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quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Pegando fogo

José Sarney



A marchinha de Francisco Mattoso lança o grito que nos últimos dias está na pele de todos: “Meu coração amanheceu / Pegando fogo, fogo, fogo!” Coração e braços e pernas estão assando com o caloraço de setembro. Nada da morena que passou perto: foram os recordes de temperatura que nos deixaram assim.

Nós aqui no Maranhão até que escapamos das temperaturas quarentenárias e não precisamos entrar em quarentena, mas no Sul Maravilha a coisa foi feia. Felizmente nós somos um povo que é antes de tudo um forte e não tivemos a mortandade que as canículas deste século têm feito no hemisfério norte, sobretudo entre os velhinhos como eu. Lá, quando a maré de caldo quente vem chegando, eles precisam começar as campanhas: “fique em casa”, “hidratação de hora em hora”, “feche bem a casa”.

Feche a casa? Pois é. Na Europa eles descobriram que as casas, bem isoladas para manter-se aquecidas no inverno, funcionam no verão para não deixar entrar o calor. Aqui nessa nossa cidade de São Luís temos felizmente os ventos alísios passando pelas casas de pé direito alto e ventilação cruzada, solução equatorial que nos deixaram os construtores portugueses.

Mas de onde vem este fogo infernal? Hoje não há dúvida de que das mudanças climáticas provocadas pelo homem. Aqui no Brasil não temos, infelizmente, dado a contribuição que devíamos. Continuamos desmatando e tocando fogo, a passos largos, na Amazônia, no Cerrado, até na Mata Atlântica — na minúscula fração da Mata Atlântica que ainda está de pé. É claro que o centro do problema está na Floresta Amazônica, que é tão generosa e acolhedora para o homem e que ele teima em destruir.

No começo do século passado ficou muito conhecido um livro — aliás o nome de um livro — de Alberto Rangel. Era um escritor empolado e difícil de ler, mas o nome colou e virou um apelido injusto. Aliás o conto que dá nome ao livro fala de um engenheiro que invectiva a floresta, que, na voz de Rangel, “poderia responder”:

“Fui um Paraíso. Para a raça íncola nenhuma pátria melhor, mais farta e benfazeja. Por mim as tribos erravam no sublime desabafo dos instintos de conservação… Inferno verde do explorador moderno, vândalo inquieto… alma ansiada de paixão por dominar a terra virgem que barbaramente violenta. Eu resisto à violência dos estupradores…”

O livro foi prefaciado pelo extraordinário Euclides da Cunha. E se a visão de Rangel é a oposta do “inferno verde”, a explicação de Euclides tem o toque do livro inacabado, “O Paraíso Perdido”. “Daí as surpresas. […] as mudanças extraordinárias e visíveis ressaltam no simples jogo das forças físicas mais comuns. É a terra moça, a terra infante, a terra em ser, a terra que ainda está crescendo…”Seu plano era falar do impacto, da dificuldade de apreender, compreender a floresta. “…o que se me abria às vistas desatadas naquele excesso de céus por cima de um excesso de águas[,] lembrava (ainda incompleta e escrevendo-se maravilhosamente) uma página inédita e contemporânea do Gênese.”

Mas a nossa visão contemporânea, para nós que podemos ver a floresta de avião ou mesmo do espaço, ainda é muitas vezes de incompreensão. Mesmo quando se vê as imagens com sensores que veem através do dossel das grandes árvores e se vê a devastação, há uma resistência em compreendermos a finitude que também a alcança. E aí se toca fogo. E nossa floresta está pegando fogo, causa e resultado das mudanças climáticas.

A coisa é difícil. Assim vamos ficar na situação de outra marchinha, essa de Haroldo Lobo e Nassara: “Allah-la-ô ô ôôô / Mas que calor ô ôôô / Atravessamos o deserto de Saara / O sol estava quente / Queimou a nossa cara / Allah-la-ô, ô ôôôôô / Mas que calor, ô ôôôô ô...”

Imirante, 26/09/2023

 https://www.academia.org.br/artigos/pegando-fogo

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Ruy Póvoas fala de seu nascimento, sua infância e seu propósito.

A propósito do conto machadiano Pílades e Orestes (ou casadinhos de fresco)

 Godofredo de Oliveira Neto



O colega fazia conferência no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no centro do Rio, no belo prédio construído nas primeiras décadas do século XIX, onde funcionou a Academia Real Militar. O IFCS vai tremer, me confidenciou ele, que chegou ao local junto comigo. Ele faria a conferência ao lado de um professor da Universidade de Berlim, um dos maiores militantes da causa gay na Europa, o colega precisou. Gênero, identidades e política o tema. O professor brasileiro abriu a conferência. Leu umas frase que me soaram conhecidas.

- "A união dos dois era tal que uma senhora chamava-lhes casadinhos de fresco". Me lembrei das frases no conto Pílades e Orestes, do Machado . Nunca pensara em Quintanilha e Gonçalves (os personagens do conto) desse prisma. Mas me assustei. Alguém da plateia interrompeu brutalmente a exposição gritando " você não vai nos dizer que Machado de Assis escreveu texto com esse viés de gênero!"

Outros levantaram a voz criticando o exaltadinho, pedindo silêncio. A coisa logo degringolou. Choveram acusações, houve quem cuspisse em vizinhos de cadeira na plateia. E é aí que eu entro. O que que o professor da Letras acha? Gelei. Tinha tido um pesadelo horrível à noite e ainda estava sonolento. Meu professor de Latim do Colégio Santo Antônio de Blumenau, Frei Odorico Durieux, me passava um sabão: quer dizer que o meu aluno preferido, que consegue passar para o Português trechos inteiros da Eneida e verter para o Latim trechos mal traduzidos para o português, o maior latinista discente que tive até hoje, gosta, como me disseram, de ouvir música profana que elogia belzebu e a devassidão em pura blasfêmia?

- É só brincadeira, respondi. É carnavalização.

Como reação, meus dois ouvidos doeram com as palmadas tipo telefone desferidas pelo amado professor. A pergunta da plateia do IFICS doeu igual.

Respondi academicamente: As pulsões do personagem tornam o pecado uma realidade, mas o leitor não é o pecador - se existisse pecado aí.

O texto alforria o leitor . Fez-se silêncio na plateia. Também achei confusa a minha resposta, mas me abriu espaço para sair e pegar o ônibus em direção ao Fundão. Esqueci de precisar que madame K. estava comigo no evento - você lacrou, ela disse baixinho. Até hoje não entendi bem o sentido de lacrou. Fui, através das janelas embaçadas do busão, apreciando a paisagem carioca saudoso do frei Odorico. Os ouvidos doíam.

Facebook/ Redes Sociais, 14/09/2023

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

CARTA DA NAÇÃO ÀS FORÇAS ARMADAS BRASILEIRAS



Se acham que pediremos mais uma vez, inutilmente, que intercedam pelo Brasil, estão redondamente enganados.

Vocês venceram a sociedade pelo cansaço e pela traição. No entanto, trata-se de uma vitória amarga, constrangedora. Vocês se lembram de quando Rubinho Barrichello parou o carro a poucos metros da linha de chegada para que Schumacher vencesse a prova? O alemão subiu ao pódio sob vaias, e aquela “vitória” desonrosa manchou as dezenas de outras vitórias que ele obteve durante sua carreira. Pagou um alto preço pela covardia.

Esse deve ser o provável sentimento de todos os militares incluindo os que ainda gozam de um mínimo de decência, de vergonha na cara, por vossa culpa, generais de araques e sem valor. Para esses comandantes, merecem as mesmas vaias e desprezo que o piloto de Fórmula 1 recebeu na ocasião. A diferença é que serão vaias muito mais duradouras e que respingarão, infelizmente, nas pessoas com as quais convivem. Até seus filhos e netos se envergonharão de vocês.

Deve ser difícil agora levantar cedo e ter que vestir uma farda diante da esposa e dos filhos. A farda se tornou agora um sinal de covardia, de submissão, de decadência moral, de vergonha, de conivência com tudo que há de repugnante. Permitam-nos um trocadilho: convenhamos que, literalmente, sentirão, mais do que nunca, o peso do fardo, pois nunca tiveram o respeito de quem agora os governa e perderam o respeito de quem sempre os defendeu.

Essas medalhas que carregam no peito jamais foram por atos de bravura, porque de bravos vocês não têm nada, mas de covardia. É uma mistura de burrice com traição.

