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quinta-feira, 6 de julho de 2017

IRONIAS DA VIDA - Antonio Nunes de Souza

Ironias da vida!


Antonio Nunes de Souza



Afonso e Laura formavam um casal lindo e maravilhoso, não pela beleza física completamente, mas, pelas suas afetividades, felicidades e entendimentos desde o tempo de namorados. Casados há cinco anos, ambos com 27 anos e, curiosamente, as mesmas profissões de dentistas. Assim, interessantemente, pareciam que tinham vindo ao mundo já programados para viverem eterna mente juntos e felizes!

Porém, por uma infelicidade, graças a uma deficiência em seu organismo, Laura, mesmo depois de consultar os melhores especialistas, chegou a triste conclusão que, infelizmente, jamais poderia ter filhos!

Contudo, depois conversarem e pensarem bem, decidiram fazer uma adoção, para completar a alegria da casa e a felicidade deles próprios. E, mais que depressa, se inscreveram no departamento judicial de adoções, ficando cadastrado, aguardando a aprovação e, ao mesmo tempo, fazendo visitações em orfanatos para fazerem a escolha. Afonso desejava um menino e Laura, por ser mulher, queria uma menina. E, com carinhos e beijos, conseguiu que sua escolha fosse acolhida.

Passados dois meses, Laura deparou com uma menina linda, meiga e, curiosamente, parecida com ela nos traços fisionômicos, tendo também alguns pequenos detalhes da fisionomia de Afonso. Mas, não era um bebê, ela tinha 7 anos. Pensaram, refletiram e, pela grande ansiedade de Laura, resolveram que Dora (esse era o seu nome) seria a filha deles!

Prepararam toda tramitação, papeis prontos, aprovação jurídica, oficialização, etc., foram ao orfanato buscar a menina, que já tinha o seu quarto arrumado todo em cor de rosa, a espera da nova e sonhada moradora! Como tratava-se de uma garota já esperta, combinou-se que eles seriam considerados e chamados de tios, para que não houvesse traumas futuras por ela descobrir o desconfiar que eles não eram seus verdadeiros pais.

Para ser menos longo, vou logo contar o que veio pela frente. Dora transformou-se numa moça linda, charmosa e super sedutora e, ironicamente, se apaixonou pelo seu tio, pois já havia também notado que ele a olhava com um olhar de desejo, mesmo respeitando, não só sua esposa, como também a afinidade filial que tinha com a moça. Mas, o instinto sexual bateu muito mais forte e, um inesperado dia, aconteceu o que não era jamais para acontecer. Eles transaram loucamente, esquecendo de todos os conceitos e preconceitos culturais, sociais e jurídicos. E isso continuou as escondidas, até que Lauro e Dora resolveram fugir de sua protetora tia, indo refazer a vida em outro estado!

E assim fizeram, aproveitando uma rápida viagem da tia e, praticamente, sua mãe, fugiram os dois, deixando uma carta confessando seu grande pecado e pedindo milhões de perdões pela atitude tomada!

Atualmente, Laura vive nos sofás de psicólogos e analistas, sofredora de uma monstruosa depressão, revoltada porque não deu ouvidos ao marido escolhendo um menino, enquanto Lauro e Dora moram em Belém, com dois filhos, e ela terminando o curso de odontologia para que juntos, abram uma nova clínica!

Essas ironias da vida e do destino, certamente, não são obras traçadas pelas divindades. Imagino que sejam pelas grandes liberdades existentes entre os seres humanos que, estupidamente, usam e abusam do tão citado e divulgado “livre arbítrio”!


Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL


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ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO - Cozinhando raiva

Cozinhando raiva


O fato de a gente dizer que a raiva é uma emoção humana, não reprovável, não significa que é bom ficar cozinhando ou curtindo a raiva, não!

Porque uma coisa é reconhecer o que se sente, outra coisa é se deixar prejudicar.

– Ah! Mas se a raiva é natural e humana, ela pode prejudicar quem sente?

– Uai! Vocês não conhecem planta venenosa?

Planta venenosa vem da Natureza e, no entanto, ela é toxina para as pessoas.

Tem gente que usa veneno de planta para fazer remédio. Tem gente que usa para envenenar.

Tem gente que usa raiva para envenenar a própria vida e a vida dos outros.

