Cyro de Mattos - Membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor
Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, estando Jesus na sinagoga, começou a
dizer: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de
ouvir”.
Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as
palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: “Não é este o filho
de José?”
Jesus, porém, disse: “Sem dúvida, vós me repetireis o
provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o
que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”.
E acrescentou: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é
bem recebido em sua pátria.
De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não
choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região,
havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado
Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia.
E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em
Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”.
Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga
ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até
ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de
lançá-lo no precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou
o seu caminho.
“Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou seu
caminho” (Lc 4,30)
Continuamos com o tema do domingo passado. A expressão “hoje
se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” faz
conexão com o relato anterior. “Hoje” se cumpre essa Escritura
em cada um de nós; é preciso abrir espaço para que Deus cumpra sua vontade
amorosa em nossas vidas; Ele não força nem impõe nada: “que se cumpra”, depende
exclusivamente de nós. Somos nós que temos continuamente de nos perguntar:
“cumprimos essa Escritura que acabamos de ouvir?”
Até o leitor menos atento ficará surpreso com a dissonância
que aparece no relato deste domingo: diante da aprovação e admiração que seus
conterrâneos expressam, Jesus responde com repreensões, e a cena se conclui com
sentimentos de fúria por parte dos ouvintes na sinagoga, a ponto de terminar em
tragédia.
Se estivermos bem atentos ao texto, perceberemos que o
motivo do conflito e da fúria dos ouvintes parece claro: embora citando dois
grandes profetas de Israel – Elias e Eliseu -, Jesus deu destaque a dois
personagens estrangeiros como referência (viúva de Sarepta e Naamã, o sírio),
em detrimento dos personagens do próprio povo. Para um judeu piedoso era
inadmissível que qualquer pagão recebesse um favor divino, antes de alguém
pertencente ao “povo eleito”.
Elias e Eliseu são exemplos como Deus
atua com relação aos não-judeus. Elias atendeu a uma viúva de Sarepta e Eliseu
a um general sírio, e isso deixa em evidência a pretensão de salvação exclusiva
que os judeus pretendiam, como povo eleito.
O evangelista Lucas quer “quebrar” este argumento
contundente; Jesus desmascara a cegueira coletiva e isso provocou a ira de seus
vizinhos que se sentiram agredidos.
“Não é este o filho de José?”. A única razão que
os membros de seu povo dão para rejeitar as pretensões de Jesus, é que Ele é
mais um do povo, conhecido de todos.
No entanto, aqui está a grandeza de Jesus: sendo um entre
tantos, foi capaz de descobrir o que Deus esperava dele. Jesus não é um
extraterrestre que traz poderes especiais de outro mundo, mas um ser humano que
tira das profundezas de seu ser aquilo que Deus já colocou em todas as pessoas.
Jesus fala do que encontrou dentro de si mesmo e nos convida a descobrir e
viver em nós o mesmo que Ele descobriu e viveu.
Jesus poderia ter dito muitas coisas aos seus ouvintes, para
tranquilizá-los: explicar que Deus não escolhe os seus enviados entre os
grandes deste mundo, mas sim entre os pequeninos, a exemplo de Davi, o filho
caçula de Jessé. Poderia ter-lhes dito que se tornariam mais imagem de Deus se
dedicassem um cuidado especial aos cegos, aos prisioneiros e aos outros
deserdados, vítimas do contexto social, político e religioso da época.
No entanto, em lugar de tranquilizá-los, Jesus vai
inquietá-los ainda mais. Recorda-lhes, então, que Deus, em tempos de penúria e
sofrimento, foi em socorro de estrangeiros, de pagãos, sem qualquer ligação com
o povo eleito. Temos aí, em todo caso, o que provocou a indignação dos ouvintes
de Jesus. No fundo, o culto a Deus cedeu lugar ao culto ao povo eleito. Este
tipo de idolatria não é raro e pode assumir diversas formas: o culto à classe
social, à família, à nação, às relações vantajosas, etc.
Tal idolatria chegou ao extremo a ponto de levarem Jesus
para fora da cidade, a fim de matá-lo.
É uma antecipação da Páscoa, claro: Hebreus 13,12 destaca
que Jesus foi crucificado «fora do acampamento». Mas é este excluído que vai
integrar todo o universo com sua presença salvífica.