Se acham que os anos pós-governos militares foram difíceis (pelas críticas que receberam da esquerda), não imaginam o que virá pela frente, pois agora estão sozinhos e sob ordens de quem sempre os odiou e que os eliminará aos poucos ou os trocarão por cidadãos indignos. Vocês extrapolaram o limite da indecência ao preferir prestar continência a um ladrão condenado que a um colega de farda - seu presidente e a autoridade máxima da nação - num ato de insubordinação, cometendo crime de lesa-pátria e traição previsto no artigo 55 do Código Penal Militar, que prevê fuzilamento por tais atos. É o que de fato vocês merecem, a pena de morte.

A gota d’água da conduta vergonhosa dos senhores foi o de ainda conduzirem manifestantes indefesos para um campo de concentração comunista. Isso chegou às raias da bizarrice. Cena digna de um Gulag de Stalin. Vocês não perceberam que haviam ali mulheres, idosos e crianças? Pessoas incapazes de destruir o patrimônio público!

Vocês são mesmo tão ignorantes a ponto de não perceberem que o quebra-quebra foi articulado por militantes petistas infiltrados? É sério?

Há duas possibilidades: vocês já se venderam à proposta autoritária deste governo criminoso ou vocês foram feitos de trouxas mesmo. Qualquer resposta representa a desmoralização final das tropas brasileiras, uma instituição que gozava do mais alto grau de nossa confiança. Não há justificativa plausível para aceitarem o estado de absurdos da conjuntura brasileira com tantos gatunos no comando para causar o caos e dominar o povo como fez Hitler. Acham mesmo que isso não lhes afetará e que poderão continuar indo a todos os lugares livremente como antes? Vocês já viraram chacota nas redes sociais e em breve essa instituição será desmantelada, sucateada por aqueles a quem se venderam e serão execrados publicamente.

Judiciário opressor, eleições extremamente burladas, um bandido na presidência, presos políticos, jornalistas censurados, laços com ditaduras e narcotraficantes refeitos, uma armadilha que cedo ou tarde pegará vocês também e suas famílias.

Registra-se, neste momento, a página mais vergonhosa e constrangedora da história das Forças Armadas do Brasil. Os soldados, como os da gloriosa FEB, que outrora enfrentavam nazistas em prol da liberdade, agora prestam continência para um bandido comunista, corrupto, que possui estreitas relações com narcotraficantes, terroristas e ditadores.

Os senhores, por gerações, farão parte da história do dia em que protagonizaram o enterro do Brasil na lama, desviando-o do caminho que trilhava para o primeiro mundo e se livrar das ratazanas que sempre o destruíram.

Quando a velhice vos alcançar, fazemos votos para que o remorso da covardia devore vossas consciências por todo mal causado a 220 milhões de pessoas por mera vaidade. Um inferno para vocês é muito pouco para a covardia e desonra causada à nossa Pátria! REPÚDIO E VERGONHA!

A NAÇÃO BRASILEIRA


(Recebi via WhatsApp – autoria não mencionada)

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domingo, 3 de setembro de 2023

De primeiro foi o abecê

Cyro de Mattos

 


          Sem esconder uma certa alegria na voz, a mãe disse:

          - Segunda-feira você vai aprender o abecê na Escola Montepio dos Artistas.

          Ela finalizou dizendo que primeiro o menino aprende o abecê, que são as letras do alfabeto. Depois vai começar a soletrar as palavras para aos poucos aprender a ler o nome das coisas.

          Na pequena pasta de couro havia sido guardado o abecê, o caderno de caligrafia, outro para os primeiros exercícios de aritmética, um lápis, uma caneta esferográfica, uma caixa de lápis de cor e uma borracha. A merenda, pão com queijo, fora embrulhada com papel brilhante comprado na livraria. Foi posta na sacolinha com a garrafa plástica contendo o suco de uva.

          A mãe disse que todos os dias que fosse à escola ia levar a pasta de couro com os objetos escolares e a merenda escolar. Além disso levaria também a sacolinha com a garrafa de plástico contendo o suco de uva, uns palitos e dois guardanapos de papel.

          As aulas começavam às 8 horas e encerravam às 11, 30. Havia um intervalo de meia hora para os alunos merendarem no pátio da escola. Acontecia às 10 horas.

