Total de visualizações de página

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

SEGREDO DE CONFISSÃO AMEAÇADO - Paulo Henrique Américo de Araújo

29 de novembro de 2018


♦ Paulo Henrique Américo de Araújo


Nos últimos meses, notícias de abusos sexuais de membros do clero ganharam novamente grande destaque na mídia. As evidências existem, embora sejam habitualmente acompanhadas de exageros da imprensa. Escândalos como os noticiados causam indignação e tristeza em todos os católicos verdadeiros, mas, sobretudo no coração materno de Nossa Senhora.

Nesses momentos em que o público se manifesta estarrecido com o noticiário, os propagadores de falsas soluções surgem e se arvoram em defensores da moral infantil e juvenil, repetindo a velha cantilena de que a Santa Igreja deve mudar suas instituições e disciplinas. O celibato sacerdotal e a organização hierárquica da Igreja tornam-se os alvos preferidos de tais detratores e fabricantes de falsas soluções.

Curiosamente, a mídia anticatólica passou a pontificar contra os abusos sexuais de membros do clero. Mas é público e notório que ela há muito tempo se destaca como a maior promotora da perversão sexual de crianças, jovens e adultos. Basta ver o amplo espaço que dedica à imoralidade na TV, no cinema, na internet; à educação sexual e ensino da ideologia de gênero nas escolas; à pornografia e incentivo a desvios sexuais em todos os veículos de publicidade. Sendo essa mídia a grande propagadora dos erros morais, com que direito esbraveja contra os que praticaram esses mesmos erros? Deveriam entender ainda que uma consequência inevitável da propaganda que fazem da imoralidade e liberalização dos costumes é a penetração dessa imoralidade nos próprios seminários, minando na base a tradicional exigência da castidade e pureza dos costumes no clero. Tudo isso, dói também dizê-lo, com a conivência ou cumplicidade de altos Prelados.

A solução para a crise moral do clero não se encontra na desconstrução dos costumes e instituições católicas milenares, mas na retomada vigorosa deles. Acrescente-se a necessidade de frisar a noção do pecado, do bem e do mal. Sem isso, será inócua qualquer medida para encontrar, denunciar e punir os eventuais culpados de abusos sexuais dentro da Igreja.

Diante desse quadro, bem se podem aplicar as palavras de Plinio Corrêa de Oliveira em uma meditação da Via Sacra publicada em Catolicismo (março/1951): “Quantos são os que realmente veem o pecado e procuram apontá-lo, denunciá-lo, combatê-lo, disputar-lhe passo a passo o terreno, erguer contra ele toda uma cruzada de ideias, de atos, de viva força se necessário for? Quantos são capazes de desfraldar o estandarte da ortodoxia absoluta e sem jaça, nos próprios lugares onde campeia a impiedade ou a piedade falsa? Quantos são os que vivem em união com a Igreja este momento, que é trágico como trágica foi a Paixão, este momento crucial da História, em que a humanidade inteira está escolhendo por Cristo ou contra Cristo?

 Inviolabilidade do segredo da confissão

Sacerdotes na Austrália “dispostos a ir para a prisão” 
antes que violar o segredo de confissão.
Entretanto, a atual ofensiva contra a Igreja aproveita-se dos escândalos sexuais para avançar ainda mais na sua obra destruidora. Pretende inclusive quebrar o sigilo do sacramento da confissão. Em junho deste ano, o território de Camberra, na Austrália, aprovou uma lei que obriga os sacerdotes católicos a revelar à polícia o segredo de confissão, quando algum fiel declarar pecados em matéria de abusos de menores. A norma passará a vigorar a partir de 31 de março de 2019.1

No momento, o alcance dessa lei anticatólica é regional, mas já se cogita a sua ampliação para a esfera nacional. A informação é de Sandro Magister: “O primeiro-ministro de New South Wales, um dos estados que constituem a federação australiana, já requereu que a lei seja discutida e sancionada em âmbito federal, tornando-a válida para todo o país”.2

O clero católico, como é seu dever, reagiu com firmeza. O Pe. Michael Whelan, pároco de Saint Patrick, em Sydney, esclareceu que o Estado não pode constranger os sacerdotes católicos a praticar o mais grave dos crimes. E acrescentou que ele e outros sacerdotes estão “dispostos a ir para a prisão” antes que violar o segredo de confissão.

