Sublinhada pelo encontro dos corpos soterrados na lama e
pelo escoar lento do Paraopeba tóxico, a tragédia em Brumadinho (MG) lembra
doloridamente ao Brasil enlutado a necessidade contínua de medidas de
prevenção, de nada deixar ao acaso, de ter sempre diante dos olhos a
possibilidade pior. Em suma, retirar de cada fato ou princípio, até o fim, suas
decorrências lógicas e agir segundo elas; é criar o hábito da responsabilidade.
Nosso hábito é outro, namoramos o desleixo, a imprevidência,
a inconsequência, brincamos inconsideradamente com a lógica. Tudo leva a crer,
Brumadinho, encaixada no contexto de Mariana, boate Kiss, alojamento do
Flamengo, incêndio no Museu Nacional, é prenúncio de outras tragédias.
No âmago da catástrofe, repito, está o hábito de nada levar
até suas últimas consequências lógicas. Vou dar um exemplo gritante,
relacionado com o que acima comentei. Muita gente, qual urubu na carniça,
aproveitou-se de a VALE estar no miolo do drama que desabou sobre Brumadinho,
para criticar a privatização da empresa, e por ricochete, a política de
privatização em geral. O novo rumo teria diminuído preocupações sociais e
cuidados com o meio ambiente. Prejudicaria o povo, favoreceria os ricos; em
suma, seria antissocial.
Vamos devagar, começando por recordar alguns marcos, o que
poderá evitar que muita gente continue saudosa do atraso e agarrada nos enredos
do retrocesso. A VALE (antiga “Vale do Rio Doce”), criada empresa estatal em
1942 por Getúlio Vargas, foi privatizada em maio de 1997 durante o governo de
Fernando Henrique Cardoso. Em números redondos, é empresa privada há 22 anos,
uma vida. Quem manda em empresa privada são os acionistas. Certo? Na VALE, em
termos. Acionistas, sim, grandes, mas não privados.
Trago à baila trechos da delação de Joesley Batista, um dos
donos do grupo JBS, que não é grande acionista da VALE, divulgada em maio de
2017. Em conversa com o megaempresário o então senador Aécio Neves lhe garantiu
que já não conseguiria nomear o presidente da VALE (desejo dele), mas Joesley
Batista poderia indicar um outro diretor e seria atendido. A contrapartida eram
os dois milhões de reais na mão para, afirmava o senador, pagar despesas de
advogado. Coisa de comparsas, Joesley Batista, hoje condenado, teria garantido
até 40 milhões se conseguisse sentar alguém de sua confiança na presidência da
VALE. Palavras de Joesley Batista constantes do material da delação: “Aí
ele [Aécio] falou, ‘não pode porque eu já nomeei’. Parece que a Vale tem uma
governança pra ter uma independência pra escolher presidente, mas parece que
eles têm algum jeito de fraudar esse troço e virar presidente alguém com
nomeação política. Ele [Aécio] me explicou isso, disse ‘nós fizemos um treco lá
que em tese é independente, mas na prática o candidato da gente acaba
ganhando’. Ele disse que eu poderia escolher qualquer uma das quatro
diretorias, que eu escolhesse e que ele botava quem eu quisesse, se fosse o
Dida, ele botava o Dida”. O Dida é Aldemir Bendine, hoje condenado e preso por
corrupção.
Lauro Jardim, cerca de dois meses antes da divulgação do
material acima, já informava que a escolha do presidente da VALE vinha de “uma
triangulação da qual participaram os acionistas (Bradesco à frente), Michel
Temer e Aécio Neves. Quando oficialmente a Vale contratou a Spencer Stuart para
encontrar o nome do sucessor de Ferreira, foram agregados pela empresa duas
dezenas de nomes aos de Schvartsman”.
Fundos de pensão de estatais e BNDES (controlados pelo
governo) são grandes acionistas da VALE. O que dá aos políticos enorme
ingerência na empresa. A coerência da política de privatizações mandaria o
governo entregar a empresa à iniciativa privada. Não o fez; saiu pela porta da
frente e entrou pela porta dos fundos. E a situação geradora de lambanças está
assim há mais de 20 anos.
