Belém (PA) 13-10-18: Procissão fluvial com a imagem de Nossa
Senhora de Nazaré
Imponente manifestação de fé e devoção mariana no norte do
Brasil
♦ Valdis
Grinsteins
A Imagem na berlinda que é puxada pelos devotos por meio de
uma longa corda
Todo segundo domingo de outubro, quase dois milhões de
pessoas convergem à cidade de Belém do Pará, a fim de homenagear a Virgem de
Nazaré. Em tal comemoração religiosa, popularmente conhecida como o Círio de
Nazaré, há procissões também nos dois dias que antecedem o segundo domingo de
outubro. A procissão desse dia é considerada a maior do mundo.
Nessa ocasião a população já numerosa da capital paraense
dobra, e verifica-se também uma mudança no estado de espírito da cidade. As
pessoas tornam-se mais amáveis, atenciosas, e o relacionamento entre elas fica
diferente. Tão importante manifestação de fé não passa desapercebida aos
jornais do mundo, dos mais importantes. Assim, o “The New York Times” reconhece
que é “a maior festa religiosa de um país com a maior população católica
do mundo. […] O Círio talvez seja o exemplo mais impressionante […] a força e
viabilidade contínua de um catolicismo popular”.*
O Círio de Nazaré é um exemplo de festividade católica de
cunho popular, numa época neopagã como a nossa.
Antiquíssima tradição
Como muitas devoções nacionais, esta também proveio de
Portugal. Mas não nasceu lá. Bela tradição narra que a imagem original foi
esculpida por São José na própria casa de Nazaré, onde morava a Sagrada
Família. Daí o nome da devoção. Tal imagem permaneceu na Terra Santa e veio
parar nas mãos de São Jerônimo. Este, temendo pela segurança da imagem, devido
aos ataques dos inimigos da fé, enviou-a a Santo Agostinho no norte da África.
Os monges agostinianos levaram-na para a Espanha, e quando ocorreu a invasão
muçulmana ela foi escondida num local de difícil acesso, ficando esquecida por
muito tempo. Até que, em 1182, o nobre português Dom Fuas Roupinho,
participando de uma caçada, estava para cair do cavalo num despenhadeiro [no
quadro ao lado, a representação do milagre, no Santuário Na. Sra. de Nazaré, na
cidade do mesmo nome, Portugal]. Invocou então Nossa Senhora e foi salvo. Em
agradecimento, mandou edificar no local uma capela, e os obreiros que a
construíam descobriram a imagem. Este fato é lembrado nos vitrais da Basílica
paraense, onde aparece um cavaleiro perseguindo um cervo, que cai num
precipício.
A devoção à imagem foi aumentando com os milagres e as
graças obtidos por seu intermédio. Posteriormente, foi diante dessa imagem que
rezou São Francisco Xavier antes de partir a converter o Oriente. E foram os
padres jesuítas que trouxeram, por volta de 1653, esta excelente devoção ao
Brasil. [Na foto ao lado, o Santuário Na. Sra. de Nazaré, na cidade do
mesmo nome, Portugal. Na foto abaixo, a Basílica em Belém do Pará].
A imagem brasileira não é a original, que ainda se encontra
em Portugal. Em nosso País, a história começa quando, em 1700, um rapaz chamado
Plácido de Souza encontra nas margens do Igarapé do Utinga uma imagenzinha
esquecida ou perdida. Ele pegou a pequenina imagem (que mede apenas 28 cm de
altura) e a levou para casa. Entretanto, a imagem desapareceu. Plácido voltou
ao Igarapé e lá a reencontrou. Novamente retornou para casa com a imagem. O
prodígio, contudo, repetiu-se.
Percebendo ele, então, que havia um manifesto e
sobrenatural desejo de Nossa Senhora de permanecer no mesmo lugar onde fora
encontrada, promoveu ali a construção de uma capela para abrigar a milagrosa
imagem. Hoje, nesse local, encontra-se a imponente Basílica de Nazaré. [foto
ao lado].
