A tristeza estava nos ares por onde a procissão passava com
o corpo de Nosso Senhor Morto deitado na cama, as pessoas sofrendo pelas pedras
do caminho. Gente acompanhava a procissão descalça para pagar alguma promessa
em razão da graça alcançada através da bondade do Cristo Salvador. Dona Olívia,
a mulher do dono do hotel, vestida num comprido vestido roxo, que tocava os
pés, os cabelos compridos caindo nas costas, fazia o papel de Maria Madalena. A
matraca tocava, a procissão parava enquanto ela exibia o rosto do Cristo no
sudário.
Numa voz doída, ela arrancava suspiros e lágrimas dos fiéis,
calados, rostos contritos, naquele trecho de rua em que a procissão parava.
Pai Salvador,
Misericordioso,
Toca no meu peito
O sofrimento teu.
Fadiga, sede, fome.
Cuspe, espinho, sangue.
Chicotada, prego
Madeira feita cruz,
Meu Pai, perdoai
Os pecados meus.
Naquele ano, em que caiu uma chuva rala durante a procissão,
usava as botinas novas que minha mãe presenteou-me no aniversário. A procissão
voltava pela avenida do comércio depois de percorrer algumas ruas próximas ao
centro da cidade. A imagem de Nosso Senhor Morto já ia entrar na igreja para
ser colocada no altar quando a beata Detinha teve uma crise de nervos, chegando
a desmaiar. O padre passou um pouco de água benta na testa da beata, rezou e
pediu que os fiéis cantassem com fervor. Os cantos entoados na pequena praça
repleta de gente acordaram a beata, que começou a chorar alto e ao mesmo tempo agradecer ao Jesus Salvador por
ter ali mesmo tirado dela os maus pensamentos e perdoado seus pecados.
No dia de procissão havia tanta gente na igreja e na praça
que uma agulha não cabia lá dentro nem no lado de fora. As botinas novas
apertavam os meus pés. Então pedi à minha mãe que me deixasse ir embora para
casa, não queria ficar para ouvir a fala do padre encerrando a procissão. “Os
calos estão doendo muito, não aguento mais”, disse aporrinhado, ameaçando
chorar. Ela ordenou baixinho no meu ouvido que ficasse comportado,
acrescentando que a procissão já estava chegando ao fim.
Preferi não obedecer minha mãe. Esperei que ela se
ajoelhasse com os demais fiéis na igreja para fazer a oração do
creio-em-deus-pai, de olhos fechados, para apressado tirar dos meus pés as
botinas. Em casa disse à minha mãe que tinha resolvido agir daquela maneira
porque não suportava mais as botinas apertadas queimando meus dedos. Tive que
tirá-las para evitar que acontecesse comigo uma situação pior do que a da beata
Detinha. Como ela, desmaiaria ali mesmo na igreja. Mas a água benta que o padre
passaria na minha testa, as orações e os cantos entoados com fervor pelos fiéis
pouco iriam adiantar para que eu não ficasse desmaiado durante muito tempo.
Claro que minha mãe compreendeu. Em vez de sermão, da sua
voz bondosa escutei que eu não me preocupasse. Não ia calçar mais aquelas
botinas apertadas. Mas uma vizinha da casa em frente, que sempre estava de
mal-estar com a vida, disse à minha mãe que não aprovava o meu procedimento,
observando que se fosse com um filho dela receberia um castigo. Achava que
menino mimado daquele jeito poderia não ser um homem de temperamento forte no
futuro.
*Cyro de Mattos é escritor, poeta e advogado aposentado.
Diplomado em capoeira regional pela Escola de Capoeira do Mestre Bimba, em
Salvador, 1960. Tem no prelo da Editora Mazza, de Belo Horizonte, o livro
“Poemas de Terreiro e Orixás”.
O Acadêmico, diplomata, escritor e ex-ministro Celso
Lafer fala, na Academia Brasileira de Letras, sobre Rui Barbosa (um dos fundadores
da ABL), na palestra de encerramento do ciclo de conferências intitulado Presenças
fundamentais, sob coordenação do Presidente Marco Lucchesi. O tema escolhido
foi Rui Barbosa, 170 anos. Dimensão da atualidade do seu percurso. O
evento está programado para quinta-feira, dia 4 de abril, às 17h30min, no
Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de
Janeiro. Entrada franca.
