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quinta-feira, 9 de março de 2023

O brilho de Proust

Arnaldo Niskier



Com a saúde fragilizada desde a infância por conta da asma, a vida de Proust é, sem dúvida, o testemunho do permanente esforço para adaptação à doença, para a resistência ao sofrimento. Chegou até a dizer que 'a ideia da morte o acompanhava com a mesma constância quanto a da própria identidade'?

Estive no pampa gaúcho, soprado pelos ventos de Gilberto Schwartsmann, diretor da Biblioteca Pública Estadual de Porto Alegre, um notável colecionador literário, autor do livro 'A Amante de Proust' e membro da Academia Nacional de Medicina, para dizer algumas palavras sobre esse incrível escritor que foi Marcel Proust (1871-1922). Na capital do Rio Grande do Sul, não pude deixar de me lembrar do meu saudoso colega acadêmico Moacyr Scliar, autor de mais de 80 livros, falecido em 2011.

A harmonia da ascendência comum, o judaísmo, explica muita coisa das nossas crenças espirituais e literárias. Membro há 35 anos da Academia Brasileira de Letras, da qual hoje sou vice-decano, sempre me interessei, particularmente, pela cultura francesa. Talvez por isso seja natural que tenha recebido a 'Légion d´Honneur' e a Ordem das Letras e das Artes do governo francês.

Educação e Judaísmo são atividades que sempre estiveram entrelaçadas, como se pode observar no livro 'Ensaios Judaicos', do professor Jaques Ribenboim, experiente membro da comunidade judaica do Recife, que assinala: 'Existe uma tradição de letras no povo de Israel. O livro mais lido do mundo (a Bíblia) foi escrito por seus descendentes.'

O escritor judeu produz uma escrita judaica, embora não trate especificamente de temas judaicos. Marcel Proust teve um brilho especial na história do romance francês do século XX, particularmente em virtude do sucesso de 'Em busca do tempo perdido', obra publicada em sete partes, de 1913 a 1927. Nela está a ideia de que a obra literária tem por objeto voltar a encontrar, além do escoamento estéril da vida cotidiana e mundana, o universo espelhado pelo espírito e considerado, sob o aspecto da eternidade, que é também o da arte.

Com a saúde fragilizada desde a infância por conta da asma, a vida de Proust é, sem dúvida, o testemunho do permanente esforço para adaptação à doença, para a resistência ao sofrimento. Chegou até a dizer que 'a ideia da morte o acompanhava com a mesma constância quanto a da própria identidade'.

George Cattaui (1896-1974), escritor francês de origem egício-judaica, que publicou vários ensaios e biografias, analisou que o prazer na dor e na atribulação deveria, em parte, ser creditado ao sangue judeu de Proust, que o levava a considerar com desprezo ''o mundo inumano do prazer', e a defender o princípio de que 'toda a criação tem que exigir ascese e sacrifícios'. Para ele, a arte traduzia um valor absoluto. E a própria obra literária mostra muito bem a relação que existiu entre o romancista e o mundo que procurou apresentar ao leitor. Já se disse que a doença está para o romance de Proust, como o dinheiro na estrutura da Comédie Humaine . Há estudiosos que afirmam que ele foi 'o Balzac do fim da alta burguesia', que teria escrito 'o epitáfio da aristocracia francesa'.

Chumbo Gordo, 27/02/2023

https://www.academia.org.br/artigos/o-brilho-de-proust

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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terça-feira, 7 de março de 2023

Poemas de denúncia sobre

o rio Cachoeira motivam

novo livro de Cyro de Mattos



 

          Águas de meu rio é o novo livro de poesia de Cyro de Mattos, que acaba de ser publicado pela editora Ibis Libris, do Rio, com prefácio de Denise Emmer, poeta premiada em concursos expressivos nacionais, musicista, e um dos nomes importantes da poesia contemporânea brasileira. O livro é um poema longo dividido em vinte partes em que o poeta aponta com tristeza, em versos de lirismo agudo, a situação doentia do Cachoeira, outrora de águas límpidas e peixe em abundância, fonte de sustento para muitos e lugar de alegrias para meninos e gente grande. 