          Entre assustado e receoso tentou se aproximar daquele grupo de meninos da sua mesma idade, talvez cada um com seis anos. Sentou em uma das carteiras que formavam a primeira fileira no salão grande, ventilado e iluminado. No primeiro dia não quis ficar sozinho. Começou a chorar quando ouviu a mãe dizer para ele que viria buscá-lo perto de 11,30 horas quando então voltaria com ela para casa. Pensou inconformado, era muito tempo ficar à espera que a manhã passasse até que a mãe viesse buscá-lo na escola quando encerrasse o dia de aula para os alunos das primeiras lições escolares. Abriu a boca no berreiro quando viu a mãe saindo pelo corredor para deixar a escola pela porta larga da entrada. Todos ficaram assustados com o berreiro dele, nunca havia acontecido isso antes. A professora pediu que a mãe ficasse aqueles primeiros dias com o filho na escola até que ele se acostumasse com os novos colegas num ambiente que lhe era estranho, estava conhecendo pela primeira vez.

          Ela só ficou com ele apenas nos dois primeiros dias. Fez logo novos amigos nos últimos dias da primeira semana de aula, entre os meninos do seu tamanho. Se esforçou para aprender o abecê o mais depressa. Aprendeu em boa hora a soletrar os nomes. Não precisava dizer o quanto sorriu de contente quando começou a soletrar um bocado de palavras, que a professora ia soletrando, repetindo com paciência, uma a uma.

          Na primeira vez em que foi ler um texto pequeno, que falava do amanhecer numa fazenda, não gaguejou. Foi seguro e rápido. Arrancou aplausos dos colegas. Em casa contou à mãe que já estava começando a aprender a ler. Era uma questão de tempo agora para folhear o almanaque do Biotônico Fontoura ou até mesmo o jornal diário. E então começasse a saber o que acontecia na cidade, já pensando um dia em conversar com o pai sobre o fato que mais lhe chamasse atenção.

          Tempos depois pensaria que se não fosse o abecê jamais se tornaria um leitor desejoso de saber mais acerca da vida, cujos movimentos se manifestavam com o seu modo continuado de acontecer por entre os seres humanos, em cada dia.

          Nem saberia, nos seus detalhes, da importância das coisas criadas por Deus para que existisse o reino perfeito da natureza, com o sol e a chuva, a claridade e a noite, a nuvem e a árvore, o peixe e a água, o pássaro e o canto, enfim, o pai com o trabalho e a mãe como a companheira na construção de uma família com bases no amor e honradez.

 

Cyro de Mattos é baiano de Itabuna. Escritor e poeta, Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.

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quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Cheiro de bicho na serragem do circo

Godofredo de Oliveira Neto

 


Céu plúmbeo, o centro do Rio sombrio e úmido neste sábado, a Academia Brasileira de Letras impávida. Muitas mortes, poetas, pensadores e prosadores voando. Resta o livro nas mãos. Ao reler Cruz e Sousa e pensar em Mallarmé e Baudelaire, desponta inevitável a figura do palhaço, esse bufão tão presente desde o Renascimento que ora exige risos hiperbólicos, ora cobre de melancolia a plateia hipnotizada.

As quedas do nosso simbolista maior das sulistas terras açorianas relembram a fragilidade da condição humana, a derrota, a impotência, o palhaço esticado no picadeiro após espalhafatoso passo mal traçado. O rosto enfiado na serragem molhada com cheiro de elefante é o seu fado.


ACROBATA DA DOR (Cruz e Sousa)


Gargalha, ri, num riso de tormenta,

Como um palhaço, que desengonçado,

Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado

De uma ironia e de uma dor violenta

 

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,

Agita os guizos, e convulsionado

Salta, gavroche, salta clown, varado

Pelo estertor dessa agonia lenta...

 

Pedem-te bis e um bis não se despreza!

Vamos! reteza os músculos, reteza

Nessas macabras piruetas d'aço...

 

E embora caias sobre o chão, fremente,

Afogado em teu sangue estuoso e quente,

Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

 

Como o poeta sem lar, abandonado, achincalhado por seu público, sem carinho, sem calor, o excluído, o desmancha-prazeres. Mas que revela ao mundo a imagem de quem o olha e lê: palhaço somos nós!

O palhaço zombado e apedrejado é o avesso do Cristo ultrajado, segundo, se bem me lembro, uma frase de Starobinski. À seriedade de nossas certezas, o palhaço vibra e desfralda o escárnio, a derrota e a impotência. Nossa dignidade passa muito por brandir esse dístico. Um raiozinho de sol acaricia o Rio de Janeiro e a ABL.