Existe pior. Boa parte das empresas privatizadas depois de
1997 hoje se encontra nas mãos de estatais chinesas (ou, por outra, nas mãos do
Partido Comunista Chinês) e também nas mãos de estatais de países ocidentais.
Vai abaixo o que divulguei em dezembro de 2015, ainda no
governo Dilma, no artigo “Desnacionalização suicida”, serve para hoje, espero
que não valha no futuro: “Nunca fui nacionalista; vejo com simpatia a
presença de empresas estrangeiras entre nós. Mas o caso agora é outro. Em 25 de
novembro último, o governo colocou à venda concessões por 30 anos para as
usinas de Ilha Solteira, Jupiá, Três Marias, Salto Grande, 29 hidrelétricas no
total. Ganharam o leilão CEMIG (estatal), COPEL (estatal), CELG (estatal),
CELESC (estatal), ENEL (forte presença do governo italiano) e THREE GORGES (estatal
chinesa). A estatal chinesa ficou com 80% da energia e pagou R$13,8 bilhões
pela outorga. Vejam esta falácia lida por milhares, quem sabe milhões, ilustra
como os meios de divulgação vêm tratando o caso: ‘Com os ativos
recém-adquiridos, a CTG [China Three Gorges, a estatal chinesa] atinge
capacidade instalada de 6.000 W, tornando-se a segunda maior geradora privada
do país’”.
Privada? Capitais do Estado chinês, dirigido tiranicamente
por um partido imperialista e totalitário. Temos no caso estatismo agravado,
mais danoso que o estatismo brasileiro, com suas roubalheiras e incompetências.
A dizer verdade, o programa de desestatização brasileiro, em vários de seus
aspectos importantes, é uma enganação monstruosa e vergonhosa. Chega até a
ameaçar a segurança nacional.
Fecho. A irresponsabilidade tem raiz na falta de lógica, no
hábito de conviver com a incoerência. Agora vitimou Brumadinho. Antes, causou
outras desgraças. No futuro, provocará tragédias parecidas. Se não forem
expulsas a incoerência e a ilogicidade, alimentadoras do descaso, do desleixo e
da irresponsabilidade.
Em meio ao “dilúvio de males” que atualmente
inunda a Terra, podemos tocar com as mãos um “pedaço” do Céu.
Trata-se de Lourdes, um dos maiores centros de peregrinação do mundo, onde se
realizam inúmeros milagres e maravilhas da graça, por intercessão d´Aquela que
ali afirmou: “Eu sou a Imaculada Conceição”.
Para o centenário das aparições de Nossa Senhora em Lourdes,
o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira escreveu artigo especial publicado na
revista Catolicismo (edição
de fevereiro/1958 – link abaixo).
Seguem trechos dessa matéria para rememorarmos Lourdes neste
ano em que se completam 161 anos das aparições.
Primeiro marco do ressurgimento contra-revolucionário
“A 11 deste mês de fevereiro, transcorrerá o centenário
da primeira das aparições de Lourdes.
“O fato, na singeleza de suas linhas mais essenciais,
ninguém o ignora. Em 1854, pela Bula Ineffabilis, o grande Papa Pio IX [quadro
ao lado] definia como dogma a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Em 1858, de
11 de fevereiro a 16 de julho, Nossa Senhora aparecia 18 vezes, em Lourdes, a
uma filha do povo, Bernadette Soubirous [foto abaixo], declarando ser a
Imaculada Conceição. A partir dessa ocasião, tiveram início os milagres. E a
grande maravilha de Lourdes começou a brilhar aos olhos de todo o mundo, até
nossos dias. O milagre confirmando o dogma, eis em resumo a relação entre o
acontecimento de 1854 e o de 1858.
Século XIX: problemas análogos aos de nosso século
“O que, entretanto, é menos conhecido pelo grande público é
a relação desses dois grandes fatos com os problemas dos meados do século XIX,
tão diversos dos de hoje, mas ao mesmo tempo tão e tão parecidos com eles.
“Ao definir o dogma da Imaculada Conceição, o Papa Pio IX
despertou em todo o orbe civilizado repercussões ao mesmo tempo díspares e
profundas.
