Bendita a lágrima em que se cristaliza o acervo atroz de
nossas dores e se dilui o negro fel de nossas mágoas. Bendita a lágrima a
cuja tona flutuam farrapos sombrios de sonhos dourados e em cujo fundo vagueiam
espectros tristonhos de esperanças mortas.
Bendita a lágrima dos que carpem a desdita de nascerem sem
teto e choram a desgraça de viverem sem pão. Bendita a lágrima dos que
jamais conheceram um afeto de mãe e nunca provaram um carinho de esposa. Bendita
a lágrima, desafogo amigo dos que são sós e consolo ardente dos que são
tristes. Bendita a lágrima em que se cristaliza o acervo atroz de nossas
dores e se dilui o negro fel de nossas mágoas.
Bendita a lágrima a cuja tona flutuam farrapos sombrios de
sonhos dourados e em cujo fundo vagueiam espectros tristonhos de esperanças
mortas. Bendita a lágrima dos que carpem a desdita de nascerem sem
teto e choram a desgraça de viverem sem pão. Bendita a lágrima
dos que jamais conheceram um afeto de mãe e nunca provaram um carinho de
esposa. Bendita a lágrima, desafogo amigo dos que são sós e consolo
ardente dos que são tristes.
Bendita a lágrima dos que põem sobre os ombros a cruz
de seu próximo e o ajudam a escalar o calvário da existência. Bendita a
lágrima dos que buscam, errantes, o calor de um afeto e somente encontram o
frio do desprezo. Bendita a lágrima dos que sofrem injustiças pelos ideais
que defendem e só colhem ingratidões pelo bem que semeiam.
Bendita a lágrima que aflora, escaldante, nas noites do
sofrimento e esplende como um sol nas manhãs da redenção. Bendita, enfim,
a lágrima, gota de luz das auroras celestes e síntese terrena do orvalho
divino.
Que um dia, nós saibamos brindar a existência desse ser que
luta, inspira o mundo, é foda demais, é a força, o suor, o trabalho, o
descanso, é a beleza universal de coragem, é quem vai mesmo quando todo mundo
acha que ela não vai dar em nada, é ela que se ama em primeiro lugar, acredita
em seus sonhos e bota a cara para que o mundo seja mais bonito, mais humano,
mais igual.
Mulher. A feminilidade se expande há uma roupa bonita, uma
maquiagem bem feita, uma estética. O ser mulher tem uma raiz que é o maior
atributo e a maior beleza dessa divindade humana. É a força, a mulher luta como
ninguém para ser quem ela é e buscar o espaço que merece na sociedade. É sangue
no mesmo olhar que transpassa amor. É persistência, luta, verdade, sororidade.
Quantas mulheres nos enchem os olhos por ser de uma
autenticidade gigante? De uma beleza interna que só nos resta admirar, de uma
disposição para correr atrás dos sonhos e que nos inspira, faça chuva ou faça
sol, elas estarão lá lutando com uma coragem e dizendo eu posso sim, se tem uma
coisa que eu posso é isso.
A alma feminina não é só delicadeza, docilidade, afago. É
uma alma que acredita nos seus desejos e nutre a liberdade de ser quem ela
quiser ser. Sabe aquela mulher que você enxerga de forma estereotipada como um
anjo frágil? Vou te contar um segredo, ela não tem nada de frágil. Não há
conheça por um estereótipo. Mulher é muito mais que isso. Todos nós somos. Por
exemplo, você já se sentiu intimidado por uma mulher? Pensou “como ela pode ser
tudo isso?” ou “ela é demais, eu não quero estar com alguém que é tanto”. São
muitas as barreiras que o ser mulher tem que enfrentar, cada dia é um novo
estereótipo, um novo julgamento, e é preciso persistir para obter a visibilidade
que a mulher merece, o respeito que merece, pra quem sabe um dia também receber
o amor que também merece.
