Oxe! Colé de mermo? Você fila aula e eu tenho que contar
tudo de novo? Mas é niuma. Se ligue que você não sabe da terça-metade. Tá
ligado que a Família Real partiu a mil de Portugal pra cá em 1808? Vazou com
medo de Napoleão e quando chegou, deu uma de porreta e chamou a gente de Reino
Unido. Ficou todo mundo de boa e a gente comeu essa pilha.
Tempo vai, tempo vem, rolou a crocodilagem: D. João VI e a
Família Real partiram a mil de volta pra Portugal e ainda queriam que o Brasil
voltasse a ser colônia. Aoooooooonde!
Quem anda pra trás é caranguejo, mô pai. O povo se retô,
pegô ar e o pau comeu. Aí, D. Pedro I deu o zig na família e disse assim pra
Portugal: “Quem vai é o coelho. Diga ao povo que fico!” Pô, véio, D. Pedro
brocô.
Mas aí, o bicho pegô. Portugal ficou virado no estopô e a
gente recebeu a galinha pulano: as tropas de Madeira de Melo armaram uma bocada
nas ruas de Salvador e foi aquela muvuca. Nosso povo lutou, mas ximbou e se
lenhou: o exército português tomou a cidade na tora.
O povo ficou injuriado e fugiu picado para o Recôncavo junto
com nossos soldados. Lá, eles usaram o tutano pra organizar a reação: tiveram
uma ideia massa e criaram o Exército Libertador. Tinha poucos soldados e muita
gente do povo: pobres, negros libertos, negros escravizados, índios,
agricultores, etc. Só tinha uma mulher que se alistou na cocó dizendo que era
homem: Maria Quitéria. Já tinha pra mais de 10 mil pessoas, mas era tudo feito
a migué: tinha poucas armas, ninguém sabia lutar, um mangue da porra.
E eu falo mesmo que eu não sou baú: o exército de Portugal
virado no diabo e a gente ia lutar de badogue e barandão? Aí é barril dobrado.
Mas o povo tava na pilha e o couro comeu. Um barco português chegou em
Cachoeira atirando e os baianos renderam eles a bordo de canoas. Ô povo retado!
Ô povo virado no estopô.
Enquanto isso, em Salvador, o exército português tava
bagunçando, mandando e desmandando: uma esculhambação da porra. Foi então que
eles invadiram o Convento da Lapa e mataram a Sóror Joana Angélica. Aí fedeu.
Aí escancarou tudo. Eles foram fuleiro. A notícia deixou o povo agoniado e o
Exército Libertador decidiu que ia arrodear Salvador.
Lá em Itaparica, o povo também deu testa ao exército
português e não deixou invadir a ilha. Maria Felipa, uma negra retada, se
juntou com mais 40 marisqueiras: elas ficaram de butuca e, na calada da noite,
foram chavecar os vigias dos barcos. Levaram os donzelos pro mato e quando eles
acharam que iam fazer ozadia, receberam foi uma surra de cansanção. Arde coma
porra! É pior que tomar zunhada. Enquanto os vigias tavam nuzinhos, se coçando
e se bulino, as mulheres colocaram fogo em mais de 40 barcos dos portugas.
Receba, sinha miséra!
Já nas águas da Baía de Todos os Santos e no Rio Paraguaçu,
foi João das Botas que lutou contra mais de 40 barcos portugueses com sua
“Flotilha Itaparicana” que só tinha barco de pescador. É brincadeira um esparro
desse? Mas ele tirou onda e segurou os portugueses.
Até então, a briga era essa: o povo baiano contra Portugal.
Mas aí, D. Pedro entrou na dança e mandou reforço. Pra terra, ele contratou o
general francês “Labativs” (se falar Labatut, use o “lá ele” porque Labatut tem
rima). Ele chegou com mais soldados do resto do Brasil e deu um trato no nosso
Exército Libertador. Um tapinha aqui, outro ali, mas tudo continuou meio nas
coxas, feito a facão. Mas como a guerra já era daqui pra li, e como baiano é
baiano: se não guenta vara, peça cacetinho. Só tem tu, vai tu mesmo: imagine a
paletada de Cachoeira até Salvador.
Já para o mar, D. Pedro contratou o Lord Cochrane (mas pode
chamar de “Croquete” que é niuma). O cara era escocês e já tinha fama de mau lá
nas Europa. Isso já assustou a marinha portuguesa: ponto pra D. Pedro.
O Exército Libertador tinha muita garra mas pouca
experiência. Chegou e cercou a cidade mas levou um baculejo daqueles do
exército português. Foi na Batalha de Pirajá: os caras bagunharam a gente. Foi
barril de mil. Nem dava pra brincar de esconde-esconde ou gritar “um, dois,
três, salve todos”. Já era, pai!
Só que o nosso Corneteiro Lopes recebeu uma ordem pra tocar
“borimbora” (Tradução: recuar), deu revertério e tocou “se joga” (Tradução:
Cavalaria avançar e degolar). Oxe! Aí, esculhambou tudo. O nosso exército
sacudiu a poeira e pra se amostrar, deu-lhe uma carreira e passou a porra nos
portuga que não entenderam nada. Os portuga vazaram quando ouviram o toque de
“se pique” e a galera do mau correndo pra dentro.
Foi o maior migué da história da Bahia, do Brasil e do mundo
porque a gente não tinha nem um cavalo pra contar história, que dirá uma
cavalaria inteira. Só mesmo baiano pra ganhar uma guerra no grito. Isso né
culhuda não, véio: foi assim mermo. O Corneteiro Lopes se armou porque deu
certo, mas se desse merda, uzoto ia dizer que foi ideia de jerico.
Com isso, isolamos os portugueses dentro de Salvador e aí
deixamos eles sem água e sem comida: não entrava nem geladinho, nem
bolinho-de-estudante, nem um real de big big.
Aí, quando a esquadra de Lord “Croquete” (Lord Cockrane)
chegou e se juntou à flotinha de João das Botas, o sacrista do Madeira de Melo
viu que já tava com a moral de jegue, chamou o rebanho de soldado dele na
surdina e se picou de madrugada. Saiu no lixo mas João das Botas foi na cola
deles até alto-mar e uns e oto “me disseram” que ele a largou o doce assim, ó:
Se plante, vú, seu Madeira! Não se abra não que eu não sou cupim. E nem volte
aqui paroano!
Na moral, véio, o nosso povo tirou onda: Salvador fiou livre
e o Brasil consolidou sua independência. E quem não lutou com armas, lutou
cuidando dos feridos, conseguindo comida para os soldados, doando dinheiro para
as batalhas.
Eita povo guerreiro! Eita povo boca de zero nove. E aí,
painho, foi um arerê nas ruas de Salvador: o Exército Libertador entrou
triunfante: todo mundo solto na buraqueira indo cumê água. A rua chega ficou
apertada e assim nasceu o desfile do 2 de Julho. Né não é?
Tá rebocado que você não sabia dessa história. Agora, tá
ligado porque a tocha vem do Recôncavo, passa por Pirajá e chega na Lapinha,
né? Tá ligado porque a festa é do povo, né? E tá ligado porque tem o Caboclo e
a Cabocla, né? Ó paí! Não tá ligado não, seu leso? Me faça uma garapa! É porque
eles representam a mistura popular que nos deu força pra lutar pela
independência. Tá vendo aí? Fiz um texto grande pra apertar sua mente, mas a
história é de lenhar, né não?
(Texto de Louti Bahia da @amoahistoriadesalvador publicado em 30/06/2020)
* * *