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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

PARABÉNS, BRASIL! (Acróstico) -- Eglê S Machado

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Pátria!  Na força do povo
A paz se estabeleça,
Reine o encanto da verdade
A  confiança só cresça!
Brilhante no bom combate
Esperança não pereça
Nas soluções e conquistas
Supere-se, não esmoreça!

Bendigo o seu seio amável,
Refúgio, amor, gratidão,
Aguerrido e inovador
Sem medo da opressão,
Inteiro a assegurar
Liberdade em profusão!

Eglê S. Machado
Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
07/09/2018

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NO DIA DA PÁTRIA, HOMENAGEM À NOSSA GENERALÍSSIMA - Ir. André Luiz Oliveira



7 de setembro de 2018

Poucos brasileiros contemporâneos sabem, mas Nossa Senhora Aparecida recebeu das Forças Armadas a patente de Generalíssima do Exército Brasileiro. Isso há 50 anos.

Quando em 1822 Dom Pedro II proclamou a nossa Independência, o Brasil recebeu de Nossa Senhora, “logo ao nascer como nação”, segundo feliz expressão de Plinio Corrêa de Oliveira, “o primeiro sorriso e a primeira bênção”.

Era portanto natural que as nossas Forças Armadas prestassem essa justa homenagem a quem tanto papel teve na História do Brasil. Este fato é rememorado pelo artigo, que aqui transcrevemos, do Ir. André Luiz Oliveira, missionário redentorista, escritor, teologando, mariólogo, associado da Academia Marial de Aparecida.

Prestamos também nós, desta forma, neste 7 de setembro de 2018, comovida e reconhecida homenagem à nossa Generalíssima, que é também Rainha e Padroeira do Brasil.


Os títulos de Aparecida:
Generalíssima do Exército

Da série de artigos marianos sobre os títulos eclesiásticos e civis concedidos a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, deve especial destaque o de Generalíssima do Exército Brasileiro; por tratar-se de um título completamente civil e único na história do país, outorgado em 1967, cujo jubileu de ouro (50 anos) comemoramos. Em sua vertente masculina — Generalíssimo — trata-se de uma das mais altas patentes militares, de caráter exclusivo masculino. O termo, que é um superlativo da palavra General, é utilizado para descrever Generais, cujos cargos foram além do normalmente permitido pelas patentes militares.

Em 17 de abril de 1965, uma comissão de militares de Belo Horizonte, encaminharam ao Reitor do Santuário de Aparecida o pedido de peregrinação nacional da imagem, em decorrência das comemorações dos 250 anos de seu encontro, a iniciar pela capital mineira Belo Horizonte. O pedido fora levado à Aparecida/SP, em pergaminho, pelo Comandante da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, o documento trazia os seguintes dizeres:

“O Povo Mineiro, interpretando o desejo de todo o Povo Brasileiro, vem, pela comissão abaixo relacionada, respeitosamente. Pedir a Vossa Eminência Reverendíssima e ao D.D. Conselho Administrativo da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, que se dignem conceder licença para que a Imagem de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, seja levada em triunfante peregrinação às Capitais de todos os Estados do Brasil, sendo em Brasília aclamada Generalíssima das Gloriosas Forças Armadas Brasileiras.”

Segue-se a assinatura do então Presidente da República: Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Porém, o pedido de peregrinação acabou não sendo atendido, o título de Generalíssima do Exército foi protelado e, assim, coube posteriormente ao então Presidente da República: Marechal Arthur da Costa e Silva, outorgar em 1967 o título, ato que aconteceu na capital espiritual do Brasil: Aparecida/SP, durante as comemorações dos 250 anos do encontro da imagem, na ocasião em que foi solenemente entregue pelo legado pontifício, o Cardeal Amleto Cicognani, a Rosa de Ouro [foto ao lado] — alta condecoração pontifícia exclusiva a mulheres — oferecida pelo Papa Paulo VI em 15 de agosto de 1967. Passando assim a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, ter o reconhecimento civil conferida pela patente mais alta do Exército Brasileiro, sendo-lhe prestada às devidas reverências e honras militares.

