Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Pe. Adroaldo Palaoro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pe. Adroaldo Palaoro. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de junho de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (266)



Solenidade de Pentecostes | Domingo, 5 de junho de 2022


Anúncio do Evangelho (Jo 20,19-23)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

---

Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


---

O vento (santa Ruah) sopra a teu favor

 


“…soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22) 

 

A liturgia da festa de Pentecostes deste ano nos situa no momento do encontro do Ressuscitado com seus discípulos, literalmente “trancados” numa sala, incapazes de romper seus medos, marcados por uma profun-da tristeza e decepção.

O Ressuscitado, ao exercer o “ofício do consolar” (S. Inácio), desperta novo ânimo naqueles homens desolados, graças ao sopro vital do seu Espírito, que se torna ação criadora e rompedora de tudo que limita. O Ressuscitado não só se apresenta e fala, mas comunica a si mesmo: entrega o seu Espírito, Aquele mesmo que o conduzia criativamente pelas estradas da Galiléia, instaurando o novo Reinado do Pai.

Pentecostes é, para os cristãos, a festa do Espírito. Ao dizer que Deus é Espírito, estamos dizendo que Ele não é um “ser fechado em si”, senão abertura, ser-para-os-outros. Chamamos Deus “Espírito” porque é força criadora e criativa, alento no qual todas as coisas e os humanos se sustentam. Toda a realidade, perpassada pelo dinamismo divino, só tem sentido em Deus; todas as “coisas” são em Deus. Também o ser humano: ele existe unicamente a partir do “sopro” do Espírito divino, que lhe dá autonomia e liberdade.

Em outras palavras, o Espírito é o espaço aberto do amor oblativo e presença que estabelece continuamente o “cosmos” em meio ao “caos”; é Deus mesmo como força expansiva e como fundamento de vida de tudo e de todos, como seio maternal e fecundante no qual podemos chegar à existência verdadeira. Por isso, o ser humano nunca vive a partir de si nem para si mesmo; existe imerso no Espírito divino e caminhando para o futuro (o novo nascimento) ao qual o Espírito lhe abre. 

Recebei a Ruah”, assim deve ter dito Jesus. Em sua língua materna, Jesus chamava o Espírito de “Ruah”.  É uma pobreza falar só do “Espírito Santo” e deixar de lado a riqueza semântica da “ruah”, que, em hebraico, tem conotações muito mais ricas que o termo latino “spíritus”.

Assim, a expressão hebraica “Ruah”, feminino de Deus, significa a brisa, o “pairar” de Deus sobre as águas, o sopro impetuoso que gera vida. Alento, vento, sopro, respiração, força, fogo... com nome feminino, que fala de maternidade e de ternura, de vitalidade e carícia.

Assim como Jesus, pela força da “Ruah”, se encarnou e se humanizou, também nós nos fazemos cada vez mais humanos, por obra da mesma “Santa Ruah” de Deus. Ela nos faz pressentir o quanto amados somos, que, na comunhão, nunca estamos sozinhos, e que esta é a hora para cada um(a) de nós e o melhor momento que nos cabe viver. Sob o impulso da “Ruah”, vivemos todos no "horário nobre da vida”. 

É a “Ruah” quem nos move a superar os esquemas atrofiados da vida e a assumir uma causa mobilizadora, centrada no Reino anunciado por Jesus. É Ela que nos arranca das malhas do egoísmo, liberta-nos dos interesses mesquinhos, faz-nos caminhar no terreno firme do amor, abre novos horizontes e nos impulsiona a assumir ideais mais elevados de felicidade e realização pessoal.

Ela continua presente na vida de todo(a) seguidor(a) de Jesus e no seio de sua comunidade. Continua atuando através de muitas pessoas e organizações que se comprometem radicalmente na luta contra tudo aquilo que rompe os vínculos, alienam e desumanizam. A “Ruah” de Deus continua atuando na história, embora aparentemente não a percebamos. Não é necessário fazer tanto barulho para dizer que a “Ruah” está agindo através de um discreto silêncio. Muitas vezes, não a sentimos porque atua de maneira muito simples, através de gestos que podem passar desapercebidos. 

Portanto, viver alentados pela e na Ruah é também um convite a harmonizar sabiamente os opostos da vida: experiência de fortaleza/experiência de debilidade, silêncio/palavra, trabalho/descanso, partilhar/receber, presença/ausência, conectar/desconectar, saber caminhar acompanhados/saber estar a sós saboreando a dimensão positiva e fecunda de uma “solitude” (solidão habitada) que enriquece nosso mundo interior e fortalece nossas opções e compromissos.

Por outro lado, as consequências de viver sem o Espírito-Ruah, Espírito-Sophia, são realmente desastrosas. A vida cristã sem “Ruah” se revela como um conjunto de normas em uma instituição a mais, carregada de moralismo, doutrina estéril e ritualismos vazios. Fica obsoleta, porque não interpreta os sinais dos tempos, odres velhos para vinho novo.

Sempre é a “Ruah” que nos unifica, Aquela que nos convida a superar a divergência que é fruto de nosso falso eu. Nela, a diversidade nos enriquece.

É a “Ruah” de Deus, do amor, do comunitário e do comum, do povo de Deus. N’Ela já não é possível permanecermos fechados, pois Ela transpassa as paredes e quebra os ferrolhos das portas, nos faz abertos de coração e de mente, frente às reservas e às dúvidas do temor.

Com seus dons, compreendemos que o universo é nossa casa e nós não somos estranhos nela, que a humani-dade não caminha no vazio de uma existência do nada, senão rumo à Casa Comum do Pai, e que a senda é a dos irmãos na comunidade, em direção a um horizonte sempre inspirador. 

