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sábado, 19 de setembro de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Dalila - Castro Alves


                                                      DALILA

Fair defect of nature.
Milton (Paradise Lost)



Foi desgraça, meu Deus!... Não!... Foi loucura
Pedir seiba de vida - à sepultura,
Em gelo - me abrasar,
Pedir amores - a Marco sem brio,
E a rebolcar-me em leito imundo e frio
- A ventura buscar.

Errado viajor - sentei-me à alfombra
E adormeci da mancenilha à sombra
Em berço de cetim...
Embalava-me a brisa no meu leito...
Tinha o veneno a lacerar-me o peito
- A morte dentro de mim...

Foi loucura!... No ocaso - tomba o astro;
A estátua branca e pura de alabastro
- Se mancha em lodo vil...
Quem rouba a estrela - à tumba do ocidente?
Que Jordão lava na lustral corrente
O marmóreo perfil?...

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta
Ela passou sozinha, macilenta,
Tremendo a soluçar...
Chorava - nenhum eco respondia...
Sorria - a tempestade além bramia...
E ela sempre a marchar.

E eu disse-lhe: Tens frio? - arde minha alma.
Tens os pés a sangrar? - podes em calma
Dormir no peito meu.
Pomba errante - é meu peito um ninho vago!
Estrela - tens minha alma - imenso lago -
Reflete o rosto teu!...

E amamos - Este amor foi um delírio...
Foi ela minha crença, foi meu lírio,
Minha estrela sem véu...
Seu nome era o meu canto de poesia,
Que com o sol - pena de ouro - eu escrevia
Nas lâminas do céu.

Em seu seio escondi-me... como à noite
Incauto colibri, temendo o açoite
Das iras do tufão,
A cabecinha esconde sob as asas,
Faz seu leito gentil por entre as gazas
Da rosa do Japão.

E depois... embalei-a com meus cantos
Seu passado esqueci... lavei com prantos
Seu lodo e maldição...
...Mas um dia acordei... E mal desperto
Olhei em torno a mim... - Tudo deserto...
Deserto o coração...

Ao vento, que gemia pelas franças
Por ela perguntei... de suas tranças
À flor que ela deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio...
E meu lábio queimado e o peito frio,
Foi ela que o queimou...

Minha alma nodoou no ósculo imundo,
Bem como Satanás - beijando o mundo -
Manchou a criação,
Simum - crestou-me da esperança as flôres...
Tormenta - ela afogou nos seus negrores
A luz da inspiração...

Vai, Dalila!... É bem longa tua estrada...
É suave a descida - terminada
Em báratro cruel.
Tua vida - é um banho de ambrosia...
Mais tarde a morte e a lâmpada sombria
Pendente do bordel.

Hoje flores... A música soando...
As perlas do Champagne gotejando
Em taças de cristal.
A volúpia a escaldar na louca insônia...
Mas sufoca os festins de Babilônia
A legenda fatal.

Tens o seio de fogo e a alma fria.
O cetro empunhas lúbrico da orgia
Em que reinas tu só!...
Mas que finda o ranger de uma mortalha,
A enxada do coveiro que trabalha
A revolver o pó.

Não te maldigo, não!... Em vasto campo
Julguei-te - estrela, - e eras - pirilampo
Em meio à cerração...
Prometeu - quis dar luz à fria argila...
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila,
A luz da redenção!!...

Recife, 1864.

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CASTRO ALVES

 

          Antônio de Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém,  despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...

 

De tumba da infâmia erguer um povo

Fazer de um verme – um rei.

Depois morrer... que a vida está completa

- Rei ou tribuno. César ou poeta,

Que mais quereis, depois?

Basta escutar do fundo lá da cova

Dançar em vossa lousa a raça nova

Libertada por vós...”


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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

DOSTOIÉVSKI, SAUDADES DO BRASIL E DAS GRANDES IDEIAS - Marco Lucchesi


“A paisagem segue cada vez mais polarizada. Com a esperança de terminar rapidamente 2020, apresso-me a comemorar os 200 anos de Dostoiévski, ano que vem. Porque um clássico é sempre um divisor de águas. Um acontecimento impressionante. Incêndio e terremoto. Ou tudo, ou nada.