A Fraternidade Australiana do Clero Católico (Australian Confraternity of Catholic Clergy – ACCC), associação privada de sacerdotes, afirmou que o segredo sacramental “não é meramente uma questão de direito canônico, mas de Lei Divina, a qual a Igreja não tem poder para dispensar. Nenhum sacerdote está obrigado a cumprir qualquer lei humana que procure solapar a confidencialidade absoluta da confissão”.3

É importante lembrar a firmeza com que a Igreja trata o sigilo da confissão. O cânon 984 do Código de Direito Canônico proíbe terminantemente ao confessor fazer uso de qualquer informação ouvida na confissão. O cânon 1388 pune o confessor que “viole diretamente o sigilo sacramental, com excomunhão latæ sententiæ [automática] reservada à Sé Apostólica”; quer dizer, além de ser automática, a excomunhão só pode ser levantada pelo Papa.

Além de iníqua, a lei favorece o abuso

São Pio de Pietrelcina no confessionário

Qualquer iniciativa para violar essa sagrada instituição representa grave violação à liberdade da Igreja Católica. Em outras palavras, trata-se de perseguição religiosa sob a capa de legalidade. Como se essa tirania legislativa já não bastasse, alguns membros do clero australiano a consideram também ineficaz. A Fraternidade Australiana do Clero Católico registrou uma gravíssima contradição: os pecadores deixarão de confessar o ato iníquo, e consequentemente permanecerão sem os recursos penitenciais e sobrenaturais para evitar a reincidência. Como resultado evidente, a lei acabará aumentando o crimes que pretende evitar.

Além disso, caso algum sacerdote católico se disponha a denunciar um eventual confidente, como poderá ter certeza da sua identidade? Pois é sabido que na maioria das vezes as confissões são feitas através da grade do confessionário, e nessa situação é difícil o reconhecimento de qualquer pessoa. Exigirá a nova lei que o confessor pergunte o nome do penitente? Quantas outras situações constrangedoras surgirão daí? Os absurdos da lei vão se sobrepondo uns aos outros.

Diante dessa onda, mais uma pergunta se impõe: estarão os sacerdotes australianos — e eventualmente os do mundo inteiro — dispostos a manter o segredo de confissão a todo o custo, até mesmo ao preço da própria vida? Outros já o fizeram no passado…


Mártires do sacramento da confissão

Talvez o caso mais conhecido de martírio por fidelidade ao sigilo da confissão seja o de São João Nepomuceno.4 Em meados do século XIV ele era Arcebispo de Praga e se tornou confessor da rainha Sofia, esposa do rei Wenceslau. O soberano considerou-se no direito de exigir que ele lhe revelasse a confissão de sua mulher. Diante da negativa, em um ataque de cólera Wenceslau ameaçou-o de morte. Posteriormente, aproveitou-se de uma querela com o santo sobre bens da Igreja como pretexto para torturá-lo e atirar seu corpo no rio Moldava. Recolhido pela população local, o corpo foi sepultado religiosamente.

No século XX, durante a perseguição aos católicos no México, o Pe. Mateo Correa Magallanes foi fuzilado pelas autoridades do governo pró-comunista, por se negar a revelar as confissões de prisioneiros resistentes, tornando-se mártir do sigilo sacramental. Pelo mesmo motivo, os padres Felipe Císcar Puig e Fernando Reguera foram martirizados durante a Guerra Civil Espanhola, na década de 30.

Na esteira de protestos generalizados contra abusos sexuais praticados por membros do clero, podem estar sendo articuladas perseguições como essas e muitas outras. Todos nós católicos lamentamos e repudiamos esses eventuais abusos. Mas também desejamos e esperamos que, se a tais extremos chegar a presente perseguição contra a Igreja, os exemplos já registrados pela História sirvam de modelo para os clérigos de nossos dias.

____________
Notas

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 815, Novembro/2018. 


* * *

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

NATAL DAS CRIANÇAS NEGRAS - Cyro de Mattos


Natal das crianças negras
Conto de Cyro de Mattos

       
        
Ilustrações de Calasans Neto



-------------------

O Autor

Cyro de Mattos nasceu e reside em Itabuna, Sul da Bahia. Contista, poeta, cronista, romancista, autor de livros infanto juvenis. Publicou 44 livros, para adultos e para crianças. Tem livros também editados em Portugal (4), Itália (6), França (1), Espanha (1) Alemanha (1). No Brasil e exterior recebeu vários prêmios e, entre eles, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, Prêmio Internacional de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, Itália, e do Instituto Piaget de Almada, Portugal. Finalista do Jabuti três vezes. Participou como convidado do III Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra e Feira Internacional do Livro em Frankfurt. Com o romance Os Ventos Gemedores ganhou o Prêmio Pen Clube do Brasil. É membro da Academia de letras da Bahia e Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, Bahia.

