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quinta-feira, 22 de junho de 2023
segunda-feira, 19 de junho de 2023
Do livro ao grão
Conheço desde
criança, quando lia a Bibliotca Infantil o slogan que vinha no final dos
livrinhos: “Do pinheiro ao livro, uma realização Melhoramentos.” Quando menino,
voltando de trem para Araraquara passava por Caieiras eu via os extensos
bosques de eucaliptos que eram transformadas em papel e depois em livros. Eram
para mim tão encantados quanto as florestas das histórias de João e Maria.
Meses atrás, saí
com minha mulher, para comprarmos grãos de variadas espécies. Castanhas do Pará
ou de caju, frutas secas e oleaginosas, aveia, farelo de trigo e outras que
Marcia mistura na perfeição de uma Bela Gil. Porque faz uma granola que a
família inteira cobiça. Tem a mão, sabe as quantias certas, a temperatura
exata, o tempo de forno. Muitos meses atrás, esperávamos um taxi passar na
Teodoro Sampaio, quando vimos um espaço novo, aberto depois da pandemia. Noz da
Terra, grãos. Vidros e mais vidros contendo tudo que precisávamos. Marcia,
encantada : “Tem mais do que no mercado de Pinheiros.”
Estava cheio,
esperávamos, quando alguém disse: “Loyola, o que faz aqui? Não se lembra de
mim? Guilherme Felipe. Vendi muito livro para você. E já chegou outro: “E eu,
então? Sou o Ricardo Souza.” Tinham sido livreiros na Cultura, naquele tempo
áureo quando chegávamos e cada funcionário sabia tudo, orientava, propunha
substituição correta, não tem esse, mas tem outro na mesma linha. Conheciam
pessoalmente a maioria dos escritores brasileiros, se não tinha o que
desejávamos, nos ajudavam, ligavam para deus e o mundo. Senti diferença na
tarde em que dei ao caixa meu numero de CPF, ele digitou e perguntou:
“Inguinácio?”. Naquele momento senti que algo estava se passando.
E passou. E
infelizmente, deu no que deu. Vivi na Cultura, por mais de quarenta anos,
alguns dos melhores momentos de minha vida. Nunca esqueço eu chegando ao
meio-dia (ideia do Pedro) e sentado até dez da noite assinando livros. Ou os
sábados com o Ives Gandra Martins servindo coxinhas e o Pedro Herz oferecendo
uísque. Quem éramos? Lygia Fagundes Telles, Fábio Lucas, Ana Maria Martins,
Marcos Rey e sua mulher Palma , Ivan Angelo, Mário Chamie, Tereza Collor,
Gilberto Mansur, Bruna Lombardi, Ricardo Ramos, Joyce Cavalcanti.
Ou foram tardes
papeando na mesa do café da livraria com Evandro Ferreira e Leo Lama.
Veio a pandemia,
perdi contatos. Súbito este reencontro. E aqueles vindos da livraria me
oferecendo agora grãos. Do livro, um alimento, ao grão, outro alimento. Faz
meses que o empório me recebe e agora chegou também Flávia Wulf, que também
mexia (como dizem os mineiros) com livros Do livro ao grão uma realização da
necessidade. E da criatividade.
Estado de São
Paulo, 18/06/2023
https://www.academia.org.br/artigos/do-livro-ao-grao
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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11,
eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
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quarta-feira, 14 de junho de 2023
Aniversário
Cyro de Mattos
Querida filha
Josefina. Sempre ouvi dizer dos mais velhos que filhos a gente cria para o
mundo. É verdade. Também é verdade que os pais querem que os filhos sempre
fiquem perto deles. Para os pais, o filho nunca cresce, sempre é aquela criança
que a mãe tantas vezes acalentou para dormir um sono suave. Aquela mesma que
balbuciava, mal dizia mamã e pá-pá. Anos depois traquinava, corria por todos os
cantos da casa. O pai também substituía a mãe dedicada quando estava cansada
durante a noite em que o filho acordava e demorava a pegar no sono. Chorava.
