Conduzidos pela professora Bilba, os alunos da segunda série
do ensino fundamental da Escola Eliezer Max, do Rio de Janeiro, submeteram este
autor a uma inteligente sabatina, com perguntas de todos os calibres. É verdade
que o sr. nasceu em Pilares e que os seus pais eram poloneses? Por que vieram
para o Brasil?
Tive que explicar o que era o nazismo na Europa e a terrível
perseguição aos judeus. Estudei em escolas públicas e delas não saí nem quando
passei à vida universitária, toda ela realizada na Universidade do Estado do
Rio de Janeiro, onde me formei em Matemática e Pedagogia. Porque escolhi a
profissão do magistério e, nos primeiros tempos, a minha matéria preferida era
a Matemática. Tive que explicar a influência dos meus irmãos mais velhos, dois
dos quais eram engenheiros.
Quando escrevi o primeiro livro? Foi em 1964 e o título, “Administração
Escolar”. Tinha acabado de fazer um concurso na UERJ e uma editora de Porto
Alegre (Tabajara) me ofereceu para publicar a tese, o que aceitei de imediato.
Depois, em parceria com a minha colega, professora Beatriz Helena Magno,
resolvi elaborar a coleção de livros de Matemática para o ensino fundamental
(“A Nova Matemática”), por Bloch Editores, um sucesso incomparável. Vendemos
cerca de 10 milhões de livros, muitos dos quais para o programa do livro
didático do MEC.
Hoje, escrevo uma crônica semanal que é distribuída para 13
jornais do país inteiro. O tema costuma ser educação, sem dúvida a minha grande
preferência. Quando chego a 100 artigos, reúno e faço um livro, como vai
acontecer com o próximo: “Identidade Brasil”. Espero que saia até o final do
ano.
A garotada queria saber quais os últimos livros lidos. Levei
um susto quando falei no “Homo Deus”, de Yuval Harari, e um menino de óculos
disse que era a obra que estava sendo lida por seu pai, como se já estivesse
familiarizado com esse bestseller. Tão cedo!
A turma ficou espantada quando contei que já tinha escrito
mais de 100 livros, a maioria para crianças. Por que essa preferência? Tive que
explicar a minha admiração desde cedo por Monteiro Lobato e, consequentemente,
a sua influência sobre o meu trabalho.
Alguns meninos queriam saber também o que representou ser
secretário de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, que fui em dois mandatos. O
Rio tem muitas escolas e é preciso que elas sejam devidamente administradas. Já
as meninas estavam mais interessadas na minha vida acadêmica. Quando disse que
já estava há 34 anos na Academia Brasileira de Letras, de onde hoje sou o
vice-decano, houve uma certa comoção, sobretudo quando citei o prazer de
conviver com autores como Jorge Amado. É mesmo? – perguntou uma lourinha, como
se não estivesse acreditando.
Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL,
eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17
de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos
Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia
Brasileira de Letras em 1998 e 1999.
Saiba mais sobre a vida de Santa Mônica - A Padroeira das
mães cristãs
Em 27 de Agosto comemora-se o dia de Santa Mônica,
famosa entre as mães cristãs pela sua perseverança, amor, devoção e fé. Ficou
vários dias em oração para conseguir converter seu filho mais velho, Santo
Agostinho, e com sucesso em seu pedido dedicou tudo para lhe ensinar o que
aprendeu ao decorrer de sua vida.
Deus sabe o que cada filho precisa e deve encontrar na vida,
e é baseado nisso que O procuramos para que seja feita a Vossa vontade. Um
canal que transmite nossa energia ao encontro do Pai é o elo estabelecido por
meio dos Salmos e orações.
História de Santa Mônica
Mônica nasceu em 332, na África. Filha de família abastada,
foi criada por uma escrava. Segundo os manuscritos desde criança sempre foi
muito religiosa e dedicava a vida sempre a ajudar os pobres com paciência, amor
e carinho.
Mônica casou-se com Patrício, um nobre conhecido na época,
mas infelizmente sofreu muito, porque ele era um homem rude e violento.
Após algum tempo, Mônica teve 3 filhos: Agostinho, Perpétua
e Navigio. Mas Agostinho que era o mais velho, lhe causou muitas tristezas,
isso porque ele não media suas ações e acabou sofrendo muito. Mônica,
assistindo todas as atitudes do filho e não desistindo do poder de
transformação que a oração traz, resolveu proibi-lo de entrar em casa. Mas
mesmo assim ela nunca deixou de rezar pela conversão do filho.
Fé e perseverança
Mônica, com toda devoção e fé, rezou durante 30 dias pela
conversão de Agostinho, e depois de muita perseverança, suas orações foram
atendidas, e mais tarde seu filho mais velho se tornou o “Santo Agostinho”, que
inclusive escreveu sobre a mãe:
“Ela foi o meu alicerce espiritual, que me conduziu em
direção da fé verdadeira. Minha mãe foi a intermediária entre mim e Deus.”
Morte e Canonização
O falecimento de Mônica ocorreu no ano de 387, aos 56
anos. Mas só em 1420, que Papa Martinho V descobriu o paradeiro de seu corpo e
o transportou para Roma.
Canonizada pelo Papa Alexandre III foi declarada como
Padroeira das Mães Cristãs.
....
Oração a Santa Mônica pelo filho
“Sob o peso do meu fardo corpóreo, volto-me a ti,
querida Santa Monica, e peço tua ajuda e intercessão.
Do teu lugar no céu, imploro que olhes pelo meu filho (NOME), que perdeu-se na
fé e em tudo o que tentamos ensinar-lhe.
Eu sei, querida Mônica, que nossos filhos não pertencem a
nós, mas a Deus, e que Deus muitas vezes permite que eles se percam para que isso
seja parte de sua jornada em direção a Ele.
Seu filho, Agostinho, também se perdeu; mas encontrou a fé e chegou a acreditar
e, nessa crença, tornou-se um verdadeiro professor.
Ajuda-me, portanto, a ter paciência e a acreditar que todas
as coisas – inclusive esse movimento decepcionante longe da fé – acontecem de
acordo com os propósitos de Deus.
Por causa da alma do meu filho, oro para entender e confiar
nisso. Santa Mônica, por favor, ensina-me a persistir fiel na oração, como
tu fizeste pelo bem de seu filho. Inspira-me para que eu me comporte de maneira
a não afastar o meu filho de Cristo, mas apenas o conduza gentilmente em
direção à Sua luz maravilhosa.
Por favor, ensina-me o que sabes sobre este doloroso mistério de separação,
reconciliação e reorientação de nossos filhos para o céu.
Ó Santa Mônica, santa das mães, amante de Cristo e
da Sua Igreja, roga por mim e por meu filho [Nome], para que possamos ganhar o
céu, juntarmo-nos a ti e oferecermos um constante e agradecido louvor a Deus.
Amém.”
....
Aclamações para Santa Mônica
“Com vossas lágrimas de amor,
Mãe do grande Agostinho,
destes à Igreja um Doutor,
destes ao céu um serafim.
Salve a vós, mulher bendita,
muda e só em vosso quebranto,
que pressagiastes com vosso pranto
novos triunfos da Cruz!
Cada lágrima que rola
por vosso pálido semblante
é um reflexo radiante
do sol da eterna luz.
Com vossas lágrimas de amor…
Como solo lamentador
de tortura solitária,
suba ao céu vossa prece
do vale da dor;
Deus vos escuta, e os vossos frutos,
do poder de Deus,
cai um gigante rendido:
e é o filho de vosso amor!
Com vossas lágrimas de amor…”
Só por hoje tentarei viver somente este dia e não
tentarei solucionar todos os meus problemas de uma vez. Posso fazer alguma
coisa por doze horas que me assustaria se eu achasse que tivesse que continuar
a fazê-la pelo resto da vida. Só por hoje serei feliz. Parece ser verdade: A
maioria das pessoas é tão feliz quanto tenha decidido ser.
Só por hoje me ajustarei à realidade, e não tentarei
ajustar tudo à minha própria vontade. Aceitarei o que o destino me reservar, e
me adaptarei a ele. Só por hoje tentarei fortalecer minha mente.
Estudarei e aprenderei alguma coisa útil. Não serei um ocioso mental. Lerei
alguma coisa que requeira esforço, raciocínio e concentração.
Só por hoje exercitarei minha alma de três maneiras: praticarei
uma boa ação para alguma pessoa, sem que ela fique sabendo; se alguém ficar
sabendo, não será válido. Farei pelo menos duas coisas que não quero fazer só
para me exercitar. Não demonstrarei a ninguém que meus sentimentos estão
feridos; eles podem estar feridos, mas hoje não o demonstrarei.