O ser humano, desde sempre existe enquanto está fundamentado (protegido e potenciado) na Ruah.

Constituído de argila, como vaso nas mãos de um ceramista, cada um recebe o sopro ou hálito divino. É a própria Vida de Deus, o seu sopro vital, que faz surgir o humano do húmus da terra. É a “Ruah” de Deus, inspirado no ser humano, que o torna realmente humano.

Cada pessoa é portadora deste sopro de Deus e desta força misteriosa que o impulsiona à plenitude.

sopro de Deus impresso no mais profundo de nosso ser, está enfaixado pela fragilidade da argila.

Somos a grande combinação resultante do sopro de Deus e da argila que nos configura.

Cada um de nós é a força criativa de Deus impressa em cada coração. O respiro ou hálito é o símbolo da presença do Criador em nós. Sob o signo de Adão, nós somos, em primeiro lugar, criaturas de Deus em comunhão com as demais criaturas, participando da mesma existência criatural. Mas, pelo sopro do próprio Deus, somos “elevados” à condição de imagem e semelhança d’Ele.

Então, tornamo-nos “criaturas abertas ao Espírito” e, mais ainda, “criaturas habitadas pelo Espíri-to”; somos argila, mas argila portadora da “Ruah”, argila aberta ao céu. Tornamo-nos, assim, imagem do mundo diante de Deus e imagem de Deus diante do mundo. 

Nos relatos bíblicos, a “Ruah de Deus” se revela sempre “rompedora”, pois é Ela que “alarga o espaço de nossa tenda interior”. É como se derrubasse as paredes, abrisse portas e janelas e nos oferecesse espaços amplos de encontro. Desse modo, cabe mais gente em nossas vidas e a “Ruah” nos ajuda a descobrir a fraternidade e sororidade como um dom.

A “Ruah Santa” é aquela que faz estremecer as estruturas, que toca nos lugares mais profundos e nossos. Ela vem como gesto de Deus que arranca nossas vidas do porto seguro da acomodação e nos lança para os mares abertos do novo e das surpresas. Nela, quanto mais navegamos, mais descobrimos novos mares.

E nunca faltará o Vento ao nosso veleiro.

Texto bíblico:  Jo 20,19-23

Na oração: “Vem, Santa Ruah!”: é o clamor, o gemido, a oração universal. Melhor: é a Ruah quem clama, geme e ora no mais profundo de seu ser e no mais profundo de tudo quanto existe. O universo é oração.

- Deixe a Ruah fluir livremente; assim, a vida espiritual será para você aquela vida na qual a Ruah poderá se mover sem obstáculos. Uma espiritualidade holística que experimenta a presença d’Ela na totalidade de sua vida, em todas as dimensões da realidade: a história, a natureza, a interioridade, as relações humanas, a luta pela justiça, o descanso, o trabalho etc. Todos estes são lugares onde a Ruah se manifesta.

- Como exercício prático, localize em sua vida os momentos de profundas mudanças nos quais você se atreve a chamar “Pentecostes”, porque lhe fizeram descobrir em seu interior, a presença da Ruah de um modo novo, mais vivo e vigoroso; porque lhe fizeram ver as pessoas e a realidade com reverência; porque lhe fizeram sair de visões e atitudes estreitas; porque lhe tornaram diáfano (transparente) da presença de Deus no cotidiano de sua vida...

- Em sintonia com toda a Criação, abra espaço à presença e voz da “Ruah” em seu coração.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2591-o-vento-santa-ruah-sopra-a-teu-favor

* * *

domingo, 29 de maio de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (265)

 


Solenidade da Ascensão do Senhor | domingo, 29 de maio de 2022

 

Anúncio do Evangelho (Lc 24,46-53)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.

Vós sereis testemunhas de tudo isso. Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto”.

Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

---

Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira – Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


__

Ascenção: bênção que se espalha sobre a humanidade

 


Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os” (Lc 24,50) 

Segundo o relato de Lucas, na Ascenção, Jesus “desaparece” em Deus; Ele não se afasta da humanidade, mas continua presente de uma outra maneira: junto com o Pai e o Espírito faz sua “morada” no interior de cada pessoa.

Por isso, Jesus não deixa uma estrutura religiosa organizada (com sua hierarquia, seus ritos, leis, doutrinas...); Ele deixa na terra “testemunhas”, ou seja, aqueles(as) que comunicam a sua experiência de um Deus de bondade e contagiam com seu estilo de vida centrado no modo de agir e viver do próprio Jesus. Serão testemunhas cristificadas, trabalhando por um mundo mais justo e humano.

Mas Jesus conhece bem os seus discípulos; sabe que eles são frágeis e medrosos. Onde encontrarão a audácia para serem testemunhas de alguém que foi crucificado pelo representante do Império e pelos dirigentes do Templo? Jesus tranquiliza-os: “Eu enviarei a vós aquele que Pai prometeu”. Não lhes vai faltar a “força do alto”. O Espírito de Deus os defenderá. 

A “ausência física” de Jesus revelar-se-á, então, como oportunidade para fazer crescer a maturidade de seus seguidores. Ele lhes deixa o dom de seu Espírito que promoverá o crescimento responsável e adulto dos seus. É inspirador recordar isso nesse momento em que parece crescer entre nós o medo à criatividade, a tentação do imobilismo, a petrificação no ritualismo e na doutrina, ou a saudade de um cristianismo pensado para outros tempos e outra cultura.