Sei que esses momentos você passou com meus dois netos Pedro Henrique e Luís
Fernando. A vida é um modo contínuo, seu curso de rio tem como destino o mar do
inexorável.
Sabemos que os três filhos que Deus me consentiu e sua mãe me deu
não moram comigo na cidade onde nasci e resido. André é fazendeiro, nunca vi
gostar tanto do campo, reside na sua propriedade rural no município de Coaraci.
Você Josefina, que coloquei o nome de sua avó, como homenagem e carinho por
minha mãe, reside em Conquista. O marido Anderson, genro que me dá gosto e
orgulho, levou você para essa terra sertaneja do frio, assim você ficou um
tanto longe de mim e de sua mãe Mariza. Ainda bem que daqui até aí onde você
mora nem fica tão longe. Além disso, seu irmão, meu caçula Adriano, também está
morando em Conquista. Isso é bom, a irmandade continua movimentando os laços
afetivos com encontros constantes.
Hoje você faz mais um ano de vida, intensa, afetiva e responsável
no seio da família. Não estou fisicamente aí participando desse momento especial.
Com 84 anos de idade o corpo reclama, mas seus irmãos André e Adriano, a
sobrinha Marizinha, as cunhadas Jamile e Daiane estão aí com você. Eu estou com
o coração. Quando a parentada do lado de seus pais se juntar à parentada do
maridão, mais os amigos e as amigas, imagino a cantoria entusiasmada que todos
vão fazer na hora do “Parabéns a você.”
Antes dessa
cantoria se fazer, na junção afetiva de corações alegres, quero que sua mãe
Mariza leia agora aquela poesia que eu escrevi para você quando comemorava dez
anos de existência numa infância saudável.
Vejam aí.
Menina Josefina
Enquanto as nuvens passam
Na manhã de sol forte,
Com Miriam, Mara e Marina
Brinca de chicotinho queimado
E mexe com a cintura fina.
Quando está dentro de casa,
Um só minuto não sossega,
Canta alto e mexe em tudo
Na manhã muito traquina.
Na bicicleta azulzinha
Lá se foi dobrando a esquina,
Solta o guidão na ladeira
Como uma vez viu no circo,
Tira fino de quem passa perto,
Pede passagem e buzina.
Se estou cansado e triste,
Somente ela me ensina
Que a vida pula corda
E na cabra-cega diverte
Quando se tem a menina
Que se chama Josefina.
Vida longa, minha filha, com saúde e paz.
Bênçãos e beijos. Seu painho.
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Cyro de Mattos é contista, poeta, romancista, ensaísta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.
* * *
terça-feira, 13 de junho de 2023
Escritor baiano Cyro de Mattos vence prêmio internacional Casa de las Americas
Nascido em Itabuna, autor de 84 anos se inspirou na infância
vivida no sul da Bahia, entrevista a Kátia Borges katiamacces@gmail.com
Com a serenidade de quem já acumula importantes premiações, conquistadas por uma obra construída ao longo de mais de seis décadas, o escritor baiano Cyro de Mattos, 84, recebeu, em abril último, a notícia de que seu livro, Infância com bicho e pesadelo e outras histórias, foi o vencedor do Prêmio Casa de Las Américas deste ano. Trata-se de um dos mais antigos (é concedido desde 1960) prêmios literários internacionais, contemplando obras em espanhol, português, inglês e francês, desde que tenham sido escritos por autores nascidos na América Latina e Caribe. Lançado pela Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), em parceria com a Academia de Letras da Bahia (ABL), o livro premiado integra a coleção Mestres da Literatura Baiana e reúne contos e novelas que giram em torno da infância e da vida na região cacaueira. Nascido em Itabuna, sul da Bahia, Cyro já publicou, apenas no Brasil, mais de 60 livros em diversos gêneros e recebeu, entre outros, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, o APCA e, por duas vezes, o Maestrale Marengo d’Oro, concedido pelo centro italiano Culturale Maestrale di Sestri Levante. Nesta entrevista, via e-mail, conversamos sobre maturidade, leituras, referências, influências, inteligência artificial e projetos ainda inéditos.
