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sábado, 25 de março de 2023

 

Considerações sobre o conto brasileiro           

Cyro de Mattos



Críticos brasileiros e estrangeiros vêm contribuindo com estudos e juízos para definir o conto, mas sua variedade dificulta uma definição satisfatória, bem como a sua expressão que se funde com outras manifestações literárias, como a poesia e o drama. O conto moderno incorpora à estrutura elementos de outras áreas artísticas, recorrendo ao cinema, o teatro, às artes plásticas e à música. Forma de prosa de ficção em páginas breves intercomunica-se com outras manifestações culturais. Convém lembrar que a imprensa e a mídia eletrônica vêm afetando os códigos e os cânones da literatura brasileira nos tempos atuais.

O conto como uma forma de narrar histórias procede de tempos primitivos. A mais antiga expressão da literatura de ficção atravessou séculos para tornar-se leitura prazerosa e/ou crítica do mundo na forma escrita. O interesse insaciável do homem pelas histórias sempre o acompanhou, antes mesmo que ele fizesse armas de pedra como extensão da mão para se defender e sobreviver.

Entre nós, não a narrativa oral, o conto começou a ser cultivado como entidade literária durante o Romantismo. Impregnado dessa escola, estilo ou tendência, foi que surgiu uma vocação autêntica para expressar o conto em textos autônomos, elevando-o à categoria de gênero importante, em sua composição e arte.

Pesquisar a presença e evolução do conto no Brasil terá como momento maior o de encontro com Machado de Assis no século dezenove. O autor de Papéis Avulsos, Páginas Recolhidas e Histórias sem Data praticou a prosa de ficção curta com a mesma mestria dos romances, a narrativa tradicional absorveu o corte vertical na  estrutura para a  interpelação do destino humano,  permitindo a criação de um clima na sondagem da alma em seu instante agudo.

No fim do século dezenove e no princípio do vinte, o conto brasileiro buscou os elementos necessários para representar a vida no espaço geográfico: linguagem, personagens, ação, cenas e costumes, elementos capazes de fixar a paisagem humana e física de um país telúrico. Ao desdobrar na história os elementos do espaço geográfico, o conto dessa época credenciou-se através de uma vertente regional, em que se destacam o paulista Valdomiro Silveira, o gaúcho João Simões Lopes Neto, o mineiro Afonso Arinos e o goiano Hugo de Carvalho Ramos.

Com o Modernismo, que se mostrou primeiro com a poesia e depois com o romance, nacionalizando nossos temas, autores sensíveis e criativos introduziram modificações nos elementos tradicionais do conto. A linguagem deixou de ser convencional, desprezou-se a fabulação acadêmica que fazia com que o ficcionista escondesse o imaginário, mascarando-se em seu relacionamento interior com o mundo. Nesse momento do conto brasileiro, em que a fabulação deixou de acontecer linearmente, sobressaem Mário de Andrade, com a valorização da nota lírica justaposta à dispersão do enredo, e Antônio de Alcântara Machado, transpondo o popular ao nível literário, introduzindo um novo personagem à literatura brasileira, o ítalo-brasileiro. Cabe lembrar antes o impressionista Adelino Magalhães, com o seu jeito de flagrar a vida, focando-a no instante que se esgota em si mesmo, documentando-a numa cena para deixar no leitor aquela impressão que causa pena, solidariedade e riso.

Na evolução do nosso conto, dois caminhos divergentes, próprios da literatura, podem ser visualizados: o do elogio da linguagem com o seu fetichismo e o da economia dos meios expressionais com a linguagem descarnada. Por esses caminhos o Brasil tornou-se, de uns tempos para cá, um país de admiráveis contistas. Lembrando alguns nomes dessa contística maior, na fatura psicológica encontramos Lígia Fagundes Telles, Samuel Rawet, Tânia Faillace; nas localizações geográficas com apelos universalistas, João Guimarães Rosa, Adonias Filho, Bernardo Elis, Caio Porfírio Carneiro  e Ricardo Ramos (na primeira fase), assim como nas aculturações humanísticas dessa tendência, Juarez Barroso, Flávio José Cardozo e João Ubaldo Ribeiro; na propensão alegórica, através de espaços atemporais  intercomunicantes, José J. Veiga, Murilo Rubião e Maria Lysia Corrêa de Araújo; no real captando pedaços de vida, com o autor participando e julgando o mundo no cotidiano violento, de solidão, miséria, medo, sonhos incabíveis, sentimentos perversos, humor de cenas ordinárias que causam espanto, riso e/ou pena, Rubem Fonseca, João Antônio, Dalton Trevisan, Luís Vilela, José Edson Gomes e Wander Piroli; na experimentação da linguagem poética como mergulho na situação existencial do indivíduo, criando a atmosfera no lugar do enredo, Clarice Lispector, Walmir Ayala, Maura Lopes Cançado, Nélida Piñon, Helena Parente Cunha e Elias José.

Alegórico, documental, psicológico, impressionista, supra real, regional de alcance universal, de antecipação na corrente de ficção científica, o conto no Brasil circula hoje em sua dimensão própria, convincente, não como aprendizado para o autor dar o passo mais largo e definitivo de romancista, como muitos concebiam. Críticos apontam que há nesse conto emancipado feito entre nós hoje a inevitável influência de latino-americanos no caminho de ficcionistas jovens, porém, nossos contistas não são mais situados com referências a escritores estrangeiros: Maupassant, Tchecov, Kafka e Mansfield. Consolidado na trajetória ficcional que ilude na síntese, o conto brasileiro contemporâneo circula com a sua marca própria, seu legítimo acento, sua feição eficaz e dinâmica atraente.

Acham os clássicos que conto é aquilo que conta alguma coisa, desenvolvendo-se a história nos momentos tradicionais de princípio, meio e fim. Síntese de emoção aguda, acidente de vida, tensão e concisão no espaço que prevalece sobre o tempo, acham os modernos. Seja como for, encontrará o leitor nas breves páginas do conto atual no Brasil um feixe de observações, o dizer sobre coisas agudas em informações lúcidas. Pelo imaginário, temática pessoal, densidade, linguagem tradicional ou ligada à vanguarda as gradações e variações da condição humana: ternura, sentimentos baixos, humor, conflitos, a máquina do sistema na crueldade de seu absurdo, o dilema da razão a gerar insegurança, abandono, contradições e perplexidades.

Na sensação de que o mundo é falho, participará, enfim, do mistério do viver sob o trânsito dos humanos, o qual alcança hoje ritmo veloz, que cada vez mais assusta, subversão constante dos valores como premonição do caos, a que o conto como instante de reflexão, testemunho fragmentário do real ou em sua visão metaforizada do mundo, dilatando o micro no macro, tão bem se ajusta. Ainda assim, visto esse estar crítico do ser humano na trama, acena das fissuras a esperança como possibilidade do amor, vocação que o indivíduo é possuidor em sua problemática existencial para aflorar das rupturas e reconstruir o mundo.

A literatura brasileira detém hoje a eficiente autonomia de um gênero que possui joias insuperáveis. Uma das grandes invenções dessa entidade literária no discurso que combina, harmoniosamente, o a forma e o fundo,  a que assistimos hoje, foi levada no Brasil por Dalton Trevisan. Esse mestre da ficção breve na prosa enxuta e atraente, com mais de uma vintena de livros publicados, possui uma maneira de dizer histórias originalíssima   no encalço de fixar os encontros e desencontros de todos os Joões e Marias, de uma Curitiba descida ao chão das pequenas misérias, frustrações, devassidões, fetichismos inúteis.

Nessa causticante comédia humana, povoada de desastres e ressentimentos, temos a expressão admirável de como se pode reconhecer o máximo no mínimo, identificando-o tocado daquelas verdades essenciais que fazem da vida comoção de ínfimos universos corroídos de duro lirismo.

 

Cyro de Mattos é ficcionista e poeta, publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha, Dinamarca e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro das Academias de Letra da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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quarta-feira, 22 de março de 2023

Trem Bala - Ana Vilela

O QUE É ANOSOGNOSIA?

 


É o esquecimento temporário,  ou momentâneo, comum em pessoas acima dos 60 anos. Não confundir com Alzheimer. 

No final, do texto a seguir, faça um  esforço, e tente descobrir,  o "C", o "6" e o "N". 

Tudo muito legal para sua memória.

Vamos lá:

Esquecimento temporário, do professor francês Bruno Dubois.

"Se alguém está ciente de seus problemas de memória, ele não tem Alzheimer".

1. Eu esqueço os nomes das famílias ...

2. Não me lembro onde coloco algumas coisas!

A informação está sempre no cérebro, é o "processador" que está em falta. Isso é "anosognosia" ou esquecimento temporário.

Metade das pessoas com 60 anos ou mais apresenta alguns sintomas devidos à idade e não à doença. Os casos mais comuns são:

- esquecendo o nome de uma pessoa,

- indo para um quarto da casa e não lembrando por que estava indo para lá

- uma memória em branco para um título ou ator de filme, atriz,

- uma perda de tempo procurando onde deixamos nossos óculos ou chaves!

Depois de 60 anos, a maioria das pessoas tem essa dificuldade, o que indica que não é uma doença, mas uma característica devido ao passar dos anos.

Muitas pessoas estão preocupadas com esses descuidos, daí a importância da seguinte declaração:

"Aqueles que estão conscientes de serem esquecidos não têm nenhum problema sério de memória."

"Aqueles que sofrem de uma doença de memória ou Alzheimer não estão cientes do que está acontecendo".

 

Agora, para um pequeno teste neurológico:

Use apenas seus olhos.

1- Encontre o C na tabela abaixo!

OOOOOOOOOOOOOOOOOOO

OOOOOOOOOOOOOOOOOOO

OOOOOOOOOOOOOOOOOOO

OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOCOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

 

2- Se você já encontrou o C, em seguida, encontre o 6 na tabela abaixo.

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3- Agora, encontre o N na tabela abaixo. Atenção: é um pouco mais difícil!

MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMNMMM

MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

 

Se você passar nesses três testes sem problemas:

- seu cérebro está em perfeita forma!

- está longe de ter qualquer relação com a doença de Alzheimer.

 

(Recebi via WhatsApp – sem menção de autoria)

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domingo, 19 de março de 2023

A História na Travessia de Gerações

Cyro de Mattos


 

              A história caminha e avança na sua travessia através de gerações. Conceito importante da História, pode ser considerado como o ponto  em torno do qual  executa seus movimentos e manifestações. Tal geração afirmar-se-á se conseguir formar uma corrente, movimento ou tendência  de pensamento marcante no progresso social, nos costumes civilizacionais, nas políticas culturais ou na educação literária dos indivíduos. O grau de combatividade de uma geração está naturalmente na dependência do estado atual das coisas  com relação ao momento em que se afirma o desejo coletivo de mudança.

         Seja qual for a importância que se atribua ao tema e ao conceito preconizado, a noção de geração pode levar a pressupor, de modo equivocado,  que as gerações se sucedem de forma horizontal no curso da história. Na verdade pertencem à mesma geração, como é comum,  indivíduos nascidos próximos e dotados de afinidades culturais. Pode ocorrer que indivíduos pertençam a várias gerações numa mesma época. Ou acontecer discrepância  de idade e nem por isso  deixam de situar-se  na mesma geração, como no caso de Machado de Assis,  nascido em 1839, e Aluizio Azevedo, em 1857.

           Quando um homem nasce, se vê numa circunstância concreta, em que tem de viver e que é social em uma de suas dimensões, por consequência  histórica. Nos passos de Ortega e Gasset, o filósofo Julián Marias admite  que  a geração não é um conceito biológico e sim histórico porque decisivo não é  a idade biológica que cada homem tem, mas, sim,  sua inserção numa determinada dimensão de mundo. Não se desprezando o fator biológico,  releva-se    a importância do ser histórico correspondendo ao seu lugar e à sua época. Geração seria  um conjunto de indivíduos  pertencente a vários grupos de idade ou não, portadores de conteúdo determinado e cujas atividades, anseios,  tendências, perspectivas  e alcances norteiam-se no sentido de uma afirmação, que é a  sua afirmação geracional.

          

          Conforme Julián Marias:


 O homem está vinculado a uma circunstância determinada, a um aqui e um agora em que lhe coube viver. Sua historicidade é um modo de cativeiro ou servidão; ser é ser isto e não aquilo, viver é estar numa circunstância e nela fazer determinadas  coisas com exclusão de todas as outras. Mas, como no homem atuam as demais circunstâncias em que já esteve e tudo aquilo que lhe aconteceu e que ele fez, só quando se conhece isto  se pode tomar posse de si mesmo, se é dono de si mesmo e por conseguinte se é livre. O homem se evade de sua historicidade mediante  a história como saber, isto é, se afirmando radicalmente nela.”

          

           Adiante, ele acrescenta:

 

          “A história permite ao homem transmigrar hermeneuticamente de sua circunstância para outras, e dessa maneira as fazer suas; só com a história toma inteiramente posse de si mesmo e sai da estreiteza de sua circunstancialidade e das interpretações tradicionais recebidas, para alcançar a própria realidade, além de todas as interpretações. Só com a razão histórica – com a razão que é a própria história – pode o homem dar a razão de si mesmo e projetar livremente sua vida pessoal, a partir de sua realidade originária e irredutível. A história, o órganon da autenticidade. (Introdução à filosofia, p. 342).

 

            A geração seria assim  a unidade concreta da cronologia histórica autêntica.

            Pelo exposto, a realização da vida nos remete a duas faixas  de questões: o horizonte histórico de nosso viver e o fundo pessoal de nós mesmos, configurado pelo fato da vocação. É a travessia com a nossa vocação, idêntica aos que pertencem ao grupo de indivíduos, que incide em nossa afirmação e faz da vida humana individual um acréscimo importantíssimo em nosso destino de seres gregários, entre o pensamento e o sentimento, atributos que são pertencentes a nós mesmos.  

           Na travessia de gerações baianas não se pode deixar de ser considerada a Geração Revista da Bahia. Sucedeu à fulgurante geração de Glauber Rocha, o fundador do Cinema Novo. A órbita de atuação da Geração Revista da Bahia foi a literatura e outros campos do conhecimento humano, como o cinema e as artes plásticas.  

            Com a dispersão da talentosa geração de Glauber Rocha, em 1964, outras gerações iriam despontar nos meios culturais de Salvador. A chamada Geração Revista da Bahia acontece nessa épocados de 1960. Seus jovens integrantes já demonstravam ser possuidores de certo instrumental crítico para a discussão dos temas literários e culturais.

            Este articulista fez parte da Geração Revista da Bahia, ao lado de  Alberto Silva, Marcos Santarrita, Ildásio Tavares, Ricardo Cruz, Adelmo Oliveira, Oleone Coelho Fontes, Fernando Batinga, Fernando Kraychete, o desenhista Nacif Ganem e o artista plástico Francisco Liberato, entre outros. Todos nós, iniciantes no fazer literário e na divulgação da cultura,  liderados pelo crítico e poeta Carlos Falck, o guru espiritual  do grupo, pretendíamos deixar nossa  impressão digital  no contexto literário e cultural da época. Alguns, como Ildasio Tavares e Marcos Santarrita, romperam tempos depois as fronteiras estaduais porque de fato elaboraram  uma obra significativa  no corpo do Brasil literário.   

          Geração Revista da Bahia. Levava esse nome porque o corpo redacional da  Revista da Bahia, órgão cultural da Imprensa Oficial, era formado pelos jornalistas Alberto Silva e Marcos Santarrita. A revista emprestava seu nome para denominar uma geração de promissores escritores e protagonistas culturais. Recebia em suas páginas colaborações desses novíssimos  intelectuais, contistas, poetas, ensaístas e desenhistas,  que tinham nos ombros o peso de susbstituir a  inquietante geração de Glauber Rocha,  a qual   havia sido dispersa pelo regime  militar de 64.  Era tarefa difícílima a de  uma geração constituída de jovens intelectuais substituir com o mesmo brilho aquela outra liderada pelo criador do Cinema Novo, que deixou pontos elevados na progressão da vida cultural de Salvador de Bahia.   

            Sempre com o apoio dos dois diretores da Imprensa Oficial, Germano Machado e José Curvelo, a Revista da Bahia foi para os artistas da geração 60, segundo Juarez Paraíso, responsável pela direção artística, o que significou os cinco números da revista Cadernos da Bahia, 1948, 1952, para os primeiros modernistas. Com Juarez Paraíso, a revista passou a ter um planejamento gráfico mais solto e moderno. Os números que foram lançados sob a sua responsabilidade artística foram enriquecidos com reproduções e ilustrações dos artistas Antônio Rebouças, Jamison Pedra, Hansen Bahia, Ângelo Roberto, