Total de visualizações de página

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

AUTO DE NATAL: O IRMÃO ARTURO PAOLI por Marco Lucchesi



N
este ano feroz de pandemia, na extrema solidão que me atravessa, atenuada apenas pelo céu noturno, ouço a cantata de Bach, a BWV 248. Um júbilo que espanta todos os fantasmas. E penso num homem admirável que conheci em dezembro de 2006, nas colinas de Lucca.

Era um grupo de oito pessoas. Após o jantar, ninguém deixou a mesa, pois o anfitrião ia celebrar missa, como os cristãos primitivos. De quando em quando, ele interrompia a cerimônia, insatisfeito com o fogo da lareira, que procurava reavivar. A saúde frágil, era uma águia: nada escapava a seu reduzido campo visual.

O irmão Arturo Paoli (1912-2015) padre e missionário italiano, foto, viveu até os 102 anos. Lutou na resistência contra os nazistas e salvou os judeus, reconhecido como “Justo entre as Nações”. Viveu no deserto da Argélia, como Charles de Foucauld. Doou a vida aos mais pobres da Argentina e da Venezuela. Em Foz do Iguaçu, trabalhou, anos a fio, numa comunidade sofrida.

Olha para mim alguns segundos: “se você é brasileiro, conhece a palavra rabicho”. “Sim, Arturo”, respondi timidamente.

Falou do sermão aos pobres de Foz. Precisamos do amor de Deus, mas ele também precisa do nosso amor. Havia uma torre de alta tensão, plantada na comunidade, que não comunicava luz elétrica. A metáfora da altura e da energia traduzia a mística de Arturo. Como sentir a dimensão divina? Como exercer o amor de mão dupla, senão através da conversão e, neste caso, fazendo um rabicho? Deus é luz. Ninguém merece viver nas trevas.

A exclusão social é um escândalo. Il diavolo, o diabo. O liberalismo é a raiz de todos os males. Não tenho dúvidas. Mas não perco a dimensão da burrice do demônio, como dizia o saudoso Hélio Pellegrino.

Arturo Paoli foi dos primeiros a denunciar a teologia do mercado e os que morrem esmagados pela exploração: “ao amanhecer, abro a porta da minha casa e logo encontro nas ruas estreitas da favela pessoas que gemem sob as rodas do mercado, e elas são a minha família..."

Penso no Brasil em 2021. Toco uma peça de Bach ao piano. É o que me resta. Faz escuro. Conto as estrelas. Não tenho lágrimas.

https://www.academia.org.br/artigos/auto-de-natal-o-irmao-arturo-paoli

......


Marco Lucchesi
- Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

* * *

Os Pingos Nos Is - 11/01/21 - A VOLTA DE RODRIGO CONSTANTINO

ACADEMIA GRAPIUNA DE LETRAS – AGRAL



De: Samuel Leandro Oliveira de Mattos <slomattos@uesc.br>

Enviado: domingo, 10 de janeiro de 2021 07:49
Para: Jornal Ocompasso Rodrigues <vercil5@hotmail.com>
Assunto: Pré-candidatura de Samuel Mattos à Presidência da AGRAL.

 

 

"Ilustríssimo Presidente, Confrade Ramiro Aquino, demais confreiras e confrades, bom dia.

 

Conforme é do conhecimento de todos os membros, confirmo que, de fato, tenho interesse em presidir a AGRAL. Entendo que isso me seria uma interessante oportunidade de aprendizado, experiência e realização.

Observo que o confrade Ramiro, previamente, sinalizou tal possibilidade (alguns outros informalmente também o fizeram) e sugeriu nomes que poderiam compor essa possível diretoria. Imagino também que outro confrade ou outra confreira tenha semelhante interesse de presidir a AGRAL...

Conduto, caso o meu nome seja oportunamente homologado (ou submetido a processo eleitoral), e se assim os estimados confrades e confreiras o quiserem eleger ou homologar, eu mesmo montaria o grupo gestor.