Ir. André Luiz Oliveira – Missionário Redentorista
Escritor, Teologando, Mariólogo, associado da Academia Marial.
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Fonte: site da Academia Marial de Aparecida


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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O BRASIL - Renato Sêneca Fleury



Perguntei ao céu tão lindo,
— Por que és todo cor de anil?
Ele me disse, sorrindo:
— Eu sou o céu do Brasil!

Perguntei ao Sol, então,
A causa de tanta luz.
— Sou a glorificação
Da Terra de Santa Cruz!

Depois perguntei à Lua:
— Por que noites de luar?
— É para enfeitar a tua
Grande Pátria à beira-mar.

Perguntei às claras fontes:
— Por que correis sem cessar?
— Nós brotamos destes montes
Para a terra fecundar!

Então eu disse à floresta:
— És tão bela, verde inteira!
Ela respondeu em festa:
— Sou a mata brasileira!

Perguntei depois às aves:
— Por que estais a cantar?
— Cantamos canções suaves
Para tua Pátria saudar.

Céu e sol, luar e cantos,
Florestas e fontes mil
Enchem de eternos encantos
A minha Pátria, o Brasil!

Renato Sêneca de Sá Fleury
( SP 1895- SP 1980). 
Ensaísta, pedagogo, escritor de Literatura Infantil, 
professor catedrático de Pedagogia e Psicologia, 
jornalista, membro da Academia de 
Ciências e Letras de São Paulo.


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CINZAS QUE CHORAM - Paulo Roberto Campos


5 de setembro de 2018
♦  Paulo Roberto Campos

2 de setembro de 2018 — mais um dia trágico de nossa História! Um incêndio muito simbólico reduziu a cinzas o Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista. Também conhecido como Museu Nacional, foi residência do Rei Dom João VI e dos nossos Imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II no Rio de Janeiro, bem como o local onde a Imperatriz Dona Leopoldina assinou o decreto de nossa Independência, no dia 2 de setembro de 1822.

Incontáveis brasileiros viram no desleixo com que esse memorável edifício era tratado pelos últimos governos esquerdistas o desejo de incendiar a própria lembrança de nossa gloriosa história monárquica. Restam-nos as cinzas que choram. Pranteamos a perda inestimável, pranteamos o desprezo por nossas tradições, pranteamos a absurda preferência por exposições psicodélicas, extravagantes, pornográficas e até blasfemas em museus nacionais, para as quais governos desperdiçam rios de dinheiro. Como declarou o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, o palácio arruinado representa “um símbolo acabado dessa imensa destruição que políticos, homens públicos, intelectuais e outros vêm empreendendo, há décadas, contra o edifício da brasilidade”.

Vista da Quinta da Boa Vista, com o Paço de São Cristóvão, em meados do séc. XIX

Nesse mesmo sentido, o jornalista Juan Arias publica artigo intitulado Mais que um incêndio, um triste símbolo de um país que abandona a si mesmo (“El País”, 3-9-18), no qual adverte: “O incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio, e com ele 200 anos da história do Brasil, foi mais do que um incêndio. As chamas são o triste símbolo de um país que abandona a espinha dorsal da ciência, a da cultura e da arte para privilegiar uma política mesquinha de pequenos interesses pessoais dos que deveriam ser os guardiões da maior riqueza de um país, que é a memória da sua cultura”.

Entretanto, apesar do desaparecimento desse grandioso símbolo, devemos confiar na Providência Divina. Do alto do Corcovado, o Divino Redentor vai restaurar não só o Rio de Janeiro, mas todo o Brasil e, ressurgindo-o das cinzas, torná-lo-á ainda mais glorioso do que no passado. Voltaremos a ser a verdadeira Terra de Santa Cruz, livres de qualquer influência comuno-bolivariana e da presente “Revolução Cultural”, de certo modo ainda mais avassaladora do que a de Mao-Tsé-Tung.