        Autor de 64 livros pessoais, entre o romance, conto, crônica, poema, ensaio e literatura infantojuvenil, o baiano de Itabuna Cyro de Mattos (cyropm@bol.com.br) já publicou vinte e dois livros de poesia para o leitor adulto, três deles com o tema inspirado no Cachoeira, formando uma trilogia do rio com esse Águas e meu rio. Os outros dois livros da trilogia são Vinte poemas do rio/Twenty River Poems, tradução de Manuel Portela, e O discurso do rio, constituído de trinta sonetos, ambos publicados pela EDITUS, editora da UESC. Esses dois livros foram também editados em Portugal, pela Palimage, de Coimbra, na coleção Palavra e Imagem, dirigida pelo poeta Jorge Fragoso. 

           Vinte Poemas do rio foi adotado por três anos para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz. Pequeno livro de versos cativantes, vem sendo estudado em escolas e universidades. Seus poemas foram declamados pelos alunos da Escola São Jorge de Ilhéus no Teatro de Ilhéus para um público que lotou as dependências do auditório.   

           Do livro Águas de meu rio é o poema VIII em que o poeta revela as suas relações afetivas com o rio de sua infância, quando o  cenário era de pureza e alegria.   

Leiam abaixo o poema.

 

VIII

aprendi a nadar em tuas águas

aprendi a mergulhar em tuas águas

aprendi a pescar em tuas águas

 

aprendi a sorrir em tuas águas

aprendi a cantar em tuas águas

aprendi a saltar em tuas águas

 

aprendi a flutuar em tuas águas

aprendi a dormir em tuas águas

aprendi a sonhar em tuas águas

 

enquanto as nuvens passavam

as borboletas voavam em bando

não querias que eu esquecesse tuas águas

 

  O Poeta e o Rio

   Afonso Manta

 

E vendo as águas do rio

e outras águas renhidas

o poeta Cyro reinventa

o mistério de nossas vidas.

 



Cyro de Mattos observa as lavadeiras quando

antigamente lavavam as roupas e estendiam 

nas pedras, que ficavam coloridas. 


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quinta-feira, 2 de março de 2023

O que devo a Raquel Welch

Ignácio de Loyola Brandão


 

Raquel Welch se foi. A mulher mais sexy do mundo era mortal, porque imortalidade não existe. Existisse, seria insuportável. O que teria sido de mim sem aquela atriz? Teria feito que carreira? Thomaz Souto Correa era diretor da Claudia em 1966 e me chamou: 'Quer deixar o jornal diário e vir para uma revista mensal?'. Fiquei siderado. Claudia era a revista feminina mais importante do Brasil. Moderna, trazia Carmen (com N) da Silva, que hoje estaria à frente do #MeToo.

Ela desafiava convenções e a censura da ditadura falando de sexo antes do casamento, divórcio, drogas, virgindade, anticoncepcionais, mercado de trabalho para a mulher. Precursora, acenou para o futuro das mulheres em época careta e conservadora. Mudou a história de futuras gerações. Ajudou a moldar minha cabeça nas conversas na redação e nos almoços no Hotel Cambridge, na Avenida Nove de Julho, ao lado de Glória Kalil, Isabel Montero, Guaracy Mirgalovska, Thomaz Souto Corrêa, Edith Eisler, Lu Rodrigues, Attilio Baschera, Walther Negrão. Trabalhar naquela revista mudou minha carreira da li em diante. O jornal Última Hora, onde me formei, foi comprado por uma empresa que o massacrou. Estivesse lá, o que teria feito depois?

Nervoso, fui para o teste. Na sala de Thomaz, vina parede um quadrinho do Peanuts emoldurado, com a frase 'A vida é cheia de rudes despertares'. Thomaz: 'Sei que você ama, entende de cinema, de estrelas de todos os tempos. Faça um texto fluente, sensual, sobre essa mulher'.

