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terça-feira, 2 de abril de 2019

MAIS SEMANA SANTA - Cyro de Mattos


           
A tristeza estava nos ares por onde a procissão passava com o corpo de Nosso Senhor Morto deitado na cama, as pessoas sofrendo pelas pedras do caminho. Gente acompanhava a procissão descalça para pagar alguma promessa em razão da graça alcançada através da bondade do Cristo Salvador. Dona Olívia, a mulher do dono do hotel, vestida num comprido vestido roxo, que tocava os pés, os cabelos compridos caindo nas costas, fazia o papel de Maria Madalena. A matraca tocava, a procissão parava enquanto ela exibia o rosto do Cristo no sudário.

            Numa voz doída, ela arrancava suspiros e lágrimas dos fiéis, calados, rostos contritos, naquele trecho de rua em que a procissão parava.

             Pai Salvador,
            Misericordioso,
           Toca no meu peito
          O sofrimento teu.
         Fadiga, sede, fome.
        Cuspe, espinho, sangue.
       Chicotada, prego
      Madeira feita cruz,
     Meu Pai, perdoai
     Os pecados meus.

            Naquele ano, em que caiu uma chuva rala durante a procissão, usava as botinas novas que minha mãe presenteou-me no aniversário. A procissão voltava pela avenida do comércio depois de percorrer algumas ruas próximas ao centro da cidade. A imagem de Nosso Senhor Morto já ia entrar na igreja para ser colocada no altar quando a beata Detinha teve uma crise de nervos, chegando a desmaiar. O padre passou um pouco de água benta na testa da beata, rezou e pediu que os fiéis cantassem com fervor. Os cantos entoados na pequena praça repleta de gente acordaram a beata, que começou a chorar alto e ao mesmo tempo agradecer ao Jesus Salvador por ter ali mesmo tirado dela os maus pensamentos e perdoado seus pecados.

            No dia de procissão havia tanta gente na igreja e na praça que uma agulha não cabia lá dentro nem no lado de fora. As botinas novas apertavam os meus pés. Então pedi à minha mãe que me deixasse ir embora para casa, não queria ficar para ouvir a fala do padre encerrando a procissão. “Os calos estão doendo muito, não aguento mais”, disse aporrinhado, ameaçando chorar. Ela ordenou baixinho no meu ouvido que ficasse comportado, acrescentando que a procissão já estava chegando ao fim.

            Preferi não obedecer minha mãe. Esperei que ela se ajoelhasse com os demais fiéis na igreja para fazer a oração do creio-em-deus-pai, de olhos fechados, para apressado tirar dos meus pés as botinas. Em casa disse à minha mãe que tinha resolvido agir daquela maneira porque não suportava mais as botinas apertadas queimando meus dedos. Tive que tirá-las para evitar que acontecesse comigo uma situação pior do que a da beata Detinha. Como ela, desmaiaria ali mesmo na igreja. Mas a água benta que o padre passaria na minha testa, as orações e os cantos entoados com fervor pelos fiéis pouco iriam adiantar para que eu não ficasse desmaiado durante muito tempo.

            Claro que minha mãe compreendeu. Em vez de sermão, da sua voz bondosa escutei que eu não me preocupasse. Não ia calçar mais aquelas botinas apertadas. Mas uma vizinha da casa em frente, que sempre estava de mal-estar com a vida, disse à minha mãe que não aprovava o meu procedimento, observando que se fosse com um filho dela receberia um castigo. Achava que menino mimado daquele jeito poderia não ser um homem de temperamento forte no futuro.


*Cyro de Mattos é escritor, poeta e advogado aposentado. Diplomado em capoeira regional pela Escola de Capoeira do Mestre Bimba, em Salvador, 1960. Tem no prelo da Editora Mazza, de Belo Horizonte, o livro “Poemas de Terreiro e Orixás”.

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EX-MINISTRO CELSO LAFER FAZ, NA ABL, CONFERÊNCIA SOBRE A TRAJETÓRIA HISTÓRICA E OS 170 ANOS DE RUI BARBOSA


O Acadêmico, diplomata, escritor e ex-ministro Celso Lafer fala, na Academia Brasileira de Letras, sobre Rui Barbosa (um dos fundadores da ABL), na palestra de encerramento do ciclo de conferências intitulado Presenças fundamentais, sob coordenação do Presidente Marco Lucchesi. O tema escolhido foi Rui Barbosa, 170 anos. Dimensão da atualidade do seu percurso. O evento está programado para quinta-feira, dia 4 de abril, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.

