A Academia Brasileira de Letras comemora seus 121 anos de
fundação no dia 19 de julho, quinta-feira, a partir das 17 horas, em Sessão
Solene no Salão Nobre do Petit Trianon. O Acadêmico, escritor e jornalista
Cícero Sandroni será o orador oficial da solenidade.
Depois do discurso, o Presidente Marco Lucchesi convidará o
Acadêmico Domício Proença Filho para fazer a entrega da Medalha Machado de
Assis de 2018 ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (a comenda
será afixada no estandarte da corporação). A seguir, convidará o Acadêmico
Arnaldo Niskier para entregar a Medalha João Ribeiro ao jurista e ex-ministro
Bernardo Cabral.
O cerimonial prevê, ainda, a apresentação do grupo Música
Antiga da UFF, integrado pelos músicos Lenora Pinto Mendes, Leandro Mendes,
Márcio Paes Selles, Mario Orlando e Virginia Van der Linden.
(Torcer para a França: mas e as obras pilhadas do Louvre?
Querer bem à Croácia: mas e a apologia ao nazismo?)
A França tem Paris, Rodin e Michel de Montaigne e ainda quer
triunfar no futebol. Nem pensar, torcerei para a Croácia, firmei assim que os
quadriculados alvirrubros dos Balcãs derrotaram a Inglaterra e se garantiram na
final da Copa do Mundo.
No dia seguinte li no “Estadão” que torcedores croatas
fizeram a saudação nazista no estádio, durante a semifinal, e virei a folha,
com um grito na janela: allez les bleus.
“Pergunte aos argelinos se a França é assim tão libertária,
ouvirá casos de perseguições e torturas”, ouvi um professor de história
franco-argelina na televisão e voltei a torcer para a seleção do goleiro
Danijel Subasic, apesar do segundo esse de seu nome ostentar em cima um acento
circunflexo de ponta-cabeça, estranheza para a qual meu teclado nem está
preparado.
Abri meu Yahoo e recebi de jornalista italiano,
correspondente no Irã, “link” para um site de Oslo, na Noruega, informando que
o meio-campista Luka Modric foi acusado de cometer perjúrio num acordo
financeiro entre ele e Zdravko Mamic, ex-diretor do clube Dínamo Zagreb
investigado por fraude fiscal. Irritei-me e, por 48 minutos, voltei a virar
francês desde criancinha, condição que descartei logo porque entrou no meu
Whats’App, mandada por membro da tribo K’llooo ga kri, no sul da Etiópia,
notícia de que o mesmo Modric acusado de mentir à Justiça de seu país doa parte
do salário que recebe no Real Madrid para comprar pernas mecânicas doadas a
crianças mutiladas em guerra. Depois dessa, só posso ser Croácia, pus fé.
Amigo meu radicado na holandesa Bourtange, porém, me mandou
seis vídeos mostrando croatas gozando o Brasil pela desclassificação nas
quartas de final. Parodiavam “Garota de Ipanema” e rolavam no chão, mencionando
jocosamente nosso camisa 10, com tamanha arrogância que jurei a partir daquele
instante empreender grande empenho espiritual para Kyllian Mbappé enfiar
quatros gols na final e comemorá-los com dancinha irritante, ao lado de Paul
Pogba e Samuel Umtiti. Fui dormir muito francês.
Bateu insônia, liguei o “tablet” para distrair e li texto
publicado no Facebook por um monge no alto da montanha Pico de Adão, no Sri
Lanka: “A presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarović, viajou para a Rússia
com dinheiro do próprio bolso”. Gente da política viajando sem atolar a mão na
grana do contribuinte? Dado tão impressionante para um brasileiro que só me
restou querer bem a esse povo no último jogo do mundial. Agora é sério, não
viro mais a casaca, chega, tudo tem limite.
Pensei que seria assim, mas voltei a gritar “avante, azuis”
após me emocionar ao ver o Jornal Nacional contar que o volante N’Golo Kanté,
quando menino, recolhia lixo nas ruas de Paris. Reiterei o incentivo sonoro ao
me lembrar de dois franceses que empreenderam em Itabira: Raoul de Caux, que
veio, viu e fez vinho; e Sarah Pauline Charlotte Marie Gayetti, que mudou o
nome para Madre Maria de Jesus e fundou o Colégio Nossa Senhora das Dores,
educandário que até outro dia tinha o colonizado hábito de tocar a Marselhesa –
escutava do meu quintal, quando morei na Penha: "Allons enfants de la
Patrie / Le jour de gloire est arrivé!"
