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domingo, 12 de dezembro de 2021

AMOR MATERNO – Eduardo Chaves



Amor Materno

Eduardo Chaves

 

Ele passava as noites na taverna,

Tonto de vinho, tonto de fumaça,

E pelo leito da mulher devassa

Trocara a santa habitação materna.

 

Desde que moço se fizera, eterna

Angústia aquela que o gerou traspassa.

Enfurecia quando às vezes terna

Apontava-lhe a mãe sua desgraça.

 

Morre... O povo da aldeia reunido

Discute a sua vida. “Era um perdido”

Quando este exclama; aquele “um maltrapilho,

 

Um jogador, repete” ... A mãe, no entanto,

Ante o esquife soluça toda em pranto:

“Filho! Meu filho! Meu querido filho!”

 

...............

Eduardo da Silva Chaves, apreciado poeta paulista, nascido em Bananal em 09/11/1863 e falecido na capital paulistana em 16/01/1899. Editou grande parte de suas poesias em jornais e revistas.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (249)



3º Domingo do Advento, 12/12/2021


Anúncio do Evangelho (Lc 3,10-18)

 — O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós!

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, as multidões perguntavam a João: “Que devemos fazer?” João respondia: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” Foram também para o batismo cobradores de impostos, e perguntaram a João: “Mestre, que devemos fazer?”

João respondeu: “Não cobreis mais do que foi estabelecido”. Havia também soldados que perguntavam: “E nós, que devemos fazer?”

João respondia: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!”

O povo estava na expectativa e todos perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias. Por isso, João declarou a todos: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”.

E ainda de muitos outros modos, João anunciava ao povo a Boa Nova.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do padre Roger Araújo:


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Advento: despertar "entranhas solidárias"

 


“Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo” (Lc 3,11)

 

Advento e Natal nos situam no clima das grandes esperanças da humanidade; neste dezembro mágico nosso coração caminha mais rápido, rompe o tempo, já está lá na frente, pronto para acolher a surpresa.

Tudo aponta para o Eterno que nos escapa e nos encontra. Aqui a imaginação trabalha e cria momentos felizes. Com essa esperança, podemos dar sabor à nossa vida, muitas vezes modesta e simples.

esperança não é só uma virtude teologal, mas uma habilidade que temos de exercitar; podemos aprender a ter esperança, e esta destreza nos faz mais humanos e mais fortes diante das adversidades da vida.

Quem vive o clima do Advento não é prisioneiro da “cotidianidade”; toda a nossa vida se transforma na história de uma espera e de um encontro surpreendente. Nessa espera vislumbramos detalhes decisivos: a vivência da ternura, a reinvenção da vida em cada amanhecer, a gratuidade amorosa, a alegria descontrolada, o despertar de sonhos... Espera-se Jesus vivendo os valores que Ele encarnou: a sintonia com os pobres, o coração dilatado no serviço, o cuidado terapêutico, a ajuda gratuita...

Nessa atitude de espera o cristão pode dar sabor à sua vida: nos pequenos gestos ela floresce e aponta para um sentido novo

“O povo estava na expectativa...”: uma bonita maneira de indicar uma atitude positiva de espera diante de João Batista que, sob o impulso da Palavra brotada no deserto, tocou o coração de muitos.

De fato, João Batista é um personagem instigante e provocativo; muitas pessoas, impactadas pelo seu modo de falar, vão até ele para escutá-lo. João não fala do cumprimento minucioso das normas legais ou dos ritos religiosos. Em nenhum caso faz alusão a uma nova religião, que exigisse um culto diferente, e sim a uma nova forma de viver que dá sentido à própria existência e desperta um modo de proceder para que a relação com os demais seja realmente fraterna, carregada de respeito, de cuidado, de partilha.

O chamado de João à conversão e seu apelo a uma vida mais fiel a Deus despertou em muitas pessoas uma pergunta concreta: “Que devemos fazer?”.  Com algumas pinceladas João reforça a necessidade de mudar a maneira de pensar e de agir; isto é, ativar o que já está presente em nosso coração: o desejo de uma vida mais justa, digna e fraterna.

Todas as propostas que João Batista faz estão direcionadas a melhorar a convivência humana. Percebe-se uma maior preocupação por tornar mais humanas as mútuas relações, superando toda atitude egocentrada.

De fato, uma religiosidade que não se alarga em direção aos outros não é a religiosidade que Deus deseja. Aqui não se trata propriamente de fazer coisas nem de assumir deveres, mas ser de outra maneira, viver de forma mais humana; em outras palavras, a partir do centro de cada um, despertar aquilo que é o mais verdadeiramente humano, para que flua humanidade em todas as direções. Que todo o nosso ser se mova na perspectiva do amor oblativo, que se expressa em “entranhas solidárias”.

João Batista é mais um personagem de Advento; tudo estava tranquilo até que ele apareceu no deserto. Sua pregação sacudiu as consciências, fazendo reacender o espírito solidário que estava atrofiado no coração de todos: a multidão, os publicanos, os soldados... Segundo a definição do Papa Francisco “a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde” (EG 189). A solidariedade é uma decisão, carregada de afeto. A razão, por si mesma não nos leva a ela. É uma decisão pessoal, cordial, livre, voluntária...

A solidariedade é espontânea, não se impõe a partir de cima, senão que supõe uma predisposição favorável ao encontro com o outro, deixando-nos afetar cordialmente pela realidade de quem sofre. A solidariedade nasce da gratuidade e nos faz mover em direção dos outros, sobretudo dos excluídos, daqueles privados de sua dignidade humana.

O encontro com o “outro” marginalizado dá um “toque” especial à nossa espiritualidade e nossa espiritualidade faz nossa ação mais radical – mais enraizada em si mesma e vai mais fundo nas raízes da injustiça. Aproximar-nos do “pobre” e deixar-nos “afetar” pelo seu sofrimento torna-se a maior fonte de nossa espiritualidade. Suas “fraquezas” suscitam em nós o melhor de nós mesmos e, ao nos envolver afetivamente em sua vida, faz com que vivamos um misto de ternura e indignação a que chamamos compaixão.

A solidariedade nos leva a reconhecer no outro (sobretudo o outro que é excluído, marginalizado...) uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação; ela gera protagonismo e nunca dependência; compartilha sem humilhar; cria humanidade em seu entorno, com generosidade, humildade e silêncio; supera todo exibicionismo, sentimentalismo ou instrumentalização do outro.

Sabemos que há uma profunda afinidade entre “sólido” e “solidário”; ambas as palavras, etimológicamente, procedem da expressão latina “solidus”. Diz-se “sólido” em virtude de sua firmeza, densidade, fortaleza ou por ser aquilo que se estabelece com razões fundamentais e verdadeiras; a pessoa “solidária” é aquela que encarna tais virtudes. Há um “plus” maior quando essa pessoa vive a fé cristã. Porque, uma fé ausente de solidariedade carece de coerência e sentido; não é firme e não tem a suficiente densidade para suportar as incompreensões daqueles que não estão em sintonia com suas atitudes solidárias.

Portanto, solidariedade é uma “questão de entranhas”, ou seja, encontrar, experiencial e vitalmente, os “outros” excluídos e despojados de tudo, e sentir-se tocado, afetado pela imensa dor que marca a vida de tantos. A partir daqui o rosto da pessoa solidária é modelado pela compaixão e gratuidade.

A “solidariedade compassiva”, que brota do “patire cum” ou compadecer-nos diante da dor e da miséria do outro, devolve a todos nós a imagem de seres humanos. A solidariedade nos humaniza.

Trata-se aqui de viver a cultura da solidariedade, entendida evangelicamente, que forja nosso ser e nosso fazer no manancial que brota da compaixão e se desenvolve realizando a justiça.

A solidariedade que nasce da compaixão não acaba nela mesma, mas leva a reconhecer no outro uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação. 

Isto pede de nós uma atitude de abertura ao outro, o que implica colocar-nos em seu lugar, deixar-nos questionar e desinstalar por ele... Importa, pois, redescobrir com urgência a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida...; não uma solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de serviço no dia-a-dia.

Só assim o tempo Advento deixará transparecer seu sentido mais profundo. Deus, ao entrar na história, se faz solidário com a humanidade, salvando-a. O rosto solidário de Deus se visibilizará em cada um de nós quando entramos no fluxo do Seu amor descendente e comprometido. 

Texto bíblico: Lc. 3,10-18

Na oração: A originalidade do Advento está em “alargar” o espaço interior para que os outros encontrem lugar. A atitude da partilha, da solidariedade e do compromisso com os últimos são expressões deste Tempo tão nobre e inspirador.

* Na sua vivência cristã, como responder frente ao chamado tão simples e tão humano de João Batista?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2469-advento-despertar-entranhas-solidarias

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Bolsonaro faz ‘pedido especial’ aos cidadãos e recomenda vídeo sobre Mor...

sábado, 11 de dezembro de 2021

ÁRVORE DE NATAL - Luiz Gonzaga Dias

 


Árvore de Natal

 

Em cada peito que a alegria inunda,

Há um presépio, músicas e flores,

A natureza em trajes multicores,

A vida em festa de prazer circunda.

 

Engalanada a terra – mãe fecunda –

Estua em risos, luzes, esplendores.

E a alma das coisas descortina albores,

Novas promessas de emoção jucunda.

 

Fim de ano. Natal!... Princípio de ano...

Romantismo no coração humano,

Entre nuvens de incenso e aspiração.

 

Desejos de bondade e de ventura...

Os Reis Magos... Assomos de ternura,

Perfumando a existência e a tradição.

 

 

(VOZES DO SÉCULO)

Luiz Gonzaga Dias


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sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O MENINO QUE VIA A VIDA ACONTECER – Sônia Carvalho de Almeida Maron


O menino que via a vida acontecer

                                               Sônia Carvalho de Almeida Maron

 

O melhor mirante da cidade era o alto do 

telhado, de onde se via a vida acontecer no céu 

e na rua, por onde passavam personagens e 

fatos importantes que iriam marcar a vida do 

menino para sempre. (In: Cyro de Mattos, 

contracapa do livro Histórias do mundo que 

se foi, editora Saraiva, SP, em sexta edição, 

Prêmio Adolfo Aizen da União Brasileira de 

Escritores-RJ )

                    

            Aquele menino da Rua Ruy Barbosa tinha mesmo um jeito diferente. Em nossa rua não existiam estranhos: do primeiro ao último quarteirões, famílias trocavam sorrisos e cumprimentos, das crianças aos mais velhos. E o menino passava para o colégio, muitas vezes em companhia do irmão mais velho, compenetrado e sério, segurando a pasta com os livros como se fossem uma carga preciosa. O irmão mais velho tinha o riso fácil e todas as vezes que passava em frente à minha casa sorria de forma amistosa. Os pais do menino gostavam de mim, eu tinha certeza, pois sabiam o meu nome e conheciam meu pai.

            Na vida mansa da nossa rua todos eram conhecidos e a maioria amigos de verdade. As famílias visitavam-se, sentavam-se em cadeiras colocadas nos passeios nos dias de domingo, enquanto as crianças pulavam corda, jogavam bola de gude, pulavam amarelinha e cantavam cantigas de roda nas noites de luar. O menino fazia parte desse nosso mundo, mas eu sentia que participava de uma forma diferente:  meus olhos de criança não sabiam definir se era tímido ou se não queria participar de nossas brincadeiras por ter coisa melhor para fazer. Eu desconfiava que fosse mais amigo dos livros do que de nós.

            E o tempo foi passando. Os colégios da cidade não permitiam que os jovens sonhassem com as carreiras mais nobres, não existiam faculdades. O menino e o irmão contaram com o apoio do pai e seguiram para a capital identificada pelos mais velhos como “Bahia”. Àquela época diziam com orgulho “meu filho foi estudar na Bahia”, como se Itabuna fosse um lugar distante e fora do mapa do Estado. É que o privilégio de estudar na capital era restrito aos mais abastados da classe média. As famílias de milhares de arrobas de cacau enviavam os filhos para os colégios e faculdades do Rio de Janeiro e São Paulo.

             Não é que o pai do menino fosse um homem arrogante e rico como muitos coronéis do cacau. Ao contrário. Era um homem simples e trabalhador, sem diplomas e títulos, mas vislumbrava um futuro grandioso para os filhos e, para ele, o estudo era o único caminho. Acertou em cheio e ganhou um filho médico e o outro advogado.

            O jovem advogado iniciou, sem muito entusiasmo, o caminho das lides forenses. Gostava mesmo era de escrever, escrever de verdade, coisa diferente das petições dos processos cíveis e criminais. E enfrentou o desafio. A força que o conduzia para a carreira sonhada era mais poderosa que o encanto dos embates da advocacia. Determinado, passo a passo, conquistou o reconhecimento do mundo literário do país conseguindo o que poucos alcançaram: Cyro de Mattos é um escritor. Não um escritor qualquer. O itabunense que via “a rua acontecer no céu e na terra, do alto do melhor mirante da cidade, o telhado de sua casa”, como podemos ler na contracapa de um dos seus livros, Histórias do mundo que se foi, coleciona prêmios e títulos como ficcionista, cronista, ensaísta, poeta e demais variantes que pode assumir um verdadeiro escritor. Por último, representará sua cidade na Academia de Letras da Bahia, na cadeira de nº 22, que teve como membro fundador o mais conhecido e ilustre dos baianos, Ruy Barbosa. Sem esquecer que leva em seu currículo os títulos de membro da Academia de Letras de Ilhéus e membro fundador e idealizador da Academia de Letras de Itabuna – ALITA. 

            Cyro de Mattos é “prata de casa” da melhor qualidade. Todos sabem que seu currículo é conquista de poucos e nossas academias são citadas primeiro por motivo puramente sentimental.  Em resumida amostragem, registre-se o título de membro efetivo do Pen Clube do Brasil e Ordem do Mérito da Bahia, no Grau de Comendador. Em suas incursões pelo mundo integrou a delegação brasileira de Poetas da Universidade de Coimbra, em Portugal, e no XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Salamanca Cidade de Cultura e Saberes, na Espanha. Foi agraciado com vários prêmios literários de expressão, sendo autor de mais de cinquenta livros no Brasil e no exterior.

            A Rua Ruy Barbosa, na cidade de Itabuna, Bahia, Brasil, passou à imortalidade. A geração de Cyro de Mattos, que é também a minha, festeja a conquista de um dos seus meninos do Ginásio Divina Providência. Festejamos o amigo que desenvolveu a admirável arte de observar o mundo com os olhos e o sentimento que só conhece quem adquiriu o conhecimento guardado nos livros, sobre terras, homens e tempos e serve de exemplo para a geração que se recusa a reconhecer a força mágica que o livro empresta à nossa vida.      

 

Sônia Carvalho de Almeida Maron é escritora, juíza de Direito aposentada, ex-professora de Direito da UESC, uma das fundadoras da Academia de Letras de Itabuna, foi presidente da instituição por dois mandatos.

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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

8 de dezembro de 2021

 

A Coluna da Imaculada, na Piazza di Spagna (Roma), erguida a 18 de dezembro de 1856 e abençoada pelo Bem-aventurado Pio IX em 8 de setembro de 1857.


Hoje, 8 de dezembro, é festa da Imaculada Conceição, uma das magnas celebrações da Santa Igreja. Neste dia em 1823, na cidade de Ariano di Puglia, os padres dominicanos Gassiti e Pignataro obrigaram satanás, em nome de Deus, provar Imaculada Conceição de Maria, através de um menino de 12 anos, possesso, analfabeto, que estava sendo exorcizado. Obrigado, e muito contra sua vontade, fez satanás com este soneto:

 

Sou verdadeira mãe de um Deus que é Filho

E sou sua filha, ainda ao ser-lhe mãe

Ele de eterno existe e é meu Filho

E eu nasci no tempo e sou sua mãe

                   Ele é meu criador e é meu Filho

                   E eu sou sua criatura e sua mãe

                   Foi divinal prodígio ser meu Filho

                   Um Deus eterno e ter a mim por mãe

O ser da mãe é quase o ser do Filho

Visto que o filho deu o ser a mãe

E foi a mãe que deu o ser ao Filho

                   Se, pois, do Filho deve o ser a mãe

                   Ou há de se dizer manchado o Filho

                   Ou se dirá Imaculada a mãe.

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Pio IX, que proclamou o dogma da Imaculada Conceição em 1854, se emocionou ao ler este soneto (Apud. Salve Rainha, pág.147, Caxias do Sul-RG, 1955).

https://www.abim.inf.br/imaculada-conceicao-de-nossa-senhora/

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O CARROSSEL – Marília Benício dos Santos



O carrossel

 Marília Benício dos Santos

 

          O sol continuava dormindo. O domingo estava nublado.

          Em vez de praia fomos à Quinta da Boa Vista. Ao sairmos, Júlia Maria exclamou:

          - Um carrossel, minha tia!

          Chegamos em frente ao carrossel e ficamos a observá-lo.

          - Venha, vovó, disse Lucas, tentando subir. Resolvi aceitar o seu convite. Ele, muito entusiasmado, montava no cavalinho e eu o segurava, e ao abraçá-lo, abraçava também o cavalo.

          Quanta diferença desse carrossel para o carrossel da minha infância!

          Enquanto o carrossel girava, eu refletia: “O carrossel se identifica com a vida; ambos sempre estão a girar, passam pelos mesmos lugares”.

          Todos os anos há Natal, Páscoa; as estações vêm todos os anos. A primavera com suas flores dando uma colaboração imensa para ornamentar a vida. O verão, portador de alegria com o sol muito intenso, traz mais alegria para viver. Tem também o outono, quando as flores caem e dão lugar aos frutos, e, finalmente, o inverno, quando há um amadurecimento intenso e assim permite que surjam as flores na primavera e os frutos no outono.

          E o carrossel da vida vai girando, girando... Só que neste carrossel não podemos voltar atrás. Embora haja primavera, a primavera de minha infância jamais voltará. O carrossel brinquedo, sim, o homenzinho que o dirige pode dar meia-volta. Na minha fantasia, porém, eu tento voltar atrás. É isso que eu faço agora. Abraçada com Lucas e o cavalinho, volto à minha infância.

          Como era bonito aquele carrossel! Cada menina exibia o seu vestido novo cheio de rendas, babados e fitas. Cada uma usava um laço de fita nos cabelos que dava um brilho lindo, confundindo com o colorido do carrossel.

          O carrossel girava, girava... Era lindo vê-lo assim levando tantas crianças, fazendo-as felizes.

          O carrossel da Quinta da Boa Vista levava também muitas crianças diferentes, bem nenês, por isso exigia a presença de alguém para protege-las.

          Ao meu lado estava um senhor que segurava uma criança. – Será que ele também estava lembrando da infância? A criança que ele protegia era menina ou menina? Não conseguia identificar. Logo, porém, o fiz, pois havia uma argola na sua orelha.

          No carrossel da minha infância os meninos eram também muito bem-vestidos. A camisa podia ser colorida, mas a calça era geralmente branca ou azul marinho, algumas mais sofisticadas, de veludo.

          O carrossel era armado sempre no Natal, daí a razão para as crianças estarem bem arrumadas. Esperavam a Missa do Galo, o ponto alto da festa.

          Para completar a alegria, o carrossel era acompanhado de uma linda música.

          Depois de algum tempo passei a fazer parte daquela multidão que apenas observava o carrossel. “Menina grande não andava no carrossel”. Hoje, abraçando Lucas e o cavalinho, dava risadas e refletia.

          Há sempre aqueles que participam e aqueles que observam. Quantas vezes nos anulamos e ficamos à margem, apenas vendo o carrossel girar, girar...

          Não importa a idade; enquanto estamos vivos, vamos participar de tudo que temos direito. Do colorido que o carrossel da vida nos oferece, da música, do amor, da alegria, da festa. Devemos sempre lutar por um lugar neste carrossel, e ao encontrá-lo, segurá-lo com muita garra. Nunca ficar à margem a observar o carrossel girar.

          O carrossel da vida passa rápido e não para. O carrossel de brinquedo para de quando em quando, e novas crianças vão participando de suas alegrias. O carrossel da vida não para; quando isso acontece, realmente acabou, apagou, emudeceu.

          Para nós que acreditamos em outra vida, vamos pegar outro carrossel, no qual há sempre um lugar para aquele que tem esperança. Esse carrossel passa pelos mesmos lugares do carrossel da minha infância; há, porém, uma grande diferença: embora passando pelos mesmos caminhos, estes são sempre renovados, as belezas são modificadas a cada instante e esse imenso carrossel vai girando, girando, circulando o amor ao som de uma música celeste.

 

MARÍLIA BENÍCIO DOS SANTOS

Itabuna (BA)

*10/10/1920   +24/05/2014

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