Várias fases da procissão
A primeira procissão do Círio de Nazaré ocorreu em 1793,
organizada pelo governador português Francisco Coutinho, impressionado com a
força dessa devoção. Desejando que não fosse apenas venerada pela população da
cidade, mas de toda a região, convocou ele uma procissão. Justamente um dia
antes de sua realização, o governador ficou doente. Prometeu então que, caso
ficasse curado, iria até a ermida para buscar a imagem, levá-la-ia até o palácio
do governo e a acompanharia de volta. Após tal fato, essa tradicional procissão
é sempre realizada até os presentes dias.
A festa do Círio contém diversas etapas. Primeiramente, uma
procissão rodoviária; outra fluvial; e, finalmente, o cortejo na cidade.
A procissão em Belém do Pará começa com o traslado da
réplica da imagem, desde o Colégio Gentil Bittencourt até a Catedral,
no sábado à noite.
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.
No domingo, às 6 horas da manhã, as pessoas já aguardam o
início da procissão. São cinco quilômetros, percorridos em quatro horas, mas
que podem chegar facilmente a oito, devido ao impressionante número de
participantes. A imagenzinha é colocada numa berlinda de estilo tradicional,
construída em 1964. Em 1963, colocaram-na num carro novo, mas a novidade foi
rejeitada pelo povo. Originalmente tal berlinda era puxada por cavalos, mas
desde 1885 ela é conduzida pelos devotos, que a puxam mediante uma corda [foto
ao lado, neste dia 13 de outubro de 2018]. Esta longa corda, de 300 metros, é
muito disputada, pois todos querem ter a possibilidade de ter algum contato,
mesmo indireto, com a imagem.
Para essa festividade, pagadores de promessas acorrem à
cidade, provenientes de todas as partes do Brasil, principalmente do Norte e
Nordeste; numerosos meninos vestidos de anjos seguem a imagem; durante o
cortejo, romeiros levam casas em miniatura, partes do corpo humano feitas em
cera, e até barcos em miniatura. Tudo isso em agradecimento por graças e curas
alcançadas. Naturalmente, o mais comum são romeiros portando círios — as velas
que dão nome à celebração.
Manifestações da devoção
Círio fluvial, na manhã do sábado, 13-10-18, com centenas de
barcos
Durante todo o trajeto, a imagem não pára de receber
homenagens: chuvas de papel picado, palmas, flores, cânticos, especialmente
rojões e fogos de artifício.
Após algumas horas a imagem chega à Basílica de Nazaré,
construída, como dissemos, no mesmo local em que, há 210 anos, a imagem foi
encontrada.
Também faz parte do Círio uma romaria fluvial. A
imagem é levada até a vila de Icoaraci. Em seguida, parte pela Baía do Guajará,
acompanhada de todo tipo de embarcações embandeiradas até o porto de Belém. É
um lindo espetáculo contemplar o rio repleto de barcos escoltando a
imagem. [foto ao lado, neste dia 13 de outubro de 2018].
Não poderia deixar de ser mencionado o costume de preparar
pratos típicos para essa festa. Se a procissão revigora a alma, é justo que o
corpo receba também sua parte. Os pratos mais apreciados na ocasião são o Pato
no Tucupi e a Maniçoba.
Um vigor de alma “medieval”
A maior procissão católica do mundo
Como explicar tão impressionante manifestação de fé, no
século XXI, herdeiro das desordens do século XX?
É o que se perguntaram os jornalistas do “The New York
Times”, que terminam o mencionado artigo com a seguinte reflexão: “Tais
costumes e a intensidade do fervor religioso em torno do Círio são um lembrete
de que a Idade Média ainda está presente entre nós e não desapareceu completamente”. Heraldo Maués, autor do artigo e professor de antropologia
da Universidade Federal do Pará, acrescenta: “Ela [a Idade Média]aparece
nas práticas, nas idéias e nas crenças quando menos se espera”.*
É bem isso! As melhores tradições religiosas das épocas de
fé ainda estão vivas, após séculos de tentativas para extirpar da alma do
brasileiro todo vestígio de Cristianismo.
