Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não
morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de
seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Fonte:
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Cecília
Meireles - (1901-964) foi uma poetisa, jornalista e professora brasileira,
considerada umas das mais importantes escritoras do país, com mais de 50 obras
publicadas.
Divaldo Franco com muita retidão e bom senso, escreve sobre
o "porta dos fundos"
Há um velho dito que assim se expressa: “Ainda não vi
tudo!”
Refere-se às surpresas do quotidiano, no que diz respeito
aos acontecimentos durante a existência física.
Fatos aberrantes chocam-nos a cada momento e, através da
Imprensa em seus vários aspectos, o noticiário surpreende-nos com ocorrências
inimagináveis, que se vão tornando comuns em nosso processo de relacionamentos
sociais.
Mais recentemente, todas pessoas sensatas, religiosas ou
não, fomos surpreendidos com o escândalo satírico, em torno das figuras
históricas e nobres de Jesus, Seus familiares e seguidores mais próximos.
Em nome da liberdade de pensamento e de expressão um grupo,
repetindo-se em perversões chocantes, tenta denegrir o Homem de Nazaré, assim
como todos aqueles que com Ele conviveram, em cenas vulgares de uma vileza
moral que nos obriga a entretecer os comentários que seguem.
Essas pessoas permitem-se liberdades libertinas,
confundindo-as e azorragando a cultura e a arte com baixeza moral
alarmante.
Esses artistas que navegam contra a correnteza da História e
da Ética dos bons costumes chegam ao despautério de ver todos os membros que
envolvem Jesus, Ele inclusive, como portadores das chagas mais ultrizes que,
certamente, são familiares aos sentimentos que se transferem deles na
atualidade e atirados nos homens e mulheres do pensamento cristão
inicial.
Têm, sim, um propósito destrutivo esses indivíduos
anarquistas. Na falta de cultura e de arte para combaterem os nobres ideais com
outros que lhes sejam superiores, rebaixam-nos à própria condição. Aquele que
dividiu a História com a Sua existência ímpar e atraiu ao holocausto por
aproximadamente trezentos anos, mais de um milhão de pessoas de todas as
classes sociais e culturais é inatacável.
Certamente essa visão atormentada não afeta a mensagem do
Evangelho e muito menos o Seu autor, mas perturba as gerações novas
despreparadas para o respeito ao próximo e à sociedade, criando um campo de
tormentos morais mais servis do que aqueles que hoje arrastam multidões desassisadas.
Ninguém tem o direito de agredir impunemente as crenças e os
ideais dos outros, especialmente aqueles que os não têm nenhuns, que se
caracterizam pela zombaria, autodestrutivos e enfermiços.
O meu silêncio diante das ofensas propositais e patológicas
ao Mestre venerado por mais de um bilhão de homens e mulheres de todo jaez,
será anuência à perversão e indignidade de que se reveste o ataque deplorável,
perpetrado por esse grupo que elegeu a porta do fundo para se fazer
conhecido.
Apresento, deste modo, o meu repúdio pessoal à anticultura e
devassidão desses apóstolos da era de decadência da sociedade que perdeu o rumo
da razão e dos deveres morais.
Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, 09 de
janeiro 2020.
Herman and Roma Rosenblat are shown here in 2008 at their home in North Miami Beach, Fla. (J. Pat Carter/AP)
Por Herman Rosenblat
Miami Beach, Flórida
Agosto de 1942, Piotrkow, Polônia. O céu estava cinzento
naquela manhã em que esperávamos ansiosamente. Todos os homens, mulheres e
crianças do gueto judaico de Piotrkow tinham sido levados até uma praça. Fora
espalhado o boato de que seríamos transferidos. Meu pai tinha morrido de tifo
alguns dias antes, e a notícia se espalhara pelo gueto apinhado. Meu maior
temor era que nossa família fosse separada. “De maneira alguma,” sussurrou-me
Isidore, meu irmão mais velho, “conte a eles a sua idade. Diga que tem
dezesseis anos.” Eu era alto para um menino de onze, portanto poderia afirmar
isto.
Dessa maneira eu poderia ser considerado útil como
trabalhador. Um homem da SS aproximou-se de mim, as botas ressoando nas pedras.