Serão fornecidos certificados de frequência.
A Acadêmica Ana Maria Machado é a Coordenadora-Geral dos
ciclos de conferências de 2019.
Nas próximas quintas-feiras de abril, a ABL terá mais um
ciclo de conferências, intitulado A educação no Brasil hoje, sob
coordenação do Acadêmico e educador Arnaldo Niskier. Serão três palestras, no mesmo
local, nos seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 11,
Carlos Alberto Serpa, Análise crítica do ensino superior brasileiro; 18,
Simon Schwartzman, Perspectivas do novo ensino médio brasileiro; e 25,
Celso Niskier, Os desafios da educação a distância.
O CONFERENCISTA
Celso Lafer, quinto ocupante da cadeira 14 da ABL, exerce
atualmente a função de professor titular do Departamento de Filosofia e Teoria
Geral do Direito da USP, onde leciona desde 1971. É PhD em Ciência Política na
Universidade de Cornell, EUA, e livre-docência em Direito Internacional Público
na Faculdade de Direito da USP. Foi Ministro das Relações Exteriores, em 1992,
e Vice-Presidente, ex-officio, da Conferência da ONU sobre Meio-Ambiente e
Desenvolvimento, na Rio-92. Em 1999, foi Ministro do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio, e, de 1995 a 1998, embaixador na Missão Permanente do Brasil junto
às Nações Unidas e à Organização Mundial do Comércio, em Genebra.
Entre suas inumeras publicações, estão: O Sistema
Político Brasileiro, Estrutura e Processo; O Convênio do Café de 1976: da
Reciprocidade no Direito Internacional Econômico; Gil Vicente e
Camões; Hannah Arendt: Persamento, persuação e poder; O Direito e o
Estado Moderno; Política Externa Brasileira: três momentos; A
Internacionalização dos Direitos Humanos – Constituição,Racismo e Relações
Internacionais.
4) O Google faliu a Listel, Páginas Amarelas e as enciclopédias;
5) O Airbnb está complicando os hotéis;
6) O WhatsApp está complicando as operadoras de telefonia;
7) As Mídias Sociais estão complicando os veículos de
comunicação;
O Uber está complicando os taxistas;
9) A OLX acabou com os classificados de jornal;
10) O Smartphone acabou com as revelações fotográficas e com
as câmeras amadoras;
11) O Zip Car está complicando as locadoras de veículos;
12) A Tesla está complicando a vida das montadoras de
automóveis;
13) O E-mail e a má gestão complicaram os Correios;
14) O Waze acabou com o GPS;
15) O Original e o Nubank ameaçam o sistema bancário
tradicional;
16) A Nuvem complicou a vida dos Pen drive;
17) O Youtube complica a vida das tvs. Adolescentes não
assistem mais canais abertos;
18) O Facebook complicou a vida dos portais de conteúdo;
19) O Coaching mudou a forma de aprender, pensar e agir,
levando a um novo modelo mental, gerando resultados extraordinários em um curto
espaço de tempo nas organizações;
20) O Tinder e similares complicando baladas e
"similares";
21) Com o Banco Online não precisa mais ir até às agências;
E você acha que vai durar quanto tempo seu emprego na forma
atual?
...e você quer viver como vivia há 10 anos?
Temos que nos reinventar diariamente para continuarmos nesse
"jogo" chamado vida.
VAMOS EM FRENTE... Não porque atrás vem gente..., Mas,
porque já tem muita gente na nossa frente!
Delegações perfiladas no Fest Natação de 2018 no CISO.
A União das Escolas de Natação de Itabuna, UENI, acaba de
divulgar que a 1ª etapa do ano do XI Fest Natação será em 13/04, um sábado à
tarde, no Parque Aquático do Colégio CISO em Itabuna. Já estão programadas
provas nas seguintes modalidades:
Espaguete: 25 m
Nado Livre: 25 m, 50 m e 400 m
Nado Costas: 25 e 50 m
Nado Medley: 200 m
Revezamento: 4 x 50 m
A competição contará com atletas nacionais de ponta e nomes
de destaque da natação baiana. Cidades como Vitória da Conquista, Porto Seguro,
Jequié, Ilhéus, Camamu, Ubaitaba e Valença já receberam convite para
participar, aguardando-se apenas a confirmação delas, além das escolas de
Itabuna. A previsão é de que 140 nadadores participem, representando 15
instituições esportivas.
Assim como nos eventos anteriores, não haverá cobrança de
ingresso. A entrada no CISO será liberada para todos os amigos da natação e dos
nadadores.
O colégio dispõe de serviço de lanchonete no próprio Parque
Aquático, que fica na Rua Francisco Ferreira (travessa da Av. Juracy Magalhães,
início da estrada para Ilhéus), nº 76, bairro Fátima, Itabuna. O telefone do
colégio é (73) 3613-9035.
Todos os santos na igreja eram cobertos com um pano roxo na
Semana Santa, menos Jesus Cristo. Era proibido comer carne vermelha e beber
leite. A refeição matinal era com café e pão. À noite, a refeição era a mesma. Ainda
bem que tinha um pouco de arroz e peixe no almoço. Sempre achava um jeito de
chupar uma manga, um pedaço de melancia ou laranja para tapear a barriga e não
sucumbir à fome. Fazia isso com cuidado, sem que minha mãe soubesse. Ela dizia
que as pessoas deviam jejuar na Semana Santa, em sinal de amor e respeito à
morte do Cristo. O jejum era só naquela semana, passava logo, ninguém ia morrer
por isso.
O comércio cerrava as portas na quinta e sexta-feira.
Ninguém trabalhava nesses dias. A mãe falou que um homem entendeu de tirar
leite da vaca na Sexta-Feira Santa para tomar no café da manhã. Quando ele
começou a puxar as tetas da vaca, só saía sangue em vez de leite. Aquilo era um
sinal do céu para que o homem respeitasse o dia em que Jesus Cristo, o bem-amado
salvador da humanidade, foi crucificado sem piedade pelos homens.
Parecia que toda a cidade amanhecia vestida de roxo na
Semana Santa, principalmente na Sexta-Feira. Assistia ao filme sobre a vida,
paixão e morte de Jesus Cristo na matinê da Quinta-Feira Santa do Cine Itabuna.
As pessoas saíam cabisbaixas do cinema quando o filme acabava. Ninguém se
conformava com o que fizeram com Jesus, que foi coroado com uma coroa de
espinho, depois de ser cuspido e chicoteado. Para não se falar na cruz pesada
que o pobre coitado carregara pelas ruas. Não satisfeitos com tanta judiação
ainda pregaram o filho de Deus na cruz de maneira cruel. Em vez de água, quando
Ele pediu, deram vinagre e, por último, enfiaram uma lança no coração. Era
demais o sofrimento de Jesus, muita gente chorava.
E tudo por causa do Judas, que traiu Jesus por um saquinho
de dinheiro em moedas. O Judas passava como um dos apóstolos de Jesus, mas se
rendeu à tentação do dinheiro. Deu um beijo na face para entregar o filho de
Deus aos soldados romanos. Todo mundo se vingava do Judas quando no filme ele
aparecia enforcado, o corpo do traidor balançando numa corda amarrada ao galho
da árvore seca. Nessa hora, o cinema quase vinha abaixo com as vaias da
plateia.
Tinha uma sensação na procissão da Sexta-Feira Santa que
tudo era pecado, dor e lamentação pelo que fizeram a Jesus. A imagem de Nosso
Senhor Morto era levada no andor pelas ruas principais da cidade sob os cantos
que falavam de pesares e perdão:
Perdoai, Senhor,
Por piedade,
Perdoai-nos, Senhor,
Tanta maldade,
Antes morrer,
Antes morrer
Do que Vos ofender...
* Cyro de Mattos é escritor, poeta e advogado aposentado.
Diplomado em capoeira regional pela escola de Mestre Bimba, em Salvador. Tem no
prelo da Editora Mazza, de Belo Horizonte, o livro “Poemas de Terreiro e
Orixás”.
Amélia Amado era uma mulher querida e admirada pela
sociedade ilheense e itabunense. Torna-se uma figura proeminente no espaço
público, estando seu nome listado como sócia benemérita de várias entidades
itabunenses. Como base do seu plano firmado nos princípios da educação
familiar, tomando-se um dos grandes ícones da educação regional. Assim é que
revendo o dossiê do seu arquivo, extraio algumas palavras que poderiam
envaidecer a mulher modesta que ela foi, mas que aí estão para nos orgulhar
profundamente.