---------------------

                   Eles moravam no morro, a irmã era chamada de Bel, o irmão de Nel. Bel não recebia da vida a doçura feita com mel. E Nel não vivia a vida, lá no alto morro, como se estivesse no céu. A mãe deles chamava-se Maria. Vestia trajes simples, gastos pelo uso diário. Nunca vestiu um manto azul feito de seda para brilhar no dia, como se via na igreja com a imagem da Virgem Maria.

                    A mãe de Bel e Nel era lavadeira. Tinha as mãos grossas de calo de tanto bater roupa na correnteza de águas límpidas. Durante a semana, descia o caminho pelo barranco com a bacia de roupas sujas na cabeça. Quando chegava à beira do rio, colocava a bacia de roupas em uma pedra grande, junto ao areal. Não demorava e começava a tirar as roupas da trouxa. Molhava, ensaboava, esfregava, lavava e torcia. Estendia as roupas nas pedras pretas para secar ao sol. As pedras pretas, cobertas de roupas estendidas, de repente apareciam coloridas naquele trecho do rio.

                   O pai de Bel e Nel chamava-se José, era carpinteiro. Sabia usar com habilidade os instrumentos de trabalho: martelo, serrote, enxó, plaina e formão. Suas mãos pequenas faziam cadeira, mesa e banco. Consertavam porta, janela e portão. No mês em que Bel completou seis anos de idade, o carpinteiro José começou a sentir dores na espinha. Os ossos inflamados, as mãos trêmulas, o corpo todo doía. À noite, no quarto, gemia. O coração dele foi diminuindo o amor que tinha por São José, o padroeiro da cidade, por causa da doença que o afligia. Até que um dia o pai de Bel e Nel perdeu para sempre sua constante fé em São José, o santo protetor dos carpinteiros.

                   O tempo de Natal era chegado. Nel queria um avião grande, Bel uma boneca que chora. Viram o velho gordo com o rosto rosado pela primeira vez na televisão da loja. Carregava um saco de brinquedos nas costas. Tinha a barba branca e os cabelos sedosos. Vestia uma roupa vermelha. Calçava botas pretas. Numa das cenas em que aparecia na telinha, deixava escapar do rosto rosado um sorriso que transmitia uma sensação de alegria e paz a cada criança que ia falar com ele e receber o seu carinho. Os meninos no passeio da loja não tiravam os olhos da televisão. Comentavam que o velho dava brinquedos à criançada sem querer nada de volta. Eles sorriam quando o velho aparecia com as roupas folgadas na telinha. Olhinhos deles todos no querer, como que encantados, cintilavam.

                   Com olhinhos espertos e risinhos que enchiam os
dentinhos, Bel e Nel foram olhar a árvore enfeitada com bolinhas e luzinhas, armada em um dos cantos da loja. À noite, as luzinhas acendiam e apagavam. A estrela no alto comovia.

                    Descobriram depois o presépio em outro canto da loja, com os camponeses, pastores e bichos. Ficaram admirando o pequeno estábulo do presépio, que tinha o teto coberto de folha de palmeira. Um galo de crista vermelha estava no telhado. Uma estrela brilhava na cumeeira, toda acesa de Deus. Nossa Senhora e São José mostravam os semblantes felizes, ao lado de Jesuscristinho, que dormia o sono bom no berço puro e quente, feito de palha. E os três reis magos, ali no presépio, davam a entender que não eram dignos de tocar na palha onde Jesuscristinho dormia o sono sereno.

