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quinta-feira, 8 de outubro de 2020
ITABUNA CENTENÁRIA SORRINDO: Piadas
Piadas
Mãe: - Sofia, lave bem as mãos, os pés, o pescoço e as
orelhas, pois amanhã a diretora vai visitar a escola.
Sofia: - Sim, mamãe, já lavei tudo.
Mãe: - Como assim, filhinha, tão rápido?
Sofia: - Sim, mamãe, é que lavei só do lado que passa a
diretora.
..........
Na delegacia:
- Chefe, o preso fugiu.
- Como foi possível? Você não vigiou todas as saídas, como
recomendei?
- Sim, mas ele saiu pela entrada.
..........
Um rico estava tentando explicar para um pobre o que é
ladrão quando, a certa altura da conversa, diz:
- Para você entender melhor o que estou explicando, digamos,
por exemplo, que eu meta a mão no seu bolso e tire daí uma nota de 100 reais. O
que sou?
- Só pode ser mágico, uai!
..........
- Cumpadre, te dô essa penca de banana se ocê adivinhar quantas
tem nesta dúzia.
- Ah, cumpadre! Assim fica difícil, só contando, né?
- Bão, se contar até eu acerto...
..........
A mulher fala com o marido que está deitado no sofá:
- Por que você não procura um serviço? O trabalho nunca
matou ninguém...
- Eu sei, querida, só que eu não quero ser a primeira
vítima...
..........
Um ônibus estava no seu ponto final, em uma ladeira, quando,
para alívio de 60 passageiros apertados e impacientes, ele partiu ladeira
abaixo. Um homem de certa idade começou a seguir o ônibus desesperadamente.
Um bêbado que estava
no ônibus viu a cena e gritou:
- Esquece, amigo! Você não vai conseguir alcançar a gente,
nunca!
E o senhor ofegante:
- Eu não posso desistir! Sou o motorista!
..........
- João, o meu relógio caiu no chão e parou.
- E daí? Você queria que ele saísse andando pelo quarto?
..........
No bar:
- Você sabia que o Chicão morreu de piada?
- Mas como? Piada não mata ninguém.
- Ah é! É porque você não viu o peso da pia que tinha mais
ou menos 50 quilos e que caiu em cima dele.
..........
Vendo um homem uniformizado, um bêbado pediu:
- Quer me chamar um táxi?
- Não sou porteiro – retrucou o homem -, sou almirante.
- Então chame um navio para me levar em casa.
..........
O pescador metido a esperto usava a aba do chapéu de palha
virada para trás. Um outro viu e, curioso, perguntou por que ele usava o chapéu
assim. E ele respondeu: Para os peixes pensarem que eu estou indo embora!
Fonte:
FOLHINHA DO CORAÇÃO DE Jesus 2018
* * *
quarta-feira, 7 de outubro de 2020
VARIAÇÕES EM TORNO DA LEI DO TALIÃO – Giovanni Boccaccio
Ouvi contar, que viviam há muito tempo atrás em Siena, dois bons burgueses, de nome um, Spinelloccio Tamena e o outro, Zeppa de Mino. Estavam ambos na flor da idade, moravam na mesma rua e estimavam-se muito. Casados, cada qual possuía uma linda mulher. Spinelloccio, que ia a miúde à casa de Zeppa, estivesse ele ou não, apaixonou-se pela esposa do vizinho e tão bem lhe soube fazer a corte que não tardou em obter-lhe os favores. Tais relações duraram longo tempo sem que o marido enganado desconfiasse da traição. Entretanto, a familiaridade reinante entre sua mulher e o amigo acabou por lhe inspirar inquietação e a fim de esclarecer se eram ou não fundadas suas suspeitas, resolveu certo dia esconder-se à hora em que Spinelloccio costumava visitá-lo. Este, mal chegando, procurou-o e como a dona da casa, que o supunha na rua informasse que estava ausente, pôs-se logo a beijá-la e ela a retribuir beijo por beijo. Zeppa, que assistia às carícias do lugar onde se escondera, silenciou, para ver qual seria o resultado desse jogo. Em resumo: - viu sua mulher com Spinolloccio entrar no quarto de dormir e fechar a porta à chave.
