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sexta-feira, 24 de abril de 2020

PLENITUDE - Péricles Capanema


22 de abril de 2020

Péricles Capanema

Não vai falar do covid-19? Tenha paciência, tratar de plenitude? Que atualidade tem isso? Calma, vou escrever sobre o covid-19. E por que escolhi logo plenitude? Sei, o assunto não dá manchete, parece do mundo da lua, desinteressante, frio. Incende para mim, precisa queimar; quanto mais, melhor.

Em linhas muito gerais, vou discorrer sobre uma plenitude, a humana. Com temperança, buscar a própria plenitude, em qualquer âmbito (moral, cultural, financeiro), é direito humano. Devagar. Plenitude tem (apenas) a atualidade do perene; no caso, perenidade de enorme relevância. Semanas atrás, em escrito sobre objeto parecido, observei: “Eles são perenes. Com efeito, em muitos sentidos o que é verdadeiramente atual deixa ver sempre a nota do perene — eco do imorredouro no presente. O resto é só o momentâneo, o passageiro, o fugaz, o efêmero, o fugidio, sei lá o que mais. Realidades breves evanescentes, minguando rumo ao nada.”

Estou convencido, é imprescindível manter o assunto plenitude em lugar alto em nosso panorama mental. Jamais retirá-lo daí — providência simples, irriga todo o espírito. Se permanecer no horizonte de grande número de pessoas, vai estimular avanço civilizatório, será vacina contra retrocessos e atrasos que, em última análise, fortalecem a opção preferencial pela atrofia, parte integrante da política, já de séculos, mesmo que inconfessada, das correntes revolucionárias. Exemplos paroxísticos e próximos são Cuba e Venezuela. No século passado, foram macabros e didáticos exemplos (melhorando, advertências), celebrados pelos progressistas mundo afora, a Revolução Cultural Chinesa e o Camboja do Khmer Rouge — pelo menos, até a revelação, ainda hoje parcial, da realidade dantesca. Muita gente no Brasil, de alto a baixo da escala social, movida pela mitomania igualitária, fez a opção preferencial pela atrofia, não vai mudar nunca. Os partidos de esquerda e o “progressismo católico” estão abarrotados delas. E não só lá.

Otto Lara Resende comentava, Nelson Rodrigues era uma “flor de obsessão”. Com isso queria significar, o amigo repetia sempre alguns pontos. Batia, rebatia, martelava, reiterava, insistia, reafirmava, recordava, repisava as mesmas trilhas. Atalhos perenes. O dramaturgo recifense concedia ser e no, é isso mesmo. “Sou um obsessivo e houve alguém que me chamou de ‘flor de obsessão’. Exato, exato, e graças a Deus. O que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões.” Morreu 40 anos atrás, até hoje seus textos são dos mais lidos no Brasil. Ninguém se lembra, ou quase tanto, quais eram seus críticos. Depois de frigir os ovos, tem coisa mais atual que a perenidade?

Entre companhia vasta, ou seja, pessoas que viam utilidade na repetição, Nelson Rodrigues teve uma de especial relevo, Napoleão. “A repetição é a mais forte figura da retórica”, garantia. Para que serve a retórica? Persuadir. E o melhor instrumento para convencer seria a repetição, opinião de alguém com forte propensão de convencer pelo fuzil e chicote.

Acho também, pelo menos na confusão da atual quadra histórica, é indispensável repetir alguns assuntos (plenitude, um deles), mesmo com o recurso disfarçado pelo emprego de meios variados. Martelar até que os argumentos entrem e se acomodem na cachola. Pode parecer obsessivo; paciência, precisa. Um dia, quem sabe o tema da plenitude humana exploda nas manchetes, é anelo meu, seja tratado como valor que acho normal lhe seja atribuído; relevância dispensada por todos, claro, mas em especial pelos que decidem os rumos da nação.

Verdade, aspiro que seja preocupação central dos que decidem os rumos danação. Não estou aqui me referindo, todavia, sobretudo a quem tenha destaque no Executivo, Legislativo, Judiciário, empresariado, meios de divulgação, academia. Longe disso. Foco realidade diferente. Refiro-me em particular a gente espalhada em todos os meios sociais que, entre outros atributos, tenha amplitude de vistas, bom caráter, dotes de observação, pensamento próprio, esteja interessada no bem comum, saiba valorizar doutrina e movimentos de alma no público. Coloca-se, pela força dos fatos, à frente do povo, tem influência decisiva nos seus destinos.