Mas o século XXI também dá sua contribuição. E ela é muito
infeliz. Nos trajes muitas vezes imorais dos romeiros, e em múltiplas
manifestações inconvenientes durante a procissão, vemos a marca deste século de
abominação em que vivemos.
Peçamos a Nossa Senhora de Nazaré que as manifestações
religiosas do Círio sejam para o mundo inteiro um exemplo de fé, em nossos
conturbados dias. E que elas, apesar dos ataques dos inimigos da Santa Igreja,
continuem crescendo até o advento bendito do Reinado do Imaculado Coração,
prometido em Fátima.
_______
*Em atos de fé no Amazonas, a Idade Média sobrevive. “The
New York Times”, 10-10-2000.
Desculpem os amigos, mas não é de um "machismo",
de uma "homofobia" ou de um "racismo" do brasileiro. A
imensa maioria dos eleitores do candidato do PSL não é machista, racista,
homofóbica nem defende a tortura. A maioria deles nem mesmo é bolsonarista.
O Bolsonaro surgiu daqui mesmo, do campo das esquerdas.
Surgiu da nossa incapacidade de fazer a necessária autocrítica. Surgiu da
recusa em conversar com o outro lado. Surgiu da insistência na ação estratégica
em detrimento da ação comunicativa, o que nos levou a demonizar, sem tentar
compreender, os que pensam e sentem de modo diferente.
É, inclusive, o que estamos fazendo agora. O meu Facebook e
o meu WhatsApp estão cheios de ataques aos "fascistas", àqueles que
têm "mãos cheias de sangue", que são "machistas",
"homofóbicos", "racistas". Só que o eleitor médio do
Bolsonaro não é nada disso nem se identifica com essas pechas. As mulheres
votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Os negros votaram mais no Bolsonaro
do que no Haddad. Uma quantidade enorme de gays votou no Bolsonaro.
Amigos, estamos errando o alvo. O problema não é o eleitor
do Bolsonaro. Somos nós, do grande campo das esquerdas.
O eleitor não votou no Bolsonaro porque ele disse coisas
detestáveis. Ele votou no Bolsonaro apesar disso.
O voto no Bolsonaro, não nos iludamos, não foi o voto na
direita: foi o voto anti-esquerda, foi o voto anti-sistema, foi o voto
anti-corrupção. Na cabeça de muita gente (aqui e nos EUA, nas últimas
eleições), o sistema, a corrupção e a esquerda estão ligados. O voto deles aqui
foi o mesmo voto que elegeu o Trump lá. E os pecados da esquerda de lá são os
pecados da esquerda daqui.
O Bolsonaro teve os votos que teve porque nós evitamos, a
todo custo, olhar para os nossos erros e mudar a forma de fazer política.
Ficamos presos a nomes intocáveis, mesmo quando demonstraram sua falibilidade.
Adotamos o método mais podre de conquistar maioria no congresso e nas
assembleias legislativas, por termos preferido o poder à virtude. Corrompemos a
mídia com anúncios de empresas estatais até o ponto em que elas passaram a
depender do Estado. E expulsamos, ou levamos ao ostracismo, todas as vozes
críticas dentro da esquerda.
O que fizemos com o Cristóvão Buarque?
O que fizemos com o Gabeira?
O que fizemos com a Marina?
O que fizemos com o Hélio Bicudo?
O que fizemos com tantos outros menores do que eles?
Os que não concordavam com a nossa vaca sagrada, os que
criticavam os métodos das cúpulas partidárias, foram calados ou tiveram que
abandonar a esquerda para continuar tendo voz.
Enquanto isso, enganávamo-nos com os sucessos eleitorais, e
nos tornamos um movimento da elite política. Perdemos a capacidade de nos
comunicar com o povo, com as classes médias, com o cidadão que trabalha 10h por
dia, e passamos a nos iludir com a crença na ideia de que toda mobilização
popular deve ser estruturada de cima para baixo.