É fácil imaginar com deve Zeppa,
ter ficado indignado com esta dupla traição. Considerou, no entanto, que seus
gritos, longe de diminuírem o ultraje, somente viriam aumentar sua vergonha,
achou melhor não dar o alarma e contentou-se em conjeturar um meio de se vingar
sem fazer escândalo. Imediatamente, sua imaginação forneceu-lhe um meio muito
conveniente.
Tendo Spinelloccio saído, entrou
Zeppa, no quarto e encontrou a esposa a ajeitar o penteado desfeito.
- Que fazes aí, minha mulher? –
perguntou-lhe.
- Não estás vendo?
Sim, de fato vejo e vi também outra
cousa que bem quisera não haver presenciado. – Relatou-lhe então o que
assistira. A mulher, tomada de pavor, percebendo que não havia meio de negá-lo,
tudo co0nfessou e em prantos, pediu-lhe perdão.
- Não me poderias fazer injúrias
maior – disse o marido – eu te perdoarei, mas sob a condição de fazeres o que
eu te ordenar.
- Serás obedecido.
- Pois bem! Quero que marques uma
entrevista com Spinelloccio, para amanhã as nove horas; chegarei um minuto
depois dele; assim que me ouvires manda-o esconder-se nesse grande cofre e
fecha-o à chave. Feito isto, dir-te-ei o resto. Segue minhas ordens com
presteza e juro-te que te perdoarei e até mesmo esquecerei tua afronta.
A mulher tudo prometeu para merecer
o perdão, cumprindo com exatidão as instruções do marido.
Às nove horas do dia seguinte,
Spinelloccio e Zeppa estavam juntos. O primeiro, que combinara com a esposa do
amigo ir encontrá-la nessa hora, pretextou um almoço ao qual disse não poder
faltar, a fim de poder despedir-se.
- Ainda não é hora do almoço,
portanto não vás tão cedo.
- Não me incomodarei de chegar
antes da hora, porque tenho de tratar de negócios com o dono da casa na qual
vou almoçar.
E se despediu, dirigindo-se para a
residência de sua amante. Mal adentraram ao quarto, Zeppa se fez ouvir na
escada. A mulher, fingindo-se apavorada, convence o conquistador a enfiar-se no
cofre, tranca o mesmo e sai do quarto. Surge Zeppa e pergunta-lhe se o almoço
está pronto.
- Ficará pronto em um minuto.
- Acabo de deixar Spinelloccio –
replicou o marido – ele hoje vai almoçar fora com um amigo e já que sua esposa
ficará completamente só, vai e convida-a para vir almoçar conosco.
A dama, a quem a lembrança de sua
falta e o receio de ser punida tornava obediente, atendeu à ordem do marido e
tanto insistiu com a vizinha, a quem convenceu que não deveria aguardar o
marido, que afinal a levou consigo. Recebeu-a Zeppa, com grandes demonstrações
de amizade e depois de fazer sinal à mulher para que fosse à cozinha, tomou a
outra pela mão e levou-a para o quarto cuja porta fechou com o ferrolho.
- Que significa isto? – perguntou a
visitante – Foi para isto que me convidou para almoçar? É esta, então, a amizade
que dedica a meu marido?
- Antes de se ofender, minha
senhora, - respondeu Zeppa, segurando-lhe a mão e aproximando-se do cofre –
queira ouvir o que lhe tenho para dizer, gostava muito de seu esposo como se
meu irmão fosse. Quanto à amizade que ele me devota, ignoro se é sincera; o que
sei, é que ela não o impede de dormir com minha mulher, como com a senhora.
Ontem mesmo o fez, quase às minhas vistas. Ora, justamente porque gosto dele é
que tenciono usar de represálias e limitar a isso toda a minha vingança. Assim
como ele possuiu minha esposa, é justo que eu possua a dele. É o mínimo que
posso exigir. Se me recusa esta satisfação informo-lhe que não me será difícil
surpreendê-lo e tratá-lo de um modo que nenhum dos dois haverá de apreciar.