Olhou-me de alto a baixo, então perguntou minha idade. “Dezesseis,” eu disse.
Ele encaminhou-me para a esquerda, onde meus três irmãos e outros jovens
saudáveis já estavam.
Minha mãe foi levada para a direita com as outras mulheres,
crianças, doentes e pessoas idosas. Cochichei para Isidore: “Por quê?” Ele não
respondeu. Corri para o lado de mamãe e disse que queria ficar com ela. “Não,”
disse ela firmemente. “Saia daqui. Não me aborreça. Vá com seus irmãos.” Ela
jamais me falara tão duramente antes, mas eu entendi: mamãe estava me
protegendo. Ela me amava tanto que, apenas por esta vez, ela fingiu não
fazê-lo. Foi a última vez que a vi.
Meus irmãos e eu fomos transportados num vagão de gado até a
Alemanha. Chegamos ao campo de concentração de Buchenwald numa noite várias
semanas depois, e fomos levados até um barracão lotado. No dia seguinte,
recebemos uniformes e números de identificação. “Não me chamem mais de Herman,”
eu disse aos meus irmãos. “Chamem-me de 94983.” Fui designado para trabalhar no
crematório do campo, colocando os mortos num elevador operado à manivela. Eu,
também, me sentia morto. Endurecido, tinha me tornado um número. Em pouco
tempo, meus irmãos e eu fomos enviados a Schlieben, um dos sub-campos de
Buchenwald perto de Berlim.
Certa manhã, pensei ter ouvido a voz de minha mãe. “Filho,”
dizia ela suave mas claramente, “estou enviando um anjo para você.” Então
acordei. Fora apenas um sonho. Um lindo sonho. Porém num lugar daqueles não
poderia haver anjos. Apenas trabalho, fome, e medo. Alguns dias depois, eu
estava trabalhando no campo por trás dos barracões, perto da cerca de arame
farpado onde os guardas não podiam ver com facilidade. Eu estava sozinho. No
outro lado da cerca, divisei alguém, uma garota com cachos claros, quase luminosos.
Estava meio escondida por trás de uma bétula. Olhei ao redor para me certificar
que ninguém podia me ver, Chamei-a baixinho em alemão. “Você tem alguma coisa
para comer?” Ela não entendeu. Aproximei-me mais da cerca e repeti a pergunta
em polonês.
Ela deu um passo à frente. Eu era magro e macilento, com
trapos ao redor dos pés, porém a menina não parecia assustada. Em seus olhos,
eu via vida. Ela tirou uma maçã da sua jaqueta de lã e atirou-a por cima da
cerca. Agarrei a fruta e, quando comecei a me afastar correndo, ouvi-a dizer
baixinho: “Eu te vejo amanhã.”
Eu voltava ao mesmo ponto da cerca todos os dias à mesma
hora. Ela estava sempre lá, com alguma coisa para eu comer; um pedaço de pão,
ou melhor ainda, uma maçã. Não ousávamos conversar ou demorar ali. Ser apanhado
significava a morte para nós dois. Eu não sabia nada sobre ela, “apenas uma
garota da fazenda”, exceto que ela entendia polonês.
Qual era seu nome? Por que arriscava a vida por mim? A
esperança era um artigo tão raro, e esta menina do outro lado da cerca me dava
alguma, algo para me nutrir como faziam as maçãs e o pão.
Quase sete meses depois, meus irmãos e eu fomos colocados
num carro de carvão e enviados para o campo Theresienstadt na Checoslováquia.
“Não volte,” disse eu à garota aquele dia. “Estamos partindo.” Voltei-me em
direção às barracas e não olhei para trás, nem sequer disse adeus à menina cujo
nome eu jamais soube, a garota com as maçãs.
Ficamos em Theresientadt por três meses. A guerra estava
diminuindo e as Forças Aliadas estavam se aproximando, porém meu destino
parecia selado. Em 10 de maio de 1945, eu estava agendado para morrer na câmara
de gás às 10 da manhã. No silêncio da madrugada, eu tentava me preparar. Tantas
vezes a morte parecera me chamar, mas de alguma forma eu tinha sobrevivido.