Assim aconteceu quando fui atropelado pelo “O idiota”, de Dostoiévski, e meu sono, e minhas vísceras, e minhas lágrimas foram convocadas de mim para mim. Tinha treze anos de idade.

Não era apenas um capítulo da literatura, mas era a Literatura em sua potência extrema. A “nuvem-Dostoiévski” começou a habitar meus olhos. E mal desconfiava que minha vocação estava toda em seus romances. Que minha vida seria tocada pela chama de sua grandeza atormentada.

Li todos os seus romances até completar dezoito anos. Comecei a aprender russo, mais tarde, com minha saudosa professora Zoé Stepanov. Devo-lhe parte de meus sonhos adolescentes.

Guardo um punhado de versos nas fibras do meu coração. Contemplei o “Cristo de Holbein”, que comoveu Dostoiévski, e o apartamento em Florença, onde terminou “O idiota”, enquanto ele, Dostoiévski, e eu, passeávamos pelo jardim de Boboli, numa conversa que não termina.

Saudades do Brasil. E das grandes ideias”.

 

O Globo, 09/09/2020

 https://www.academia.org.br/artigos/dostoievski-saudades-do-brasil-e-das-grandes-ideias

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

HELOÍSA PRAZERES REALIZA LIVE DE LANÇAMENTO DO LIVRO TENDA ACESA

Leitores podem acompanhar o evento virtual via o zoom literário


A escritora, tradutora e doutora em literatura Heloísa Prazeres e a Scortecci Editora promovem no dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira), das 19h30 às 21h, a live de lançamento do livro de poemas Tenda acesa, através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).

Ilustrado com a reprodução de pinturas do artista visual Jamison Pedra e arte da capa de Daniel Prata Prazeres, “Tenda acesa” é o terceiro livro de poemas da autora e reúne composições dispostas em quatro divisões. Constituem os temas do livro a essência do viver, os riscos dos contextos contemporâneos, ao longo da atual pandemia, a convivialidade e trânsitos (viagens curtas ou prolongadas).

Por meio da linguagem lírica Heloísa Prazeres aborda a incomunicabilidade, o luto moral, as relações possíveis no mundo contemporâneo. A partir de uma perspectiva da vivência social e intelectual feminina. “A metáfora TENDA é uma imagem feminina, da qual me aproprio, ampliando-a. A obra destina-se ao público cuja insatisfação com a realidade o leve a buscas complementares na arte da palavra. Creio que as leitoras se beneficiarão”, expressa a autora, acrescentando ainda que há um forte apelo de imagens femininas na obra.

Tenda acesa (PRAZERES, 2020) é um retorno à escrita poética, atividade impactada, contemporaneamente, por contextos acentuados de crise e dispersão − ainda mais provocadores, desde o início deste segundo decênio do século, quando o mundo sofre os efeitos de uma pandemia de âmbito global. O título da obra é, por isso, a afirmação da palavra poética, por meio do signo “tenda”, associado a fragilidades e abrigos efêmeros, mas vivo, aceso.

A obra está dividida em quatro partes, compreendendo, 1, a teimosia da amorosidade, “O ouro da vida”; 2, a afirmação do sentimento de companhia e união sustentável entre humanos, “poesiasemprepossível”; 3, percepção subjetiva da experiência existencial, “Olhos capitais”; e uma quase separata, 4, intitulada ”Trânsitos”, celebração momentânea à liberdade, à viagem real, aos deslocamentos seguros, inclusive para outros hemisférios e continentes. “Tema que se deve à minha peculiar biografia, ou seja, família dispersa, quando as fronteiras do mundo se pulverizaram. Em contraponto, exploro a geografia afetiva, os lugares de origem, que reclamam por exaltação, citações a pessoas referenciais e a topônimos de origem”, diz a escritora.


