O artista plástico baiano Ângelo Roberto deixou as dimensões
deste velho mundo na manhã deste domingo (28), aos 80 anos. O corpo dele foi cremado na segunda-feira (29), às 11, no
Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador.
Ângelo era especialista em
ilustrações com bico-de-pena, e muitos de seus quadros retratavam cavalos. A
causa da morte não foi divulgada pela família.
O falecimento de Ângelo foi comunicado pela sua filha Iana
Landim, em uma postagem nas redes sociais. No comunicado, Iana se refere ao pai
como seu maior ídolo e artista. Ângelo nasceu na cidade de Ibicaraí, no sul da
Bahia.
Amigos e familiares fizeram comentários de pesar. "O
artista se eterniza na arte, e o pai, na família, que é a continuação de
tudo... Força... Um grande abraço em todos vocês", observou contrita uma
dessas pessoas.
Com exposições no exterior, prêmios importantes, Ângelo
Roberto pertenceu à Geração de Glauber Rocha, que na década de 60 movimentou o
ambiente cultural de Salvador, com os jovens Florisvaldo Mattos, Paulo Gil
Soares, João Carlos Teixeira Gomes e Fernando Rocha Perez.Ilustrou capas e livros de autores baianos,
como Florisvaldo Mattos, Guido Guerra, Cyro de Mattos e Ruy Espinheira Filho.
Do itabunenseCyro de Mattos ilustrou os
livros “A Casa Verde e Outros Poemas”,“Histórias Dispersas de Adonias
Filho”,“Oratório de natal”, “As
Criações de Adonias filho”, “Alma M ais que Tudo” , “Cancioneiro do Cacau”,
“Poesie Brasiliene della Bahia”, publicada na Itália,e “Onde Estou e Sou”.
Talvez a mais rica, forte e profunda experiência da
caminhada humana seja a de ter um filho.
Plena de emoções, por vezes angustiante, ser pai ou mãe é
provar os limites que constituem o sal e o mel do ato de amar alguém.
Quando nascem, os filhos comovem por sua fragilidade, seus
imensos olhos, sua inocência e graça.
Basta vê-los para que o coração se alargue em riso e cor. Um
sorriso é capaz de abrir as portas de um paraíso.
Eles chegam à nossa vida com promessas de amor
incondicional. Dependem de nosso amor, dos cuidados que temos. E retribuem com
gestos que enternecem.
Mas os anos passam e os filhos crescem. Escolhem seus
próprios caminhos, parceiros e profissões. Trilham novos rumos, afastam-se da
matriz.
O tempo se encarrega da formação de novas famílias. Os netos
nascem. Envelhecemos. E então algo começa a mudar.
Os filhos já não têm pelos pais aquela atitude de antes.
Parece que agora só os ouvem para fazer críticas, reclamar, apontar falhas.
Já não brilha mais nos olhos deles aquela admiração da
infância e isso é uma dor imensa para os pais.
Por mais que disfarcem, todo pai e mãe percebe as mínimas
faíscas no olho de um filho.
É quando pais idosos, dizem para si mesmos: Que fiz eu?
Por que o encanto acabou? Por que meu filho já não me tem como seu herói
particular?
Apenas passaram-se alguns anos e parece que foram esquecidos
os cuidados e a sabedoria que antes era referência para tudo na vida.
Aos poucos, a atitude dos filhos se torna cada vez mas
impertinente. Praticamente não ouvem mais os conselhos.
A cada dia demonstram mais impaciência. Acham que os pais
têm opiniões superadas, antigas.
Pior é quando implicam com as manias, os hábitos antigos, as
velhas músicas. E tentam fazer os velhos pais se adaptarem aos novos tempos,
aos novos costumes.
Quanto mais envelhecem os pais, mais os filhos assumem o
controle. Quando eles estão bem idosos, já não decidem o que querem fazer ou o
que desejam comer e beber. Raramente são ouvidos quando tentam fazer algo
diferente.
Passeios, comida, roupas, médicos - tudo passa a ser
decidido pelos filhos.
E, no entanto, os pais estão apenas idosos. Mas continuam em
plena posse da mente. Por que então desrespeitá-los?