Agora, tudo estava acabado. Pensei nos meus pais. Pelo menos, estaríamos
reunidos. Às 8 da manhã, houve uma comoção. Ouvi gritos, e vi pessoas correndo
para todo lado através do campo. Consegui reunir-me aos meus irmãos.
As tropas russas tinham libertado o campo! Os portões foram
abertos. Todos estavam correndo, portanto fiz o mesmo.
Surpreendentemente, todos os meus irmãos tinham sobrevivido;
não sei como. Porém eu sabia que a garota com as maçãs tinha sido a chave da
minha sobrevivência. Num lugar onde o mal parecia triunfar, a bondade de uma
pessoa tinha salvado a minha vida, tinha me dado esperança onde não havia
nenhuma. Minha mãe tinha prometido me enviar um anjo, e o anjo tinha vindo.
Com o tempo, consegui chegar à Inglaterra onde fui ajudado
por uma instituição de caridade judaica, colocado num abrigo com outros meninos
que tinham sobrevivido ao Holocausto e treinado em eletrônica. Então cheguei
aos Estados Unidos, onde meu irmão Sam já estava morando. Alistei-me no
exército americano durante a Guerra da Coréia e ao ser desembarcado na Itália,
me apaixonei. Porém meus irmãos disseram: “Você partiu solteiro, volte para
casa solteiro.” Por algum motivo, escutei-os e voltei à cidade de Nova York
após dois anos, sozinho.
Em agosto de 1957 abri minha loja de consertos eletrônicos.
Eu estava começando a me estabelecer. Um dia, meu amigo Sid, que eu conhecia
desde a Inglaterra, telefonou-me. “Tenho um amigo que conhece uma moça da
Polônia. Acho que você deveria encontrá-la.”
Um encontro às cegas? Não, aquilo não era para mim. Porém
Sid ficava insistindo, e alguns dias depois fomos ao Brooklyn para encontrar
Roma (Rivca). Tive de admitir, para um encontro às cegas até que não foi tão
mau. Roma era enfermeira num hospital do Bronx. Era simpática, inteligente e
cheia de vida.
Fomos de carro até Coney Island. Ela era uma pessoa
agradável para conversar, uma boa companhia. Também estava cansada de encontros
às cegas! Nós dois estávamos apenas fazendo um favor para amigos. Demos um
passeio pelo calçadão na praia, apreciando a brisa do Atlântico, e depois
jantamos ali perto. Achei a noite muito divertida. Voltamos ao carro de Sid,
Roma e eu no banco traseiro. Como judeus europeus que tinham sobrevivido à
guerra, sabíamos que havia muita coisa que ainda não fora dita entre nós. Ela
aventou o assunto: “Onde você estava durante a guerra?”
“Nos campos,” eu disse, as terríveis lembranças ainda
vívidas, a perda irreparável. Eu tinha tentado esquecer. Mas jamais se pode
esquecer.
Ela assentiu. “Minha família estava escondida numa fazenda
na Alemanha, não muito longe de Berlim. Meu pai conhecia um padre, e ele nos
conseguiu documentos arianos.”
Imaginei como ela deveria ter sofrido também, tendo o medo
como companheiro constante. E apesar de tudo ali estávamos nós, ambos
sobreviventes, num novo mundo. “Havia um campo perto da fazenda,” continuou
Roma. “Eu via um garoto ali e lhe jogava maçãs todos os dias.”
Que coincidência estranha ela ter ajudado algum outro
menino. “Como era ele?” perguntei.
“Era alto. Magro. Faminto. Devo tê-lo visto todos os dias
durante seis meses.” Meu coração estava pulando, eu não podia acreditar! Isso
não era possível.
“Ele disse a você certo dia para não voltar porque ele
estava deixando Schlieben?”
Roma olhou-me surpresa. “Sim.”
“Era eu!” Eu estava prestes a explodir de alegria e
reverência, inundado pela emoção. Não podia acreditar. Meu anjo.
“Não vou deixá-la ir,” eu disse a Roma.
E na traseira do carro naquele encontro às cegas, eu a pedi
em casamento. Não queria esperar.