Serão fornecidos certificados de frequência.

A Acadêmica Ana Maria Machado é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências de 2019.

Nas próximas quintas-feiras de abril, a ABL terá mais um ciclo de conferências, intitulado A educação no Brasil hoje, sob coordenação do Acadêmico e educador Arnaldo Niskier. Serão três palestras, no mesmo local, nos seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 11, Carlos Alberto Serpa, Análise crítica do ensino superior brasileiro; 18, Simon Schwartzman, Perspectivas do novo ensino médio brasileiro; e 25, Celso Niskier, Os desafios da educação a distância.

O CONFERENCISTA

Celso Lafer, quinto ocupante da cadeira 14 da ABL, exerce atualmente a função de professor titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da USP, onde leciona desde 1971. É PhD em Ciência Política na Universidade de Cornell, EUA, e livre-docência em Direito Internacional Público na Faculdade de Direito da USP. Foi Ministro das Relações Exteriores, em 1992, e Vice-Presidente, ex-officio, da Conferência da ONU sobre Meio-Ambiente e Desenvolvimento, na Rio-92. Em 1999, foi Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e, de 1995 a 1998, embaixador na Missão Permanente do Brasil junto às Nações Unidas e à Organização Mundial do Comércio, em Genebra.

Entre suas inumeras publicações, estão: O Sistema Político Brasileiro, Estrutura e Processo; O Convênio do Café de 1976: da Reciprocidade no Direito Internacional Econômico; Gil Vicente e Camões; Hannah Arendt: Persamento, persuação e poder; O Direito e o Estado Moderno; Política Externa Brasileira: três momentos; A Internacionalização dos Direitos Humanos – Constituição,Racismo e Relações Internacionais.

28/03/2019


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segunda-feira, 1 de abril de 2019

COISAS QUE JÁ MUDARAM E VÃO MUDAR MAIS AINDA



1) O Spotify faliu as gravadoras;

2) O Netflix faliu as locadoras;

3) O Booking complicou as agências de turismo;

4) O Google faliu a Listel, Páginas Amarelas e as enciclopédias;

5) O Airbnb está complicando os hotéis;

6) O WhatsApp está complicando as operadoras de telefonia;

7) As Mídias Sociais estão complicando os veículos de comunicação;

 O Uber está complicando os taxistas;

9) A OLX acabou com os classificados de jornal;

10) O Smartphone acabou com as revelações fotográficas e com as câmeras amadoras;

11) O Zip Car está complicando as locadoras de veículos;

12) A Tesla está complicando a vida das montadoras de automóveis;

13) O E-mail e a má gestão complicaram os Correios;

14) O Waze acabou com o GPS;

15) O Original e o Nubank ameaçam o sistema bancário tradicional;

16) A Nuvem complicou a vida dos Pen drive;

17) O Youtube complica a vida das tvs. Adolescentes não assistem mais canais abertos;

18) O Facebook complicou a vida dos portais de conteúdo;

19) O Coaching mudou a forma de aprender, pensar e agir, levando a um novo modelo mental, gerando resultados extraordinários em um curto espaço de tempo nas organizações;

20) O Tinder e similares complicando baladas e "similares";

21) Com o Banco Online não precisa mais ir até às agências;

E você acha que vai durar quanto tempo seu emprego na forma atual?

...e você quer viver como vivia há 10 anos?

Temos que nos reinventar diariamente para continuarmos nesse "jogo" chamado vida.

VAMOS EM FRENTE... Não porque atrás vem gente..., Mas, porque já tem muita gente na nossa frente!


(Desconheço o autor)

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MAIOR EVENTO DA NATAÇÃO BAIANA EM ITABUNA


UENI anuncia Fest Natação para 13/04 no CISO 
Delegações perfiladas no Fest Natação de 2018 no CISO.