A dama recusava-se a crer que o
marido lhe fosse infiel, mas Zeppa, relatou-lhe o que fizera para obter a
certeza. Essas particularidades acabaram por persuadi-la.
- Já que o senhor resolveu
vingar-se em mim, do ultraje do meu marido, estou disposta a consentir, mas sob
a condição de que farás as pazes com sua mulher; eu, por meu turno, perdoo de
bom grado o que ela me fez.
- Fique tranquila – replicou Zeppa
– encarrego-me de tudo e, comprometo-me a lhe ofertar uma das mais belas joias
que se possam ver. A seguir, pôs-se a beijá-la apaixonadamente, conduzindo-a
delicadamente para cima do cofre e ali a usou quanto tempo quis.
Spinelloccio, a que tudo ouvira,
sentiu tamanha cólera que julgou estourar de raiva e se o temor pelo
ressentimento de Zeppa não o detivesse, não haveria insulto que não dirigisse à
mulher, embora estivesse encerrado daquela forma. Considerando, porém, que o
ofensor era ele, e que o amigo apenas lhe retribuía cornos por cornos, decidiu ser
mais do que nunca seu amigo.
A vizinha, no entanto, descendo do
cofre, solicitou a joia prometida. Zeppa abrindo a porta do quarto, chamou a
mulher, que ao entrar, disse à visitante:
- Você me devolveu um pão por um
bolo.
- Minha mulher, - disse o marido
interrompendo-a – abre este cofre. – Depois, voltando-se para a vizinha
surpresa por ver ali o esposo, disse-lhe:
- Cá está, minha bela senhora, a
joia prometida.
Seria difícil dizer qual dos dois
teve maior vergonha, se Spinelloccio, que sabia de como acabavam de traí-lo, ou
se sua mulher, por ver que o marido ouvira tudo quanto ela dissera e fizera com
Zeppa. Saindo do cofre, disse Spinelloccio, sem entrar em explicações:
- Estamos quites, meu vizinho; e se
quiseres atender à minha sugestão, continuaremos bons amigos como dantes. Já
que a única coisa que nos faltava compartilhar eram nossas mulheres, sou de
opinião de que as tenhamos em comum.
Zeppa aceitou a oferta e os quatro
almoçaram juntos na mais perfeita união. Daí para diante, cada mulher teve dois
maridos e cada marido duas mulheres, sem que jamais houvesse entre eles a menor
desinteligência em torno do fato.
(CONTOS DE ALCOVA)
Compilados
por Yves Idílio
.................
GIOVANNI BOCCACCIO
“Quando Deus criou Giovanni, duplicou
a criação”.
Com estas simples palavras um crítico, certa
vez, definiu fielmente a vida e a obra de Boccaccio.
Tudo o que escreveu é vida, é
alegria e acima de tudo é gargalhada. Nada respeitou, nem religiões, nem
preconceitos, nem ideais, mas no fundo suas conclusões tinham um quê, ainda que
disfarçado, de moralismo, medroso e receoso...
Nada melhor para retratá-lo do que
suas próprias palavras referindo-se aos interesses comerciais da família que
ele deixava em completo abandono: - “Que meu pai trate disso: corre-lhe ouro
nas veias; nas minhas corre sangue”.
Com Rabelais, Boccaccio forma a dupla
máxima da sátira e do humor, quase que se poderia dizer referindo-nos às suas
obras, nesse gênero: Depois deles – O Dilúvio.
Com “VARIAÇÕES EM TORNO DA LEI DO
TALIÃO”, o “conteur” irreverente do ‘Decameron’, nos dá uma demonstração da sua
verve incomparável e do seu modo simplista e indiferente de acomodar as
coisas...
SANTO ROSÁRIO — Poderosa arma contra o demônio e seus sequazes
7 de outubro de 2020
Neste dia 7 de outubro celebramos a festa do Santo Rosário.
Essa festividade foi instituída pelo grande Papa São Pio V em ação de graças
pela vitória alcançada na batalha de Lepanto (1571) contra o poder maometano,
prestes a invadir a Europa.
“O Santo Rosário é a homenagem mais agradável à Mãe de Deus”
(Santo Afonso de Ligório)
.