Talentos, se quisermos, qualidades naturais, desde que não permaneçam latifúndio improdutivo, são o mais importante ativo de um povo, mais que qualquer outro. Em contas finais decidem seu bem-estar e presença na História. Florescê-los é o decisivo. Grandes benfeitores, quem os estimula, das sementes aos frutos; criminosos, quem os atrofia, impedindo que das sementes surjam árvores, plenitude daquelas.

Nas pessoas, nas famílias, nos grupos sociais, latejam talentos já plenamente desabrochados, outros pelo meio do caminho, outros ainda latentes, mananciais para aperfeiçoamentos futuros. Levá-los à perfeição, mesmo que relativa, cabe primeiramente às famílias, à escola, a instituições próprias, aos mais variados ambientes sociais. De maneira suplementar, ao Estado. Não é coisa de um dia. Acontece, qualidades em uma família levam duas, três gerações para se desenvolverem plenamente. Volto a Napoleão, “a educação de uma criança começa vinte anos antes de ela nascer, com o nascimento de sua mãe”. Infelizmente, em cada geração a imensa maioria das qualidades naturais não chega ao pleno florescimento, à plenitude, enfim. Mais ainda, não é raro, em cada geração, antigos reservatórios de conhecimentos, costumes, modos de fazer e de ver a vida de enorme valor acabam indo para o ralo, somem. E é preciso começar do chão outra vez.

Hoje, em frangalhos, a família perdeu muito de sua capacidade formativa. Mas, de si, é a estufa natural para o florescimento das sementes. A seguir, de forma suplementar, outros grupos sociais. Todos somos, uns para os outros, em ocasiões próprias, mestres, modelos, regentes.

Ponto escamoteado, mas central, convém ser realçado, pois é foco difusor de excelência, um dos reflexos da plenitude. Nas mais variadas elites de um povo, elites de artesãos, de escritores, de empresários, de políticos, de diplomatas, de professores, de cozinheiros e cozinheiras, sociais, de financistas, de seleiros, o tempo vai depositando valioso acervo de perfeições humanas, necessárias ao bem comum, que é crime desconhecer, subestimar, a elas ser indiferente; mais ainda, atacar. Pelo contrário, o dever é estimulá-las com proporção, pois favorecem o aperfeiçoamento social.

Preciso fechar. Reflitamos sobre plenitude; pessoal, familiar, social. O mundo pós-pandemia será muito melhor, se dermos ao tema o lugar merecido.



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CLIMA RUIM NA POLÍTICA BRASILEIRA – JR Guzzo


      
 Por JR Guzzo



Há um clima ruim na política brasileira, possivelmente o pior até onde a memória alcança nos anos mais recentes. Já não estava bom antes da chegada do coronavírus ao Brasil, por volta de dois meses atrás, com o conflito cada vez mais aberto, mais rancoroso e mais intransigente entre o governo do presidente Jair Bolsonaro, de um lado, e as chefias que dão o tom à atuação do Congresso Nacional, de outro. O Judiciário, no meio, não tem a confiança de nenhuma das duas partes, e menos ainda da população; não tem estatura, nem moral, para mediar nada. Agora, com o desastre trazido pela epidemia, a disputa ficou ainda mais perniciosa. Será tão ruim quanto o vírus se ela degenerar em guerra.

É verdade que não se pode subestimar os altos teores de mentira que envolvem o presente confronto; é possível, de um lado e do outro, que haja mais gente fazendo cena para a plateia do que operando a sério para virar a mesa. Mas, do ponto de vista das cenas exibidas ao público, nunca a situação pareceu tão complicada como agora. Vai se ver mais adiante, inevitavelmente, se isso é mais uma batalha de Itararé, a que nunca aconteceu, ou se é uma briga à vera. No momento, o que temos é um estado de hostilidade declarada entre os poderes.

Este domingo foi um marco. Em Brasília, para surpresa e susto de muita gente, o presidente da República decidiu discursar diante de uma  multidão que se juntou em frente ao Quartel General do Exército – logo onde – pedindo “intervenção militar já”, fechamento do Congresso e do STF, a volta do Ato Institucional número 5, que boa parte dos manifestantes nem saberia explicar direito o que foi, e por aí afora. De cima de uma caminhonete, cercado por um cordão de isolamento composto por cerca de 200 militares do Exército, Bolsonaro veio com artilharia pesada. “Nós não vamos negociar nada”, disse ele. “Temos de acabar com essa patifaria. Esses políticos têm de entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro.”


