Nos dias 7 a 9 de junho, das 9:30 às 21 horas, a Editora
Letra Selvagem estará participando da 10ª Festa do Livro da USP Leste. Os
livros dos "autores selvagens" estarão disponíveis, com até 50% de
desconto. São romances, poesias, contos, crônicas, ensaios, de autores
brasileiros e estrangeiros, escolhidos a partir da qualidade e contribuição à
literatura. E entre eles o romance Os
Ventos Gemedores, de Cyro de Mattos, Prêmio Nacional do Pen Clube do Brasil, um
dos mais expressivos e tradicionais dos certames literários brasileiros.
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A Festa do Livro da USP - Leste será no formato híbrido. Ou
seja, presencialmente a Letra Selvagem vai estar com uma bancada e em seu site:
https://www.livrariaselvagem.com.br. Todos os livros da LS com até 50% de
desconto, no período de 07 a 09/06, estarão participando no grande evento
da USP Leste e no site da Editora. https://festadolivro.edusp.com.br/uspleste/editoras
VULCÂNICOS LABIRINTOS NO CORAÇÃO DA TERRA
No chão encharcado de sangue e lágrimas do Japará,
território imaginado pelo romancista, a narrativa labiríntica de Os Ventos
Gemedores reafirma a criatividade admirável de um autor aclamado pela crítica. “Cyro de Mattos possui uma personalidade vigorosa e
original, a condição humana dos personagens que surgem do seu conhecimento e de
sua emoção nada têm de artificialismo... O autor de Os Brabos pisa
chão verdadeiro, toca a carne e o sangue dos homens, entre sombras e abismos.”
Jorge Amado
“Começo bem o ano, lendo Os Brabos, em que Cyro de
Mattos põe muito sentimento dramático da vida, e muita vivência brasileira.
São histórias que ficam na lembrança da gente.”
Carlos Drummond de Andrade
“Extraordinária capacidade de dar aos aspectos mais típicos
da realidade nacional, em estilo profundamente impregnado da nossa fala
brasileira, a revelação de um escritor visceralmente nosso... admirável
ficcionista.”
Lavai o que há impuro, regai o seco e duro, curai o doente.
Dobrai toda dureza, o frio se aqueça,
no escuro conduzi
Dai à vossa Igreja, que espera e deseja
vossos sete dons.
Dai em prêmio ao forte uma santa morte. Alegria eterna.
Amém! Amém!
***
Deus, que animou a vida e a missão da primeira comunidade
cristã, com a força do Espírito Santo, ilumine os nossos corações e acenda
neles o fogo do seu amor,
para que sejamos testemunhas da Páscoa, com palavras e com a nossa vida.
Abençoe-nos o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Amém.
Solenidade de Pentecostes | Domingo, 5 de junho de 2022
Anúncio do Evangelho (Jo 20,19-23)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando
fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se
encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja
convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os
discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz
esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de
ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A
quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os
perdoardes, eles lhes serão retidos”.
“…soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito
Santo’” (Jo 20,22)
A liturgia da festa de Pentecostes deste
ano nos situa no momento do encontro do Ressuscitado com seus discípulos,
literalmente “trancados” numa sala, incapazes de romper seus medos, marcados
por uma profun-da tristeza e decepção.
O Ressuscitado, ao exercer o “ofício do consolar” (S.
Inácio), desperta novo ânimo naqueles homens desolados, graças ao sopro
vital do seu Espírito, que se torna ação criadora e rompedora de tudo que
limita. O Ressuscitado não só se apresenta e fala, mas comunica a si mesmo:
entrega o seu Espírito, Aquele mesmo que o conduzia criativamente pelas
estradas da Galiléia, instaurando o novo Reinado do Pai.
Pentecostes é, para os cristãos, a festa do Espírito.
Ao dizer que Deus é Espírito, estamos dizendo que Ele não é um “ser fechado em
si”, senão abertura, ser-para-os-outros. Chamamos Deus “Espírito” porque é
força criadora e criativa, alento no qual todas as coisas e os humanos se
sustentam. Toda a realidade, perpassada pelo dinamismo divino, só tem sentido
em Deus; todas as “coisas” são em Deus. Também o ser humano: ele existe
unicamente a partir do “sopro” do Espírito divino, que lhe dá autonomia e
liberdade.
