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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

ANO NOVO: ONDE ENCONTRAR A NOVIDADE? – Pe. Adroaldo Palaoro sj

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)

A celebração do “Ano novo”, prática vivida em todas as culturas e religiões, parece responder a um desejo humano de “começar de novo”.

“O homem foi criado para que no mundo houvesse um começo”. Este pensamento de S. Agostinho deveria iluminar nossa vida ao longo deste novo ano que se inicia. Desde que o ser humano surgiu da terra e sobre a terra, o mundo criado ganhou um “novo início”. Nós o estamos reconstruindo incessantemente. “O ser humano é criado e é criativo”; pois é exatamente o dom de re-começar, sempre, que nos caracteriza como humanos.

Caminhamos hoje para algo novo; somos convocados pelo futuro a realizar projetos diferentes, possibilidades novas, “coisas” que nos acenam lá de longe e nos fazem uma proposta: “re-criem-nos”;  coisas que surgem sob a forma  de um desejo, de uma esperança... mas que sempre dependem de nós para se tornarem concretas. Elas exigem empenho, dedicação e criatividade. 

Habita em nosso interior uma nostalgia de alguma coisa mais original, de um novo início e da tentativa de outros caminhos. Trata-se de uma aspiração de algo mais humilde e simples, que nasce do “húmus”, da terra que somos. É o desejo de sermos nós mesmos simplesmente, sinceramente, prazerosamente. É a necessidade de viver re-começando, sempre.

A atitude do “recomeçar contínuo” revela-se como oportunidade para ativar outros recursos internos e colocar a vida em outro movimento, mais inspirado e criativo.É inevitável que na existência humana se façam presentes a dor, o cansaço, a frustração, a repetição mecânica..., que ameaçam afogar as melhores expectativas. Frente a essa constatação, compreende-se a voz que brota das nossas entranhas e diz: “comecemos de novo”. A celebração do “ano novo”, neste sentido, significa a oferta de uma nova oportunidade à vida, para que ela tenha um novo sentido.

Somos impulsionados, continuamente, a romper com o formalismo e o convencional, a vida marcada pela ordem, normas claras e recompensas seguras... e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de hori-zontes amplos, de exigências que nos convidam a “começar de novo”, de significado mais universal. Não caminhamos empurrados pelas costas, nem nossa vida é obra da inércia. Fomos feitos para o “mais”. 

Ver a novidade em uma simples mudança de datas do calendário não passa de uma mera convenção. O 01 de janeiro não é mais “novo” que o 31 de dezembro. E, depois do rito de “passagem de ano”, tudo continuará sendo como era ontem, ou inclusive pior, porque, a ressaca da celebração será acompanhada pela frustração de comprovar que nada mudou. 

É óbvio que a novidade não é “algo” que possamos encontrar “fora” para ser incorporada à nossa existência cotidiana. O máximo que podemos encontrar nesse nível são aparências de novidade que, satisfazendo por um momento nossa curiosidade, rapidamente nos farão voltar ao ritmo da rotina. 

O “novo” está dentro de nós. Estamos no tempo para crescer na consciência de nosso verdadeiro ser e descobrir que estamos já na eternidade, que nosso verdadeiro ser não está no “kronos” mas no “kairós” (tempo de plenitude e de sentido). Nosso verdadeiro ser é constituído pelo divino que há em nós, e isso é eterno, é sempre novo. Somos já a plenitude e estamos no eterno. 

Nesse sentido, novidade é sinônimo de viçoso, abertura, presença, vida; a vida sempre é nova, e vai acompanhada de atitudes e sentimentos de surpresa, admiração, louvor, gratidão, comunhão e plenitude.  “E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam” (Lc 2,18). Seria um crime transformar a vida num velódromo, dando voltas sempre em torno ao mesmo circuito de 365 dias, sem avançar nada.  

Vida expansiva, projetada para todas as direções e sintonizada com as surpresas, grandes e pequenas, que a plenificam e lhe dão um sentido de eternidade. “A vida é demasiado breve para ser mesquinha” (Disraeli). Tudo isto é o que, saibamos ou não, nosso coração aspira. Mas, habitualmente, o buscamos onde não pode encontrar-se. Os pastores, movidos por uma sensibilidade especial, foram capazes de encontrar onde ninguém pensaria encontrar: 
Este ano será novo se aprendermos a crer na vida de maneira nova e mais confiada, se encontrarmos gestos novos e mais amáveis para conviver com os outros, se despertarmos em nosso coração uma compaixão nova para com aqueles que sofrem. 