Foram as palavras mais pesadas que Bolsonaro já utilizou em público desde o começo da briga com o Congresso. “É o povo no poder”, resumiu ele, enquanto oficiais do Exército tiravam selfies e sorriam para a multidão. Foi uma maneira de dizer ao mundo político que, no seu entendimento, a massa da população está com ele, e não com os deputados, senadores e magistrados – e que pretende apostar no apoio da rua para enfrentar o inimigo. Parece convencido, também, que as Forças Armadas estão fechadas com ele. (No mesmo momento, o general Edson Pujol, comandante do Exército, declarou que a epidemia é “uma das maiores crises vividas Brasil nos últimos tempos”. A “força terrestre está em sintonia com as necessidades e aspirações do país” disse ele. “Somos 220.000 combatentes dispostos a lutar”.)

O general Pujol estava falando da disposição dos militares em combater o vírus, mas é pouco provável que o Exército tenha se empenhado a sério em dissuadir os organizadores da manifestação de escolherem justamente o espaço púbico em frente ao Quartel General para pedir o fechamento do Congresso e do Supremo. Há o direito constitucional à livre expressão, é claro, e as Forças Armadas não podem impedir que as pessoas se manifestem – mas por enquanto ninguém ainda viu os militares assinarem proclamações de apoio ao deputado Rodrigo Maia, ou ao presidente do Senado, ou aos altos magistrados dos nossos tribunais superiores.

Se não podem contar com a devoção das Forças Armadas, muito menos é o povo nas ruas que vai salvar os políticos numa briga de verdade, não é mesmo? Nem eles acreditam nisso. A coisa realmente não está boa.

J.R. GUZZO jornalista


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quinta-feira, 23 de abril de 2020

PROTEÇÃO ESPIRITUAL: POR QUE PRECISAMOS DELA? - Luiza Fletcher



Proteção espiritual

Proteção espiritual – A importância de se proteger energeticamente
Nós somos almas que viemos ao mundo em corpos físicos. Aqueles de nós que compreendem este fato, entendem que a vida é muito mais do que apenas o que experimentamos nesses corpos.

Em nossa vida em sociedade, nós nos deparamos com várias situações diariamente. Muitas vezes, nós nos sentimos desconfortáveis e de certa maneira “descarregados” ​​quando alguma pessoa se aproxima demais. É como se ela alcançasse nossas auras e, dessa maneira, deixasse nosso campo de energia vulnerável, e assim nós absorvemos todas as energias que elas emanam.
Essas energias podem ser positivas ou negativas, mas é essencial fazermos um trabalho para nos protegermos das influências da negatividade. Precisamos também aprender a proteger nossos campos de energia ao nos relacionarmos em nosso dia a dia, para não absorvermos problemas desnecessários que não são de nossa responsabilidade.

  
Estou realmente protegido?

Quando estamos espiritualmente desprotegidos, os sintomas se manifestam tanto em nossos corpos emocionais quanto nos mentais.
Para ajudá-lo a identificar como você se encontra, colocamos abaixo uma lista de alguns sintomas de um campo de energia desprotegido:
Falta de paciência
Irritabilidade
Fraqueza diante da influenciabilidade
Comportamento defensivo ou agressivo
Pesadelos frequentes
Fanatismo
Desvalorização do próprio eu e supervalorização do outro
Dores físicas, especialmente na parte de trás do pescoço e pulsos.

Construindo a própria proteção

Abaixo estão algumas maneiras de construir a sua própria proteção. Encontre a que mais funciona para você e mantenha-se firme!
Cuide de sua saúde mental, emocional e espiritual
Certifique-se de beber muita água
Dê preferência às roupas que possuem cores que ajudam na proteção energética. Alguns exemplos são: violeta, azul, ouro, prata.
Desenvolva a técnica de visualização, ela pode ajudá-lo a transformar energias negativas em positivas.
Use ou carregue consigo cristas de proteção, como Olho de Tigre, Ametista, Olho de Falcão.
Esperamos que estas dicas o ajudem a fortalecer sua proteção espiritual, pois precisamos cada vez mais.



LUIZA FLETCHER

Redatora do site O Amor, onde sua missão é promover a reflexão e ajudar a aproximar as pessoas do amor...
+ Veja todas as matérias de Luiza Fletcher



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quarta-feira, 22 de abril de 2020

A POESIA MANSA DE CONCEIÇÃO NUNES BROOK – Cyro de Mattos


A Poesia Mansa de Conceição Nunes Brook
Cyro de Mattos

          Filha do pecuarista Isaac Nunes e Dona Rosalva, Conceição Nunes Brook nasceu em Ibicaraí onde viveu a infância, preenchida de brincadeiras e coisas naturais na música da inocência.   Mudou-se para Salvador onde a moça de beleza radiante foi eleita Miss Glamour Girl.  Quando morou no Rio mais tarde foi estudante da PUC.  Casada com um norte-americano, de quem teve três filhos, mudou-se para os Estados Unidos.

          Sempre se sentiu estranha nos Estados Unidos, a alma com seus bemóis líricos em compasso brasileiro não aceitava os sons de uma paisagem humana distante, permeada de cenas diferentes. Pouco lhe dizia no íntimo, que pulsava no Brasil.  Era ave presa na solidão dos vazios, sem plumagem, nem bondoso canto   nos caminhos da indiferença.   Tornou-se uma criatura estranha, sem ajuste no cenário que não lhe dizia respeito, sem conexão da alma, a  motivar o disfarce onde não havia tempo para renascer.  Era natural que o tempo fosse parado, “todo o ser disperso com medo do amanhã.”

          Avistava Nova York sem as substâncias que correm nas veias, vindas da infância e das lembranças fraternas, que viravam agora a mulher sozinha na difícil arte de camuflar. Via Nova York como serpente traiçoeira, de bote armado na esquina, a que fere, queima e cega, tritura e devora “inocentes e deslumbrados mortais.”  Separada do marido, voltou ao Brasil, vindo a falecer anos depois, vítima de doença cancerígena.

          Publicou dois livros de poesia, Teu rosto de bem-me-quer, pela Editora Itapuã, Salvador, 1978, e Me basta uma janela, Editora Record, Rio de Janeiro, 1984, com o desenho da capa e ilustrações internas do consagrado Carlos Bastos.  Chama a atenção   que poeta desconhecido, jovem, sem convívio na ambiência literária da época, em Salvador e no Rio, tenha conseguido a proeza de ter publicado seu segundo livro de poesia por uma editora importante, de circulação nacional, sediada na metrópole carioca. Naquela época Rio e São Paulo funcionavam como tambores culturais do Brasil. E até hoje com um lirismo valioso em forma de carícia, embora de legado pequeno, continue sua poesia nem sequer referenciada com o   seu nome no dicionário de autores baianos, nem em antologias da poesia na região sul baiana.

          Há poetas que fazem da vida uma canção de versos mansos, na qual a inspiração reveste-se de ternura, pulsa na transpiração leve até nos momentos difíceis. A poesia de Conceição Nunes Brook é dessa natureza doce, de tristeza bondosa, tecida com os fios do sonho que se abriga na palavra terna para falar da vida com suas falhas.  Risca o instante no eterno tocado de partituras sentimentais, que pulsam antigas e batem no agora ferido.

           Um dos poemas belos do livro, “Lamento da Esposa Esquecida”, versos que soam como gemidos do vento, que fere e não tem volta, a poeta diz do marido ausente, a quem gostaria de falar, como o ar que entra pela fresta. Lembrar “do ritmo manso da respiração do nosso filho a dormir” e mais, que ele visse “as duas borboletas tênues que há pouco pousaram em minha janela e voaram juntas num amor fugaz e eterno, pois são curtas as suas vidas”.

          Longe de ser uma poesia hermética, mas figurativa em sua estética definida com clareza, apoiada em unidades rítmicas leves, Conceição Nunes Brook faz de cada poema uma música, um leve sentido, tocado pela vida transformada no mais belo sonho. No encanto envolve com seus dizeres reveladores de segredos, angústia, confissões tristes, impressões alimentadas de esperança, como se fosse seu propósito final guardar esse transe transmitido pela musa mansa  no coração como um manual de delicadeza perfeito.  Até quando aparece em momento grave, a vida sobreposta na areia dos caminhos passageiros, emerge de uma luz, que leve e distante  esquecerá de quem se foi, mas apesar disso se conserva como suave nesta distância da alma.

          Ante a certeza que a vida é falha, limitada, contraditória, a gerar o medo e o amor, ruídos comuns da solidão,  imperfeições das ausências que não se explicam, essa poesia se basta quando enxerga  a vida através de uma janela. É desta janela que reparte os sentimentos, captura temas e momentos de acordes graves.  Para ler o que enxerga com o coração, em suas circunstâncias, basta essa janela aberta no imaginário, que aflora de dentro de si como densa e pungente fantasia.