                    Sentados no meio-fio do passeio da loja, Bel e Nel escutavam agora a musiquinha que saía alegre pelo alto-falante no poste. De vez em quando o alto- falante baixava o som. Então a musiquinha fazia um fundo musical no mesmo instante em que entrava a voz pausada do locutor. A voz dele informava que vinha de Belém a estrela mais bela. Fora trazida pelas mãos da maior madrugada. Seu brilho imenso descaía do céu e vinha iluminar a relva onde os bichos anunciavam e cantavam o nascimento do menino Jesus. A voz do locutor ficava emocionada quando comunicava que naquele dia o menino pobre nascia no estábulo. Esse menino Deus vinha para afugentar o mal de toda a terra. A voz doce do locutor terminava a mensagem de paz eterna com mais emoção no final quando então revelava que os sinos do mundo inteiro nessa hora tocavam: É Natal! É Natal!

                    O alto-falante voltava a tocar a musiquinha alegre, acompanhada dessa vez de uma cantiga cativante. Bel e Nel continuavam sentados no meio-fio do passeio. Recebiam o sopro da brisa que circulava na rua, ao final do dia. A brisa suavizava os rostos deles dois em silêncio, enquanto seus pequenos corações eram tocados pela cantiga que se repetia e começava assim:

Botei meu sapatinho
Na janela do quintal.
Papai Noel deixou
Meu presente de Natal...

                     Dizia a cantiga ainda mais, que o velhinho sempre visitava o quarto de cada menino onde deixava, ali, um brinquedo como presente naquela noite especial. Seja rico, seja pobre, seja branco, seja preto, como Bel e Nel, o velhinho sorridente e bondoso não esquece de ninguém.

                    Bel e Nel colocaram os chinelos na janela do quarto. Nada acharam no outro dia. Do ponto mais alto do morro ficaram olhando as nuvens alvas, trafegando no céu como grandes almofadas. Umas nuvens menores desenhavam brinquedos enquanto iam passando, mansas, diante dos olhos tristes deles dois.


                     Eles viam nesse instante a cidade lá embaixo, aos seus pés. Imaginavam a algazarra da manhã festiva. No passeio, no jardim, em qualquer canto da casa. Cada menino o brinquedo exibia. Saltava, dançava, corria, sonhava, voava, sorria.

                     Então souberam como o mundo dava as costas a Jesus. Não queria ver Maria. Escondia-se de José. O Natal era a lágrima que pelo rosto deles dois descia.

                     E uma canção desfazia.

* * *









HISTÓRIA DE NATAL DE CYRO DE MATTOS É PUBLICADA NA ITÁLIA EM 6 IDIOMAS



          A história “Natale dei Bambini Neri”  (Natal das Crianças Negras), do escritor  Cyro de Mattos, foi Publicada pela Aracne Editora, de Roma, Itália, em seis idiomas, português, inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. A capa e as ilustrações internas do livro são de Calasans Neto enquanto a tradução para o italiano é de  Mirella Abriani, poeta e tradutora de poetas  brasileiros e, entre eles, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles.
  
         Os outros tradutores de “Natal das Crianças Negras” são estes: Fred Ellison (inglês), Doutor em Letras, da Universidade de Austin, Texas, Estados Unidos; Meritxell Hernando Marsal (espanhol), Doutora em Tradução, da Universidade de São Paulo;  Luciana Wrege Rassier, Doutora em Estudos de Tradução, da Universidade Federal de Santa  Catarina,  e Jean-José Mesguen, tradutor para o francês do romance Primeiro de Abril de Salim Miguel; Marcel Vejmelka (alemão), Doutor em Tradução, da Universidade de Mainz, em Germersheim, Alemanha.
     
          A história “Natal das Crianças Negras”, em tradução de Mirella Abriani,  anteriormente havia sido incluída na antologia Natale Di Pace e D’Amore  (Natal de Paz e de Amor), organizada por Marco  Delpino, Edição Tigullio-Bacherontius, Santa Margherita, Genova, Itália, em 2006.

          Autor de diversos gêneros, com 48 livros publicados no Brasil, o  baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos é também editado em Portugal (4 livros), Itália (6 livros), Espanha (1 livro), França (1 livro) e Alemanha (1 livro). Contos e poemas seus estão incluídos  em revistas e antologias publicadas  nos Estados Unidos, Portugal, Itália, França, Rússia, Alemanha, Dinamarca e Espanha.


* * *

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

PRÊMIO “POESIA E LIBERDADE ALCEU AMOROSO LIMA” DE 2018 VAI PARA O POETA ÁLVARO ALVES DE FARIA



                O poeta Álvaro Alves de Faria foi distinguido com o Prêmio “POESIA E LIBERDADE Alceu Amoroso Lima”, de 2018, pelo conjunto de sua obra poética. O prêmio será entregue no dia 5 de dezembro, no Centro Alceu Amoroso Lima – o Tristão de Athayde -, da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. O poeta é autor de mais de 50 livros no Brasil, especialmente de poesia. É também autor de peças de teatro. Álvaro Alves de Faria se considera um militante da poesia, desde os tempos de “O Sermão do Viaduto”, nos anos 60, quando realizou 9 recitais no Viaduto do     Chá, em São Paulo, com microfone e quatro alto-falantes.

             Por esse motivo foi detido cinco vezes pelo Dops. O Sermão do Viaduto acabou proibido. No final dos anos 70, também foi proibido pela censura seu livro “4 Cantos de Pavor e alguns Poemas Desesperados”. Sua peça “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo”, que recebeu o Prêmio Anchieta para Teatro, na época um dos mais importantes do país, também foi proibida de encenação nos anos 80 e permaneceu censurada por 8 anos.

             Em 1969, o poeta foi preso por 11 meses, como subversivo e por desenhar os cartazes do então Partido Socialista Brasileiro. Três anos depois, levou um tiro no ouvido e tem até hoje na cabeça a bala calibre 38, como herança da ditadura militar. Ao longo do tempo, dedicou-se por 15 anos à poesia portuguesa. Tem 19 livros de poesia publicados em Portugal e 7 na Espanha, além de participar de mais de 50 antologias de contos e poesia no Brasil e no exterior. O Prêmio POESIA E LIBERDADE é um dos mais importantes e significativos do Brasil no reconhecimento de uma obra poética que sempre foi testemunha de seu tempo, num ato de resistência.

           Antes do poeta Álvaro Alves de Faria receberam o prêmio “POESIA E LIBERDADE Alceu de Amoroso Lima” os poetas João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Adélia Prado, Paulo Henrique Brito, Armando Freitas Filho, Marco Lucchesi, Antonio Cícero e Leonardo Fróes.
 


* * *

terça-feira, 27 de novembro de 2018

ABL: NOVA EDIÇÃO DO ROMANCE ‘A SUCESSORA’, DE CAROLINA NABUCO (1890-1981), SERÁ LANÇADO NA ABL


O romance A sucessora, de Carolina Nabuco – filha de um dos fundadores e primeiro Secretário-Geral da Academia Brasileira de Letras, Joaquim Nabuco (1849-1910) – será lançado, em nova edição da editora Instante, no Petit Trianon da ABL, dia 4 de dezembro, às 16 horas.

Publicado em 1934, A Sucessora obteve grande sucesso editorial, recebendo diversas reedições no Brasil, estando fora de catálogo desde 1996. O livro, segundo os editores, une prosa intimista e psicológica ao dar voz a uma protagonista feminina: Marina, uma jovem recém-casada que, após uma romântica lua de mel, muda-se para a mansão do marido, o milionário Roberto Steen.

“Ao entrar em sua nova residência, depara-se com um imponente retrato de Alice, a primeira mulher de Roberto, falecida poucos meses antes de Marina e ele se conhecerem. Alice era dona de uma personalidade exuberante e um ícone da sociedade carioca, enquanto Marina, criada na fazenda da família, sempre levou uma vida simples e distante dos costumes liberais da cidade grande. Marina é então invadida por sentimentos de insegurança e inadequação. Afinal, numa vida em que todos a comparam à primeira madame Steen, será que seu amor por Roberto resistirá ao fantasma de uma mulher tão especial?”

 A AUTORA

Carolina Nabuco nasceu no Rio de Janeiro, em 1890. Passou a adolescência nos Estados Unidos, onde o pai, o estadista e abolicionista Joaquim Nabuco, era embaixador do Brasil. Tornou-se importante escritora já ao publicar seu primeiro livro: a biografia de seu pai, em 1928, obra que no ano seguinte receberia o Prêmio de Ensaio da Academia Brasileira de Letras. Apesar da educação recebida no exterior, possuía espírito brasileiro. Atuou como escritora e tradutora e levou uma vida discreta. Não se casou nem teve filhos.

Além de A vida de Joaquim Nabuco e de A sucessora, escreveu outros livros: Chamas e cinzas (romance, 1947), Visão dos Estados Unidos (viagem, 1953), Santa Catarina de Sena (biografia, 1957), A vida de Virgílio de Melo Franco(biografia, 1962), Retrato dos Estados Unidos à luz da sua literatura (crítica literária, 1967), O ladrão de guarda-chuva e dez outras histórias (coletânea de contos, 1969) e Oito décadas (memórias, 1973).