Para tanto, eu contactaria as pessoas, com elas dialogaria e, conjuntamente, formaríamos um grupo e o apresentaríamos à plenária. Digo-o por entender que o sucesso de um grupo de trabalho, para além da capacidade de cada pessoa, necessariamente se pauta no conhecimento que se tenha um do outro, na amizade, nas afinidades, na experiência conjunta de atividades já realizadas, dentre outras questões.

Portanto, aqui coloco o meu nome enquanto candidato à presidência da Academia, para apreciação da atual Diretoria e dos demais membros.

Fico no aguardo por determinação quanto ao processo eleitoral ou homologação, quando, então, eu me manifestaria acerca do grupo gestor.

No mais, faço votos de que o ano de 2021 seja, a cada confrade e confreira, feliz e realizador, também caracterizado por saúde e alegria.

 

Samuel Mattos"

 

 

Prof. Samuel Leandro Oliveira de Mattos 
Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC
Departamento de Letras e Artes (DLA)
Campus Prof. Soane Nazaré de Andrade
Pavilhão Adonias Filho, 1º andar
BR 415 - Rodovia Jorge Amado, Km 16
Salobrinho - Ilhéus - Bahia - Brasil 45.662-900

Tel.73-3680-5088 / 98807-9358 / 99140-4227
http://lattes.cnpq.br/9266072000824907

* * *

sábado, 9 de janeiro de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Ismália - Alphonsus de Guimarães



                                   
Ismália 

Alphonsus de Guimaraens

 

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

 

Ligue o vídeo abaixo:



................

 

Alphonsus de Guimaraens, pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães (Ouro Preto24 de julho de 1870 – Mariana15 de julho de 1921), foi um escritor brasileiro.[1]

A poesia de Alphonsus de Guimaraens é marcadamente mística e envolvida com religiosidade católica. Seus sonetos apresentam uma estrutura clássica e são profundamente religiosos e sensíveis, a medida em que explora o sentido da morte, do amor impossível, da solidão e da inadaptação ao mundo.

Contudo, o tom místico imprime em sua obra um sentimento de aceitação e resignação diante da própria vida, dos sofrimentos e dores. Outra característica marcante de sua obra é a utilização da espiritualidade em relação à figura feminina, que é considerada um anjo, ou um ser celestial. Alphonsus de Guimaraens é simultaneamente neo-romântico e simbolista.

Sua obra, predominantemente poética, consagrou-o como um dos principais autores simbolistas do Brasil.[2] Traduziu também poetas como Stéphane Mallarmé, em referência à cidade em que passou parte de sua vida, é também chamado de "o solitário de Mariana", a sua "torre de marfim do Simbolismo".

Sua poesia é quase toda voltada para o tema da morte da mulher amada. Embora preferisse o verso decassílabo, chegou a explorar outras métricas, particularmente a redondilha maior (terminado em sete sílabas métricas).

(Wikipédia)

* * * 

QUANTOS BEETHOVENS FORAM ABORTADOS?

9 de janeiro de 2021



Quantos homens que teriam futuro brilhante foram abortados? Mas ainda que não viessem a ser brilhantes, milhões de inocentes são executados todos os anos.

 

Paulo Roberto Campos

No dia 17 de dezembro, em todos os países foram celebrados os 250 anos de nascimento daquele que é considerado um grande gênio musical e um dos maiores compositores clássicos dos séculos XVIII e XIX: Ludwig van Beethoven.

De extraordinário talento, com apenas 10 anos de idade, Beethoven dominava brilhantemente todo o repertório de Johann Sebastian Bach, e com 12 anos compôs as suas primeiras peças, hoje ouvidas e admiradas no mundo inteiro.

A propósito da celebração, para este site convém lembrá-la sob um ponto de vista diferente para se execrar a prática do aborto.