Quem sabe, o Evangelho de hoje nos possa inspirar para que, algum dia, aprendamos a viver cada mo-mento como se fosse o último, ou melhor, o mais completo, o mais ditoso: a melhor oportunidade para uma presença inspiradora, para o abraço mais acolhedor, para a palavra melhor pronunciada ou o silêncio mais criativo, para o gesto solidário mais espontâneo... É como se cada momento fosse sagrado e eterno. 

O cristão é aquele que, como os pastores de Belém, conserva límpido os seus olhos interiores, prontos para perceber a maravilha que está sendo germinada em sua vida. Movido por um olhar novo, ele acolhe a surpresa de Deus, passa a ser surpresa para os outros, com seu gesto de amor imprevisto, com sua palavra que reanima, com sua visita que consola, com sua atenção para com todos os que levam uma vida obscura e monótona. 

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido”. Qual foi o novo e o surpreendente que encontraram: um recém-nascido deitado na manjedoura. Trata-se do “no-vo” despojado de ornamentos, de poder, de riquezas. Tiveram olhos e ouvidos abertos para se deixarem impactar pela imagem, humanamente simples; o encontro com o “Deus que se humanizou” possibilitou o retorno à eterna infância, escondida na própria interioridade. Porque descobriram facilmente o Infinito, passaram a viver humildemente sua condição humana na paz, na alegria e na gratidão. 

Texto bíblico:  Lc 2,16-21 

Na oração: A partir do “olhar” admirado dos pastores, iniciar, ao longo deste ano, um processo minucioso de   extirpação das “cataratas” do seu olhar interior: o olhar das lembranças negativas, das suspeitas, dos julgamentos, das comparações... e reacender o olhar contemplativo capaz de expressar a benevolência, a delicadeza, a acolhida, a cortesia, a serenidade, a modéstia, a afabilidade, a alegria simples de estar junto...
- Re-cor-dar todos os “olhares amorosos” que Deus foi depositando sobre você ao longo da vida.
- Coração e olhos espreitam na mesma direção. São os puros de coração os que verão a Deus (Mt. 5,8). 

Pe. Adroaldo Palaoro sj
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domingo, 31 de dezembro de 2017

RECEITA DE ANO NOVO – Drummond (com vídeo)

30 Dec 2017
A Magia da Poesia >> Desde 1999, este projeto divulga poemas de grandes poetas sem erros ou falsas autorias. >>

 Ligue o vídeo abaixo:
Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


(Discurso de primavera e algumas sombras. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979, p. 115)


A Magia da Poesia deseja Boas Festas e um inspirado ano novo a todos os leitores que nos acompanharam neste ano. Obrigado não só pela leitura, mas também pelos comentários e por apoiarem a divulgação de poemas sem falsas autorias. Que o próximo ano venha cheio de poesia (sem erros)!

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NOOSFERA -Teilhard de Chardin

Noosfera...

Pode-se dizer que seja o produto coletivo e aditivo de um milhão de anos de pensamento do ser humano. Pode-se dizer também que seja o pulsar dos passos da humanidade rumo ao infinito face à ressonância das vibrações da luz do conhecimento.

Palavra de origem Grega
Palavra que representa o círculo psíquico!
NOOS = MENTE
(alma, espírito, pensamento, consciência)

SPHERA = CÍRCULO
(corpo limitado por uma superfície redonda)

A NOOSFERA seria a terceira etapa no desenvolvimento do Planeta Terra, depois da GEOSFERA - matéria inanimada e da BIOSFERA - vida biológica. Assim como há a atmosfera, a geosfera e biosfera, existe também a Noosfera ou esfera das ideias, formado por produtos culturais, pelo espírito, linguagens, teorias e conhecimentos. Todos nós alimentamos a Noosfera quando pensamos e nos comunicamos. Assim como o surgimento da vida – Biosfera - transformou significativamente a Geosfera, o surgimento do conhecimento humano - e os consequentes efeitos das ciências aplicadas sobre a natureza - alterou igualmente a Biosfera.