O filme era Mil Séculos Antes de Cristo e na foto, em lugar de Cristo, havia Raquel Welch de biquíni, sex symbol. A expressão hoje está banida, mas na época atraía. Raquel era morena, rosto entre ingênuo e malicioso, sensual. Tinha de me sair bem. Recorri aos telegramas internacionais, fui buscar minhas revistas sobre cinema, meus livros sobre Hollywood. O prazo não era o de jornal, tinha dias para isso.

Essa foi a primeira liberdade que aprendi com a revista, nada de pressa, do escreva agora, para daqui a dez minutos. Redigi, entre nervoso e ansioso (e se Thomaz não gostar?), 'enchi linguiça' (como se dizia) com historietas. Thomaz aprovou, fiquei anos na redação. Em 1967, fizemos uma Claudia em Hollywood, tentei entrevistar Raquel, não consegui, filmava em alguma parte. Na minha cabeça, eu iria dizer: 'Muito obrigado por existir, você deu impulso â minha vida'. Ela nada entenderia, me acharia esquisito. E daí? Até hoje muita gente acha. O que penso agora é: onde estão equem são os dois filhos dela? O que foi a vida deles tendo a mãe mais sexy do cinema? Uma semana atrás, escrevi esta crônica e fui almoçar com Glória e Thomaz. Raquel tinha morrido no dia anterior, aos 82 anos.

Jornal O Estado de S. Paulo, 26/02/2023

https://www.academia.org.br/artigos/o-que-devo-raquel-welch

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

AS VÍTIMAS INOCENTES QUE ESTÃO PERSEGUIDAS E PRESAS PELO ESTADO BRASILEIRO.


Atenção

Se você está ou esteve preso no domingo ou segunda-feira (08 ou 09 de janeiro de 2023), próximo das invasões da Praça dos Três Poderes em Brasília/DF, saindo dos campi do QG, induzido ou orientado a entrar num ônibus (idosos e crianças, ou não) que o levaria, de forma enganosa, preso, para a sede da PF em Brasília/DF, contra a sua vontade (sem voz de prisão em flagrante), ou seja, sem motivo, você foi sequestrado pelo próprio Estado Brasileiro! Nem por um segundo poderia ter sido submetido a tal humilhação. Sem motivo algum, ser preso sem crime, sem flagrante, sem análise de um juiz, sem julgamento. 

Você e os demais brasileiros presos são vítimas, repito, vocês são vítimas.

Virem o jogo: usem o veneno deles contra eles (o Governo). Arrumem advogados que peguem essa causa coletiva ou individual, ou a OAB, ou a Câmara Internacional Interamericana de Direitos Humanos e peçam reparação/indenização/punição contra quem expediu a ordem de prisão/sequestro, a quem os levaram presos para a sede da PF indevidamente como terroristas.

O Estado Brasileiro  precisa saber que o povo brasileiro não é  idiota, não é  ignorante Os responsáveis por esse desmando precisam saber que, ao rasgarem a lei, ferindo a dignidade dos brasileiros de bem, não ficarão impunes.

Pessoas de bem, Srs. Advogados, Srs. Juristas: vocês têm as provas, vocês têm como demonstrar como crianças, mulheres, idosos, adultos com ficha limpa e endereço fixo, que estavam nos manifestos pedindo socorro às Forças Armadas, não podem ser tratados como bandidos. Bandidos fogem do Exército e não ao contrário. O que lá faziam era pedir socorro!

Vocês que passaram por isso têm o direito de virar o jogo, têm o direito de processar o Estado.

Depois de tantos pensarem no que vocês (pessoas de bem, mulheres, idosos, crianças) estão passando, de tanto sofrermos também por vocês,  mesmo que distante  e  longe de Brasília, decidi pensar na solução e fui iluminado por esta Luz,  por este  "insight". Vocês  são vítimas sequestradas que têm o direito de mover uma ação, que o Mundo inteiro veja que são cidadãos e cidadãs brasileiros dignos encarcerados injustamente, e que exigem que se faça Justiça.

Instituições e  sociedades civis sérias que restaram, apelo para que acionem seus advogados, acionem a OAB. Temos de ajudar essas pessoas que, apenas com um olhar, vê-se que não teriam a mínima possibilidade ou indício de provocar os estragos que ocorreram na Praça dos Três Poderes naquele 08 de janeiro.

Ajude-as a resgatar suas dignidades,  ajude-as a organizar as provas e fazerem Justiça. 

Essa foi a forma que, mesmo aqui distante, vendo as imagens imparciais nas redes, pude esfriar a cabeça e contribuir na luta junto com essas pessoas.  

As pessoas que continuam presas de forma arbitrária pelo Estado Brasileiro precisam da ajuda de todos, que sabem que seus direitos foram sumariamente revogados. 

Advogados de todo o Brasil e do Mundo, vocês têm uma causa ganha contra o Estado Brasileiro, que cometeu crime ao prender pessoas que,   segundo relatos, foram presas nos Quarteis Generais do Exército, ou seja, nem no local do quebra-quebra estavam. E mesmo que estivessem, já que havia milhares de manifestantes na Praça dos Três Poderes, os mais fracos, indefesos, foram induzidos e ingenuamente (na pura boa-fé) a entrar no ônibus que os levariam a passar os piores pesadelos de suas vidas.

Esses brasileiros merecem Ter suas vidas de volta. Querem de volta sua Liberdade, vítimas que são do Estado Brasileiro. Merecem ser indenizadas, e os culpados, punidos.

 

(Recebi via WhatsApp sem menção de autoria)

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domingo, 26 de fevereiro de 2023

Erudição e Sabedoria em Rui Barbosa

Cyro de Mattos *


 

           Rui Barbosa nasceu em Salvador, aos 5 de novembro de 1849. Filho de Maria Adélia, moça de tempe­ramento calmo e bem educada. Seu pai, João Barbosa, fora um político atuante, jornalista inflamado, homem preocupado com as refor­mas humanas no ensino, um médico que aban­donara a profissão.

             Rui foi membro da Academia de Letras da Bahia e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, tendo sido presidente quando Machado de As­sis faleceu. Era um homem de estatura baixa, franzino, a cabeça grande sustentada por um pescoço fino. Tímido e feio, mas tinha uma voz poderosa quando ocupava a tribuna. Os olhos faiscavam, de cada centelha a oratória incendiava com a argumentação fascinante, baseada na verdade.

            Fora incapaz de conceber a vida sem um ideal. Liberal convicto, construtor da Repúbli­ca, deu-lhe o arcabouço jurídico inicial. Não aceitava a escravidão, clamava pela adoção das eleições diretas, reforma do ensino com méto­dos humanos, investia contra o poder papal, como defensor ferrenho da ideia de separação entre o Estado e a Igreja.

            A erudição adquirida ao longo do tempo era aplicada com brilho nas relações sociais, no intuito de construir a vida, só querendo fazer o bem. Gostava de repetir o versículo, “todo o bem que fizeres, receberás do Senhor.” No elogio a José Bonifácio, falecido no fim de 1886, desabafou contra aquele mundo político, que o fizera sofrer várias derrotas e que era considerado por ele como meio louco e míope, espé­cie de divindade gaga, protetora do daltonis­mo e da surdez, uma combinação da esteri­lidade das estepes com a paisagem onde não se canta, supondo-se que assim fosse inimiga da har­monia, contradição do belo, como tem sido neste país. E, numa intencional advertência ao poder monárquico, reafirmou como encarava a questão da escravatura na célebre fra­se, primeiro a abolição, nada sem a abolição, tudo pela abolição.

            Amara de verdade duas profissões: o jor­nalismo e a advocacia. O jornalismo sempre foi a janela de sua alma, por onde se acos­tumou a conversar durante todo o tempo, todas as manhãs, para a rua com os seus compatriotas, como informa Luís Viana, seu melhor e mais completo biógrafo, em A Vida de Rui Barbosa. Advogado do povo, foi o patrono dos professores demitidos de suas funções na Escola Politécnica. Quando o Congresso decretou a anistia, julgando impossíveis de revisão as penas e os processos dos aparen­temente beneficiados, ele bate às portas dos tribunais para se opor à situação que feria a lei e maltratava a justiça.