A festa da Ascenção do Senhor nos recorda que, terminada a presença história de Jesus, vivemos “o tempo do Espírito”, tempo de criatividade e de crescimento responsável no seguimento de Jesus. O Espírito não nos oferece “receitas eternas”. Ele nos dá luz e alento para ir buscando caminhos sempre novos e alternativos para atualizar hoje o modo de ser e agir de Jesus. Assim Ele nos conduz para a verdade completa d’Aquele que sempre se revelou verdadeiro. 

Para expressar graficamente o último desejo de Jesus, o evangelista Lucas descreve a sua partida deste mundo de forma surpreendente: Jesus volta ao Pai levantando as suas mãos e abençoando os seus discípulos. É o seu último gesto. Jesus entra no mistério insondável de Deus e sobre o mundo faz descer a sua bênção. Seus seguidores começam sua peregrinação pelo mundo protegidos por aquela benção com a qual Jesus curava os enfermos, perdoava os pecadores, abençoava e acariciava as crianças...

Bênção atravessa toda a Bíblia, e quer atravessar também nossas vidas. Ela brota do olhar primeiro e amoroso de Deus que, admirado, viu que toda Criação era boa e preciosa. Também nossa missão, confiada pelo Ressuscitado, consiste em recuperar este olhar, esta benção original, sobre nós e sobre a terra; uma bênção que desperta admiração e assombro ao perceber a bondade e beleza no interior daqueles que não são considerados bons e dignos de beleza. 

A palavra “bênção” tem um sentido amplo e direto; procede do termo latino “benedictio” e significa “dizer bem”. Mas, determinados pelo nosso contexto social e político que preza pelo ódio, preconceito, maledicência, “fake news”..., a sensação que temos é que há uma curiosidade viral, uma excitação, um prazer mórbido em “dizer mal”, destruir reputações, emitir juízos moralistas, ferir e excluir o outro que pensa, sente e ama de maneira diferente. Há uma “maledictio” (“mal-dizer”) que paira em todos os meios de comunicação e redes sociais, envenenando relações, rompendo vínculos, criando divisões. E tudo isso emerge da interioridade petrificada das pessoas, alimentando um fúnebre processo de desumanização. O trágico é que essas manifestações de maldição são expressas por quem se confessa seguidor(a) d’Aquele que sempre foi presença visível da Verdade e fonte de perene Benção. Quanta incoerência no seguimento de Jesus Cristo!

“Não há pior patologia que essa dissipação da alma, esse olhar cheio de pré-juizos que nos torna pequenos e amargos, esse juízo que se deixa escravizar pelo defeito e pelo peso da imperfeição e depois não nos deixa sair até que ignoramos a liberdade. Não há exercício mais esterilizante que essa espécie de ressentimento expresso como anátema em relação com a vida, esse totalitarismo da queixa que, sem nos dar conta, nos asfixia, essa incapacidade de romper com a engrenagem da maldição sobre todos e sobre tudo, da qual nem nós mesmos escapamos” (Cardeal Tolentino).

Somos herdeiros(as) de uma benção, herdeiros(as) da doação e da esperança de tantos homens e mulheres que, ao longo da história, aliviaram sofrimento, recobraram dignidades e ajudaram a viver.

Agora, somos nós a geração portadora dessa benção. Presente, passado e futuro.

Como seguidores(as), esquecemo-nos que somos portadores(as) da bênção de Jesus. A nossa primeira tarefa é ser testemunha da Bondade de Deus, manter viva a esperança, não nos rendermos diante do “maledictio”.

Na Igreja de Jesus, temos esquecido que a primeira coisa a se fazer é promover uma “pastoral da bênção”. Temos de nos sentir testemunhas e profetas desse Jesus que passou a sua vida semeando gestos e palavras de bênção, de bondade e de misericórdia. Assim, despertou nas pessoas da Galiléia a esperança no Deus Salvador, abriu um horizonte de sentido. Jesus era uma bênção visível e as pessoas reconheciam isso.

Somos chamados a ser presença de “bênção”. Que todos aqueles que vivem situações de desamparo, de miséria, de desamor, de indefesa, de maldição... possam sentir em nós o prolongamento da Benção do Ressuscitado; possam sentir-se bem acolhidos, bem nomeados, bem olhados, bem-amados.

“Dizer bem”, “bendizer”, “abençoar”, é nossa vocação primordial, porque só isso desperta a consciência de que cada um de nós é portador(a) autorizado(a) de uma indestrutível benção, e esse é o modo de fazer justiça ao maravilhoso milagre que é estar vivos. “Dizer bem” é conectar-nos com aquela verdade mais profunda, que é o puro vínculo na ordem do ser. Sem essa ancoragem compassiva na raiz do nosso ser e no nosso modo cristificado de viver, não chegaremos a compreender verdadeiramente o enorme e misterioso pulsar da própria existência.

Cada um de nós depende – porque a vida é dom e confirmação reiterada do dom – daquilo que a benção desencadeia. Somos um elo na longa corrente de bênçãos; são inúmeras as pessoas que deixaram impregnadas em nosso coração a marca da bênção oblativa, aberta e desafiadora. Crescemos e amadurecemos sob o impulso da “benedictio” daqueles(as) que conviveram ou convivem conosco.

E, por isso, é tão importante buscar a benção, colocar-nos de seu lado luminoso, ativá-la e exercitá-la ao nosso redor. O tempo se ilumina quando nos deslocamos da sombra da “maledictio” e nos re-situamos na órbita da “benedictio”.

Assim se expressa a maravilhosa e antiga bênção irlandesa: “Que o caminho seja brando a teus pés,/ que o vento sopre leve em teus ombros./ Que o sol brilhe em teu rosto sem ferir-te,/ e as chuvas caiam serenas em teus campos./ E até que eu de novo te veja,/ Deus te guarde cada dia na palma de Sua mão”. 

Texto bíblico:  Lc 24,46-53 

Na oração: Todo(a) seguidor(a) de Jesus é “canal” de transmissão de Sua bênção que salva, eleva, exalta a dignidade de cada pessoa.

- Sua presença cotidiana é reveladora de “benedictio” ou “maledictio”, de elogio ou de maledicência, de vibração diante da nobreza do outro ou de queixa amarga?...

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2579-ascencao-bencao-que-se-espalha-sobre-a-humanidade

* * *

domingo, 17 de abril de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (261)



Páscoa do Senhor | domingo, 17 de abril de 2022


Anúncio do Evangelho (Jo 20,1-9)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.

Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.

Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou.

Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.

Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.

De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

---

Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


---

O Ressuscitado nos ensina a exercer o "ministério da consolação"

 


+ Na alegria da ressurreição, prepare a oração, criando um clima de profunda intimidade com o Ressuscitado.

+ Suplique a Deus o dom da alegria com Cristo Ressuscitado; que a experiência da Ressurreição o(a) impulsione a viver com mais intensidade em comunhão com toda a humanidade e toda a Criação.

+ Antes de “entrar em contemplação”, repasse os “pontos” seguintes:

 

Mestre Crucificado, Mestre Ressuscitado. O ensinamento de Jesus revelou-se inseparável de sua vida; em outras palavras, Ele ensinou com sua vida. Certamente, Jesus ensinou com parábolas, com gestos ousados... Mas, no final, o que educa de verdade é sua própria vida de Mestre amigo, terapeuta, compassivo, crucificado, ressuscitado... Por isso, não basta dizer que o ensinamento de Jesus “segue adiante”, mas que devemos acrescentar: Jesus mesmo, ressuscitado por Deus, é o autêntico educador.

Os relatos de suas Aparições nos revelam como Ele foi reconstruindo as pessoas, amigas e amigos, quebrados(as) pelo fracasso, pela tristeza, pela decepção... Jesus os(as) ressuscitou por dentro, despertando a vida bloqueada e abrindo o horizonte da missão. 

“Olhar o ofício de consolar que Cristo nosso Senhor exerce” (EE. 224). S. Inácio utiliza esta expressão quando apresenta, na 4ª Semana dos Exercícios, a contemplação das aparições do Ressuscitado.

Consolar é o que define a ação do Ressuscitado, transformando a situação dos seus discípulos e discípulas: a tristeza se converte numa alegria contagiosa, o medo em valentia e audácia, a negação de Jesus em profissão de fé e martírio... Não se trata de um ato pontual senão de um “ofício” , que definirá para sempre a atividade de seu Espírito no mundo.

Nas cenas evangélicas das aparições, o efeito da presença do Ressuscitado sobre os discípulos e discípulas termina sempre em reconhecimento, em chamado e envio, em restauração de uma vocação e missão.

Jesus ressuscitado exerce sobre eles(elas) um original “ofício de consolar”, cujo efeito é iluminar o caminho pelo qual, em seu nome e com Ele, eles e elas hão de percorrer. O “ofício de consolar” é a marca do Ressuscitado, é força recriadora e reconstrutora de vidas despedaçadas. Jesus “ressuscita” cada um dos seus amigos e amigas, ativando neles(as) o sentido da vida, reconstruindo os laços comunitários rompidos, e sobretudo, oferecendo solo firme a quem estava sem chão, sem direção... 

O verbo “consolar” tem, no hebraico, um sentido mais amplo e forte que nas línguas latinas, porque, muito mais que animar a alguém abatido, expressa a ação eficaz de conseguir com que desapareçam os motivos de seu abatimento. Neste sentido, consolar não é tão somente acompanhar senão, também, inclui a ação de dar esperança, uma esperança fundada, capaz de produzir uma mudança radical no estado de ânimo do outro.

Nos relatos das aparições de Jesus Ressuscitado, esta experiência de ficar consolado aparece muito evidente, porque passa-se da angústia do túmulo vazio à consolação na presença d’Aquele que vive; é a passagem da ausência desconcertante à presença significativa.

O Ressuscitado se aproxima como Presença viva que comunica Vida: deixa-se ver, caminha, fala, interpela, corrige, anima, transmite paz e alegria. Em uma palavra, presenteia seu Espírito.

Sua maneira de se fazer presente é pessoal, personalizante, identificadora: dizer o nome, suscitar recordações e experiências comuns, fazer vislumbrar projetos de futuro.

Outra vez Jesus recria a comunidade que, depois da Paixão, estava se desintegrando; e seus discípulos experimentam novamente o chamado e o envio, a serem testemunhas e cúmplices do Espírito, porque vivem a certeza existencial de que o Crucificado é o Ressuscitado, que a morte foi vencida, que Deus está constituído como Senhor.

Em meio à dor, os(as) discípulos(as) aprendem a confiar em Deus e a não se deixar levar pela tristeza.

alegria não começa quando acabam as dores; a alegria é uma opção de vida, expressão da confiança em Deus, que torna possível enfrentar o sofrimento com esperança. A alegria não suprime o sofrimento, mas lhe dá sentido. A alegria não desconhece o sofrimento, senão que o enfrenta com confiança. 

