Bom dia amizades! Como se comemora o dia da mulher, embora para mim, essa consciência deva estar presente todos os dias das nossas vidas e em todos os seres humanos, aqui vos deixo a contribuição, para lembrar o que ainda é muito esquecido
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a
Jerusalém. No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas
e os cambistas que estavam aí sentados. Fez então um chicote de cordas e
expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e
derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: “Tirai
isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” Seus
discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa
me consumirá”. Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos
mostras para agir assim?” Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três
dias eu o levantarei”.
Os judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos
para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?”
Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. Quando
Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e
acreditaram na Escritura e na palavra dele.
Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo
os sinais que realizava, muitos creram no seu nome. Mas Jesus não lhes
dava crédito, pois ele conhecia a todos; e não precisava do testemunho
de ninguém acerca do ser humano, porque ele conhecia o homem por dentro.
“Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo”. (Jo
2,21
O evangelista João, no relato da expulsão dos “vendilhões do
Templo”, revela que os conflitos maiores vividos por Jesus se deram no campo
religioso; e isso esteve presente já no início de sua vida pública. Com
seu gesto Jesus atinge o centro do poder religioso; Ele arremessa
diretamente contra o Templo, pois este deixou de ser espaço de encontro com o
Pai e passou a ser um local de comércio explorador.
O Templo já não é mais a morada de Deus, pois Ele foi
desalojado pelo poder sacerdotal; por isso, Jesus expulsa seus representantes.
O Templo, o sacerdócio, a lei, já não são mais
mediadores de libertação para o ser humano. Estão aí, secos e estéreis, e não
estão a serviço da vida, mas da exclusão.
Jesus rejeitou o Templo e suas instituições por serem
improdutivos e manipuladores; Ele pôs em evidência que a relação com
Deus não necessita intermediários, como o Templo e o sacerdócio, e a relação
entre as pessoas é relação de encontro e comunhão. Por isso, Jesus não
propõe sua restauração, mas seu término. Em lugar do Templo, Ele colocou o ser
humano no centro, e diz “não” a uma religião fundada na Lei e no culto externo;
rompe com todo o ritualismo e legalismo anterior e oferece uma alternativa
encarnada na vida. Deus é adorado em “espírito e em verdade” e não depende de
“espaços sagrados” para manifestar sua presença providente.
Os fariseus e sacerdotes queriam um Deus e um céu que não se
contaminassem com os deserdados desta terra; queriam um Templo como lugar de
pureza e de perfeição, legitimado por uma ordem que se constrói sobre o
sofrimento e a exclusão. Eles não queriam um Templo que fosse a casa dos
impuros, dos abatidos e excluídos, dos encurvados e oprimidos, dos leprosos,
cegos e coxos...
A partir de agora, o encontro com o Pai e com os outros não
se realiza no Templo, mas fora, nas casas abertas, nas ruas e estradas, onde
todos têm acesso e a partilha criativa possibilita que todos tenham
vida. A mesa de Jesus, fora do Templo, estava aberta a todos.
Ele não inicia uma nova religião, não cria um novo sacerdócio, não restaura o
templo. O templo agora são as próprias pessoas que estão acima da lei
e do culto. Todos estão implicados nessa nova maneira de viver e de se
relacionar com o Pai, superando o medo do castigo e confiando uns nos outros.
Segundo o evangelista João, Jesus começa sua vida pública
denunciando o “deus” apresentado pelos dirigentes religiosos do
Templo e em quem eles buscavam a justificação de seus poderes. Tal
denúncia desestabilizou o sistema religioso sobre o qual a instituição
sacerdotal se sustentava. Por isso, Jesus compreendeu que, para mudar o
comportamento dos dirigentes do Templo, a primeira coisa a fazer era desmontar
o “ídolo” que legitimava o poder autoritário daqueles que oprimiam o povo
indefeso. No fundo, o que preocupava Jesus era o problema de “Deus”; e
Deus não era como os dirigentes imaginavam e que estava de acordo com seus
critérios e sua posição social.
Deus era tão desconcertante como desconcertante era
aquele Nazareno que eles tinham diante de si. Jesus transcende todas as
religiões quando propõe uma maneira nova dos seres humanos se relacionarem com
o Transcendente e entre si, onde não se faz necessário nem sacerdotes, nem
templo, nem culto. O “ser humano” é agora o centro desse culto, que
consiste na entrega e no serviço aos outros. Não é mais a Lei que impera, mas o
amor; não é condenação que tem mais força, mas a acolhida e a compaixão.
