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sábado, 17 de março de 2018

GENTE INVISÍVEL - Luiz Caversan.


"Depois de uma certa idade, a mulher se torna invisível".

A revelação, feita mais em tom de chacota do que de desabafo, é de uma amiga querida, para quem, a partir dos 40 ou dos 50, ou quando deixa de exibir certo atributos "indispensáveis" pelos padrões convencionais de beleza, a mulher torna-se invisível. 

"Alguns homens, mesmo maduros, e certas jovens parecem esquizofrênicos, olham através da gente como se não existíssemos".

É feia esta amiga? Não acho.

Mas minha opinião não importa, diz ela: pelos padrões "oficiais", e assim como milhares de outras pessoas normais, ela deixou de fazer parte da paisagem para determinado tipo de olhar, garante.

Talvez minha amiga exagere um pouco, mas faz muito sentido o que ela diz. Porque também são invisíveis para quem não quer ver os idosos, as crianças remelentas abandonadas nas esquinas, os moradores de rua, os pedintes em geral, os desvalidos que abundam nesta e em tantas outras cidades.

Seres inconstatáveis que talvez só se convertam em realidade para os funcionários da limpeza pública que vez ou outra passam recolhendo seus andrajos e jogando água e desinfetante com um caminhão pipa para expulsar as suas inconveniências.

Pensando bem, há outras categorias de invisíveis, entre as quais os deficientes físicos, as crianças com problemas de desenvolvimento mental, os pobres, os pardos e os diferentes em geral, aqueles que, diante da parvoíce que assola nossos tempos modernos, teimam em existir.

Apesar de todas as evidências...

Luiz Caversan é jornalista e consultor



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terça-feira, 13 de março de 2018

ITABUNA CENTENÁRIA ONTEM: OS DEPUTADOS E O CASSETA & PLANETA


08/06/2001
Deputados indignados com o programa "Casseta & Planeta" de 15/05/2001

Após a reportagem abaixo, vem a nota de esclarecimento do Casseta &
Planeta.

O Globo - 17/05/2001
Câmara se queixa do 'Casseta & Planeta'
Catia Seabra
BRASÍLIA.

Pressionada por deputados, a Procuradoria da Câmara vai reclamar junto à Rede Globo pelas alusões feitas no programa "Casseta & Planeta" exibido terça-feira passada. Os parlamentares reclamaram especialmente do quadro em que foram chamados de "deputados de programa". Nele, uma prostituta fica indignada quando lhe perguntam se é deputada. O quadro em que são vacinados contra a "febre afurtosa" também provocou constrangimento.

Na noite de quarta-feira, um grupo de deputados esteve na Procuradoria da Câmara para assistir à fita do programa. Segundo o procurador Ricardo Izar (PMDB-SP), duas parlamentares choraram. Izar se encontrará segunda-feira com representantes da emissora para tentar um acordo antes de recorrer à Justiça.

O presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), também se disse indignado. "O programa passou dos limites. Eles têm talento suficiente para fazer graça sem desqualificar a instituição, que garante a liberdade para que façam graça", disse Aécio.

O diretor da Central Globo de Comunicação, Luís Erlanger, disse que a rede só se pronuncia sobre ações judiciais depois de serem efetivadas. Os humoristas do Casseta & Planeta não quiseram falar sobre o assunto dizendo não querem "dar importância à concorrência.

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NOTA DE ESCLARECIMENTO


"Foi com surpresa que nós, integrantes do Grupo CASSETA & PLANETA, tomamos conhecimento, através da imprensa, da intenção do presidente da Câmara dos Deputados de nos processar por causa de uma piada veiculada em nosso programa de televisão. Em vista disso, gostaríamos de esclarecer alguns pontos:

1. Em nenhum momento tivemos a intenção de ofender deputados ou prostitutas. O objetivo da piada era somente de comparar duas categorias profissionais que aceitam dinheiro para mudar de posição.

2. Não vemos nenhum problema em ceder um espaço para o direito de resposta dos deputados. Pelo contrário, consideramos o quadro muito adequado e condizente com a linha do programa.

3. Caso se decidam pelo direito de resposta, informamos que nossas gravações ocorrem às segundas-feiras, o que obrigará os deputados a interromper seu descanso."


Luiz Caversan,  é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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sexta-feira, 9 de março de 2018

MÁXIMAS SOBRE O ATO DE ESCREVER - Luiz Caversan

Máximas sobre o ato de escrever  


No começo da carreira, quando tentava de todas as maneiras absorver o máximo possível de tudo aquilo que julgava que um jornalista deveria saber - senso de discernimento, curiosidade, teimosia, espírito crítico, escrúpulo, respeito, humildade e sobretudo capacidade de respeitar a língua e por intermédio dela transmitir ideias -, tive o privilégio de conviver com um gênio do vernáculo.