            Ao se dedicar à política, fora eleito De­putado Provincial em 1878 e no período de 1879-1884 exerceu mandato na Câmara dos Deputados do Império. Com o advento da Re­pública, nomeado Ministro da Fazenda, a polí­tica financeira que adotou caracterizou-se pelo abandono do lastro-ouro e a adoção de grandes emissões garantidas por apólices do Governo, visando fomentar o comércio, além da criação do Tribunal de Contas e delegacias fiscais.

         O conferencista falava mais de três horas, sem que houvesse um murmúrio desaprova­dor do auditório repleto de pessoas. Quan­do terminava, no meio das palmas demora­das ouvia-se: “Continue! Continue!” Pessoas riam, choravam, deliravam, indignavam-se, aplaudiam, acompanhavam o orador hipno­tizadas pelas emoções que a sua alma a todos transmitia.

           Designado pelo Senado para examinar o projeto do Código Civil, já revisto pelo filólo­go baiano Carneiro Ribeiro, essa tarefa sem na­tureza política revelaria ao Brasil um gramático conhecedor amiúde e melhor na colocação dos pronomes. Em pouco tempo, o seu parecer apre­sentou mais de mil emendas ao texto revisto por Carneiro Ribeiro, o antigo mestre do Ginásio Baiano, sendo corrigido agora pelo ex-aluno nas regras gramaticais.

           Em Haia, o assunto mais importante da Conferência era a organização do Tribunal Permanente de Arbitragem, com o palco pre­viamente armado para o papel de destaque das potências que governavam o mundo e manda­vam nos povos.

          A voz impetuosa e indignada de Rui apre­senta sua proposta para a Organização do Tri­bunal, onde todos os países terão assento. Fica ao livre arbítrio dos contendores submeterem as suas questões ao plenário do Tribunal. Falou em francês castiço, entre o silêncio geral, perante um auditório que o desconsiderava, mas que ficara espantado. No final fora reconhecido como uma das mais poderosas vozes da assembleia. Aque­le homem pequeno, de voz ritmada na verdade e no direito, derrotara os que representavam os direitos e interesses das grandes potências, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e Itália. Por seu desempenho superior fi­cou conhecido como a Águia de Haia.

            O discurso de Rui surpreende pela va­riedade e nas expressões soberbas de suas leituras. Da palavra imantada nas imagens candentes emergem verdades que iluminam a vida, mas sua erudição não é apenas variada, de vocabulário ilimitado, domínio do idio­ma, citações e argumentos que impressiona­vam vivamente. Pode-se dizer desse paladino da liberdade que fora um erudito abraçado com um sábio.

            Rui Barbosa, o que conhecia Vieira, lia Castilho, recitava Camões aos dez anos, santo Deus, o erudito e o sábio. Deixou este velho mundo em 1 de março de 1923. Fora residir na morada do eterno.

 

Referência

A Vida de Rui Barbosa, Luís Viana Filho, Lelo & Irmãos, Porto, Portugal, 1981. 

*Cyro de Mattos é membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Ocupa a cadeira 22 fundada por Rui Barbosa.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A Mandíbula de Caim

Marco Lucchesi

 


Quem adentra esse mundo 3D, torna-se coautor da narrativa, segunda alma de Edward Mathers.

Este romance precisa de você. Não aprecia monólogos solitários. Nasceu para o diálogo, para ouvir suas ideias. O espetáculo começa quando você chega. Só depois abrem as cortinas.

Como um ator e espectador ao mesmo tempo. O livro precisa de um Tu. É um tabuleiro de xadrez, a convidar os jogadores.

Foi uma longa espera, convenhamos. Longa e sentida. Mas importa chegar.

