Poesia como afirmação ecológica do sul profundo, Cyro de
Mattos
Heloísa Prazeres
Uma das vozes contundentes da literatura produzida na região
sul baiana, o autor Cyro de Mattos impõe-se na literatura baiana/brasileira
pela força de suas narrativas. Possui vasto acervo crítico favorável à sua
obra, cuja fatura revela estilo impregnado de registros de fala. Bem assim, a
sua poesia situada na Região Cacaueira − reduto que propõe respostas alusivas
ao lugar geográfico de onde fala o escritor.
Teluricamente, seu verso exalta o lócus, o território, e sua
leitura (MATTOS, C. 2015) confirma o potencial poético, que em si carrega o
escritor. Seu texto oferece mais do que o faria a escrita etnográfica. A
paisagem do sul transforma-se miticamente na personificação de uma maneira de
ver, vastidão solitária, atravessada por linguagens, que chegam cegamente de um
lugar para outro − as línguas naturais faladas pelo homem a partir de seus
próprios ofícios criados, e por meio da natureza líquida do rio (PRAZERES, 2015). O sentimento de pertencimento, em
relação à terra, às pessoas e à vida mesma, reverbera,
Eu te agradeço meu rio
porque me ensinaste
pelas mãos do pescador,
lavadeira e areeiro
foste sempre uma dádiva
que suspensas as tropas
em suas trilhas aladas
se perderiam nas estradas,
pelas águas tão escuras
desceriam roupas brancas
sem que novas correntezas
pudessem remover as manchas
e na voz do aguadeiro
anunciando madrugadas
só de areia pura
o efêmero à margem
ante o eterno que passa
(MATTOS, C., 2015, “Ao rio”. p.102).
Sua visão ideológica e poética encontra-se no controle de
ambas as experiências que encarnam a fonte da imagem e o próprio ato poético. A
voz impressiona sem efeitos de literatização; a dicção convence o leitor e o
vínculo com o lugar revela moldes próprios, não autoritários,
Caminha na boca
por me saber cativo,
adoça o furto infantil,
engana no riso,
brilha no peito
jardim florido,
cores em que sonho,
da barba visgo,
roxo aroma
ébrio por dentro,
paixão e ilusão
quanto mais viajo
sinto o fruto em mim
ritmando o mito.
(MATTOS, C., 2015, “Elogio”, p.32).
A experiência comunitária poetizada reside no passado e
elegiacamente retorna, como memória cultural da diversidade da região; o
presente subjetivo traduz-se pelo pressentimento de solidão e ruína,
Encontro-me no verde de teus anos,
Como sonho menino nos outeiros,
Afoitas minhas mãos de cata-ventos
Desfraldando estandartes nessas ruas.
São meus todos esses frutos maduros:
Jaca, cacau, mamão, sapoti, manga.
E esta canção que trago na capanga
É o vento soprando nos quintais.
Quem me fez estilingue tão certeiro
Nos verões das caçadas ideais?
Quem nesse chão me plantou com raízes
Fundas até que me dispersem ventos
Da saudade e solidão? Ó poema!
Ó recantos! Ó águas do meu rio
(MATTOS, C., 2015, “Itabuna”, p.66).
Na recepção de imagens míticas do lugar, comovem o leitor
sentimentos ambivalentes de satisfação, luta, respeito e comprometimento com o
espaço geográfico, que o enraíza, e com a tradução da ecologia, que a sua
ecopoesia exalta. (Este texto integra o comunicado que a autora fez no
Congresso dos 75 Anos da UFBA)
*Heloísa prazeres é itabunense, doutora em Letras, membro da
Academia de Letras da Bahia. Ensaísta, tradutora e poeta.
“Mestra dos teólogos” e uma das primeiras místicas
italianas, seus escritos sobre suas experiências místicas sempre foram vistos
com grande respeito pela Igreja Católica.
Plinio Maria Solimeo
Ângela nasceu no ano de 1248 em Foligno, a 20 km de Assis,
na província de Peruggia, numa família muito abastada, mas sem fé. Casou-se
muito nova e teve vários filhos (seus biógrafos dizem “muitos”, sem especificar
o número).