Será que você não faz isto, algumas vezes?

Veja, a raiva e outras emoções destrutivas são naturais, mas elas têm um caminho natural.

Elas não são para durar, só para mobilizar em você algumas reações.

Mas se você não reage de acordo, a raiva fica ali presa, cozinhando dentro de você, espalhando toxina nos seus canais energéticos.

Você vai se contaminando com aquele clima, e vem a irritação, o ressentimento, a mágoa, o desejo de vingança.
Por que você não usa a raiva para fazer remédio?

Reaja positivamente, quando alguma coisa ameaçar invadir seu espaço, quando alguém desrespeitar os seus direitos.
Tome providência, não para os outros, para posar para o mundo, mas para você, antes que o mal se instale.

Aja com os seus princípios, os seus melhores valores, use sinceridade.

Não entre na perdição de um impulso descontrolado.

Mas, se você se deixou levar por um momento de raiva e fez algo que não queria, também não adianta ficar pensando naquilo, transformando em presente o que já é passado.

Mude a partir de agora, daqui para frente é o que importa.


Calunga – Espírito
Psicografia – Rita Foelker
Livro – Felicidade é Escolha



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quarta-feira, 5 de julho de 2017

CHEGA DE RATOS - Ferreira Gullar


Chega de ratos


Hoje, em vez de falar de ratos, vou falar de gatos. Pois bem, modéstia à parte, tenho duas gatas: a gata chamada Cláudia Ahimsa, musa minha e poeta autora de preciosos livros de poemas. Ela diz que não faz poemas e, sim, livros de poesia, o que é verdade. Por isso mesmo, não faz apenas o objeto livro, onde eles são editados; a capa do livro, o tema dos poemas e sua distribuição nas páginas, o formato do livro, tudo é por ela inventado. Por essa razão, não mora comigo, mesmo porque dois poetas não cabem numa mesma casa.

Já a outra gata, a que mora comigo e se chama Gatinha, é siamesa como o finado Gatinho, que me inspirou um livro de poemas engraçados, lindamente ilustrado por Ângela Lago. Essa gatinha não apenas mora comigo como dorme na minha cama. Se disser que nossa intimidade se limita a isso, estarei mentindo, pois vai muito além, uma vez que ela, todos os dias, vem para a sala onde trabalho e sobe na mesa para que eu a acarinhe.

Sobe na mesa e, como quem não quer nada, deita-se à minha frente para que eu lhe faça carinhos. Se não estou ali escrevendo ou lendo, vai à minha procura e, encontrando-me, começa a roçar-se em minhas pernas, que é o seu modo de dizer-me que está na hora de lhe fazer carinhos.

Entendo, largo o que esteja fazendo e vou sentar-me à mesa da sala, onde ela imediatamente sobe e se estende, de barriga à mostra. Ela já se habituou ao carinho que lhe faço, passando a mão em sua barriguinha de pluma.

Quando meu gatinho morreu, fiquei traumatizado e decidi não mais ter gatos em casa. Na verdade, um outro gato, fosse qual fosse, jamais o substituiria e, além do mais, me faria lembrar dele a toda hora.

Mas eis que um dia, sem saber desse meu trauma, surge aqui em casa Adriana Calcanhotto e, logo depois de entrar, abre a capa com que se cobria e me entrega sorrindo, de presente, uma gatinha siamesa. Levei um susto, mas era tal a alegria da Adriana por me trazer aquele presente que não tive coragem de lhe dizer que decidira não mais criar gatos.

Não foi, porém, só isso. Quando a gatinha me mirou nos olhos e miou, rendi-me instantaneamente e abracei Adriana, sinceramente agradecido. E mais agradecido estou agora, depois de alguns poucos anos de convívio com a companheirinha que ela me trouxe de presente.

Esta gatinha tem, porém, um comportamento peculiar: tocou a campainha da porta, esteja ela dormindo na poltrona ou brincando em cima da mesa, larga tudo e sai disparada para se esconder em algum dos quartos da casa. E se, não estando ela na sala, chegar alguém ali, ela, esteja onde estiver, lá ficará, certamente mais escondida que antes. E se esconde tal modo que, eu mesmo, se tentar localizá-la, não o conseguirei.