Sabemos que esta não
é sua primeira premiação literária de relevância, mas o que o Prêmio Casa de
las Américas representa em sua trajetória na literatura nesse momento pós
pandêmico?
Por ser um prêmio de tradição e prestigiado na América
Latina vai dar visibilidade ao meu legado, que tem hoje um autor de 84 anos,
com mais de 60 dedicados à literatura,
65 livros pessoais publicados no Brasil e 16 no exterior, entre o conto, romance,
poesia, ensaio, crônica, literatura
infantil e juvenil.
Infância com Bicho e
Pesadelo, o livro premiado, reúne contos e novelas e sai pela coleção Mestres
da Literatura Baiana (edição da ALBA e da Academia de Letras da Bahia). Nesse sentido, poderíamos afirmar que este
reconhecimento se estende, de certo modo, à sua geração? O que particulariza
sua geração de autores?
Minha geração é a chamada Geração Revista da Bahia, que
atuava com um grupo de adolescentes sonhadores nas páginas da Revista da Bahia,
editada por Juarez Paraíso, nos idos 60, em Salvador. Na semana encontrávamos
na livraria Civilização Brasileira, na rua Chile, Biblioteca Pública na praça
Tomé de Sousa e, aos sábados, em alguns bares da Rua da Ajuda. Éramos eu, Alberto Silva, Marcos Santarrita,
Ildásio Tavares, Oleone Coelho Fontes, Adelmo Oliveira, Fernando Batinga, Olney
São Paulo, Nacif Ganem e Ricardo Cruz. Tinha também Maria da Conceição
Paranhos. Em nossas leituras estávamos ávidos para descobrir mundos e gente, o
grupo tinha como guru Carlos Falk, leitor voraz, muito inteligente, adiante de
todos. Alguns desses rapazes se tornaram mais tarde artistas da palavra escrita
no circuito nacional, como Marcos Santarrita e Ildásio Tavares, e até da
linguagem cinematográfica, como Olney São Paulo. Por motivos afetivos, de
solidariedade e identidade cultural, esse Prêmio Literário da Casa de las Américas,
que conquistei recentemente, se estende a todos eles.
A leveza inquietante
e a maturidade literária foram alguns dos argumentos do júri para justificar a
premiação de Infância com Bicho e Pesadelo. Como se alcança esse equilíbrio?
Ele é possível de ser, afinal, alcançado por um escritor?
Literatura é forma de
conhecimento da vida. Equilibra-nos entre os vazios e os medos. Expressa bem a
vida com arte e engenho quanto consegue o equilíbrio entre inspiração e
transpiração. É um processo constante em que entra a experimentação, faz-se
necessário escrever, escrever, escrever, momento inseparável do ato de ler os
grandes autores. O talento acentuado carimba no final o resultado proveitoso na
jornada bonita de acontecer e ser.
Pensando bem, como
definimos um escritor? Como ele se faz, ao longo de décadas? Quais são seus
portos, seus pontos de resistência após mais de 60 livros?
O sapo pula, o pássaro voa, o peixe nada. Sou escritor
porque escrevo. Meu porto é meu amor pela literatura, ela tem mostrado que está
contente com o meu trabalho.
E o leitor-escritor?
Muito se fala sobre a questão do número “modesto” de leitores, em contraponto à
volumosa quantidade de livros lançados a cada ano. Há, em sua opinião, uma
relação de causa e consequência? Como vê essa questão?
Verdade, escreve-se
mais para o menos. Uma enxurrada de livros passa por debaixo da ponte, mas não
fica. A literatura não teve antes a concorrência de outros meios, como o teatro
e o cinema, hoje é e a tecnologia avançada com a linguagem visual, abrangente e
instantânea. O autor tinha mais prestígio no antigamente. Não me parece é que o
livro vá desaparecer em seu formato físico, sabemos onde existe o ser humano
está o sonho, a questão e a incerteza, que a palavra escrita gera. A ferramenta
visual da internet, que tem lá seus vícios e virtudes, agora possibilita nova
leitura da vida, às vezes a narrativa ganha muito mais leitores, não se pode
negar isso, às vezes traz prejuízos. Deixando fora esse tipo de competição
massificada, não se pode deixar de considerar que a linguagem da arte é sempre
específica e exige um leitor íntimo dos problemas estéticos, que têm a ver com
a criatividade em si e a recepção do texto.