“De um lado, em grande parte dos fiéis, a definição do dogma
suscitou um entusiasmo imenso. Ver um Vigário de Jesus Cristo erguer-se na
plenitude e na majestade de seu poder, para proclamar um dogma em pleno século
XIX, era presenciar um desafio admiravelmente sobranceiro e arrojado ao
ceticismo triunfante, que já então corroía até as entranhas a civilização
ocidental […].
“Mas, para glorificar ainda melhor sua Mãe, Nosso Senhor fez
mais. Em Lourdes, como estrondosa confirmação do dogma, fez o que nunca antes
se vira: instalou no mundo o milagre, por assim dizer, em série e a título
permanente. Até então, o milagre aparecera na Igreja esporadicamente. Mas em
Lourdes, as curas mais cientificamente comprovadas e de origem mais
autenticamente sobrenatural se dão, há cem anos, a bem dizer a jato contínuo, à
face de um século confuso e desnorteado […].
Hora de castigo – hora de misericórdia
“Estamos vivendo uma terrível hora de castigos. Mas esta
hora também pode ser uma admirável hora de misericórdia. A condição para isto é
que olhemos para Maria, a Estrela do Mar, que nos guia em meio às tempestades.
“Durante 100 anos, movida de compaixão para com a humanidade
pecadora, Nossa Senhora tem alcançado para nós os mais estupendos milagres.
Esta piedade se terá extinguido? Têm fim as misericórdias de uma Mãe, e da
melhor das mães? Quem ousaria afirmá-lo? Se alguém duvidasse, Lourdes lhe
serviria de admirável lição de confiança. Nossa Senhora há de nos socorrer”.
Um estado de espírito elevado, oposto ao prosaísmo das
coisas
♦ Plinio Corrêa de
Oliveira
Denomino “europeização” a compreensão do que a Europa tem de
bonito e a adoção do estado de espírito do europeu. Não seria uma pura
valorização do que há na Europa, mas a aquisição de um modo de ser inspirado no
europeu.
Os europeus procuram organizar a vida de modo belo, com
valores positivos. Em suas casas, por exemplo: se há uma janela disponível,
eles colocam um vaso com gerânios; se há um jardinzinho, plantam flores com
desenhos lindos; tendo um belo panorama, aparecem artistas para ver, pintar,
fotografar; comentam o panorama e extasiam-se com ele; expõem quadros com as
pinturas. Tudo aquilo vai entrando na cultura do povo.
Os brasileiros, entretanto, ao contrário dessa impostação de
alma, geralmente não incorporam as coisas com aquele estado de espírito do
europeu, mesmo tendo nós panoramas realmente bonitos. Se adquirissem esse
estado espírito, ficariam com apetência desse tipo de prazer intelectual. Bem
diferente da apetência pela politicagem, pela sensualidade, pela torcida
desenfreada no esporte… São defeitos contra os quais se deve remar.
Há nisso um sentido religioso? Há, evidentemente, pois as
coisas magníficas da natureza nos foram dadas pela Providência para nos
elevarmos a Deus. São imagens da sublimidade d’Ele. É evidente que a posição de
fechamento, de não se ter a alma aberta em relação ao sublime, leva as pessoas
para o que é prosaico. Portanto, representa um fechamento para a imagem que
Deus colocou nas coisas criadas por Ele. Tal fechamento para os aspectos
sublimes das coisas representa, substancialmente, algo de antirreligioso.
____________
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira em 31 de outubro de 1966. Esta transcrição não passou pela revisão
do autor.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus estava na margem do lago de
Genesaré, e a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus.
Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os
pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes.
Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se
afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as
multidões.
Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avança para águas
mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”.
Simão respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e
nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”.
Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que
as redes se rompiam. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca,
para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de
quase afundarem.
Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus,
dizendo: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!”
É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus
companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer.
Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão,
também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! De
hoje em diante tu serás pescador de homens”.
Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e
seguiram a Jesus.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
---
Viver em redes... sem enredar-se
“Avança para águas mais profundas, e lançai vossas
redes...” (Lc 5,4)
Indiscutivelmente, Jesus é o misterioso visitante que cada
dia chega até nós para advertir que precisamos nos libertar do tedioso
cotidiano, quando ele se torna convencional e, não raro, carregado de
desencanto, pesado, estressante... Corremos o risco de sermos apenas imitadores
ou repetidores, pois tememos nos perder na busca do novo, bloqueando o
desenvolvimento pessoal e comunitário.