A autora – Heloísa Prazeres é natural de Itabuna, BA, possui textos publicados com produtores de Artes Visuais (Cinema e Fotografia). Citada no Dicionário de Autores Baianos. Salvador: SECULT, 2006, e no Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia, CEPA, 2015. Seu primeiro livro, ensaios, data do início dos anos 2000, o segundo, poemas, Pequena história (PRAZERES, 2014), O terceiro, poemas, Casa onde habitamos (2016), o quarto, ensaios, Arco de sentidos, literatura, tradução e memória cultural (2018).

Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. FCJA; UNIFACS; SECULT, 2000; Pequena História, poemas selecionados. Salvador: Quarteto, 2014; Antologia Outros Riscos do Prêmio DamárioDaCruz de Poesia. Salvador: FPC/ SecultBA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III. Salvador: Expogeo, 2015 e Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015 Medalha de Bronze do I Concurso Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016.

Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em Literaturana Universityof Cincinnati, OH. EUA. Professora Adjunta, aposentada do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, UNIFACS. Coordenou o Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

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Serviço:

O quê: Live de lançamento do livro ‘Tenda acesa, de Heloísa Prazeres.  

Onde: Através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).

Quando: Dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira), das 19h30 às 21h.

Editora: Scortecci Editora – Poesia – Formato 14 x 21 cm – 1ª edição – 2020 – 152 páginas. R$ 35,00

 

Livro disponível para pré-venda no site da livraria Asabeça:https://www.asabeca.com.br/

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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O ALIENISTA CAP. II – Machado de Assis




TORRENTES DE LOUCOS

 

            Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.

             – A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de São Paulo aos Coríntios: “Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada”. O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade.

            – Um excelente serviço, corrigiu o boticário.

            – Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.

            – Muito maior, acrescentou o outro.

            E tinha razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!

            – Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.

            – Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...

            – Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato...

            – Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!

            Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.

            O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia de ir ao fim do mundo à cata dos fugitivos.

            A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:

            – Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu.

            Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:

             – Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.

            Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, mil e duzentas a outro, e não acabava mais. Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.

            Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do que por interesse científico.

            Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e, aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem incumbiu da execução de um regimento que lhes deu, aprovado pela Câmara, da distribuição da comida e da roupa, e assim também da escrita, etc. Era o melhor que podia fazer, para somente cuidar do seu ofício.

            – A Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que há o governo temporal e o governo espiritual. E o Padre Lopes ria deste pio trocado, – e acrescentava, – com o único fim de dizer também uma chalaça: – Deixe estar, deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa.

            Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas.

            Isto feito, começou um estudo aturado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. Ao mesmo tempo estudava o melhor regímen, as substâncias medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos, não só os que vinham nos seus amados árabes, como os que ele mesmo descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista.

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Fonte:

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis
 (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

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terça-feira, 15 de setembro de 2020

ESPLÊNDIDA MANSÃO - Nídia Costa Reis


                                                 Esplêndida Mansão

 

15 de setembro - dia do Colégio Nossa Senhora das Dores.

Escrevi esse poema para o Colégio Nossa Senhora das Dores, onde me formei em Magistério, em 1951.


Passou a carruagem pela estrada,

segui novo caminho sem parada,

só ficou solidão!

Sobre minha memória vão passando

as fímbrias de um véu e, recordando,

escuto o coração.

 

Já tão infrene chegas, ó saudade!

Pois sinto sob os golpes de impiedade

minh`alma estremecer.

Oh!, deixa-me a visão deste castelo

que embora longe se conserva belo

e nobre ante o meu ver.

 

Se eu te dissesse: ”Eis lá o Paraíso,

um turbilhão de festas e de riso,

de mágico esplendor!”

“-No céu há anjos”, - responder-me- ias;

e lá os tem! E mais: tem harmonias

e puro e santo amor.

 

As brisas matutinas vão beijá-lo,

os fogos do arrebol sentem deixá-lo,

com medo de o toldar.

E um átomo de luz sempre se avista

brilhando, eternamente, em sua crista,

guardando-o com o olhar.

 

Se um anjo do Senhor do céu baixasse

e um ramo de jasmins eu lhe entregasse,

poria em sua mão!