“Você está louco!” disse ela. Porém convidou-me para
conhecer seus pais no jantar do Shabat, na semana seguinte. Havia tantas coisas
que eu queria saber sobre Roma, porém as mais importantes eu já sabia; sua
firmeza de caráter, sua bondade. Durante muitos meses, na pior das
circunstâncias, ela tinha ido até a cerca e me dado esperança. Agora que eu a
encontrara de novo, não a deixaria ir. Naquele dia, ela disse sim. E eu mantive
minha palavra. Após quase 50 anos de casamento, dois filhos e três netos, eu
jamais deixei-a ir.
Uma das
questões recorrentes na minha vida é a capacidade da ciência para esclarecer
acontecimentos inexplicáveis. Muitos de meus amigos próximos têm uma admiração
profunda pelo misticismo, com o qual não me identifico. Minha mulher, Ellen, e
eu discutimos sobre tudo, desde OVNIs até cura espiritual. Na minha opinião,
tudo isso é fantasia, mas para ela são possibilidades fascinantes.
Filho de
médico, sempre admirei a ciência e seu método rigoroso. Portanto, de modo
geral, não acredito em algo que não possa ser medido e repetido de forma
precisa. Ellen, no entanto, crê que há no universo muitos acontecimentos que
ninguém pode explicar de forma exata - nem agora, nem nunca.
Mas um
incidente singular transformou nossa discussão normalmente afável em algo mais
sério. Naquela época, morávamos em Nova York. Num domingo de manhã, a mãe de
Ellen, Elizabete, telefonou de Yakima, no estado de Washington , onde morava.
Depois de um animado “Oi, mãe”, minha mulher ficou em silêncio, só ouvindo.
Pela expressão preocupada em seu rosto, pude perceber que a mãe estava
aborrecida.
Ele cobriu
o fone com a mão e disse:
- Ela
perdeu o diamante, a pedra do anel de noivado. Foi visitar uma colega, e ele
desapareceu em algum ponto do caminho.
E falou ao
telefone:
- Ah, mãe,
sinto muito! Eu sei como o anel é importante para você.
Sem
pensar, eu disse:
- Diga a
ela que não se preocupe. O diamante não está perdido, está no carro, embaixo do
banco dianteiro.
Ellen olhou
para mim, os olhos arregalados, incrédula, mas transmitiu o recado assim mesmo.
A mãe foi procurar o diamante e logo depois ligou de novo, dizendo que não
tinha conseguido encontrá-lo em nenhum lugar do carro.
- Bem,
está lá - eu disse.
Depois de
desligar o telefone, Ellen perguntou:
- O que
aconteceu com você?
A verdade
é que eu não tinha certeza. apenas encolhi os ombros e respondi:
- Somente
achei que soubesse. Talvez o universo estivesse falando comigo.
- Logo com
você!
E sorriu
de um jeito que me fez desejar ter ficado com a boca fechada.
VAMOS
AVANÇAR uns dois anos. Vivíamos ocupados, atarefados com a responsabilidade de
criar um filho. Eu raramente pensava no diamante perdido de Elizabeth. De
tempos em tempos, porém, um dos genros a visitava em Yakima. O episódio do
diamante - e minha intuição de que ele estava no carro - passara a fazer parte
do folclore da família. Todos o procuravam, mas ninguém conseguia encontrá-lo.
Então, num
verão, planejamos passar uns dias na casa dos pais de Ellen. Gostávamos muito
de ir para lá. O pai tinha sido um empresário de sucesso e agora, aposentado,
tornara-se um aficionado do radioamadorismo. A mãe era uma das pessoas mais
racionais e cultas que já conheci. Achava divertido estar com eles. Além disso,
partilhavam da minha impaciência com o lado intuitivo e irracional da
experiência humana que tanto fascinava a filha deles. Às vezes nos uníamos
contra ela nas conversas à mesa do jantar.
Mas Ellen
não é superficial em seus pontos de vista e era capaz de encerrar as discussões
nos acusando de “pensar de forma linear e ficar presos a uma visão de mundo
rígida e cientificista”.
Na
primeira noite de nossa estada, o jantar estava delicioso, a conversa animada e
amistosa. Eu pressentia, no entanto, que Ellen esperava que eu tocasse no
assunto do diamante. Então, enquanto ela e nosso filho ajudavam a tirar a mesa,
eu disse para Elizabeth:
- Se você
me der uma lanterna, vou tentar achar seu diamante.