A União das Escolas de Natação de Itabuna, UENI, acaba de divulgar que a 1ª etapa do ano do XI Fest Natação será em 13/04, um sábado à tarde, no Parque Aquático do Colégio CISO em Itabuna. Já estão programadas provas nas seguintes modalidades:

Espaguete: 25 m
Nado Livre: 25 m, 50 m e 400 m
Nado Costas: 25 e 50 m
Nado Medley: 200 m
Revezamento: 4 x 50 m

A competição contará com atletas nacionais de ponta e nomes de destaque da natação baiana. Cidades como Vitória da Conquista, Porto Seguro, Jequié, Ilhéus, Camamu, Ubaitaba e Valença já receberam convite para participar, aguardando-se apenas a confirmação delas, além das escolas de Itabuna. A previsão é de que 140 nadadores participem, representando 15 instituições esportivas.

Assim como nos eventos anteriores, não haverá cobrança de ingresso. A entrada no CISO será liberada para todos os amigos da natação e dos nadadores.

O colégio dispõe de serviço de lanchonete no próprio Parque Aquático, que fica na Rua Francisco Ferreira (travessa da Av. Juracy Magalhães, início da estrada para Ilhéus), nº 76, bairro Fátima, Itabuna. O telefone do colégio é (73) 3613-9035.


 Contato – Joceone Reis: (73) 9.8818-8533 (Oi) / 9.9133-6475 (Tim-WhatsApp).
Assessoria de Imprensa – Carlos Malluta: (73) 9.9133-4523 (Tim-WhatsApp) / 9.8877-7701 (Oi)


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SEMANA SANTA - Cyro de Mattos*


Todos os santos na igreja eram cobertos com um pano roxo na Semana Santa, menos Jesus Cristo. Era proibido comer carne vermelha e beber leite. A refeição matinal era com café e pão. À noite, a refeição era a mesma. Ainda bem que tinha um pouco de arroz e peixe no almoço. Sempre achava um jeito de chupar uma manga, um pedaço de melancia ou laranja para tapear a barriga e não sucumbir à fome. Fazia isso com cuidado, sem que minha mãe soubesse. Ela dizia que as pessoas deviam jejuar na Semana Santa, em sinal de amor e respeito à morte do Cristo. O jejum era só naquela semana, passava logo, ninguém ia morrer por isso.

O comércio cerrava as portas na quinta e sexta-feira. Ninguém trabalhava nesses dias. A mãe falou que um homem entendeu de tirar leite da vaca na Sexta-Feira Santa para tomar no café da manhã. Quando ele começou a puxar as tetas da vaca, só saía sangue em vez de leite. Aquilo era um sinal do céu para que o homem respeitasse o dia em que Jesus Cristo, o bem-amado salvador da humanidade, foi crucificado sem piedade pelos homens.

Parecia que toda a cidade amanhecia vestida de roxo na Semana Santa, principalmente na Sexta-Feira. Assistia ao filme sobre a vida, paixão e morte de Jesus Cristo na matinê da Quinta-Feira Santa do Cine Itabuna. As pessoas saíam cabisbaixas do cinema quando o filme acabava. Ninguém se conformava com o que fizeram com Jesus, que foi coroado com uma coroa de espinho, depois de ser cuspido e chicoteado. Para não se falar na cruz pesada que o pobre coitado carregara pelas ruas. Não satisfeitos com tanta judiação ainda pregaram o filho de Deus na cruz de maneira cruel. Em vez de água, quando Ele pediu, deram vinagre e, por último, enfiaram uma lança no coração. Era demais o sofrimento de Jesus, muita gente chorava.

E tudo por causa do Judas, que traiu Jesus por um saquinho de dinheiro em moedas. O Judas passava como um dos apóstolos de Jesus, mas se rendeu à tentação do dinheiro. Deu um beijo na face para entregar o filho de Deus aos soldados romanos. Todo mundo se vingava do Judas quando no filme ele aparecia enforcado, o corpo do traidor balançando numa corda amarrada ao galho da árvore seca. Nessa hora, o cinema quase vinha abaixo com as vaias da plateia.

Tinha uma sensação na procissão da Sexta-Feira Santa que tudo era pecado, dor e lamentação pelo que fizeram a Jesus. A imagem de Nosso Senhor Morto era levada no andor pelas ruas principais da cidade sob os cantos que falavam de pesares e perdão:

Perdoai, Senhor,
Por piedade,
Perdoai-nos, Senhor,
Tanta maldade,
Antes morrer,
Antes morrer
Do que Vos ofender...


* Cyro de Mattos é escritor, poeta e advogado aposentado. Diplomado em capoeira regional pela escola de Mestre Bimba, em Salvador. Tem no prelo da Editora Mazza, de Belo Horizonte, o livro “Poemas de Terreiro e Orixás”.


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domingo, 31 de março de 2019

O DOSSIÊ DE AMÉLIA TAVARES AMADO – Antonio Baracho


Amélia Amado era uma mulher querida e admirada pela sociedade ilheense e itabunense. Torna-se uma figura proeminente no espaço público, estando seu nome listado como sócia benemérita de várias entidades itabunenses. Como base do seu plano firmado nos princípios da educação familiar, tomando-se um dos grandes ícones da educação regional. Assim é que revendo o dossiê do seu arquivo, extraio algumas palavras que poderiam envaidecer a mulher modesta que ela foi, mas que aí estão para nos orgulhar profundamente.

D. Amélia nasceu em 15 de julho de 1903, em Ilhéus-Ba, descendente de tradicional família ilheense, "os Berberts", filha de Manoel Misael da Silva Tavares e de D. Eufrosina Berbert Tavares. Faleceu em 27 de agosto de 1983, aos 80 anos de idade, em Itabuna. Passou toda a infância e adolescência na cidade de Ilhéus. Jovem irrequieta muito religiosa, Amélia Amado chegou a Itabuna no início do século 20, após ter se casado, com a idade de 17 anos, com Gileno Amado, advogado do seu pai, e teve duas filhas: Maria Célia e Neda Silva. O Dr. Gileno Amado já nessa época participava ativamente das atividades políticas partidárias da jovem Itabuna.

Dedicou-se por cerca de 20 anos às atividades de esposa, acompanhando Dr. Gileno na sua carreira política, e de mãe, dedicando-se à criação esmerada de suas filhas. Após o casamento de Célia e Neda, suas filhas, e estando Dr. Gileno afastado da política, resolve dedicar a herança recebida por ocasião do falecimento do pai para as obras sociais. Em 1946 apresenta à sociedade itabunense seu projeto de assistência social. Após o ano de 1946 realiza o seu sonho instalando solenemente a Ação Fraternal de Itabuna (AFI), como uma instituição de ensino em 13 de julho de 1947 localizado na sua própria residência em frente à praça Olinto Leoni. Inicialmente a instituição oferecia cursos profissionais: datilografia, costureira e tinha um curso de alfabetização chamado LEC (Ler, Escrever e Contar). Com o passar do tempo aumentou a demanda e a casa que ela ofereceu (sua residência) foi deixada só mesmo para a Ação Fraternal. E a partir de então foi morar na fazenda "Estância Santo Antônio", adquirida por seu esposo, localizada na BR-415 entre Ilhéus e Itabuna.

Posteriormente, foi adquirido o terreno que hoje funciona na Av. Amélia Amado, o colégio Ação Fraternal de Itabuna-AFI. Iniciando a construção em 1952.

Suas obras de caráter social foram reconhecidas, inclusive pelo Papa Pio XII, que em 1956 lhe concedeu o Grau de Comendador do Vaticano, recebendo a comenda pelas mãos do então bispo de Ilhéus, Dom Rezende Costa, em 15 de julho de 1957, exatamente no dia do seu aniversário. Recebeu também o título de Cidadã Itabunense, concedido pela Câmara de Vereadores de Itabuna.

Destacam-se dentre as suas obras:
A criação do Colégio Ação Fraternal, iniciada em 1947 e concluída com a sagração da capela em 13 de julho de 1959;

A fundação da Faculdade de Filosofia em 1960;

A instalação do primário e ginásio de Jussari e da Matriz Nossa Senhora das Candeias;

E o Teatro Estudantil de Itabuna.

D. Amélia Amado e o marido Gileno Amado foram inovadores em reforma agrária na região cacaueira, pois costumavam indenizar e ou aposentar seus funcionários comprando para eles pequenas roças, muito antes das leis trabalhistas existirem. Os seus agregados eram tratados como se da família fossem, pois eram ajudados para que pudessem viver com suas próprias rendas. Eram mantidos ainda serviços de atendimento médico, cestas básicas e de tecido para as famílias dos trabalhadores, bem como seguros de acidentes, escolas e bolsas de estudo.