Em 1978, Carolina Nabuco recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Quatro anos depois, em agosto de 1981, faleceu, em decorrência de um ataque cardíaco, aos 91 anos de idade, em sua casa na rua Marquês de Olinda, no Rio de Janeiro.

14/11/2018

http://www.academia.org.br/noticias/nova-edicao-do-romance-sucessora-de-carolina-nabuco-1890-1981-sera-lancado-na-abl

* * *

LUGAR SAGRADO DAS APARIÇÕES DE NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS


27 de novembro de 2018
  Plinio Corrêa de Oliveira

Na Rue du Bac, em Paris, é onde se encontra a capela em que Nossa Senhora apareceu a Santa Catarina Labouré (1806-1876) e lhe fez várias revelações no ano de 1830.(*)

Para falar com Santa Catarina, a Virgem Santíssima sentou-se numa modesta cadeira, que se conserva na capela [foto abaixo]. Neste mesmo lugar sagrado, estão sepultadas Santa Luísa de Marillac (1591-1660), fundadora das Irmãs da Caridade, e Santa Catarina Labouré [foto ao lado], cujos corpos permanecem milagrosamente incorruptos até hoje. Essas religiosas usam uma espécie de chapéu muito bonito, e mesmo muito poético, inspirado em toucados de camponesas da Bretanha.

Lembro-me bem que na primeira vez em que estive na capela, na década de 1950, logo percebi a cadeira e ajoelhei-me junto ao braço esquerdo dela, rezei e a osculei.

Anos mais tarde, estando na Europa, voltei com alguns amigos para rezar na capela. Pedimos autorização para oscular a cadeira a uma pessoa responsável pela segurança. Ela, entretanto, negou brutalmente a autorização. Lembrei-me então de um salmo de David que diz doloridamente: “Tornei-me um estranho para os meus irmãos, e um desconhecido para os filhos de minha mãe” (Sl 68,9).
____________
Notas:
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 13 de janeiro de 1989. Sem revisão do autor.

Entre as referidas revelações, a mais importante foi a da Medalha Milagrosa, no dia 27 de novembro de 1830. A respeito, vide edição de novembro/2008 de Catolicismo:


Comentário:

27 de novembro de 2018 à 15:29

Pois eu diria, além do Salmo de Davi, o seguinte: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que fechais o Reino dos Céus aos homens! Pois vós mesmos não entrais, nem deixais entrar aqueles que o desejam! Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que percorreis terra e mar para granjear um prosélito e, uma vez conquistado, o tornais merecedor do inferno duas vezes mais do que vós!” (S. Mateus 23, XIII-XV)


* * *

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

HEROICA RESISTÊNCIA À HERESIA LUTERANA – Afonso de Souza


25 de novembro de 2018
                                                                            ♦  Afonso de Souza
Homenagem a Soror Caridade no antigo convento
das clarissas em Nuremberg     

Em muitas partes do mundo, o clero “progressista” tem incentivado o convívio ecumênico entre católicos e luteranos. Na Alemanha, país que foi o berço da heresia protestante, alguns bispos chegam hoje ao extremo de pleitear a distribuição da Sagrada Comunhão a luteranos! Um absurdo impossível de sequer ser cogitado em séculos passados, quando os partidários de Lutero promoviam guerra acirrada à Igreja e a seus membros. Um dos inúmeros exemplos disso sucedeu no século XVI com um convento das irmãs clarissas em Nuremberg, cujas monjas enfrentaram com galhardia o esforço dos hereges para que elas apostatassem da verdadeira fé. Perseveraram todas, por amor a Deus, até a morte da última.


Em 1517, Martinho Lutero publicou suas 95 teses contra a Igreja Católica. Excomungado em 1521, foi condenado como fora da lei por Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano Germânico. Mas não deixou de semear sua pestilenta doutrina na Alemanha, levando quase dois terços do país à apostasia. Nuremberg, ao norte da Baviera, aceitou em 1525 a pseudo-Reforma protestante e passou a perseguir os católicos que não se curvavam ante a heresia.