Se depois, tendo ido embora o intruso, dado um tempo, claro, ela reaparecerá mesmo assim desconfiada, farejando o ar para evitar qualquer surpresa. Basta dizer que a própria Adriana, quando aqui esteve e tentou revê-la, não o conseguiu.

Por que ela se espanta desse jeito, não sei. O Gatinho, ao contrário dela, era tranquilo; se chegava alguma visita, pouco ligava; quando muito, erguia a cabeça, dava uma olhada e voltava a cochilar.

Isso sem falar nos gatos de rua, que andam entre as pernas dos transeuntes, sem nada temer, nem mesmo cachorro.

Desconfio que o comportamento de minha gatinha se deve à sua origem social: ela é fruto do pet shop, ou seja, pertence a uma nova geração de bichos que o mundo moderno está produzindo.

Criada em pet shop, numa pequena gaiola, sem contato com outros animais, o bicho adquire personalidade neurótica, que o torna incapaz de conviver com os outros bichos. Mas, como é próprio dos gatos o convívio com as pessoas, a minha gatinha felizmente me aceitou como uma companhia confiável e, mais que isso, afetuosa.

Quanto à minha outra gata, a Cláudia, não diria que seja tão arredia quanto a gatita, mas não é para qualquer um que ela aparece quando lhe tocam a campainha da porta ou tentam contatá-la pelo telefone. Também, neste caso, eu constituo uma exceção. Mas nem sempre, diga-se a verdade. 

Folha de São Paulo, 17/04/2016


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Ferreira Gullar - Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014, pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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CAMPEONATO DE FUTEBOL REÚNE EMPRESAS ESTA QUINTA NA AABB

 COTEF comemora o título de 2016 na Cabana do Tempo

Abertas inscrições para o Citadino de Futebol da AABB Itabuna

Reunião 6/7 no clube define participantes


Vai ser dada a largada para a maior competição de futebol entre empresas da região. É o Campeonato Citadino de Futebol MiniCampo da AABB Itabuna, já em sua 13ª edição seguida.

Nesta quinta-feira (6) às 19h00 acontece uma reunião aberta a todos os interessados em se inscrever do torneio. Será na sede do clube no São Judas, oportunidade em que serão apresentados todos os detalhes sobre o Citadino: período de realização, dias e horários dos jogos, regulamento, premiação, arbitragem.

No ano passado houve a participação da COTEF (campeã), Thumy Gás (vice), Drogarias Velanes, Aragão Plásticos, Shopping Jequitibá, AABB-30, Oportunity Contabilidade, Claridente, Mr. Sheik, World Print, Axé da Sorte, Madeireira Mauá e Daniel San. O evento contou com ampla cobertura na imprensa e nas redes sociais, projetando a marca das instituições concorrentes.

Todos os jogos serão realizados nos campos de grama natural e sintética da AABB Itabuna, com portões abertos ao público no horário das partidas. O clube fica na Rua Espanha s/n, travessa da Av. Europa Unida no São Judas. Telefones da secretaria para informações e confirmação de presença: (73) 3211-4843 / 3211-2771 (Oi fixo).



Contatos (DDD 73) – João Xavier: 9 9138-3444 (Tim), Rodrigo Dantas Xavier: 9 8853-4607 (Oi) e Marcos Lima: 9 9152-6360 (Tim)
Assessoria de Imprensa – Carlos Malluta: (73) 9 8877-7701 (Oi) / 9 9133-4523 (Tim)

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A MORTE DE UMA EXCELÊNCIA – Ricardo Cruz

A morte de uma Excelência


            - Então, seu Arcanjo, como vai nosso timão? – perguntava-lhe o prefeito, mal acabando de sentar-se na cadeira mais solene da barbearia.

            - Aí, excelência, como o senhor mesmo está vendo...

            - Pois é, agora botaram uma bicha como técnico, onde já se viu sem-vergonhice igual? Depois soube que vão vender o Santinho pro Fluminense de Feira. Tem lá precisão, seu Arcanjo, hein, me diga?

            - Tem não, excelência, nenhuma, uma terra rica como a nossa... Mas o técnico, eu soube que o homem é cronista, colunista social, ou coisa parecida...

            - O que pra mim vem dar no mesmo, seu Arcanjo. Homem que anda metidinho em festinhas a bajular madames, é tipo com serventia para dirigir time de homem? Pra mim é bicha mesmo!