          Dessa janela é que avista a vida a galopar em ágeis montarias no jóquei, o vermelho das flores nos galhos de esplêndido dia, o Cristo  de braços abertos para os espantos filtrados em máquinas fotográficas, a lembrança das vacas mansas e brancas a ruminar o tempo em mansidão nos  campos verdes  da fazenda paterna. Ali, nesta janela, sabe a sonho e choro como momentos essenciais da existência, ternuras e decepções inevitáveis, que deixam no final a harmonia perfeita do poema merecido.

          Leitora constante de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Cesário Verde, Shakespeare e Walt Whitman, mostra-se em algumas epígrafes no poema nessa boa companhia. Cônscia de que, como Ann M. Lindberg, somos todos ilhas em um mar comum, essa baiana de Ibicaraí diz no verso as coisas mais simples e menos intencionais, pois nela o frágil é forte, alimenta-se da verde esperança.

          Sua poesia é necessidade vital, como dormir, comer, sonhar, habita o tempo intervalar entre viver e morrer.  Sempre mirando essa flor com desvelo, impressa no chão de bondade triste, diz no poema “Inevitável” de sua crença:


Uns morrem de amor
Eu faço poesia
Uns marcham em protesto
Meu lema é a poesia
Uns se suicidam
Ou são homicidas
Meu ópio é a poesia
Uns se desesperam
Meu grito é a poesia
Uns morrem no exílio
Meu país é a poesia
Uns dão volta ao mundo
Meu barco é a poesia
Uns trancam-se mudos
Meu silêncio é a poesia
Uns,  danças e festas
Meu canto é a poesia
Uns ganham medalhas
Meu prêmio é a poesia
Ou são condenados
Minha pena é a poesia
Uns pedem socorro
Meu amparo é a poesia,
Uns querem resposta
Quanto a mim:
Me basta a poesia.

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Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Publicado em inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, russo. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro titular da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. 

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terça-feira, 21 de abril de 2020

PREPARAR-SE PARA A GUERRA... - Carlos Alberto Nunes


Nem Sebastian Brant, advogado alemão que viveu nos anos 1500, autor da sátira “A Nau dos Insensatos”, seria capaz de imaginar o cenário de horror que começamos a viver no Brasil nestes tempos de Pandemia.

A exagerada ambição de alguns pelo poder e o caráter deletério de todos começam a arrastar o país para uma guerra civil ou para uma situação de total descontrole social e de falência das instituições democráticas.

Não, não exagero. É o cenário que enxergo com clareza caso o presidente da República seja afastado do cargo ou impedido de governar pelo que já é chamado de “Parlamentarismo Branco” ou algo que o valha.

RACIOCINEM, POR FAVOR

Ainda dá tempo de reverter esse processo, mas é preciso que os agentes dessa insensatez comecem logo a raciocinar:

- O Bolsonarismo é, caso queiram admitir ou não, a única força política viva, participativa, energizada, da Nação.

- Nada do que o presidente fez – ou deixou de fazer – desde que o Virus de Wuhan entrou no radar da Nação, abalou a base bolsonarista que tem crescido bastante com a recente adesão dos micro e pequenos empresários (mais de 30 milhões, ao todo) maltratados pelo confinamento irracional.

- A base de apoio ao presidente é bastante concentrada no Estado de São Paulo, no sul do Brasil, no Rio de Janeiro, Minas Gerais e têm-se expandido fortemente no Centro-Oeste, Norte e Nordeste do País, bastando ver as multidões que o tem cercado aos gritos de “Mito! Mito! Mito!” nas visitas que tem feito às regiões mais remotas do país.

NAU DA INSENSATEZ

Os governadores que assinaram a carta de protesto contra o presidente da República, por influência do ambicioso João Dória, embarcaram assim na Nau da Insensatez.

O exemplo mais gritante desses embarcados insanos é o neófito governador de Santa Catarina, Carlos Moises da Silva (PSL), um ilustre desconhecido até a campanha de 2018: só foi eleito por ter desfraldado a bandeira do bolsonarismo num estado em que nada menos de 75% dos eleitores votaram em Jair Bolsonaro.

Sua assinatura na carta de governadores contra o presidente corresponde a um salto do topo da Serra do Rio do Rastro sem paraquedas ou asa delta.

No Estado de São Paulo, onde em pleno confinamento tem-se repetido carreatas portentosas contra João Dória, a #ForaDoria já adquiriu duplo sentido: como numa democracia um governador democraticamente eleito não pode ser deposto, será com certeza impedido de governar caso se consume algum tipo de golpe contra o presidente da República.


Quem viver verá!