Em memória da época resplandecente do Palácio Imperial de São Cristóvão, transcrevemos a seguir alguns trechos do excelente livro Revivendo o Brasil-Império, de Leopoldo Bibiano Xavier (1991 – Artpress) [capa ao lado]. O contraste entre Monarquia X República; Palácio São Cristóvão X Palácio do Planalto salta aos olhos…

O Palácio do Imperador está aberto a todos

Todo o mundo, sem exceção, podia ser facilmente admitido à presença do Monarca, não se precisando para isso nem de vestuário apropriado, nem de bilhete especial, nem de qualquer declaração ou outra formalidade, e muito menos de empenhos de políticos ou de gente do Paço. 
Bastava apresentar-se em palácio, declinar o nome, que era lançado num grande livro, e penetrar naquelas salas abertas a todos. Benjamim Mossé afirma:

 “Cada um pode apresentar-se como quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser recebido por Sua Majestade. O mais humilde negro, em chinelos ou pés descalços, pode falar ao Soberano”.

Escragnolle Dória, conhecido historiador e escritor, confirma:

Retrato de Dom Pedro II, c. 1885,
por Marc Ferrez (RJ / Acervo IMS)

“Era só chegar e esperar a sua vez, certo de ser atendido. Cada qual trazia o seu interesse, e dava o seu recado sem vexame, na sua gramática. O Imperador costumava referir-se a essas audiências públicas como receber a minha família brasileira.

 “Certa vez, falava ao Imperador uma mulher de cor, já idosa, cabeça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vestido de chita, sapatos e meias usados. Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao Soberano, e no perturbado da exposição deixou cair papéis, sem dúvida de apoio à modestíssima pretensão. Apanhou-os o Imperador, restituiu-os, continuou a ouvir por muito tempo, despedindo a suplicante com um sorriso de bondade e gesto de encorajamento, ficando a segurar os documentos que ela lhe confiara”.

O romancista Gustavo Aimard, que visitou o Brasil três vezes, escreveu sobre nosso País o livro Brésil Nouveau. Estava no Rio havia oito dias, em 1881, quando seu amigo Sohier lhe sugeriu que fosse ao Palácio da Boa Vista visitar o Imperador. Perguntou então qual seria a etiqueta. O amigo riu-se, e lhe deu a explicação:

— Nos sábados, as audiências imperiais são públicas, e duram de duas às cinco da tarde. Os candidatos a um encontro com o Soberano entram no Palácio, sobem ao segundo andar, atravessam uma longa galeria e entram na sala das audiências, sem ninguém para lhes embargar os passos.

— Então não há soldados, funcionários e veadores?

— Soldados, haverá uns vinte. Mas nenhum se ocupa de quem entra nem de quem sai.
Monumento em homenagem ao Imperador D. Pedro II, em frente ao palácio

Aimard narrou desta forma a entrevista:

 “Entrei no Palácio, subi uma larga escadaria atapetada, no alto da qual encontrei uma pessoa que imaginei ser um porteiro, mas que era um camarista. Perguntei-lhe onde estava o Imperador: ‘Em frente, na segunda porta à esquerda’, respondeu-me sorrindo esse desconhecido. Atravessei um imenso salão, que parecia estreito por causa de seu extenso comprimento. Estava deserto, completamente sem móveis, não tendo nem mesmo um banco. Em compensação, as paredes se achavam cobertas de quadros, dos quais quase todos me pareceram ser de bons mestres e de várias escolas. Alguns deles chamaram minha atenção, parecendo-me de grande valor. Fiquei de tal modo absorvido por essas telas, que esqueci por muito tempo o que tinha ido fazer ali. Duas pessoas que saíam, conversando em voz alta, chamaram-me à realidade. Abri a porta que o desconhecido me tinha indicado, e achei-me noutro salão, este muito bem mobiliado, no qual se via uma meia dúzia de capuchinhos comodamente sentados, todos cochichando uns com os outros. Atravessei uma galeria bastante estreita, mas muito longa, cheia de gente. O Imperador se encontrava no fim da galeria. Reconheci-o logo pela sua elevada estatura, pela barba loura entremeada de fios de prata, e pela fisionomia sorridente”.

O Conde d’Ursel, secretário da legação belga no Brasil, aqui desembarcou em 9 de dezembro de 1873. Narra a visita a D. Pedro II:

Vista do Paço Real durante o reinado de Dom João VI (1817).