Esta história consagradora provinda do nosso mundo intelectual e de uma mulher que revolucionou o seu tempo, ficará gravada no meu coração que jamais se cansará de reverenciar a memória de AMÉLIA AMADO.
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Antônio Baracho, Poeta Psicólogo.
Pertence a Academia Grapiúna de Letras- AGRAL e ao Clube do Poeta Sul da Bahia.
Tel. (73) 98801-1224 / 99102-7937

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (124)


4º Domingo da Quaresma – 31/03/2019

 Anúncio do Evangelho (Lc 15,1-3.11-32)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. Então Jesus contou-lhes esta parábola:
“Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles.
Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade.
Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam.
Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’.
Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos.
O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa.
O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo.
O criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’.
Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado’.
Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Frei Gustavo Medella:

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Descobrir o Pai que nos habita
o retorno do filho pródigo – Murilo

“Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e foi tomado de compaixão.
 Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos” (Lc 15,20). 

As parábolas mais belas que saíram dos lábios de Jesus, elaboradas nas profundezas de seu coração, foram aquelas nas quais deixou transparecer a todos a incrível misericórdia de Deus. A mais cativante, com certeza, é a parábola do “pai misericordioso”. Aqueles que a escutaram pela primeira vez certamente ficaram surpreendidos. Não era isto o que eles ouviam dos escribas ou dos sacerdotes. A insistência “moralista” no pecado nos fez interpretar esta parábola de uma maneira unilateral. É incorreto chamar o relato de “parábola do filho pródigo”. Ela não é dirigida aos pecadores para que se arrependam, mas aos fariseus e mestres da lei para que mudem sua ideia e imagem de Deus. 

Nesta parábola, Jesus justifica sua postura para com os publicanos e pecadores, desvelando quem é o Deus de misericórdia para todos nós, sejamos “bons” e “maus”. Na maneira de atuar com os dois filhos, o pai da parábola torna visível o rosto do Deus compassivo revelado por Jesus e não o “deus legalista do templo”; a maneira como Jesus acolhe os pecadores e excluídos, torna presente o Deus que ama a todos indistintamente. 

Jesus não fala nunca de um Deus indiferente ou distante, esquecido de suas criaturas ou interessado por sua honra, sua glória ou seus direitos.  No centro de sua experiência religiosa não nos encontramos com um Deus “legislador” procurando governar o mundo por meio de leis, nem com um Deus “justiceiro”, irritado ou irado diante dos pecados dos seus filhos e filhas. Para Jesus, Deus é compaixão, e a compaixão é o modo de ser de Deus, sua primeira reação diante de suas criaturas, sua maneira de ver a vida e de olhar às pessoas, o que move e dirige toda sua atuação. Deus sente para com suas criaturas o que uma mãe sente para com o filho que leva em seu ventre. Deus nos carrega em suas entranhas misericordiosas.

A compreensão da “parábola do amor paterno-materno de Deus” pode ser para nós uma verdadeira iluminação. Ela revela não só o “coração compassivo” de Deus, mas também vemos, refletida nela, de maneira sublime, tudo o que devemos aprender sobre o “falso eu” e o nosso verdadeiro ser. Os três personagens representam diferentes aspectos de nós mesmos.

A “parábola dos dois filhos” trata de uma denúncia implacável contra a espiritualidade farisaica. Em primeiro lugar, tanto o filho mais novo como o primogênito habitam em cada um de nós; podemos encontrar em cada um deles, elementos que nos levem a identificar-nos com ambos.

Temos considerado a parábola como dirigida aos “filhos pródigos”. O “filho mais novo” simboliza nossa natureza egocêntrica e narcisista que nos domina enquanto não descubramos o que realmente somos. Dá por suposto que todos temos muito do filho mais novo, que é aquele que rompeu a aliança e se distanciou da casa paterna. A verdade é que a atitude do filho mais velho também deveria ser objeto de uma atenção mais cuidada. É relativamente fácil sentir-nos “filho pródigo”. É fácil tomar consciência de ter di-lapidado um capital que nos foi entregue sem ter merecido. É fácil cair na conta que temos rompido com o pai e com a casa, que temos desejado que ele estivesse morto para herdar seus bens, temos renegado o entorno no qual se desenvolveu nossa existência. Tudo para potenciar nosso egoísmo, para satisfazer nosso hedonismo à custa daquilo que nos foi entregue com amor. O fracasso do filho mais novo e a desesperada situação à qual chegou, facilita a tomada de consciência de que tomou o caminho equivocado. 