SEM DEMOCRACIA, SEM LIBERDADE E SEM MORAL - J.R. Guzzo


15 de abril de 2020

Por J.R. Guzzo

A democracia morreu no Brasil – se é que chegou a viver algum dia, pois qualquer exame clínico um pouco mais atento mostra que ela já nasceu morta em 22 de setembro de 1988, dia em que começou a valer a Constituição Federal que está em vigor e que é, em geral, considerado como seu marco zero.

Nasceu morta porque quem a escreveu pensou numa coisa só, com obsessão exemplar, desde a redação de sua primeira sílaba: como montar no Brasil um sistema de governo em que um grupo limitado de pessoas fica com 100% do direito legal de tomar decisões — sem ter de pagar jamais pelas consequências do que decide, é claro — e o resto da população fica sem influência prática nenhuma.

É exatamente o que vem acontecendo há quase 32 anos.

No papel, e nos tratados de ciência política, é o governo comandado pela vontade da maioria — e os votos da maioria podem perfeitamente colocar no governo, ou seja lá onde as decisões são tomadas, gente que não tem interesse algum em saber quanto você é livre ou não é.

Seu papel é unicamente obedecer às leis e regras que os donos do poder escrevem em benefício próprio, ou dos grupos a quem servem.

No Brasil de hoje não há uma coisa nem outra.

Não há democracia porque quem manda em tudo, faz mais de trinta anos, é uma minoria — a população só é chamada, de dois em dois anos, para votar em eleições nas quais um sistema viciado elege sempre os mesmos, com uma ou outra exceção que não muda nada.

Fechadas as urnas às 5 horas da tarde, todos são mandados de volta para casa e só voltam a abrir a boca dali a dois anos, para fazer a mesma coisa.

No meio-tempo, não mandam em absolutamente nada — sem crachá e autorização dos seguranças, não podem nem entrar nos lugares onde estão os que resolvem tudo.

Não há liberdade porque o cidadão só tem a opção de obedecer, esteja ou não de acordo com o que lhe mandam fazer.

O momento que o Brasil atravessa agora, com grande parte da população apavorada pelo medo de morrer por causa da covid-19, é exemplar dessa democracia que não vale nada.

Vamos aos testes práticos.

Passa pela cabeça de alguém, por exemplo, que as pessoas estejam de acordo que o Senado alugue por 350 mil reais por mês, sem concorrência, uma “sala VIP” no aeroporto de Brasília, para os senadores não correrem nenhum risco de ficar perto dos cidadãos?

É claro que ninguém está de acordo.

É claro, também, que ninguém pode fazer nada a respeito.

É tudo legal, porque eles escreveram leis dizendo que é legal — inclusive essa falta tão conveniente de concorrência pública, pois estamos num momento de “emergência” na saúde pública.

O que a maioria tem a dizer da recusa do Congresso em abrir mão de um centavo sequer dos bilhões que tem estocados nos fundos “Partidário e Eleitoral”, que roubaram legalmente dos impostos — através de leis que eles mesmos aprovaram?

E a liberdade, aí, como é que fica: alguém é livre, de verdade, para defender seu direito de opor-se a essa aberração?

Não se trata apenas de deputados e senadores.

Como pode haver democracia numa sociedade em que uma comunidade de talvez 25.000 indivíduos, os membros do Poder Judiciário em suas diversas camadas, tem direitos que os demais 200 milhões de brasileiros não têm — e se mantém, na vida real, acima das leis e da obrigação de cumpri-las?

É impossível, também, pensar em “estado de direito” quando a Justiça funciona como cúmplice integral em atos de delinquência do submundo político.

No caso dos “fundos”, é óbvio, deu razão ao Congresso — e proibiu seu uso em favor do combate à epidemia.

O país inteiro tem assistido, todos os dias, a demonstrações brutais de tirania por parte de 27 governadores, 5.500 prefeitos, suas polícias e seus fiscais.

Com o súbito poder que lhes foi conferido pela epidemia, e com a cumplicidade quase absoluta de juízes e integrantes do Ministério Público, puseram para fora todas as suas neuras ditatoriais.

É a lei que lhes permite isso — a lei que eles próprios, ou a classe política em geral, escreveram.

Os exemplos não acabam mais.

Todas as edições de Oeste (noticiário), até o fim dos tempos, não serão suficientes para mostrar a soma de desastres que está acontecendo com as liberdades neste país.

Todo o poder de decisão foi dado a grupos muito bem definidos, pela malícia e esperteza de uma Constituição na qual há um número ilimitado de boas intenções e nenhum meio de realizá-las na prática.

Ali o cidadão tem direito a tudo — menos o de influir na própria vida e controlar, mesmo por alguns minutos, os que mandam nele.