Só por hoje serei agradável. Terei a melhor aparência
possível, me vestirei bem, manterei minha voz baixa, serei cortês, não
criticarei ninguém. Não encontrarei defeitos em nada, nem tentarei melhorar ou
controlar ninguém, a não ser eu mesmo. Só por hoje terei um programa. Talvez
não o siga exatamente, mas o terei. Evitarei dois aborrecimentos: a pressa e a
indecisão.
Só por hoje passarei meia hora tranqüilo, completamente
só, relaxando. Durante essa meia hora, em algum momento, tentarei ter uma
melhor perspectiva da minha vida. Só por hoje não terei medo. Principalmente
não terei medo de desfrutar do que é belo. não terei medo de acreditar
que na mesma medida que dou para a vida, a vida dará a mim.
A Academia Brasileira de Letras dá continuidade à série de
Seminários “Brasil, brasis” de 2018 com o tema O livro: a aventura não
terminou, sob coordenação geral do Acadêmico, professor, escritor e poeta
Domício Proença Filho (quinto ocupante da Cadeira 28, eleito em 23 de março de
2006), e coordenação do Acadêmico e jornalista Cícero Sandroni (sexto ocupante
da cadeira 6, eleito em 25 de setembro de 2003). Os participantes convidados
foram os editores Janaína Senna e Paulo Rocco, dois dos mais importantes
editores brasileiros.
O Seminário "Brasil, brasis", tem patrocínio do Bradesco.
OS CONVIDADOS
Janaína Guimarães de Senna graduou-se em Letras pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 1998.
Concluiu sua dissertação de mestrado pelo programa de Pós-Graduação em
Literatura Brasileira da mesma universidade em 2001.
Doutorou-se pela PUC-Rio, em História Social da Cultura,
apresentando a tese Flores de antanho: as antologias oitocentistas e a
construção do passado literário, sobre a formação do cânone literário nacional.
O trabalho recebeu o Prêmio Capes de Teses em 2007 em forma de bolsa de
pós-doutorado, concluído na Fundação Casa de Rui Barbosa, no setor de Filologia
Românica. Possui artigos publicados na área de literatura brasileira
e historiografia, especialmente literária.
Atua no mercado editorial desde 2002 e já traduziu mais de
30 livros, a partir de originais em inglês, francês, espanhol e
catalão. Atualmente é a editora responsável pelo catálogo nacional da Nova
Fronteira e da Agir, que conta com autores como Evanildo Bechara, Rubem
Fonseca, Ariano Suassuna, Alberto da Costa e Silva, Nelson Rodrigues, Caio
Fernando Abreu, Millôr Fernandes entre outros.
Paulo Rocco iniciou a trajetória no mercado editorial
pela Editora Sabiá, em 1967. Contratado pela dupla Rubem Braga e Fernando
Sabino, na Sabiá, conviveu de perto com grandes escritores da época, como
Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, entre tantos outros. Em
1975, partiu para carreira solo e fundou a Editora Rocco. A nova casa editorial
começou com dois sucessos na bagagem: os dois primeiros títulos publicados pela
editora – Teje preso, de Chico Anysio, e Casos de amor, de Marisa
Raja Gabaglia – alcançaram as listas dos mais vendidos da época.
Na década de 1980, a Editora ousou ao trazer para o catálogo
pensadores importantes como Michel Maffesoli e Jean Braudillard, além de abrir
espaço para nomes de vanguarda no cenário político, como Fernando Gabeira e
Herbert Daniel, entre outros intelectuais que marcaram época. No mesmo
período, Paulo Rocco deu início à formação do prestigioso catálogo de
ficção da editora, com títulos como A fogueira das vaidades, de Tom Wolfe,
até hoje referência na prosa norte-americana. A ele viriam a se
juntar nomes como Gore Vidal, Noah Gordon, Ken Follett, Margaret Atwood, Anne
Rice e Carlos Fuentes, para citar apenas alguns.