É difícil descobrir em nós o “irmão mais velho” e, no entanto, todos temos mais traços deste que do filho mais moço. Com frequência, não entendemos o perdão do Pai para com os pródigos, nos irrita que outra pessoa que se comportou mal seja tão querida como nós; não percebemos que rejeitar o irmão é rejeitar o Pai; caímos facilmente na queixa que envenena e no julgamento que mata. Não só não nos sentimos identificados com o Pai, mas buscamos, por todos os meios, que o Pai se identifique conosco; coisa que não se passa na cabeça do irmão mais novo. A partir desta perspectiva, tampouco descobrimos que precisamos de conversão e temos de regressar ao Pai. Por isso, a parábola deixa em um suspense inquietante a resposta do irmão maior; não nos diz se ele acolheu o apelo do Pai e se incorporou à festa. Isto nos faz pensar. 

A descoberta de que somos o irmão mais novo e, ao mesmo tempo, o irmão mais velho, nos faz perceber o objetivo da parábola, que é o Pai. Todo temos de deixar de ser “irmão mais novo” e “irmão mais velho” para converter-nos finalmente em “Pai”. 

Todos somos chamados a deixar de ser irmãos e identificar-nos com o Pai, como Jesus (aqui podemos descobrir um profundo significado da frase de Jesus: “Eu e o Pai somos Um”). Nossa maturação pessoal acontece quando deixamos transparecer em nós a figura do Pai. “Sede misericordiosos como vosso pai é misericordioso”. A parábola de hoje nos faz tomar consciência que sempre haverá, em nossa vida, etapas a serem superadas, na direção do coração compassivo do Pai. 

Permanecer distanciados de nosso verdadeiro ser é afastar-nos de Deus e caminhar na direção oposta à nossa plenitude. Daí a necessidade de interpretar a parábola não a partir da perspectiva de um Deus externo a nós, mas a partir da perspectiva de um Deus que se revela dentro de nós mesmos. Nós mesmos somos o Pai/Mãe que perdoa, acolhe e integra tudo o que há em nós de fragilidade e engano. Ser verdadeiro(a) filho(a) não é viver submetido ao pai ou afastado dele, mas imitá-lo até identificar-nos com ele. 

O “pai” é nosso verdadeiro ser, nossa natureza essencial, o divino que há em nós. É a realidade que temos de descobrir no fundo de nosso ser. Não faz referência a um Deus que nos ama a partir de fora, mas ao que há de Deus em nós, formando parte de nós mesmos. É o fogo do amor compassivo que derrete a frieza nos nossos relacionamentos, queima toda pretensão de julgamento e intolerância, e ativa o impulso ao contínuo retorno à casa paterna.  Essa realidade fundante tudo abarca e tudo integra nela mesma.

Para re-descobrir o(a) “pai-mãe que nos habita”, não supõe ignorar nossa condição de “irmão mais novo” e “mais velho”; é preciso aceitá-la, é preciso saber conviver com o que ainda há em nós de fragilidade e imperfeição. Devemos buscar superá-la, mas enquanto esse momento não chega, é preciso aceitá-la e ultrapassá-la, ativando o amor incondicional do Pai. Tanto o irmão mais novo como o irmão mais velho que há em cada um de nós, deve ser objeto do mesmo amor. A parábola não exige de nós uma perfeição absoluta, mas que caiamos na conta de que nos resta um longo caminho a percorrer. O que ela pretende é colocar-nos no caminho da verdadeira conversão: a superação do auto-centramento e do perfeccionismo. 

Falta-nos dar o último passo no desprendimento do ego e para nos identificar com o que há de divino em nós, o Pai. 

Texto bíblico:  Lc 15,1-3.11-32

Na oração: “Eu e o Pai somos Um”: é a melhor expressão de quem foi Jesus.
Você também é “Um com Deus”, mas talvez não tenha se inteirado disto; descubra-o e esta frase saltará do mais profundo do seu ser.

- Descubra o que há em você do irmão mais novo: deixar-se levar pelo hedonismo individualista, buscar o mais fácil, o mais cômodo, o que o corpo pede... Seu objetivo é satisfazer as exigências de seu falso “eu”.

- Descubra o que há em você de irmão mais velho: distante do coração do pai, fechado na queixa amarga e incapaz de expressar um gesto de acolhida.

- Descubra as marcas do Deus Pai/Mãe nas profundezas de seu ser: cheio de compaixão, festeiro, aberto à vida... 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

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