“Muitos anos de fecunda existência e de generoso ministério”
18 SETEMBRO 2017
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“Muitos anos de fecunda existência e de generoso ministério”, num telegrama assinado pelo secretário de Estado Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, o Papa Francisco celebra com essas palavras os 100 anos de vida festejados esta segunda-feira (18/09) pelo jesuíta Pe. Antonio Stefanizzi, durante longo tempo diretor geral da Rádio Vaticano, anuncia o rádio dos Papas.
O Papa recorda com “gratidão a solícita e competente obra” realizada pelo jesuíta a “serviço da Santa Sé, especialmente no âmbito dos meios de comunicação social”.
Em torno do meio-dia desta segunda-feira o secretário da Secretaria para a Comunicação vaticana, Mons. Lúcio Adrian Ruiz, visitou Pe. Stefanizzi para apresentar-lhe uma afetuosa saudação em nome do prefeito do dicastério, Mons. Dario Edoardo Viganò, e de todos os funcionários, continua a mesma fonte.
Ao presentear o festejado com “um ícone mariano”, Mons. Ruiz quis agradecer-lhe pelo serviço prestado à Santa Sé durante os anos transcorridos na Rádio vaticano e, em particular, “pela visão de vanguarda da comunicação que permitiu que a mensagem dos pontífices fosse difundida tempestivamente no mundo e que a informação vaticana estivesse passo a passo
com os tempos”.
Por sua vez, o aniversariante centenário expressou sua
“alegria” pelo serviço prestado e proximidade à Secretaria para a Comunicação
em seu empenho de renovação da comunicação da Santa Sé em prol da Igreja, ainda
reporta Radio Vaticano.
Ontem, à
tardinha, encontrei um casal de velhos, de mãos dadas, passeando. Eu, como
sempre, ia apressada, mas não deixei de olhar para aquele casal que transmitia
paz, tranquilidade. Mas a minha sensação foi de dó. “Que pena! Naturalmente cada
um está pensando: qual de nós dois vai partir primeiro? Que pena!” E fiquei
triste. E lá me fui pegar o ônibus, planejando um dos velhos morrer. Naturalmente
morrerá primeiro o velho; já está muito trôpego. Quando me sentei no ônibus
pensei: “Que mania tenho de transferir para os outros aquilo que penso! E por que
pensar em morte, se eles ainda estão vivos? Para que pensar no amanhã ao invés
de viver o hoje?” Perguntaram a Chico Anísio:
- E seu
sonho hoje, poeta, qual é?
- Nesta etapa da vida, o meu sonho é ver amanhã.
Não é
viver o amanhã, mas esperar o amanhã vivendo o hoje. Cada dia tem seu encanto
especial. Cada dia tem também a sua graça. Deus nos dá aquela graça do momento.
De que adianta ficar pensando e sofrendo o amanhã? Aqueles velhos vinham de mãos dadas. Isto é o
importante: dar as mãos. Um ajudar o outro na caminhada. Agradecer a Deus ter
chegado até aqui, dando um exemplo de amor. A atitude deles era a atitude de
quem ama: tranquilos, passeavam dando a volta ao quarteirão. Na sua caminhada
encontravam jovens, crianças e trabalhadores que voltavam para casa. E eles que
não precisavam mais ter pressa, passeavam sem correr, sem mais se preocupar com
o amanhã, com o futuro. O futuro já tinha chegado. Agora era olhar o céu e contemplá-lo;
naquele fim de tarde, apesar da poluição, estava muito azul.
Hoje, pela
manhã, quando voltava do meu passeio matinal, encontrei-os e eles pareciam rir “como
estão alegres!” pensei. Será que aquele casal estaria mesmo alegre ou eu é que
tinha conseguido descobrir alegria neles, quando antes só via tristeza? Fiquei pensando:
“a mesma coisa pode proporcionar alegria ou tristeza; depende muito do que está
dentro da gente.”
Aquele casal
poderá, em seu passeio matinal transmitir alegria ou tristeza. Mas de uma coisa
tenho certeza: ele transmitirá às pessoas que os veem tranquilidade ou amor. Com
as mãos dadas eles comunicam união, compreensão, ternura. O mais lindo, porém,
será que suas mãos estejam entrelaçadas nas mãos de Deus. Só assim á que na
ausência de um, o outro não desfalecerá porque uma Mão amiga e poderosa,
suavemente apertará a sua.