Em nosso uso habitual, a palavra “consolação” e o verbo “consolar” apontam para um profundo e rico significado: revelam um tipo de proximidade e comunhão com o outro capaz de lhe transmitir compreensão, alento, acolhida, impulso... ou seja, uma transmissão de energia que desperte nele suas próprias capacidades de reação diante de uma situação de tristeza, de fracasso, de desespero ou sofrimento...

Nos Exercícios Espirituais de S. Inácio, consolação e consolar são a linguagem e ação de Deus no ser humano, comunicação do Criador com a criatura, iniciativa de Deus que, quando é recebida com agradecimento e pureza, isto é, como dom gratuito e como escuta disponível, nunca deixam a pessoa consolada no mesmo lugar ou situação onde estava antes.

consolação de Deus é sempre dinamizadora daquilo que é mais divino no ser humano.

Por ser manifestação da comunicação do Espírito de Deus ao espírito humano, gera sempre na pessoa, amor, alegria, fé, entusiasmo..., e desemboca sempre na missão

Deus nos consola para que possamos consolar.

Na consolação, Deus nos chama a ser seus colaboradores. A consolação que recebemos do Senhor não nos é dada tendo em vista um desfrute narcisista e fechado deste dom espiritual, mas tem a finalidade de capacitar-nos para o “ministério da consolação”.

É um dom para a missão; se alguém se apropria dela como coisa pessoal, morre.

Dessa consolação de Deus, da qual nós mesmos e nosso mundo tanto necessitamos, somos chamados a fazer-nos receptores e mediadores.

Trata-se de uma consolação que é pura graça, que não está ao alcance de nossa mão dá-la a nós mesmos, nem dá-la aos outros, mas da qual podemos ser agradecidamente receptores e gratuitamente mediadores. Com isso, a consolação pode estender-se a outros muitos rincões da existência humana.

É tempo de autocompreender-nos e atuar frente aos outros como enviados a exercer ativamente o “ofício de consolar”, tendo sempre presente que a consolação verdadeira pertence somente ao Espírito, já que não é outra coisa que a gratuita autocomunicação do Deus trinitário à humanidade.

É Ele mesmo quem deseja compartilhar conosco este ofício, o ofício de consolar

Consolação e “ofício de consolar” nascem e vem precedidas pela experiência de uma alegria pura e totalmente desinteressada pelo Senhor. Alegria interna e verdadeira que procede e provoca a missão.

Nada mobiliza tanto como o agradecimento e nada revela tanto o agradecimento como a alegria pura pelo bem do outro. A gratuidade é o habitat natural da consolação e do consolado.

Todos somos chamados a prolongar este “ofício de consolar” de Jesus; a experiência da Ressurreição nos move a “descer” junto à realidade do outro (seus dramas, fracassos, perda de sentido da vida...) e exercer este ministério humanizador, ou seja, ministério entre iguais, “vida que desperta outra vida”.

É vida plenificada, iluminada, integrada... pela experiência de encontro com o Ressuscitado e que flui em direção à vida bloqueada, necrosada... ativando-a, despertando-a...

É movimento expansivo da vida.

Assim como a consolação é o canal privilegiado pelo qual Deus se comunica e atua em nós, o ofício do consolo” é o canal por onde flui a vida. 

Textos bíblicos:  Jo 20,11-18    Lc 24,13-35 

Na oração: faça “memória” das experiências de consolação, suscitadas pela Graça de Deus ao longo desta Quaresma

- Recorde pessoas que foram “presenças consoladoras” em sua vida.

- Traga à memória situações em que você foi o(a) mediador(a) da consolação de Deus. 

Iluminar a madrugada e tecer liberdade, nutrir a vida de compaixão e amizade, celebrá-la e oferecê-la de verdade, orar... Esse é o movimento de Ressurreição? É isto que o evangelista João quer destacar quando escreve que Madalena “saiu correndo”, que Pedro e João “corriam juntos”?

Que a Páscoa seja um tempo de movimento e cada um(a) discirna para onde correr!

Um Santo Tempo Pascal e todos e todas!


Pe. Adroaldo Palaoro sj

17.04.22

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2555-o-ressuscitado-nos-ensina-a-exercer-o-ministerio-da-consolacao

* * *

domingo, 27 de março de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (259)



4º Domingo da Quaresma – 27/03/2022


Anúncio do Evangelho (Lc 15,1-3.11-32)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus. 'Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles.' Então Jesus contou-lhes esta parábola: 'Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte da herança que me cabe'. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. Então caiu em si e disse: 'Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: `Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados'. Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos. O filho, então, lhe disse: 'Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho'. Mas o pai disse aos empregados: 'Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado'. E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: 'É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde'. Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: 'Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado'. Então o pai lhe disse: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. -Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado'.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

---

Ligue o vídeo abaixo, e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira – Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


---

Misericórdia reconstrutora

 

Imagem: Rembrandt


"...este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (Lc 15,32) 

Lucas, o poeta da misericórdia, soube pintar com palavras a parábola de Jesus que tanto nos comove.

Por que a parábola do “Pai Misericordioso” nos comove e provoca tanta ressonância em nosso interior?

Evidentemente, a parábola fala dos nossos anseios mais profundos: de retornar de terras estranhas para nosso lar, de sair da insignificância para encontrar nossa essência, de deixar a morte para trás e voltar à vida. É o desejo que nos diz que, independentemente da situação em que nos encontremos e de quão perdidos estejamos, sempre é possível mudar a direção de nossa vida perdida, retornar e encontrar nosso verdadeiro lar.

Na realidade, a parábola deixa claro o que nos distancia e nos aproxima do nosso ser essencial.

Toda a parábola do “Pai Misericordioso” acontece entre dois polos: distanciamento e proximidade.