Lutero, causa de muitas ruínas


Lutero na Dieta de Worms diante de Carlos V – Anton von Werner, 1877. Staatsgalerie Stuttgart, Alemanha.
Em Nuremberg — cidade que se destaca por sua arquitetura medieval, em particular pelas fortificações e torres de pedra — havia um convento de freiras clarissas com 60 religiosas. A começar pela priora, Bárbara Pirckheimer, todas provinham de famílias da aristocracia local. Primogênita entre 12 irmãos, a Irmã Bárbara decidira entrar para o convento aos 16 anos, tomando o nome de Irmã Caridade. Recebeu a educação humanística em voga naquela época, sobressaindo-se no latim. Seu irmão Willibald, seduzido infelizmente pelas ideias de Lutero, estudou na Itália e se tornou um dos mais importantes humanistas alemães.

Já em 1517 a doutrina de Lutero começara a conquistar terreno em Nuremberg. Aos poucos, com a enorme apostasia que se seguiu, os dirigentes da cidade começaram a fazer pressão sobre as freiras clarissas, para que cedessem e aderissem ao luteranismo. Resistindo quase sozinhas à heresia, lideradas pela Irmã Caridade, elas se opuseram firmemente a abandonar a verdadeira fé. Foram cruelmente perseguidas de 1524 a 1528 pelo Conselho herético da cidade, e registraram tudo na crônica “Fatos Memoráveis”, documento de inestimável valor histórico e espiritual.

Essa valorosa superiora sabia bem o que as novas ideias representavam, e afirmou: “A doutrina de Lutero tem sido a causa de muitas ruínas. Cruéis discórdias têm desgarrado a Cristandade, as cerimônias das igrejas foram mutiladas, e em muitos lugares se abandonou repentinamente o próprio estado [religioso], pois se pregava a suposta liberdade cristã, repetia-se que as leis da Igreja e os votos já não obrigavam a ninguém. A consequência de tal argumentação foi que bom número de monges e monjas usaram esta liberdade para abandonar o claustro e deixar seus hábitos. Muitos inclusive se casaram, agindo apenas de acordo com sua fantasia”.
Na pintura ao lado: Retrato de mulher, do pintor Albert Dürer, não assinado: os especialistas julgam que representa a Irmã Caridade Pirckheimer. 

Pressões para forçar apostasias

Representação de Nuremberg
poucos anos antes da apostasia,
quase geral, nas garras da heresia luterana
Baldados os primeiros intentos, o Conselho municipal recorreu aos familiares das religiosas, para que pressionassem suas filhas, irmãs e sobrinhas a ceder. Durante toda a Quaresma de 1525 houve na cidade contínuos debates entre os que aderiram à nova doutrina e alguns religiosos e sacerdotes ainda fiéis. O Conselho anunciou então a intenção de retirar das irmãs o atendimento espiritual proporcionado por esses sacerdotes, substituindo-os por pastores da nova religião. Diz a Irmã Caridade: “Desde esse dia fomos privadas da confissão, da comunhão e de todos os sacramentos, inclusive em perigo de morte”.

A priora e suas freiras foram obrigadas a aceitar os pregadores do Conselho local, mas rechaçaram seus confessores, preferindo privar-se dos Sacramentos a ceder aos erros. Nesse sentido, ela declarou ao Conselho: “O Conselho recordará certamente que temos sempre obedecido nas coisas temporais. Mas, no que diz respeito às nossas almas, obedecemos apenas à nossa consciência”.

As religiosas foram então submetidas a um verdadeiro massacre moral. Os pregadores usavam com frequência um tom extremamente agressivo. As freiras ouviram 111 pregações dessas, mas mantiveram-se inabaláveis. Por fim, o Conselho desistiu de enviar novos delegados.

As ameaças chegaram enfim às privações econômicas. Na Semana Santa de 1525, relata a Irmã Caridade: “Quando o curador viu que nunca chegaria a vencer minha resistência, mudou de tema e falou-me de um levantamento de camponeses que tinham se rebelado, em número muito considerável, para saquear os conventos e expulsar ou condenar à morte todos os religiosos e as religiosas; que no convento daquela cidade não deveria permanecer uma só clarissa; que faríamos bem em refletir e não dar motivo a um grande massacre”.