Como solucionar, a
seu ver, o grande enigma, o nó górdio da leitura no Brasil?
O problema é complexo, mas não impossível de ser pelo menos atenuado. Falta seriedade e boa vontade dos governantes, dirigentes e administradores culturais. Somos um país de iletrados, sem hábito de leitura, um povo com poder aquisitivo baixo. Sem virar a chave fica difícil mudar o quadro. É preciso projetos que solucionem primeiro problemas estruturais de nosso sistema político organizado. Há anos editoras em Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife ampliam seus catálogos editoriais fazendo com que o autor circule em outras praças. As obras desses autores são distribuídas no circuito nacional de livrarias e espaços de cultura. O autor baiano quase sempre para publicar precisa bancar o livro. Publicar um livro de literatura no Brasil é sempre difícil, mesmo quando se tem uma obra consolidada. É caso raro o do autor que reside em Salvador ou no interior baiano quando consegue publicar sua obra em editora de grande porte situada no eixo do Rio e São Paulo, com circulação nacional. Nesse conjunto de falhas falta uma política institucional pública mais arrojada para fornecer meios e fazer com que a editora baiana já no nascimento tenha assim algum suporte, estímulo para sobreviver e crescer. É preciso também uma legislação que obrigue as universidades e colégios estudarem o autor baiano, no vestibular e na sala de aula. É preciso criar novas estratégias com os programas de apoio ao livro. A Bahia tem de sobra bons autores. Com raras exceções, falta é o editor com espírito empresarial para esse tipo de atividade econômica. E uma política pública institucional que o estimule, com mecanismos eficazes para que ele progrida. Desenvolva e fortaleça um complexo editorial abrangente e ideal.
Como se descreveria,
pessoalmente, como leitor? Quais autores contribuíram para a sua formação? Em
que medida estes influenciaram o seu desenvolvimento como escritor, desde a
estreia com Berro de Fogo, em 1966?
Já fui um leitor
voraz, o que foi natural. O corpo hoje reclama, a mente hesita, mas resisto,
literatura é minha crença. O bom escritor ensina, provoca, surpreende,
acrescenta. Dostoiévski, Tchecov, Kafka,
Faulkner e Fernando Pessoa com os heterônimos fizeram-me ganhar cancha como
escritor, deram-me visões largas sobre meu ser-estar no mundo, profundidade no
fazer literário, auscultações argutas na criatividade e consciência crítica na
técnica moderna de elaborar o texto. Quanto ao Berro de Fogo, contos, minha
estreia em 1966, está riscado de minha bibliografia, há muitos tempos. Seu
texto aconteceu com mais defeitos do que
virtudes. Isso não aconteceu só comigo.
Lígia Fagundes Telles e Assis brasil, para citar dois autores importantes,
eliminaram de seu legado os livros de estreia. Guimarães Rosa foi um impacto em
nossa literatura com Sagarana, seu segundo livro. Seu primeiro tirou o segundo
lugar em concurso da Academia Brasileira de Letras. Quem venceu o concurso foi Luís Jardim com
Maria Perigosa, longe de ser uma obra fundamental em nossas letras. Nem todos
têm a sorte de fazer a estreia literária por cima, como foi o caso de
Graciliano Ramos, Clarice Lispector e José J. Veiga, por exemplo. Cacau, O País do Carnaval e Suor, primeiros
romances de Jorge Amado, são frágeis, obras de autor imaturo. Machado de Assis
se torna grande na prosa de ficção a partir de Papeis Avulsos. Considero minha estreia Os Brabos, contos e
novelas, que me rendeu o Prêmio Nacional Afonso Arinos da Academia de
Brasileira de Letras, em 1978, por unanimidade, numa comissão julgadora
constituída por Alceu Amoroso Lima, o relator, Herberto Sales, José Cândido de
Carvalho, Adonias Filho, Afonso Arinos e Bernardo Elis. É o livro que me lançou
em nível de autor nacional.