O!, meu Colégio! Embora já distante

eu o tenho tão presente neste instante!...

Esplêndida Mansão!

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Nídia Maria da Costa Reis (Prados MG)
- Educadora, escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12 provérbios e suas histórias que chegou à quarta edição e concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura.


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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

DEPOIS DA PANDEMIA - Carlos Diegues


A
cada dia, recebemos melhores notícias sobre a queda no número de vítimas da Covid-19. Mesmo que a vacina ainda demore, estamos aprendendo a lidar com os meios de controle parcial da pandemia. Com algum sucesso, tentamos descobrir modos de sobreviver ao vírus, sem nos deixarmos imobilizar pelo terror que sua existência nos provoca. As conversas privadas e os debates públicos sobre como seremos, nós e o mundo, depois da pandemia se multiplicam e são um sinal saudável de que o pânico passou, com o pessimismo que poderia nos paralisar. Agora sabemos que o mundo não vai acabar, embora se torne outra coisa. E discutimos planos para seu futuro, em cada uma de nossas atividades.

Embora novinho, inventado há apenas 125 anos, o cinema é o velho patriarca, o avozinho da família do audiovisual que inaugurou no final do século XIX. O mundo virtual, assim como qualquer outra novidade no gênero, tem sido um resultado do que ele começou em dezembro de 1895. Do som à cor, da televisão ao streaming, tudo o que, nesse universo, apareceu depois da invenção do cinema foi gerado por ele ou é uma consequência do que ele foi.

Não compreendo as críticas radicais, quase histéricas, de gente como Martin Scorsese ao streaming. Não compreendo por que um grande cineasta, com quem tantos jovens aprenderam tanto, se posiciona contra o desenvolvimento de sua atividade. Lembra os intelectuais reacionários que, em 1927, se negaram a assistir a “O cantor de jazz”, como uma manifestação contra o som no cinema. A mesma tradição que lamentou a cor (um disfarce da realidade, criado para nos esconder o mundo real) e amaldiçoou a tela larga (os mais espirituosos diziam que o Cinemascope só servia para filmar procissão religiosa e desfile militar). O streaming é uma multiplicação de resultados obtidos pelo cinema, seja na criação, seja na difusão, num formato doméstico que pode vir a ser o destino social do ser humano. O que ficou claro durante a crise mundial provocada pela pandemia.

O coronavírus jogou o ser humano nos braços de dois estados de espírito morais que andavam esquecidos ou abandonados: a solidão e a solidariedade. É possível que nunca mais voltemos a ser a humanidade tensa destes últimos tempos, em busca de resultados imediatos por meio de disputas acirradas, sem ordem de sentimentos ou princípios comuns. Uma humanidade que nunca esteve satisfeita porque, por falta de consistência e significância, nada lhe era suficiente. A pandemia nos revelou um mundo em que somos obrigados a nos organizar sozinhos, sabendo entretanto que, sem o outro, nunca seremos nada. Solidão e solidariedade são, por acaso, as circunstâncias humanas originais do espectador de cinema.

Não sei prever se a sala de cinema vai desaparecer, em razão do crescimento do streaming ou do que for. Mas é claro que, com as novas, claras e imensas telas de nossos receptores de TV, teremos menos vontade de sair de casa para ver um filme na rua cheia de atropelos. Imagino, mas não sei dizer com total clareza, como essa economia se organizaria, porque é sempre muito difícil prever tendências que não são exatas. Ainda não sabemos nem como a pandemia há de terminar, com que costumes novos, quais e quantos serão os mortos e suas qualidades. Ninguém é capaz de controlar tais cifras.

Sempre pensei o cinema como a mais clara e bela expressão de uma cultura, de um povo, de um país. Por intermédio dele, descobrimos o que somos e o que queremos ser. Mas o cinema não é uma necessidade primária, sem a qual não se pode viver. Ele se estrutura a partir de circunstâncias aleatórias, em que o fator principal será sempre o gosto de seus frequentadores. Entendendo por gosto a soma de elementos que vão da emoção ao conhecimento, do saber ao sentir etc. Não ouso prever esse gosto, nem mesmo no curtíssimo prazo.