O encontro com Jesus nos arranca da rotina, do “sempre
fizemos assim” e nos desafia a “pescar” de maneira diferente; sua presença
alarga nossa mente e nosso coração instigando-nos a sair dos nossos estreitos
mares e entrar no movimento do vasto mar que Ele nos oferece.
Em quê grau Sua presença nos desperta para aquilo que
devemos ser como seus(suas) seguidores(as)? São grandes os riscos de vivermos
em mares tão estreitos; é cômodo perceber, delimitar, defender e fechar-nos no
próprio mar. Isso fazemos de maneira tão zelosa que nem vemos aquilo que está
para além da margem onde nos estabilizamos.
Tal estreiteza de vida aprisiona a solidariedade e dá margem
à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças
que se fazem urgentes. O próprio espaço se torna uma couraça e o sentido do
serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz.
Hoje, o lago de Tiberíades se converteu numa grande rede que
abarca o mundo inteiro. Mas, o que as pessoas buscam nessa grande rede? E,
sobretudo, o quê estamos oferecendo nela para evangelizar?
Com um só click podemos chegar a milhões de pessoas, podemos
fazer muito bem, mas também podemos criar muita confusão e inclusive repulsa,
podemos levar a mensagem de Jesus ou simplesmente fazer transparecer todo o
nosso ego inflado, cheio de si mesmo. As redes sociais têm seus perigos, mas
também tem suas grandes oportunidades que não podemos desperdiçar. Vamos nos dando
conta que, enquanto não evangelizemos a partir dos meios eletrônicos modernos,
não poderemos encher nossas redes de peixes. O seguimento de Jesus implica hoje
a necessidade de evangelizadores nas redes sociais.
Tendo as ferramentas em mãos (nossas pobres barcas e redes)
e sendo portadores de uma mensagem de vida (o evangelho) somos movidos por
Jesus a “ser pescadores do humano”. No mar das redes sociais ressoa mais uma
vez o apelo de Jesus: “fazei-vos pescadores do humano”. Frente a esta nova
realidade, quê tipo de profecia responde melhor a nossa peculiar forma de
cooperar na missão do Espírito do Abbá e de Jesus.
Estamos no mundo das telas: através delas nos
interconectamos, transmitimos informações, saberes. As diversas telas tendem à
convergência: com um só dispositivo, fixo ou móvel, podemos falar, enviar e
receber fotos, música, vídeos e qualquer tipo de arquivo; com o “boom” das
redes sociais podemos fazer isso com o grupo que elegemos em cada
momento.
Se há algo que caracteriza nosso tempo é a nova consciência
de ser rede-comunhão-interconexão-unidade. Encontramo-nos em um tempo
surpreendente: as espetaculares inovações tecnológicas nos convidam a entrar
numa inimaginável rede de informações, imagens, conexões... Nosso planeta está
dotado de uma complexíssima textura de comunicações. Com apenas alguns clics
oferece-se, diante de nós, um mundo complexo, de graça e maldade, de alianças
para o bem e para o mal, de luzes e trevas.
E aí estamos nós, seguidores(as) de Jesus, “em-redados(as)”,
nos perguntando por nossa identidade cristã, na vivência do Evangelho e na
missão de nos fazer presentes neste “novo mundo”. Todos já sabemos que tudo
está interconectado: a globalidade é interação. Lentamente vai-se tomando
consciência de que formamos parte de um todo. A realidade vai se revelando como
um manto sem costuras, sem fraturas, onde todos estamos implicados e
comprometidos.
“Rema mar adentro!”, ressoa a voz de Jesus. A multidão
permanece em terra; somente Pedro e seus companheiros se adentram no mar profundo.
Este apelo de Jesus é muito simbólico. Em grego “bados” e em latim “altum”
significam profundidade (alto mar); só nas profundezas é que se pode extrair o
mais autêntico do ser humano, o que é mais nobre e divino.
Tudo o que, em vão, buscamos na superfície, está dentro de
nós. Mas, ir mar adentro não é tão fácil como pode parecer. Exige ultrapassar
as seguranças do “eu superficial” e adentrar-nos nas incontroladas águas de
nosso ser profundo. Confiar naquilo que não controlamos exige uma fé-confiança
autêntica. Dizia Teilhard de Chardin: “Quando descia ao profundo de meu ser,
chegou um momento em que não ‘dava mais pé’ e parecia que me deslizaba para o
vazio”.