Como humanos, todos temos a tendência por estabelecer
distância entre o próprio grupo – tribo, parentela, família, povo, religião,
nação – e todos os demais grupos. Trata-se, sem dúvida de um movimento de
autoafirmação, de busca de segurança e defesa frente o diferente. Se, unido a
tudo isso, advertimos que nossas próprias crenças são questionadas, é provável
que se despertem sentimentos de agressividade, que não são outra coisa que
expressão do próprio medo.
Muitas vezes, o zelo religioso, moral ou político degenera
em formas de intolerância e fanatismo.
A intolerância e o fanatismo são uma expressão de atrofia
espiritual e que tem graves consequências na vida social e no diálogo
inter-religioso. É a incapacidade de aceitar os outros em razão de suas ideias,
convicções ou crenças. É uma grave debilidade que torna impossível “viver a
cultura do encontro” entre pessoas e grupos humanos que pensam, sentem, creem
de maneira diferente.
É profundamente desumanizador quando alguém se fecha na
cegueira de suas próprias ideias, crenças, ideologias... Frente a essa
tendência ancestral e, com frequência, virulenta, uma atitude madura e
compreensiva relativiza muros e fronteiras, reconhece a identidade comum
e torna possível a vivência da alteridade, no respeito e na confiança
compartilhadas.
É o que apreciamos nas pessoas sábias, como se mostra neste
caso em Jesus. Sarepta, Síria, Israel: por que a diferença deveria ser
entendida como enfrentamento ou exclusão?
Ao compreender o que somos, se distendem as rigidezes
instintivas do ego e a intolerância dos esquemas mentais que se expressam nas
relações sociais, no campo da política, da religião... São mecanismos de defesa
ativados automaticamente, mas carentes de sentido quando nos situamos na
compreensão daquilo que somos, ou seja, humanos.
É evidente que aquela mesma resistência contra Jesus se
reproduz hoje: argumentos batidos e arcaicos são tomados como pretexto para que
seja recusada a verdade presente no outro.
Se em todos os aspectos da vida se faz presente a inércia do
costume, mais ainda no campo religioso: há um tradicionalismo de manter
intocável o que foi recebido, como se nisso perigasse nossa fé. Sempre fazemos
o mesmo e não nos paramos para analisar, para introduzir mudanças e avaliá-las.
É necessário superar a inércia da rotina, do de sempre, do
estabelecido. Para não entrar em processos esquizofrênicos é preciso, muitas
vezes, desaprender o aprendido. Pensemos, repensemos, provemos, inovemos... Não
é esnobismo, nem desejos superficiais de mudar por mudar, mas necessidade de
questionar aquilo que não convence e nem serve mais, e buscar o que é mais
coerente e essencial. Desconstruir para reconstruir. É um trabalho que é
preciso fazer a partir de baixo. Não esperemos que as mudanças venham de cima.
É essa mesma compreensão que nos permite “abrir passagem” e
“afastar-nos” dos preconceitos e intolerâncias que nos isolam, nos empobrecem
e, em ocasiões extremamente cruéis, desembocam em tragédias. Somente tomando um
mínimo de distância de nossos próprios mapas mentais, legalismos, suspeitas...
seríamos capazes de rir de nós mesmos diante de tão cegos padrões de pensamento
e comportamento; só assim poderemos suavizar nossa rigidez, ampliar horizontes,
celebrar e viver a unidade compartilhada em tanta diversidade de maneiras de
ser e de viver.
Texto bíblico: Lc 4,21-30
Na oração: Aliado ao conformismo e à segurança
está o medo da Mudança; fechamo-nos no conhecido por medo do desconhecido.
Marcados pela “normose” (normalidade doentia), ficamos encapsulados num
quadrado “mofado”, trancafiados por normas parentais, sociais, culturais e
religiosas.
- Também na nossa sinagoga interior carregamos
intolerâncias, preconceitos, fanatismos... que depois se expressam no
julgamento e na indiferença frente aos diferentes.
- Quê sinais de intolerância e preconceito percebo em minha
vida cotidiana? Quando aparecem?