Todos sabem quem são esses grupos.

Os altos servidores do Estado, as corporações, os grupos de interesse privado, os sindicatos, os criminosos ricos, os saqueadores do Erário, os que desfrutam de direitos que os demais não têm, os políticos — e por aí afora.

As leis são escritas para eles.

Você só paga.

“Eu prefiro um ladrão a um deputado”, diz Walter E. Williams, o economista conservador americano que há décadas devasta a hipocrisia da vida política mundial.

“O ladrão, em geral, o rouba uma vez só e vai embora.”

Os políticos, porém, estão aí para sempre.

É esse, justamente, nosso problema: enquanto quem mandar no Brasil for o condomínio descrito acima, não haverá nem liberdade real nem democracia efetiva.

O que vale é a manipulação periódica da multidão em eleições que já estão decididas, pelos vícios deliberados do sistema eleitoral, antes de o primeiro voto ser colocado na primeira urna.

O resultado concreto disso tudo aparece nas decisões alucinadas que são tomadas aqui como resultado do “funcionamento normal” das chamadas instituições democráticas.

“Como alguma coisa que é imoral, quando feita em particular, se torna moral quando feita coletivamente?”, pergunta Williams.

“Por acaso a legalidade confere moralidade a alguma coisa? A escravidão era legal. O apartheid era legal. Os massacres feitos por Hitler, Stalin e Mao foram legais.”

No Brasil o Congresso é legal.

O STF é legal.

O aparelho do Estado é legal.

O que foi para o diabo é o senso moral — junto com a liberdade e a verdadeira democracia.



 ...................
José Roberto Guzzo, mais conhecido como J.R. Guzzo, é um jornalista brasileiro, colunista do Jornal O Estadão.


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segunda-feira, 20 de abril de 2020

ASSIM OPERA A MÁFIA QUE NÃO PARA DURANTE A PANDEMIA


20/04/2020
Os clãs do sul da Itália aproveitam a crise para ganhar apoio distribuindo comida e dinheiro, mas alguns moradores se organizam para evitar

Bairro napolitano de Santa Lucia.PAOLO MANZO / EL PAÍS

Um assassinato em Agrigento (Sicília). Um barco na Calábria com 600 quilos de coca. Um fugitivo capturado depois de uma longa fuga quando ia fazer compras usando máscara e luvas. Ninharias em comparação com o ritmo normal. Mas a principal atividade dos clãs mafiosos na Itália hoje em dia é se reposicionar, ganhar apoio e buscar novas formas de usar seu dinheiro, que retornará em abundância quando a crise sanitária acabar. Na Calábria e na Sicília, a polícia já surpreendeu mafiosos distribuindo sacolas de compras para alguns moradores. Enquanto não chegar a ajuda anunciada pelo Governo de Giuseppe Conte, as máfias se infiltrarão no tecido social, concordam as fontes judiciais e policiais consultadas. Também são abundantes os empréstimos a empresários com a corda no pescoço que precisam de dinheiro vivo. “Agora são só facilidades”, assinala um comandante dos carabinieri em Trapani. Os clãs têm liquidez. Quando a crise passar, vão cobrar a conta.

O confinamento tem alguns mestres que o praticavam muito antes que o mundo soubesse o que é um coronavírus. Nicola Gratteri, procurador-chefe de Catanzaro e provavelmente o maior especialista do mundo na ‘Ndrangheta − a máfia mais poderosa da Itália, com mais de 30.000 filiados só na Calábria e capaz de faturar 43 bilhões de euros (245 bilhões de reais) anuais −, teme o pior: “O objetivo da elite da ‘Ndrangheta não é só enriquecer, mas exercer o poder. No sul há milhares de pessoas que sempre trabalharam na informalidade e ganhavam no máximo 40 euros [228 reais] por dia. Esse dinheiro evaporou. O Estado está preparando uma injeção que chegará em poucos dias, mas muitas pessoas necessitadas aceitam encantadas as compras pagas pelo chefão da vez. Aceitam também ajudas de 300 ou 400 euros [1.710 ou 2.280 reais]. Para eles não é nada, para o pobre é tudo. Daí surge o modelo do homem poderoso, que poderá pedir que votem em seu candidato quando houver eleições”. É hora de semear.