Falamos no início
sobre maturidade literária como uma qualidade sentida em sua obra pelo júri do
Casa de las Américas, sente que a maturidade o afetou como escritor de algum
modo? E os últimos acontecimentos sociais, sanitários e políticos do país? Como
a realidade atinge a alma e a rotina do ficcionista?
O importante é ser pujante e denso no que se escreve, rico
no que imagina e expressa, inaugurando novos sentidos. Minha literatura toca
também nas feridas sociais e questões políticas. Basta ler meus livros de
poesia motivados pelo rio Cachoeira, meu Cancioneiro do Cacau, história da
civilização do cacau em verso, desde a conquista da terra até a decadência com
a vassoura de bruxa, o romance Os Ventos Gemedores, em que a vitória pende para
o lado dos despossuídos, e o romance transgressivo República Pinapá do
Piripicado, condado que criei e tem a ver com o Brasil das corrupções e mazelas
dos regimes políticos recentes.
O senhor transita com
desenvoltura entre os gêneros literários, contos, romances, poemas, crônicas,
ensaio e literatura infantil. Como se dá o seu processo criativo. Em geral, os
formatos são definidos a partir das tramas ou, ao contrário?
Tudo é resultado de uma experiência de vida que se expressa
no sistema verbal. O assunto vivenciado ou imaginado determina a linguagem para
melhor expressá-lo. Não se trata de um comportamento mecanicista, mas
compulsivo, que se encaixe melhor ao que pretendo dizer no texto proposto com
alma e vida. Procuro dar sempre o máximo de mim, embora saiba que sou um grão
no deserto onde tudo arrisco.
Uma questão central
da contemporaneidade é a literatura em tempos de Inteligência Artificial,
quando máquinas “pensam” e produzem textos cada vez mais subjetivos. Em sua
opinião, qual o desafio dos escritores hoje?
A Inteligência Artificial não cria sentido, é digital. O que sabe sobre o amor? O inexorável? De
Deus? Vê nascer e vê morrer sem nada
poder fazer? Se não tem a razão e a
emoção como pretende decifrar o peso de tantos enigmas? Tem seus ganhos, utilidade, mas por enquanto
fico no meu canto, escrevendo o meu tanto, com espanto e encanto.
Quais os projetos
inéditos na gaveta e/ou no prelo neste momento?
Já está sendo preparada a tradução para o espanhol de
Infância com Bicho e Pesadelo e outras histórias pelo Fondo Editorial da Casa
de las Américas, em Havana, Cuba, com vistas à edição da obra na coleção Premio
Literario Casa de las Americas. Assinei contrato de edição com a Almedina,
matriz de Portugal e matriz Brasil, São Paulo, para dentro de cinco meses
publicar o livro premiado. Aguardo o último parecer do Conselho Editorial da
EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná, para possível publicação
de O Mundo é uma criança com palhaço e lambança, infantil, capa e ilustrações
de Ângelo Roberto.
Ao olhar para trás,
sente que valeu a pena ter insistido na literatura?
Viver sem a literatura é impossível, sem a emoção e a razão
a vida fica uma farsa. Se tudo é logro,
melhor é sabê-lo. Viver como ficcionista e poeta é transitar com os outros no
reino da palavra metamorfoseada, vestido de nossa mentira verdadeira, que
provoca o sofredor do ver, também diverte.
Fonte: Jornal Tribuna da Bahia, 12/6/2023
* * *
quarta-feira, 7 de junho de 2023
O SIGNIFICADO DA VERDADEIRA FELICIDADE
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Quando o bilionário
nigeriano Femi Otedeola, em uma entrevista por telefone, foi perguntado pelo
apresentador de rádio: "Senhor, o que você se lembra que fez de você o
homem mais feliz da vida?"