A própria decisão de lançar o Lula e o Haddad como
candidatos mostra que não aprendemos nada com nossos erros - ou, o que é pior,
que nem percebemos que estamos errando, e colocamos a culpa nos outros. Onde
estão as convenções partidárias lindas dos anos 80? Onde estão as correntes e
tendências lançando contra-pré-candidatos? Onde estão os debates internos?
Quando foi que o partido passou a ter um dono?
Em suma: as esquerdas envelheceram, enriqueceram e se
esqueceram de suas origens.
O que nos restou foi a criação de slogans que repetimos e repetimos
até que passamos a acreditar neles. Só que esses slogans não pegam no povo,
porque não correspondem ao que o povo vivencia. Não adianta chamar o eleitor do
Bolsonaro de racista, quando esse eleitor é negro e decidiu que não vota nunca
mais no PT. Não adianta falar que mulher não vota no Bolsonaro para a mulher
que decidiu não votar no PT de jeito nenhum.
Não, amigos, o Brasil não tem 47% de machistas, homofóbicos
e racistas. Nós chamarmos os eleitores do Bolsonaro disso tudo não vai resolver
nada, porque o xingamento não vai pegar. O eleitor médio do cara não é nada
disso. Ele só não quer mais que o país seja governado por um partido que tem um
dono.
E não, não está havendo uma disputa entre barbárie e
civilização. O bárbaro não disputa eleições. (Ah, o Hitler disputou etc. Você
já leu o Mein Kampf? Eu já. Está tudo lá, já em 1925. Desculpe, amigo, mas
piadas e frases imbecis não são o Mein Kampf. Onde está a sua capacidade
hermenêutica?).
Está havendo uma onda Bolsonaro, mas poderia ser uma onda de
qualquer outro candidato anti-PT. Eu suspeito que o Bolsonaro só surfa nessa
onda sozinho porque é o mais antipetista de todos.
E a culpa dessa onda ter surgido é nossa, exclusivamente
nossa. Não somente é nossa como continuará sendo até que consigamos fazer uma
verdadeira autocrítica e trazer de volta para nosso campo (e para os nossos
partidos) uma prática verdadeiramente democrática, que é algo que perdemos há
mais de vinte anos. Falamos tanto na defesa da democracia, mas não praticamos a
democracia em nossa própria casa. Será que nós esquecemos o seu significado e
transformamos também a democracia em um mero slogan político, em que o que é
nosso é automaticamente democrático e o que é do outro é automaticamente
fascista?
É hora de utilizar menos as vísceras e mais o cérebro,
amigos. E slogans falam à bile, não à razão.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Marcos.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, quando Jesus saiu a caminhar, veio
alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom Mestre, que devo
fazer para ganhar a vida eterna?”
Jesus disse: “Por que me chamas de bom? Só Deus é bom, e
mais ninguém. Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás
adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás
ninguém; honra teu pai e tua mãe”. Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho
observado desde a minha juventude”.
Jesus olhou para ele com amor, e disse: “Só uma coisa te
falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu.
Depois vem e segue-me!”
Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio
de tristeza, porque era muito rico. Jesus então olhou ao redor e disse aos
discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!”
Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse
de novo: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais
fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino
de Deus!” Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns
aos outros: “Então, quem pode ser salvo?”
Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é
impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.
Pedro então começou a dizer-lhe: “Eis que nós deixamos tudo
e te seguimos”.
Respondeu Jesus: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado
casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do
Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa,
irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a
vida eterna.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Frei Alvaci
Mendes da Luz, OFM:
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Vidas com sabor de eternidade
pexels.com
“...que devo fazer para ganhar a vida eterna”? (Mc
10,17)
Ao começar a narrar a cena do jovem rico, Marcos nos faz
cair na conta que o encontro acontece quando “Jesus saiu caminhando”. O caminho
é o lugar dos encontros surpreendentes, do diálogo com o diferente, da
amplitude de vida... A itinerância é o modo próprio de Jesus viver e, portanto,
também é a marca do discipulado.
Ao mover-se de um lugar a outro Jesus se põe em condições de
acolher o outro, de deixar-se afetar por suas buscas e perguntas existenciais.