O mar era o símbolo das forças do mal. “Pescar homens” era
um dito popular que significava tirar alguém de um perigo grave. Não quer
dizer, como se entendeu com frequência, fazer proselitismo ou converter as
pessoas à força para a religião cristã. Aqui quer dizer: ajudar as pessoas a
sair de todas as opressões que lhe impedem crescer e desenvolver suas
potencialidades. Só pode ajudar o outro a sair da influência do mal aquele que
encontrou o que é mais verdadeiro e nobre dentro de si mesmo.
Neste contexto atual, onde corremos o risco de nos converter
em pessoas “grudadas” a uma tela, se faz mais necessário que nunca humanizar a
rede para “pescar o humano” que está escondido no oceano interior de cada um.
Esta humanização requer, em primeiro lugar, muita responsabilidade.
Tudo isto nos leva a pensar que na rede há uma grande
necessidade de silêncio (“silêncio na rede”), precisamente para que possamos
ouvir a verdade com amor. Há excessivas palavras que afogam, notícias falsas,
“bullings”, campanhas desqualificadoras e comentários feitos com extrema má
educação. Sobretudo nas páginas religiosas, precisamos de um silêncio
construtivo para que se escute a verdade que liberta.
Silêncio construtivo significa utilizar uma linguagem
propositiva, compreensiva, que estenda pontes de diálogo, que escute o outro
que é diferente, que leve em conta o que “o outro” diz, talvez um aspecto da
realidade que nos tinha escapado.
Silêncio construtivo significa tomar partido pelos mais
fracos e excluídos; significa usar uma linguagem que sare as feridas, que
reconstrua os vínculos quebrados. Uma página (mensagem) que só busca condenar,
que só revela intolerância e preconceito, não pode ser evangélica.
Literalmente, “há demasiado disparos” que desumanizam. Precisamos do azeito do
consolo que cura as feridas, o vinho da esperança que nos une como irmãos acima
das diferenças, o pão da compaixão que alimenta e eleva ...
É preciso fazer a “travessia” do estreito mar de nossa vida,
onde nossas inúteis barcas e redes só “pescam” futilidades e lixo, para o
grande oceano que Jesus nos oferece, carregado de vida e vida em plenitude.
Texto bíblico: Lc 5,1-11
Na oração: “Rema mar adentro e desce ao profundo de teu
ter!” É um convite dirigido a todo ser humano. Sem essa profundidade, não é
possível a plenitude humana. A contemplação é o único caminho.
“Não é necessário que percorras os mares buscando alimento;
aprende a pescar em teu próprio mar interior; o que com tanto afinco buscas
fora de ti, já tens ao alcance da mão, dentro de ti. Se não tens pescado
nada, quê poderás oferecer aos outros? Se não tens aprendido a pescar, como
poderás ensinar a outros? Dá verdadeiro sentido à tua vida e ajudarás os outros
a atingir o mesmo”. (cf. Fray Marcos)
O estilo realista, objetivo, com
muitos pormenores, apresentando as pessoas como se fossem animais e anormais,
mostrando atitudes típicas da considerada “ralé humana” em cenas grosseiras,
chama-se estilo naturalista ou NATURALISMO.
O naturalismo é um exagero do
Realismo, dominado por extremo materialismo. As pessoas são animalizadas, agem
e reagem por instinto, como se fossem bichos. Tudo isso, para criticar a
sociedade e suas injustiças.
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UM AUTOR NATURALISTA
ALUÍSIO TANCREDO GONÇALVES DE
AZEVEDO nasceu em 1857 e morreu em 1913. Era filho do vice-cônsul português em
São Luís (Maranhão). Estudou ali até o secundário. Foi para o Rio de Janeiro e
trabalhou como caricaturista nas redações de jornais políticos e humorísticos. Foi
diplomata e morreu em Buenos Aires.
