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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

ABL: 200 ANOS DE CLARA SCHUMANN


Embora a educação musical no século XVIII fosse bem-vista pela sociedade, a mulher que exercesse profissionalmente uma atividade musical não era aceita facilmente por seus familiares. É nesse cenário que Clara Schumann consegue se destacar, apesar de todas as dificuldades impostas pela sociedade da época.

Clara Schumann, nascida Clara Josephine Wieck em 13 de setembro de 1819, recebeu desde cedo uma sólida educação musical de seu pai. Ainda na infância realizou o seu primeiro recital público e, muito cedo, conseguiu grande destaque na Europa. Durante suas aulas com o pai, Clara conheceu Robert Schumman, que viria a ser o seu esposo após uma verdadeira batalha judicial com seu pai, que não era favorável à união do casal.

Aos 21 anos casou-se com Robert Schumann e adotou seu sobrenome. Ao longo da vida, abdicou de sua carreira profissional e colocou-se em segundo plano para cuidar de seu marido e dos oito filhos. Apenas após a doença e a morte precoce de seu esposo, aos 46 anos, pôde exercer plenamente seus talentos e assim prover o sustento da família. É nessa perspectiva que se destaca a trajetória de Clara Schumann, que será homenageada na Academia Brasileira de Letras pelo London Music Club Piano Quartet para celebrar os 200 anos de seu nascimento.

O quarteto

O London Music Club Piano Quartet foi fundado em 1940 pela pianista Adela Hamilton Armstrong, em Holland Park, um lugar onde os músicos são livres para tocar em diversos momentos do dia ou da noite. Passaram por lá muitos estudantes e músicos renomados, entre eles Martha Argerich, Stephen Bishop, Fou T’Song, Desmund Bradley, entre outros.

Na década de 1970 os músicos do grupo também residiam no London Music Club e lá ensaiavam seus concertos de música de câmara.

Historicamente o conjunto é composto de artistas diferenciados. Nos últimos 15 anos, o grupo tem realizado concertos nas Américas do Norte e do Sul, e também na Europa. Beethoven, Brahms, Mendelssohn, Mozart e Schumann compõem seu repertório.

Com grandes nomes da música clássica reunidos em um concerto, como Lorna Griffit (piano), Haroutune Bedelian (violino), Russel Guyver (viola) e David Chew (cello), o London Music Club Piano Quartet faz sucesso ao redor do mundo, levando multidões às suas apresentações.

A homenagem

O London Music Club Piano Quartet está em turnê pela Europa, passando por mais de dez países e 30 cidades, e irá se apresentar na cidade do Rio de Janeiro, no Teatro R. Magalhães Jr. localizado na Academia Brasileira de Letras, Av. Presidente Wilson, 203 – Castelo. O evento acontecerá no dia 13 de agosto de 2019 às 12h30 e será transmitido ao vivo a partir das 12h20. A entrada é franca. Faça sua inscrição!

Programa
Partita de Bach com arranjo de R. Schuman (primeira audição latino-americana)
3 Romances de Clara Schumann Op.22
Brahms Piano Quartet em Sol menor Op.25


INSCRIÇÕES
Garanta sua participação gratuita para esse concerto exclusivo. Lugares limitados.



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UMA AMIZADE ANTIGA – Cyro de Mattos


Uma Amizade Antiga
Cyro de Mattos 


            O livro é esse amigo que nos acompanha há séculos, possibilitando o crescimento interior. Conhecemos outras vozes do mundo com esse amigo. Inauguramos a vida com novos olhares, superamos vícios e medos. Sabemos de casos que divertem, viajamos por terras nunca conhecidas. Damos voo à razão através da linguagem que usa para cada tipo de leitor. Um de seus milagres consiste em tornar leve todo o peso terrestre feito de solidões, angústias e perdas. Sua amizade não trilha os caminhos do interesse, transpira sinceridade. Com ele aprendemos que só talento não basta para quem quiser se tornar um filósofo, cientista ou poeta. É necessário o hábito da leitura. Esse amigo está pronto para dizer que, vivendo na sua companhia, a vida fica mais fácil. Matamos até a morte.
 
            Gosta de se mostrar nas livrarias. O lugar mais digno para acomodá-lo em nossa casa é a biblioteca. Quem não tem poder aquisitivo para adquiri-lo, pode achá-lo em uma   biblioteca pública. Lá está nas prateleiras o amigo solidário, esperando nossa visita para uma conversa útil. Mostra muitas coisas numa cumplicidade que informa, dá prazer, encanta. Faz aparecer paisagens impossíveis, que vão entrando na medida em que uma página puxa a outra.