Três
cabeças se voltaram para mim como se eu tivesse falado numa língua
incompreensível. Somente Ellen não pareceu surpresa. Luke disse:
- Não vai
conseguir, pai.
É verdade,
pensei. Não vou conseguir. Mas a sorte estava lançada. O máximo que poderia me
acontecer era passar por um pequeno vexame. Mas seria bom deixar esse assunto
de lado para poder reafirmar minha visão racional do mundo sem a enfraquecer
com uma bobagem que eu mesmo criara.
Tentando
me tirar daquela situação delicada, meu sogro disse:
- Aquela
velha perua já fez tantas viagens ao depósito de lixo nesses dois anos que, se
um dia o diamante esteve lá, com certeza não está mais.
A própria
Elizabeth me olhou como se eu estivesse de brincadeira. Apesar disso, foi até a
cozinha e voltou com a lanterna. Desci ao porão e passei pela porta que leva à
garagem. O branco fosco do carro brilhava com a luz fluorescente vinda do
teto. Abri a porta do motorista e ajoelhei-me junto ao banco. O pai de Ellen,
de pé na porta da garagem, olhava-me com ar divertido. Empurrei a alavanca que
controla a posição do assento e o deslizei para trás a fim de ver o lugar onde
eu imaginava que o diamante estivesse. Não estava lá.
Exasperado,
falei em voz alta:
- Vamos lá, diamante! – E simultaneamente
levantei a almofada do banco, expondo um suporte metálico em forma de L. Envolvido
por um punhado de poeira, lá estava o diamante de Elizabeth. Olhei para ele,
incrédulo. O fato de a linda pedra brilhante estar mesmo onde eu indicara me
deixou nervoso.
Peguei o
diamante com cuidado, coloquei-o na palma da mão direita e fechei os dedos. Meu
sogro desapareceu pela porta e eu o segui até a cozinha.
Elizabeth
estava na pia, arrumando a louça do jantar. Estendi a mão fechada. Ela me olhou
intrigada e eu abri os dedos devagar.
Elizabeth
não esboçou qualquer reação. Tive a impressão de que estava tão certa de que eu
não encontraria o diamante que não conseguia vê-lo. Ela começava a voltar ao
trabalho, quando tornou a se virar para mim e gritou.
Houve uma
grande comoção na casa, enquanto Elizabeth mostrava a todos repetidamente seu tesouro
recuperado. Ficou tão entusiasmada que achei que eu iria herdar a pedra ali
mesmo. Sentou-se no sofá da sala, segurando o diamante nas mãos, com uma
expressão de assombro no rosto.
- Isso
quase me faz acreditar no que considero impossível - disse ela. - Você não tem ideia
do que significa para mim reaver o diamante.
Mais
tarde, reunimo-nos na cozinha, acalmando os ânimos após a surpresa da noite. Comecei
a explicar a todos que eu poderia facilmente ter deduzido o local onde era mais
provável que o diamante estivesse. Afinal eu tinha andado de carro com
Elizabeth muitas vezes, sabia como ela segurava no volante e fazia um movimento
brusco com o punho quando ligava a seta. Eu podia imaginar a mão batendo na
maçaneta da porta, a pedra voando do anel. tudo isso estava dentro da esfera da
possibilidade.
Quando
terminei a explicação, vi os quatros rostos sorrindo para mim, os olhares
mostrando absoluto descrédito.
- Por que
você não aceita que não sabe? - perguntou Ellen.
Somente seu pai teve a gentileza de
dizer:
- Bem,
pode ter acontecido dessa maneira. Com certeza ele é um bom observador.
Mas estava
claro que a maioria dos votos era para o prodígio do inexplicável.
Posteriormente,
Elizabeth informou à seguradora que o anel havia sido encontrado e devolveu o
dinheiro que recebera como indenização quando a pedra se perdera. O presidente da empresa de seguros enviou-lhe
uma carta dizendo que ela havia restaurado sua crença na humanidade, porque era
a primeira vez que alguém devolvia o dinheiro em um caso semelhante.