Pode-se perguntar se 'A caminhada da Humanidade’ não se enganou de estrada, pois ela parece caminhar em direção a uma Era onde o Espírito está sendo colocado a serviço da Matéria.

Percebe-se um desespero na busca de soluções para os conflitos da Terra, na busca de falsas ideologias que destroem a reflexão, na busca de soluções para afastar as forças negativas do totalitarismo, da desintegração, da repulsão, da materialização...

Percebe-se um desespero na busca da PAZ SOBRE A TERRA!

Desespero não percebido na busca da PAZ DENTRO DE SI MESMO.

O homem pensante de hoje interioriza-se, curvando-se sobre si mesmo em busca de maior Individualização. Ele tende a se isolar e procura tornar-se mais solitário para Ser mais profundamente. Pelo excesso de sua individualização e de sua luta pela vida, ele se engana, sucumbindo facilmente à simples sobrevivência... Então sonha em fugir do Planeta Terra, em busca de outras formas de vida, ou outras dimensões de existência... Fugindo de si mesmo.

É primordial perceber e entender que a humanidade converge para um encontro de ordem espiritual, buscando confiança no grande e trabalhoso processo da evolução, que, tendo conseguido criar os seres humanos com tantos cuidados, NÃO PODE SER CONCEBIDA como tendo se organizado ao acaso. É primordial perceber e entender que existe uma evolução dirigida, consciente de si mesma. É primordial perceber e entender que existe um Motor que orienta a humanidade e a atrai para Si. Esse Motor é Deus! Princípio gerador e ao mesmo tempo final, que dá ao Homem o pensamento, a consciência, a alma, a fé e a energia do Amor... para continuar seu caminho de paz e de construção de um futuro digno para a Humanidade.

"Gotas de Crystal" <gotasdecrystal@gmail..com>.
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Pierre Teilhard de Chardin (1881-1995): Jesuíta francês, pensador da condição humana e grande místico contemporâneo. Reconhecido pela originalidade de pensamento, foi contestado filosoficamente e considerado um herege, sendo impedido pelo Vaticano de lecionar no começo da década de 1950. Sua "reabilitação" com a Santa Sé ocorreu em maio 1981, quando o cardeal Agostino Casaroli, secretário de Estado do Vaticano, enviou uma carta ao reitor do Instituto Católico de Paris enaltecendo o trabalho de Teilhard de Chardin. Seu pensamento apresentava uma visão que integrava ciência e teologia e sua principal obra, O Fenômeno Humano (1955), explica sua visão sobre a história do Universo. É autor, entre outras, de Lugar do Homem no Universo, O Meio Divino, A Minha Fé, Reflexões e Orações no Espaço-Tempo e Sobre a Felicidade.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (59)

Sagrada Família: Jesus, Maria, José – Domingo 31/12/2017

Anúncio do Evangelho (Lc 2,22-40)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. Conforme está escrito na Lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. Foram também oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado na Lei do Senhor.
Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor.
Movido pelo Espírito, Simeão foi ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meu olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele.
Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te transpassará a alma”.
Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.
Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor!
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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:

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FAMÍLIA: PEQUENA IGREJA
          Ao celebrarmos a Sagrada Família, nossa atenção se volta também para nossas famílias. As famílias hoje conhecem muitas dificuldades e desafios, mas também alegrias e esperanças. O papa Francisco nos lembra:

            “Como é importante às famílias caminhar juntos e ter a mesma meta em vista! Sabemos que temos um percurso comum a realizar, onde encontramos dificuldades, mas também momentos de alegria e consolação. Nesta peregrinação, partilhamos também os momentos da oração. Que poderá haver de mais belo, para um pai e uma mãe, do que abençoar os filhos ao início do dia e na sua conclusão? Fazer na sua fronte o sinal da cruz, como no dia do batismo? Não será esta a oração mais simples que os pais fazem pelos seus filhos? Abençoá-los, isto é, confiá-los ao Senhor, como fizeram os pais de Jesus. Como é importante, para a família, encontrar-se também para um breve momento de oração antes de tomar as refeições juntos, a fim de agradecer ao Senhor por estes dons e aprender a partilhar o que se recebeu com quem está mais necessitado (…). O perdão é a essência do amor, ele é fundamental na família. Ai de nós se Deus não nos perdoasse! É no seio da família que as pessoas são educadas para o perdão (…). Não percamos a confiança na família! É bom abrir sempre o coração uns aos outros, sem nada esconder. Onde há amor, também há compreensão e perdão”.

