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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

A propósito do conto machadiano Pílades e Orestes (ou casadinhos de fresco)

 Godofredo de Oliveira Neto



O colega fazia conferência no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no centro do Rio, no belo prédio construído nas primeiras décadas do século XIX, onde funcionou a Academia Real Militar. O IFCS vai tremer, me confidenciou ele, que chegou ao local junto comigo. Ele faria a conferência ao lado de um professor da Universidade de Berlim, um dos maiores militantes da causa gay na Europa, o colega precisou. Gênero, identidades e política o tema. O professor brasileiro abriu a conferência. Leu umas frase que me soaram conhecidas.

- "A união dos dois era tal que uma senhora chamava-lhes casadinhos de fresco". Me lembrei das frases no conto Pílades e Orestes, do Machado . Nunca pensara em Quintanilha e Gonçalves (os personagens do conto) desse prisma. Mas me assustei. Alguém da plateia interrompeu brutalmente a exposição gritando " você não vai nos dizer que Machado de Assis escreveu texto com esse viés de gênero!"

Outros levantaram a voz criticando o exaltadinho, pedindo silêncio. A coisa logo degringolou. Choveram acusações, houve quem cuspisse em vizinhos de cadeira na plateia. E é aí que eu entro. O que que o professor da Letras acha? Gelei. Tinha tido um pesadelo horrível à noite e ainda estava sonolento. Meu professor de Latim do Colégio Santo Antônio de Blumenau, Frei Odorico Durieux, me passava um sabão: quer dizer que o meu aluno preferido, que consegue passar para o Português trechos inteiros da Eneida e verter para o Latim trechos mal traduzidos para o português, o maior latinista discente que tive até hoje, gosta, como me disseram, de ouvir música profana que elogia belzebu e a devassidão em pura blasfêmia?

- É só brincadeira, respondi. É carnavalização.

Como reação, meus dois ouvidos doeram com as palmadas tipo telefone desferidas pelo amado professor. A pergunta da plateia do IFICS doeu igual.

Respondi academicamente: As pulsões do personagem tornam o pecado uma realidade, mas o leitor não é o pecador - se existisse pecado aí.

O texto alforria o leitor . Fez-se silêncio na plateia. Também achei confusa a minha resposta, mas me abriu espaço para sair e pegar o ônibus em direção ao Fundão. Esqueci de precisar que madame K. estava comigo no evento - você lacrou, ela disse baixinho. Até hoje não entendi bem o sentido de lacrou. Fui, através das janelas embaçadas do busão, apreciando a paisagem carioca saudoso do frei Odorico. Os ouvidos doíam.

Facebook/ Redes Sociais, 14/09/2023

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Cheiro de bicho na serragem do circo

Godofredo de Oliveira Neto

 


Céu plúmbeo, o centro do Rio sombrio e úmido neste sábado, a Academia Brasileira de Letras impávida. Muitas mortes, poetas, pensadores e prosadores voando. Resta o livro nas mãos. Ao reler Cruz e Sousa e pensar em Mallarmé e Baudelaire, desponta inevitável a figura do palhaço, esse bufão tão presente desde o Renascimento que ora exige risos hiperbólicos, ora cobre de melancolia a plateia hipnotizada.

As quedas do nosso simbolista maior das sulistas terras açorianas relembram a fragilidade da condição humana, a derrota, a impotência, o palhaço esticado no picadeiro após espalhafatoso passo mal traçado. O rosto enfiado na serragem molhada com cheiro de elefante é o seu fado.


ACROBATA DA DOR (Cruz e Sousa)


Gargalha, ri, num riso de tormenta,

Como um palhaço, que desengonçado,

Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado

De uma ironia e de uma dor violenta

 

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,

Agita os guizos, e convulsionado

Salta, gavroche, salta clown, varado

Pelo estertor dessa agonia lenta...

 

Pedem-te bis e um bis não se despreza!

Vamos! reteza os músculos, reteza

Nessas macabras piruetas d'aço...

 

E embora caias sobre o chão, fremente,

Afogado em teu sangue estuoso e quente,

Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

 

Como o poeta sem lar, abandonado, achincalhado por seu público, sem carinho, sem calor, o excluído, o desmancha-prazeres. Mas que revela ao mundo a imagem de quem o olha e lê: palhaço somos nós!