“Estava o Palácio Imperial aberto a todo o mundo, e os veadores do Soberano acolhiam os visitantes com a maior cordialidade. Ao limiar daquele Paço, sentia-se que o dono da casa a todos recebia benévola e bondosamente. 
Era sábado, dia de audiência pública, por assim dizer, pois toda e qualquer pessoa era admitida a falar a D. Pedro II. Na extremidade da longa galeria avistei o Imperador vestido de preto, parando em frente a pessoa por pessoa, estendendo freqüentemente a mão e ouvindo o interlocutor, sempre com visível atenção. 
Nada mais impressionante do que o espetáculo ao mesmo tempo simples e comovedor, que eu tinha diante dos olhos. Havia pessoas de modesta posição, vestidas pobremente, esperando a vez para, sem intermediário algum, submeter ao Soberano a sua petição. O Imperador, com benevolência e dignidade, deixa chegarem-se a ele todos dentre os seus súditos que têm uma reclamação a fazer ou um favor a pedir. É voz corrente que esta prática excelente serve por vezes de freio salutar aos funcionários que se deixam levar a arbitrariedades”.

Litografia do Paço de São Cristóvão em meados do séc. XIX, por Jean-Baptiste Debret. Nesta época um outro torreão já havia sido acrescentado.

Qualquer brasileiro pode falar com o Imperador e confiar na sua bondade

[…] Não era um rei entre burgueses, mas um chefe de Estado que procura equiparar-se aos outros dois. Na realidade, acentuava com isso a majestade que lhe é natural. Só os príncipes, educados para o trono, podem ser simples, familiares e agradáveis, sem que os demais ousem romper a zona de respeito de que insensivelmente se cercam.

Silveira da Mota, secretário de Tamandaré, afirmou:

Vista lateral do Palácio de São Cristóvão entre 1858 e 1861.

“Confesso que nunca vira, na pessoa de D. Pedro II, tanta força de sedução. Tudo o que havia de simpático e nobre na sua fisionomia, apresentava-se naquela época com o aspecto mais favorável. Parecia ser o Monarca da coxilha, idealizado pela gauchada. Ele não teve sequer o seu batismo de fogo, mas a fleuma com que se aproximava ao alcance do fuzil das trincheiras paraguaias foi o bastante para que os circunstantes fizessem uma alta idéia da sua coragem”.

Se D. Pedro II tinha um grande, um irremediável defeito, pode dizer-se que esse defeito era a sua bondade. Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista, afirmou que durante cinqüenta anos o povo encontrou o Imperador sempre de pé, na galeria de São Cristóvão ou no Paço da Cidade, ouvindo a todos sem enganar a ninguém:

 “A sua porta esteve sempre mais franca do que qualquer outra no País. E quando se deixava de tratar com ele, para falar aos poderosos, todos sentiam que a vaidade da posição começava abaixo do trono”.

Na sua “Fé de Ofício”, o próprio Imperador afirmou: “O meu dia era todo ocupado no serviço público, e jamais deixei de ouvir e falar a quem quer que fosse”.

O conselheiro Nuno de Andrade descreveu uma audiência do Imperador: 

Vista da quinta com o Paço de São Cristóvão por volta de 1820,
antes da reforma neoclássica. O edifício tinha um único torreão.
O portão em frente ao paço encontra-se atualmente na entrada
do Jardim Zoológico da Quinta da Boa Vista.

“Às cinco horas em ponto desci do tílburi, junto à portinha baixa onde uma sentinela cochilava. Não se pedia licença para entrar. Tomei a escada da direita, e fui ter a um longo salão retangular quase sem móveis, com grandes quadros nas paredes. O Freire, criado da casa, meu conhecido, disse-me:
— O Imperador não tarda.
Cerca de quinze pessoas esperavam D. Pedro II, e entre elas um preto vestido de brim pardo, sem gravata, com uns grandes sapatos muito bem engraxados. Depreendia-se do lustro do calçado que o preto cuidara de parecer asseado; e, como era idoso, a intenção traduzia certa altivez nativa. Tinha ido a pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se no chão da galeria. O Pederneiras, com sua barba branca, chegou-se a mim, indicou o preto e disse filosoficamente:

Nos jardins do palácio,
estátua da Imperatriz Dona Leopoldina
com seus filhos: a primogênita Maria da Glória,
que viria a ser Rainha de Portugal,
e o caçula Pedro de Alcântara (no colo),
futuro Imperador do Brasil.