            Rezemos com frequência a bela oração que se encontra no final da exortação apostólica Amoris Laetitia:

“Jesus, Maria e José, em vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor; confiantes, a vós nos consagramos.
Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias em lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do evangelho e pequenas igrejas domésticas.
Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado seja rapidamente consolado e curado.
Sagrada Família de Nazaré, fazei que todos nos tornemos conscientes do caráter sagrado e inviolável da família, da sua beleza no projeto de Deus.
Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém”.

Pe. Nilo Luza, ssp


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sábado, 30 de dezembro de 2017

A FALTA QUE FAZ O HUMOR - Zuenir Ventura

A falta que faz o humor


Vivo dizendo que não sou nostálgico, que, como Paulinho da Viola, “meu tempo é hoje”, que o importante é curtir o momento, carpe diem, essas coisas. Mas tenho recaídas, como a do último fim de semana, com a morte de Luiz Carlos Maciel, que me encheu de pesar e de recordações da época em que ele foi, como grande pensador, o guru de uma geração. Eram os anos de chumbo, tempos difíceis — de censura, prisões, tortura e morte — e curiosamente de grande efervescência artística, a ponto de alguns acharem até hoje que a repressão estimulava a criatividade, quando na verdade era apesar, não por causa dela, que se criava tanto.

Maciel foi responsável por divulgar a contracultura daqui e do exterior na sua coluna Underground, que assinava no “Pasquim”, um fenômeno jornalístico que contava com Tarso de Castro, Sérgio Cabral pai, Ziraldo, Millôr, Jaguar, Francis, Ivan Lessa, Sérgio Augusto para dar dor de cabeça à ditadura. Não a derrubou, mas ridicularizou-a com a sua principal arma, o riso, deixando a lição de que, no entanto, é preciso cantar e não perder a graça. 

Até então, pasquim significava panfleto, qualquer publicação sem qualificação e importância. Com humor e irreverência, o novo jornal subverteu forma e conteúdo, linguagem e conceito do que existia no mercado da informação. A ironia, a sátira, a paródia, o disfarce e o deboche foram usados contra a hipocrisia e o cinismo do poder dominante. Esse jornaleco de nome e cara fora de uso descolonizou um modelo de imprensa que era a transposição mimética do ideal francês ou americano.

A falta de seriedade, a conduta gaiata, anárquica, desorientaram os censores, cujos mecanismos foram apanhados de surpresa por um inesperado veículo alternativo sem declarada intenção política, mas que respondia a uma demanda reprimida. Com uma ousada tiragem inicial de 20 mil exemplares, em poucos meses vendia incríveis 200 mil e passava a influenciar costumes e a lançar modismos.

Se o tropicalismo, outro sucesso da época, pretendia ser uma alegoria do Brasil, o “Pasquim” foi uma paródia. Aquele jogava com o absurdo; este, com o ridículo. Se a ditadura era carrancuda, sempre de cara amarrada, uma das maneiras de se opor era fazendo rir dela. Existia, por exemplo, uma “esquerda festiva” apostando na alegria e capaz de assumir piadas politicamente incorretas como essa de autogozação em plena Guerra Fria: “o capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O comunismo é o contrário”.

Daqueles anos de sufoco político, de que há tanto a rejeitar, ficou pelo menos uma lição para estes nossos tempos irascíveis e sem graça: é possível resistir sem perder o humor.

O Globo, 13/12/2017

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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JESUS - Raul Teixeira

Jesus

Chegou ao mundo nos braços de uma tecelã e de um modesto carpinteiro, cercado pela moldura da natureza em festa.

A Sua vida se desenvolveu, desde cedo, demonstrando a que viera, quando dialogou com os doutores do templo, aos 12 anos de idade, conforme rezam as tradições.
Conviveu com todos os tipos de criaturas, exaltando a simplicidade e a alegria de viver, a fidelidade ao bem e a fraternidade, a responsabilidade nos atos e o amor.