Esquecida de sua dignidade e deveres como esposa e mãe, caiu
em pecado e levou uma vida muito desordenada, chegando a cometer sacrilégios.
Em seu admirável Livro de Visões e Instruções,
que ditou ao seu confessor franciscano, ela relata a história de sua conversão.
Esse frade terminou de escrevê-lo em 1298, e o submeteu ao Cardeal Tiago
Colonna e a oito Frades Menores, que lhe deram sua aprovação ao escrito.
Certo dia Ângela decidiu se confessar, mas tantos haviam
sido os pecados cometidos, que ficou com vergonha de acusá-los ao sacerdote.
Apesar disso foi depois comungar, embora sabendo que essa comunhão seria
sacrílega.
Aos 37 anos foi tocada por uma graça irresistível de Deus,
que a levou a sentir profunda dor por seus pecados. Então, com lágrimas
abundantes, rezou a São Francisco de Assis, a quem tinha grande devoção,
pedindo-lhe que a ajudasse. O santo lhe apareceu em sonho, assegurando-lhe que
ela conheceria em breve a misericórdia de Deus. Isso a levou a fazer desta vez
uma confissão geral, e a paz voltou à sua alma.
Ângela tinha sido até então uma mulher mundana, mas não
medíocre. Por isso, quando resolveu fazer penitência e rezar pelos seus
pecados, foi radical. Recorreu à Santíssima Virgem Maria pedindo seu amparo, e
pouco a pouco foi atingindo um alto grau na vida mística e no entendimento dos
mais profundos mistérios de nossa fé.
Santa Ângela teve uma experiência mística avassaladora do
Deus Uno e Trino, e da imensidade de seu amor pelos homens, especialmente para
com ela.
[Santíssima Trindade – Abóbada da Igreja Altlerchenfelder, em Viena]
“Não foi para rir que te amei!”
Numa Sexta-feira Santa, depois de um silêncio de vários
dias, ela ouviu Cristo Jesus pronunciar esta severa frase, que a
transtornou: “Não foi para rir que te amei; não foi para fingir que me
fiz servo; não foi de longe que toquei em ti”. Ao que ela, agora humilde e
contrita, respondeu: “Pois bem, eu faço todo o contrário. O meu amor
não passou de gracejo, mentira e afetação. Não quis nunca aproximar-me
seriamente de Vós para tomar parte nos trabalhos que sofrestes e quisestes
sofrer por mim; nunca Vos servi de verdade e na perfeição, mas na negligência e
na ambiguidade”. Essa é a linguagem de uma penitente, que chegou ao
conhecimento mais profundo do seu nada.
Orientada pelo exemplo de São Francisco de Assis, Ângela
começou uma vida de austera penitência, concentrando suas energias na pobreza,
em particular em três aspectos: pobreza das coisas, pobreza das afeições,
pobreza de si mesma. Essa mudança tão radical de vida suscitou contra ela
hostilidades, obstáculos e injúrias da família: do marido, dos filhos e da
própria mãe. Mas Ângela continuou no caminho e na vida de pobreza que já haviam
sido traçados.
Em 1288, quando tinha 40 anos, faleceram seus pais, seu
marido, seguidos depois, um a um, de todos os filhos. Deixada então
inteiramente só e livre, depois de uma peregrinação a Roma ela vendeu todos os
seus bens e passou a ficar muito tempo ajoelhada aos pés do Crucifixo, pedindo
perdão pelos seus pecados passados.
Experiência mística sobre Deus Uno e Trino
Um dia ela viu em sonhos São Francisco, que lhe recomendou
fazer uma peregrinação à cidade de Assis. Ela obedeceu, e a partir daí entrou
em cheio numa profunda vida mística, cujas manifestações não paravam mais. Era
o ano de 1291, o sexto após sua conversão e decisivo para sua jornada espiritual.
Como narrou ao seu confessor, em Assis ela teve uma longa visão do Espírito
Santo e depois de Cristo, que a instruíram familiarmente. Teve depois uma
experiência mística avassaladora do Deus Uno e Trino, e da imensidade de seu
amor pelos homens, especialmente para com ela.
Entre as graças místicas que Santa Ângela recebeu em outras
ocasiões, estava a de sentir todo o efeito da flagelação de Cristo em seus
ossos e juntas. Ela o narra no Livro da experiência dos
verdadeiros fiéis: “Eu, Ângela de Foligno, tive que atravessar muitas
etapas no caminho da penitência e conversão. A primeira foi me convencer de
como o pecado é grave e danoso. A segunda foi sentir arrependimento e vergonha
por ter ofendido a bondade de Deus. A terceira foi me confessar de todos os
meus pecados. A quarta, convencer-me da grande misericórdia que Deus tem para
com os pecadores que desejam ser perdoados. A quinta, adquirir um grande amor e
reconhecimento por tudo o que Cristo sofreu por todos nós. A sexta, sentir um
profundo amor por Jesus Eucarístico. A sétima, aprender a orar, especialmente
rezar com amor e atenção o Pai Nosso. A oitava, procurar e tratar de viver em
contínua e afetuosa comunhão com Deus”.
Santuário da Santa, em Foligno
Diretora e guia espiritual de inúmeros discípulos
Como consequência, em 1291 ela doou todos os seus bens aos
pobres e ingressou na Ordem Terceira de São Francisco.
A exemplo de Santa Catarina de Siena, sua fama de santidade
aos poucos atraiu em torno de si grande número de Terciários, homens e
mulheres, que procuravam adiantar-se na virtude sob a sua direção. Ângela era
para eles uma verdadeira guia espiritual e mestra que lhes dava apoio para
caminhar com decisão no caminho da cruz.
Mais tarde ela estabeleceu em Foligno uma comunidade
de irmãs, dotando-a da regra da Ordem Terceira de São Francisco, acrescida dos
três votos de religião, para se dedicar às obras de misericórdia.
A beata Pasqualina de Foligno foi uma de suas filhas
espirituais.
Restos mortais de Santa Ângela, na igreja de São
Francisco, em Foligno
Morte edificante e tardia canonização
No Natal de
1303, Ângela comunicou aos seus discípulos que morreria em breve. Alguns dias
depois teve uma visão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que lhe prometeu vir
pessoalmente levá-la para o Céu. Seis anos depois, no dia 4 de janeiro de 1309,
cercada por sua comunidade de discípulos, ela entregou sua alma a Deus.
Seus restos mortais foram depositados na igreja de São
Francisco, em Foligno. Muitos milagres atribuídos à sua intercessão ocorreram
em seu túmulo, e sua fama de santidade atravessou os séculos.
Entre as muitas místicas que a “conheceram”, está a grande
Doutora da Igreja, Santa Teresa d’Ávila, e Isabel da Trindade, falecida em 1906
e beatificada em 1984. Apesar disso, o caminho para ser oficialmente
reconhecida como Santa foi muito tortuoso. Já em 1547 o Papa Paulo III a citava
como tal; igualmente o fez Inocêncio XII em 1693, mas nem um nem outro se
ocuparam de sua beatificação, ocorrida somente em 1707, com Clemente XI. Em
1927, Pio XI também se referiu a ela como Santa, em carta datada de 1927. Mas
ainda assim não a canonizou formalmente.
Finalmente, no dia 9 de outubro de 2013, acolhendo a relação
do Prefeito da Congregação da Causa dos Santos, o Papa Francisco inscreveu
Ângela de Foligno no catálogo dos santos através da canonização equipolente
(sem executar o processo judicial ordinário), tendo em vista a validade da
longa veneração de que ela gozava.