Quando Lucas escreve que o filho mais novo “partiu para uma região longínqua”, ele se refere a uma quebra drástica da maneira de viver, pensar e agir que ele recebeu como um legado sagrado através das gerações, e uma traição aos valores cultuados pela família e pela comunidade.

O “país distante”  é o mundo no qual não se respeita o que em casa é considerado sagrado.

As consequências da ruptura com o pai serão a miséria extrema e a degradação máxima. Quando atravessou o limiar da casa paterna e deu as costas ao pai, o filho estava partindo para a solidão, para a alienação, para a perdição. 

No início, parece que só o filho mais novo estava longe do pai e da sua casa: lá, numa situação de extrema miséria e morte, ele sente saudades da casa do pai e da presença do amor e da vida que ali reinava.

Mas, a volta do filho “distante” ressalta, inesperadamente, a distância do filho mais velho, o “perfeito”, que sempre esteve em casa e que servia ao pai de modo irrepreensível. Na realidade, porém, também ele vivia, sem se dar conta, como estranho e... distante.

O “filho mais velho” apresenta uma aparência de perfeição que camufla um medo de viver, uma falsa submissão, uma rejeição do outro, uma incapacidade para receber os dons do pai. Ele ignora que, para entrar na festa, é insuficiente não transgredir as leis, mas ter uma outra disposição do coração. Não é criativo, não assume nenhum risco. Percebe-se que ele não é feliz naquilo que vive: o peso da lei o torna uma pessoa amarga, cheia de ressentimentos, de julgamentos, de indiferença...

Por outro lado, o “retorno” do filho mais jovem deixa também transparecer a grandeza de um coração transbordante, quase inimaginável, de um pai absolutamente “surpreendente” e, “incompreensível”, no seu modo de lidar com os fracassos e limitações dos seus filhos.

Enquanto os filhos demonstram todo o seu “distanciamento”, o pai se aproxima, sempre mais, fazendo-os descobrir não só o fato de serem filhos, mas também de irmãos.

Para ambos os filhos, torna-se necessário percorrer a estrada do “retorno reconstrutor”, não só para a redescoberta do próprio pai, mas também, da própria dignidade e da verdade sobre si mesmos.

filho mais novo, decidido a uma realização pessoal e autônoma, distancia-se daquela casa, onde tudo parecia ser muito tranquilo e monótono. No entanto, quando se encontra em estado de completo abandono, com a ameaça da morte diante dele, volta, em seu coração, a lembrança de casa e a saudade da segurança, que lá podia encontrar com abundância. Enquanto estava mergulhado nas trevas da morte, a luz da vida, finalmente encontra espaço nele.

Então a lembrança se torna decisão; a decisão... caminho, retorno... aproximação. No momento de maior distanciamento e solidão, esse filho se dá conta, em seu íntimo, da proximidade da ternura e do amor do pai. A centelha que ilumina o caminho, que conduz à liberdade e à vida, se manifesta precisamente nas trevas da derrota, da morte, da falência, da miséria...

A lembrança e a saudade da casa do pai se tornam caminho no coração do filho distante, exatamente no pior momento da sua existência: ele não tinha mais nada, nem dignidade e nem comida para sobreviver.

O fracasso, a impotência, a limitação... podem se tornar momento regenerador e inédito: o encontro do caminho da liberdade e da vida. À luz da misericórdia, o fracasso, a derrota, a ferida... se revelam como bênção e uma ocasião privilegiada para a quebra do “ego inflado e autosuficiente”.

Na solidão e na indigência, o filho, que estava “perdido”, contemplou o rosto amoroso de seu pai e encontrou a força para levantar-se e ir bater à porta de casa.

Aquele filho que antes era “pedra de tropeço” agora se torna “pedra angular”, sobre a qual se derrama a misericórdia gratuita do pai e sobre a qual se constrói uma história nova, que envolve todos os que vivem naquela casa.

Os dois filhos, apresentados a nós nessa parábola, têm trajetos fundamentalmente distintos; contudo, possuem em comum o fato de não conhecerem de verdade o Pai e o fato de não terem nenhuma consciência das consequências de suas rupturas. Um, está seguro de saber o que quer: partir, estar em outro lugar. O outro, tem a certeza de estar no caminho certo: o dever.

Ambos perderam o caminho do coração. Um, esqueceu-o; o outro, endureceu-o.

Nenhum deles tinha vivido uma relação sadia com o pai: nem aquele que partiu, nem aquele que permaneceu a seu lado. Ambos perderam a sua fonte e não recebiam mais a água do amor. Não eram mais iluminados a partir do coração; tornaram-se cegos. Caminhando dia e noite, vão tropeçar: um, na desordem; o outro, no excesso de ordem.

O fracasso do filho mais novo e sua volta imprevista abalarão a ambos; um será sacudido pela tristeza, pelo fracasso, pela humilhação; o outro, pela revolta, pela explosão de uma raiva reprimida há muito tempo. O retorno foi um acontecimento revelador, para os dois, de um possível ponto de partida para uma nova vida, de uma ocasião oferecida para a recuperação da dignidade de filhos.

E foi ao encontro de seu pai”. O filho mais novo muda de direção. Vira-se, dá meia-volta, abandona o caminho de morte e decide não cuidar mais dos porcos. A memória da misericórdia do pai o torna capaz de colocar-se a caminho. Não se imobiliza mais na infelicidade, no vitimismo, na culpabilidade estéril: é o tempo da determinação, da opção em favor da vida e da comunhão.