            - Concordo com Vossa Excelência. No meu pouco conhecer, sei logo quem tem razão... E Vossa Excelência...
            - E o time é bom, seu Arcanjo, muito bom, isto é o pior de tudo. Temos o melhor goleiro da Bahia, nosso ponta esquerda fez a melhor figura no campeonato, ou não fez?

            - Tá muito sem moral, senhor prefeito, sem moral, com esse técnico, o senhor mesmo sabe... Todo mundo aí descontente, e logo o futebol, Excelência, o futebol, a alegria do povo!

          - É isso aí, seu Juvenal alegria do povo! Povo precisa de alegria, de confiança. Com alegria e confiança, tudo fica fácil de conquistar, só assim sei fazer política. Não sou homem de viver tramando nem conspirando nos gabinetes!

            - Muito bem!...

            - Pena que a diretoria do time pertença à oposição. O Itabuna, seu Juvenal, se essa diretoria estivesse comigo, no duro não ia ter técnico bicha, não. Mandava buscar o Zagalo, ou o Cláudio Coutinho. Aí sim, queria ver... Queria ver jamais perder eleição. Jamais perdi, não é? Ia mais longe, seu Arcanjo! Ia não, vou! Ainda chego lá, a oposição vai ter muito que quebrar a cara comigo. Chego a Senador da República, seu Arcanjo, a Senador!

          - Apoiado!

            Juvenal escutava-o, orgulhoso da sua condição de confidente e barbeiro particular do senhor prefeito. Já o era, antes que o homem enveredasse pela política, o que aconteceu numa dessas reviravoltas que a vida dá, costumava dizer, mudando o destino das pessoas, porque depois que enveredou e teve sucesso, prefeito por duas vezes, eleito pelo voto popular, maciçamente, mostrou que não era homem de abandonar amigos, trocar de companheiros, em tempo algum deixando de solicitá-lo, a ele, humilde barbeiro, como profissional e confidente. Quando estava muito atarefado e não podia ir à barbearia, distribuindo acenos, abraços e apertos de mão pelo percurso, mandava buscar o barbeiro que o atendia lá mesmo, no gabinete. Nestas ocasiões carregava numa maleta o instrumental encomendado em Salvador, novíssimos e afiados instrumentos, só para uso de sua excelência e, excepcionalmente, das cabeleiras mais ilustres da cidade. Considerava-se um privilegiado quando dispunha de todo um tempo das atenções do senhor prefeito (por longos momentos a tesoura cessando sem  tac-tac, suspensa no ar, o pente fino de chifre à espera do compasso da tesoura, erguidos ambos erguidos ambos nas pontas dos dedos, como um maestro diante da sua orquestra, logo recomeçando o tac-traquear elegante e caprichoso em torno daquela cabeleira).

            Em outros momentos, como durante a última campanha eleitoral, era impossível atende-lo na barbearia, mas ele fazia questão de ser atendido lá mesmo, então Juvenal não gozava de privacidade alguma, o povo invadia o salão da barbearia, todo mundo querendo falar ao mesmo tempo; pedidos, declarações, convites, queixas, converseiro, mexericos, abraços e apertos de mão, um inferno. No fundo ele gostava, aumentara a sua popularidade, até aproveitava para distribuir uns cartõezinhos. Lá fora, o povo amontoando-se nas calçadas, mais movimentado que um dia de feira, o couro comia, um carnaval:

            “Pisa na fulô, oi pisa na fulô,
            Pisa na fulô que o Alcantra já ganhou!”

            E o homem não perdia vez de contentar o povaréu humilde, com umas artimanhas súbitas, umas tiradas inspiradas, empinava-se na cadeira, sem ligar pra barba ou cabelo, corte por terminar, ou ia até a ponta da calçada, para dar seu brado de guerra:

            “Povo vencedor, sabe o que quer,
            essa ganhamos de colher!
            Vai ser de colher, vamos ganhar,
            é só apostar, quem quiser!”