Santa Ângela como mestra da vida espiritual
O Pe. Mario Scudu, SDB, escreveu no site italiano Santi
e Beati*: “Ângela mostrou compreender claramente que a comunhão profunda
com Deus não é uma utopia, mas uma possibilidade oferecida que só é evitada
pelo pecado: daí a necessidade da mortificação constante e severa para aderir
ao amor de Deus, que é todo bem e alegria para a alma. Ângela também
compreendeu que esta profunda união se realiza especialmente na Eucaristia, a
mais elevada e misteriosa expressão do amor de Cristo por nós. Outra constante
da sua vida foi a meditação dos mistérios de Cristo, em particular da sua
Paixão e Morte (junto com Maria de Nazaré aos pés da Cruz), prática, segundo
ela, muito fecunda para permanecer em comunhão com Deus e perseverar na doação
a Deus e ao próximo”.
Continua ele: “Todos sabemos que não há verdadeira
vida espiritual sem humildade e sem oração. Esta pode ser corporal (vocal),
mental (quando não se pensa em nada além de Deus) e sobrenatural ou
contemplativa. [Diz ela:] ‘Nessas três escolas a pessoa conhece a si mesma e a
Deus; e porque ela sabe, ama; e porque ela ama, deseja ter o que ama. E este é
o sinal do amor verdadeiro: quem ama não se transforma em parte de si, mas
totalmente no Amado’”.
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Fontes consultadas:
* http://www.santiebeati.it/dettaglio/30700 – Blessed
Angela of Foligno, The Catholic Encyclopedia, CD Room edition.
Em muitos países uma esquerda exausta confronta uma
direita florescente, como em nossa Pátria, onde um Brasil de superfície
confronta um Brasil profundo.
Fonte: Editorial da
Revista Catolicismo, Nº 853, Janeiro/2022
La Cumbre Vieja, o vulcão da ilha espanhola La Palma
(Arquipélago das Canárias), que entrou em erupção no dia 19 setembro de 2021,
transformou-se em 22 de dezembro na mais longeva erupção vulcânica em 373 anos.
Com seu poder de fogo, devorou casas e lavouras, forçando a retirada de
moradores e turistas. Um fenômeno que bem pode representar a situação
catastrófica da Santa Igreja e das nações neste último ano.
Com efeito, fomos assistindo ao longo dele a um espetáculo
de horror em 365 capítulos, acompanhando assim os diversos acontecimentos, quer
religiosos, quer temporais.
Uma assombrosa Revolução Cultural foi demolindo dia a dia os
vestígios da civilização. Nesse processo revolucionário anticivilizatório —
rumo a uma sociedade tribalista regida por um governo mundial —, um verdadeiro
pandemônio foi dominando o cenário político, nacional e internacional, cultural
e religioso.
Entretanto, vendo apenas um dos capítulos da série de
horror, não se tem ideia de como a ‘pandemia’do non
sense contagiou as instituições e as mentes das pessoas em todos os
cantos do mundo.
Para que se possa ter uma visão geral do avanço desse
processo, o qual poderá provocar grandes catástrofes, sobretudo morais,
impõe-se uma análise séria do conjunto dos acontecimentos, que certos setores
da mídia são hábeis em abafar os importantes e divulgar com o maior
estardalhaço os medíocres. Hábeis também em criar “cortinas de fumaça” para que
o público em geral não veja com clareza, por exemplo, o grande incremento das
reações conservadores que em 2021 notamos em muitos setores da opinião pública.
Para não nos deixarmos embair por esses inescrupulosos
interesses midiáticos, cumpre não somente dizer a verdade, mas apontar os erros
nua e cruamente, doa a quem doer.
É o que faz a matéria de capa da edição da revista Catolicismo deste
mês [capa acima], comentando e analisando o ano velho, a fim de nos
prepararmos para os imprevistos do novo ano. Como jornalistas católicos,
seguimos a orientação dada pelo Papa Leão XIII: “Não diga nada falso, não
cale nada verdadeiro”.
Solenidade da Epifania do Senhor | Domingo, 02/01/ 2022
Anúncio do Evangelho (Mt 2,1-12)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo
do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando:
“Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no
Oriente e viemos adorá-lo”.
Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como
toda a cidade de Jerusalém.
Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei,
perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. Eles responderam: “Em
Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra
de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque
de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”.
Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber
deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. Depois os enviou a
Belém, dizendo: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E,
quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”.
Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que
tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava
o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito
grande.
Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe.
Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe
ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.
Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram
para a sua terra, seguindo outro caminho.
“E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles,
até que parou sobre o lugar onde estava o menino” (Mt 9,2)
A chave da celebração da Epifania é a
universalidade da mensagem. No Natal nos encontramos com o “Deus
encarnado”; hoje celebramos o “Deus manifestado”. E a
manifestação de Deus é universal, enquanto ao tempo e enquanto ao espaço, ou
seja, Ele está continuamente se manifestando e se manifesta em toda a Criação e
em toda a humanidade. Tudo é transparência de Deus, ou melhor, Deus se deixa
“trans-parecer” em tudo e em todos; Ele sempre se manifesta a todos, embora só
consegue descobri-Lo aquele que O busca, todo aquele que tem um olhar
contemplativo e atento.
O relato dos Magos vai nesta direção. Eles descobriram
a estrela porque se dedicavam a investigar o firmamento; foram
capazes de levantar os olhos da terra. Eles, apesar de estarem distantes, viram
a estrela; a imensa maioria daqueles que estavam ao redor do recém-nascido nem
se deram conta, pois estavam preocupados em encontrar Deus nos “lugares”
manipulados pelas autoridades religiosas. Outros estavam empenhados em
descobri-lo no extraordinário, mas a verdade é que Deus se manifesta exatamente
nos acontecimentos mais simples e cotidianos. É preciso ter uma fina
sensibilidade para descobrir essa presença.
A Epifania, como manifestação da presença de Deus no mundo,
ultrapassa toda fronteira geográfica, religiosa, racial..., preenchendo de luz, de
verdade e de vida tudo quanto existe em todo tempo e espaço.
Os Magos não eram judeus, mas estrangeiros;
viram brilhar a luz na noite da vida. São eles que buscam e encontram a Luz,
pois Deus não é patrimônio exclusivo de um lugar ou de uma nação. Deus se dá a
conhecer a todos, seja de que nação for.
Mas, Herodes e a instituição do Templo não sabiam onde tinha
de nascer a luz, o Messias. “Os sábios e entendidos” conhecem tudo, mas não
creem em nada; conhecem a verdade, mas estão longe dela, pois permanecem
fechados em suas doutrinas e ritos; não dão um passo sequer para “seguir a
estrela” em busca da verdade e da esperança. Eles já sabem tudo sobre o
Messias, mas, instalados em seus privilégios religiosos e sociais, não movem um
dedo sequer para comprovar. Estão muito satisfeitos com o que tem. Permanecem
com seu conhecimento e seus livros.
A mensagem do relato da Epifania nos faz compreender que o
amor à Verdade e a busca da Luz nos fazem nômades, ao
contrário dos instalados e satisfeitos. Quantas vezes, nós cristãos, temos
conformado em indicar a direção aos outros sem sair de nossos lugares
atrofiados para acompanhá-los.
Esta diferente atitude dos “magos” nos faz pensar.
O fato de que em um determinado momento, os magos perguntem
a Herodes e este, por sua vez, pergunte aos que conhecem as Escrituras é muito
interessante. As Escrituras podem servir de pauta, podem nos indicar o caminho
a seguir quando atravessamos lugares ou tempos sem estrela. Mas o valor da
Escritura depende da atitude daquele que a lê. É preciso aproximar-se da Bíblia
sem pré-juizos; não para buscar argumentos a favor daquilo que já acreditamos,
mas abertos ao que ela vai nos dizer e indicar, embora seja diferente daquilo
que esperamos.
Diante de milhões de estrelas que brilham no firmamento, os
magos descobrem a de Jesus; diante de milhares de estrelas que chamam a atenção
em nosso mundo, precisamos descobrir a nossa.
A luz da estrela põe os Magos em marcha.
Preciosa mediação que mobiliza sua busca e direciona suas vidas para o encontro. Os
sinais são mínimos, cotidianos, demasiado simples.
Mateus descreve a reação deles afirmando que “ao ver a
estrela, encheram-se de imensa alegria”.