“Torcerá para a França mesmo sabendo que o Louvre tem em seu
acervo peças originárias de pilhagens da época de Napoleão Bonaparte?”, gritou
um anjinho em meu ombro, trajando camisa assemelhada a tabuleiro de damas. “Mas
após o cujo se lascar na batalha ali perto de Waterloo, parte das obras foi
devolvida aos países”, argumentei, e ouvi: “Você disse bem: parte, não toda. O
Egito, por exemplo, nada recuperou. Você, Marcos, como jornalista, tem
obrigação de saber que os nazistas se inspiraram nesse militar francês para
também saquear obras de arte em países dominados”. Quando abri a boca para
novamente confrontá-lo, o diabo do anjinho apelou e me convenceu a canalizar
toda energia à seleção dele. “Esqueceu, Marcos, que há galos azuis na camisa da
França?” Heréticos galos azuis, nem Francisco de Goya imaginou tamanho horror.
Galo azuis, a maior tragédia depois do dilúvio. Fui dormir muito croata.
Situação alterada radicalmente depois que vi, pelo
Instagram, na hora do café da manhã, fotografia postada em Kobe, no Japão, de
um muro de prédio público pichado em Zagrebe: “Proteja a Floresta Amazônica:
queime um brasileiro”. Aí, já sabe, né? Não que eu seja muito influenciável…
Lyon aumentou o preço do pão – viva a Croácia. Em Zadar
taxista foi espancado por jovens ultranacionalistas – avante, França. O
treinador Zlatko Dalic não quis salário para comandar a seleção – vamos,
Croácia. Em Rijeka, berço do lateral-direito Sime Vrsaljko, tremulam bandeiras
de cunho racista – dá-lhe, França. Casa em Montpellier, vi pelo Google Earth,
exibe faixa fazendo pilhéria com a matriz africana da seleção de Didier
Deschamps – vai, Croácia. Telão em Sibenik mostrou jogadores croatas cantando
Bojná Cavoglave, música da banda Thompson, acusada de fazer apologia à
organização paramilitar fascista Ustasha, atuante na Segunda Guerra Mundial...
Vai pra lá, volta pra cá, comuniquei à família que nossa
televisão será desligada na hora de Croácia x França. Assim, ficarei em paz com
minha consciência cívica. Foi aí que Aninha surgiu na sala, vinda do quarto
dela, onde penteava sua nova boneca: “O mais repulsivo dos covardes é aquele
que, em tempos sombrios, opta pela neutralidade”. Essa santinha do pau oco
oculta textos de filosofia e de ciência política na barriga da Barbie, só pode.
Desconectei todos os plugues, tirei o relógio e fui
caminhar, começando a sentir arrependimento por ter torcido para Neymar Júnior,
Philippe Coutinho e Gabriel Jesus. Brasil, um dos últimos países que aboliram a
escravidão.
(Marcos Caldeira, editor do jornal "O Trem
Itabirano", de Itabira, MG.)
No século XII, como consequência do estabelecimento do Reino
Latino de Jerusalém, muitos peregrinos da Europa vieram se juntar aos
solitários da santa montanha do Carmelo [foto abaixo], na Palestina,
aumentando-lhes assim o número. Pareceu bom dar à sua vida, até então mais
eremítica que conventual, uma forma que fosse mais de acordo com os hábitos
ocidentais. Foi quando o Legado Aimeric Malafaida, Patriarca de Antioquia, os
reuniu em uma comunidade sob a autoridade de São Bertoldo, a quem foi dado pela
primeira vez o título de Prior Geral. Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém e
igualmente Legado Apostólico, completou, nos primeiros anos do século seguinte,
a obra de Aimeric, concedendo uma Regra fixa à Ordem, que começou a se expandir
em Chipre, na Sicília e nos países de além-mar, favorecida pelos príncipes e
pelos cavaleiros, de volta da Terra Santa.
Logo depois, tendo Deus abandonado os cristãos do Oriente
aos castigos merecidos por suas faltas, tornaram-se tais — nesse século de
adversidades para a Palestina — as represálias dos sarracenos vitoriosos, que
uma assembleia geral, realizada no Monte Carmelo, sob os auspícios de Alain le
Breton, decretou a emigração total dos religiosos, não deixando para cuidar do
berço da Ordem senão alguns poucos sedentos de martírio. No preciso momento em
que ela se extinguia no Oriente (1245), Simão Stock foi eleito Geral, no
primeiro Capítulo do Ocidente, reunido em Aylesford, na Inglaterra.
Na noite do dia 15 para 16 de julho do ano de 1251, a
graciosa Soberana do Carmelo confirmava a seus filhos, por um sinal externo, o
direito de cidadania que Ela lhes havia obtido nas novas regiões para as quais
os havia conduzido seu êxodo. Senhora e Mãe de toda a Ordem religiosa, Ela lhes
conferia de suas próprias e augustas mãos o escapulário, parte do vestuário que
caracteriza a maior e mais antiga das famílias religiosas do Ocidente. São
Simão Stock, no momento em que recebia da Mãe de Deus essa insígnia [representação
na pintura abaixo], enobrecendo-a ainda pelo contato de seus dedos sagrados,
ouviu a própria Virgem Santíssima dizer: “Todo aquele que morrer dentro
deste hábito não sofrerá de maneira nenhuma as chamas eternas”.
A Rainha dos Santos manifestou-se posteriormente a Jacques
d’Euze, que o mundo iria saudar em breve como novo Papa sob o nome de João
XXII. Anunciava-lhe Ela sua próxima elevação ao sumo pontificado, e, ao mesmo
tempo, recomendava-lhe publicar o privilégio de uma pronta libertação do
purgatório, que Ela havia obtido de seu divino Filho para seus filhos do
Carmelo: “Eu, sua Mãe, descerei por misericórdia até eles, no sábado que
se seguir à sua morte, e a todos que encontrar no purgatório livrá-los-ei e
levá-los-ei à montanha da eterna vida”. São as próprias palavras de Nossa
Senhora, citadas por João XXII na bula em que ele disto deu testemunho, e que
foi chamada Sabatina em razão do dia designado pela gloriosa libertadora, no
qual Ela exerceria o misericordioso privilégio.
A munificência de Maria, a piedosa gratidão de seus filhos
pela hospitalidade que lhes dava o Ocidente, a autoridade, enfim, dos
sucessores de Pedro, tornaram logo essas riquezas espirituais acessíveis a todo
o povo cristão, pela instituição da Confraria do Santo Escapulário, que faz
seus membros participarem dos méritos e privilégios de toda a Ordem do Carmo.
Quando o Papa Bento XIII, no século XVIII, estendeu a festa
do dia 16 de julho para a Igreja inteira, ele, por assim dizer, nada mais fez
do que consagrar oficialmente a universalidade do fato de que o culto da Rainha
do Carmelo havia conquistado quase todas as latitudes do orbe.
_______________
Prosper Guéranger, L’Année Liturgique – Le temps après la
Pentecôte, Maison Alfred Mame et Fils, Tours, 1922, tomo IV, excertos das pp.
149-153.
Uma garotinha esperta de apenas seis anos de idade, ouviu
seus pais conversando sobre seu irmãozinho mais novo. Tudo que ela sabia era
que o menino estava muito doente e que estavam completamente sem dinheiro.Iriam
se mudar para um apartamento num subúrbio, no próximo mês, porque seu pai não
tinha recursos para pagar as contas do medico e o aluguel do apartamento.
Somente uma intervenção cirúrgica muito cara poderia salvar o garoto, e não
havia ninguém que pudesse emprestar-lhes dinheiro. A menina ouviu seu pai dizer
a sua mãe chorosa, com um sussurro desesperado: “somente um milagre poderá
salva-lo”.
Ela foi ao seu quarto e puxou o vidro de gelatina de seu esconderijo, no
armário. Despejou todo o dinheiro que tinha no chão e contou-o cuidadosamente,
três vezes. O total tinha que estar exato. Não havia margem de erro. Colocou as
moedas de volta no vidro com cuidado e fechou a tampa.
Saiu devagarzinho pela porta dos fundos e andou cinco quarteirões ate chegar a
farmácia. Esperou pacientemente que o farmacêutico a visse e lhe desse atenção,
mas ele estava muito ocupado no momento. Ela, então, esfregou os pés no chão
para fazer barulho, e nada! Limpou a garganta com o som mais alto que pode, mas
nem assim foi notada. Por fim, pegou uma moeda e bateu no vidro da porta.
Finalmente foi atendida!
O que você quer? perguntou o farmacêutico com voz aborrecida. Estou conversando com meu irmão que chegou de Chicago e que não vejo ha
séculos, disse ele sem esperar resposta.
Bem, eu quero lhe falar sobre meu irmão, respondeu a menina no mesmo tom
aborrecido. Ele esta realmente doente… E eu quero comprar um milagre.
Como?, balbuciou o farmacêutico admirado.
"Ele se chama André e esta com
alguma coisa muito ruim crescendo dentro de sua cabeça e papai disse que só um
milagre poderá salva-lo. E e por isso que eu estou aqui. Então, quanto custa
um milagre?"
Não vendemos milagres aqui, garotinha. Desculpe, mas não posso ajuda-la,
respondeu o farmacêutico, com um tom mais suave.
Escute, eu tenho o dinheiro para pagar. Se não for suficiente, conseguirei o
resto. Por favor, diga-me quanto custa, insistiu a pequena.
O irmão do farmacêutico era um homem gentil. Deu um passo a frente e perguntou
a garota: Que tipo de milagre seu irmão precisa?
Não sei, respondeu ela, levantando os olhos para ele. Só sei que ele esta
muito mal e mamãe diz que precisa ser operado. Como papai não pode pagar, quero
usar meu dinheiro.
Quanto você tem?, perguntou o homem de Chicago.
Um dólar e onze centavos, respondeu a menina num sussurro. É tudo que tenho, mas posso conseguir mais se for preciso.
Puxa, que coincidência, sorriu o homem. Um dólar e onze centavos! Exatamente
o preço de um milagre para irmãozinhos.
O homem pegou o dinheiro com uma mão e, dando a outra mão a menina, disse: Leve-me ate sua casa. Quero ver seu irmão e conhecer seus pais. Quero ver se
tenho o tipo de milagre que você precisa.
Aquele senhor gentil era um cirurgião, especializado em Neurocirurgia. A
operação foi feita com sucesso e sem custos. Alguns meses depois Andrew estava
em casa novamente, recuperado.
A mãe e o pai comentavam alegremente sobre a sequência de acontecimentos
ocorridos. A cirurgia, murmurou a mãe, foi um milagre real. Gostaria de
saber quanto custou!
A menina sorriu. Ela sabia exatamente quanto custa um milagre. Um dólar e onze
centavos… Mais a fé de uma garotinha…
Depois de termos assistido ao show de horrores jurídicos do
último domingo, que teve como picadeiro o TRF-4 e protagonizado por um
Desembargador plantonista e três Deputados petistas, só nos restou fazer uma
reflexão a respeito do como e do porquê isso aconteceu, para que minimamente
possamos fazer uma reflexão sobre como anda uma parcela da Justiça brasileira.
A Constituição de 1988, em seu Artigo 94, prevê uma
aberração chamada de "quinto constitucional", onde um quinto das
vagas existentes em certos tribunais são preenchidas por advogados e
promotores, e por tradicional indicação do Presidente da República.
Para que seja preenchida uma vaga, o indicado deve possuir
alguns atributos, dentre eles o principal que é o "notável saber
jurídico". Mas nós sabemos que não funciona assim. Desde a sua
instituição, as vagas vêm sendo preenchidas por aqueles que têm notável
militância e indiscutível proximidade com aqueles que os indicam, causando o
aparelhamento da Justiça como acontece em toda republiqueta capitaneada por
tiranetes, e que não colocam a Justiça a serviço do país e sim a serviço de
seus interesses.
Rogério Favreto, é um desses elementos. Sem ser Juiz de
carreira, sem ter feito qualquer concurso, sem a necessidade de comprovar o
"notável saber jurídico" e sem ter alçado o cargo de Desembargador
vindo da primeira instância, Favreto foi injetado no Tribunal Regional Federal
pela canetada de Dilma como reconhecimento pela sua fervorosa militância junto
ao PT, e para que o Partido dos Trabalhadores tivesse alguma ancoragem dentro
daquele Tribunal e para que pudesse ser acionada num momento de necessidade
para eles. Isso sem dúvida faz dele um Desembargador-Anão diante dos preceitos
da meritocracia, que por sinal sempre foi sumariamente ignorada pelo PT.
Mas ele é só uma criança nesse meio. Os exemplos do seu ato
estapafúrdio vem de cima, ou seja, do Supremo Tribunal Federal, todo ele
aparelhado e de onde as deformidades jurídicas brotam a cada instante por
decisões monocráticas distantes de qualquer sensatez e lógica. Ali então é
pior... São onze ministros, cada um fazendo a sua própria Justiça e o seu
próprio STF segundo o entendimento da sua vontade. Favreto teve em quem se
espelhar.
Ora, mas o que é manter um desembargador-Anão se temos onze
Ministros-Anões? Toffoli é o exemplo maior de nanismo dentro de uma Corte! Foi
igualmente injetado pelo PT e será Presidente da Suprema Corte mesmo havendo
sido reprovado duas vezes em concursos para Juiz de Primeira Instância!
Mas tudo bem... A Roberta Close foi eleita a mulher mais
bonita do Brasil mesmo sendo homem, e o Pablo Vittar faz sucesso sem ter
talento e voz. Assim é o Brasil.
Favreto, com sua decisão, foi apenas mais um a apequenar
ainda mais a já tão miniaturizada Justiça do nosso país, reduzindo-a ao tamanho
da sua importância e competência, pois quando poderia agigantar-se diante dos
seus pares, mostrando sobriedade, optou por reafirmar-se anão.
Se quisermos realmente ter uma Justiça séria neste país,
urge fazermos uma reforma no Judiciário eliminando todas essas distorções,
sobretudo aquelas que são contempladas por uma Constituição que só é garantista
para bandidos, e que favorece o surgimento de aberrações como os anões morais
que operam no Judiciário.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Marcos.
— Glória a vós, Senhor!
Naquele tempo, Jesus chamou os doze, e começou a
enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos impuros.
Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não
ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que
andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas.
E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai
ali até vossa partida. Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem
vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra
eles!” Então os doze partiram e pregaram que todos se
convertessem. Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes,
ungindo-os com óleo.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Paulo
Ricardo:
---
Conhece-se o seguidor de
Jesus pelos pés
“E Ele percorria os povoados da região, ensinando” (Mc
6,6)
“Adeptos do Caminho”: assim eram conhecidos os primeiros seguidores de Jesus (At 9,2). Assim também quer Jesus que sejamos
seguidores seus, sempre em caminho, em todos os lugares, em todas as casas de
passagem, dispostos a parar e conversar, prontos ao encontro e à solidariedade
com todos os que vão e vem pela vida.
Deveríamos voltar a recuperar o sentido desta expressão
(“adeptos do Caminho”), pois ela nos convida a continuar percorrendo o caminho
cotidiano da existência de uma maneira cristificada; e isto é algo fundamental
para o encontro profundo com o outro, com as alegrias e os sofrimentos daqueles
que se encontram às margens, com a novidade e a surpresa da senda da vida, com
o desafio de prosseguir confiando na Boa Notícia de Jesus, que se manteve
sempre em caminho pelas estradas da Palestina, para levantar os feridos,
oprimidos e excluídos do sistema social e religioso.
Hoje como ontem, sair, caminhar, deslocar-se, ser
itinerante... tem sentido, porque significa ir ao encontro do novo e do
diferente. “Sair” é também uma experiência constitutiva da natureza humana
porque tem um ar transformador. Cada um, ao longo do caminho, experimenta
“novos modos” de habitar a existência, de olhar-se, pensar e
relacionar-se. A itinerância permite ir mais além de si mesmo para
encontrar outras maneiras de viver, para entrar em outras terras prometidas,
para aproximar-se de outras pessoas, povos, culturas, onde encontrar o sentido
de vida; sobretudo, possibilita ir ao encontro d’Aquele que nos transcende e
sempre se revelou Peregrino.
A vida humana, neste sentido, é caminho, com um ponto de
partida, uma meta, um trajeto e um horizonte. Caminho, palavra familiar e
também humilde que evoca a existência de uma origem e um destino e, entre
ambos, de uma aventura: a aventura de nosso caminhar, feita de desafios e
extravios, e também de encontros e de momentos inesquecíveis que nos confortam
ao longo do percurso.
Todos somos “peregrinos” neste “êxodo de nós mesmos para
Deus”, no qual nos “adentramos em terra estranha, despojados dos suportes
usuais da existência, desprovidos de todo amparo que não seja o da caridade...”
(Tellechea Idógoras).
Quem caminha calcula seu trajeto, suas próprias forças,
fadigas, planeja suas paradas. Por outra parte, decide correr o risco de sair
de sua zona de conforto, para abrir-se à paisagem de novas relações, ao
inesperado e inexplorado, a novos encontros e sensações, a confiar e percorrer
a própria existência. O caminho é um processo de mudança pessoal, um lugar
pedagógico de cura, de aprendizagens, abertas ao assombro, a um olhar
dinamizador, à liberdade de pensamento e de ação. Ele nos move a dilatar o
coração e interessar-nos pela situação das demais pessoas, a aproximarmos
dos(as) samaritanos(as) que encontramos nas idas e vindas. Porque o caminho é a
ocasião, o Kairós, o tempo pedagógico de um movimento que vivifica, deixa
pegada e sabor de um outro sentir.
Podemos dizer que na Igreja são imprescindíveis os
itinerantes, os peregrinos do Reino de Deus, como o próprio Jesus, que enviou
discípulos e discípulas pelos caminhos e povos, sem nenhuma estrutura de apoio
a não ser um coração disposto a não querer outra riqueza a não ser o fermento
de nova humanidade. Com os itinerantes Jesus iniciou um movimento a serviço do
Reino e Ele mesmo foi um itinerante. Não permaneceu numa casa, não se fechou em
um lugar, não fundou uma instituição vinculada a um tipo de templo, sinagoga ou
santuário, mas foi percorrendo, com um grupo de discípulos(as)/amigos(as),
também itinerantes, os povoados e aldeias da Galileia, anunciando e tornando
presente o Reino. Jesus os tirou de seus lugares estáveis, de suas simples
redes da margem do mar, e os fez itinerantes através de outros e amplos caminhos
e mares, para assim encontrar-se com os caminhantes, os perdidos e expulsos, e
iniciar com eles a grande Marcha da Vida.
Jesus, o Homem dos Caminhos, chama para uma Vida nova. Chama
na vida e para a vida e põe as pessoas em movimento, a caminho. A “pegada” que
Ele deixa ao passar é sua própria Vida partilhada. Ele é o inspirador de toda
itinerância; com sua peregrinação Ele abre possibilidade de outros caminhos.
Jesus, o homem que se definiu, tem um sonho, um projeto
(Reino). E surge diante dos outros com força pessoal capaz de sacudi-los e
colocá-los em movimento. Ele “passa” e sua presença os atrai
arrancando-os da acomodação. Faz-se do chamado um caminho, quando se partilha a
vida com quem chamou. Responder ao chamado feito por Jesus significa tornar
esse chamado um caminho de entrega e de serviço.
Jesus nos apresenta uma causa muito nobre e, com seu
chamado, rompe nosso estreito mundo e desperta em nós ricas possibilidades,
reacende o que de mais nobre há em cada um e amplia nosso horizonte de vida.
Para isso é preciso sair dos templos que pretendem fechar e aprisionar o
Espírito, para dirigir-nos aos caminhos do mundo, para entrar em sintonia com o
Coração e o Manancial da Vida, “em espírito e verdade”, tocando a carne
concreta da Humanidade e da Mãe Terra.
“Chamado-resposta” implica, pois, um encontro comprometedor.
O modo de ser de Jesus, transparente e livre, ativa nossa vida atrofiada e
estreita e nos capacita a olhar amplos horizontes: seu povo, seu mundo dividido
e excluído... A ressonância de seu chamado nos predispõe a encontrar motivações
saudáveis e maduras que nos permitam peregrinar e viver no contexto atual com
amor, entusiasmo e criatividade. Jesus envia seus discípulos com o necessário
para caminhar: cajado, sandálias e uma túnica. Não precisam de mais nada para
serem testemunhas do essencial. Jesus quer vê-los livres e sem ataduras, sempre
disponíveis, sem instalar-se no bem-estar, confiando na força do
Evangelho.
“O discípulo-missionário é um des-centrado: o centro é Jesus
Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias
existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de
periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco)
Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É
preciso sair dos limites conhecidos; sair de nossas seguranças para
adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes
para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do
inquestionável para enfrentarmos o novo...
É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história
a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque
sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer... A vida está
cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que podemos
percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios,
encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderemos e nos
farão um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples...
A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o
“novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”,
que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo
petrificado e um questionamento à ordem estabelecida.
Texto bíblico: Mc. 6,7-13
Na oração:
- Nas nossas vidas acontece algo de verdadeiro e belo quando
nos dispomos a buscar dentro de nós mesmos a razão da nossa existência.
- No “mapa espiritual” de nosso interior ainda existe uma
“terra desconhecida”, que proporciona interesse à vida, suscita curiosidade,
nos põe a caminho... Grandes surpresas interiores estão à nossa espera, e
a capacidade de continuar procurando é que dá sentido ao esforço e vigor à
vida.
- A quê você se sente chamado? A quem se sente
enviado?