O espaço voltado para o público infantil chega a sua 5ª
edição
Desde 2013, as crianças têm lugar cativo dentro da
programação da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que
este ano acontece entre os dias 05 e 08 de outubro em Cachoeira, cidade
localizada a 130km de Salvador. A Fliquinha é o espaço da
garotada, com contações de histórias, bate-papos e apresentações teatrais e musicais, com curadoria de Mira
Silva e Lilia Gramacho.
Em 2017, como em todos os outros anos, a Fliquinha traz a
literatura nas mais diversas plataformas, seja no cinema, no teatro e na
música. Os autores e o livro possibilitarão às crianças revisitarem expressões
narrativas como objetos de prazer, de ludicidade e de descoberta. Esta será
a 5º edição do espaço que já faz parte da programação oficial da
Flica.
“Quando pensamos a programação, o nosso compromisso é atiçar
a natureza curiosa infantil através de uma programação que amplia o conceito do
livro, para o campo das multlinguagens, tendo como premissa um fio narrativo
que invoca aquilo que temos mais singular: a nossa capacidade de imaginar”
explica a Mira Silva.
Este ano a Fliquinha apresenta o show “Pé de
Maravilha”, projeto musical infantil do cantor Saulo, que mistura no
repertório, clássicos infantis da música popular brasileira, aos cheiros e
estímulos originários da floresta representada no palco por um jardim tropical.
“É uma satisfação muito grande, ter um artista como Saulo na nossa programação,
além de ele ser um grande nome da nossa música, no seu show, ele traz o
universo da natureza e da música para as crianças, principalmente nesse mundo
tão tecnológico”, completa a curadora.
Com mais de 20 atrações, nos quatro dias de evento, a
criançada pode esperar muita contação de histórias, espetáculos teatrais e
musicais, lançamento de livros, bate-papo com autores e muito mais. Orquestra
Rumpilezzinho, Carolina Cunha, Antonio Moreno, Renato Moriconi, Iara
Sydenstricker, Pablo Marutto, Renata Fernandes são alguns dos nomes nacionais e
locais já confirmados para a programação. Fliquinha acontece no
Cine-Theatro Cachoeirano, prédio tombado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional.
Flica 2017 - A sétima edição, que acontece entre
os dias 5 e 8 de outubro, traz para o Recôncavo Baiano influentes nomes da
literatura nacional e internacional, com programação para adultos e crianças.
Em 2017, estão programados debates literários, lançamento de livros,
exposições, apresentações artísticas, contações de histórias e saraus.
Todos os anos, escritores de diversos matizes se reúnem para
debater e interagir com o público, que tem acesso gratuito a todas as atrações do
evento. A festa costuma atrair mais de 20 mil visitantes a Cachoeira.
Uma novidade deste ano será a curadoria. O escritor e
jornalista Tom Correia assume a função ocupada, em 2016, por Emmanuel Mirdad,
um dos idealizadores e coordenador geral da Flica.
O Governo do Estado da Bahia apresenta a Flica 2017. O
projeto é realizado pela Cali e Icontent e tem patrocínio do Governo do Estado,
por meio do Fazcultura, e apoio do Hiperideal, Coelba e da Prefeitura Municipal
de Cachoeira.
Serviço
Festa Literária Internacional de Cachoeira - Flica 2017
Sempre fui fascinado por nomes. Quando era criança, me
lembro que os jornais e revistas volta e meia publicavam listas de nomes
incomuns. E sempre constavam Um Dois Três de Oliveira Quatro, Rolando
Escadabaixo de Andrade e Restos Mortais de Catarina, entre outros nomes,
próprios ou impróprios.
Outro dia procurei na internet a lista do TSE e descobri
outras pérolas, como Deusa do Amor Divino Tortieri, Danúbio Tarada Duarte,
Esparadrapo Clemente de Sá, Felicidade do Lar Brasileiro, Faraó do Egito Souza,
Fraternidade Nova York Rocha, Frankstein Júnior, Gêngis Khan Camargo e Graciosa
Rodela.