Buscavam o Rei dos judeus e se encontraram com um Menino em
um presépio. Buscavam a Deus e viram um Menino. Buscavam um Palácio real e
encontraram com uma gruta de pastores. Ficaram assustados e assombrados com a
descoberta. Conta o relato de Mateus que aqueles sábios do Oriente chegaram até
onde estava o Menino, e caíram de joelhos (prostraram-se) diante dele. Não diz
que se ajoelharam, mas que caíram, literalmente. É algo que na vida dos seres
humanos acontece poucas vezes.
Diante do Mistério não se discute; diante do mistério
prostra-se. O Mistério não é para ser compreendido, mas adorado. Diante do
mistério de Deus é preciso que a razão se ponha de joelhos; frente ao mistério
de Deus só resta a admiração, o espanto. Quando queremos conhecer “algo” de
Deus, são melhores os joelhos que a razão. Quando queremos “entrar” no mistério
de Deus, melhor é nos determos à porta para adorá-Lo. Quando queremos encontrar
a Deus, é melhor caminharmos de joelhos.
Os representantes religiosos e sociais de Israel não foram a
Belém para adorar o Menino Deus. Eles “conheciam”, de algum modo, o mistério,
sabiam que o Messias devia nascer em Belém, mas não quiseram ir ao seu encontro
para lhe oferecerem o tesouro de suas vidas, pois estavam petrificados em suas
sacralidades doutrinárias e legais. A subida messiânica a Jerusalém ficou
truncada desde o nascimento de Jesus, pois esta cidade nunca o acolheu.
Os representantes religiosos da época (os sacerdotes) e a
cultura do momento (os letrados) se limitaram a cumprir seu papel. Deram toda
informação necessária a Herodes para chegar a Jesus, mas, acomodados e
instalados em seu saber e posição social, não sentiram o mínimo interesse em se
deslocar até Ele; talvez não sentissem necessidade de libertador algum.
Nossa história de salvação está repleta de pessoas que, à
luz da normalidade da vida, são diferentes. São homens e mulheres que acolhem,
em sonhos ou despertos, as delicadas luzes que só o Deus de amor pode
presentear com sua delicadeza. Com sua luz tênue e constante em seu interior,
apontam sempre para Aquele que é Fonte de toda luz.
Na experiência da vida cristã buscamos ser como os magos: desejosos
de encontrar a Vontade de Deus, atentos para reconhecer “estrelas” na noite e
ágeis para segui-las, capazes de pedir ajuda quando nos perdemos e apaixonados
por descobrir um caminho que, no fundo, é o caminho do mesmo Deus.
Como os Magos, também nós nos dirigimos
primeiramente aos palácios de nossa sociedade do bem-estar e aos “Herodes”
contemporâneos, até que nos damos conta de que ali não encontramos o que
estamos buscando, que ali se anula e se anestesia a vida, essa vida de
Deus que quer crescer em nós.
É preciso, de tempos em tempos, viver a atitude da
“prostração” como gesto de humildade, descendo do pódio existencial quando
acreditamos ser os melhores, os mais sábios, os mais perfeitos...
Epifania é esvaziamento de nosso “ego” para que
a Luz de Belém seja a nossa referência constante.
Texto bíblico: Mt 2,1-12
Na oração: É próprio, neste momento festivo,
fazer esta pergunta: quem ou o que foi estrela, revelação em minha vida,
neste ano que findou? A quê estrela sigo? Para onde ela me
conduz?
- Ou, pelo contrário, perdi a estrela de minha vida e não
sei para onde vou?
E de repente alguém te empurra fazendo com que tu derrames
café por todo o lado.
- Por que tu derramaste o café?
- Porque alguém me empurrou!
- Resposta errada! Derramaste o café porque tu tinhas café
na xícara. Se tu tivesses chá terias derramado chá.
O que tiveres na xícara é o que vai se derramar.
Portanto...
Quando a vida te sacodir o que tiveres dentro de ti vais
derramar.