O palhaço zombado e apedrejado é o avesso do Cristo ultrajado, segundo, se bem me lembro, uma frase de Starobinski. À seriedade de nossas certezas, o palhaço vibra e desfralda o escárnio, a derrota e a impotência. Nossa dignidade passa muito por brandir esse dístico. Um raiozinho de sol acaricia o Rio de Janeiro e a ABL.

Redes Sociais, 29/08/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/cheiro-de-bicho-na-serragem-do-circo

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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segunda-feira, 24 de julho de 2023

Graças à arte somos eternos

Godofredo de Oliveira Neto



Ela ignora  o espaço e a morte. O combate pela eternidade terá um final exitoso se houver uma verticalização na vida, um mergulho na alma, ali onde, justamente, nasce a chama artística.

Os escritores não ignoram que ao encontrar a “ voz interior”  o texto sai com mais densidade e literariedade.  A partir desse momento, não é mais propriamente o autor, aquele com o nome na capa do livro, a escrever; antes um narrador travestido de autor, agora o novo dono da caneta ou das teclas do computador. Uns vão chamar isso de concentração, outros de encontro com a alma, outros de encontro com  o divino, outros ainda de “ possessão” por um escritor já desaparecido, outros , simplesmente, de técnica inerente ao ofício de escritor. Todos têm consciência, porém, que o resultado daquele esforço cognitivo será atemporal.

Equacionar o conflito entre razão e emoção alojado na nossa mente é encontrar o humanismo. Se não houver o freio da razão só viceja a animalidade. A emoção deve sair dosada, como passando por um magnífico giclê dosador; muito afoga, pouco não pega. Ao artista traçar essas linhas demarcatórias ! Linhas que têm um jogo de cintura de artista para artista. A arte bamboleia sobre essa demarcação. Para esse traço não há tempo nem espaço.

Ao escrever, em 1516, o seu Sobre o melhor Estado e sobre a nova ilha Utopia, Thomas Morus cria um lugar diferente daqueles conhecidos por seus leitores, uma ilha onde não há desequilíbrios sociais e onde reina a igualdade. Morus retoma o estado ideal de Platão. A fabricação de um outro mundo basta para revelar os poderes incomensuráveis da arte e , por tabela, da condição humana. A fabulação de Morus é atemporal. No Sítio do Picapau Amarelo não se vê um patriarca a dar ordens. A personagem principal é Dona Benta. Não havia - e nem há, é pena - sociedade assim estruturada, com as mulheres no leme , pouco importa, vale a imaginação de Monteiro Lobato. O genial autor  hoje padece das opiniões racistas que, por tabela, maculam a sua obra.  Seu   Jorge, o iniciante escritor do conto “ O triunfo”, primeiro conto publicado pela Clarice, bem sabia das dificuldades, do balizamento, das impossibilidades, da finitude. Mas sabia da possível eternidade.

Machado de Assis trabalha bastante essa ansiedade advinda das limitações da condição de homens e mulheres diante do tempo. É que descobrir o real e a verdade equivale a achar um passaporte para a eternidade, por isso a fixação em relógios e olhares.

Em Dom Casmurro, por exemplo, a busca da verdade ou do real levam o narrador a sobrevalorizar os olhos da Capitu na esperança de que eles  sejam objetivos e frios, mas eles também são armas da emoção, por isso mentirosos. Lembremo-nos que o olhar da Capitu era “oblíquo e dissimulado”. E até no enterro do “amante”,versão de Bentinho: “Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas.” O tempo também poderia desvelar a verdade. Daí que o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas, do mesmo Machado, não seja “propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço”, como se lê no primeiro capítulo do admirável e engenhoso romance que, para os historiadores da literatura, iniciou a fase realista do fundador da Academia Brasileira de Letras. Ora, para rever a sua vida com objetividade, o narrador se posicionou fora do tempo e do espaço. Porque ambos relembram com dureza aos seres humanos a sua finitude.

Como sair então desse impasse angustiante?  Lendo o Dom Casmurro, por exemplo. É que através da arte leitor e autor são atemporais, logo, eternos.