Femi disse:
"Passei
por quatro estágios de felicidade na vida e finalmente entendi o significado da
verdadeira felicidade."
A primeira
etapa era acumular riqueza e meios. Mas nesta fase eu não consegui a
felicidade que eu queria.
Então veio a
segunda etapa de coleta de objetos de valor e itens. Mas percebi que o
efeito dessa coisa também é temporário e o brilho das coisas valiosas não dura
muito.
Então veio a
terceira etapa de conseguir grandes projetos. Foi quando eu detinha 95%
do suprimento de diesel na Nigéria e na África. Eu também era o maior
proprietário de navios na África e na Ásia. Mas mesmo aqui não consegui a
felicidade que imaginava.
A quarta
etapa foi quando um amigo meu me pediu para comprar cadeiras de rodas para
algumas crianças deficientes. Apenas cerca de 200 crianças.
A pedido do
amigo, comprei imediatamente as cadeiras de rodas.
Mas o amigo
insistiu que eu fosse com ele e entregasse as cadeiras de rodas para as
crianças. Eu me preparei e fui com ele.
Lá eu dei
essas cadeiras de rodas para essas crianças com minhas próprias mãos. Eu
vi o estranho brilho de felicidade nos rostos dessas crianças. Eu os vi
todos sentados nas cadeiras de rodas, se movimentando e se divertindo.
Foi como se
eles tivessem chegado a um local de piquenique onde estão compartilhando um
prêmio acumulado.
Senti uma
alegria REAL dentro de mim. Quando decidi sair, uma das crianças agarrou
minhas pernas. Tentei soltar minhas pernas suavemente, mas a criança
olhou para meu rosto e segurou minhas pernas com força.
Abaixei-me e
perguntei à criança: Precisa de mais alguma coisa?
A resposta
que essa criança me deu não apenas me deixou feliz, mas também mudou
completamente minha atitude em relação à vida. Esta criança disse:
"Quero
lembrar do seu rosto, para que, quando eu o encontrar no céu, possa
reconhecê-lo e agradecê-lo mais uma vez."
Pergunto:
Pelo que você será
lembrado depois de deixar essa vida?
Alguém desejará ver
seu rosto novamente onde tudo importa?
(Recebi via WhatsApp sem menção de autoria)
* * *
sábado, 3 de junho de 2023
Ode à Biblioteca
Quando meus olhos
não falhavam, em noites de impiedosa insônia, eu apontava o telescópio para o
céu. Mirava as nebulosas na distância, e o brilho antigo e novo das estrelas.
Matéria de abandono, sintaxe e conjunção. Um repertório a cada nebulosa: o
trânsito dos astros e o rumor de fundo. Eu colimava lentes, verbo e coração. E
me perdia na fuga das galáxias, na espiral da Via-Láctea, reconhecida nas
aldeias como Caminho das Antas. Cem bilhões de galáxias e quase o mesmo número
de estrelas. Cifra assombrosa, incogitável. E, todavia, estranhamente próxima,
se comparada à quantidade de neurônios. Carregamos um céu dentro de nós, o
clarão da linguagem e das sinapses. Importa conjugar o transfinito, em
patamares cada vez mais altos. E sem perder a humana condição. Lembro o convés
do Raposo Tavares, quando subi o rio Negro, rumo a Novo Airão. Provei as
extensões do Rio-Babel, a biblioteca viva da Amazônia, acervo do sistema Gaia,
palimpsesto de múltiplos extratos (carbonífero e devoniano), a cuja coleção de
obras raras correspondem quatrocentos bilhões de árvores. Quem sabe até – senão
– o mesmo número de deuses? Estrelas. Árvores. Neurônios. As dimensões
possíveis de um sistema. Como quem doma o Caos e faz uma defesa do infinito. Como
quem sai do dicionário para a prosa, do arquivo aos metadados. Talvez, assim, a
biblioteca de Babel, com alto brilho e densidade, seja a fornalha de uma
estrela, volume líquido e gasoso, de livros vegetais e de xamãs, Apolo e
Olorum.