            Livro xilografado, impresso com pranchas de madeira gravadas. Em rolos de papiro e também de pergaminho, no Egito. Nas telas de seda da China. Recolhido em manuscritos, no trabalho paciente e anônimo dos bibliotecários de Alexandria. Livro da sabedoria, do Antigo Testamento. Filosófico, científico e literário. Repositório do pensamento humano, dos povos para os povos, de geração em geração, com seus rumores milenares.

            Vem contribuindo para que o mundo mantenha portas e janelas abertas, o sol acenda manhãs, o vento sopre momentos que somam. Das formas primitivas às técnicas de editoração moderna, com esse amigo, como o braço ao abraço, os seres humanos aprendem que os dias de exercitar a existência e conhecer o outro ficam menos falhos.

            O padre Antônio Vieira disse certa vez que “o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que via, um morto que vive.”  Acho que a fala da nossa maior figura da oratória sacra combina com o que eu li num para-choque de caminhão: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.”  Verdade. Hoje, na minha terceira idade, reli O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry, a seguir O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Saí depois para a vida rejuvenescido.

            De cabeceira ou de bolso, o livro é esse fiel amigo por vias e arredios, capaz de dizer silêncios por meio dos sinais visíveis da escrita.

            Fiquei certa vez abatido por conta da afeição que nutro por esse amigo. Quando morei na fazenda São Bernardo, nas imediações de Ferradas, chão onde nasceu o romancista do mundo Jorge Amado e o poeta Telmo Padilha, os   livros que trouxe do Rio de Janeiro ficaram encaixotados até que pudesse comprar uma estante digna de recebê-los. E, numa noite sem estrelas, a chuva caiu pesada na terra centenária.  O telhado velho da pequena casa não suportou o volume da água que corria por entre as calhas.  Em pouco tempo, poças d’água formaram-se em vários cantos da casa por causa das goteiras.

            No outro dia, encontrei molhados os caixões que guardavam velhos amigos. Lembro que apressado fui retirando do primeiro caixão  Além dos Marimbus,  de Herberto Sales, Uma Vida em Segredo, de Autran Dourado”, Poesias, de Manuel Bandeira, O Salto do Cavalo Cobridor, de Assis Brasil, Fábulas, de La Fontaine, Dom Quixote, de Cervantes,  Timeless Stories for Today and Tomorrow, de Ray Bradbury, Hamlet, de Faulkner, The Grass Harp, de Truman Capote,  A Metamorfose, de Kafka, O Muro, de Sartre, e A Moveable Feast, de Ernest Hemingway. Foram os livros mais atingidos pela chuva que  caíra  naquela noite cortada por relâmpago e trovoada. Páginas manchadas, letras borradas, capas danificadas. Ainda tentei salvá-los, espalhando-os abertos no passeio para que fossem aquecidos pelos raios de um sol tímido.

            Aqueles livros haviam sido adquiridos com o dinheiro da mesada que o pai mandava para o moço do interior na Capital, onde cursava a Faculdade de Direito. Outros foram comprados nos meus anos de jornalista no Rio de Janeiro. Meu coração sentia um tremor quando descobria um desses amigos na vitrina, balcão ou prateleira de livraria, acenando-me para que fosse adquiri-lo.

            À noite peguei no sono como um herói inútil. Acordei deprimido no outro dia. Aqueles que não consegui salvar tinham me ofertado ricos momentos de leitura, horas de sonho e palavras de amor varando as madrugadas. Madrugadas do homem solitário, que, no silêncio da noite, lograva extrair sentidos da vida com aqueles companheiros especiais. Jamais esqueci isso.

 
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, França, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e de Ilhéus. Comendador da Ordem do Mérito do Governo da Bahia


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domingo, 11 de agosto de 2019

FELIZ DIA DOS PAIS 2019



Eglê S Machado
Academia Grapiúna de Letras - AGRAL
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11 DE AGOSTO: Santa Clara de Assis


“Clara de nome, mais clara de vida e claríssima de virtudes!” Neste dia, celebramos a memória da jovem inteligente e bela que se tornou a ‘dama pobre’.