Por que tratá-los como se fossem inúteis ou crianças sem
discernimento?
Sim, é o que a maioria dos filhos faz. Dá ordens aos pais,
trata-os como se não tivessem opinião ou capacidade de decisão.
E, no entanto, no fundo daqueles olhos cercados de rugas, há
tanto amor. Naquelas mãos trêmulas, há sempre um gesto que abençoa, acaricia.
* * *
A cada dia que nasce, lembre-se, está mais perto o dia da
separação. Um dia, o velho pai já não estará aqui.
O cheiro familiar da mãe estará ausente.
As roupas favoritas para sempre dobradas sobre a cama, os chinelos
em um canto qualquer da casa.
Então, valorize o tempo de agora com os pais idosos.
Paciência com eles quando se recusam a tomar os remédios, quando falam
interminavelmente sobre doenças, quando se queixam de tudo.
Abrace-os apenas, enxugue as lágrimas deles, ouça as
histórias (mesmo que sejam repetidas) e dê-lhes atenção, afeto...
Acredite: dentro daquele velho coração brotarão todas as
flores da esperança e da alegria.
Redação do Momento Espírita.
Disponível no CD Momento Espírita, v.13, ed. Fep.
No dia 7 de janeiro de 2015, há três anos, dois atiradores,
Saïd e Chérif Kouachi, mataram 12 pessoas em Paris, incluindo parte da equipe
do jornal Charlie Hebdo. Até aquele momento, aquele atentado foi considerado um
dos piores que Paris havia presenciado e, imediatamente, uma gigantesca comoção
mundial se fez. O clamor, a dor, a indignação tomou conta das redes sociais.
Orações de desespero, manifestações de solidariedade e EMPATIA com a dor dos
franceses que foi demonstrada nos milhões de perfis no mundo que passaram a
estampar as cores da bandeira francesa com o lema solidário, "Je suis
Charlie". Aqui no Brasil isso não foi diferente, de tal maneira que, na
época ficava-se na dúvida sobre em que país estávamos.
Pois bem, ontem dia 27 de janeiro de 2018, um grupo armado
metralhou um clube pobre da periferia da capital cearense, Fortaleza, e muito
pouco se falou. Os mortos foram adolescentes, mulheres, alguns trabalhadores
autônomos num forró. Ninguém mudou o perfil, tão pouco, empunhou algum slogan
dizendo, "Je suis Cajazeira", "Je suis Fortaleza"...
Quem se importa com isso? Foram 18 pobres a menos, "que
se matem" é o que dizem e pensam alguns. Para a periferia, acossada pelas
facções criminosas que dominam esses bairros, não há democracia, não há
solidariedade. Há o medo, o desespero, a desgraça de não ter nascido em Paris.
O simples espaço geográfico que habitam condiciona os
olhares, os sentimentos, a desconfiança, a rejeição. Meus conterrâneos são os
esquecidos moradores de uma periferia de uma capital do Nordeste. São
invisíveis. A lista de mortos do jornal não trazia nomes, "duas
adolescentes", "um motorista de aplicativo""um ambulante..." não são ninguém, só têm um sexo e uma idade.
Nesse país grande e equivocado chamado Brasil, se chora pelo
distante e se comemora a tragédia e a dor dos que estão perto.
Uma nação que odeia o pobre porque é o reflexo no espelho
que quer negar.
Wagner Torres de Araujo, carioca da Zona Norte, não adaptado
à formação de técnico de nível médio e ao trabalho em indústrias. Na verdade,
sempre ansiou pelo conhecimento e cultura mais amplos. Por isso abraçou a
formação em História, e com ela, exerce o magistério no ensino básico. Araujo
tem trabalhado em cursos e colégios, públicos e privados, em vários locais do
Rio de Janeiro.
Atualmente atua no tradicional Colégio Pedro II. Além disso,
participa também de um laboratório pedagógico dedicado à formação continuada do
professor, administra dois blogs direcionados aos estudantes de ensino básico
(Engenho da História e Com o Tempo) e uma página do Facebook com sugestões de
leituras (Wagner Comenta Livros) que também é apresentada como blog.
“A ficção se aproxima tanto da realidade, que alguns pensam
que os contos sejam relatos de experiências. Não são. Gosto da expressão
“realidade ficcional”.”