Em outras palavras, o Espírito é o espaço
aberto do amor oblativo e presença que estabelece continuamente o “cosmos” em
meio ao “caos”; é Deus mesmo como força expansiva e como fundamento de vida de
tudo e de todos, como seio maternal e fecundante no qual podemos chegar à
existência verdadeira. Por isso, o ser humano nunca vive a partir de si
nem para si mesmo; existe imerso no Espírito divino e caminhando para o futuro
(o novo nascimento) ao qual o Espírito lhe abre.
“Recebei a Ruah”, assim deve ter dito Jesus.
Em sua língua materna, Jesus chamava o Espírito de “Ruah”. É uma pobreza
falar só do “Espírito Santo” e deixar de lado a riqueza semântica da “ruah”,
que, em hebraico, tem conotações muito mais ricas que o termo latino
“spíritus”.
Assim, a expressão hebraica “Ruah”, feminino de Deus,
significa a brisa, o “pairar” de Deus sobre as águas, o sopro impetuoso que
gera vida. Alento, vento, sopro, respiração, força, fogo... com nome feminino,
que fala de maternidade e de ternura, de vitalidade e carícia.
Assim como Jesus, pela força da “Ruah”, se encarnou e se
humanizou, também nós nos fazemos cada vez mais humanos, por obra da mesma
“Santa Ruah” de Deus. Ela nos faz pressentir o quanto amados somos, que, na
comunhão, nunca estamos sozinhos, e que esta é a hora para
cada um(a) de nós e o melhor momento que nos cabe
viver. Sob o impulso da “Ruah”, vivemos todos no "horário nobre da vida”.
É a “Ruah” quem nos move a superar os esquemas atrofiados da
vida e a assumir uma causa mobilizadora, centrada no Reino anunciado por Jesus.
É Ela que nos arranca das malhas do egoísmo, liberta-nos dos interesses
mesquinhos, faz-nos caminhar no terreno firme do amor, abre novos horizontes e
nos impulsiona a assumir ideais mais elevados de felicidade e realização
pessoal.
Ela continua presente na vida de todo(a) seguidor(a) de
Jesus e no seio de sua comunidade. Continua atuando através de muitas pessoas e
organizações que se comprometem radicalmente na luta contra tudo aquilo que
rompe os vínculos, alienam e desumanizam. A “Ruah” de Deus continua atuando na
história, embora aparentemente não a percebamos. Não é necessário fazer tanto
barulho para dizer que a “Ruah” está agindo através de um discreto silêncio.
Muitas vezes, não a sentimos porque atua de maneira muito simples, através de
gestos que podem passar desapercebidos.
Portanto, viver alentados pela e na Ruah é também um convite
a harmonizar sabiamente os opostos da vida: experiência de
fortaleza/experiência de debilidade, silêncio/palavra, trabalho/descanso,
partilhar/receber, presença/ausência, conectar/desconectar, saber caminhar
acompanhados/saber estar a sós saboreando a dimensão positiva e fecunda de uma
“solitude” (solidão habitada) que enriquece nosso mundo interior e fortalece
nossas opções e compromissos.
Por outro lado, as consequências de viver sem o
Espírito-Ruah, Espírito-Sophia, são realmente desastrosas. A vida cristã sem
“Ruah” se revela como um conjunto de normas em uma instituição a mais,
carregada de moralismo, doutrina estéril e ritualismos vazios. Fica obsoleta,
porque não interpreta os sinais dos tempos, odres velhos para vinho novo.
Sempre é a “Ruah” que nos unifica, Aquela que nos convida a
superar a divergência que é fruto de nosso falso eu. Nela, a diversidade nos
enriquece.
É a “Ruah” de Deus, do amor, do comunitário e do comum, do
povo de Deus. N’Ela já não é possível permanecermos fechados, pois Ela
transpassa as paredes e quebra os ferrolhos das portas, nos faz abertos de
coração e de mente, frente às reservas e às dúvidas do temor.