— Ainda querem mais liberdade nesta terra…
Instintivamente olhamos para as portas, constantemente abertas a todos os brasileiros.
O Imperador apareceu no extremo da galeria, e o preto levantou-se. Seria o primeiro a falar ao Soberano, e ninguém se lembrou de lhe disputar a precedência. O Imperador lhe perguntou:
— Então, como está? Que é que temos?
— Estou bom, sim senhor. E vosmecê? Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário na guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com um braço ferido por bala. Curei-me, e continuei até o fim de tudo. Depois voltei e caí no meu ofício de empalhador. Há um ano adoeci do fígado, e o Dr. Miranda, na Santa Casa, me fez uma operação. Nunca mais tive saúde. Agora, não posso mais trabalhar no ofício, e não tenho vintém para comprar farinha. Na secretaria do Império há falta de servente, e eu fui falar com o ministro. Mas o ministro não fala com toda a gente. Estão lá uns mulatinhos pernósticos, que me dizem sempre: Você espere. Eu espero, sim senhor; e depois os mulatinhos me mandam embora, porque o ministro não recebe mais ninguém. Já três vezes isso me aconteceu. Então fiquei zangado e pensei assim: vou falar ao Imperador, que é nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora, pois, eu queria que vosmecê me desse um bilhetinho para o ministro…
O Imperador chamou o general Miranda Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe algumas palavras. Voltando ao preto, exprimiu-se assim:
— Vá com Deus. Fico sendo seu procurador, e tratarei do seu negócio.
— Mas eu tinha vontade de mostrar àqueles mulatinhos pacholas…
— Não tem nada a mostrar. Vá para sua casa e espere.
Alguns dias depois, contou-me o general Miranda Reis que o Imperador mandara alojar o antigo voluntário numa casinha da Quinta, e ordenara ao comendador João Batista que lhe suprisse a mensalidade de 40 mil réis, pedindo desculpas de não poder dar mais. E o João Batista, honrado mineiro, prodigiosamente econômico, amofinava-se com as freqüentíssimas decisões desta espécie, sustentando, em voz fraca e lacrimosa, que das quatro operações o sábio Imperador só conhecia a de dividir”.     

Em uma das suas audiências do sábado, em que atendia a toda a gente, recebeu D. Pedro II no Paço da Boa Vista um preto velho, que se queixava dos maus tratos de que era vítima:

— Ah, meu Senhor grande, como é duro ser escravo!

— Tenha paciência, meu filho. Eu também sou escravo das minhas obrigações, e elas são muito pesadas. As tuas desgraças vão diminuir.

E mandou alforriar o preto.



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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

FLORES, FLORES PARA OS MORTOS - Fernando Gabeira



Ligue o vídeo abaixo:


Sempre que os fatos ganham velocidade, costumo comprar um bloco de notas. Anoto frases, ideias, intuições e deixo que se decantem com o tempo.

Volto a elas, depois, para rejeitá-las ou desenvolvê-las. A primeira frase que me veio à cabeça foi a da vendedora de flores que encerra um filme.

O pequeno bloco também tem ideias. Por exemplo: comparar a ditadura com o governo Lula. Uma neutralizou o Congresso pelo medo; o outro, pelo pagamento de mesada.

Ditadura e governo Lula compartilham o mesmo desprezo pela democracia, ambos violentaram-na, reduzindo o Parlamento a uma ruína moral. 

Os militares prepararam sua saída de forma organizada. Nem muito devagar, para não parecer provocação, nem muito rápido para não parecer que estavam com medo.

Já o núcleo duro do governo Lula parece perdido, batendo cabeça, ou melhor, enfiando-a na areia, sem perceber que a polícia está chegando e, daqui a pouco, alguém vai gritar na porta do Planalto:"Se entrega, Corisco".

Quando era menino e vivia em Juiz de Fora, fazíamos rodas de capoeira, bastante rudimentares - confesso. Mas cantávamos: "A polícia vem, que vem brava / quem não tem canoa, cai n'água". 