Mas a capacidade de criar nomes não parou por aí. Na lista
há outros eleitores também notáveis, como a Sra. Talvez Aberta Demais de
Oliveira, o Sr. Ácido Acético Etílico da Silva, o Dr. Alfredo Prazeroso
Texugueiro, Dr. Antônio Morrendo das Dores, Dona Defuntina de Souza Cruz, Dr.
Himineu Casamentício das Dores Conjugais e a Dona Ambrísia Estilingue Morretes.
O curioso é que esses nomes raros surgem às vezes por acaso.
Como muita gente sabe, meu amigo Millôr Fernandes foi batizado Milton Viola
Fernandes. Só que o escrivão do Méier, por criatividade ou analfabetismo,
deixou de grafar o tracinho horizontal da letra “t”, e, como se não bastasse,
sapecou um circunflexo no “o”. Assim, o Milton virou Millôr. Só aos 16 anos
Millôr descobriu sua nova velha identidade. Ficou felicíssimo.
Já a avó materna de minha musa e patroa chamava-se Violina —
pelo menos até ser matriculada na escola e ouvir pela primeira vez a lista de
chamada, quando descobriu que se chamava Deolinda. É que seu pai era português
e, ao pronunciar o nome da filha no cartório, o escrivão confundiu alhos com
bugalhos.
Há experiências ainda mais triviais. Meu filho mais velho,
Joaquim Pedro, nasceu três dias depois de Alexandre, primogênito de Egberto
Gismonti, meu parceiro de canções, em 1981. Fomos juntos batizá-los no
<SW,26>cartório da Rua Djalma Ulrich, em Copacabana. Lá chegando,
encontramos um admirador de música, que ficou feliz ao deparar conosco.
Combinamos que cada um de nós seria testemunha no registro dos filhos dos
outros. Para adiantar a burocracia, perguntei ao colega: “Qual é o nome do seu
filho?” E ele me respondeu: “Raôni”, com acento no o.”
Com muito jeito, procurei esclarecer que havia um cacique
indígena chamado Raoni, com acento no i. Mas o colega insistiu: “O meu é Raôni,
com acento no o.”
Só então percebi que, em matéria de nomes, não há o que
discutir: o que manda é a convicção dos pais. Se a cidadã ou cidadão quiser
batizar o filho com outros nomes que constam da lista do TSE, como Colapso
Cardíaco da Silva ou Maria Regina do Pinto Magro, tudo bem, tem todo o direito.
Mas pode ter certeza de que vai fazer a festa dos cronistas do futuro.
Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL,
eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31
de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou:
“Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete
vezes?”
Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até
setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu
acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto,
levaram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não
tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto
com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida.
O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, prostrado,
suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!’ Diante disso, o patrão
teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair dali, aquele empregado encontrou um de seus
companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a
sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’.
O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um
prazo, e eu te pagarei!’ Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou
jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia.
Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram
muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo.
Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado
perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias
tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’
O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos
torturadores, até que pagasse toda a sua dívida.
É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se
cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Paulo Ricardo:
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O perdão atrevido e criativo
“Senhor, quantas vezes devo perdoar...?” (Mt 18,21)
Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido
profundo do perdão. A maioria pensa que é forma de anistia do sentimento,
esquecimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo
do coração misericordioso; para uns o perdão significa passar por cima de um
erro ou violência; para outros, o perdão é próprio das pessoas frágeis...
De fato, o perdão não se encaixa confortavelmente dentro dos
padrões naturais do comportamento humano. Ele não nasce espontâneo dentro do
coração do ser humano. A capacidade de perdoar a si mesmo ou aos outros é a
marca registrada de uma personalidade madura. Representa considerável avanço em
relação ao mais primitivo desejo de vingança, retaliação e revide.
O perdão ataca, com todo vigor, aquilo que parece ser uma
lei de nossa história. Isso porque a lógica que regula as relações
inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhor dos casos, pela
lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.
No perdão, assume-se uma atitude que não contabiliza mesquinhamente o que se fez; deve-se ter um gesto inovador, um gesto criativo.
Caso contrário, fica-se prisioneiro da lógica repetitiva da violência. Perdoar
é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitude atrevida e ousada.
O perdão representa a inovação: cria espaço onde já não
impera mais a lógica da norma judiciária. Perdão não é esquecimento do passado,
é o risco de um outro futuro que não aquele imposto pelo passado ou pela memória
ferida. É convite à imaginação. É preciso aventurar-se no encontro com o outro.