Quando o cinema surgiu como espetáculo popular, se pensou que os teatros fechariam. E, quando a televisão tomou conta de nosso tempo de lazer, se dizia que o cinema tinha acabado. Não aconteceu nem uma coisa, nem outra. O novo não é necessariamente o fim do que havia antes; ele pode ser também uma consequência ou uma recuperação do que precisava mudar no que havia antes.

 

O Globo, 14/09/2020

https://www.academia.org.br/artigos/depois-da-pandemia

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Carlos Diegues - Décimo ocupante da Cadeira 7 da ABL, eleito em 30 de agosto de 2018 na sucessão do Acadêmico Nelson Pereira dos Santos e recebido pelo Acadêmico Geraldo Carneiro em 12 de abril de 2019.


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OS HUMANOS DESUMANOS! – Antonio Nunes de Souza


F
alar sobre os comportamentos humanos é tão difícil quanto você acertar sozinho na mega sena. As possibilidades de acertos são tão remotas e passivas de mudanças constantes, assim como as numerações sorteadas semanalmente, pois se estuda a mente humana há centenas de anos, fazem-se milhares de pesquisas científicas e, sempre somos surpreendidos com atitudes e reações descabidas e fora dos propósitos, somente em função de um grupo pré-determinado que para ele até o errado seja o que passará a ser certo, apenas para agradar os gostos daqueles que prepararam e executaram as ações!

Esses despropósitos e fatos que demonstram tolas atitudes constantemente são tão comuns perante os noticiários, que esses se aproveitando do Ibope que geralmente alcançam, oferecem uma cobertura, infelizmente injustificada, se analisada friamente os propósitos esdrúxulos e simplórios, deixando de lado assuntos muito mais importantes e pertinentes a um segundo ou terceiro plano, transparecendo aos olhos de pessoas que pensam mais em termos humanísticos, que os atos praticados são completamente paradoxais, expondo sentimentos nada humanos como deveriam!

O motivo que me fez escrever a respeito, mesmo sendo e reconhecendo um completo leigo na matéria, apenas baseando-me na perspicácia e vivência de muitas dezenas de anos, vendo constantemente essas disparidades incompreensivas é a invasão de um grande e renomado laboratório na cidade de S. Roque, Estado de São Paulo, raptando mais de duzentos cães que estavam sendo usados em pesquisas científicas, sem nenhuma comprovação que estava havendo maus tratos, interrompendo trabalhos de vários anos em benefícios de industrializações de medicamentos que curarão aos humanos. E olhe que no Brasil é permitida a utilização de animais em pesquisas, principalmente, quando esses não são sacrificados inutilmente!

Assim como vi e vejo sempre atitudes similares, principalmente na defesa canina, deixa-me estarrecido e revoltado pela cegueira desses e dessas criadoras de luxo de “Poodle”, que gastam fortunas com seus animaizinhos de estimação, não fazerem levantes e protestos em benefício das crianças abandonadas que, no norte e nordeste passam fome, trabalham desde a infância para complementar a renda familiar, não estudam e são ou estão sempre doentes. Estes sim é que necessitam de protestos sociais veementes, não só junto aos governos como, principalmente, a toda sociedade, pois os benefícios que advirão, obviamente, serão de todos os envolvidos!

Não sou contra cães e gatos, nem animal algum, mas, sinceramente, deixar as crianças abandonadas e ficar simploriamente, somente condenando os governos, não deixa de ser uma atitude desumana, nada racional!

Será que esse povo não enxerga nas áreas urbanas, quando passam em seus carrões, crianças abandonadas apanhando restos de comida nas latas de lixo para se alimentarem? Esse quadro é super comum!

Esses procedimentos humanos (?) são tão estranhos que, se Freud vivesse mais 500 anos ainda morreria sem explicar!

 

Antonio Nunes de Souza, escritor 

Membro da Academia Grapiúna de Letras 

antoniodaagral26@hotmail.com-antoniomanteiga.blogspot.com 


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