Boa Leitura!
Escritor Wagner Torres de Araujo, é um prazer contarmos com
a sua participação na Revista Divulga Escritor. Conte-nos,em que momento se
sentiu preparado para publicar “Memórias Dispersas”?
Wagner Torres - Este trabalho estava latente havia
anos. Desde criança escrevia versos que imaginava que fossem poesia. Um ou
outro podia não ser de todo ruim. Em 2013, uma de minhas crônicas, “Questão
Política”, foi publicada na coletânea feita pelo Prêmio UFF de Literatura. Isso
me animou bastante. Nos últimos anos fui muito incentivado por minha mulher e
resolvi transformar alguns dos contos escritos em um livro. Assim surgiu
“Memórias Dispersas”.
Apresente-nos a obra.
Wagner Torres - Não é tarefa simples fazero que você
pede. Este livro conta com 29 histórias bastante diferentes. Mesmo assim, há
relações entre todas elas. São situações predominantemente urbanas, mas
bastante variadas. Acima de tudo, os contos mostram os sentimentos dos
personagens. Mostram as pessoas de forma tão natural e suave, que todos os leitores
se identificam com algum personagem ou situação.
Quais temáticas estão sendo abordadas por meio dos textos
que compõem a obra?
Wagner Torres - As temáticas são bastante variadas,
como são diversas as situações e os ambientes onde se passam. Algumas são bem
curtas e outras um pouco mais longas. As histórias estão ligadas a ocorrências
cotidianas, humanas, onde os sentimentos dos personagens são mostrados
intensamente. Os personagens estão sempre ligados ao Rio de Janeiro por viverem
na cidade, mas nem sempre são cariocas, nem todos os eventos acontecem no Rio
de Janeiro. Se os locais fossem alterados, não mexeríamos com as ideias
básicas, pois as situações são humanas. Tudo é fruto das observações do autor e
da imaginação. A ficção se aproxima tanto da realidade, que alguns pensam que
os contos sejam relatos de experiências. Não são. Gosto da expressão “realidade
ficcional”.
Quais critérios foram utilizados para escolha do título que
compõe a obra?
Wagner Torres - A ideia do título do livro brotou em
minha mente quando estava fazendo a revisão de um dos contos, que recebeu o
mesmo título. Imaginei naquele momento que muita gente apostaria que essa e as
outras fossem histórias vividas. Entendi que todos os contos causam a impressão
realista, como se fossem memórias. Ao mesmo tempo, tudo resulta de fragmentos
de observações que faço às pessoas com quem convivo, que observo nas ruas,
casos que me contaram, que li nos jornais. Esses fragmentos são misturados,
processados, ressignificados e transformados em criação ficcional. Portanto,
são memórias, sim, embora dispersas nas vivências humanas em geral.
Qual o conto que mais o marcou no momento da escrita?
Wagner Torres - Cada conto me emociona de forma
diferente, mas todos são intensos para mim. Eles me emocionaram quando escrevi,
me tocaram em cada revisão que fiz e tornam a me emocionar a cada nova leitura
que faço.
O que mais o encanta nos contos?
Wagner Torres - Eles são expressão literária, portanto,
são minhas construções artísticas. Assim sendo, a emoção dos personagens é o
ponto alto. Alguns dos leitores já me deram retorno nesse sentido, dizendo que
se emocionaram. Essa é a minha maior alegria.
Quais os seus principais objetivos como escritor? Pensa em publicar
novos livros?
Wagner Torres - Tenho um novo livro de contos pronto
para ser publicado, com título escolhido, “Transgressores do tempo”. Espero que
o lançamento aconteça em 2018. Projetos, tenho vários. Um romance e uma
coletânea de poesias devem aparecer em breve.
Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista. Muito bom
conhecer melhor o escritor Wagner Torres de Araujo. Agradecemos sua
participação na Revista Divulga Escritor. Que mensagem você deixa para nossos
leitores?
Wagner Torres - As realizações da humanidade têm os
sonhos como antecedentes. A criação ficcional tem muito de sonho, mas é criação
de mentes inventivas. Ler ficção literária alimenta a capacidade de as pessoas
sonharem e produzirem novas ideias. Por isso, todos que buscam atividades
criativas devem ler ficção, ouvir música e apreciar as variadas expressões de
artes visuais. O mundo tem saídas, e todas exigem criatividade. Uma delas está
na realidade ficcional.
Divulga Escritor, unindo você ao mundo através da Literatura
O baiano Ângelo Roberto, ilustrador de vários livros
de nossa autoria, faleceu hoje pela manhã em Salvador. É triste, muito
triste a notícia, está doendo muito. Em 1999, no meu livro "O Mar na
Rua Chile", dedico uma crônica a esse amigo de geração e parceiro na
arte. Reproduzo abaixo a crônica referida, maneira de homenagear um pouco
o valor desse genial poeta do traço.
Admirável Ângelo Roberto
Cyro
de Mattos
Diante dos desenhos de Ângelo Roberto, baiano de Ibicaraí,
radicado em Salvador desde 1948, a primeira impressão que se tem é
de que a vida é ato de amor. Figuradas no real, criaturas simples sugerem o
visual cativante através de uma poetização imaginativa. Mãos e pés
enormes não representam detalhes encaixados de maneira inteligente no humano
que se pretende figurar. É mesmo o jeito próprio de imaginar o humano em seu
excesso de pobreza, a nos atingir com amor em sua simplicidade. Podemos perceber isso na
imagem do menino, abraçando o cavalo amigo com todo o calor do coração. Em são
Francisco de Assis e seus pássaros que acendem o dia, levando fraternidade
pelos quatro cantos cardeais. Ainda na lágrima da
criança triste, riscada no instante do trauma causado pelo
passarinho morto na gaiola.
Ângelo Roberto, como se vê, é um poeta do traço expressivo.
A imaginação rica que possui lateja no drama como um
feixe de nervos numa só ritmação. Sensorial, intensa, sutil nos pontos que o
artista sabe imprimir com mestria nas linhas. Nos poros abertos de sua verdade
sentida pela vida. Linha, ponto e movimento pulsam com amor ao mesmo tempo,
numa só projeção do drama. Flagrado no episódio tendo às vezes a configuração
no mais exterior uma significação interna, de dor e cisão súbita feita na
existência rústica. Acontece assim a concentração de forças que vibram na
expressão oculta do vaqueiro baleado.
Já se disse que poesia é concentração, iluminação do ser e
verdade no seio da linguagem plasmada. Então percebemos assim que Ângelo
Roberto oferece com freqüência ao desenho momentos de poesia significativa. O
gesto simples do artesão por suas criaturas, fraterno e doce tantas vezes nas
emoções captadas configura na superfície branca o espírito pontilhado e delineado
com o traço leve quando corporifica a matéria. Diríamos que a vida nesse
instante flutua ou se flagra naquela zona suspensa do azul, que há muito tempo
coabita dentro de nós, naquela aderência mansa de certo clima poético em nossa
paisagem íntima.
Vagares de ternura, revelação solidária da tristeza,
instante cálido da mulher com flor no seio. Tudo idealizado por meio
de pontos e linhas que determinam um ritmo suave. Configuram na
expressão segura o tema real do imaginário com objetivo de transmitir valores
emotivos. Representam com habilidade a arte de riscar uma geometria que se
projeta no tempo do viver, do sentir e do amar, para ocupar determinado estado
onírico.
Posso dizer que os trabalhos desse artista humaníssimo que é
Ângelo Roberto, de rica vocação para o traço poético, mostram outra vez que a
Arte é necessidade fundamental da vida como forma de conhecê-la. Concordância
de verdade e beleza, vínculo de gravidade e jogo, pode até não ser substitutivo
da vida, não tendo mais importância do que comumente lhe é dada. Porém, útil
compartilha a solidão, cativante aproxima as criaturas, dá prazer e faz meditar
dentro daquele entendimento tácito, que a vida no ritmo feroz de
conflitos e abismos das civilizações atuais é destituída de sentido efetivamente.
Feita com amor e talento, de maneira humaníssima, reveladora
do ser na existência, pode não salvar o indivíduo no conturbado lado de animal
social, mas é ato que torna a vida suportável, sensível e essencial.