Um muito interessante diálogo imaginário entre dois médicos foi publicado pelo jornal portuense “A Ordem”.

Eis o diálogo:

— Suponhamos que você seja o médico de uma família em que o pai é sifilítico, o primeiro filho é cego, o segundo nasceu aleijado, o terceiro tuberculoso, o quarto oligofrênico, e a mãe, que espera o quinto filho vem-lhe pedir que faça um aborto. O que você faria?

         O outro médico responde prontamente:

— Neste caso não teria dúvidas em atendê-la. Seria mais do que justo.

         O primeiro médico, jocoso, arremata em tom fulminante:

— Parabéns! Você acaba de assassinar Ludwig van Beethoven…


A atitude irracional, precipitada e pecaminosa do médico abortista teria assim não só privado um ente do mais elementar dos direitos — o direito à vida — mas impedido a humanidade de enriquecer-se com um inegável talento musical…

 


* * *


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

"CRIME LEGAL" Por Divaldo Franco


Entre os acontecimentos infaustos que assinalaram o ano de 2020, no breve tempo em que se encerravam as narrações das suas desventuras, uma notícia terrivelmente infeliz atingiu-nos a todas as criaturas: a Argentina, através do seu Senado, legalizava o aborto até a décima quarta semana de gestação.

A alegria que invadiu o país na madrugada, em que multidão muito volumosa gritava enlouquecida pelas ruas de Buenos Aires – registrada pelas câmeras fotográficas das redes sociais –, sem máscaras nem distância preventiva, numa infernal correria ao prazer, apoiava o crime de morte em detrimento da grandeza da vida.

Aos berros de exaltação do infanticídio sucedeu-se um grande silêncio, e uma nuvem representando a barbárie coletiva desceu sobre o grande país, que a partir de agora se compromete a matar os embriões e fetos humanos até a décima quarta semana.

Neste ritmo em que o conforto da mulher exige a eliminação do filho que não deseja, mas permitiu gerar, quando existem muitos recursos morais e legais que impedem a fecundação, em não distante tempo, pessoas insensíveis legalizarão a eutanásia, matando os pais que deles venham a depender ou simplesmente pessoas idosas, cujas existências pesem na economia ou futilidades da sociedade. Aliás, já tem havido algumas tentativas a esse respeito, que estão aguardando o momento selvagem para o homicídio.

Esquecem-se estes que assim pensam que à juventude sucede a velhice, por mais disfarces estéticos e recursos para a longevidade...

O ato desafiador produzido pelos argentinos assinala a decadência moral deste período cultural e espiritual da humanidade, em que a vida, especialmente a humana, perdeu o significado, voltando aos antiquíssimos padrões da ferocidade e da violência. Os vários milênios de cultura, ética e civilização desaparecem, sucedidos pela brutalidade e paixões ferozes de governantes bárbaros.

Sob todo e qualquer aspecto, é lamentável esse passo, dito legal, na Constituição do país vizinho. No entanto, repetindo Martin Luther King Jr.: “O pior não é o atrevimento dos maus, porém o silêncio dos bons”.

É exatamente o que está acontecendo em relação ao aborto legal e perversamente sempre imoral.

Têm sido poucas as reações de indivíduos e grupamentos religiosos, que tecnicamente respeitam a vida. Sua Santidade, o Papa Francisco, que defende as árvores da Amazônia, está silencioso ante o crime hediondo, desconsiderando o Mandamento “não matarás”, e principalmente aquele que não se pode defender.

Ao vivermos numa sociedade na qual se matam crianças por nascer, apenas por prazer, devemos sentir um grande constrangimento.

Matar é crime nefasto, e tudo devemos realizar para que o amor e suas leis substituam a sua hediondez.

Divaldo Franco – Professor, médium e conferencista espírita

* * *

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

A INVISIBILIDADE DO HUMANO - Joaquim Falcão


Desde os romanos até a sala de aula digital de uma faculdade, o direito de propriedade significa usar, gozar e dispor da coisa. Do bem material ou imaterial. Fungível ou infungível.