Em 1988, Paulo Rocco apresentou ao Brasil e ao
mundo aquele que viria a se tornar o mais bem-sucedido escritor brasileiro,
Paulo Coelho, ao lançar O alquimista. Quase uma década depois, em 1997, toda
a obra de Clarice Lispector migrou para o catálogo da Editora. A Rocco é, desde
então, a casa da autora de A hora da estrela e tantos outros títulos
fundamentais para o universo das letras em todo o mundo. Antes, em 1978, a
Rocco publicou o infantil Quase de verdade, primeiro livro a sair
após o falecimento da autora, em dezembro de 1977.
No ano 2000, a Editora publicou Harry Potter e a pedra
filosofal, o primeiro volume da série da então desconhecida J.K. Rowling, que
se transformou no maior fenômeno editorial de todos os tempos. Coube ainda à
editora fundada por Paulo Rocco um papel de destaque em áreas como
autoconhecimento e espiritualidade, que fez história com títulos como Mulheres
que correm com os lobos, da psicanalista Clarissa Pinkola Estés, que ganha
reimpressões sucessivas desde o lançamento, em 1994.
O canto singelo de uma avezinha inspirou a aplicar-lhe
o nome de bem-te-vi. Ele pode se manter isolado no topo de uma árvore, como se
fosse um detetive tentando resolver um mistério. Dá a impressão de não estar
procurando nada, mas de repente brada sua vitória: Bem-te-vi! Bem-te-vi!
Quando os bem-te-vis se encontram em bandos, multiplicam-se
os gorjeios alegres, em vozes um tanto desconexas.
Em ambos os casos, o bem-te-vi tem o seu papel. Na ordem do
universo criado por Deus, representa o transbordamento da alegria pelo simples
fato de existir. Ele saltita, voa, movimenta-se, bate suas asas ao sol; e
depois descansa, alegre por existir. Quando nos parece sossegado, ele já previu
outras alegrias e sai voando. O instinto o leva a se alegrar e desdobrar-se,
proclamando o que há de bom em viver.
No seu gracioso brado aparentemente inútil, o bem-te-vi
presta grande serviço à Providência. Lembra-nos a virtude da vigilância, pois é
preciso prestar atenção em todas as coisas. A ufania com que proclama bem-te-vi é
como se dissesse: “Eu venci algo em mim, quando consegui ver-te, e seria tolo
se não tivesse visto”. Bem-te-vi, portanto, é um brado de vitória.
Lembra-nos também as virtudes da prudência, sagacidade, desconfiança, como quem
adverte: eu te vi bem! Mais ainda, lembra que há um olhar divino pousando sobre
cada homem. Quando alguém se esquece do olhar divino, e se aproxima do pecado,
pode funcionar como a voz da consciência dando o alerta: “cuidado,
pois bem-te-vi!”.
Coisas simples da vida, corriqueiras e elementares, mostram
o prazer quotidiano da existência. Para quem sabe viver, tem grande valor esse
prazer, pois trata-se de um magnífico dom de Deus. Na sua inocência primeira,
uma criança não passa de um “bem-te-vizinho”, que se alegra pela alegria de
viver. Para as coisas de que gosta, ela se abre em um “sorriso bem-te-vi” e
estende a mão para pegá-las: uma bola, um chocolate, uma bala, um bonequinho. O
mesmo se repete quando olha para a feição afetuosa da mãe, para a fisionomia
séria e forte do pai, para o irmãozinho tão parecido com ela.
O semelhante se alegra com o semelhante (similis simili
gaudet), como ensina São Tomás de Aquino. Uma criança que corre para outra
alegremente tem uma alegria que realiza esse princípio filosófico. São dois
semelhantes que se encontraram, por isso se alegram. Mesmo sem nenhuma noção de
filosofia, assim vivem e assim se alegram, pois aplicam um princípio da ordem
universal através do instinto e do afeto. É a primeira etapa da vida:
desanuviada, brilhante, tão cheia de recordações de toda ordem.
____________
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira em 16 de julho de 1983. Esta transcrição não passou pela revisão do
autor.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, muitos dos discípulos de Jesus, que o
escutaram, disseram: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?”
Sabendo que seus discípulos estavam murmurando por causa
disso mesmo, Jesus perguntou: “Isto vos escandaliza? E quando virdes o
Filho do Homem subindo para onde estava antes? O Espírito é que dá vida, a
carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida. Mas
entre vós há alguns que não creem”.
Jesus sabia, desde o início, quem eram os que não tinham fé
e quem havia de entregá-lo. E acrescentou: “É por isso que vos disse:
ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”.
A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e
não andavam mais com ele. Então, Jesus disse aos doze: “Vós também vos quereis
ir embora?” Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens
palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o
Santo de Deus”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo
Ricardo:
---
As palavras sempre rompem alguma
coisa
Sieger Koder
“As palavras sempre rompem alguma coisa” (M. Yourcenar)
“As palavras que vos falei são espírito e vida” (Jo 6,63)
Estamos no final do cap. 6 do evangelho de João. Chega a hora
do desenlace; a alternativa é clara: abrir-se à verdadeira Vida ou permanecer
enredados numa vida atrofiada. Não há neutralidade; no mundo de hoje “tomam-se
mais decisões por não tomá-las (que já é uma decisão) do que por tomá-las”, por
acomodação, por medo de mudança, por inércia, por deixar que as coisas sigam
seu curso...
Quê resultado teve a oferta de Jesus? Suas palavras entraram
em choque com a mentalidade vigente; era inadmissível que uma pessoa pudesse
comunicar uma mensagem tão exigente e tão libertadora. Suas palavras romperam
visões distorcidas, mentalidades fechadas, modos arcaicos de viver,
conservadorismo...
Também hoje corremos o risco de “adocicar” as palavras de
Jesus para que não firam nossos pré-juizos. Com frequência, queremos
transformar Suas Palavras de Vida em um conjunto de ritos, doutrinas, normas...
para serem manipuladas segundo nossos critérios e nosso modo de viver. Mas, a
Palavra de Jesus nos desestabiliza, nos desequilibra e questiona a normalidade
doentia de nossa vida cotidiana. Às vezes, como os discípulos, também dizemos:
“Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?”
No entanto, se queremos seguir Jesus, a única resposta
possível deve ser um “sim” profundo, um “amém” decidido e generoso. Desejamos
segui-lo e queremos ser como Ele; queremos abrir nossa vida à Palavra de Vida
que nos sustenta e nos inspira; sentimos o forte impulso de caminhar com o
Nazareno pela difícil e tortuosa estrada do povo de Deus na história.
A “palavra dura” de Jesus, no evangelho deste domingo, deve
nos inspirar a uma tomada de consciência do lugar e do valor das palavras em
nosso cotidiano. Quantas palavras temos dito ou escrito hoje? Temos consciência
do peso, da força que elas carregam? Vivemos saturados de palavras; elas nos
assaltam através das canções, estão nos perfis virtuais, nos livros, em mil e
uma conversações cotidianas. Falamos, dizemos, escrevemos, escutamos, lemos...
E de tanto usá-las, talvez elas acabem perdendo o sentido. Começamos a
considerá-las de um modo tão natural que não nos damos conta do quanto elas
significam. Então falamos, mas não vivemos. Palavreado crônico, desconectado da
vida.
O desenlace do cap. 6 de S. João torna-se uma ocasião
privilegiada de calar, de silenciar o palavreado, de deixar de abusar das
expressões gastas... para retomar a palavra sincera, para recordar que a vida
não é uma brincadeira, para que, quando voltemos a pronunciar, com delicadeza,
palavras carregadas de sentido e de vida, possamos nos fazer conscientes da
beleza, profundidade, promessa e compromisso que está por detrás de cada uma
delas. Nesse sentido, para crer em Jesus é preciso ter fome: fome de vida e de
justiça, que não fica satisfeita com palavras vãs, ocas e desprovidas de
sentido.
Professamos que Jesus é a Palavra de Deus, uma Palavra sem a
marca da falsidade ou do vazio, uma Palavra viva e vivida; Palavra autêntica,
de amor e paixão pela humanidade. Pois, através da identificação com Jesus,
também nós podemos ser palavra do mesmo Deus neste mundo. Uma palavra de amor,
de sustento, de presença solidária... E eu, que palavra sou?
Sabemos que a palavra é uma das realidades humanas mais
profundas: elas podem embalar ou golpear, ferir ou acariciar e curar. Sinceras
ou falsas, pensadas ou espontâneas... são um de nossos maiores tesouros.
Dizemos, escrevemos, lemos e compartilhamos palavras carregadas de vida ou de
morte. A palavra, escrita ou falada, é a expressão mais perfeita de nosso
pensamento, revela-nos ao mundo exterior e é traço de união de nossos
recíprocos relacionamentos.