Santa Clara nasceu em Assis (Itália), no ano de 1193, e o interessante é que seu nome vem de uma inspiração dada a sua fervorosa mãe, a qual [inspiração] lhe revelou que a filha haveria de iluminar o mundo com sua santidade.

Pertencente a uma nobre família, destacou-se desde cedo pela sua caridade e respeito para com os pequenos, por isso, ao deparar com a pobreza evangélica vivida por Francisco de Assis apaixonou-se por esse estilo de vida.

Em 1212, quando tinha apenas dezoito anos, a jovem abandonou o seu lar para seguir Jesus mais radicalmente. Para isso foi ao encontro de Francisco de Assis na Porciúncula e teve seus lindos cabelos cortados como sinal de entrega total ao Cristo pobre, casto e obediente. Ao se dirigir para a igreja de São Damião, Clara – juntamente com outras moças – deu início à Ordem, contemplativa e feminina, da Família Franciscana (Clarissas), da qual se tornou mãe e modelo, principalmente no longo tempo de enfermidade, período em que permaneceu em paz e totalmente resignada à vontade divina.

Nada podendo contra sua fé na Eucaristia, pôde ainda se levantar para expulsar – com o Santíssimo Sacramento – os mouros (homens violentos que desejavam invadir o Convento em Assis) e assistir, um ano antes de sua morte em 1253, a Celebração da Eucaristia, sem precisar sair de seu leito. Por essa razão é que a santa de hoje é aclamada como a “Patrona da Televisão”.

Santa Clara, rogai por nós!



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PAI SÓ MERECE UM DIA? - Antonio Nunes de Souza


A instituição comercial criou e, tranquilamente, todo povo aprovou. Pois, já que se comemora os dias das mães, avós, crianças, sogras, tias, etc., nada mais justo que comemorar regiamente o dia dos pais!

Mas, será que é justificado uma homenagem de um dia dedicado aos pais?

Sinceramente, creio que não!

Pois, sem nenhuma dúvida, a figura do pai deveria ser doutrinada, apaixonadamente, todos os dias do ano. E não pensem que estou exagerando!

Os pais, na sua avassaladora maioria, lutam bravamente nos seus trabalhos, voltando-se completamente para dar um bem estar, não só aos filhos, como a toda família!

Logicamente, esse comportamento é mais que digno que, os seus dias, sejam os trezentos e sessenta e cinco do ano!

De modo algum estou “puxando a brasa para minha sardinha”, já que sou pai de dois maravilhosos filhos. Estou apenas fazendo umas observações justas e cabíveis aos, normalmente, provedores do lar. Muito embora, graças a Deus, as mulheres passaram a trabalhar em todas as profissões e, com isso, muitas estão dividindo essa tarefa terrível da manutenção caseira e educacional!

Mas, obedecendo a tradição do comércio, sigo religiosamente, a doutrina impingida de dar meus parabéns para esses heróis no dia determinado!

Parabéns para todos os pais que cumprem as suas obrigações familiares, e preocupam-se com a educação dos seus queridos filhos. Certamente Deus os compensará!


Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras - AGRAL


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (143)


19º Domingo do Tempo Comum – 11/08/2019

 Anúncio do Evangelho (Lc 12,32-48)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino. Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.
Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar e bater.
Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando chegar. Em verdade eu vos digo: Ele mesmo vai cingir-se, fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá. E caso ele chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão, se assim os encontrar!
Mas ficai certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que arrombasse a sua casa. Vós também, ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes”.
Então Pedro disse: “Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos?”
E o Senhor respondeu: “Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor vai colocar à frente do pessoal de sua casa para dar comida a todos na hora certa? Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim! Em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens. Porém, se aquele empregado pensar: ‘Meu patrão está demorando’, e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis. Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. Porém, o empregado que não conhecia essa vontade e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!”

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:

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Esperas construtivas

“Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento...” (Lc 12,36) 

O texto do evangelho deste domingo faz parte de um amplo contexto, que começou no domingo passado com a petição de alguém a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. A partir daí, Lucas revela uma longa conversação de Jesus com os discípulos e toca diversos temas de difícil harmonização. Naturalmente se trata de pensamentos dispersos que o evangelista organiza à sua maneira para ir aclarando as exigências de Jesus, na formação do seu discipulado.