“Nunca será considerado um bom cristão, quem não reza
o Santo Rosário”
(Santo Antônio Maria Claret)
.
“Rezar meu Rosário é minha doce ocupação e uma verdadeira
alegria, porque sei que enquanto o rezo estou falando com a mais amável e
generosa das mães”
(São Francisco de Sales)
.
“A devoção do Santo Rosário cotidiano defronta-se com
tantos e tais inimigos, que julgo uma das mais assinaladas mercês de Deus
perseverar na mesma até a morte”
(São Luís Grignion de Montfort)
.
“Amar a Senhora e rezar o Rosário, porque o Rosário é
a arma contra os males do mundo”
(São Pio de Pietrelcina)
.
“O Santo Rosário contém todo o mérito da oração vocal
e toda a virtude da oração mental”
(Santa Rosa de Lima)
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“Dai-me um exército que reze o Rosário, e eu vencerei
o mundo”
(Papa São Pio X)
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“O Rosário flagela o diabo”
(Papa Adriano VI)
https://www.abim.inf.br/santo-rosario-poderosa-arma-contra-o-demonio-e-seus-sequazes/
* * *
terça-feira, 6 de outubro de 2020
ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Onde estás? – Castro Alves
Onde Estás?
Castro Alves
É meia noite... e rugindo
Passa triste a ventania,
Como um verbo de desgraça,
Como um grito de agonia.
E eu digo ao vento, que passa
Por meus cabelos fugaz:
“Vento frio do deserto,
Onde ela está? Longe ou perto?”
Mas, como um hálito incerto,
Responde-me o eco ao longe:
“Oh! Minh’ alma, onde estás?...”
Vem! É tarde! Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono!...
‘Stá vazio o nosso leito...
‘Stá vazio o mundo inteiro,
E tu não queres qu’eu fique
Solitário nesta vida...
Mas por que tardas, querida?...
Já tenho esperado assaz...
Vem depressa, que eu deliro
Oh! minh’amante, onde estás?...
Estrela – na tempestade,
Rosa – nos ermos da vida;
Íris – do náufrago errante,
Ilusão – d’alma descrida!
Tu foste, mulher formosa!
Tu foste, ó filha do céu!...
... E hoje que o meu passado
Para sempre morto jaz...
Vendo finda a minha sorte,
Pergunto aos ventos do norte...
Oh! minh‘amante, onde estás?...
..................
ANTÔNIO DE CASTRO ALVES
* 14/04/1847 - +
06/07/1871
* * *
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
O “NOVO NORMAL”, MAIS UM PASSO PARA O CAOS? - Plinio Corrêa de Oliveira
5 de outubro de 2020
Plinio Corrêa de Oliveira
Como se faz a transição do regime de ordem para o regime de desordem? Como habituar as pessoas ao caos, à cacofonia, à decadência, sem que elas discordem e se revoltem?
Teria de ser feita pouco a pouco, uma lenta imersão na
desordem, mas vergando as pessoas e levando-as a degradar-se, a aceitar a
Revolução* do modo como os seus mentores a planejaram. Tais mentores estão
implantando assim a generalização gradual do caos, que chamam de “caos
harmônico”, habituando a humanidade a viver numa espécie de caos macio, mas que
vai desarticulando toda a civilização.
Na demolição que está sendo feita, tudo é contado, pesado e
medido implacavelmente, e transcorre sem perda de tempo, sem desviar-se do
objetivo planejado. Mesmo quando parece desvio, a execução do plano caminha
inexoravelmente. Assim é a situação atual dos acontecimentos.
O problema que se coloca para os promotores do caos é o
seguinte: quando as pessoas perceberão que estão sendo vítimas desse plano?
Quando despertarão, dispostas a empreender a reação?
Creio que haverá em dado momento da História uma grande
graça concedida pela Divina Providência. Nesse momento, muitos dos que agora
dormem acordarão, e saberão encontrar a verdade. Para Deus tudo é possível!