Tu podes ir pela vida fingindo que a tua caneca é cheia de
virtudes, mas quando a vida te empurrar, tu vais derramar o que na verdade
existir no teu interior.
Sempre sai a verdade à luz.
Então, terás que perguntar a si mesmo. O que há na minha
xícara?
Quando a vida ficar difícil... O que eu vou derramar?
Em outubro
de 2013, participei do XVI Encuentro de Poetas Iberoamericanos em Salamanca,
Cidade de Cultura e Saberes. Na oportunidade fiz lançamento de meu livro Onde
estou e sou/Donde Estoy y soy e dei depoimento na universidade sobre minhas
atividades literárias ao longo dos anos. Recitei poemas de minha autoria no
Liceu de Salamanca. Doei livros de minha autoria ao Centro de Estudos
Brasileiros, em ato que constou da programação do XVI Encuentro de Poetas
Iberoamericanos.
Amizade que
ficaria selada para sempre foi a que fiz com o poeta peruano-espanhol Alfredo
Pérez Alencart, o coordenador dos Encuentros, figura rara como construtor de
pontes entre os poetas ibero-americanos que comparecem ao evento, de
repercussão internacional. Professor da Universidade, esse incansável
disseminador de poesia é poeta de alto nível, traduzido e publicado em mais de
vinte idiomas. Um ser humano que veio a esse mundo para iluminar com a poesia a
parte noturna de que somos feitos. Tinha em Jaqueline, sua princesa, a mulher
ideal para acompanhar-lhe na aventura das letras.
Durante o
Encontro tive a oportunidade de saber que Salamanca foi no início uma aldeia na
colina, séculos sobre o rio Tormes inclinaram-se à arte e à sabedoria.
Testemunharam a passagem do tempo, na formação da paisagem lendária, váceos,
vetões, romanos, visigodos e muçulmanos. Uma vocação universitária ressoou na
maior tradição de esplendor monumental. Por sua beleza antiga e riqueza
histórica, o tempo foi justo ao fazer com que Salamanca ficasse conhecida como
a Cidade de Cultura e Saberes.
Ocorrem na
Plaza Mayor falares decorrentes de frequente convivência entre o alegre e o
triste, nisso que é esperança e incerteza em nossa caminhada na vida. Capítulos
assim ali escorrem da vida cidadã, muitas vozes de mim e de outros fazendo o
intercâmbio da natureza humana nesse antigo teatro da vida. Nas ruas iluminadas
pelo ouro da cultura e do saber não se pode deixar de pensar que nelas andaram
Fray Luiz de Léon, Unamuno, Francisco de Vitoria, Francisco de Salinas,
Cervantes, São João de La Cruz, Luís de Gôngora, Santa Teresa de Jesus, Lope de
Vega, Mateo Alemán, Vicente Espinel, Quevedo e Calderón de la Barca.
Essas ruas
cunhadas pelos gestos da sabedoria e santidade humanas. Refletidas por duas
extraordinárias catedrais. Antes que adentre na cidade, recebe ao visitante a
alma gêmea. Numa casa de guardiã memória, conchas representam a cidade por
vários rumos, decoram o mundo que estaciona para vê-la. Nas dobras do tempo,
Salamanca oferta encantos, inventa-se nessa crença de pedra, história e vasta
fé. Apresenta-se sempre como um desafio, um mito, uma abertura, um enigma. De
sentidos múltiplos, memórias que nela achamos.
Na fachada
de casas e igrejas e edifícios basta para entender que estamos na história.
Caminhar é a forma de descobrir segredos de quem também sabe ser contemporânea
e jovem com estudantes de tantos lugares misturados na face agitada. Quando a
noite cai, luzes enchem a parte noturna, lugares em que o coração aprende que o
amor se faz amando o mito, que se apodera da alma.
Ó Salamanca, aqui o que vejo na fachada faz-nos ser da
história. Essa luz que de ti se espraia a todo instante vem de teu chão para
erguer os saberes seculares nos beirais floridos.
Cyro de Mattos - escritor e poeta. Primeiro
Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo
da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de
Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil,
Portugal, Itália e México.