No domingo passado, Jesus nos pedia para não colocar nossa confiança nas riquezas; hoje, Ele nos diz em quem devemos confiar para que nossa vida seja autêntica. Confiadamente, é preciso ativar todos os recursos de nosso ser, conscientes que Deus atua em nosso interior, e que só através da sintonia com essa presença interna nossa vida avança, amadurece e se plenifica. Nosso Deus não é o “Deus todo-poderoso” distante, mas o fundamento de nossa vida: afinal, somos morada do Deus sempre surpreendente.

A condição humana pode ser definida em termos de “espera radical”. O nosso coração está habitado por “esperas” de todo gênero. São tantas as esperas na vida humana! Está todo mundo esperando. É através das esperas que nos fazemos humanos. Somos feitos disso: desejo, súplica, anseio, abertura, busca, esperança... A espera está ligada ao verbo “esperançar”: espera ativa, aberta ao futuro imprevisível, ao novo plenificante...; ela cria o espaço vital que permite a realização do possível.

Quem espera faz-se disponível, acolhedor, abre espaço para o mistério do outro que lhe vem ao encontro; quem espera, acolhe o diferente. Os intolerantes e preconceituosos não esperam nada: amargam a vida no fechamento, no dogmatismo e no moralismo.

Esperar é passar do “tempo fechado” ao “tempo aberto”, da fugacidade do “ter” à plenitude do “ser”, do “lugar estreito” ao “lugar amplo”, do “medo paralisante” à “coragem criativa”... Durante a espera, a imaginação trabalha e cria mil momentos insuperavelmente felizes. E quando acontece o encontro entre o desejo e a realização, entre a espera e o esperado, entre o vazio e aquilo que plenifica, explode uma alegria incontida. Uma mistura de festa com ternura e boas emoções   solidificam esta certeza: valeu a pena esperar!

A vida que é feita de tantas esperas, também é “esperada”. Somos continuamente tentados a pensar que somente nós esperamos e esquecer que também Deus nos espera. A espera divina é paciente, compreensiva e compassiva.

Em nossas esperas, somos ansiosos e impacientes; fazemos da espera um tempo “em branco”, vivendo como se nada estivesse para acontecer, mergulhados no tempo rotineiro, sem abertura à surpresa.

Não sabemos esperar: basta ir às salas de esperas dos hospitais e consultórios para comprovar como as pessoas se desesperam porque não lhe atendem à hora marcada. Perdemos a paciência porque pretendemos que tudo seja imediato e a nosso gosto. Não suportamos uma contradição.

O evangelho deste domingo pode ser uma boa oportunidade para recordar isto. Exercitar-se na arte de esperar com paciência. Desejar, dar asas à imaginação sobre aquele que vai chegar, sem que esteja em nossa mão adiantar ou controlar sua chegada. Deus, pelo contrário, nos espera incansavelmente. Por isso se “humanizou”. Não nos esperou com prepotência, tampouco com soberba. Esperou na humildade, no húmus da vida, afundando os pés na nossa existência.

Mas Deus não precisa vir de nenhuma parte. Ele está chamando sempre, mas a partir de dentro de cada um de nós; é a partir de dentro que Ele se faz visível em nossas relações com os outros.

Somos nós que projetamos Deus fora e distante de nós, que nos ameaça com prêmios e castigos, que aparece de surpresa para nos pegar em flagra. O medo de Deus brota quando o imaginamos fora de nós. “Deus de fora” é o Deus idealizado, que alimenta medo, ameaça com inferno, que castiga.

No evangelho deste domingo (19º Tempo Comum), Jesus revela “Deus em saída” até o ser humano e desvela o ser humano em saída até Deus. E o encontro entre ambos é o que o Evangelho propõe. O encontro de pessoas que se esperavam: como nos aeroportos-rodoviárias, desejando a chegada do(a) amigo(a); ou nas salas de urgências dos hospitais desejando saber a situação do enfermo familiar. Essas são esperas autênticas: desejantes, emocionantes, inocentes... porque esperam uma pessoa. Essa deve ser a disposição de uma “Igreja em saída” e que não aguarda em uma sala de espera.

O decisivo é entrar em sintonia com o Deus presente em nós; “esperar” significa estar desperto para conectar-nos com essa presença, sempre nova e sempre cheia de surpresa. Deus, ao mesmo tempo, está sempre presente e sempre chegando de maneira surpreendente. Ele é dom e pura gratuidade. Aqui não há mais lugar para o medo, a culpa, a angústia. Quem entra em sintonia com Ele e se deixa conduzir por Ele não atua por mérito, mas por pura gratuidade.

O evangelho de hoje, através de parábolas, nos apresenta alguém que não vive a relação com Deus internamente. O que acontece com ele? As consequências são funestas, provocadas não por Deus, mas pela pessoa mesma: irresponsabilidade no serviço, violência com os outros, autoagressão, partindo-se ao meio... Uma experiência infernal.

Um cristão é uma pessoa que vive em “estado de espera”.

O importante é isto, o “estado”, o processo, a continuidade, o estar sempre a tempo, sempre alerta, sempre preparado. A vida inteira se converte numa contínua espera: o equilíbrio, o contato, a liberdade, a generosidade, cada nervo sintonizado, cada músculo em forma. E assim entramos na vida e enfrentamos mil situações.

Cada pequeno encontro é uma satisfação em si mesma e uma preparação para a seguinte. Sempre avante. Avanço que pode ser mudado de direção a cada instante.

“Não morras na sala de espera” (Hervey Cox). As “salas de espera do espírito” estão cheias de pessoas que simplesmente estão ali, ali moram e permanecem, ali vivem e morrem. O fato de já estar na “sala de espera” lhes dá a impressão de que já fizeram alguma coisa, já começaram a viagem.

As esperas têm rosto de criatividade, de itinerância, de abertura ao diferente. Elas põem em ação nossos melhores recursos internos; elas alimentam uma contínua atitude de busca.

Só assim o coração estará mais preparado para a chegada do Momento cume, quando deixaremos “Deus ser Deus” na nossa morada interior.

Texto bíblico:  Lc 12,32-48

Na oração: Você é um impaciente? Não suporta esperar a fila no cinema? Fica nervoso quando o ônibus atrasa mais de cinco minutos? Espera que lhe respondam as mensagens de Whatsapp em questão de segundos? Ou quando alguém chega um pouco atrasado no encontro marcado?...

E, no entanto, você sabe que o importante requer seu tempo, que os bons pratos são cozidos a fogo lento.

A paciência não é uma palavra da moda hoje em dia. E talvez por isso é das mais necessárias. A paciência supõe esperar e respeitar os tempos. Supõe desejar a chegada do outro e não ter mais que fazer a não ser esperar. Desejar e esperar.

- Como você vive suas “esperas cotidianas?”

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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sábado, 10 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – o robe de ouro


Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
(Rio de Janeiro, 1977 – o robe de ouro)


            Chega-se ao fim de uma batalha que durou oitenta anos, tantos quantos os da Academia*: as mulheres de agora em diante poderão se candidatar às vagas, ganhar a eleição, vestir o fardão com o peitoril de ouro. Como será o fardão das damas? Robe verde, pano de bilhar, ourama no parapeito, desenhado por Austregésilo**. Apesar da ameaça do robe, apoio com alvoroço a luta pela entrada das literatas, voto a favor da proposição de Osvaldo Orico***.

            Essa história de exclusão das mulheres dos quadros acadêmicos foi umas das salafrarices cometidas por Machado de Assis quando fundou a chamada Ilustre Companhia, não foi a única, sujeitinho mais salafrário nosso venerado mestre do romance.  Custou-lhe esforço chegar a branco e a expoente das classes dominantes, mas tendo lá chegado não abriu mão de nada a que tinha direito, culminou a carreira bem-sucedida de burocrata com a fundação da Academia: até hoje a preside, entronizado de sobrecasaca no pátio de entrada do Petit Trianon. Crítico entre amável e sarcástico da burguesia brasileira da época, da classe média alta, o mestre romancista; sustentáculo de seus privilégios e preconceitos, o cidadão Joaquim Maria Machado de Assis, marido de dona Carolina, casou-se com portuguesa.

            Estabeleceu ele próprio a relação dos fundadores, inscreveu os vetos. Nem boêmios - Emilio de Menezes ****só pôde ser eleito após a morte de Machado -, nem mulheres. Na época havia uma escritora de renome estabelecido - e merecido, vale a pena ler seus romances, Júlia Lopes de Almeida *****, impossível passá-la para trás, se ela protestasse seria o escândalo, como fazer para não colocá-la entre os quarenta ilustre titulares? Machado, o manipulador, deu a volta por cima, encontrou como impor o machismo. Barganhou com dona Júlia: ela ficava de fora, mas em troca ficaria de dentro, acadêmico de número, o marido dela, Filinto d'Almeida, escrevinhador de pouca valia. A romancista achou, com a razão, que o consorte precisava bem mais que ela dos bordados da Academia, cedeu-lhe a cadeira, a ela bastavam os romances. Com o quê Machado fechou de vez as portas do silogeu às saias femininas. Nem mulheres nem boêmios, mas teve vaga para jovem de vinte anos, quase inédito, Magalhães de Azeredo, dele se conhecia apenas páginas de louvor, aliás justo, aos livros do fundador da instituição. Também vem de Machado a tradição das cadeiras reservadas aos candidatos das diversas categorias do poder, cadeiras cativas do Exército, da Igreja, do Judiciário, das letras médicas: a tradição dos expoentes perdura ainda hoje. Escritores, uns poucos e nem sempre os melhores. Deixa pra lá.

            Certa quinta-feira, dia de sessão, na sala do chá testemunhei ácido debate entre Luiz Viana Filho e Magalhães Júnior a propósito de Rui Barbosa, alvo da crítica do rebarbativo Raymundo. A memória dos grandes homens, exemplo para a juventude, deve estar acima de qualquer restrição, branca de leite, limpa e polida de qualquer defeito, impoluta para a admiração da posteridade, arengava Luiz. Viu-me parado a escutar, olhou-me com o rabo do olho, sorriu-me, mas, político habilíssimo, não pediu minha opinião. O cidadão Machado de Assis, não o romancista, muito tem se beneficiado com a tese da memória pulcra dos grandes mortos.

            Na votação da proposta o que abriu as portas da Academia às mulheres, Hermes Lima surpreendeu-me: voto contra. Vendo  meu espanto, explica-me: isso aqui não passa de um clube de homens, Jorge, no dia em que entrar mulher nem isso mais será: nossa paz se terminará, a fofoca substituirá a convivência.

            Um jornal faz uma enquete às vésperas da decisão, pergunta qual das nossas beletristas (!) deve ser a primeira a envergar o fardão – perdão, o robe. Em minha opinião, digo ao repórter, nenhuma das nossas confrades merece mais a consagração, os pechisbeques (!) da Academia do que a poetisa - naquele tempo dizia-se poetisa, hoje poetisa é xingo  - Gilka Machado, figura singular em nossa literatura. Poetou sobre o desejo da mulher, a tesão pelo homem, o amor sem peias quando as outras reservaram o coito para os confessionários das igrejas: ousou quando a ousadia significava discriminação, repulsa, abjeção. Sugeri que as prováveis candidatas assinassem manifesto propondo aos acadêmicos o nome de Gilka Machado: mais que outra qualquer merece ser a primeira mulher a ingressar no fatal cenáculo. A sugestão caiu no vazio das vaidades, tampouco eu acreditava fosse avante, sou ingênuo, mas não tanto. As impacientes andavam pelos alfaiates, de figurino em punho, estudando o robe: ainda mais solene e triste do que o fardão.

*Academia Brasileira de Letras

**Austregésilo de Athayde, Presidente da ABL
***Osvaldo Orico (1901/1981), escritor
****Emílio de Menezes (1866/1918), poeta
*****Júlia Lopes de Almeida (1862/1934), romancista


Jorge Amado
(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)

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(Rio de Janeiro, 1968 – os mabaças)

            O filme de Fernando Sabino e David Neves, A Casa do Rio Vermelho, um dos doze documentários que a dupla dedicou a escritores brasileiros, tem vinte minutos de duração dos quais os senhores Carybé e Dorival Caymmi desperdiçam uns seis ou sete a dizer mal de mim, o mocinho da película.           

            Fernando e David foram à Bahia para a filmagem, os dois figurantes não estavam, exibiram-se depois, no Rio. Disseram horrores, que eu fazia e acontecia, inventada e produzia, pintava o diabo, amarrava o bode, criticaram-me as bengalas, os bonés e o bigode, as camisas coloridas, as bermudas, as sandálias.

           Assisto o filme, vejo os dois compadres fazendo minha caveira, no entanto sou o terceiro a formar com eles a trinca dos doutores do povo da Bahia, três obás de Xangô, senhores respeitáveis. Meus dois mabaças, Caymmi e Carybé, não merecem confiança, não são pessoas sérias, línguas de trapo, corações de ouro, a voz e a face da Bahia.

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.



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