Enquanto isso, a situação em Nuremberg só piorava. Um dia depois da Páscoa, todo culto católico foi proibido. Começaram as apostasias, primeiro dos agostinianos, “que eram a fonte de todas as desgraças”, depois dos carmelitas, dos cartuxos. Todos abandonavam seus hábitos, não cantavam mais o Ofício Divino e rezavam os ofícios de acordo com sua fantasia subjetiva. Muitos se casavam.

Em clima de tão geral apostasia, as pressões sobre as clarissas chegaram ao auge. Diariamente eram ameaçadas de serem tiradas à força do mosteiro, cujo claustro deveria ser demolido até os fundamentos. Relata a Irmã Caridade: “Nós nos convertemos para todos, grandes e pequenos, em objeto de desprezo. […] Somos objeto de maior desprezo que as mulheres públicas, as quais nos dizem que valemos verdadeiramente menos do que elas. […] Não querem que ninguém chame mais nossos conventos de ‘claustros’, mas de hospícios, nem que as irmãs se chamem ‘cônegas’; que a abadessa e a priora devem ser chamadas de ‘diretoras’, e não deve existir distinção alguma entre os clérigos e os leigos”.

 Resistência e o prêmio pela fidelidade
  
     A situação chegou a tal ponto, que em 1525 a Irmã Caridade reuniu as religiosas no capítulo e pediu o parecer delas sobre a conduta a seguir: “Encontrei-as todas com o mesmo sentimento, e me responderam que nunca iriam deixar-se converter à nova doutrina por meio do sofrimento; que nunca se separariam da Santa Igreja; e que não conseguiriam arrastá-las para fora da vida monástica. Recusaram a direção dos sacerdotes apóstatas, preferindo ficar longo tempo sem confissão e privadas da Sagrada Comunhão. […] Escrevi a súplica, […] que a comunidade aprovou por unanimidade depois de ouvir a leitura. Cada uma pediu para assinar; nós todas queríamos participar da responsabilidade na desgraça que pudesse advir para nós”.

Essas lídimas seguidoras de Cristo permaneciam assim firmes na Fé. E de tal maneira, que o próprio Felipe Melanchton, número dois de Lutero, chegou a visitá-las pessoalmente, para tentar convencê-las. Mas nada conseguiu, e saiu admirado pela firmeza da abadessa.

A vida continuou para elas, sempre na mesma resistência, até que em 1532 a Irmã Caridade recebeu no Céu o prêmio de sua fidelidade a Cristo. Foi sucedida por sua irmã Clara, e depois pela sobrinha Catarina. Desde o início o Conselho havia proibido as clarissas de receber noviças, e as religiosas iam morrendo sem deixar sucessoras. A última delas, Irmã Felicidade, faleceu aos 91 anos em 1591. O Conselho da cidade tomou então posse do convento dessas heroicas resistentes da Santa Igreja.

Assim desapareceram aquelas 60 filhas de Santa Clara, que haviam afirmado: “Sofreremos aquilo que Deus queira nos enviar. É melhor sofrer por causa do mal do que consentir em fazer o mal”.
____________

Comentário:

Luiz Guilherme Winther de Castro
26 de novembro de 2018 

E ainda há bispos e padres desejando união entre os protestantes e católicos?
Nunca concordei com o tal ecumenismo em assuntos religiosos. Aceitar uma união de esforços para tratar de um assunto social, de caridade, de socorro, ou mesmo de uma convivência pacífica entre crenças e igrejas, uma vez que o país faz questão de ser laico, tudo bem! Cada um acreditando no que deseja acreditar e cada um na sua, desde que fazendo o bem e não o mal.
Quanto a Martinho Lutero, essa figura perniciosa, qual foi mesmo a famosa reforma protestante que ele fez? Reformou o que? Que eu saiba, ele criou uma outra igreja, uma outra crença, com suas ideias mirabolantes e não reformou nada.
A Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana continuou sendo a mesma, com seus dogmas e costumes e não sofreu reforma alguma. Quanto aos costumes e práticas religiosas, com a evolução dos tempos houve transformações sempre visando o melhor para o católico. A Igreja é santa, não erra. ela é a casa de Deus. Os homens que dela participam, estes sim, podem errar. e como erramos.
Portanto, a padre que queria casar-se, o tal de Martinho Lutero, não reformou coisa alguma, provocou uma tremenda cisão na Igreja e pelo que me consta, arrependeu-se no fim da vida e até mandou chamar um padre seu amigo para confessar-se. Seria verdade?




* * *