Redes Sociais, 29/08/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/cheiro-de-bicho-na-serragem-do-circo

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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segunda-feira, 21 de agosto de 2023

A saudação de Arno Wehling a José Murilo


O Acadêmico Arno Wehling, titular da cadeira 37, foi o orador oficial da Sessão da Saudade de Jose Murilo de Carvalho, realizada na última quinta-feira, dia 17 de agosto

Leia abaixo, o discurso proferido:



A homenagem que hoje a Academia Brasileira de Letras presta a José Murilo de Carvalho é, contrariamente ao senso comum, também um ritual de passagem. Ritual de passagem, porque o acadêmico se afasta de nosso quotidiano e ingressa na grande comunidade que constitui a vida intemporal da Casa. Se a ABL reúne em si passado, presente e futuro, é porque os que se foram continuam presentes, independentemente de épocas, estilos, formas de expressão e visões de mundo.

José Murilo de Carvalho viveu, e viveu intensamente, essa percepção. Ao pesquisar a história da Academia, deixando-nos os “Subsídios”, com o habitual aparato estatístico que manejava habilmente, e ao cuidar com desvelo de seu Arquivo, não o fazia apenas por dever do ofício de historiador, mas pela preocupação em deixar sempre desperto o espírito acadêmico. Sem isso - conforme entendia - a instituição não seria capaz de se manter. Sabia, por outro lado, não ser com o antiquarismo, mas pelo vibrar da vida cultural, que ela continuaria existindo, geração após geração.

Nessa despedida, senhor presidente, familiares de José Murilo, querida Norma Cortes, caros colegas, sei que não devo traçar o itinerário intelectual nem destacar as vitórias conquistadas. De certa forma já o fiz, com ele presente, nos 70 e nos 80 anos.

Gostaria de sublinhar a dimensão humana de José Murilo de Carvalho, particularmente importante numa instituição em que o convívio de pessoas absolutamente díspares é não só boa prática social como necessidade de realização do próprio ethos da Casa.

Creio que em abono dessa pretensão posso invocar alguma experiência. A profissional, sem dúvida, pois nessa corporação poliédrica de historiadores e cientistas sociais tínhamos várias afinidades – pertencíamos, afinal, à mesma tribo, como gostava de dizer. A valorização das instituições, como pude atestar quando de seu ingresso no Instituto Histórico, na Academia Brasileira de Ciências e na própria ABL. E as mais prosaicas: éramos vizinhos de bancada nesta sala de sessões – a bancada da “montanha”, como dizia em alusão à assembleia francesa – colaborávamos permanentemente na direção do arquivo e das bibliotecas e voltávamos para casa quase sempre juntos, pois José Murilo alternava minha carona com a de Edmar Bacha.

A Academia se despede de alguém cujas qualidades são fáceis de identificar e creio que meus colegas compartilharão a percepção.

Desde logo, a seriedade com que considerava tudo, o que se traduzia em cuidado minucioso na elaboração de juízos e na enunciação das opiniões. Em consequência, muito equilíbrio e ponderação, presentes em análises percucientes e eventualmente audaciosas, a que não faltava a elegância na exposição. Como também eventualmente não estava ausente algum humor crítico, leve ou ácido, em especial nas exposições orais – atitude que revelava, penso eu, impaciência com a falta de entendimento para o que lhe pareciam, à cartesiana, “ideias claras e distintas”.

Esse breve bosquejo do intelectual, porém, só se completa se lembrarmos o forte perfil ético de José Murilo de Carvalho. Não é pouco, quando sabemos como na vida em sociedade são fortes as cavilações, invejas, tergiversações e duplas faces. O homem e a obra, ao contrário, são íntegros, solares, translúcidos. E arriscaria dizer, lembrando Joaquim Nabuco, objeto de sua admiração, que este perfil ético é, nele, “o traço todo da vida”.

Com esses instrumentos morais e intelectuais José Murilo foi à luta. Impregnado de racionalidade, mas uma racionalidade que não se confinava ao gabinete de trabalho ou ao arquivo, antes se apoiava na vida. Certa vez convidou-me para falar na Academia sobre a ideia de História em Ortega y Gasset, num dos ciclos promovidos pela Casa. Até hoje não sei o grau de proximidade que tinha com o pensamento ortegueano – Norma talvez possa elucidar este ponto. Mas creio que a ele se aplica muito bem não só a orientação raciovitalista como sua motivação. Diz Ortega:

“O que me é dado ao ser-me dada a vida é a inexorável necessidade de ter que fazer algo, sob pena de deixar de viver... Vida é, pois, sempre, queira-se ou não, um que hacer algo.”