____________
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira em 28 de janeiro de 1989. Esta transcrição não passou pela revisão
do autor. A palavra “Revolução” é aqui empregada no sentido que lhe dá o
livro Revolução e Contra-Revolução.*
https://www.abim.inf.br/o-novo-normal-mais-um-passo-para-o-caos/
domingo, 4 de outubro de 2020
HOSPEDARIA DAS ESTRELAS – Dinah Silveira de Queirós
Caminhava-se através de pequeninas casas que se apoiavam umas às outras e em breve se chegava a um retiro de caravanas. Mas naquele dia, junto a uma aguada no centro, o número de forasteiros, que ali haviam chegado, era enorme. Faziam pequenos círculos nessa hospedaria a céu aberto, sob a luz das estrelas; muitos cantavam alto sua ascendência, no encarreiramento de nomes ressoantes, como se afiassem a língua para, no dia seguinte, diante de um copista e do rolo de pele de carneiro, tornarem presentes suas linhagens de Davi. Havia cameleiros encostados a enormes animais indormidos que bafejavam o ar com seu hálito quente. Burricos relinchavam; eram presos junto a seus donos, que se envolviam em mantos e tentavam dormir a céu aberto. Perto da entrada um velho solitário cruzava as pernas encostando-se ao muro e repetindo orações, imóvel e meio desfalecido. Agarrava-se às preces, quando soavam os gritos alegres das gentes nômades que ralhavam por motivos de cargas. Lá atrás, havia outros pequenos espaços murados, feitos de pedra mas também a céu aberto. Comprimiam-se pessoas ali dentro, sob mantos, carga humana mais rica. Estas divisões agora custavam bom dinheiro e quase só as mulheres as haviam ocupado, enquanto os maridos, irmãos ou pais ficavam lá foram no envolvimento daquela noite ruidosa, em que uns se roçavam a outros, em que seria possível até morrer, agonizando aos gritos, como poderia ser o fim do velho em preces, e talvez não houvesse ouvidos, pela grande confusão entre as vozes humanas e a dos animais, a chegada de novas carroças, a oferta orgulhosa de ricos comerciantes que tomavam as câmaras - se é que assim se podia dizer daquelas separações em pedra - para as suas famílias, no tinir da moeda mais cara.
Maria esperava, olhando com curiosidade ferida, todas as
vezes que o largo portão se abria, para aquela gente ali amontoada, cheirando à
banha de carneiro e acendendo suas pequeninas fogueiras nos quatro cantos dos
muros. Depressa voltou José amargurado, mas escondendo os cuidados:
- Se quiseres, encontramos algum lugar, lá no fundo, depois
dos cameleiros.
- Mas já vejo que para mim seria difícil.
Sim, José via que a face assustada de Maria agora parecia
anunciar para breve um acontecimento que não deveria ocorrer naquela promíscua
hospedaria a céu aberto. Lembrou-se de um seu parente que possuía duas casas,
Gessel. Uma delas ele a conservava sempre pronta para receber amigos ou alguém
da numerosa parentela. Era um mercador rico. Quando os cascos do burrinho
rasparam as pedras do pórtico e o relinchar alegre soou diante da casa, ele já
estava, o parente mercador, às voltas com um homem que exigia fosse hospedado
por uma noite, ali em sua mesma casa e, à guisa de pagamento, empurrava-lhe
desde já peças de cobre, panos de linho, murmurando agradecimentos antecipados
e consternando o dono da casa. Ele notou a chegada de José, deixou de lado o
mercador e sua face se abriu numa alegria intensa.
- Eis o filho pródigo que volta a Belém!... com outros.
Mas antes que pai José fizesse descer Maria, ele mesmo foi
afetuosamente saudá-la:
- Que bela esposa tu encontraste! Para nós, seria grande
orgulho tê-la em nossa casa; mas desde ontem fomos quase assaltados por pessoas
que nos forçaram a abrir a porta e lá estão apinhadas e tão prontas a trocar o
teto pela má palavra, que, estou pensando, vou dormir fora de casa pois a noite
está limpa.
Vendo o cansaço e a desolação de Maria, não teve senão uma
pequena oferta cortês para fazer-lhes:
- Dentro de quatro dias a cidade ficará vazia, e então serão
convidados para vir morar aqui ou na segunda casa, além desta ladeira. Ela é um
pouco retirada da cidade mas, livre de tantos malcheirosos, poderá ser até
agradável.
José agradeceu o oferecimento:
- Irmão, disse-lhe, carregando no tratamento: Ainda, quem
sabe, habitaremos tua casa, ofertada de boa vontade, pois creio que ficaremos
algum tempo mais em Belém.
Retornaram a andar, e o que se via agora eram pessoas
dormindo fora de casa, acampadas nos currais, ou então, como eles, vagando de
cima a baixo pelas vielas à procura de um lugar. De tempos em tempos, pai José
olhava Maria, assim percebendo sua ansiedade.
- Devias ter ficado em casa de teu pai.
Ela se fazia forte até mesmo sabendo que o nascimento não ia
demorar muito, pois o peso do menino parecia cada vez maior e conhecia que o
filho estava pronto a dela desprender-se. Pai José mediu as colinas e se
lembrou de quando menino bem se ocultava da chuva em cavernas abertas para
guardar ovelhas, em outras cavas que eram depósitos de mantimentos. Novamente o
burrinho, desta vez dificilmente tirado de uma touceira de ervas, foi
movimentado. As casas iam ficando para trás. Sentia-se vivo o odor das
plantações. Um pequeno caminho apareceu por entre os campos, onde os pastores
amedrontados com a quantidade de forasteiros e suas fomes vigiavam os rebanhos
e se chamavam pelas escuridões, tendo muito bem amarrado as ovelhas, com suas vozes
quentes e roucas, ou até troando pequenos sons que eram imediatamente
respondidos em flautas de ossos de animais.
- Não, vamos mais longe, mais longe... - pedia minha mãe.
Caminhavam agora na direção de uma gruta escondida. Esta
deveria estar lá, pai José bem o sentia: no alto dela havia um abrigo para
pastores, embaixo, lugar para as ovelhas.
O Senhor fosse louvado, lá estava ela, sim, completamente
vazia, tendo os pastores aproveitado a noite mais seca e a convivência de
outros, para juntos guardarem os rebanhos, em dias de tantos estrangeiros e
visitantes. Lá estava ela, como quando a conhecera e passava tardes vendo, de
sua altura, o céu corar e a noite acender as estrelas. Lá estava ela, bendito
fosse o Senhor: o lugar onde Maria podia, sem ser ferida por aquela gente
ruidosa, em seu acanhamento, tomar o descanso de uma noite, enquanto ele
providenciaria hospedagem própria.
Na primeira parte da caverna havia a manjedoura e palhas no
chão; em cima, mais alguns passos na rocha, e eles poderiam deitar-se e esperar
o dia, para que pai José se inscrevesse e obtivesse o lugar desejado. Mas
enquanto José dormia, na parte alta da gruta, Maria deslizava e, acendendo um
archote que haviam trazido, iluminava o pequeno cocho; tomou do chão as palhas,
cobriu-o e escorregou mansamente ao lado dele, o archote iluminando seu rosto
angustiado. Principiou a chorar baixinho. "É assim que tu vens, Senhor meu
filho?"
O tempo se havia cumprido.
Lá bem longe, o canto dos pastores vindo ao vento, chamava
uns aos outros. Então eu gritei à Vida. Eu me havia separado da doçura e da
bondade do seio de minha mãe e gritava e chorava, uma criança ferida pela
aspereza de viver, porque o ar dói em nosso peito e começar a vida será sempre,
para todos os pequenos, também começar a gritar, chorar muito diante do
desconforto: as criancinhas logo sabem de sua dor e de sua áspera condição. Eu
gritava todo o choro, eu clamava como clamam os bem pequeninos. Maria cuidava
de mim. Tirava de seu ombro o manto de linho, enrolava-me nele. "E tu,
Belém Efrata?"
(Memorial de Cristo I, Eu venho, 1977.)
https://www.academia.org.br/academicos/dinah-silveira-de-queiroz/textos-escolhidos
.................
Dinah Silveira de Queiroz - Sétima ocupante da Cadeira 7 da ABL, eleita em 10 de julho de 1980, na sucessão de Pontes de Miranda e recebida pelo Acadêmico Raymundo Magalhães Júnior em 7 de abril de 1981.
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