Cada uma tem as suas qualidades, os seus defeitos, as suas
peculiaridades. E cada uma deve ter a liberdade de escolher o que quer ser,
como quer viver. Cada um tem a sua vida, então se você acha bom viver de tal
forma, vive a sua vida assim, e não a do outro, essa quem tem que saber como
quer viver é ele, não você. Não é difícil entender, né?
É incrível a diversidade de personalidade que temos no
mundo, e se possível, admirar cada uma, cada singularidade. Enxergar o outro
com os olhos de quem quer ver, e não com os olhos de quem quer julgar. Mulheres
é preciso sororidade. Não tem competição nesse mundo não, tem a autenticidade
de ser aquilo que você é e então ser verdadeiro consigo pra poder ser
verdadeiro com o mundo.
Torço para chegar o dia em que as mulheres sejam vistas como
merecem, e que a sociedade aos poucos deixe de estereotipar, que a gente saiba
reconhecer o outro e respeitar. Que um dia, nós saibamos brindar a existência
desse ser que luta, inspira o mundo, é foda demais, é a força, o suor, o
trabalho, o descanso, é a beleza universal de coragem, é quem vai mesmo quando
todo mundo acha que ela não vai dar em nada, é ela que se ama em primeiro
lugar, acredita em seus sonhos e bota a cara para que o mundo seja mais bonito,
mais humano, mais igual.
Mulheres, vocês são o auge, a fortaleza, o horizonte. Vocês
podem, e ainda mais juntas. Lutem!
A Academia Brasileira de Letras dá continuidade a seu ciclo
de conferências do mês de setembro de 2018, intitulado Cinema e Literatura,
com palestra da escritora e dramaturga Maria Adelaide Amaral. A
coordenação será do Acadêmico e poeta Geraldo Carneiro, e o tema escolhido foi
“Literatura e teledramaturgia: diferenças e confluências”. O evento está
programado para o dia 20 de setembro, às 17p0min, no Teatro R. Magalhães Jr.,
Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.
Serão fornecidos certificados de frequência.
A Acadêmica Ana Maria Machado é a Coordenadora-Geral dos ciclos
de conferências de 2018.
Maria Adelaide Amaral fez um resumo sucinto de sua
conferência: “O máximo que posso dizer é que vou falar sobre A Muralha, Os
Maias, A casa das sete mulheres e Queridos amigos”.
Cinema e literatura terá mais uma palestra, na
quinta-feira, dia 27, no mesmo local e horário, com o cineasta Cacá Diegues
(Acadêmico eleito), que falará sobre o tema Letras e Imagens: a literatura
no cinema.
A CONFERENCISTA
Escritora e dramaturga, Maria Adelaide Amaral nasceu em
Portugal e chegou ao Brasil em 1954. Cursou Jornalismo na Fundação Cásper
Líbero, concluindo em 1978.
Em 1975, escreveu seu primeiro texto dramatúrgico, A
Resistência, mas o primeiro a ser encenado, no entanto, foi Bodas de Papel,
escrito em 1976 e montado em 1978, em São Paulo.
Seu primeiro livro, Luisa, quase uma história de amor,
publicado em 1986 pela Editora Nova Fronteira, ganhou o Prêmio Jabuti de melhor
romance daquele ano e deu origem à peça teatral De Braços Abertos,
com Irene Ravache, Juca de Oliveira e direção de José Possi Neto.
Foi para a TV a convite de Cassiano Gabus Mendes, em 1990,
para escrever com ele a novela Meu Bem, Meu Mal. Após trabalhar como
colaboradora em diversas novelas, em 1997 escreveu, como autora principal, o
remake da novela Anjo Mau, do mesmo autor. Continua trabalhando
ativamente desde então.
Autor de diversas títulos pela Editus, editora da
Universidade Estadual de Santa Cruz,
Cyro fala sobre uma de suas últimas antologias que organizou, premiações literárias e a projeção global que
elas oferecem para o conteúdo de suas obras.
Cyro de Mattos é contista, romancista, poeta, cronista,
ensaísta, organizador de antologia e coletânea,e também autor de livros infantis. Já publicou mais de 44 livros no
Brasil e 13no exterior, sendo 9 deles
com o selo editorial da Editus - Editora da UESC. Em setembro de 2017, o
escritor foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela UESC. Em sua
trajetória, ele já recebeu mais de 40 prêmios literários, entre eles o Prêmio Vânia
Souto Carvalho, concedido pela Academia Pernambucana de Letras, com o livro
“Berro de Fogo e outras histórias”, que em 2013 ganhou nova edição pela Editora
da UESC, o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio da
Associação Paulista dos Críticos de Artes, o Prêmio Pen Clube do Brasil, o
Segundo Prêmio Internacional de literatura Marengo d’Oro, em Genova, Itália,
duas vezes,e, recentemente, o Prêmio
Literário Nacional Cidade de Manaus. . Seu livro “Vinte Poemas do Rio”,
português-inglês, foi indicado para o vestibular da Universidade Estadual de
Santa Cruz, durante três anos, como também “O Conto em Vinte e Cinco Baianos”,
antologia que ele organizou.
Recebeu ainda Menção Honrosa no Prêmio Jabuti e Menção entre
os quatro finalistas no Concurso Internacional da Revista Plural, México,
concorrendo com mais de 600 autores. Algumas de suas obras destacam a
civilização cacaueira baiana como um dos espaços do seu imaginário fecundo, no
qual retrata a paisagem, personagens, lugares, hábitos e histórias. Dois outros
grandes acontecimentos marcaram a vida do escritor. Foi eleito para a
cadeira nº 22 da Academia de Letras da Bahia, que tem como fundador Rui
Barbosa, e o seu livro, “Histórias dos Mares da Bahia”, foi lançado na 24ª Bienal
Internacional do Livro de São Paulo, no estande da Associação Brasileira de
Editoras do Nordeste - ABEU. A obra faz parte da Coleção Nordestina, projeto
editorial que reúne livros produzidos pelas editoras da ABEU Nordeste.
Essa coletânea reúne dezesseis escritores baianos, e, entre eles, João
Ubaldo Ribeiro, Hélio Pólvora, Ruy Espinheira Filho, Guido Guerra, Gláucia
Lemos e Aramis Ribeiro Costa. Alguns anos atrás, seu livro "Cancioneiro do
Cacau", Prêmio Nacional Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores
(Rio) e Segundo Prêmio Internacional Maestrale Marengo d’Oro, Gênova, Itália,
foi lançado na Bienal Internacional do Livro do Rio, em segunda edição, pela
Editus...
1.As suas obras expressam muito da cultura do sul da Bahia,
com destaque especial para a civilização nascida ao longo do tempo pela
implantação da lavra cacaueira. Essas representações ganharam projeções
internacionais e também importantes premiações no cenário nacional. Como é ver
o local de suas criações ganhar uma projeção global? Como o senhor avalia
pessoal e profissionalmente essas importantes premiações?
Canta a tua aldeia e serás universal, disse o russo Tolstoi.
Para Fernando Pessoa, o genial poeta português, o melhor rio não era o Tejo,
mas o rio que passava ao pé de sua aldeia, porque era o rio de sua aldeia.
Houve quem observasse que o homem faz o lugar e não o contrário. E o lugar é
onde se registra a memória. O lugar tem sido motivação e símbolo para algumas
de minhas criações. Minhas origens e vivências locais têm sido uma das
vertentes de minhas produções em prosa e verso. Isso acontece quando às vezes,
das germinações à execução da ideia, tomo como ponto de partida minhas
vivências na infância, em outras vou buscar ou imaginar o assunto no cerne da
história, aproveitando o que vi, colhi nos mais velhos ou até pesquisei.
Pode até mesmo acontecer que imagine um espaço sem localização
geográfica, identificável com alguma parte do sul da Bahia, como no romance “Os
Ventos Gemedores”, no qual criei o condado de Japará para desenvolver a trama,
auscultar os personagens através de conflitos no drama. Assim, desde que
meu texto leve aos outros uma nova forma de conhecimento da vida, através da
linguagem que poetiza a vida, situações e gente com nervos e sentimentos, tendo
como resultado um alcance universal e reconhecimento, aqui na região e fora de
nossas fronteiras, fico contente, torno-me menos incompleto na existência, que
para nós humanos é falha, limitada, precária, vulnerável, não basta. É
gratificante, um verdadeiro prêmio que é dado ao autor esse tipo de
reconhecimento. Acho sensato ser reconhecido em vida pelo meu trabalho, depois
de morto só serve para o orador, que passa como herói, ao ressaltar no
sepultamento as qualidade de quem se foi para sempre, não está mais neste mundo,
ficou submetido ao inexorável.
2.O senhor foi eleito para ocupar a cadeira 22 da Academia
de Letras da Bahia e recebeu o primeiro título de Doutor Honoris Causa da
Universidade Estadual de Santa Cruz pela sua contribuição à literatura e à
cultura. O que significam esses novos reconhecimentos na sua carreira
literária?
São qualificações de meu trabalho no mais alto nível.
Sinto-me honrado, fortalecido, incentivado para continuar a jornada nessa
estrada solitária, a essa altura comprida. Nela, paro às vezes, olho para
trás, vejo à direita e à esquerda, sigo em frente com tantas vozes no peito,
dos outros, mas que no fundo são também minhas. Vou formando com elas e a minha
voz o diálogo necessário, o disfarce múltiplo que desfaz o real e projeta outra
realidade com novos sentidos, externa outra linguagem através dos sinais
visíveis da escrita, com seu poder metafórico intenso e de proliferação, que me
ajuda a sobreviver e a conhecer um tanto mais do que sou, entre o alegre e o
triste, o transitório e o permanente, o belo e o feio. Vou cumprindo uma
missão, usando as palavras para explicar o inexplicável, mas que é belo, com
suas verdades retiradas da vida, a ela devolvidas com razão e emoção, porque
assim deve ser.
3. O seu último livro, “História dos Mares da Bahia”, foi
lançado na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no estande coletivo
da ABEU pela Editus. A publicação traz 16 contos de importantes escritores
baianos, que revelam um cenário de muitas histórias. Por que o mar como fonte de
inspiração e ambientação? Como foi a escolha dos autores?
Como se vê sem esforço, trata-se de antologia temática. As
histórias têm como foco o mar da Bahia, que entra como o cenário, ora
interferindo no destino dos personagens, ora como elemento de composição da
paisagem humana. O mar é assim a fonte de inspiração e ambientação de cada
história. O mar sempre exerceu uma sedução e atração aos seres humanos. E, como
temos ficcionistas na Bahia da melhor qualidade, que souberam focar o mar como
fonte de suas criações, resolvi fazer uma antologia com o tema e com esses
autores expressivos. O critério da escolha dos contistas se deu em função da
qualidade do texto. Convenhamos que, como em toda a antologia, ocorre a
omissão, mas os autores selecionados para a coletânea “Histórias dos Mares da
Bahia” são os mais representativos do gênero na Bahia. Eu diria sem hesitar que
são contistas brasileiros da Bahia, fortes no discurso coeso. Com seus
projetos estéticos e resultados positivos, todos eles vêm contribuindo para que
as letras brasileiras operem como meio eficaz de comunicação humana em sua
função social.
Fonte: ABEU- Associação Brasileira das Editoras
Universitárias
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Marcos.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus partiu com seus discípulos para os
povoados de Cesaréia de Filipe. No caminho perguntou aos discípulos: “Quem
dizem os homens que eu sou?” Eles responderam: “Alguns dizem que tu és
João Batista; outros que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas”. Então
ele perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o
Messias”.
Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu
respeito. Em seguida, começou a ensiná-los, dizendo que o Filho do Homem
devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e
doutores da Lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias. Ele
dizia isso abertamente. Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a
repreendê-lo. Jesus voltou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a
Pedro, dizendo: “Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim
como os homens”.
Então chamou a multidão com seus discípulos e disse: “Se
alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois,
quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por
causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre André
Teles:
---
Quando perder é ganhar
“Quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai
salvá-la” (Mc 8,35)
O Seguimento é tema central em todos os evangelhos, ou seja,
“fazer o caminho” com Jesus, identificando-se com Ele na entrega aos outros,
sem buscar para si poder ou glória. Ao longo de todo seu escrito, Marcos
manifesta uma prevenção especial frente a qualquer ideia de um messianismo
triunfalista, centrado no poder e na glória. O caminho do Messias – repetirá
diversas vezes – passa pela entrega e pela cruz. Os discípulos, pelo contrário,
aparecem obcecados, “surdos e cegos”, discutindo habitualmente por questões de
poder, de importância e de privilégio, enquanto que Jesus lhes fala de serviço
e doação.
Neste sentido, é sumamente significativo o contraste que
Marcos apresenta, intencionalmente, entre o caminho de Jesus e o caminho dos
discípulos: nos três anúncios da paixão, quando Jesus lhes fala de seu caminho
de entrega, eles manifestam uma clara resistência. O choque é grande: Jesus e
seus discípulos caminham em direções diametralmente opostas: o caminho serviço
X o caminho da ambição. Mas, para Jesus, trata-se de uma questão não
negociável: seu caminho reflete o “pensamento de Deus”. A vontade do Pai nunca
passará pelo caminho do poder sobre os outros, senão pelo caminho do
serviço.
No evangelho deste domingo, a divergência entre ambos
caminhos fica explicitada tanto na reação de Pedro como na resposta dura de
Jesus. O caminho dos discípulos reflete os mecanismos próprios do ego, que não
busca outra coisa a não ser a autoafirmação a qualquer preço, apegando-se ao
ter, ao poder e ao aparentar, ao mesmo tempo que foge de tudo o que soa a
desapego e entrega.
Para o ego, a entrega desinteressada é uma loucura, que é
preciso evitar a todo custo. Para Jesus, pelo contrário, o impulso do ego se
opõe frontalmente a Deus. A resposta de Jesus a Pedro é a mesma que Ele deu ao
diabo nas tentações; nem aos fariseus, nem aos letrados, nem aos sacerdotes
dirige Jesus palavras tão duras. Quer com isso indicar que a proposta de Pedro
era a grande tentação, também para Jesus. A verdadeira tentação não vem de
fora, mas de dentro. O difícil não é vencê-la, mas desmascará-la e tomar
consciência de que ela é a que pode arruinar a Vida.
Pedro é “Satanás” na medida em que espera que Jesus siga o
caminho do messianismo convencional, glorioso, vencedor dos inimigos do povo,
que estabelece seu próprio reinado, e não aceita o caminho que Jesus começa a
propor, o do serviço que acaba na cruz. Mas Jesus não rejeita Pedro e nem
pede a ele simplesmente que se vá ou se afaste (costuma-se traduzir por
“aparta-te de mim...”). Diz-lhe “põe-te detrás de mim”; a mesma expressão que
utiliza no versículo seguinte: “se alguém quiser vir atrás de mim...”. Ou seja,
Jesus está repropondo a Pedro e aos discípulos o seguimento e que se ponham
atrás d’Ele, agora que o caminho vai passar pela cruz.