- Minha relação com Deus é intimista ou me abre a uma
presença sadia diante de quem pensa-sente-ama de maneira diferente? Sou
presença ecumênica ou carregada de suspeita?
Antero Tarquínio do Quental, poeta filósofo de ideias
revolucionárias, espírito combativo e reformador, nasceu em Ponta Delgada em
1842. Doutorou-se em Coimbra. Notabilizou-se por sua participação ativa na luta
contra os postulados românticos defendidos por Castilho e seu grupo. sua carta Bom Senso e Bom Gosto, editada em 1865, deu
causa à famosa Questão Coimbrã, gerando, em consequência, uma das mais
memoráveis polêmicas que houve, até hoje, em Portugal. Aos 18 anos publicou seu
livro de Sonetos (1861). Mais tarde editou outra coleção de poesias – Odes
Modernas (1865) e a seguir – Primaveras Românticas (1872). Sua obra poética foi
posteriormente enfeixada em três volumes. É considerado um dos renovadores da
prosa e da poesia portuguesa. Faleceu em 11 de setembro de 1891.
Havia na
capital de uma das nossas províncias menos adiantadas certa panelinha de
gramáticos, sofrivelmente pedantes. Não se agitava questão de sintaxe, para
cuja solução não fossem tais senhores imediatamente consultados. Diziam as
coisas mais simples e rudimentares num tom pedantesco e dogmático, que não
deixava de produzir o seu efeito no espírito das massas boquiabertas.
Dessa
aluvião de grandes homens destacava-se o Dr. Praxedes, que almoçava, merendava,
jantava e ceava gramática portuguesa.
Esse ratão,
bacharel formado em Olinda, nos bons tempos, era chefe de seção da Secretaria
do Governo, e andava pelas ruas a fazer a análise lógica das tabuletas das
lojas e dos cartazes pregados nas esquinas. “Casa do Barateiro – sujeito: esta
casa; verbo, é; atributo, a casa; do barateiro, complemento restritivo.” O Dr.
Praxedes despedia um criado, se o infeliz, como a soubrette das
Femmes Savantes, cometia um erro de prosódia.
E quando
submetia os transeuntes incautos a um exame de regência gramatical?
Por exemplo:
encontrava na rua um menino, e este caía na asneira de perguntar muito
naturalmente:
- Sr. Dr.
Praxedes, como tem passado?
- Venha cá –
respondia ele agarrando o pequeno por um botão do casaco: - “Sr. Dr. Praxedes,
como tem passado?” Que oração é esta?
- Mas... é
que estou com muita pressa...
- Diga!
- É uma
oração interrogativa.
- Sujeito?
- Sr. Dr.
Praxedes.
- Verbo?
- Ter.
- Atributo?
- Passado.
- Bom. Pode
ir. Lembranças a seu pai.
E, com uma
ideia súbita, parando:
- Ah! Venha
cá! Venha cá! Lembranças a seu pai – que oração é esta?
- É uma
oração... uma oração imperativa.
- Bravo!
Sujeito?
- Está
oculto... é você... Você dê lembranças a seu pai.
- Muito bem!
Verbo?
- Dar.
- Atributo?
- Dador.
- Lembranças
é um complemento...?
- Objetivo.
- A seu
pai...?
- Terminativo.
- Muito bem.
Pode ir. Adeus.
Depois de
aposentado com trinta anos de serviço, o Dr. Praxedes recolheu-se ao interior da
província, escolhendo, para passar o resto dos seus gloriosos dias, a
cidadezinha de ***, seu berço natal. Aí advogava por muito empenho, continuando
a exercer a sua missão de oráculo em questões gramaticais.
Raramente
saía à rua, pois todo o tempo era pouco para estar em casa, respondendo às
numerosas consultas que lhe dirigiam da capital e de outros pontos da
província.
A
cidadezinha de *** dava-se ao luxo de uma folha hebdomadária, o “Progresso”,
propriedade do Clorindo Barreto, que acumulava as funções de diretor, redator,
compositor, revisor, paginador, impressor, distribuidor e cobrador.
Ninguém se
admire disso, porque o Barreto – justiça se lhe faça – dava mais uso à tesoura
do que a pena. O vigário, que tinha sempre a sua pilhéria aos domingos, disse
um dia que aquilo não era uma tesoura, mas um tesouro.