Com seus dons, compreendemos que o universo é nossa casa e
nós não somos estranhos nela, que a humani-dade não caminha no vazio de uma
existência do nada, senão rumo à Casa Comum do Pai, e que a senda é a dos
irmãos na comunidade, em direção a um horizonte sempre inspirador.
O ser humano, desde sempre existe enquanto está fundamentado
(protegido e potenciado) na Ruah.
Constituído de argila, como vaso nas mãos de um
ceramista, cada um recebe o sopro ou hálito divino. É a
própria Vida de Deus, o seu sopro vital, que faz surgir o
humano do húmus da terra. É a “Ruah” de Deus, inspirado no ser humano, que o
torna realmente humano.
Cada pessoa é portadora deste sopro de Deus e
desta força misteriosa que o impulsiona à plenitude.
O sopro de Deus impresso no mais profundo
de nosso ser, está enfaixado pela fragilidade da argila.
Somos a grande combinação resultante do sopro de Deus e da
argila que nos configura.
Cada um de nós é a força criativa de Deus
impressa em cada coração. O respiro ou hálito é o símbolo da presença do
Criador em nós. Sob o signo de Adão, nós somos, em primeiro lugar, criaturas de
Deus em comunhão com as demais criaturas, participando da mesma existência
criatural. Mas, pelo sopro do próprio Deus, somos “elevados” à
condição de imagem e semelhança d’Ele.
Então, tornamo-nos “criaturas abertas ao Espírito” e,
mais ainda, “criaturas habitadas pelo Espíri-to”; somos
argila, mas argila portadora da “Ruah”, argila aberta ao céu. Tornamo-nos,
assim, imagem do mundo diante de Deus e imagem de Deus diante do mundo.
Nos relatos bíblicos, a “Ruah de Deus” se revela sempre
“rompedora”, pois é Ela que “alarga o espaço de nossa tenda interior”. É como
se derrubasse as paredes, abrisse portas e janelas e nos oferecesse espaços
amplos de encontro. Desse modo, cabe mais gente em nossas vidas e a “Ruah” nos
ajuda a descobrir a fraternidade e sororidade como um dom.
A “Ruah Santa” é aquela que faz estremecer as estruturas,
que toca nos lugares mais profundos e nossos. Ela vem como gesto de Deus que
arranca nossas vidas do porto seguro da acomodação e nos lança para os mares
abertos do novo e das surpresas. Nela, quanto mais navegamos, mais descobrimos novos
mares.
E nunca faltará o Vento ao nosso veleiro.
Texto bíblico: Jo 20,19-23
Na oração: “Vem, Santa Ruah!”: é o clamor,
o gemido, a oração universal. Melhor: é a Ruah quem clama, geme e ora no
mais profundo de seu ser e no mais profundo de tudo quanto existe. O universo é
oração.
- Deixe a Ruah fluir livremente; assim, a vida espiritual
será para você aquela vida na qual a Ruah poderá se mover sem obstáculos. Uma
espiritualidade holística que experimenta a presença d’Ela na totalidade de sua
vida, em todas as dimensões da realidade: a história, a natureza, a
interioridade, as relações humanas, a luta pela justiça, o descanso, o trabalho
etc. Todos estes são lugares onde a Ruah se manifesta.
- Como exercício prático, localize em sua vida os momentos
de profundas mudanças nos quais você se atreve a chamar “Pentecostes”, porque
lhe fizeram descobrir em seu interior, a presença da Ruah de um modo novo, mais
vivo e vigoroso; porque lhe fizeram ver as pessoas e a realidade com
reverência; porque lhe fizeram sair de visões e atitudes estreitas; porque lhe
tornaram diáfano (transparente) da presença de Deus no cotidiano de sua vida...
- Em sintonia com toda a Criação, abra espaço à presença e
voz da “Ruah” em seu coração.
Antônio de
Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de
abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia
Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871.
Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu
sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia
ninguém, despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou
indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais
tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de
Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande
homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra
glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...