A fé é a que faz vencer o medo diante de qualquer
tentativa de domínio ou manipulação, e a solidariedade é a que possibilita que
a vida se multiplique. O Deus que Jesus revela não é propriedade
de nenhuma religião ou sacerdócio e ninguém pode reduzi-Lo a uma verdade única,
porque Ele se revela no amor mútuo e na entrega da própria vida.
“Mas Ele falava do templo de seu corpo”. Este é o
verdadeiro Templo de Deus: o próprio “corpo” de Jesus, o Seu e o de
todos os homens e mulheres que vem a Ele se unir e constituir um só “corpo de
amor e solidariedade”. Este é o Templo, o “corpo messiânico”, o corpo da vida
solidária de homens e mulheres que se escutam e se ajudam, se amam e se animam
mutuamente. Jesus veio estabelecer um Templo Novo, pois Ele é o verdadeiro
construtor, é o autêntico edificador de humanidade. Agora não é preciso
sacrificar animais e dar seu sangue a Deus; não precisa de dinheiro ou banco
para criar novos negócios e viver da exploração dos outros... Jesus quer
humanidade e com sua própria humanidade vai construir o Templo Novo.
Surgiu um novo Templo, nosso próprio corpo, “morada
sagrada” da Trindade. Costumamos distinguir entre sagrado e profano.
Dentro do templo está o “sagrado”: Deus e as realidades que se relacionam com
Ele. Fora do templo está o “profano”, identificado muitas vezes não só como o
que não é sagrado, mas como o que se opõe ao sagrado. Curiosamente, a
última página da Bíblia afirma que na Jerusalém celeste “não se vê nenhum
templo” (Apoc 21,22). Alguém poderia chegar à absurda conclusão que no céu
não há lugar para Deus, porque não há templo.
Será esta imagem do futuro uma crítica do presente, ou seja,
uma separação entre lugares onde pensamos que está Deus e lugares onde pensamos
que Ele não está? Quê acontece na terra, este espaço nosso no qual há
tantos templos? Acaso Deus precisa deles, porque foi expulso dos lugares
“profanos”? Não será, talvez, porque não O reconhecemos nesses lugares? Deus
está em todos os lugares, sua presença providente envolve tudo e todos.
Para nós cristãos, o Templo está em Jesus e em todo ser
humano que é morada do seu Espírito. Esse é o lugar do verdadeiro culto, que
não se expressa em ritos vazios, mas em “fazer memória” viva de Jesus que nos
impulsiona a viver como Ele. Essa é a verdadeira espiritualidade: deixar-nos
conduzir pelo Espírito, no grande “templo da vida”: lugar do verdadeiro culto
que se faz visível no serviço oblativo e na compaixão solidária.
Estamos nos despertando para esta realidade: hoje, os
“templos” estão cada vez mais vazios; o máximo que fazemos é admirar as grandes
obras de arte de um passado glorioso. Mas, ao mesmo tempo, vamos amadurecendo a
consciência de que os templos são nossos corpos, os de nossos irmãos
e irmãs que sofrem fugindo da violência e buscando um lar, os corpos dos “sem
teto”, os corpos das vítimas do tráfego de pessoas, os corpos das pessoas
exploradas por uma “economia que mata”... O templo é hoje a terra, explorada e
espoliada, colocando em risco a teia de relações vitais.
Não se trata de restaurar o “templo-espaço” com todas as
suas implicações, mas de voltar às origens desse “movimento itinerante” que
Jesus começou pelas aldeias da Galiléia, onde um pequeno grupo, entusiasmado
pelo Reino, reuniam-se nas casas e partilhavam pão e vida. O movimento de Jesus
é um movimento de “casas”: lugar da acolhida, do encontro, da festa, da
celebração...
Seremos nós, seguidores(as) de Jesus que deveremos recordar
que o “templo” não é um edifício de pedra mas a vida inspirada pelo
Espírito, em meio a um contexto social e religioso que faz da “casa do Pai
uma casa de comércio”; que o verdadeiro culto que agrada a Deus é
nossa relação filial com Ele, e que isso tem consequências concretas no modo
como nos relacionamos com os outros. Em sintonia com o Pai, estamos mergulhados
no “sagrado”, porque a vida é sagrada.
Texto bíblico: Jo 2,13-25
Na oração:
- Você sente o “pulsar” do coração de Deus
nas realidades mais cotidianas: ambiente familiar, trabalho, relações,
oração, descanso...?