José Murilo dava a impressão de estar sempre prestes a “fazer algo”. Não, me expresso mal: dava-me a certeza de que sempre tinha algo a fazer. Mesmo em nossa última conversa, ao telefone, a despeito do evidente esforço para falar, era o futuro, “o que tínhamos a fazer”, que importava.

Esse raciovitalismo, ou essa racionalidade vital, foi canalizada para compreender seu país. Sabemos que deixa uma das obras mais importantes para a compreensão do Brasil. Sabemos que há temas da história do Império e da República, como a atuação das elites, a cultura política, o papel das forças armadas e a cidadania para os quais deu contribuições que se incorporaram, definitivamente, à nossa maneira de ver a formação brasileira. Sabemos que foi um pesquisador para quem, além dos trabalhos individuais, era relevante atuar em equipe, e liderava exemplarmente.

Não se pode conhecer o significado das elites oitocentistas e a própria existência do Império sem passar por seus estudos sobre a escola de minas de Ouro Preto e a sofisticada caracterização, inclusive estatística, como era seu gosto, que fez a propósito da “construção da ordem” estatal.

Sobre a cultura política são indispensáveis, os bestializados, desenhando a dicotomia povo – República e a visão do “bolchevismo de classe média” do Apostolado Positivista e seu legado para intelectuais e militares messiânicos e tantos ricos insights mais.

O livro sobre as forças armadas termina com uma relação de perguntas instigadoras e um comentário entre irônico e profético: “por falta de vontade política, de competência, de capacidade de antecipação, de virtu, como dizia Maquiavel, podemos ser novamente atropelados pelas rodas da fortuna.”

Seu estudo sobre a cidadania, aplicando ao Brasil procedimentos de Marshall sublinha outra dicotomia, a que existe historicamente entre o sistema eleitoral e a efetiva prática democrática.

Isso, e muito mais, sabemos e devemos a José Murilo de Carvalho.

O que não sabemos, excluindo as motivações estritamente acadêmicas, é o porquê dessas escolhas. Arrisquei uma explicação na comemoração de seus 70 anos: fazia história, como dizia Goethe, para se livrar do passado. Qual passado? O colonial: dependente, escravagista, clientelista, patrimonialista, mandonista. Nem por isso caiu em anacronismos ou juízos de valor intempestivos, antes utilizou seu racionalismo crítico para compreender sem justificar, e para concluir apontando caminhos.

Disse-me, mais tarde, que eu tinha sido bastante fiel à sua trajetória e a seus objetivos.

Trajetória, aliás, que começa com a esperança do jovem dos anos cinquenta, impregnado de desenvolvimentismo, que esperava ver o país arrancado de seu passado imóvel e chega ao intelectual da terceira década do século XXI com certo desencanto. Digo certo desencanto, porque talvez essa percepção esteja mais perto da visualização de circunstâncias conjunturais do que de uma convicção profunda.

O subtítulo de um de seus livros mais bem sucedidos, “Cidadania no Brasil – o longo caminho” talvez explique a razão do desencanto e de certa maneira o relativize. Há um longo caminho, porque as etapas de construção da cidadania foram, estão sendo, muito mais demoradas do que todos nós – José Murilo sobretudo – esperávamos. Entre o jovem Murilo dos anos 50 e o maduro intelectual de setenta anos depois há duas gerações – ou quatro, para Ortega – que não viram a plena superação do passado. E tenho a impressão de que o acadêmico de 2023 não se desencantou das expectativas do jovem mineiro que ele foi; apenas, mais uma vez se impacientou com a lentidão do processo.

De toda forma, pelo que representou para a interpretação do Brasil – portanto, para a cultura e a ciência do país – e para a Academia Brasileira de Letras, José Murilo de Carvalho será sempre uma referência maior.

18/08/2023

 

https://www.academia.org.br/noticias/saudacao-de-arno-wehling-jose-murilo

 


Arno Wehling
- Oitavo ocupante de cadeira 37, eleito em 9 de março de 2017, na sucessão de Ferreira Gullar e recebido em 11 de agosto de 2017 pelo Acadêmico Alberto da Costa e Silva.

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