D. Amélia nasceu em 15 de julho de 1903, em Ilhéus-Ba,
descendente de tradicional família ilheense, "os Berberts", filha de
Manoel Misael da Silva Tavares e de D. Eufrosina Berbert Tavares. Faleceu em 27
de agosto de 1983, aos 80 anos de idade, em Itabuna. Passou toda a infância e
adolescência na cidade de Ilhéus. Jovem irrequieta muito religiosa, Amélia
Amado chegou a Itabuna no início do século 20, após ter se casado, com a idade
de 17 anos, com Gileno Amado, advogado do seu pai, e teve duas filhas: Maria
Célia e Neda Silva. O Dr. Gileno Amado já nessa época participava ativamente das
atividades políticas partidárias da jovem Itabuna.
Dedicou-se por cerca de 20 anos às atividades de esposa,
acompanhando Dr. Gileno na sua carreira política, e de mãe, dedicando-se à
criação esmerada de suas filhas. Após o casamento de Célia e Neda, suas filhas,
e estando Dr. Gileno afastado da política, resolve dedicar a herança recebida
por ocasião do falecimento do pai para as obras sociais. Em 1946 apresenta à
sociedade itabunense seu projeto de assistência social. Após o ano de 1946
realiza o seu sonho instalando solenemente a Ação Fraternal de Itabuna (AFI),
como uma instituição de ensino em 13 de julho de 1947 localizado na sua própria
residência em frente à praça Olinto Leoni. Inicialmente a instituição oferecia
cursos profissionais: datilografia, costureira e tinha um curso de
alfabetização chamado LEC (Ler, Escrever e Contar). Com o passar do tempo
aumentou a demanda e a casa que ela ofereceu (sua residência) foi deixada só
mesmo para a Ação Fraternal. E a partir de então foi morar na fazenda "Estância
Santo Antônio", adquirida por seu esposo, localizada na BR-415 entre
Ilhéus e Itabuna.
Posteriormente, foi adquirido o terreno que hoje funciona na Av. Amélia Amado, o colégio Ação Fraternal de Itabuna-AFI. Iniciando a
construção em 1952.
Suas obras de caráter social foram reconhecidas, inclusive
pelo Papa Pio XII, que em 1956 lhe concedeu o Grau de Comendador do Vaticano,
recebendo a comenda pelas mãos do então bispo de Ilhéus, Dom Rezende Costa, em
15 de julho de 1957, exatamente no dia do seu aniversário. Recebeu também o
título de Cidadã Itabunense, concedido pela Câmara de Vereadores de Itabuna.
Destacam-se dentre as suas obras:
A criação do Colégio Ação Fraternal, iniciada em 1947 e
concluída com a sagração da capela em 13 de julho de 1959;
A fundação da Faculdade de Filosofia em 1960;
A instalação do primário e ginásio de Jussari e da Matriz
Nossa Senhora das Candeias;
E o Teatro Estudantil de Itabuna.
D. Amélia Amado e o marido Gileno Amado foram inovadores em
reforma agrária na região cacaueira, pois costumavam indenizar e ou aposentar
seus funcionários comprando para eles pequenas roças, muito antes das leis
trabalhistas existirem. Os seus agregados eram tratados como se da família
fossem, pois eram ajudados para que pudessem viver com suas próprias rendas.
Eram mantidos ainda serviços de atendimento médico, cestas básicas e de tecido
para as famílias dos trabalhadores, bem como seguros de acidentes, escolas e
bolsas de estudo.
Esta história consagradora provinda do nosso mundo intelectual
e de uma mulher que revolucionou o seu tempo, ficará gravada no meu coração que
jamais se cansará de reverenciar a memória de AMÉLIA AMADO.
............
Antônio Baracho, Poeta Psicólogo.
Pertence a Academia Grapiúna de Letras- AGRAL e ao Clube do Poeta
Sul da Bahia.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se
de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei
criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com
eles”. Então Jesus contou-lhes esta parábola:
“Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao
pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre
eles.
Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e
partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando
tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele
começou a passar necessidade.
Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou
para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a comida
que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam.
Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm
pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar
para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não
mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’.
Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava
longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o,
e cobriu-o de beijos.
O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra
ti. Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor
túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos
pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque
este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’.
E começaram a festa.