            Não precisava identificar rostos, aquele povo era essa mesma gente triste agora, e, acompanhando-o, também caminhava triste, subindo a ladeira do cemitério. Assustou-se com aquelas vivas inesperadas, mas logo compreendeu a razão. Podia ver, na ampla varanda, o doutor Osmundo Teixeira, duas vezes candidato a prefeito, duas vezes derrotado nas urnas. Claro que não ia demonstrar alegria naquele momento, afinal a morte limpara-lhe o caminho, não iria se incompatibilizar com o povo. Havia o padre Nestor Caminha, um certo Mimia, agente funerário, estes há anos candidatavam-se, mas sem nenhuma chance, o povo poderia preferir um desses dois, ou outro qualquer, se tivesse com isso de responder alguma provocação do doutor Osmundo. Mas não parecia disposto a cometer nenhuma burrice, ao contrário, estaria até disposto a responder com um viva, também ou derramar uma lágrima... Mas por dentro, Juvenal seria capaz de apostar, estaria cantando de felicidade, agora não teria de enfrentar ninguém mais à altura do falecido, ninguém que não pudesse derrotar nas próximas eleições.

            - Com todo respeito, vai ser muito difícil, doutor Osmundo,  seu Alcântara perder pro senhor. Ele mesmo disse que ganha, de colher. No meu pouco entender, ele sabe convencer o povo, doutor.

            - Ora, o povo, Juvenal, o povo só quer saber de futebol e carnaval! Respondia-lhe doutor Osmundo, que andara arriscando umas chegadas até a barbearia, naquele fingimento de querer cortar cabelo com ele, quando todos sabiam muito bem que era cliente antigo do seu Álvaro do Salão Universal. Vinha ali bisbilhotar, esperando aproveitar-se da humildade dele, fazer intriga, colher indiscrições, que não cometeria. “Tou acordado, para esse doutor”, pensava, muitas vezes.

            - Viu só o que ele fez, o seu prefeito, a última dele? Qual o benefício para uma comunidade mandar pintar os postes de concreto da cidade. Hein, seu Juvenal? Me diga se com essa não perdeu até mesmo seu voto? A Bahia inteira deve estar rindo dessa maluquice, pintar postes, onde já se viu?

            Depois ia contar tudo a sua excelência, que o escutava em silêncio, comovido com a fidelidade demonstrada.

            - Anda espalhando que as tintas foram de um estoque encalhado da firma do seu Juca, que sua excelência comprou porque devia ao homem o apoio dele nas eleições. Vai provar que foram compradas pelo dobro do preço, ainda por cima, excelência, ele mesmo me disse!

            Então o prefeito gargalhava, uma gargalhada estrondosa, chegando a engasgar e o peito ficava cheio de ruídos, Juvenal ficava meio arrependido e com medo do homem estourar, ali mesmo, na sua cadeira, tão vermelho se tornava. Agora o acompanhava pela derradeira vez: “e que morte tão estúpida, essa!...”

(ROTEIRO PARA UMA TEMPESTADE)
Ricardo Cruz
Da Antologia ITABUNA, CHÃO DE MINHAS RAÍZES
Seleção, Prefácio e Notas de Cyro de Mattos

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RICARDO CRUZ – Nasceu em Salvador, a 26 de janeiro de 1941, mas viveu com a família em Itabuna até os dezenove anos, mantendo até hoje fortes laços com a região que habita a sua infância e adolescência. Diplomado em medicina pela Universidade Federal da Bahia. Fez parte da “Geração Revista da Bahia”, ao lado de Marcos Santarrita, Cyro de Mattos, Oleone Coelho Fontes, Ildásio Tavares e outros. Participa das antologias “Doze Contistas da Bahia”, “4 Histórias do Mercado Modelo”, “Moderno Conto da Região do Cacau” e “Novos Contos da Região Cacaueira”. Seu conto “O Réprobo” foi incluído na coletânea “K Iúgu of Rio Grande”, de narradores latino-americanos, em tradução de Helena Riánsova, publicada em Moscou, da qual participam, entre outros, Rosário Castellanos, René Marques, Julio Cortázar e Cyro de Mattos.
Em “Roteiro para Uma Tempestade”, contos, 1985, Ricardo Cruz, com um estilo envolvente não esconde a sua intenção de ser testemunha desta vasto mural que é o mundo. É um ficcionista social, político no melhor sentido, picaresco, fantástico e surrealista. Alguns de seus contos nesse livro acontecem no sul da Bahia, “O Dia em que o praça Ribeiro Deteve o Avanço Alemão sobre a Ponte do Rio Cachoeira”, “A Ressurreição de Uma Excelência” e “A Gaiola Indomada”.
A narrativa desenvolta demonstra que a temática da civilização cacaueira na Bahia, em seus aspectos urbanos e rurais, tem um novo ficcionista, com a sua feição própria e seu ritmo. “Benditos Perversos”, contos, 1989, em que o ficcionismo agora erótico surge das relações cúmplices no cotidiano da existência, trazem essas marcas dramáticas e trágicas, que só um autor talentoso na sua escritura legítima pode conseguir.
(Cyro de Mattos) 