A palavra, no dizer de um pensador, é um poderosa soberana
que realiza feitos admiráveis. Pode expulsar o temor, suprimir a tristeza,
infundir alegria, dilatar a compaixão. A palavra é fundamento de todo
relacionamento humano. Serve para comunicar o que queremos, expressar
sentimentos, argumentar, despertar... O mutismo e a negação da palavra
constituem terras de desolação. Aprendemos com as palavras emprestadas de
outros ou, quem sabe, também nós chegamos a dizer algo que fez a diferença para
alguém.
Falamos, e na fala-escuta, nós nos encontramos e revelamos
nossa identidade.
A palavra é meio divino para o encontro com todo o humano, e
é sinal humano para acariciar e sonhar o divino. A palavra é lugar de encontro,
de compromisso, de descanso, de ajuda, de luta, de consolo e de silêncio. Na
palavra podemos chegar a ser tudo o que somos, ou podemos nos evaporar como o
alento. Melhor falar com palavras que estendem pontes, encurtam distâncias e
entrelaçam vidas. Melhor falar a partir do carinho, da ternura e do amor,
aprendendo a reconhecer tanta bondade ao nosso entorno.
Com as palavras podemos sacudir as consciências, animar, levantar,
entusiasmar, despertar desejos de arriscar-nos a viver a fundo; ou podemos
desanimar, atrofiar, destruir, seduzir para fazer da vida um acontecimento
trivial e sem sentido. É melhor calar aquilo que levanta muros e gera
desconfiança e fraturas; é melhor calar o que envenena os sonhos e atrofia as
vidas.
“As palavras que vos falei são Espírito e são vida” (Jo
6,63)
Para nós cristãos, trata-se de algo definitivo: a Palavra se
fez carne. E compartilhou nossos caminhos, sentou-se em nossas mesas para revelar-se,
para dar-se a conhecer, para despertar vida... Jesus foi o homem que movia com
suas palavras vivas. É no encontro com a Palavra encarnada que brotam em nós
palavras criativas, carregadas de esperança e de sentido. As palavras nos tocam
e nos constituem.
Fora do percurso da palavra encarnada, vivemos intoxicados
de palavras, ou seja, um amontoado de palavras mortas, sem carne, sem entranha,
sem verdade, modelando seres adoecidos e desencarnados. A palavra tem um peso,
porque sua ressonância permanece. Em tempos de “sociedade líquida”, também
nossa palavra pode escorrer e evaporar-se.
Hoje, muita gente prefere Snapchat a WhatsApp ou outras
redes sociais porque o conteúdo se evapora em poucos minutos. É a volatilidade
das palavras que desemboca na volatilidade da comunicação e da relação. Por
isso, precisamos de um novo Pentecostes, ser penetrados pelo Espírito que nos
leve a nos entender, apesar de falar línguas diferentes.
É curioso: o evangelho diz com palavras muito simples e
cotidianas as coisas mais profundas. Nós, com palavras complicadas e com
jargões, que só os iniciados entendem, ou não dizemos nada significativo ou
cobrimos o fato de não ter nada que dizer. No entanto, em nossa cotidianidade,
são as simples palavras que nos ajudam a assumir os desafios da nossa
existência. Não é que as outras grandes palavras sobrem. Mas é que essas
palavras pequenas e simples são as que nos fazem sentir e saber-nos em caminho
de Evangelho, de Reino de Deus.
Que nossas palavras sejam sempre vivas! ...e a serviço da
vida!
Texto bíblico: Jo 6,60-69
Na oração: As palavras, para que tenham sentido e função,
para que não se tornem falsas nem dolorosas, deveriam passar pelo filtro da
mente e do coração. Seguindo o conselho de S. Agostinho, as palavras deveriam
antes passar pela lima que pela língua, para que cheguem à boca polidas pela
inteligência e pelo amor.
- Considere sua história de vida e tente recolher delas as
palavras que, espalhadas no chão de sua existência, foram criadoras de
possibilidades e abertura sem limites.
- Quê palavras estão em excesso em seu falar? Quê seria
melhor calar? Em quê seu falar é bem-dizer? Em quê circunstâncias da vida suas
palavras são carícia, bálsamo, consolo?