E viver sem ela seria mesmo impossível.
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Desenho da coleção “Cavalos & Sol” de Ângelo Roberto
O "movimento
elegante, as linhas belíssimas" do cavalo traçados por Ângelo Roberto
Fonte: Terra
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Cyro de Mattos - é baiano de Itabuna. Escritor e poeta,
Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia).
Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de
Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Marcos.
— Glória a vós, Senhor.
Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na
sinagoga e começou a ensinar.
Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava
como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei.
Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito
mau. Ele gritou: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos
destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”.
Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!”
Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um
grande grito e saiu. E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns
aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda
até nos espíritos maus, e eles obedecem!”
E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda
a região da Galileia.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão de Dom Alberto
Taveira Corrêa:
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Palavras que destravam a vida
“Cala-te e sai dele” (Mc 1,25)
Estamos fazendo o percurso contemplativo, seguindo o
evangelista Marcos. Ele foi o primeiro que escreveu o Evangelho, por isso
conserva o calor dos inícios da vida cristã. É o mais conciso. Não apresenta
grandes discursos de Jesus nem conta muitas parábolas. Interessa-lhe sobretudo
o cotidiano na vida pública de Jesus: sua atitude vital para com os pobres e
excluídos, sua presença terapêutica, sua liberdade diante da religião, do
templo, das tradições judaicas, a revelação do novo rosto de Deus, o anúncio da
Boa Notícia da Salvação…
A intenção de Marcos é que as pessoas se façam a pergunta
chave: “quem é Jesus?”. Todo o seu evangelho é revelação progressiva da
personalidade e da identidade de Jesus. Jesus não tinha nenhum doutorado na
Lei, não tinha nenhum Master em questões do Templo; não era um perito a quem
consultar sobre a lei. Jesus era Ele mesmo; seu único título era sua verdade,
sua honestidade, sua bondade, sua capacidade de sanar a dor daqueles que
sofriam e libertá-los dos maus espíritos que os escravizavam. Era a identidade
de si mesmo, plena: a identidade entre o que dizia e fazia, entre o que era e o
que ensinava. Podemos afirmar que Jesus era um “profissional da vida”, um
“mestre da vida humana digna”. Não havia estudado em outra universidade a não
ser a universidade da vida, do amor, da liberdade...
O evangelho deste domingo (4º TC) é o primeiro ato público
de Jesus: estamos num dia típico de sua vida e de sua atividade. Seu primeiro
contato com as pessoas, depois do batismo e da experiência do deserto, tem
lugar na sinagoga. É um sinal de que a primeira intenção de Jesus foi
redirecionar a religiosidade do povo que tinha sido deformada por uma
interpretação opressora da Lei. Por duas vezes no relato se faz referência ao
ensinamento de Jesus, mas não se diz nada do que ensina. Fala-se de suas obras.
As curas e a expulsão de demônios, entendidos como libertação, são a chave para
compreender a verdadeira mensagem deste evangelho. O que Jesus faz é libertar
um homem de um poder opressor, o espírito imundo.
A Boa Notícia que Marcos anuncia é a libertação, em duas
direções: da força do mal e da força opressora da Lei, explicada de uma maneira
alienante pelos fariseus e letrados. As pessoas reconhecem um novo ensinamento,
com autoridade, ou seja, com convicção, com coerência de vida, com profunda
fé... O ensinamento de Jesus é novo porque liberta ao mesmo tempo que ensina.
Jesus não ensina nada verbalmente: mostra-se a si mesmo. Marcos dá mais
importância ao modo de falar de Jesus que ao conteúdo de seu ensinamento.
De Jesus diziam que “ensinava com autoridade” e não como os
escribas e fariseus. Ele tinha a graça de conceder autoridade a cada pessoa, de
devolver-lhe sua dignidade, de remeter-lhe a si mesma, de ajudá-la a conectar
com seu ser profundo, com aquilo que é mais divino no próprio interior.
Ensina com autoridade quem fala a partir de sua própria
experiência e quem, com seu ensinamento, “faz crescer” (a palavra “autoridade”
provém do verbo latino “augere”, que significa aumentar, fazer crescer, elevar
o outro…); em outras palavras, é despertar a autonomia e a autoria do outro
para que ele seja capaz de dar direção à própria vida.