Quem perdoa sabe estar correndo um risco, abandonando o
ajuste de contas pela força ou então renunciando à força do direito. Mas sabe
também que, sem esse risco, a história não terá nenhum futuro e a violência irá
se repetindo indefinidamente.
Sabemos que a violência não tem regra em si mesma, é pura
repetição. Já o perdão quebra a lógica do “olho por olho, dente por dente” e
cancela o movimento repetitivo da violência. Quem perdoa sai fora desse jogo,
arriscando a própria vida. O perdão quebra a cadeia lógica própria das
relações humanas, submetidas ao sistema de equivalência da justiça (cf. Mt.
5,38-42).
O seguidor de Jesus, ao entrar em sintonia com o Deus fonte
do perdão, ultrapassa toda imposição da justiça legal e abre espaço a uma nova
relação com o outro. Assim, o perdão, transformando as relações humanas, possui
a capacidade para revelar o rosto original de Deus.
O perdão é um ato não-humano, parece mesmo ser um ato
puramente divino. Joan Chittester chama o perdão “ o mais divino dos atributos
divinos”. “Perdoar - ela afirma -é ser como Deus”. Mas este ato divino nos é
revelado que ele está ao nosso alcance, porque Deus nos convida a ele. O perdão
é divino porque, para o ser humano, ele é verdadeiramente divino em seus
efeitos e em seu próprio processo.
Por isso, Jesus insiste fortemente sobre o perdão, porque
este é uma necessidade vital quando a vida foi ferida. Como presença visível do
perdão, Jesus se dirige a cada um com a força da torrente que jorra para a vida
eterna e quer conduzir a todos para aquela Fonte de comunhão que o Pai deseja,
a fim de que toda a vida esteja exposta ao Seu Amor.
Perdão é, em última análise, uma forma de amor, um amor que acolhe
o outro na sua fragilidade. Vai ao encontro do causador da ofensa com uma
compaixão que brota de uma consciência das próprias limitações, abrindo um novo
tempo, sem o veneno do ressentimento e da amargura.
O perdão é superlativo do amor. Reinhold Niebuh descreveu o
perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amor que reconstrói o passado. Só
quem doa amor ao ofensor dá-lhe as condições profundas de contrição, compunção,
compaixão e arrependimento, as quatro vias através das quais o ser humano pode
renascer de si mesmo e das trevas, trocando a morte pela vida.
Por ser o gesto mais difícil e elevado, o perdão é a única
forma de permitir ao ofensor a entrada de amor no seu coração. Qualquer forma
de cobrança, punição e vingança reforça a crueldade do ofensor e, de certa
forma, vai fazê-lo sentir-se justificado. Por isso, a originalidade do
cristianismo está na descoberta da grandeza do ser humano, no exercício da
única força capaz de mudar o mundo: o amor real. Não há revolução maior.
O perdão, então, resitua as pessoas na grande corrente da
vida; busca restabelecer um vínculo positivo entre vidas feridas, vidas que se
ferem e a vida que as rodeia. O perdão é uma experiência forte que reconecta
com a vida; ele quer abrir uma porta à vida, em um muro fechado de dores, de
sentimentos feridos, de autoagressividade. O perdão busca estabelecer uma
aposta pela vida. É um ato de realismo, em profundidade e a longo prazo.
Podemos falar, então, que o perdão ativo é terapêutico pois
desencadeia um processo de conversão, mobiliza todas as dimensões da pessoa,
reestrutura o universo relacional e abre a interioridade à alteridade. O
perdão reconstrutor, libera em nós as melhores possibilidades, riquezas
escondidas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir em nós, nossa verdade
mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis... É ele que
“cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para desvelar nossa própria
interioridade.
A força criativa do perdão põe em movimento os grandes dinamismos
da vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma
possibilidade de vida nova nunca ativada. Por isso, o perdão é expansivo,
ele abre um novo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ele
não se limita ao erro, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo; ele
destrava a vida, potencia o dinamismo do “mais” e o coloca em movimento em
direção a um amplo horizonte de sentido. É gesto gratuito e positivo de
encontro, de acolhida, de cordialidade, que se torna hábito de vida: até
“setenta vezes sete”.