Trata-se de um conceito
universal, mosaico e labirinto: a geometria de Perec e Osman Lins. Talvez o
delírio de Brás Cubas. Livros futuros, imaginários, Bolaño e Rabelais. E livros
que podiam ter sido e que não foram. Suportes de papel ou nato-digitais, de
verbo e de silêncio revestidos. Estrelas jovens e azuis. Ou mortas, cujo brilho
não se apaga. A Biblioteca nasce de outro céu e de outra selva. É marca de um
saber plural, sob o rigor da lógica do acréscimo. Lembra o famoso Hotel de
Hilbert (do n + 1 às potências de números primos). E se mais mundo houvera, lá
chegara. Não há, porém, limite algum. Somente o débito de espaço, pago a longo
prazo. O mais do mundo aqui se encontra. A Biblioteca Nacional é dos mais belos
ecossistemas do Brasil. Floresta de exemplos, natureza e cultura, memória
social, que cada geração buscou guardar. Entre as bibliotecas do Oriente e do
Ocidente, do Vaticano ou do Mali, todas subscrevem, sem hesitação, as palavras
de Richard Bury: “O tesouro do conhecimento e da sabedoria, a que todos os
homens aspiram, por instinto natural, supera em muito todas as riquezas do
mundo reunidas; perto dele, as pedras preciosas se degradam, a prata se oxida e
o ouro, areia fina, vira lama. Comparado ao seu esplendor, o Sol e a Lua são
eclipsados, à sua doçura o sabor do mel e do maná tornam-se amargos”
Viajantes nos
limites desse espaço, a bem de todos, para sempre inacabado. A biblioteca vive
da soma dos tempos. Nutre-se de uma adição épica. Mais do que eterna, é
sempiterna. Antes de ser lugar, é um conceito; antes de ser depósito, um
sistema. Onívora, incontida. Seus muros se tornaram transparentes. Capítulo
inovador, segundo Darnton, a “biblioteca sem paredes, acessível em toda a
parte, contendo a quase totalidade do que se encontra nos acervos da cultura
humana.” A Biblioteca Digital é um divisor de águas. Trata-se de uma conquista
admirável. Precisamos ampliá-la, criando um robusto centro de dados, um centro
de tecnologia da informação e comunicação. Cem milhões de acessos ano passado.
A biblioteca é uma assembleia interminável, centro de cultura e difusão, que se
renova com os leitores-cidadãos. Não há distância entre leitura e democracia.
Não pode haver. A Biblioteca Nacional é um dos maiores bastiões da liberdade.
Está no seu DNA, na vocação ecumênica, inimiga da censura, voltada aos
metadados. Não admite a pós-verdade. Imune às fake News, Incapaz de rechaçar os
próprios dados.
Eclipse do Sol e da
Lua. Nosso maior tesouro e capital simbólico chama-se Biblioteca Nacional. A
sexta cidade dos livros da Terra. A nossa mais antiga casa de cultura. Eis a
razão pela qual a Biblioteca não é órgão de governo, mas de Estado; usa o
plural, não se apequena em partes ou fração; não é trincheira ideológica, nem
deve promover a parte contra o todo. Seu estatuto é a acolhida. Índices e
motores de busca são lentes poderosas, que sondam a máquina do tempo e da
leitura. Esta Casa possui 72 quilômetros de prateleiras. Seus hóspedes aumentam
dia a dia. Não é pequena a taxa demográfica, que vai além de dez milhões. O
mundo dos livros e o livro do mundo coincidem. Modelos de Universo
inflacionário. Melhor dizendo: Multiverso. A travessia da Biblioteca é uma
viagem terrestre e celeste: nas infovias, mapas e armazéns. Como disse J.L;
Borges, bibliotecário de Babel: “Se um eterno viajante atravessasse, em
qualquer direção, verificaria ao longo dos séculos que os mesmos volumes se
repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). Minha
solidão se alegra com essa elegante esperança.”
Avalista de um
horizonte generoso, não fragmenta seu tempo e discurso, não cancela a
matéria-prima da alteridade. Não perde o contexto, o pano de fundo informativo,
não quebra a comunicação, não abandona uma razão estrutural.