Quando
Caboclo raptou a namorada, a cidadezinha ficou apinhada de cochichos, pelos
becos, pelas esquinas, por cima dos passeios. Notei a diferença lá em casa.
Minha mãe
falava meio abafado com minha tia, pelos cantos. Primeiro, na porta da cozinha.
Ao pressentirem minha presença, elas calavam a boca; depois, prosseguiam no
mesmo, de cochichada. Eu, sonsando, entendia somente as palavras soltas e
frases curtas que não faziam nenhum sentido – “Etelvina”, “seis horas”, “o
defeito dele é ser pobre”. Num momento fiquei de olho dura para minha mãe.
“Saia daqui, menino abelhudo”, exclamou minha tia, arregalando os olhos para
mim. Só vim saber da encrenca no outro dia, por conversinha de rua.
O sujeito
havia roubado Etelvina. Eu o conhecia de perto, ele jogando futebol; tinha as
pernas finas e cabeludas como de macaco. No dia seguinte à ocorrência do rapto,
os dois casaram na presença do padre, do delegado de polícia, do pai dela, do
Juiz de Paz e de dois praças.
Caboclo
tinha muitos predicados contra si, entre outros, ser jogador de futebol,
negócio de malandro, naquele tempo; tocador de violão – ainda pior -, e dono de
uma padaria mixuruca que os trocistas chamavam de pinoia; produzia cem
pãezinhos por dia. Daí as embirrações dos familiares da moça. Mas, como paixão
é coisa perigosa, o romance resultou no rapto da moça que teria ocorrido de
canoa, à boquinha da noite. Ela, portando uma valise com alguns pertences
pessoais, saltou com ele no outro lado do rio e foi confinada na fazenda de uma
família íntima.
A
instantes, os boatos ganharam as ruas; o disse-me-disse enramou-se por toda
parte. Já tarde da noite, a irmã mais velha de Etelvina apareceu chorosa lá por
casa, enxugando os olhos com um lenço bordado. Soluçando – ninguém sabe se de
verdade ou de mentira, ela conversava sôfrega com minha mãe, com minha tia, as
três sentadas em torno da mesa preta e comprida da sala de jantar.
A cidade
mudou de repente. As ruas, normalmente silenciosas e escuras como breu quando a
noite caía, regurgitavam assim de gente; os quatro soldados do destacamento
local saíram perfilados para as ruas. Fuzis a tiracolo, cartucheiras
atravessadas pelos peitos, rostos erguidos, enfatuados. Num bar iluminado a
carbureto, pessoas se juntavam murmurando entre si, umas soltando risadinhas
espremidas; outras, pensativas, fingindo-se preocupadas. Um sujeito estonteado
que costumava mijar pelos passeios dos outros, gritava vez em quando: “Você
viu? Tomou no xibiu!”. Enquanto pulava, batia palmas e mexia a bunda. Seu
Guilardo, dono de uma farmácia, alisava o cavanhaque ruivo e dizia, enfático:
“Vocês tão vendo? Sinal dos tempos! Quem diria, uma menina daquela idade...
coitada, agora foi pro brejo”. Pessoas ao redor ouviam admiradas, as
ponderações de seu Guilardo, aprovando-o perfeitamente. Segundo seu Ribeiro,
agente dos Correios e homem dos mais sérios do lugar, ele próprio vira o pai de
Etelvina escorado na janela, azeitando uma arma de fogo, ruminando como boi
acuado. “Aquele moleque vai ver com quantos paus se faz uma cangalha!” –
rosnava.
Como eu
disse, Etelvina e Caboclo casaram policiados. Ele, em manga de camisa, sem
gravata; ela, sem véu, sem grinalda. Depois do ato deixaram a cidade,
certamente fugindo dos lenga-lengas que permaneceram nem sei quanto tempo. Não
sei, também, o quanto duraram as hostilidades entre as duas famílias. O pai de
Etelvina estribava: “Não quero vê-la nem morta!”
(LINHAS INTERCALADAS)
Ariston Caldas
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Ariston
Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia, em 15 de dezembro de
1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois
Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de
profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e
Jornal da Bahia e fundou o periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos
Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator
da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi
também diretor da Rádio Jornal.