O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de
casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e
perguntou o que estava acontecendo.
O criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o
novilho gordo, porque o recuperou com saúde’.
Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo,
insistia com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há
tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um
cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho,
que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado’.
Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e
tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este
teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Frei Gustavo
Medella:
---
Descobrir o Pai que nos habita
o retorno do filho pródigo – Murilo
“Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e foi tomado
de compaixão.
Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos” (Lc
15,20).
As parábolas mais belas que saíram dos lábios de Jesus,
elaboradas nas profundezas de seu coração, foram aquelas nas quais deixou
transparecer a todos a incrível misericórdia de Deus. A mais cativante, com
certeza, é a parábola do “pai misericordioso”. Aqueles que a escutaram pela
primeira vez certamente ficaram surpreendidos. Não era isto o que eles ouviam
dos escribas ou dos sacerdotes. A insistência “moralista” no pecado nos fez
interpretar esta parábola de uma maneira unilateral. É incorreto chamar o
relato de “parábola do filho pródigo”. Ela não é dirigida aos pecadores para
que se arrependam, mas aos fariseus e mestres da lei para que mudem sua ideia e
imagem de Deus.
Nesta parábola, Jesus justifica sua postura para com os
publicanos e pecadores, desvelando quem é o Deus de misericórdia para todos
nós, sejamos “bons” e “maus”. Na maneira de atuar com os dois filhos, o pai da
parábola torna visível o rosto do Deus compassivo revelado por Jesus e não o
“deus legalista do templo”; a maneira como Jesus acolhe os pecadores e
excluídos, torna presente o Deus que ama a todos indistintamente.
Jesus não fala nunca de um Deus indiferente ou distante,
esquecido de suas criaturas ou interessado por sua honra, sua glória ou seus
direitos. No centro de sua experiência religiosa não nos encontramos com
um Deus “legislador” procurando governar o mundo por meio de leis, nem com um
Deus “justiceiro”, irritado ou irado diante dos pecados dos seus filhos e
filhas. Para Jesus, Deus é compaixão, e a compaixão é o modo de ser de Deus,
sua primeira reação diante de suas criaturas, sua maneira de ver a vida e de
olhar às pessoas, o que move e dirige toda sua atuação. Deus sente para com
suas criaturas o que uma mãe sente para com o filho que leva em seu ventre.
Deus nos carrega em suas entranhas misericordiosas.
A compreensão da “parábola do amor paterno-materno de Deus”
pode ser para nós uma verdadeira iluminação. Ela revela não só o “coração
compassivo” de Deus, mas também vemos, refletida nela, de maneira sublime, tudo
o que devemos aprender sobre o “falso eu” e o nosso verdadeiro ser. Os três
personagens representam diferentes aspectos de nós mesmos.
A “parábola dos dois filhos” trata de uma denúncia
implacável contra a espiritualidade farisaica. Em primeiro lugar, tanto o filho
mais novo como o primogênito habitam em cada um de nós; podemos encontrar em
cada um deles, elementos que nos levem a identificar-nos com ambos.
Temos considerado a parábola como dirigida aos “filhos
pródigos”. O “filho mais novo” simboliza nossa natureza egocêntrica e
narcisista que nos domina enquanto não descubramos o que realmente somos. Dá
por suposto que todos temos muito do filho mais novo, que é aquele que rompeu a
aliança e se distanciou da casa paterna. A verdade é que a atitude do filho
mais velho também deveria ser objeto de uma atenção mais cuidada. É
relativamente fácil sentir-nos “filho pródigo”. É fácil tomar consciência de
ter di-lapidado um capital que nos foi entregue sem ter merecido. É fácil cair
na conta que temos rompido com o pai e com a casa, que temos desejado que ele
estivesse morto para herdar seus bens, temos renegado o entorno no qual se
desenvolveu nossa existência. Tudo para potenciar nosso egoísmo, para
satisfazer nosso hedonismo à custa daquilo que nos foi entregue com amor. O
fracasso do filho mais novo e a desesperada situação à qual chegou, facilita a
tomada de consciência de que tomou o caminho equivocado.