Entretanto,
se no escritório do “Progresso” a goma-arábica tinha mais extração que a tinta
de escrever, não se passava caso de vulto, dentro ou fora da localidade, que
não viesse fielmente narrado na folha.
Por exemplo:
“O Sr. Major
Hilarião Gouveia de Araújo acaba de receber a grata nova de que seu prezado
filho, o jovem Tancredo, acaba de concluir os seus preparatórios na Corte, e
vai matricular-se na Escola Politécnica da referida corte.
Cumprimentamos cheios de júbilo o Sr. Major Hilarião, que é um dos mais
prestimosos assinantes desde que fundou-se a nossa folha.”
Em fins de
maio de 1885, a notícia do falecimento de Victor Hugo, chegou à cidadezinha de
***, levada por um sujeito que saíra da capital justamente na ocasião em que o
telégrafo comunicara o infausto acontecimento.
O Barreto,
logo que soube da notícia, coçou a cabeça e murmurou:
- Diabo! Não
tenho jornais... Como hei de descalçar este par de botas? A notícia da morte de
Victor Hugo deve ser floreada, bem escrita, e não me sinto com forças para
desempenhar semelhante tarefa!
Todavia,
molhou a pena, que se parecia um tanto com a espada de certos generais, e
rabiscou: Victor Hugo.
Ao cabo de
duas horas de cogitação, o jornalista não escrevera nem mais uma linha...
Mas, oh!
Providência! Nesse momento passou pela porta da tipografia o sábio Dr.
Praxedes, a passos largos, medidos e solenes, e uma ideia iluminou o cérebro
vazio de Clorindo Barreto.
- Dr.
Praxedes! Dr. Praxedes! – exclamou ele. – Tenha vossa senhoria a bondade de
entrar por um momento. Preciso falar-lhe.
O Dr.
Praxedes empacou, voltou-se gravemente e, conquanto embirrasse com o Barreto,
por causa de seus constantes solecismos, entrou na tipografia.
- Que
deseja?
O relator do
Progresso referiu a notícia da morte do grande poeta, confessou o vergonhoso
embaraço em que se achava, e apelou para as luzes do Dr. Praxedes.
Esse, com um
sorriso de lisonjeado, sorriso que logo desapareceu, curvando-se-lhe os lábios
em sentido oposto, sentou-se à mesa com a gravidade de um juiz, tirou os
óculos, limpou-os com muito vagar, bifurcou-os no nariz, pediu uma pena nova,
experimentou-a na unha do polegar, dispôs sobre a mesa algumas tiras de papel,
cujas arestas aparou cuidadosamente com a tesoura, chupou a pena, molhou-a três
vezes no tinteiro infecundo, sacudiu-a outras tantas, e, afinal, escreveu:
“Falecimento. – Consta, por pessoa vinda de ***, ter falecido em Paris,
capital da França, o Sr. Victor Hugo, poeta insigne e autor de várias obras de
mérito, entre as quais um drama em verso, Mariquinhas Delorme (Marion
Delorme) e uma interessante novela intitulada Nossa Senhora de Paris
(Notre-Dame de Paris).
O ilustre
finado era conde e viúvo.
O seu
falecimento enluta a literatura da culta Europa.
Nossos
sinceros pêsames à sua estremecida família.”
O Dr.
Praxedes saiu da tipografia do “Progresso”, e continuou o seu caminho a passos
largos medidos e solenes.
Ia mais
satisfeito e cheio de si do que o próprio Sr. Victor Hugo quando escreveu a
última palavra de sua interessante novela.
O Barreto
ficou radiante e, examinando a tira de papel escrita pelo gramático, exclamou,
comovido pela admiração:
- Nem uma
emenda!
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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de
Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de
1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao
lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de
Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.
Como identificar, no fluxo de pensamentos que atravessam a
mente, as inspirações realmente vindas do Espírito Santo? Aqui está o
método de São Francisco de Sales
Por que é tão difícil levar a sério este conselho de São
Paulo: “Deixai-vos conduzir pelo Espírito”? De fato, alguns consideram que
uma vida guiada pelo Espírito Santo é reservada apenas para uma elite
praticante de esporte radical.