O critério para distinguir quando nos encontramos em
presença de quem “fala com autoridade” sempre será o mesmo: sua palavra faz as
pessoas crescerem em profundidade. A “autoridade” de Jesus, portanto, está em
que sua palavra e sua vida formam uma unidade plena, porque não diz nada que
não esteja já fazendo; suas palavras brotavam de uma experiência profunda que confirmava
com sua vida. Provava com suas obras suas palavras, vivia o que ensinava.
Ao entrar na sinagoga, Jesus se volta para quem não recebia
atenção. Ele faz com que o possuído pelo mau espírito se torne o centro das
atenções e sua libertação é, ao mesmo tempo, prática e ensino. O homem possuído
é o símbolo de todas as pessoas despersonalizadas, impedidas de falar e agir,
como sujeitos da própria vida e história. Sua vida e destino dependiam de
“outros” que pensavam, falavam e agiam por elas.
Jesus vai curá-lo com sua presença e também com sua voz. Ao
lhe dizer: “cala-te e sai dele”, Jesus está desatando uma vida, está devolvendo
ao homem possuído o seu ser essencial. Há palavras que tem força reconstrutora,
pois, não só restabelecem a saúde mas ativam a dignidade escondida da pessoa.
Dizem que há pessoas capazes de serem curados por uma voz, pelo material sonoro
de uma voz determinada. Quanto aspira nosso coração escutar este convite:
“esteja livre...”! Esteja livre daquilo que os outros possam dizer ou pensar a
seu respeito; livre do domínio das suas compulsões; livre para amar sem defesas;
livre daquilo que se acredita saber sobre si mesmo e sobre os outros; no fundo,
esteja livre para ser você mesmo, para poder entrar em uma relação nova com a
realidade.
Somos seres de palavras e somos também seres de silêncios.
Em nosso mundo atrofiamos o dom de proferir palavras de vida; elas tem pouco
valor e, por isso, precisamos voltar a lapidá-las no silêncio, porque só o
silêncio restaura a integridade de nossas palavras. Tais palavras tem força
para curar, como aquela que Jesus proferiu diante do homem possuído pelo mau
espírito.
Precisamos receber palavras que toquem nossas superfícies
endurecidas e nos libertem de tantas ataduras que não nos deixam respirar com
profundidade, nem olhar compassivamente, nem considerar a beleza da diversidade
e a diferença. Também nós buscamos pessoas que possam nos dizer palavras para
viver e somos requisitados a entregar aos outros uma palavra de vida.
Jesus foi o homem que movia com suas palavras. É
extraordinário perceber como as palavras ditas com cuidado e amor (pedagogia de
Jesus) produzem efeitos benéficos para o ser humano. Essas palavras são
bem-aventuradas, pois são capazes de fazer crescer, sustentar, edificar as
pessoas para o convívio social, humano-afetivo, espiritual. São palavras que
trazem luz e calor, infundem confiança e segurança.
A palavra tem força de ressurreição, é como brisa suave que
ativa nossas melhores energias. As palavras jamais deixam as coisas como estão.
Elas não se limitam a transmitir uma mensagem; elas tem uma força operativa,
desencadeiam um movimento... Quando falamos, algo acontece, muda alguma coisa
dentro de nós e ao nosso redor. Aparentemente nada mudou; mas é possível que
tudo tenha mudado. A palavra foi além de sua vibração sonora. Ela contribui
para criar o clima, o ar que respiramos... um ambiente que nos plenifica, nos
nutre, favorece o encontro e o compromisso e abre possibilidade de viver
Texto bíblico: Mc 1,21-28
Na oração: Hoje o evangelho nos convida a sermos sinceros
conosco mesmos, a revisar nossa conduta cristã. Devemos expulsar muitos “maus
espíritos” interiores (ânsia de poder, riqueza, prestígio, vaidade…) que jogam
ao chão nossa dignidade e impedem um testemunho coerente, uma verdadeira
autoridade que profere palavras que fazem as pessoas crescer.
- Repassar o repertório das palavras proferidas ao longo do
dia: palavras que elevam, que curam, que salvam...?