E aqui vem a frase que fecha, como chave de ouro, toda a
cena: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me
siga”. Uma consideração superficial destas palavras deu margem a uma
apresentação do cristianismo como a religião que preconizava a dor e a negação
da própria vida e da própria identidade. Jesus vive na sabedoria de onde brota a
fidelidade. Não vive para o ego, que busca sempre seu interesse e comodidade,
mas está ancorado naquela identidade profunda, na qual permite que a Vida flua,
numa atitude de serviço ou de entrega sábia.
Aquele que quer salvar seu ego, perde a Vida, porque se
fecha numa jaula estreita e se introduz em um labirinto de inevitável
sofrimento e, em último termo, de vazio e sem-sentido. Uma existência
egocentrada, embora aparentemente satisfatória para o ego, não pode evitar uma
sensação de profunda insatisfação.
Todos os caminhos autênticos de espiritualidade começam por
um esvaziamento do ego, uma renúncia de si mesmo, não para negar-se como
pessoa, mas, pelo contrário, para crescer ao recuperar sua verdadeira
identidade na totalidade. Quando “eu me perco”, então me encontro; quando meu
ego diminui, descubro que faço parte de algo maior, que pertenço a Deus. A
“renúncia a si mesmo”, que Jesus propõe, não é um exercício de masoquismo, mas
uma maneira mais profunda de realização humana.
Portanto, a expressão “renunciar a si mesmo” faz referência
ao nosso falso “eu”, aquilo que, iludidos, acreditamos ser: o “eu” que busca
poder, prestígio, riqueza... O desapego do falso “eu” é imprescindível para
poder entrar no caminho de vida que Jesus propõe.
“Renunciar a si mesmo” é não se reduzir ao eu superficial ou
ego. Só quando nos desapegamos do eu, tomamos consciência de nossa identidade
mais profunda, a vida que somos.
Essa é a Vida de que fala o Evangelho, a mesma Vida
que Jesus viveu, com a qual Ele estava identificado (“Eu sou a Vida”) e que
buscava despertar em todos os seus seguidores(as). O ego compara-se com os
outros e compete pelos elogios e pelos privilégios, pelo amor, pelo poder e
pelo dinheiro. É isso que nos torna invejosos, ciumentos e ressentidos em relação
aos outros. Também é isso que nos torna hipócritas, dominados pela duplicidade
e pela desonestidade.
Aquele que não é capaz de superar o “ego” e nem da
centralidade em si mesmo), frustra toda sua existência; mas, aquele que,
superando o egocentrismo, descobre seu verdadeiro ser “des-centrado e
oblativo”, vivendo em favor dos outros, dará pleno sentido a toda sua vida e
alcançará sua verdadeira plenitude humana. Precisamos reconhecer que, aquilo
que para nosso ego é “perda” e perigo, para nosso Eu verdadeiro é ganho
profundo e libertação.
“Renunciar a nós mesmos” não é cair em um automenosprezo,
nem anulação daquilo que somos, mas descobrir que há valores que estão
mais além de nós mesmos. É tomar consciência que há recursos e capacidades
superiores pelos quais vale a pena investir a vida, assumindo as consequências.
“Tome sua cruz e me siga”: tampouco Jesus quer
apresentar-nos um cristianismo e um seguimento doloroso. A verdadeira cruz do
cristão não está no sofrimento, não está na dor de privar-nos de tudo, não está
nas penitências e sacrifícios... A verdadeira cruz do seguimento de Jesus é a
da fidelidade ao evangelho, ao amor, ao compromisso, à própria vocação de
serviço.
A cruz do cristão não pode ser outra que a Cruz do mesmo
Jesus. Ele nunca amou a cruz como cruz. Mas tampouco fugiu dela por manter-se
fiel ao Reino e ao Evangelho que anunciou. Ele nunca amou a dor pela dor, ao
contrário, sempre buscou aliviar a dor dos outros. Mas tampouco fugiu, negando
sua própria verdade, sua própria missão e sua própria identidade.
A cruz para todo(a) seguidor(a) nunca pode ser uma meta; ela
é sempre uma consequência. A cruz para o cristão não é algo que se busca, mas
uma realidade que chega a partir de fora, como consequência da verdade e da
autenticidade evangélica.
Texto bíblico: Mc. 8,27-35
Na oração: nosso coração se encontra diante da revelação do
“eu original”, porque está enraizado na identidade do próprio Jesus (“quem sou
eu para vocês?”).
A contemplação de Jesus é também revelação do eu “escondido
com Cristo em Deus” (Col. 3), ou seja, revelação da verdade do meu eu profundo,
onde descubro os traços de minha própria fisionomia.
Não posso responder a essa pergunta – “Quem é Jesus para
mim” – se não me pergunto ao mesmo tempo: “Quem sou eu, diante do Senhor”? Sem
identificação não haverá um encontro profundo com o Senhor. O encontro comigo
mesmo me aproxima do encontro com o Senhor e o encontro com o Senhor revela
minha própria identidade.
- Sua vida cotidiana: descentrada? Oblativa? Aberta ao diferente?...
Ou: autocentrada, “buscando o próprio amor, querer e interesse”?
O que Ariston dizia há quarenta e três anos permanece
inalterável em nossa impressão de leitor em 2014, reavivado pela presente
reunião de sua poética, pelo que tenho muito a agradecer aos promotores deste
reencontro com a sensibilidade. Nesta Obra reunida reenceno motivos de
alumbramento...
Há uma passagem na Bíblia onde Deus nos compara as Rosas de
Sarom. Para entendermos essa analogia, temos a seguinte explicação:
Sarom era uma terra de difícil sobrevivência, uma terra no
deserto, árida e muito quente.
Mas Sarom tinha a terra ideal para produzir as rosas mais
perfumadas que já se viu na terra, aonde apenas uma pétala chegaria a produzir
uma grande quantidade do mais valioso perfume.
Essas flores possuíam um valor tão alto que os cultivadores
na época de floradas costumavam colocar guardas armados para guardar seus
cultivos.
As Rosas de Sarom são flores cultivadas em terras
difíceis, debaixo de um forte sol escaldante, em meio a terreno pedregoso,
cheio de espinhos, onde a água é difícil de encontrar, e os predadores são
muitos, pois ela é uma flor muito apreciada.
Meditando na comparação de Deus e as rosas de Sarom assim somos nós para Deus, flores cultivadas no meio das provas, das
dificuldades, das angústias, testados no fogo ardente, humilhados pelos que
poderiam nos amar, perseguidos por aqueles que não amam a Deus, e não
reconhecem em nós a beleza das flores e seu perfume.
E, quando começamos a exalar nosso perfume, muitos tentam
roubar nosso dom, nossa linguagem, nossa virtude, a alegria de servir a Deus e
a confiança de que venceremos, colocando em nós tristezas que até chegam a
muitas das vezes nos afastar do jardim de Deus.
Mas assim como os cultivadores das rosas de Sarom colocam
guardas armados, Deus também coloca seus anjos armados com espadas de fogo como
guardas dos seus fiéis, pois aqueles que exalam perfume são perseguidos pelo
adversário, mas são guardados por Deus.
O perfume do cristão é o seu testemunho, seu temor, sua
obediência, a capacidade de suportar as provas sem murmurar, é um doce perfume,
e ter em si o dom maior, o amor é o mais caro perfume que temos, e por essa
razão Deus comparará aqueles que tem essas características às rosas de Sarom.
Somos as flores que produzem o mais valioso perfume: A
glória, obediência, o temor, a consagração, a reverência e toda honra que
é dada a um único Deus que fez o céu a terra e tudo quanto neles há! Perfume
esse que o próprio inferno se levanta para tentar roubar.
Mas nada pode te tocar ROSA DE SAROM, porque a teu
respeito foi dada a ordem aos anjos para te guardarem em todos os teus
caminhos.