Tudo isso jorra aos borbotões na minha caderneta. Anotei: chamar alguém do "Guinness", o livro dos recordes, para saber se algum tesoureiro de qualquer partido do mundo se desloca com batedores de motocicleta e carros clones para iludir perseguidores;

...se algum tesoureiro partidário se desloca com jatos particulares, semanalmente; se introduz no palácio associação de empreiteiros que receberam R$ 1,1 bilhão de dívidas.

Os militares batiam, davam choques e insultavam na sessão de tortura, mas vi muitos dizendo que me respeitavam porque deixei um bom emprego para combatê-los com risco de vida. 

O PT queria que eu abrisse mão exatamente da minha alma, e me tornasse um deputado obediente, votando tudo o que o Professor Luizinho nos mandava votar. 

Os militares jamais pediriam isso. Desde o princípio, disseram que eu era irrecuperável e limitaram-se à tortura de rotina.
Jamais imaginei que seria grato aos torturadores por não me pedirem a alma. Não sabia que dias tão cinzentos ainda viriam pela frente. 

Que seria liderado por um homem que achava que Maurício de Nassau era um deputado de Pernambuco. Logo eu, que sou admirador de um deputado pernambucano chamado Joaquim Nabuco. 

Foram os anos mais duros de minha vida. No meu caderno anoto frases e indicações da semelhanças da luta contra a ditadura e da luta contra este governo, desde que comecei a criticá-lo, com a importação de pneus usados.

As pessoas têm suas carreiras, seus empregos, sua racionalizações. É preciso respeitá-las, atravessar o deserto sem ressentimentos.

Agora, sobretudo, é preciso respeitar o sofrimento dos vencidos. Outro dia, quando me referi a um núcleo na Casa Civil como um bando de ladrões que atentava contra a democracia, uma jovem deputada do PT estremeceu.

Senti que não estava ainda preparada para essas palavras cruas. E fui percebendo pelas anotações que talvez estejam aí, para o escritor, o mais rico manancial de toda essa crise.

Como estão as pessoas do PT? Como se ajustam a essa nova realidade? Que destino tomaram na vida?
Procuro não confundir, entre os que ainda defendem o governo, aqueles que são cínicos, cúmplices e os outros, que apenas obedeceram as ordens sob a forma da aplicação do centralismo democrático. 

Alguns defendem porque ainda não conseguiram negociar com sua própria dor. Não podem suportá-la de frente. Mas terão de fazer algum dia, porque, por mais ingênuos que sejam, já perceberam que a mãe está no telhado. 

Vamos ter de encarar juntos essa realidade. A grande experiência eleitoral da esquerda latino-americana, admirada por uma Europa desiludida com Cuba e Nicarágua, a grande novidade que verteu tintas...

...atraiu sábios, produziu livros e seminários, vai acabar na delegacia como um triste fato policial de roubo do dinheiro público e suborno de parlamentares.

Só os que se arriscarem a ir até o fundo dessa abjeção, compreendê-la em todos os seus detalhes mórbidos, têm chances de submergir para continuar o processo histórico. 

Por incrível que pareça, o Brasil continua, e a vontade de mudar é mais urgente do que em 2002 e Por isso, proponho agora um curto e eficaz trabalho de luto. 

Anotação final: começaram o espetáculo da CPI, secretárias e suas agendas, ex-mulheres e suas mágoas, vampiros, sanguessugas, mensaleiros, arapongas, tesoureiros e seus charutos, Vossa Excelência para cá, Vossa Excelência para lá, sigilos bancários, telefônicos, emocionais. 

Viu, Duda, que cenas finais melancólicas quando um mercador tenta aplicar à complexidade da política a singeleza do vendedor de sabonetes? 

FIM MELANCÓLICO? Não, Lulla enganou o povo...