Sua linguagem era chocante,
objetiva, direta. Procurava denunciar pela palavra a miséria, a corrupção
moral, à luz dos novos conceitos científicos. Muitos de seus personagens são
doentes físicos, mentais ou fisiológicos, vítimas de suas próprias
imperfeições. É considerado escritor naturalista. Sua obra “O Mulato”,
publicada em 1881, ao lado de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de
Assis, é considerada como marco inicial do realismo em nossa literatura.
OBRA: Romances: “Uma Lágrima de
Mulher”; “O Mulato”; “Casa de Pensão”; “Filomena Borges”; “O Coruja”; “O Homem”;
“O Esqueleto”; “O Cortiço”; “Mortalha de Alzira”; “Livro de uma Sogra”; “O
Touro Negro”.
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“SEO” LIBÓRIO COME COMO UM PORCO!
Anoitecia já.
O velho Libório, que jamais ninguém
sabia ao certo onde almoçava ou jantava, surgiu do seu buraco, que nem jabuti
quando vê chuva.
Um tipão, o velho Libório! Ocupava o
pior canto do cortiço e andava sempre a fariscar os sobejos alheios, filando
aqui, filando ali, pedindo a um e a outro, como um mendigo, chorando misérias
eternamente, apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o
sumítico roubara de um pobre cego decrépito. Na estalagem diziam, todavia, que
Libório tinha dinheiro aferrolhado, contra o que ele protestava ressentido,
jurando a sua extrema penúria. E era tão feroz o demônio naquela fome de cão
sem dono, que as mães recomendavam às suas crianças todo o cuidado com ele,
porque o diabo do velho, quando via algum pequeno desacompanhado, punha-se logo
a rondá-lo, a cercá-lo de festas e a fazer-lhe ratices para o engabelar, até
conseguir furtar-lhe o doce ou o vintenzinho que o pobrezito trazia fechado na
mão.
Rita fê-lo entrar e deu-lhe de
comer e de beber, mas sob condição de que o esfomeado não se socasse demais,
para não rebentar ali mesmo.
Se queria estourar, fosse estourar
para longe!
Ele pôs-se logo a devorar,
sofregamente, olhando inquieto para os lados, como se temesse que alguém lhe
roubasse a comida da boca. Engolia sem mastigar, empurrando os bocados com os
dedos, agarrando-se ao prato e escondendo nas algibeiras o que não podia de uma
só vez meter para dentro do corpo.
Causava terror aquela sua
implacável mandíbula, assanhada e devoradora; aquele enorme queixo, ávido,
ossudo e sem um dente, que parecia ir engolir tudo, tudo, principalmente pela
própria cara, desde a imensa batata vermelha e grelada, que ameaçava já
entrar-lhe na boca, até as duas bochechinhas engrelhadas, os olhos, as orelhas,
a cabeça inteira, inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e
guarnecida em redorpor uns pelos puídos
e ralos como farripas de coco.
Firmo propôs embebedá-lo, só para
ver a sorte que ele daria. O Alexandre e a mulher opuseram-se, mas rindo muito;
nem se podia deixar de rir, apesar do espanto, vendo aquele resto de gente, aquele
esqueleto velho, coberto por uma pele seca, a devorar, a devorar sem tréguas,
como se quisesse fazer provisão para uma outra vida.
De repente, um pedaço de carne,
grande demais para ser ingerido de uma vez, engasgou-o seriamente. Libório
começou a tossir, aflito, com os olhos sumidos, a cara tingida de uma
vermelhidão apoplética. A Leocádia, que era quem lhe ficava mais perto,
soltou-lhe um murro nas costas.
O glutão arremessou sobre a toalha
da mesa o bocado de carne já meio triturado.
Foi um nojo geral.
- Porco! Gritou Rita, arredando-se.
Pois se o bruto quer socar tudo ao
mesmo tempo, disse Porfírio. Parece que nunca viu comida, este animal!
E notando que ele continuava ainda
mais sôfrego por ter perdido um instante:
- Espera um pouco, lobo! Que diabo!
A comida não foge! Há muito aí com que te fartares por uma vez! Com efeito!
- Beba água, tio Libório! Aconselhou
Augusta
E, boa, foi buscar um copo de água
e levou-lhe à boca.
O velho bebeu, sem despregar os
olhos do prato.
-Arre diabo! Resmungou Porfiro, cuspindo para o lado. Este é mesmo capaz
de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas!