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sábado, 7 de março de 2020

HISTÓRIAS QUE A VIDA CONTA: Observe suas mãos












Observe suas Mãos

Meu avô, com noventa e tantos anos, 
sentado no banco do jardim, não se movia.
Estava cabisbaixo, olhando suas mãos. 
Quando me sentei ao seu lado,
nem notou minha presença.

E o tempo passava…

Sem querer incomodá-lo, 
mas querendo saber como ele estava, 
lhe perguntei como se sentia. 
Levantou sua cabeça, me olhou e sorriu. 
‘Estou bem, obrigado por perguntar’, 
disse com uma forte e clara voz. 
Expliquei que não queria incomodá-lo, 
 mas queria ter certeza de que estava bem, 
já que estava sentado, imóvel,
simplesmente, olhando para suas mãos.

Então ele me perguntou: 
‘Alguma vez já olhou para suas mãos? 
Quero dizer, realmente olhou para elas?’
Lentamente soltei minhas mãos 
das mãos de meu avô, as abri e as contemplei.
Virei as palmas para cima e logo para baixo. 
Creio que realmente nunca as havia observado.
Queria saber o que meu avô queria me dizer.

Meu avô sorriu e me disse:
Pare e pense um momento 
sobre como suas mãos têm te servido através dos anos.
Estas mãos, ainda que enrugadas, 
secas e débeis têm sido as ferramentas 
que usei toda a minha vida para alcançar, 
pegar e envolver.

Elas puseram comida em minha boca 
e roupa em meu corpo.
Quando criança, minha mãe me ensinou 
a juntá-las em oração.
Elas amarraram os cadarços dos meus sapatos 
e me ajudaram a calçar minhas botas.
Estiveram sujas, esfoladas, 
ásperas, entrelaçadas e dobradas…

Foram decoradas com uma aliança 
e mostraram ao mundo que estava casado
e que amava alguém muito especial.
Foram inábeis quando 
tentei embalar minha filha recém-nascida.
Elas tremeram quando enterrei meus pais, 
e quando entrei na igreja com minha filha
no dia de seu casamento.
Elas têm coberto meu rosto, 
penteado meu cabelo 
e lavado e limpado todo meu corpo.
E, até hoje, quando quase nada de mim funciona bem, 
estas mãos me ajudam a levantar
e a sentar e ainda se juntam para orar.

Estas mãos têm as marcas de onde estive 
e a dureza de minha vida.
Mas, o mais importante, 
é que são estas mãos 
que Deus tomará nas Suas quando
me levar a Sua presença!’

Desde então, nunca mais 
vi minhas mãos da mesma maneira.
Mas lembro quando Deus esticou 
Suas mãos e tomou as de meu avô e o levou a
Sua presença.

Na verdade, nossas mãos são uma benção.
Cada vez que uso minhas mãos 
penso em meu avô, e me pergunto:

‘Estou fazendo bom uso delas?’

E sempre que minha consciência 
responde que ‘estou usando minhas mãos 
para praticar o bem, para trabalhar honestamente, 
que as estou usando para dar carinho e amparo
a quem necessita’, sinto-me em paz.

E agradeço ao Criador 
por tamanha bênção, 
esperando que Ele estenda Suas mãos
para que, também eu, um dia, possa nelas repousar!”

A vida acontece no presente, sempre.
Há somente o hoje, o agora, 
e este é o seu momento com Deus!

Agradeça, por tudo o que tens na vida…
E pelas tuas mãos que, bondosas, 
ajudam a tornar o HOJE, um dia MELHOR!

Pense nisso...


(Recebi via WhatsApp, sem menção de autoria)

* * *

sexta-feira, 6 de março de 2020

SIGMUND FREUD - Antônio Baracho



            Um homem nascido às 06:30h da tarde do dia seis de maio de 1856, em Freiberg, na Moravia, que hoje pertence à Tchecoslováquia, modificou profundamente a nossa visão do mundo e a consciência que tomamos de nós mesmos.

            É certo que o neurologista Sigmund Freud não descobriu inconsciente, cuja existência foi bem conhecida pelos filósofos, de PIatão a Leibniz. Mas descobriu as intervenções do inconsciente nos setores da vida orgânica e da vida consciente que se julgava preservados da sua influência: descobriu a natureza do tal inconsciente: foi o primeiro a perceber a importância dele.

            Ateu convicto desde os tempos de estudante, dizia-se     não-identificado nem com a religião judaica nem com qualquer outra, e o que mais caracterizou a sua personalidade foi o seu ímpeto, honestidade e firmeza de caráter, contestando os velhos tabus e preconceitos da sociedade de sua época. No entanto o seu espírito de cientista influenciou a trajetória de outras estrelas, como o antropólogo francês Claude Levi-Strause, o crítico literário também francês Roland Barthes e toda a geração de artistas do movimento surrealista, de André Breton a Salvador Dali.

            A psicanálise chegou ao domínio público, sem dúvida que há razões extracientífica para esse sucesso. Mas, no plano próprio da ciência psicológica, é lícito afirmar que a psicanálise foi o grande acontecimento do século passado.

            A crítica não trai nem menospreza o pensamento de Freud, ao contrário, realça e valoriza, na sua definitiva e excepcional moldura, a bagagem imensa das suas criações, das suas contribuições aos vários ramos da ciência, suas antevisões, as corajosas assertivas que, combatidas ferrenhamente na época, desabrocharam, décadas depois, em frutos sazonados de conhecimentos novos, em cuja tessitura se faz, dia a dia, mais
clara a dimensão do comportamento humano.

            A morte de Freud (23/09/1939), culminando os padecimentos cruéis de um câncer, durante 16 anos e 33 cirurgias, encerra também a viagem de um prodigioso epistológrafo; escreveu nada menos de 20 mil cartas pela vida: A psicanálise foi a resposta a mais longa que não conseguiu concluir.

            Enquanto não podemos afirmar se todos continuaremos vivos, é fácil atestar que ele alcançou a imortalidade.

            

.............

ANTONIO BARACHO – Poeta, psicólogo.
Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL, ocupante da cadeira nº 11.
E-mail: antoniobaracho@hotmail.com
Tel. (73) 99102-7937 / 98801-1224

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quinta-feira, 5 de março de 2020

NEM TINHA CARTEIRA ASSINADA – Ariston Caldas



            Era uma trempe arranjada com três pedras meio-angulares. Acocorado ao lado dela, Aparecido ia retirando com uma colher a borra do café aljofrando da chaleira de flandres fumaçada. A mulher dele, num banquinho ao lado, tentava desmachucar o testo da panela grande de cozinhar feijão. Na cozinha ela só não se responsabilizava pelo café. Aparecido entendia que somente ele era competente para o fazer “supimpa”.

            - É, Lainha, aprendi coar café assim supimpa desde menino. – Ele falou, afastando-se da fumaça que subia da trempe. No momento em que olhou para a mulher, refletiu a vida difícil que levava para manter-se, a ela e aos três filhos. A família vivia mal alimentada e malvestida; os meninos sem escola e todos sem casa para morar, pelas fazendas dos outros, a cada dia mais necessitados. Aí lembrou de Lainha ainda robusta e bonita:

            - Era uma morena de abafar! Hoje, tadinha, taí com a pele enferrujada e cheia de rugas; o cabelo alinhavado de fios brancos, olhar quebrando. E ainda não tem trinta anos! Pensando assim, panhou uma brasa com um pegador feito de faxina, jogando-a dentro da chaleira fumegando:

            - Aí é que está o segredo para se fazer um café bom. – resmungou, esfregando com os dedos os olhos que ardiam cheios de fumaça. Pensou depois que "assim ou assado, fiz o curso primário completo. Nem era para viver assim perambulando pelas roças dos outros e ainda sem carteira assinada”. Concluiu seus pensamentos. Fora, a noite chegava empretecendo os cacaueiros em redor entre uma chuva fina e fria e um vento rumorejando pela folhagem. Por isso os dois meninos mais velhos recolheram-se mais cedo, acomodando-se a um canto da sala estreita junto à cozinha, como dois vultos entre a turvação, onde ficaram conversando coisas de menino. A momentos Lainha impacientava-se:

            - Cala a boca, troços! – Gritava para os dois meninos barulhando. O mais novo dos três, ainda nos cueiros, dormia na cama do casal, embrulhado com uma coberta de tacos.

            Era uma noite de quinta-feira e a casa se encontrava quase pura, os mantimentos se acabando. Havia um resto de feijão, um pouco de farinha e um pedaço de carne seca; o querosene daria até o outro dia e um pouco de açúcar dava para o momento e para o café da manhã seguinte. Só no sábado Aparecido teria dinheiro para novas provisões.

            - Carestia medonha! Dinheiro não dá mais pra nada... – pensou, enquanto adoçava o café na chaleira. Depois, despejou um pouco numa caneca e o saboreou, estalando os beiços.

            - Experimente, Lainha. Veja como está gostoso! – disse, dirigindo-se para a mulher.

            Às sete da manhã do outro dia, Aparecido entrou para o depósito ao lado da casa, portando uma mochila com carne afarofada; panhou a vara de podão, um facão e saiu pela porteira da frente, rumo à Roça da Onça, onde faziam as primeiras colheitas do temporão.

            Aproximava-se o São João, e Aparecido lembrou que precisava comprar algumas coisas para a mulher e para os filhos. O que achava mais necessário era um par de sapatos para Lainha. No momento ele não necessitava de sapatos, pois ainda possuía as botinas compradas no ano passado. Para os meninos compraria roupas e uma caixa de traques. No percurso até à roça pensou nessas coisas e na situação; fez cálculos mas não viu meio que lhe garantisse as compras. Pensou arriscar um adiantamento com o patrão, mas sem acreditar que isso desse certo. Só esqueceu do assunto ao embaraçar-se com um jararacuçu-pico-de-jaca junto a uma bandeira de cacau à margem do caminho:

            - Sai, peste! – Exclamou, pulando para um lado, batendo-se de supetão a um cacaueiro apinhado de frutos amarelos.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição, 2004)
Ariston Caldas


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quarta-feira, 4 de março de 2020

SOBRE ALZHEIMER


Esquecimento temporário do professor francês Bruno Dor, do Instituto de Memória e Doença de Alzheimer (IMMA)
nos hospitais La Pitié-Salpêtrière - Paris. Ele aborda o assunto em uma maneira bastante tranquilizadora:

"Se alguém está ciente de seus problemas de memória, ele não tem Alzheimer".

1. Eu esqueço os nomes das famílias ...
2. Não me lembro onde coloco algumas coisas ...

Muitas vezes acontece em pessoas com 60 anos ou mais que elas reclamam que não têm memória.
"A informação está sempre no cérebro, é o" processador "que é
em falta. "

Isso é "Anosognosia" ou esquecimento temporário.

Metade das pessoas com 60 anos ou mais apresenta alguns sintomas devidos à idade e não à doença.
Os casos mais comuns são:
- esquecendo o nome de uma pessoa,
- indo para um quarto da casa e não lembrando por que estávamos indo para lá
- uma memória em branco para um título ou ator de filme, atriz,
- uma perda de tempo procurando onde deixamos nossos óculos ou chaves ...

Depois de 60 anos, a maioria das pessoas tem essa dificuldade, o que indica que não é uma doença, mas uma característica devido ao passar dos anos.

Muitas pessoas estão preocupadas com esses descuidos, daí a importância da seguinte declaração:

"Aqueles que estão conscientes de serem esquecidos não têm nenhum problema sério de memória".

"Aqueles que sofrem de uma doença de memória ou Alzheimer não estão cientes do que está acontecendo".

O professor Bruno Dubois, diretor da IMMA, tranquiliza a maioria das pessoas preocupadas com sua supervisão:

"Quanto mais nos queixamos de perda de memória, menor a probabilidade de sofrer de doença de memória".

- Agora, para um pequeno teste neurológico:

Use apenas seus olhos!

1- Encontre o C na tabela abaixo!

OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOCOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
2- Se você já encontrou o C,

Em seguida, encontre o 6 na tabela abaixo.

999999999999999999999999999999999999999999999
999999999999999999999999999999999999999999999
999999999999999999999999999999999999999999999
699999999999999999999999999999999999999999999
999999999999999999999999999999999999999999999
999999999999999999999999999999999999999999999

3- Agora encontre o N na tabela abaixo.
Atenção, é um pouco mais difícil!

MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMNMM
MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

Se você passar nesses três testes sem problemas:
- você pode cancelar sua visita anual ao neurologista.
- seu cérebro está em perfeita forma!
- está longe de ter qualquer relação com a doença de Alzheimer.

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terça-feira, 3 de março de 2020

A OUSADIA DE QUESTIONAR - Arnaldo Niskier


Sempre defendemos a ideia de que o Brasil merece um Prêmio Nobel, seja em que categoria for.  Israel, por exemplo, que só tem 0,2% da população mundial, está hoje com 22% de todos os Prêmios Nobel, além de ter recebido 38% de todos os Oscars de cinema, na categoria de diretor.  É certo que esses resultados são grandemente movidos pelo fato de o pequeno país de 8 milhões de habitantes ser uma espécie de locomotiva quando o tema é tecnologia.

Isso é resultado menos de um discutível poderio genético, mas muito mais do que chamamos de ambiência cultural, como escreveu com muita propriedade o pranteado escritor Amos Oz.  Ao longo de séculos de existência, os judeus transmitiram às novas gerações conteúdos de indiscutível valor, como os que se encontram na Bíblia de que são cultores.

Além do mais, aprenderam a valorizar o questionamento como método de inovação.  Inculcam nos jovens valores de sua elogiada civilização.  Os alunos sempre foram estimulados a questionar, caracterização que passou a ser a de um bom aluno, o que deve acontecer desde cedo, na escola e no lar.  O foco nunca se desviou de uma educação de qualidade.

A propensão a discutir sobrevive, com o encorajamento do estímulo à curiosidade, que se utiliza de modo conveniente do humor na proporção adequada.  Talvez se possa afirmar que o cineasta Woody Allen seja uma expressão viva do que aqui afirmamos, com os seus filmes de tanto sucesso.

Um aspecto essencial nessa realidade é o papel exercido pelas mulheres, na sociedade hebraica.  Poucas culturas terão dado tanto relevo às mulheres, abrindo espaço para a necessária igualdade.  Em termos culturais não existe a deletéria diferença que marca outras sociedades modernas.

Na busca incessante pela inovação, homens e mulheres dão-se as mãos, como é o ideal que aconteça sempre.  É natural que o povo do livro, assim marcado graças à ênfase dada à Bíblia, tenha obsessão pelas palavras, com opiniões democraticamente diferenciadas.  Se é da discussão que nasce a luz, talvez nenhum outro povo tenha valorizado tanto essa característica.

Em discussão recente, quando o tema era o Holocausto, quando foi referida a contribuição judaica ao desenvolvimento científico e tecnológico, sobretudo nos países vítimas mais diretas da bestialidade nazista, levantou-se a tese do enorme prejuízo causado pela morte indiscriminada de cérebros nos campos de extermínio da Europa.  Já imaginaram se isso não tivesse ocorrido, como o mundo teria se beneficiado?

Tribuna do Sertão, 02/03/2020


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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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segunda-feira, 2 de março de 2020

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2020 - "Fraternidade e vida: dom e compromisso"



Tema: ‘Fraternidade e vida: dom e compromisso’
Lema: ‘Viu, sentiu compaixão e cuidou dele’
Composição: Padre José Antônio de Oliveira
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Ligue o vídeo abaixo:

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Hino da Campanha da Fraternidade 2020


Deus de amor e de ternura, contemplamos
Este mundo tão bonito que nos deste
Desse dom, fonte da vida, recordamos
Cuidadores, guardiões tu nos fizeste.

Peregrinos, aprendemos nesta estrada
O que o bom samaritano ensinou
Ao passar por uma vida ameaçada
Ele a viu, compadeceu-se e cuidou.

Toda vida é um presente e é sagrada
Seja humana, vegetal ou animal
É pra sempre ser cuidada e respeitada
Desde o início até seu termo natural.

Peregrinos...

Tua glória é o homem vivo, Deus da vida
Ver felizes os teus filhos, tuas filhas
É a justiça para todos, sem medida
É formarmos, no amor, bela Família.

Peregrinos...

Mata a vida o vírus torpe da ganância
Da violência, da mentira e da ambição
Mas também o preconceito, a intolerância
O caminho é a justiça e conversão.



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NÃO PACTUAR COM A REVOLUÇÃO — O EXEMPLO DE SANTO AFONSO DE LIGÓRIO


1 de março de 2020
Tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789

Plinio Maria Solimeo

No prólogo de sua completíssima biografia de Santo Afonso de Ligório,[i] o erudito historiador e hagiógrafo francês Padre Berthe [quadro abaixo] debuxa em rápidos traços a situação religiosa na França no início do século XX.

Escrevendo em 1906, referindo-se aos nefastos efeitos da diabólica Revolução Francesa: “Já faz 100 anos que a Revolução ataca a Igreja de Deus com um furor sempre crescente. […] Atualmente ela derruba a golpes de machado todas as instituições cristãs: laiciza a família, a escola, o hospital, a caserna, o cemitério e até a rua, proibida doravante ao Deus feito homem”.

Pe. Augustin Berthe

Entretanto, após investir contra o altar e o trono, a Revolução de 1789 fez um recuo tático: com a Concordata de Napoleão e particularmente com a Restauração dos Bourbons em 1814, ela permitiu que a situação religiosa na França de certo modo se recompusesse e a Igreja recomeçasse a inspirar a vida pública dos franceses. Contudo, como os revolucionários não estavam dormindo, mas tinham apenas mudado de tática, ganharam amplamente as eleições em 1879 e começaram a trabalhar para acabar coma influência da Igreja sobre o Estado, ainda relativamente forte.

Assim, nesse mesmo ano suprimiram a obrigação do repouso dominical, e no ano seguinte interditaram as congregações religiosas e expulsaram a Companhia de Jesus. Em 1881 secularizaram os cemitérios, até então ligados à Igreja, e em 1882 laicizaram a escola primária, tirando-a do âmbito religioso.

Mas isso ainda não satisfazia a sanha dos revolucionários: em 1884 eles suprimiram as orações públicas na Câmara dos Deputados e restabeleceram o divórcio. No ano seguinte fecharam as Faculdades de Teologia geridas pelo Estado e laicizaram os hospitais, que até então sob a tutela da Igreja. Em 1886 laicizaram o pessoal de ensino nos estabelecimentos laicos e em 1887 retiraram os símbolos religiosos dos tribunais. Em 1889 decretaram a convocação dos seminaristas e clérigos para o serviço militar, e finalmente, em 1904, romperam as relações diplomáticas com a Santa Sé e decretaram a separação da Igreja e do Estado[ii].

Enquanto os revolucionários demoliam assim toda a influência da Igreja na esfera temporal, o que faziam os católicos, majoritários no país? Como foi possível — pergunta o Padre Berthe — “reduzir os católicos a esse estado de escravidão” na outrora Filha Primogênita da Igreja, sem que houvesse uma reação proporcional?

Para o ilustre eclesiástico, isso só se deu porque os católicos em geral se esqueceram de que a Igreja é militante e, portanto, que devem lutar contra o demônio, o mundo e a carne. Mas, sobretudo, porque “a maioria não quis compreender que o cataclismo de 1789 não foi uma revolução comum, mas a Revolução dos povos contra Deus e contra seu Cristo, a apostasia das nações”.

Eis como o Pe. Berthe descreve a consequência dessa apostasia dos católicos: “Cegos voluntários, em presença das ruínas que se acumulavam, continuavam a repetir ‘que o mal não é tão grande, que todos os séculos se assemelham, e que os homens sempre foram os mesmos’. Eles dormirão em seu otimismo até o dia em que, com a religião e a moral destruídas, a sociedade desmoronará sob os golpes do socialismo”.

Mas é preciso citar os “colaboracionistas” — aqueles católicos “esclarecidos e progressistas” como os há hoje —, “que julgavam que se devia poupar [a Revolução], aceitando seus princípios, louvando como ela a liberdade, o progresso, a civilização moderna, aconselhando mesmo à Igreja de se reconciliar com o direito novo, de sacrificar suas imunidades, e de se mostrar menos intransigente em matéria de moral, de ascetismo, de exegese, de história, de tradições”.

É o que sucede também em nossos dias quando, para adaptar a Igreja ao “espírito do mundo”, se leva tudo de roldão, provocando o desfazimento da vida de família com a avalanche homossexual, a teoria de gênero, o aborto etc., tendo como consequência, sobretudo, a terrível crise que devasta a Santa Igreja.

Continuando com o Padre Berthe, por causa dessa colaboração ou pela falta do espírito de luta, “se nós perdemos bom número de nossas posições, é porque não as quisemos defender muito vigorosamente. […] Em tempo de guerra, todo homem é soldado; em tempo de perseguição, todo cristão deve dizer como os Macabeus: ‘Antes a morte à apostasia!’”.

Qual é a solução que nos apresenta? A que ele propõe era válida para o início do século XX, mas hoje, por causa da profunda crise na Igreja, precisaria de uma adaptação, a qual exigiria uma nova envergadura para combater o mal.

Afirma o autor: “O melhor meio de reanimar nos corações a santa chama do entusiasmo cristão é colocando sob os olhos dos católicos a vida e os combates daqueles que se fizeram cavaleiros de Cristo e de sua Igreja. Nos primeiros séculos, quando o sangue corria aos borbotões, liam-se nas assembleias as Atas dos mártires, e os homens, as mulheres e as crianças, levados pelo exemplo, corriam em busca do suplício”.

O Padre Berthe apresenta Santo Afonso Maria de Ligório [quadro ao lado] como modelo para enfrentar a crise: “Lancemos um simples golpe de vista sobre sua longa carreira e dar-nos-emos conta das vitórias que obteremos sobre os inimigos de Deus se soubermos lutar com o mesmo espírito, a mesma coragem, as mesmas armas desse campeão de nossa santa e nobre causa”.

Ele então sintetiza em poucas linhas o perfil desse grande santo: “Quando o jovem cavaleiro napolitano estava na idade de compreender o que se passava no mundo, três tipos de sectários — os jansenistas, os regalistas e os filósofos — trabalhavam em concerto para arruinar o catolicismo. Voltaire e Rousseau semeavam por toda parte os princípios da Revolução que oprimem hoje o mundo inteiro. Não tendo no coração outra paixão senão a de propagar o reino de Jesus Cristo salvando as almas resgatadas pelo seu sangue, Afonso abandonou seu palácio, seu direito de primogenitura, suas esperanças de futuro [era famoso advogado no Fórum de Nápoles], suspendeu sua espada no altar de Nossa Senhora da Misericórdia e entrou na milícia sagrada, a fim de levar seu socorro ao povo de Deus”.

Continua o Padre Berthe: “Revestido dessa armadura [da penitência], ele empunha o gládio e marcha contra o inimigo. Seu gládio não é o da palavra, como a espuma dos retóricos, mas o gládio do grande Apóstolo, que penetra até a divisão da alma e do espírito e quebra todas as resistências. […] Por toda parte veneram o santo, o taumaturgo, o profeta, porque Deus está visivelmente com ele, a Virgem se digna iluminá-lo com um brilho todo celeste enquanto ele prega ao povo”.

O grande Doutor da Igreja, no entanto, deseja fazer render todos os talentos que recebeu do Criador. “Ele deseja que todos os cristãos se compenetrem de seu espírito cavalheiresco. Por seus numerosos escritos dirigidos às diversas classes da sociedade, ele se esforça para despertar por toda parte a fé, o amor de Jesus Cristo, o zelo pela salvação das almas. Suas calorosas exortações vão encontrar os bispos em seus palácios, os padres em seus presbitérios, os religiosos e as religiosas em suas celas, os próprios reis em seus tronos”.

Finalmente, conclui o Padre Berthe: “E quando esse grande homem, apóstolo, fundador, bispo, asceta, moralista, apologista, tinha assim, durante meio século, sustentado a Igreja e repelido o mundo, Deus lhe pôs sobre os ombros a cruz de seu Divino Filho, e o fez subir, durante 20 anos, a montanha do Calvário. […] Crucificado em seu coração até se ver caluniado junto ao Papa e expulso da Congregação da qual era fundador, ele exclamou: Fiat! Crucificado em sua alma até sentir-se abandonado pelo próprio Deus, ao bordo do inferno, cercado de demônios que o incitavam ao desespero, ele aceita a prova, triunfa de todos seus inimigos e morre sorrindo à Virgem Maria, que vem buscá-lo para conduzi-lo ao Céu. […] Os católicos mais ou menos seduzidos pela ilusão liberal aprenderão do santo Doutor a morrer antes que transigir com a Revolução ou ceder a Satã um só dos direitos que pertencem a Cristo e à sua Igreja”.


[i]R.P.Berthe, Saint Alphonse de Liguori – 1696 – 1787, Tomo I, Librairie de laSainte Famille, Paris, 1906.




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