O filho pródigo reencontra o movimento da vida. Sabe tirar proveito de um acontecimento catastrófico. Decide retomar o caminho de casa a partir do estado em que se encontra, mesmo não tendo uma clara compreensão de tudo, mesmo quando sua preocupação primordial é a sobrevivência. Está pronto para assumir esse retorno sem glória, pois agora é livre. É iluminado por um desejo encontrado no fundo de si mesmo: “levantar-me-ei e irei ter com meu pai”. Renuncia às antigas vestes, entra numa vida renovada, pois percebe a possibilidade de dar um passo em direção à vida.

É então que vai viver, nos braços do pai, o encontro que irá fazer dele um filho. Quebra-se o seu coração autossuficiente, e ele está pronto a deixar-se moldar. A misericórdia do pai o reconstruirá como filho.

Segundo o texto evangélico, o pai não diz uma única palavra ao filho no momento em que o acolhe.

Ele deixa transparecer seus sentimentos através dos gestoscorre ao seu encontro, abraça-o e cobre-o de beijos. Não há aqui o menor sinal de rejeição ou repreensão. Antes que o filho diga algo, o pai é acolhida total, compaixão visceral, perdão incondicional.

O relato evangélico acentua, em primeiro lugar, a compaixão e a ternura sentidas pelo pai.

Ele viu o filho no caminho de volta para casa “quando estava ainda longe”. Na verdade, não tinha deixado de esperá-lo, com o coração e com os olhos, desde o dia inesquecível em que o filho saíra de casa. Este tinha, sim, partido; mas nunca tinha se afastado do afeto, do amor sofrido do pai, que contemplava todos os dias, com sua vista cansada e com os olhos do coração, o caminho percorrido pelo filho, na esperança de vê-lo voltar.

Texto bíblico:  Lc 15,1-3.11-32 

Na oração: Diante do Pai Misericordioso, perguntar a si mesmo:

- o que em mim está “perdido”, “distante”, “isolado”...?

- o que em mim é “dever”, “ressentimento”, “legalista”...?

- o que em mim é acolhida, compaixão, proximidade...?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2533-misericordia-reconstrutora

* * *

domingo, 6 de março de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (257)


1º Domingo da Quaresma – 06/09/2022


Anúncio do Evangelho (Lc 4,1-13)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. O diabo disse, então, a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’”

O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo e lhe disse: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isto foi entregue a mim e posso dá-lo a quem quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”.

Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’”.

Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo e lhe disse: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’ E mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”.

Jesus, porém, respondeu: “A Escritura diz: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”.

Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

---

Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Donizete Ferreira – Comunidade Canção Nova:


---

Deserto, escola para ordenar os afetos

 


Imagem: pixels.com

“Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito” (Lc 4,1)

O primeiro domingo da Quaresma sempre apresenta o relato das tentações de Jesus no deserto, que ajuda a desvelar o sentido de sua missão, seu caminho, seu destino. É relevante o fato de que se vincule a ida de Jesus ao deserto após o batismo, sendo conduzido pelo Espírito.

O deslocamento de Jesus ao deserto está em profunda sintonia com a experiência vivida pelo povo judeu.

Foi no deserto que Israel aprendeu a descobrir e a confiar em Deus. Longe da segurança do Egito, emergiu o que havia no fundo do seu coração. Os profetas cantaram o tempo do deserto como tempo das obras maravilhosas de Deus. Foi no deserto que o povo de Israel sentiu profundamente sua pequenez e total dependência de Deus.

Não existiam caminhos prontos. Era preciso discutir, planejar, rezar, lutar e sonhar para fortalecer a caminhada. No fundo, o Êxodo foi um profundo tempo de discernimento coletivo, que desembocou numa radical opção pela liberdade, porque um povo só é livre quando pode decidir o rumo de seu caminhar: 

Deserto: lugar da Aliança, escola da intimidade com o Senhor; expressão que, mais do que um determinado lugar, indica uma experiência forte de Deus.

Jesus, como todos os profetas, antes de assumir sua missão, foi conduzido pelo Espírito ao deserto. Frequentemente Ele recorria a esta experiência em meio à sua vida ativa: afastava-se para lugares solitários, confrontava a sua missão com a Vontade do Pai.

Todos os personagens bíblicos, todos os(as) santos(as) passaram pela experiência de deserto: peregrinação interior, confronto com a própria vida, comunhão com o Senhor, descoberta da própria missão...

        “Eu o(a) levarei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os. 2,16).

Segundo os evangelhos, as tentações experimentadas por Jesus no deserto não são propriamente de ordem moral. Não se trata de uma eleição entre o bem e o mal. São tentações que apresentam maneiras falsas de entender e viver sua missão. O tempo do deserto foi, para Jesus, um tempo de discernimento sobre os melhores “meios” para viver seu messianismo. As tentações não diziam respeito ao “ser Messias” de Jesus; isto estava claro e fora confirmado pela experiência do seu batismo: “Tu és o meu filho amado”.

As tentações de Jesus aconteceram no campo das mediações: entre pensar em seu próprio interesse ou deixar-se conduzir pela vontade do Pai; entre impor seu poder como Messias ou colocar-se a serviço daqueles que mais precisam; entre buscar a própria glória e prestígio ou manifestar a compaixão de Deus para com aqueles que sofrem; entre evitar riscos para fugir da perseguição ou entregar-se fielmente à sua missão, confiando somente no Pai.

De fato, os meios apresentados pelo “tentador”, humanamente falando, são os meios mais eficazes que ninguém poderia imaginar: possibilidade de transformar as pedras em pão, o prestígio indiscutível de quem salta do alto do templo, sustentado pelos anjos e, para culminar, todo o mundo a seus pés.