- Diante da “cultura de morte”, como viver a “cultura do
encontro”, a verdadeira “religião” de Jesus?
Já vai longe o tempo da minha infância na cidade onde nasci.
A cidade tinha poucas ruas calçadas, três bairros, o jardim, o cinema, o
ginásio e a igrejinha. Seu rio, chamado de Cachoeira, dividia a cidade em duas
partes. E uma gente ribeirinha tirava dele o sustento de suas famílias:
lavadeiras, tiradores de areia, pescadores e aguadeiros.
Lá naquela cidade distante joguei bola com a turma de
queridos amigos nos campinhos improvisados dos terrenos baldios.Roubei fruta madura nos quintais das casas
perto da beira do rio.Brinquei de
mocinho e bandido. Fiz a primeira comunhão e tive a primeira namorada.
Lá também criei vaga-lumes para vê-los à noite piscando no
quarto. Nadei como um peixe ágil nos poços bem claros do rio que tinha as águas
doces. Andei como um bicho solto, sem ter medo de nada, nos caminhos do mato.
Feito pássaro dava cada voo com o vento mais alto. Quando cresci, soube que a
infância tem um sabor de fruta doce que acaba quando chega o tempo dos homens.
Não
querendo que aqueles dias vividos com aventuras, descobertas e sustos
esplêndidos se perdessem no tempo que se foi, sem que eu percebesse de tão
rápido, ficando trancados pelos homens dentro de mim, resolvi então escrever
umas breves memórias com pedaços da infância. Nesses episódios que agora
procuro contar, tecidos com os fios eternos do sonho, tento compartilhar com
você um pouco da aventura da vida. Percorro caminhos e procuro encontrar o
menino na fumaça do tempo, mas que ainda pulsa no meu coração porque não se
cansou de ser menino.
Em Nada
Era Melhor (Editus, 2020), cada episódio pode ser concebido como uma história,
possui autonomia na sua estrutura, foi reinventado com os elementos
tradicionaisde princípio, meio e fim.
Como cada um deles é protagonizado por um menino em sua pré-adolescência, tendo
como espaço a infância e o lugar onde acontece é a uma cidade do interior
baiano, no início da segunda metade do século XX, com personagens secundárias
que participam algumas vezes de muitos deles, não se pode deixar de considerar
que Nada Era Melhor é também um romance, uma história comprida representativa
da vida, ou seja, um romance de iniciação.
Cyro de Mattos - Escritor e poeta. Premiado no Brasil,
Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia,
Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo da Academia de
Letras da Bahia. Doutor Honoris
Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC
Distinção,
dignidade e frivolidade do Ancien Régime numa praça de Veneza
Plinio Corrêa de Oliveira
Em minha sala de trabalho tenho um quadro reproduzindo uma pequena
praça de Veneza. Ela tem um charme que toca nos sentidos, inclusive por seus
defeitos, revelando a ‘alma’ e o espírito veneziano. Esse charme impregna o
conjunto da praça, a igreja no fundo, as casas e os personagens ali presentes,
cujas atitudes características dão a impressão de estarem saindo de alguma
representação teatral.
A igreja, em estilo que parece do século XVII, irradia
alguma paz ao conjunto. É quase o contrário do que transparece nas pessoas,
entretanto acaba envolvendo-as. Por uma porta aberta da igreja se percebe algo
de meditativo e sério, pela presença do Santíssimo Sacramento no sacrário
interno, riquíssimo em graças. É o mesmo imponderável de certas igrejas da
Itália.
Campo Santa Maria Formosa, em
Veneza, 1741 – Michele Marieschi, séc. XVIII. Museu Correr, Veneza
Essa Veneza do século XVIII tem algo que lembra remotamente
a dignidade e distinção próprias do Ancien Régime. Nas pessoas transparece
também a frivolidade social daquela época. São habituadas a morar em Veneza e
conviver com casas de aspecto um tanto tristonho, com tracinhos de palácio.
Elas gostam do estilo, que as eleva a um nível mais alto.
Esses vários aspectos, onde se misturam laivos de séculos
anteriores com algo do século que viria, influenciam as almas dos que ali
estão, ou que moram na praça.
A mistura de todos esses aspectos lembra certos arranjos de
sorvetes, quando a groselha e o creme vão se derretendo, alternando dentro do
copo suas cores respectivas. Na praça, os seus vários aspectos formam laivos
psicológicos — um ice-cream soda indefinido dentro de um copo, que
seria aquela pracinha.
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira
em 19 de janeiro de 1984. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.