Minha
maior lembrança daquela noite extraordinária foi o sorriso de Ellen. Ela
parecia certa de que fatos desse tipo - tão distantes de minha compreensão ou
das lições da ciência - eram plenamente possíveis. Conscientizei-me de que nunca mais a venceria
nas discussões sobre a validade exclusiva dos métodos científicos, e considerei
isso um preço alto a pagar por ter encontrado a preciosa pedra de Elizabeth.
Ainda assim, a alegria que irradiava de seu rosto, sentada à minha frente
admirando a pedra que brilhava em sua mão, foi compensação suficiente.
Não sei
que lição tirar desse episódio, a não ser que talvez vivamos em um lugar muito
mais surpreendente e misterioso do que imaginamos. Ter encontrado o diamante de
Elizabeth foi importante não só para ela e para a seguradora, mas também para
mim. Não sei bem por que, mas sinto-me melhor em relação à vida por causa deste
episódio. Agora eu sei - por experiência própria - quem alguns fatos só se
explicam pela fé.
Não é
possível saber tudo que gostaríamos a respeito das pessoas que amamos, de nós
mesmos, do Criador. Enfim, encontrar o diamante reservou em meu Coração e em
minha mente um lugar para o assombro diante da vida, e isso eu não trocaria por
nada nesse mundo. É uma experiência quem valorizo muito.
"Alguns anos atrás, um Padre aceitou o desafio de implantar
uma Igreja numa cidade do interior e mudou-se para lá.
Certo dia, ele teve a oportunidade de pegar um ônibus de sua
casa até o centro da cidade. Quando ele se sentou, descobriu que o motorista
lhe dera 50 centavos acima de seu troco. Enquanto analisava o que fazer, pensou
consigo mesmo: 'É melhor você devolver esse dinheiro. Seria errado ficar com
ele.
Em seguida, outro pensamento lhe ocorreu: "Ah, esqueça!
São apenas 50 centavos; quem se preocuparia com essa pequena quantia? Afinal de
contas, a Empresa de ônibus ganha muito dinheiro; eles não vão sentir falta
dessa 'moedinha'. Fique com ela como uma 'bênção de Deus'. Fique quieto!
"Quando chegou ao ponto que iria descer, ele parou
momentaneamente na porta, e então entregou os 50 centavos ao motorista e
disse:
'você me deu troco a mais.'
O motorista, com um sorriso, respondeu: Você não é o novo
Padre da cidade?
Sim ele respondeu.
Bem, tenho pensado muito ultimamente em aceitar Jesus. Eu só
queria ver o que você faria se eu te desse dinheiro a mais... Eu vou fazer uma
visita a sua Igreja neste domingo.
Quando o Padre desceu do ônibus, se apoiou no poste de luz
mais próximo e disse:
Oh Deus, eu quase troquei meu compromisso contigo por 50
centavos!...
Nossas vidas são uma Bíblia aberta que as pessoas vão ler.
Este é um exemplo realmente assustador do quanto as pessoas
nos observam como cristãos e nos colocarão à prova!
Sempre fique de "Guarda" - e lembre-se:
Você carrega o nome de Cristo em seus ombros quando se diz 'cristão'.
Por isso, Cuidado com seus pensamentos; eles vão se
transformar em sentimentos.
Cuidado com seus SENTIMENTOS, eles vão se transformar em
PALAVRAS.
Cuidado com as PALAVRAS; elas revelam o estado do seu
CORAÇÃO.
Cuidado com o estado do seu CORAÇÃO, ele vai se transformar
em AÇÕES.
Cuidado com suas AÇÕES; elas vão se transformar em HÁBITOS.
Cuidado com seus HÁBITOS; eles vão revelar o seu CARÁTER.
Cuide bem do seu CARÁTER; ele vai determinar o seu DESTINO.
Cuidado também com quem você anda e a quem você dá ouvidos;
isso vai revelar quem, de fato, influencia sua vida. Cuidado com essas
influências; elas irão determinar ao lado de "quem" você vai passar a
ETERNIDADE!"
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, a
fim de se encontrar com João e ser batizado por ele. Mas João protestou,
dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”
Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está,
porque nós devemos cumprir toda a justiça!” E João concordou. Depois de
ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o
Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele.