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terça-feira, 4 de julho de 2017

04/07 - DIA DA DECLARAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DOS EUA

A Declaração da Independência dos Estados Unidos da América foi o documento no qual as Treze Colônias na América do Norte declararam sua independência da Grã-Bretanha, bem como justificativas para o ato. Foi ratificada no Congresso Continental em 4 de julho de 1776, considerado o dia da independência dos Estados Unidos, para estar pronto quando o Congresso votou sobre a independência. Adams convenceu a comissão para selecionar Thomas Jefferson para compor o projeto original do documento, que o Congresso deveria editar para produzir a versão final.

Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade.

Isso tem sido chamado de "uma das frases mais conhecidas no idioma Inglês", que contém "as palavras mais potentes e consequentes da história americana". A passagem passou a representar um padrão moral que os Estados Unidos devem se esforçar para alcançar. Este ponto de vista, nomeadamente, foi promovido por Abraham Lincoln, que considerou que a Declaração deve ser o alicerce de sua filosofia política, e argumentou que a Declaração é uma declaração de princípios através dos quais a Constituição dos Estados Unidos deve ser interpretada. Ela inspirou os documentos de direitos humanos em todo o mundo.

Antecedentes
 Até ao momento da Declaração de Independência, que foi constituida em 04 de Julho de 1776, as Treze Colônias e Grã-Bretanhaestavam em guerra há mais de um ano. As relações entre as colônias e a metrópole estavam se deteriorando desde o final da Guerra dos Sete Anos em 1763. A guerra tinha mergulhado governo britânico profundo em dívida, e assim o Parlamento aprovou uma série de medidas para aumentar a receita fiscal das colônias. Por sua vez, o parlamento acreditava que esses atos, como a Lei do Selo de 1765 e as Tarifas Townshend de 1767, eram um meio legítimo de ter as colônias pagar a sua parte justa dos custos para manter as colônias no Império Britânico.

A Declaração de Jefferson 
As treze colônias tomaram este passo, pois os britânicos estavam se aproveitando da América do Norte, com impostos altos para pagar o prejuízo das guerras feitas pelos ingleses, então as treze colônias tomaram a decisão de criar A Declaração da Independência dos Estados Unidos da América.

Acredite, caro senhor: não há no império britânico um homem que mais ama cordialmente uma união com a Grã-Bretanha do que eu. Mas, pelo Deus que me fez, eu vou deixar de existir antes de me render a uma conexão em termos tais como o Parlamento britânico propõe, e neste, eu acho que falar dos sentimentos da América.
Acontecimentos durante a colonização da América, que revoltaram as treze colônias

Guerra dos sete anos (Ingleses e Franceses lutaram para conseguir os territórios da América do Norte, no final a Inglaterra ganhou, mas também com essa guerra gastou muito dinheiro, acabou tendo que implantar impostos nas colônias da América do Norte).

Lei do selo (Todos os documentos oficiais que passassem nas colônias exceto livros e jornais deviam conter selos comprados da metrópole).

Lei do açúcar: A Lei do Açúcar foi aprovada em 5 de abril de 1764 pelo Parlamento inglês. Essa lei substituía e Lei do Melado, de 1733, e tinha como objetivo por um fim no contrabando e de proteger os agricultores ingleses radicados nas Antilhas. Taxava o açúcar que entrava nos Estados Unidos da América e que não fosse comprado das Antilhas inglesas. Sendo matéria-prima do rum, e este por sua vez, juntamente com o tabaco eram utilizados pelos colonos para comprar escravos na África, a lei desagradou muitos os habitantes da então colônia inglesa.

Festa do Chá de Boston (Boston Tea Party: O governo inglês, para favorecer a decadente Companhia das Índias Orientais, que estava à beira da falência, concedeu-lhe o monopólio da venda do chá para as colônias americanas. Disfarçados de índios, os colonos jogaram ao mar o carregamento de chá trazidos pela Companhia das Índias Orientais, cujo preço baixo arruinaria os comerciantes locais, que se abasteciam em outras paragens).

As treze colônias não suportaram esses acontecimentos e fizeram o acordo de Independência dos Estados Unidos, no dia 4 de julho no ano de 1776.


(Wikipédia)


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MORTALHA – Fernanda Torres

Mortalha


Moro em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas, no caminho do túnel Rebouças, principal via de ligação entre a zona sul, o centro e a zona norte do Rio de Janeiro.

Aprendi, com a vida, a lidar com o eterno engarrafamento das cercanias do meu prédio. Tracei estratégias para suportá-lo com resignação, e na época em que ainda existia a Árvore-de-natal da Lagoa, cheguei a abandonar o volante e ir a pé, devido à quantidade de curiosos em torno do espelho d'água.

De janeiro para cá, os congestionamentos desapareceram como que por milagre. Dei para ir e vir com uma rapidez espantosa, comemorei a melhoria do trânsito, até perceber que o fenômeno nada tinha a ver com mobilidade urbana. Era a crise. A crise e a depressão da cidade.

Os restaurantes e bares estão vazios, os teatros fecharam, as lojas se foram e os hotéis olímpicos acabaram às moscas. É como se estivéssemos vivendo sob um toque de recolher. Minha mãe comentou, outro dia, que sente o Rio envolto numa mortalha.

Os assaltos, as trocas de tiro que ecoam como na Síria, os arrastões continuam, mas a calmaria é assombrosa.

Não há dinheiro nem plano, não há futuro ou comando. É como estar num transatlântico à deriva, rezando para passar, você nem sabe o quê.

Pezão abriu mão de governar, declarou estar ciente de que não resistirá muito mais no cargo. Crivella honra compromissos na África, como pastor, e tem planos para fechar as torneiras da festa pagã do Carnaval.

No último dilúvio, a comitiva do prefeito colidiu com o carro de um cidadão e passou batida, sem prestar assistência. Crivella, suspeita-se, tinha pressa de chegar em casa, para ficar a salvo das corredeiras de esgoto e lixo em que se transformaram as ruas e avenidas sob sua responsabilidade.

Normal. Não se espera mesmo nada do andar de cima. Não há revolta, não há mais bombas na Primeiro de Março. Resta apenas a apatia, e uma falta de saída de arrepiar.

Os males que ameaçam o país parecem acontecer antes, e com mais intensidade, nessa vitrine chamada Rio de Janeiro. Carma de ex-capital. O PMDB de Cunha e Cabral levou a medalha de ouro em corrupção, o buraco da Previdência já mostra os dentes por aqui, e a falência é palpável.

Ninguém merece a Alerj, Picciani, ou a oposição de Garotinho. O Rio prima pelo horror, mas os eguns engravatados de Brasília não deixam nada a dever aos mortos-vivos da Guanabara.

Michel Temer sofreu bullying na Noruega, tem uma taxa de aversão de 93%, é investigado por formação de quadrilha. Ainda assim, não há grita.

O medo do colapso da economia, a tentativa de atravessar o lamaçal até 2018 sem fazer marola, o "Fora, Temer" tão colado ao "Volta, Lula", o deserto de candidatos, tudo isso explica, em parte, o marasmo. Mas a paralisia do Rio diz mais.

Cansamos. Desistimos deles.

No temporal de 20 de junho, um mergulhador limpou os bueiros da praça da Bandeira por conta própria, enquanto Crivella fugia a caminho de sua casa.

Não há consenso ou energia que faça a indignação chegar às praças, mas um e-mail seguido de "send", para pressionar os deputados da CCJ a levar a acusação de Janot a plenário, já seria um baita de um esforço cívico.

Temer é como Pezão. Já foi e sabe. É preciso impedir que ele estenda a mortalha.


FERNANDA TORRES - 30/06/2017 - FOLHA DE SÃO PAULO

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Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

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