Universo conjuga
todos os tempos. A nostalgia do todo não permite desidratar o presente ou
sequestrá-lo. Seu algoritmo trabalha a favor da pesquisa e da emancipação. Seu
ofício transparente apura o trânsito informático, a pertinência e o valor da
esfera pública. Nenhuma concessão à infocracia. Os algoritmos desta Casa
possuem uma finalidade virtuosa. Instrumentos de acessos. E de conhecimento
radial. Tesauros, ontologias. A Biblioteca não perde seu caráter multicêntrico.
Sociedade de iguais, centrada no viés do bem comum, na conjunção da diferença.
Não se limita ao curto prazo. Namora a longa duração. O presente infinito não
esgota suas forças. O passado distante não é exílio e o futuro pode-se
apressar. Projeto de igualdade, construção de paz e saber. O papel do
bibliotecário se renova, sempre mais estratégico, num um paradigma aberto,
segundo a Bibliotech, de John Palfrey, nova mundivisão e formas de pesquisa.
Outros regimes de memória e mídia. A biblioteca anfíbia, virtual e analógica,
duplicou as tarefas da preservação. Se antes era a química do papel e o
ambiente – umidade, acidez, tinta ferrogálica –, agora são hackers, perda de
dados, migração de tecnologia. O delicado olhar entre átomos e bits. Porque o
digital não é eterno e imutável. A inteligência do processo deverá contemplar
as novas materialidades. A nossa meta é a conquistar do espaço. Mais apetite à
fome de guardar. Protocolos internacionais de cooperação. Transmitir o
conhecimento entre gerações de profissionais que formam esta Casa. Levar a
Biblioteca ao seio da República. Promover seminários nacionais e internacionais,
mostras, publicações. Leitura em todos os quadrantes. E recuperar o acervo de
obras perdidas.
Tempo de diálogo,
com o Brasil e o Sul Global. A delicadeza como princípio ativo. A diplomacia do
livro. Ouvir os agentes públicos da Casa, avalistas da memória, embaixadores do
futuro. Ativos e aposentados. Permitam citar Zé Basto, cliente da Casa das
Palmeiras: “O livro deve entrar no coração”. Frequentei bibliotecas mundo
afora. Antes da crise sanitária, fui a aldeias e comunidades, escolas
prisionais e terras quilombolas. Dou testemunha do gênio de nosso povo, diante
da riqueza das dificuldades e a escassez de recursos. Todos imersos no cosmos –
da língua materna, da biblioteca –enquanto organismo vivo, heterodoxo.
Continuarei a visitá-los, sempre que possível. O presidente da Casa precisa
testemunhar um sentimento solidário e democrático, a partir da república dos
livros. A Biblioteca deve ser o espelho do país. Guardar todas as línguas e
cosmogonias. Ninguém pode ficar de fora. A Compadecida e Diadorim, Paulo
Honório e Policarpo, grafites urbanos e literatura de cordel, Lampião no
Inferno e a massa flutuante de esperança. Espelho. Verbo. Imagem. Travessia.
Para a terceira ou quarta margem fluvial. Futuro do pretérito e agora do
passado, buscando diálogos: Sócrates e Ọ̀rúnmìlà, Isabelle Stengers e Davi
Kopenawa. Harpas sonoras do sul.
Antes do convite da
ministra Margareth Menezes, planejava regressar ao Brasil para ficar dois meses
navegando no Amazonas, com as gramáticas tikuna e nheengatu. Eu me via entre os
volumes da selva, a visitar caciques nas aldeias. E, no entanto, aqui me vejo,
na floresta dos livros, na missão de reconstruir o diálogo e o respeito da
diversidade. Meu telescópio é o acervo. Essa é a minha constelação, meu atlas
celeste. E a partir dessa confederação de luz, abrir um dos capítulos
essenciais da história: aperfeiçoar os instrumentos da democracia e
reconstrução do país.
Discurso de posse
na Biblioteca Nacional, 30/05/2023
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em
3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido
em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da
ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021.
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