E do céu veio uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado,
no qual eu pus o meu agrado”.
“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt
3,17)
Começamos o “Tempo Comum” do novo ano litúrgico (Ano A:
evangelista Mateus); ao longo deste ano vamos realizar um percurso
contemplativo, deixando-nos impactar pelos mais importantes acontecimentos da
vida pública de Jesus. É natural que comecemos com o primeiro relato deste
percurso, o batismo.
Sem dúvida, foi a experiência decisiva na vida de Jesus.
Ali, Ele tem clareza de ser o Messias, enviado pelo Pai, a serviço do Reino.
Jesus mergulha no rio Jordão e, ao sair das águas, experimenta uma “teofania”
(manifestação) que revela seu mistério mais profundo e que antecipa sua Páscoa. Jesus é proclamado oficialmente o “Filho amado do Pai” e sobre Ele desce o
Espírito.
Jesus se sente verdadeiramente o Filho amado do “Abbá”, e o
batismo deixa claro que o motor de toda sua trajetória humana é obra do
Espírito. Nesse sentido, o Batismo revela-se como um momento chave no percurso
de Jesus, marcando-o para toda sua vida; marcou sua experiência de Deus; marcou
a experiência de si mesmo e marcou o caminho que tinha adiante.
Em Jesus, essa tomada de consciência de quem é Deus n’Ele,
foi um processo que não terminou nunca. O relato do batismo está nos falando de
um passo a mais, embora decisivo, nessa tomada de consciência. O que a cena do
Batismo nos relata é uma autêntica conversão de Jesus, o que não quer dizer que
vivia uma situação de pecado, mas um profundo despertar de sua missão, em seu
caminhar para a plenitude.
Pela primeira vez, em sua condição humana, Jesus sente a
confissão do Pai sobre Ele; confessa-o como Filho. E lhe marca com os sinais do
amor: “Este é meu Filho o amado, no qual eu pus o meu agrado”. É a experiência
messiânica fundante que marcará para sempre: júbilo, confiança, disponibilidade,
fé profunda, fidelidade total, docilidade incondicional ao Pai e a seu desígnio
de salvação.
Em seu batismo, Jesus ficou como que “tatuado” pelo amor do
Pai. E por isso viveu numa total liberdade de espírito. Não importava se o
rejeitavam, pois Ele se sentia profundamente unido ao Pai. Não importava se o
criticavam, pois Ele se sentia marcado pelo amor do Pai. Não importava se os
seus lhe abandonavam, pois Ele se sentia “tatuado” pelo amor do Pai.
Jesus quer viver sempre sendo Filho amado, que ama a seu Pai
e, portanto, que ama o que seu Pai ama. Quer deixar-se apaixonar por aquilo que
seduzia o coração do Pai: a vida da criação, a vida digna dos seus filhos e
filhas, a quem também deixa transparecer um amor de predileção.
Essa experiência de ser “o Filho amado” será sua força vital
durante toda a vida de Jesus. E essa também deveria ser a experiência do(a)
seguidor(a) d’Ele: ser alguém “marcado como o(a) amado(a) de Deus”. Quando
descobre este sinal e esta “tatuagem” de ser também ele(ela) “o(a) amado(a),
o(a) predileto(a) de Deus”, então descobrirá o que é ser cristão(â),
compreenderá sua fé, entenderá as exigências do Evangelho, acolherá o grande
mandamento do Amor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado”.
Para amar como Ele amou, antes é preciso fazer a experiência
de sentir-se amado(a) pelo Pai.
Deixando-se conduzir pelo Espírito, Jesus se encaminha para
a plenitude humana, marcando-nos o caminho de nossa plenitude. Mas, é preciso
ser muito consciente de que só nascendo de novo, nascendo da água e do
Espírito, poderemos ativar todas as nossas possibilidades humanas. Não seguimos
de Jesus a partir de fora, como se tratasse de um líder, mas entrando, como
Ele, na dinâmica da vivência interior, onde o Espírito atua com liberdade. Daí
em diante, tudo o que dissermos e fazermos será a manifestação continuada do
Reinado de Deus, que experimentamos em nós mesmos.