O perdão é aquele que melhor revela a natureza do Deus Pai e
Mãe de infinita bondade. É a que revela igualmente o lado mais luminoso da
natureza humana. Por isso é a que mais humaniza as relações entre as pessoas.
Não apenas afetivo, mas efetivo. Não apenas implica mudança na disposição da
pessoa que perdoa, mas leva também a modificar a situação da pessoa perdoada. O
perdão liberta as pessoas para poderem cuidar de outras questões importantes na
vida; é uma obra de amor para com o outro e para consigo mesmo.
O ser humano é quebradiço por dentro e por fora. Mas o
perdão o redime, depositando nele algo que é maior que sua fragilidade.
Trata-se de um dinamismo que o ressuscita, o vivifica e o resgata. O que era
sucata, torna-se material para a construção do ser humano novo; o que era
motivo de vergonha, agora é impulso confiante e esperançoso; o que era sinal de
morte, agora ressurge para uma vida nova. A novidade interior se dinamiza para
fora e configura, por sua vez, a modalidade do comportamento diante dos outros.
Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade
fundamental do ser humano.
Texto bíblico: Mt 18,21-35
Na oração: O caminho para a libertação, a conversão e a
reconciliação conduz a uma nova identidade. Esta se revelará e será experimentada
no “colóquio de misericórdia”, com os olhos fixos no Crucificado: que fiz? que
faço? que farei por Cristo?
- Fazer “memória” dos momentos em que você experimentou a
força criativa do perdão do outro, ou foi presença por onde fluiu o verdadeiro
perdão.
A transposição do sentimento africano para o Brasil ocorreu
muito através das línguas que eles trouxeram para cá. A língua como
revestimento sensível da nossa humanidade, transposição dos laços profundos do
coração, da ancestralidade afetuosa que resistiu às atrocidades transatlânticas
– absurdas ações que duraram séculos. Dois continentes e um mar tingido de
sangue, não foram suficientes para destruir a beleza dos sentimentos
originários dos diversos povos africanos que chegaram por essas terras.
Os povos bantos, assim, foram os primeiros a chegarem nesse
país. De maneira que as línguas da raiz banto: Quimbundo, Quicongo, Umbundo,
entre outras influíram de forma substancial na formação do português
brasileiro, conseguiram influenciar nas diversas estruturas do idioma e
colocaram na vitrine da fala e escrita signos que nos religam a uma maneira de
sentir e pensar africano, que permaneceu e permanece na nossa forma de
demonstrar afeto e saber.
Assim, uma das palavras que está dentro dessa raiz
estruturante na constituição do português, ou “pretoguês” brasileiro (a qual me
atenho aqui) é a palavra “chamego”, ou mais africanamente escrita “xamego”.
O chamego é um sentimento de atração – repuxo civilizatório
ancestral íntimo – de negrxs que veio com os povos bantos da África e ganhou
campo fértil no Brasil. É lastro de afeto que compõe o ser, é o galanteio e o
bem-querer que se bem feito se chega ao xodó para daí se construir o dengo.
Talvez pode se equiparar com a paixão, mas a paixão na
cultura ocidental funciona mais como um desalinho dos sentidos, que pode pender
para algo bom ou ruim. Entre a tragédia e a benevolência a linha é tênue.
Diferente do chamego que é alinho manhoso dos sentidos. É sublimação positiva
dos sentimentos. É alinhamento ancestral.
Estar de chamego com alguém é estar preocupado em encantar a
pessoa do nosso desejo, há poesia e flerte libidinoso nisso, não é sentimento
murcho, preenche a existência. O chamego é força propulsora de beleza, é o
religamento dos continentes afastados, que se manifesta no frio que esquenta o
espírito a eriçar os pelos.
Além disso, pensando de maneira mais macro, o chamego nas
relações familiares e quilombolas é uma prática social de restabelecimento do
ser. Se a escravidão e o racismo trouxeram e trazem o banzo – dor e resistência
– o chamego cura, reestabelece, dar sentido onde tem desespero. Faz com que se
vislumbre o dengo e resista às intempéries estruturais que nos assola no mundo.
Por isso, antes do dengo tem o chamego. Tem que saber
“chamegar” para arar o terreno da afetividade na manha, assentar o xodó, fluir
de peles, prazeres e fertilidades, entrelaçar corações para erguer de forma
suprema o dengo.
Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no
Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista
e escritor de livro Infantil.