Quem resiste a um homem com tais meios?

Todos seriam atraídos porque, em definitiva, teria entre suas mãos o poder total e o domínio absoluto.

Eis aqui a intuição e a genial proposta do tentador: salvar e libertar toda a humanidade, mas mediante o poder, o prestígio e a dominação. O tentador não pretende que Jesus se afaste de seu fim, senão que procure atingir esse fim, usando os meios que são exatamente o oposto da solidariedade. 

Para a Liturgia, parece ser de uma evidência fundamental que a pedagogia quaresmal devesse começar por des-velar (tirar o véu) a desordem na afetividade. No caminho da vivência cristã, percebemos uma “aderência afetiva” (fixação afetiva) a coisas, posses, pessoas, ideias, cargos, poder, prestígio, status, ídolos, dependências.... que somada a outras, passa a constituir uma estrutura de “maus afetos” (“afetos desordena-dos”), esvaziando ou atrofiando o seguimento de Jesus

A Quaresma, nesse sentido, apresenta-se como uma pedagogia para aprender a ordenar nossos afetos”, libertar-nos dos afetos desordenados e assim percorrer o caminho do desejo mais profundo: estratégia centrada em Deus, leve e cheia de graça, uma aventura...

O desejo de poder, de possuir, de ser o centro (ego inflado) confunde nossa vida. E já não se trata mais de uma lição moral sobre o vício ou a virtude, mas do impacto psicológico e espiritual que se dá em nós pelo fato de nos sentirmos apegados a algo ou a alguém, com a consequente perda de liberdade e o perigo da dependência que esse apego causa. O apego às coisas e às pessoas impede-nos de mover com facilidade. Perdemos o “fluxo” da vida, o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”.

            “Diga-me o tamanho dos seus apegos, e eu lhe direi o tamanho do seu sofrimento”.

É necessário introduzir um princípio “ordenador” em nossa vida, que inspire todo o nosso ser e o nosso agir, até que a “afeição” se converta em identificação existencial com Jesus Cristo.

Esse novo objeto deve ter uma repercussão decisiva na configuração da vida. Isto é, somos chamados a modificar profundamente o mundo de valores, pensamentos, condutas...

É necessário, ao iniciar o percurso quaresmal, detectar os condicionamentos afetivos (amarras) que de fato limitam a nossa liberdade, bloqueando-nos diante da proposta de vida que Jesus nos apresenta.

O que está em jogo no “deserto quaresmal” é chegar a conhecer-se profundamente, encontrando a raiz do próprio ser nos afetos desordenados.

Esse conhecimento interior, profundo, é condição indispensável para poder dispor de si, em maturidade de liberdade. Sem ordenar os afetos o ser humano não é verdadeiramente livre. A “desordem” nos afetos produz em sua liberdade uma essencial falsificação: faz tomar como absolutos o que são coisas relativas.

Só ordenando os afetos a pessoa se situa diante de Deus, reconhecendo-O como Absoluto.

Há afetos organizados negativamente por acúmulo de “experiências negativas”. Para atingi-los, a pedagogia quaresmal coloca “cargas afetivas opostas” (pessoa de Jesus, sua missão, o Reino, ...)

Sabemos que não se pode suprimir (matar) os afetos; o que se pode fazer é mudar a orientação (“ordenar”) dos afetos, ou seja, reorientar as “aderências afetivas” de certos objetos ou pessoas para um horizonte de sentido: amor a Jesus Cristo e a seu Reino. 

Nesse sentido, nossa quaresma torna-se um “estar com Jesus” no deserto, para, como Ele, dar a Deus o lugar central de nossa vida.

A quaresma é um tempo em que damos maior liberdade a Deus para agir em nós; é abrir espaço, alargar o coração para a ação de Deus. É tempo de reconstrução de nós mesmos (conversão), de retomada da opção fundamental por Deus e pelo seu Reino (maior serviço, mais compaixão, mais solidariedade...).

Nossos “apegos” se assemelham às construções à beira do rio que nos fixam num determinado lugar que nos parece confortável, desejável e seguro. Mas, se assim agirmos, afastamo-nos da correnteza da vida e não vai fluir em nós nem crescimento e nem progresso rumo à liberdade dos filhos de Deus.

A experiência de deserto passa a ser “tempo e lugar” de decisão, de orientação decisiva da vida, de enraizamento de nossos valores, de consciência maior da nossa identidade pessoal e da nossa missão... O mestre do deserto é o silêncio; o deserto tem valor porque revela o silêncio, e o silêncio tem valor porque nos revela Deus e a nós mesmos.

O deserto é o grande auditório para ouvir Deus; “solidão” cheia de presença. Ainda que sozinhos, sentimo-nos solidários, em comunhão com todos. O decisivo é “deixar-nos conduzir” pelo Espírito. Aqui não há engano.

Texto bíblico:  Lc 4,1-13 

Na oração: Temos muitas atitudes, posses, ideias, cargos, posições, bens... que consideramos ser Vontade de Deus; na realidade é tudo “projeção” de nossos medos, de nossa insegurança...

O desafio permanente é este: examinar as “coisas” que estão ocupando por completo nossa existência e “tomando conta de nós” a ponto de bloquear o fluxo da graça e da vida.

- Quais “tentações” estão travando sua vida, impedindo-o de seguir a Jesus mais livremente?

- Rezar suas “pulsões desordenadas” que atrofiam sua sintonia com Deus e sua abertura aos outros.

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2521-deserto-escola-para-ordenar-os-afetos

* * *