Falou sobre o bem, sentindo-o.

Ensinou o bem, vivenciando-o e a ele se entregando.

Passou pela Terra como a brisa que sopra na primavera, deixando o aroma da Sua passagem, numa verdadeira floração de bênçãos variadas.

Esteve no mundo como um marco de permanente esperança, insuflando coragem nas almas aterradas de pavor ante as próprias deficiências.

Viveu no planeta entre a luz do Céu e as almas umbrosas da Terra, buscando levantar o coração humano para as altitudes felizes, onde vibram os seres angélicos dos quais Ele fazia parte.

Aquilo que afirmou como fundamental à alegria e à paz tratou de expressar em Sua vida, na condição de Modelo e de Guia de todos nós, por isso amou os Seus e por eles deu a própria vida; atendeu às necessidades das almas enfermas que O buscaram; ofereceu a água fresca da Sua dedicação, a fim de que não mais sede tivesse quem dela bebesse; saciou a fome de entendimento, de conhecimento e de carinho, tudo havendo transformado no sublime pão da vida; apresentou-Se atencioso e verdadeiro para com Seus discípulos, ajustado à posição de Mestre inigualável.

Acompanhando os movimentos da Humanidade através das eras, identificamos nobres e respeitáveis almas que, na postura de líderes ou de condutores sociais, pregaram o bem, o bom e o belo para os seus liderados, que os exalçam pelos tempos afora.

Quando, diante da indagação de Allan Kardec aos Imortais acerca de qual era o Espírito mais perfeito oferecido ao mundo, para servir de Guia e Modelo à Humanidade, os Mentores planetários ripostaram dizendo que era Jesus.

Como Ele foi, então, o maior dentre todos os que à Terra foram enviados para anunciar o Reino dos Céus aos aturdidos filhos do Grande Pai, isso significa que todos os demais, por mais dignos e respeitáveis que tenham sido, são, contudo, menores do que Ele. Mensageiros da Divindade, todos os demais vieram atender aos programas do Criador atidos às épocas, às culturas, às inclinações morais. Jesus, porém, trouxe os matizes da Lei que a todos alcança, sem choques essenciais com nenhum deles, embora o formato próprio às realidades psico-antropológico-sociais de cada um.

Somente Jesus Cristo conseguiu ensinar e exemplificar com Seu viver as lições que nos passou, e se hoje, quando evocamos o Seu luminoso Natal, nos vemos engolfados nessas ondas de felicidade, é porque o Senhor de Nazaré, mais e melhor do que qualquer outro, transformou-Se em Caminho, em Verdade e em Vida para todos nós, em todos os tempos e em todas as dimensões da vida terrestre.

Mensagem psicografada pelo médium Raul Teixeira, na Sociedade Espírita Fraternidade, Niterói-RJ.

Raul Teixeira - Natural da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, Raul Teixeira é licenciado em Física pela Universidade Federal Fluminense, Mestre em Educação pela mesma universidade e Doutor em Educação pela Universidade Estadual Paulista. Professor aposentado da Universidade Federal Fluminense.

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NUMA NOITE ANTIGA DE NATAL – Ariston Caldas

Numa Noite Antiga de Natal


            A noite de Natal seria um bom cenário para o pedido. Ótimo mesmo.

            Júlio Braga pensou assim debruçado à janela, cruzando os dedos, olhando para o pequeno jardim em frente cheio de flores amarelas desabrochadas, havia pouco do amanhecer.

            Ele propusera isso a Isolda e o ato seria em forma de surpresa para seu Clemente e dona Elza, pais da menina,  mesmo sabendo-os difíceis para esse tipo de consentimento. A proposta, logo aceita pela moça, seria uma celebração importante para marcar o primeiro aniversário do namoro deles.

            Júlio juntava o cenário  de acontecimentos novos com ocorrências passadas, lembrava do primeiro encontro, tardinha caindo, o parque de diversão regurgitando de gente, carrossel girando, uma roda-gigante, barraquinhas, auto-falantes, ele no meio, circulando, de olho em Isolda na dita roda-gigante, abismado com as pernas dela abrindo e fechando, sem modo,  mostrando-se desapercebida, cabelo voando pelo vento.

            A proposta dele para  o namoro veio no dia seguinte, aceita por ela depois de muito lenga-lenga. Ele não lhe fazia o tipo desejado – branco demais, lábios finos, cabelo escorrido grudado de vaselina. Mas, moço de futuro, sério, de boa família, educado, bem de dinheiro. Verdade que ela, com somente 13 anos, não ia deslindar essas conceituações advindas de conversa fiada de quem quer que fosse. Como avisar o acontecimento do pedido aos pais de Isolda, particularmente a seu Clemente! Uma parada.

            Bom mesmo seria uma surpresa, tudo ocorrer sem nenhum aviso. O pior era que ele não tinha nenhuma intimidade com os familiares da menina. O Natal aproximava-se, Júlio contava os dias nos dedos, pensativo. E Isolda, meio assustada: “terei condições de casar agora?” Lembrava-se dos estudos, do cabelo liso de Júlio, dos beiços finos, da idade dela, 13 anos. Mas ele era um sujeito digno, de boa família, coisa e tal. Poderia haver, também, a rejeição dos pais dela, mas ainda pela idade, não tanto pela figura do rapaz que tinha boa condição social, participação ativa nos melhores meios do lugar.

            Quem achou a solução para o problema foi Susana, amiga de Isolda e da família dela. Susana entraria de braço dado com Júlio e o apresentaria aos pais de Isolda, explicando o objetivo da estranha visita. Júlio aceitara a ideia, Isolda, também.

            Chegou o dia, chegou a noite de Natal. Os pais de Isolda, como se soubessem do acontecimento do pedido, iluminaram a residência de ponta a ponta; montaram um presépio e prepararam uma ceia invejável; convidaram parentes e amigos. Isolda, sabendo de tudo, vestiu um conjunto chique, calçou sapatos novos e fez um penteado exuberante.

            Próximo à ceia e à missa, Júlio apareceu na porta da rua, de braço dado com Susana. Uma surpresa para seu Clemente, para dona Elza, não pela presença de Susana, mas pela cara de Júlio, sujeito quase desconhecido ou pelo menos sem  nenhuma intimidade com a família, mesmo namorando com Isolda; mas era uma amizade de encontros espaçados, pelos jardins, nas esquinas, ele nem chegava na ponta  do passeio de seu Clemente. Susana, sim, fora convidada. Isolda assustou-se, chegou a ficar pálida, amuando-se a um canto da sala, sem acreditar no que via, imaginando no que ia dar aquela encrenca. Noivar, 13 anos. Os estudos!

            Novamente Natal. Júlio Braga olhava, agora, umas nuvens vermelhas ofuscando o sol que se escondia. Faltava uma semana. “Será que a missa var ser com chuva?” Indagava-se debruçado à janela de outra casa em outro lugar, sem o jardim em frente com flores amarelas; os dedos cruzados, grossos, cabeludos nas juntas. Onde andaria Isolda? 13 anos naquele tempo, dentro de um conjunto vaporoso, penteado exuberante;  numa roda-gigante, as pernas abrindo e fechando, sem modo. Seu Clemente disse não ao pedido, sisudo, sangue subindo, irritado, bruto. Dona Elza retraiu-se, obediente, silenciosa, entrou para  um quardo onde devera ter chorado algumas lágrimas.

            Júlio envelheceu e não casou; as pernas encurvaram formando um arco, os pés balofos nuns chinelões esparrados, o cabelo escorrido de antigamente, sumiu, dando lugar a uma calva imensa alumiando sem auxílio de vaselina. Ele lembrava, de súbito, desse passado distante, conferindo-o com o presente, perdendo-se entre conjecturas. Tudo aflorou, assim, ao ouvir uma música de Natal repetida nem sabia quantas vezes através do tempo retratando Isolda com treze anos, seu Clemente, dona Elza que teria chorado trancada num quarto, depois da bronca do marido. Eram figuras ofuscadas por meio século, como se fossem personagens de uma estória de ficção.

            Olhou novamente para a vermelhidão do céu enquanto as imagens iam sumindo de sua cabeça, uma a uma, como sombras.


(LINHAS INTERCALADAS)
Ariston Caldas

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia,  em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico Terra Nossa, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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