Ele era copidesque --aquele que dá a forma final ao texto jornalístico-- dos então famosos editoriais do jornal "O Estado de S. Paulo", famosos principalmente por conta da linguagem erudita e da forma apuradíssima. Pois bem, Mário Leônidas Casanova era o responsável pela precisão e erudição daquele pedaço nobre do jornal. E, num tempo em que começava a germinar a transição da máquina de escrever para o computador, ele perpetrava seus textos com uma magnífica caneta Parker. Tinteiro, obviamente.

O homem era uma coisa. "Casanova, a palavra àquele leva crase", perguntava eu com a ignorância e impertinência típica dos focas (jornalistas em começo de carreira). "A crase é muito mais que uma manchinha sobre a letra a", dizia ele, antes de me mandar sentar e pespegar uma aula completa sobre esse acento que pouca gente sabe colocar no lugar certo (eu arrisco dizer que aprendi a usá-lo naquela época...).

Mas uma das máximas do Casanova era: "Meu filho, lauda em branco aceita tudo". Dizia isso para condenar a quantidade de sandices que se escreviam, e que certamente se escrevem até hoje, seja lá qual for a intenção.

Mas por que pensar agora no velho e generoso Casanova, que era, além de tudo, um conhecedor profundo do chorinho, esse gênero musical tão maravilhoso quanto relegado a um injusto esquecimento no cenário da música deste país?

Porque recebi de uma amiga uma lista de máximas sobre a escrita que o faria sorrir por trás daqueles vastos bigodões, como que a afirmar: "É o que sempre digo...".

Esta lista vai agora publicada de bate-pronto, por isso pode eventualmente conter imprecisões, mas corro o risco porque ela é sem dúvida muito interessante.

São descrições do ato de escrever:


"Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias." (Pablo Neruda)

"Escrever é, simplesmente, uma maneira de falar sem que nos interrompam." (Sofocleto)

"É preciso escrever o mais possível como se fala e não falar demais como se escreve." (Sainte-Beuve)

"O ato de escrever é a arte de sentar-se numa cadeira." (Sinclair Lewis)

"Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não." (José Saramago)

"Escrever é ter coisas para dizer." (Darcy Ribeiro)

"Perdoe-me, senhora, se escrevi carta tão comprida. Não tive tempo de fazê-la curta." (Voltaire)

"Reescrevi 30 vezes o último parágrafo de `Adeus às Armas´ antes de me sentir satisfeito." (Ernest Hemingway)

"Uma história se conta, não se explica." (Jorge Amado)

"Escrevo para que meus amigos me amem ainda mais." (Gabriel García-Márquez)

"Quem não lê não escreve." (Wander Soares)

"Cada um escreve do jeito que respira. Cada um tem seu estilo. Devo minha literatura à asma." (Fabrício Carpinejar)

"Escrever é um ato de liberdade." (Martin Amis)

"Escrever é uma forma de a voz sobreviver à pessoa." (Margaret Atwood)

"De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro é todo um mundo." (Monteiro Lobato)

"Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer é porque um dos dois é burro." (Mário Quintana)

"Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente ninguém sabe quais são elas." (W. Somerset Maugham)

"O autor escreve apenas metade de um livro. A outra metade fica por conta do leitor." (Joseph Conrad)

"Corrigir uma página é fácil, mas escrevê-la, ah, amigo! Isso é difícil." (Jorge Luis Borges)

"Escrever não é fácil ou difícil, mas possível ou impossível." (Camilo José Cela)

"Escrever é deixar uma marca. É impor ao papel em branco um sinal permanente, é capturar um instante em forma de palavra." (Margaret Atwood)

"Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." (Clarice Lispector)

"Para escrever bem é preciso uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida." (Joseph Joubert)

"Escrever não é nada mais senão ter o tempo de dizer: estou morrendo." (Gaëtan Picon)

"Uns escrevem para salvar a humanidade ou incitar lutas de classes, outros para se perpetuar nos manuais de literatura ou conquistar posições e honrarias. Os melhores são os que escrevem pelo prazer de escrever." (Lêdo Ivo)

"Escrever é sacudir o sentido do mundo." (Roland Barthes)

*Reproduzido de http://www1.folha.uol.com.br/


ABAIXO, chamada e imagem publicadas na capa na edição que trouxe este Luiz Caversan ao Tyrannus 
escrever sobre o ato de escrever. Eis o que temos hoje para servir aos internautas visitantes do Tyrannus. De autoria do cara da foto abaixo, experiente jornalista, é a crônica da hora, encorpada por uma lista de frases de diversos escritores a respeito do ofício da escrita. Particularmente, gosto de algo que ouvi no milênio passado, cuja autoria me esqueci: "quem lê muito escreve bem". Claro que acredito nisso assumindo o grave pecado da generalização...

Luiz Caversan é jornalista e sua produção pode ser conferida no endereço http://blogdocaver.com.br/

http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/cronicas/8238/maximas-sobre-o-ato-de-escrever

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