Fernando Gabeira
Texto veiculado no jornal Folha de S. Paulo

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AS OUTRAS FORMAS DE AMOR: PHILOS E ÁGAPE - Paulo Coelho



Em 1986, na cidade de Logroño, participávamos de um casamento quando o meu guia, Petrus, começou a falar das três palavras que os gregos usam para designar amor: Eros, Philos e Ágape. Segundo ele, isso já tinha sido dito anteriormente por Martin Luther King, mas valia a pena recordar que o mais importante sentimento do homem podia ser dividido. Começou explicando o que era Eros - a atração saudável e necessária que um ser humano sente pelo outro. Em seguida, continuou, apontando para um casal de velhos:

- Veja aqueles dois: não se deixaram contagiar pela hipocrisia, como muitos outros. Pela aparência deve ser um casal de lavradores: a fome e a necessidade os obrigou a superarem juntos muitas dificuldades. Descobriram a força do amor através do trabalho, que é onde Eros mostra sua face mais bela, também conhecida como Philos.

- O que é Philos?
- Philos é o Amor sobre a forma de amizade. É aquilo que eu sinto por você e pelos outros. Quando a chama de Eros não consegue mais brilhar, é Philos que mantém os casais juntos.

- E Ágape?
- Ágape é o amor total, o amor que devora quem o experimenta. Quem conhece e experimenta Ágape, vê que nada mais neste mundo tem importância, apenas amar. Este foi o amor que Jesus sentiu pela humanidade, e foi tão grande que sacudiu as estrelas e mudou o curso da história do homem.

"Durante os milênios da história da Civilização, muitas pessoas foram tomadas por este Amor que Devora. Elas tinham tanto para dar - e o mundo exigia tão pouco - que foram obrigadas a buscar os desertos e lugares isolados, porque o Amor era tão grande que as transfigurava. Viraram os santos ermitãos que hoje nós conhecemos".

"Para mim e para você, que experimentamos outra forma de Ágape, esta vida aqui pode parecer dura, terrível. Entretanto, o Amor que Devora faz com que tudo perca a importância: estes homens vivem apenas para serem consumidos pelo seu Amor".

Deu uma pausa.

- Ágape é o Amor que Devora - repetiu mais uma vez, como se esta fosse a frase que melhor definisse aquela estranha espécie de amor. - Luther King certa vez disse que, quando Cristo falou de amar os inimigos, estava referindo-se à Ágape, porque, segundo ele, era "impossível gostar de nossos inimigos, daqueles que nos fazem mal, e que tentam amesquinhar mais o nosso sofrido dia a dia".
"Mas Ágape é muito mais que gostar. É um sentimento que invade tudo, que preenche todas as frestas, e faz com que qualquer tentativa de agressão se torne pó".

"Existem duas formas de Ágape. Uma é o isolamento, a vida dedicada apenas à contemplação. A outra é exatamente o contrário: o contacto com os outros seres humanos, e o entusiasmo, o sentido sagrado do trabalho. Entusiasmo significa transe, arrebatamento, ligação com Deus. O Entusiasmo é Ágape dirigido a alguma ideia, alguma coisa".

"Quando amamos e acreditamos do fundo de nossa alma em algo, nos sentimos mais fortes que o mundo, e somos tomados de uma serenidade que vem da certeza de que nada poderá vencer nossa fé. Esta força estranha faz com que sempre tomemos as decisões certas, na hora exata, e ficamos surpresos com nossa própria capacidade quando atingimos o nosso objetivo".

"O Entusiasmo se manifesta normalmente com todo o seu poder nos primeiros anos de nossas vidas. Ainda temos um laço forte com a divindade, e nos atiramos com tal vontade aos nossos brinquedos, que as bonecas passam a ter vida e os soldadinhos de chumbo conseguem marchar. Quando Jesus falou que era das crianças o reino dos Céus, ele se referia à Ágape sob a forma de Entusiasmo. As crianças chegaram até ele sem ligar para seus milagres, sua sabedoria, os fariseus e os apóstolos. Vinham alegres, movidas pelo Entusiasmo".

"Que em momento algum, pelo resto deste ano, e pelo resto de sua vida, você perca o entusiasmo: ele é uma força maior, voltada para a vitória final. Não se pode deixar que ele escape por nossos dedos só porque nos enfrentamos, no decorrer dos meses, com pequenas e necessárias derrotas".

Diário do Nordeste , 25/08/2018

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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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É REVOLTANTE!!! O Antagonista nas Eleições: É tudo mentira