Deus chega sempre a partir de dentro, não de fora. Nossa
mensagem “cristã” de doutrinas, normas e ritos, está muito distante daquilo que
Jesus viveu e pregou. O centro de sua mensagem consiste em convidar todos os
homens e mulheres a ter a mesma experiência de Deus que Ele teve. Depois dessa
experiência, Jesus vê com toda claridade que essa é a meta de todo ser humano e
pode dizer como disse a Nicodemos: “é preciso nascer de novo”. Porque Ele já
havia nascido da água e do Espírito.
Deus quer suscitar vibrações novas em nossas vidas e sua
Presença instigante desperta em nós o grande desejo de entrar em sintonia com
Seu coração. Abrir os olhos e os ouvidos à Presença e à ação de Deus nos faz
ficar atônitos, fascinados e sensíveis à voz divina que cada dia ressoa em
nosso interior.
Talvez Ele precise colocar outro ritmo em nossa existência,
que nos permita estar atentos e à escuta das surpresas que a vida des-vela. A
nós corresponde nos mobilizar e estar atentos aos movimentos do Seu Espírito e
dos acontecimentos.
A experiência do batismo de Jesus também é importante para
todos nós, seus(suas) seguidores(as), para compreender o verdadeiro sentido de
nossas vidas. As raízes de nossas histórias podem estar marcadas pelo amor ou
pelo desamor. Quando estas raízes estão marcadas pelo amor, crescemos em
harmonia conosco mesmo, em harmonia com os outros e em harmonia com o mundo.
Quando nossas raízes estão regadas pelo amor crescemos com segurança em nós
mesmos, com confiança nos outros e nossas vidas passam a adquirir o sentido da
unidade interior.
Somente aqueles(as) que mergulham nas águas do perdão, da
compaixão, do amor solidário..., saem marcados pelo Espírito e confirmados na
filiação. O mundo seria diferente se as pessoas, rompendo o medo e a
insegurança, se atrevessem a sair dos seus moldes, dos seus hábitos arcaicos,
das suas maneiras atrofiadas de pensar, sentir, amar...
Recordando os inícios do cristianismo, com João Batista
submergindo as pessoas no rio Jordão, não podemos deixar de dar um destaque
especial que também Jesus se submergiu. Jesus se submerge e experimenta,
escuta, sente, adquire lucidez... Essa passagem de Jesus é determinante para
nos abrirmos a uma experiência nova na vivência do seu seguimento. Ele nos
aproxima ao abraço refrescante de Deus, recebido nas águas. O que para os
outros foi purificação, perdão..., para Jesus é de um dinamismo incomparável.
Essa experiência O transforma, O faz ir além de si mesmo, rompendo visões
estreitas de Deus, quebrando conceitos antigos de religião...
Submergir-nos é sinônimo de deixar Deus, a Vida, trabalhar
em nós. A água, com sua força misteriosa, com sua capacidade de gestar vida, é
também um símbolo que nos move a abandonar o que é arcaico para deixar-nos
submergir no que é de Deus, nunca antigo, nunca ultrapassado. A água que corre,
que flui, sempre é nova. Deus Fonte inesgotável: Ruah, ar, alento, espírito,
dinamismo, puro fluir.
Encharcados de água, entramos no fluir daquele maravilhoso
início, quando a Ruah fluía e enchia nossa vida de alento e inspiração.
Precisamos nos atrever a submergir de novo, adentrando-nos por caminhos
desconhecidos, para descobrir nosso mapa interior e nossa verdadeira
identidade: “Filhos e filhas, amados(as) do Pai”.
Texto bíblico: Mt 3,13-17
Na oração: Na musicalidade da vida sinta a regência,
suave e delicada, do Grande Compositor, arrancando notas divinas da dispersão
caótica do seu cotidiano. Sinta a cadência da música divina que vibra, conduz e
vivifica. Receba, com gratidão, o mais leve toque das mãos providentes e ternas
do Grande Maestro.
Aguce seus ouvidos e escute até com os olhos a sinfonia que
brota do mais profundo de seu ser.
- Faça memória de sua experiência batismal; renove, junto ao
Jordão interior, seu compromisso batismal.