As recessões são oportunidades perfeitas para as máfias, alertam o chefe da polícia nacional da Itália, Franco Gabrielli, e o procurador-geral antimáfia do país, Federico Cafiero de Raho. A crise acaba com o dinheiro em espécie, algo que organizações como a ‘Ndrangheta, cuja principal fonte de renda é o tráfico de drogas, têm em abundância, lembra Gratteri. “[Essas organizações] buscarão emprestar dinheiro com usura a empresários. A juros baixos, para competir com os bancos. As pessoas − hoteleiros, donos de restaurante − vão procurá-las. O objetivo do agiota mafioso é se apoderar dessa atividade comercial quando, pouco a pouco, forem aumentando os juros até o empresário não conseguir pagar. Depois que o negócio for roubado, o mafioso o usará para lavar dinheiro. É assim que funciona. Este período servirá para isso”, acrescenta o procurador.

Isso acontece na Calábria. Mas também na Sicília e nas vielas do centro de Nápoles. Quando o Estado dá um passo atrás, os clãs devoram o território. As três regiões estão no topo das estatísticas de pobreza e de economia informal, com cifras em torno de 20% de sua riqueza, segundo o Instituto de Estatística Italiano (Istat). São milhares de famílias sem nenhuma provisão neste momento. O Governo prometeu 400 milhões de euros (2,3 bilhões de reais) aos municípios para a concessão de vouchers, mas o sistema é lento e a burocracia, fatal para o tecido social. Em Palermo e Nápoles, multiplicam-se as denúncias de assaltos a supermercados.

Na moto, Vincenzo e Antonio, voluntários da ONG San Gennaro, distribuem alimentos aos necessitados no bairro de Sanità, em Nápoles.PAOLO MANZO / EL PAÍS

Alguns moradores, liderados pela associação Liberi di Volare (Livres para voar)e pela Fundação San Gennaro, organizaram-se para distribuir alimentos a famílias necessitadas em Nápoles. É outra forma de evitar a infiltração de clãs mafiosos. Davide Marotta faz parte do esquadrão que distribui 350 pacotes de comida semanais e vales-compra no bairro napolitano de Sanità. “Quem recebe ajuda, muitas vezes, não pensa se vem de alguém que mata ou vende drogas. Fome é fome. Nápoles já estava cheia de problemas antes do coronavírus. O Estado está ausente nessas áreas, e muitas vezes a Camorra o substitui. O único mercado que não para é o ilegal. E é usado o velho método do clientelismo político. O que nós fazemos é ocupar esse espaço”, diz Marotta, por telefone, no único dia de descanso dos voluntários.

O prefeito de Palermo, Leoluca Orlando, um dos primeiros a alertar sobre o incêndio social que estava chegando às ruas de sua cidade, resume assim: “Quando você está doente e o médico não chega, acaba indo ao curandeiro. Devemos evitar que esses falsos médicos batam à porta. Os mafiosos estão alimentando o mal-estar social para transformar aos novos pobres em transportadores de drogas, escravos. Só o dinheiro público é a alternativa ao dinheiro mafioso. E isso vale em toda a Itália, também no norte”. E hoje tudo acontece às escuras.

A pandemia complica o trabalho de investigação, explica um dos procuradores mais importantes da luta contra a máfia em Palermo, que pede anonimato. “Neste momento, os pontos de escuta, os lugares onde foram instalados microfones [pela polícia], os esconderijos, já não estão dando muitos frutos, porque não são frequentados. Os carros estão parados, e nas residências, estando em família, nem sempre é possível obter informações, porque há mais barulho e as conversas são de outro tipo. Quanto menor o movimento, menos visíveis são os encontros e menos informações obtemos”, diz ele. Um comandante policial especialista no combate à Cosa Nostra assinala: “É mais difícil para todos: para eles, que dão cobertura e logística para a distribuição de drogas, e para nós, que devemos segui-los e não podemos nos camuflar entre os carros e as pessoas”.

A Covid-19, no entanto, corrói a parte fraca da máfia. A que precisa do barulho para viver em silêncio. Para grandes fugitivos, como o chefe da Cosa Nostra Matteo Messina Denaro, foragido há 26 anos, hoje é mais difícil se esconder. “São como baleias. Vivem submersos e de vez em quando têm de vir à superfície para respirar. Vamos caçá-los quando fizerem isso… ou morrerão afogados.”

No Brasil o crime organizado se divide. Segundo o jornal O Globo, as milícias fluminenses pressionam comerciantes para que continuem trabalhando, uma vez que sem receita eles não tem como pagar os grupos criminosos que vivem da cobrança de taxas e extorsão. Por outro lado, traficantes de facções como Comando Vermelho e Amigo dos Amigos tem colocado faixas em algumas comunidades pedindo que todos fiquem em casa.



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