O problema no correr da história tem sido o de dar um significado o mais permanente possível a estas palavras. Difícil. Porque a regra do mundo é o mudar.

Recentemente, nos Estados Unidos, diante da pandemia, tomou-se uma medida inédita. Primeira vez, se não me engano – ou que se saiba aqui nos trópicos. Em setembro deste ano, o Centro de Controle de Doenças (CDC), uma agência federal com competências reguladoras vinculada ao Ministério de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, impôs uma moratória nacional nos despejos de locatários que não conseguem pagar seus alugueis até dezembro. Ontem, o CDC prorrogou essa moratória até janeiro de 2021.

Em outras palavras, o locatário que não pagar o aluguel porque ficou desempregado e sem renda não pode ser despejado pelo locador. Colocado na rua. Tudo indica que as ruas estão cheias com o desemprego altíssimo.

O locatário ficou com direito a até mais cinco meses de uso da propriedade alheia sem pagar.

Ou seja, estão copiando a Rocinha.

Isto mesmo. Digo a Rocinha, aqui em São Conrado.

Na década de oitenta, fiz uma pesquisa sobre o direito real de propriedade na Rocinha. Não era o direito da Constituição e do Código Civil, o direito positivo estatal, o que prevalecia lá. Como não é ainda, e que abrange mais de 200 mil pessoas.

Uma de minhas alunas, Rosemery Duarte, hoje promotora, ali morava. Conhecia tudo e todos. A Rocinha tinha, por exemplo, cerca de seis cartórios informais, com livros de registro de escritura, testemunhas, certidões etc... Tudo ilegalmente legal. Funcionava suficientemente. Ou seja, o direito às vezes não precisa ser legal. Basta parecer ser.

Uma das regras não escritas deste mercado imobiliário, legítima porque aceita, era razoavelmente eficaz: se o locatário perder o emprego, o locador não podia despejá-lo por um mínimo de três meses ou até conseguir outro emprego. O que ocorresse antes.

Não se trata de filantropia social entre os que não têm para os que não têm. Existe uma lógica econômica por detrás desta conjuntura. É a seguinte.

De alguma maneira, o proprietário também tem que correr o risco econômico da escolha que livremente fez. Ninguém o obrigou a alugar. A cláusula contratual comunitária é apenas um acordo informal entre as partes, tendo em vista uma pré-repartição do risco em que ambos resolveram incorrer.

É uma cláusula do mercado dos invisíveis, como diz e repete nosso ministro Paulo Guedes. Como que encantado com a descoberta de um novo conceito econômico-financeiro: a invisibilidade do humano. Ou melhor, na linguagem clássica econômica: o humano como uma "externalidade" passageira.

Uma vez, em São Petersburgo, antes de Putin, perguntei a um engenheiro russo com quem estava almoçando: por que os russos pareciam gostar mais de Yeltsin do que de Gorbachev?

Hesitou muito em responder. Não havia ainda tanta liberdade para tanto. Mas depois de algumas vodkas, em voz baixa, revelou.

O povo russo não confia mais em Gorbatchev. Quando ele assumiu, há seis anos atrás, prometeu que todo russo ia poder comprar o apartamento onde morava. Não cumpriu. Não cumpriu com a promessa do direito de propriedade.

O diabo não mora nos detalhes apenas. Mora na conjuntura histórica também.

Ou, como diria Lord Keynes a um interlocutor que lhe cobrava a coerência de suas ideias: "Se as circunstâncias mudam, você muda também?"

Bom 2021.

JOTA, 05/01/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/invisibilidade-do-humano

.................

Joaquim Falcão - Sexto ocupante da Cadeira nº 3 da ABL, eleito em 19 de abril de 2018, na sucessão de Carlos Heitor Cony e recebido em 23 de novembro de 2018 pela Acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira.

* * *