Abandona os lugares seguros e corretos para dirigir-se, não só às margens da
história, mas também ali onde estavam outros homens e mulheres com inquietações
diferentes, com outras visões e experiências..., mas carentes de sentido.
Toda saída implica deixar para trás lugares conhecidos,
experiências que funcionaram, certezas adquiridas, crenças, valores,
referências fixas...; enfim, tomar distância daquilo que parece nos dar mais
segurança. Em outras palavras, toda saída, todo êxodo, implica uma profunda
experiência de despojamento, um exercício para tornar leve a equipagem, uma
confrontação com o novo e o diferente que, tantas vezes, assusta e provoca
medo.
Nossos estilos de vida cristã e nossas estruturas precisam
de uma transformação, uma itinerância, que só acontece quando corremos o risco
de sair de nossas estufas mofadas e entrar nos novos espaços abertos, quando
deixamos os lugares seguros e percorremos as ruas, ali onde acontece a vida das
pessoas, procurando acolher todo o humano no coração.
Precisamos transitar novas sendas, exercer uma sadia
autocrítica com respeito a ideias, linguagens, estilos de vida, modos de
compreender a fé, etc., que temos recebido e nas quais nos encontramos seguros
e tranquilos. Precisamos passar de um olhar auto referencial e moralizador a um
olhar que corre o risco de encontrar-se com os olhos dos outros, dos
diferentes, que se abra a novas aprendizagens e não tema as mudanças; de um
olhar superficial a outro olhar capaz de perfurar a realidade até descobrir o
Deus que “a todos dá a vida, respiração e tudo mais” (Atos 17,25)
“Ao sair caminhando, quando veio alguém correndo...”.
O encontro dá-se no caminho de Jesus para Jerusalém, e o homem que vem à sua
procura (no começo, Marcos não oferece nenhum outro dado sobre ele, deixando o
“efeito surpresa” para o final), aproxima-se correndo, como que fustigado por
uma urgência implacável, e se ajoelha diante de Jesus, com respeito, como se
visse nele seu último recurso para encontrar resposta à pergunta que lhe
angustia.
Não vem a Jesus como outros personagens, oprimidos pela
enfermidade, mas sim a partir de uma inquietude interior: “o que fazer para
ganhar a vida eterna”? Não parece preocupá-lo a vida terrena, pois sua
subsistência estava garantida; ele pergunta por uma vida definitiva, própria do
mundo futuro: como evitar que a morte seja o fim de tudo? Que fazer para
“ganhar outra segurança”?
Podemos dizer que os evangelhos desvelam dois tipos de
perguntas dirigidas a Jesus:
A primeira é: “Senhor, o que devo fazer para ganhar a vida
eterna”? Esta pergunta nunca sai da boca de um pobre, mas de quem já tem
assegurada a vida terrena e, agora, preocupa-se com a “poupança celestial”. É o
caso do doutor da lei, de Nicodemos, do homem rico... A resposta de Jesus é, no
mínimo, irônica, pois brota de uma pergunta que visivelmente o
incomodava.
A outra pergunta é bem diferente: “Senhor, o que devo fazer
para ter vida nesta vida? Pois, sou cego e quero enxergar, tenho a mão seca e
preciso trabalhar, sou paralítico e quero andar, minha filha está doente e
quero vê-la curada...”
Em outras palavras, “o que devo fazer para ter vida em
plenitude”? Esta pergunta só é feita pela boca dos pobres. Pobreza é estar
ameaçado num direito fundamental de vida. A esses, Jesus respondia com
seriedade e acolhida. Interessante como a espiritualidade de Jesus era a de
quem gerava vida, sobretudo para aqueles que estavam ameaçados em sua vida, dom
maior de Deus. Ativava a Vida nesta vida.
No evangelho deste domingo, o jovem expõe sua inquietude
pela vida eterna em termos de posse (“ganhar”) e, em relação aos mandamentos,
diz que os “observava”. Em sua resposta, Jesus emprega os mesmos termos, mas em
outra direção: não naquela da posse ou da herança, mas naquela do despojamento,
do desprendimento, do esvaziamento e da entrega... Isso é “o que lhe falta:
vai, vende, dá, segue-me...”.