Mantenha os olhos abertos. Leia 'além do que existe na impressão', segundo Jorge de Lima. São muitas mudanças de plano. Metamorfoses da língua. Mosaicos vivos. Quadrados mágicos, a que recorreu Osman Lins. Remate de palavras cruzadas. Recobre a atenção. Tantas sereias e Ulisses vai sozinho.

Esse livro jamais termina. Há quatro anos adentrei a narrativa. Já não consigo, e nem pretendo, abandoná-la. Talvez nos encontremos no meio da história. Conheço alguns bares nessas páginas. Uma xícara de café? E juntos escolhemos um caminho, capaz de elucidar parte do enigma. Um desafio refinado, quebra-cabeça dúctil, cujas peças podem crescer ou diminuir, sem alterar o desenho, com seu conjunto inquieto.

Os entendidos dão três soluções ao livro. Tenho uma ideia, mas não bancarei o spoiler. Mesmo porque, cada combinação é dinâmica. Se hoje parece uma coisa, amanhã já é outra.

Quem adentra esse mundo 3D, torna-se coautor da narrativa, segunda alma de Edward Mathers.

Para uma ideia da paisagem, cito o verbete 'dogma', do Etimologiário, de Maria Sebregondi: 's.m. (do ingl. 'dog': cachorro) - irrefutável verdade canina. As trocas e as metáteses entre etologia e teologia revelam que os cães têm indiscutivelmente razão: o cão é o espelho de deus (dog/god)'.

Espelho, forma invertida, ludismo, deriva e combinação: eis alguns pontos centrais viajar com Mathers.

A que horas marcamos nosso encontro, aqui dentro, meu cúmplice-leitor, colega de aventura?

Comunita Italiana, 22/02/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/mandibula-de-caim

 

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

 

O fim da Cultura

Arnaldo Niskier


 

Como se fosse uma obrigação, todas as vezes que fui a São Paulo, nos últimos anos, visitei a Livraria Cultura, na Avenida Paulista. Era uma forma de me manter em dia com os lançamentos literários, o que é muito importante para um homem com o meu tipo de atividades profissionais. Agora isso poderá deixará de existir, em virtude do fechamento daquele famoso espaço. É de se lamentar que isso tenha ocorrido, pondo fim ao sonho da família Herz.

É muito triste ver as fotos das estantes esvaziadas no Conjunto Nacional, depois de decretação da falência da loja. Na sentença, o juiz afirmou que o grupo não conseguiu superar a sua crise econômica. Tem uma dívida declarada de 285 milhões de reais, entre aluguéis e prestações de contas, inclusive dívidas trabalhistas. Há diversas editoras com o registro de créditos enormes, como a Record, a Companhia das Letras, a Sextante, a Panini e a Intrínseca. São 76 editoras brasileiras como credoras somente no Rio de Janeiro. A empresa pode (e vai recorrer), mas sabe-se que é um processo demorado.

A administração da livraria apontou diversas causas principais para justificar esse fato profundamente lamentável: altos custos de produção, queda na demanda por livros, falta de interesse por leitura e a nossa profunda crise econômica desde 2014. É claro que estamos vivendo uma nova realidade pedagógica, com outros e revolucionários formatos de transmissão de conhecimento. Isso naturalmente teria que provocar consequências.

No Rio, praticamente ao mesmo tempo, fechou outra livraria tradicional em Ipanema: a Galileu Galilei. Não se tem como comemorar tais fatos, pois abalam o nosso arcabouço cultural. O triste, nisso tudo, é que não existe nenhuma reação por parte dos governos, de qualquer instância. Já existe, é certo, um novo Ministério da Cultura, mas ninguém soube de qualquer reação das novas autoridades a propósito do assunto. Um país com mais de 60 milhões de estudantes não pode sobreviver sem bibliotecas e livrarias compatíveis com o seu tamanho e as suas perspectivas de crescimento. Assistir a isso tudo de forma silenciosa é o que de pior pode acontecer. Está mais do que na hora de protestar contra esse tipo de descaso com o nosso futuro.

Planalto em pauta, 17/02/2023

 

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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