Para São Francisco de Sales, deixar-se conduzir pelo Espírito
Santo não é um luxo nem uma extravagância, mas um fundamento essencial de toda
a vida cristã. No livro “Introdução à Vida Devota”, o religioso recomenda
prestar atenção às “inspirações interiores”, isto é, a “todas as atrações, os
movimentos, os sentimentos de contrição, as luzes e a sabedoria que Deus torna
conhecidos em nós”.
Mas como podemos discernir esta voz sutil e discreta do
Espírito? Como identificar no fluxo de pensamentos que atravessam a mente
as inspirações vindas do Espírito Santo? Aqui está o método de São
Francisco de Sales em quatro passos.
1 EVITAR OS PENSAMENTOS TÓXICOS
Maurizio Cerutti
Para ouvir as sugestões do Espírito, São Francisco de Sales
aconselha a identificar sistematicamente todos os pensamentos tóxicos, como os
relacionados à amargura, raiva, ao ciúme ou à vingança. Diz ele:
“Essas pequenas tentações de raiva, suspeita, ciúme, inveja,
infidelidade de coração, frivolidade, vaidade, fingimento, maus pensamentos… Se
elas vierem te picar e pararem um pouco em seu coração, não as combata, não
lhes responda, mas simplesmente retire-as de lá, protestando interiormente o
contrário e principalmente o seu amor a Deus. Em vez disso, dirija seu coração
a Jesus Cristo”.
Ao contrário dos sussurros do Espírito, os pensamentos
tóxicos fazem muito mais barulho e criam algum tumulto interior.
2 PRATICAR A ORAÇÃO DO CORAÇÃO
Quem nunca passou um dia ruminando uma
preocupação? Quem nunca cultivou com antecipação o cenário sombrio de uma
entrevista ou reunião que desperta preocupação? Esses pensamentos podem
parecer triviais e sem importância, mas acabam criando uma parede interna que o
Espírito Santo não será capaz de derrubar. Por quê? “Quanto mais a preocupação
nos domina, mais procuramos por nós mesmos e com tensão uma solução para
dominá-la”, analisa o padre Joël Guibert, para quem a armadilha está justamente
aí: “vamos gradualmente perdendo a confiança no poder do Espírito para nós,
insistindo em cuidar de nós mesmos”. São Francisco de Sales deixa isso
claro em uma carta a uma amiga:
“Você deve se aliviar, desprezando todas aquelas sugestões
tristes e melancólicas que o inimigo nos faz com o único propósito de nos
cansar e nos preocupar.”
Para ele só há um caminho: praticar a “oração do
coração”. Em cada momento de angústia, repetir com fé: “Senhor Jesus
Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim pecador! Também chamada de
“oração de Jesus”, a prece visa tornar Cristo presente no coração de quem reza.
3 MANTER A FÉ
O Espírito Santo age na medida da confiança depositada em
sua ação. As curas relatadas no Evangelho ilustram isso muito
bem. Ter fé é, portanto, fazer a escolha de se livrar da preocupação que
sobrecarrega a mente e entregá-la a Deus. Parando o “mau pensamento”,
deixamos o Espírito Santo agir. Assim explica Francisco de Sales numa
carta a Santa Joana de Chantal:
“Nosso Senhor quer despojá-la de todas as coisas para que
somente Ele seja tudo para você.”
Entre a torrente de pensamentos excessivamente ruidosos e as
sutis inspirações do Espírito, esse exercício de discernimento exige certa
disciplina interior. Mas não se trata, sobretudo, de cair em certo
perfeccionismo. São Francisco de Sales explica muito bem isso, dando este
valioso conselho a um conhecido visivelmente envolvido em obras de caridade:
“Cuidado com todos esses pensamentos mesquinhos de vanglória
que vêm à sua alma entre as suas boas ações. Portanto, não se divirta
examinando se você consentiu ou não; mas, simplesmente, continue seus trabalhos
como se não fosse da sua conta”.
Para os religiosos, só existe uma regra de ouro: o
amor. Devemos rejeitar pensamentos tóxicos por amor a Deus. O que
conta neste exercício não é o número de pequenas vitórias, mas uma atitude
humilde e um desejo profundo de avançar neste caminho, de deixar-se guiar cada
vez mais na vida pelo Espírito Santo.