A inquietude do jovem estava centralizada na vida eterna, e
Jesus responde apontando para esta vida, arrancando-a de um fatal “ponto
morto”; diante de sua preocupação com o “além”, Jesus indica-lhe o “aquém”. O
caminho para conseguir a outra vida (“um tesouro no céu”) passa necessariamente
por uma maneira criativa e oblativa de usar os bens, tendo como horizonte de
vida o mundo dos pobres.
“Uma coisa lhe faltava”, não para herdar a vida definitiva,
mas para realizar em si mesmo o projeto de Deus, para encontrar a felicidade
que não possuía e a plenitude à qual sentia-se chamado. Todo acesso a um
“tesouro no céu” passa por um modo concreto de “gerenciar” o tesouro que se
possui aqui, ao estilo de Jesus (“depois, vem e segue-me”). Participar da vida
de Deus, que é o que consiste a vida eterna, é participar em sua prodigalidade
e em sua generosidade já nesta vida.
A nova sabedoria pede capacidade para deixar-se surpreender
e que os “diferentes” irrompam em seu mundo, mudem seus ritmos, as dinâmicas,
desestruturem seus tempos e seus espaços..., revirem seus modos de viver,
pensar, sentir e fazer; requer que a vida deixe certezas herdadas, e esteja
disposta a reinventar-se, quebrando “modos fechados” de ver o mundo, para
depois reconstruí-los à luz de uma perspectiva mais ampla.
O espanto se apoderou do jovem: sentia-se diante de uma
encruzilhada, na qual era convidado a deixar para trás todos os caminhos já
frequentados, e adentrar-se em outro absolutamente novo e cheio de
surpresas; mudar o “modo de proceder e viver” que estava acostumado,
desconectando-se de seus apegos às riquezas; atrever-se a crer numa palavra que
afirmava que a vida plena, feliz e abundante que ele buscava, estava mais em
deixar que em possuir; acolher o apelo para renunciar tudo aquilo que até esse
momento, constituía sua segurança, e abrir-se a uma vida de partilha
solidária....
Sentiu vertigem e se afastou devagarinho, consciente de que
os olhos do Mestre continuavam fixos nele, esperando talvez que fizesse meia
volta. Jesus, ao fixar seu olhar no interior do jovem, o desafiou a colocar-se “em
movimento” (“vem comigo”), pronto para começar algo novo, uma nova existência
que não lhe era familiar e que o faria percorrer caminhos desconhecidos, sendas
que não sabia por onde o levavam, porque estava fora da sua “ bolha de
conforto”, confirmada pelo seu grupo social e religioso. Jesus o convidou a
fazer caminho com Ele. No entanto, o jovem escolheu a estabilidade, o lugar que
lhe era familiar e que lhe dava segurança. Atrofiou sua vida e esvaziou-a do
sentido de eternidade.
Texto bíblico: Mc 10,17-31
Na oração: Para identificar aquilo que sobra e que vai
se tornando um “peso”, é bom tomar distância e considerar nossa vida a partir
de outra perspectiva. É preciso parar e atrever-nos a acessar a esse recipiente
vital onde vamos acumulando e perguntar-nos: quanto do que possuímos faz tempo
que não usamos ou não precisamos? Quanto do que ali vemos ocupa um lugar
desnecessário? Que encontramos ali que não nos enche de esperança? Que vemos
ali que pode ser passível de ser mudado? Se tivéssemos que fazer limpeza, por
onde começaríamos?... No nosso mundo interior, é necessário esvaziar para
encher, tirar para deixar lugar para aquilo que é essencialmente importante e
decisivo.
- Por que não colocar um pouco de ordem na sua mochila
vital? O que lhe está sobrando?
- De verdade, de que você quer preencher sua vida? Está sua
vida cheia de Vida?
