. – Só queria exemplar a danada. Se quisesse sangrar a bicha, tava na hora. Não sou esmiolado para fazer uma coisa dessas. E o homem que é macho, mesmo, não mata mulher. Bate nela, só pra exemplar. – E, como para justificar-se, arrematou: - Esta porqueira me achou escornado, me tolheu os braços, me arranhou a cara toda e saiu por aí, boquejando que me bateu. Ora, já se viu despropósito igual? Podia eu lá viver nessa consumição desgraçada, que me esquisitava inté? Podia? – Agachou-se, sungou a mulata pelos sovacos, ajudou-a a se levantar, passou o braço na cintura dela, segredou-lhe: - Te machuquei muito, nêga? Vamos pra dentro, anda.

          E ela, toda chorosa, ainda estonteada:

          - Ocê é ruim que nem cobra, nêgo. Pra quê fazer uma coisa destas na frente de tanta gente?

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

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MORAES se meteu em uma ENRASCADA! O cerco se fecha contra o Ministro e a...

domingo, 20 de março de 2022


 A poesia ecológica de Cyro de Mattos

 Décio Torres Cruz*

 

          Quem ainda não leu Cyro de Mattos precisa conhecer seus livros urgentemente. Este jornalista, advogado, e mestre em capoeira é, também e principalmente, um escritor excelente: poeta, contista, romancista, cronista, novelista, ensaísta, com vários prêmios importantes na bagagem, tais como: o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Pen Clube do Brasil e o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, dentre outros.

          Traduzido em várias línguas, em diversos países, este baiano de Itabuna, membro da Academia de Letras da Bahia, já publicou 64 livros no Brasil e 15 no exterior. Além disso, organizou 5 antologias e 5 coletâneas. Seus dois livros recentes, os quais tive a honra de receber autografados, O discurso do rio (Coimbra, Pallimage, 2020) e Devoto do campo (Itabuna, Editus, 2021), são de um lirismo comovente, que arrebata o leitor e possuem títulos que já constituem um belo poema.

          Estes dois livros podem ser classificados como uma elegia à natureza, uma poesia ecológica que revela seu amor ao meio-ambiente e aos seres que nela habitam, incluindo o bicho-homem que tanto a degrada. O discurso do rio foi publicado também  em Portugal e traz prefácio da Professora Graça Capinha da Universidade de Coimbra. Na verdade, ao escolher a palavra discurso para dar voz às falas dos nossos rios e denunciar a sua destruição pela poluição e desvios de cursos, o poeta brinca com o vocábulo “discurso”, atribuindo a ela um novo significado como antônimo de “curso”: dis-curso”. Se aprendemos com um curso escolar, o dis-curso é o oposto daquilo que deveríamos aprender a fazer, ou seja, em um dis-curso desaprendemos com discursos e práticas antiecológicas: não cuidamos daquilo que deveríamos. Em vez de preservar nossos rios, os destruímos.

          Mas também aprendemos com o discurso que o rio traça em seu curso natural por onde correm as suas águas: ouvimos o seu pedido de socorro na sua linguagem sem voz, agonizante e silenciada. Este canto agônico fica claro em vários de seus versos, como no poema “Das mãos na goela das águas”, que ilustra a quarta capa:

 

“Venho sendo omisso pra refazer

Virginais caminhos de água, dizendo

Melhor, matei o que era para ser

Vivo no seu amanhecer líquido.

 

Eu me acuso por ser indiferente

Ao benefício sempre abundante

De água pura que jorrava na fonte

Peixe e rede na estação competente.

 

E como réu confesso que merece

Por tão grave ilícito ser punido

Chegando do que lhe foi natural,

 

Em noite morta, que nunca enriquece,

Lavro minha sentença, condenado

A viver no abismo que há no Mal.”

 

          No seu mais recente livro Devoto do campo, o autor continua a sua defesa da natureza em belos versos curtos e simples como a própria natureza e o ambiente campestre. Seguindo o estilo de Emily Dickinson, poeta estadunidense por ele homenageada na epígrafe, Cyro dá voz aos elementos campestres componentes daquele habitat bucólico, como o grilo, o jabuti, a aranha, a garça, o pinto, o beija-flor, a borboleta, o papagaio, o boi, a ovelha, o cavalo, o som das asas, a flor, o trinado das aves, a árvore, a foice, a selva, a estrada, a paisagem, o laço, as crenças e as oferendas, a lua, e as claves de sol.

           Não é à toa que este poeta recebeu elogios de escritores ilustres, como Jorge Amado, Assis Brasil, Ledo Ivo e tantos outros, como Carlos Drummond de Andrade que escreveu um poema para homenageá-lo. Seus livros aqui resenhados podem ser adquiridos diretamente com o autor no email: cyropm@bol.com.br. Seus outros livros podem ser encomendados através dos sites das editoras, da Amazon e da Estante Virtual.

 

*Décio Torres Cruz é escritor, crítico literário, poeta, professor universitário e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da Ufba.

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