É difícil descobrir em nós o “irmão mais velho” e, no
entanto, todos temos mais traços deste que do filho mais moço. Com frequência,
não entendemos o perdão do Pai para com os pródigos, nos irrita que outra
pessoa que se comportou mal seja tão querida como nós; não percebemos que
rejeitar o irmão é rejeitar o Pai; caímos facilmente na queixa que envenena e
no julgamento que mata. Não só não nos sentimos identificados com o Pai, mas
buscamos, por todos os meios, que o Pai se identifique conosco; coisa que não
se passa na cabeça do irmão mais novo. A partir desta perspectiva, tampouco
descobrimos que precisamos de conversão e temos de regressar ao Pai. Por isso,
a parábola deixa em um suspense inquietante a resposta do irmão maior; não nos
diz se ele acolheu o apelo do Pai e se incorporou à festa. Isto nos faz
pensar.
A descoberta de que somos o irmão mais novo e, ao mesmo
tempo, o irmão mais velho, nos faz perceber o objetivo da parábola, que é o
Pai. Todo temos de deixar de ser “irmão mais novo” e “irmão mais velho” para
converter-nos finalmente em “Pai”.
Todos somos chamados a deixar de ser irmãos e
identificar-nos com o Pai, como Jesus (aqui podemos descobrir um profundo
significado da frase de Jesus: “Eu e o Pai somos Um”). Nossa maturação pessoal
acontece quando deixamos transparecer em nós a figura do Pai. “Sede
misericordiosos como vosso pai é misericordioso”. A parábola de hoje nos faz
tomar consciência que sempre haverá, em nossa vida, etapas a serem superadas,
na direção do coração compassivo do Pai.
Permanecer distanciados de nosso verdadeiro ser é
afastar-nos de Deus e caminhar na direção oposta à nossa plenitude. Daí a
necessidade de interpretar a parábola não a partir da perspectiva de um Deus
externo a nós, mas a partir da perspectiva de um Deus que se revela dentro de
nós mesmos. Nós mesmos somos o Pai/Mãe que perdoa, acolhe e integra tudo o que
há em nós de fragilidade e engano. Ser verdadeiro(a) filho(a) não é viver
submetido ao pai ou afastado dele, mas imitá-lo até identificar-nos com
ele.
O “pai” é nosso verdadeiro ser, nossa natureza essencial, o
divino que há em nós. É a realidade que temos de descobrir no fundo de nosso
ser. Não faz referência a um Deus que nos ama a partir de fora, mas ao que há
de Deus em nós, formando parte de nós mesmos. É o fogo do amor compassivo que
derrete a frieza nos nossos relacionamentos, queima toda pretensão de
julgamento e intolerância, e ativa o impulso ao contínuo retorno à casa
paterna. Essa realidade fundante tudo abarca e tudo integra nela mesma.
Para re-descobrir o(a) “pai-mãe que nos habita”, não supõe
ignorar nossa condição de “irmão mais novo” e “mais velho”; é preciso
aceitá-la, é preciso saber conviver com o que ainda há em nós de fragilidade e
imperfeição. Devemos buscar superá-la, mas enquanto esse momento não chega, é
preciso aceitá-la e ultrapassá-la, ativando o amor incondicional do Pai. Tanto
o irmão mais novo como o irmão mais velho que há em cada um de nós, deve ser
objeto do mesmo amor. A parábola não exige de nós uma perfeição absoluta, mas
que caiamos na conta de que nos resta um longo caminho a percorrer. O que ela
pretende é colocar-nos no caminho da verdadeira conversão: a superação do auto-centramento
e do perfeccionismo.
Falta-nos dar o último passo no desprendimento do ego e para
nos identificar com o que há de divino em nós, o Pai.
Texto bíblico: Lc 15,1-3.11-32
Na oração: “Eu e o Pai somos Um”: é a melhor expressão
de quem foi Jesus.
Você também é “Um com Deus”, mas talvez não tenha se
inteirado disto; descubra-o e esta frase saltará do mais profundo do seu ser.
- Descubra o que há em você do irmão mais novo: deixar-se
levar pelo hedonismo individualista, buscar o mais fácil, o mais cômodo, o que
o corpo pede... Seu objetivo é satisfazer as exigências de seu falso “eu”.
- Descubra o que há em você de irmão mais velho: distante do
coração do pai, fechado na queixa amarga e incapaz de expressar um gesto de
acolhida.
- Descubra as marcas do Deus Pai/Mãe nas profundezas de seu
ser: cheio de compaixão, festeiro, aberto à vida...