No dia 23 de abril de 1923, o Rio de Janeiro viu nascer o
seu filho ilustre, Helio Jaguaribe de Mattos, conhecido apenas como
Helio Jaguaribe. Filho do General Francisco Jaguaribe de Mattos
e de Francelina Santos Jaguaribe de Mattos, já trazia na bagagem familiar
muita responsabilidade, já que o seu pai tinha sido geógrafo e cartógrafo
da Comissão Rondon, chefiada pelo marechal Cândido Mariano da Silva
Rondon, que desenvolveu um dos projetos sociais mais importantes do
país, e a sua mãe, portuguesa, era filha de um grande exportador de vinho
do Porto. Em relação aos estudos, a sua opção foi pelo Direito, se formando
em 1946 pela Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RJ). Mas
ele não se deteve apenas nesta área de atuação, já que é muito conhecido
em todo o país como sociólogo, cientista político e escritor brasileiro.
E não apenas como advogado.
A sua participação no Instituto Superior de Estudos
Brasileiros (Iseb), órgão criado em 1955, no Rio de Janeiro, vinculado
ao Ministério de Educação e Cultura, foi marcante. Os debates realizados
no local tiveram grande impacto nos anos 1950 e 1960, principalmente
durante o governo de Juscelino Kubitschek, quando se buscava caminhos
para o desenvolvimento industrial do país e alternativas para garantir
a diminuição das contradições sociais. A questão cultural também
mereceu a atenção do instituto. O seu livro “O Nacionalismo na Atualidade
Brasileira”, lançado em 1958, é considerado uma de suas principais
obras.
O brilhantismo das ideias lançadas por Hélio Jaguaribe
era um dos destaques do Iseb. Lá, ele que teve a companhia de figuras,
também brilhantes, como Roland Corbisier, Alberto Guerreiro Ramos,
Álvaro Vieira Pinto, Nelson Werneck Sodré, Antonio Cândido, Wanderley
Guilherme dos Santos, Cândido Mendes, Ignácio Rangel e Carlos Estevam
Martins. Sem falar nos chamados colaboradores, como Celso Furtado,
Gilberto Freyre e Heitor Villa Lobos, que também ajudavam nas atividades,
assim como Miguel Reale e Sérgio Buarque de Hollanda, considerados
os membros ilustres.
Após ser extinto, em 1964, os integrantes do Iseb tiveram
que se exilar. Foi quando Helio Jaguaribe passou a lecionar nos Estados
Unidos: de 1964 a 1966 na Universidade de Harvard, na Universidade de
Stanford e no MIT – Massachusets Institute of Tecnology. Ao retornar
ao Brasil, em 1969, foi contratado pelo Conjunto Universitário Cândido
Mendes, onde atuou como Diretor de Assuntos Internacionais. Naquela
mesma instituição foi decano do Instituto de Estudos Políticos e
Sociais, função que exerceu até 2003, sendo depois nomeado Decano
Emérito, cargo que manteve até a sua morte, ocorrida no último dia 9
de setembro de 2018.
Helio Jaguaribe é doutor honoris causa da Universidade
de Johannes Gutenberg, de Mainz, Alemanha, da Universidade Federal
da Paraíba e da Universidade de Buenos Aires. Na Academia Brasileira
de Letras, foi o nono ocupante da Cadeira nº 11, sucedendo a Celso
Furtado, seu companheiro dos tempos de Iseb. Foi eleito em 3 de março
de 2005 e tomou posse em 22 de julho de 2005, sendo recebido pelo acadêmico
Candido Mendes de Almeida.
Para quem deseja conhecer mais sobre a obra de Helio
Jaguaribe, é interessante ver o documentário “Tudo é irrelevante,
Helio Jaguaribe”, sobre a vida do sociólogo brasileiro. Está em
cartaz em São Paulo. Dirigido por sua filha Izabel Jaguaribe e por
Ernesto Baldan, a obra traz depoimentos de companheiros nossos aqui
da ABL, como Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Paulo Rouanet e Antonio
Cícero. O cartaz do filme é um capítulo à parte, mostrando o nosso
saudoso acadêmico sorridente, mãos levantadas, num momento de descontração
que marca profundamente a sua grande figura humana.
Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL,
eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17
de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos
Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia
Brasileira de Letras em 1998 e 1999.