Facebook/Redes Sociais, 17/07/2023

https://www.academia.org.br/artigos/gracas-arte-somos-eternos

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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sexta-feira, 7 de julho de 2023

Coronavírus, sentimento amoroso, estética, preconceitos, saímos do vórtice?

Godofredo de Oliveira Neto

 


Espasmos de amor, de frustração, de desejos frenados, de toques, de fruição, de medo. Os alunos ou se retraíam ou se amavam com olhares. O coronavírus ia fechar a UFRJ e a Academia  no dia seguinte, sexta-feira. A gente lia Morte em Veneza, aproveitando o gancho da pandemia  decretada pela Organização Mundial da Saúde. A atração indomável do escritor personagem Gustav von Aschenbach, com os seus 50 anos, pelo angelical menino Tadzio, de 14, em Veneza, vai jogar o romancista de sucesso na Alemanha  - bem sentadinho na poltrona burguesa da rica Munique -  na metáfora do caos veneziano, luxúria e pecado debruçados nos saraus e nos braços urbanos e fétidos do Adriático esquadrinhando a  ex-capital dos dodges. A ordem e a disciplina na forma da arte bem-comportada do ficcionista estrebucha diante de um amor pecaminoso, mas platônico, incentivado pelo olhar de cobiça do Tadzio cúmplice no jogo entre o sagrado e o profano. Gustav von Aschenbach, o escritor racional e formal, cuja ficção é aplaudida por um público fiel a enxergar naqueles traços a solidez do modelo sócio- econômico em vigor, leva um tranco.

Do fundo da sala, um jovem robusto com máscara contra o coronavírus e dois chifres estilo viking na cabeça, uma espada de plástico cinza amarrada à cintura, pediu a palavra. Hesitei. Solicitaria que retirasse os chifres ? Se sim, porque não o fiz antes? Deixei então que se pronunciasse. Li, afirmou ele, e vi que  nada acontece fisicamente entre o escritor e o jovenzinho. Significa que o romancista reverencia no jovem  o ideal de beleza da arte. O lado homossexual não tem a menor importância, continuou ele ajeitando a fita que segurava o seu aparato viking. Falou da relação conflituosa entre Apolo e Dionísio, explicou que leu num texto por aí e que concordava,  leu uma frase anotada no  celular sobre “ princípio do prazer para evitar a dor”.  

Retruquei com delicadeza, estranhando o “menor importância da homossexualidade”, e o lado pudico da sua intervenção. Não falei de preconceito. A ruptura do belo via comportamento pecaminoso é que, entendo, deve ser ressaltado. Daquele pecado – o escritor sofre tremendamente entre o desejo e a razão conservadora – nascerá uma nova estética e um novo modelo social? Essa me parece a revolução. Gustav não revela para a família de Tadzio, todos de férias num hotel de luxo e de lá pouco saindo, a mortífera  epidemia de cólera que se abate aos poucos sobre Veneza. Acumplicia-se aos interesses econômicos dos capitais investidos no turismo - que escondem dos clientes o terrível mal trazido do oriente -,  mas por outra razão: deleitar-se com a visão edênica do efebo até ser possuído pela moléstia e a consequente morte. A arte literária ganha um outro contorno e  a estética modernista ocupa, vitoriosa,  cabeças e mentes naquela primeira década do século XX. O movimento sindical também se organiza. O viking pareceu concordar. Me disseram depois que a namorada do Asterix  trocou-o por uma menina loirinha recém transferida da UFF para a UFRJ e vivem aos beijos pelo Campus do Fundão. E – pasmem todos, só soube no dia seguinte - , foi justamente ela, também aluna da mesma turma, que perguntou se o coronavírus não vai mudar alguns paradigmas sociais e artísticos. Se a questão de classe social não conhecerá outro combate. Se os preconceitos serão os mesmos ou se haverá novos. Como serão recebidos os imigrantes e os excluídos contaminados pelo vírus nos hospitais do Brasil e do mundo? Serão tratados como todo mundo? O assunto foi se adensando e interrompemos a aula no horário, 12:50h.     

Facebook/ Redes Sociais, 03/07/2023

https://www.academia.org.br/academicos/godofredo-de-oliveira-neto

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35 da ABL, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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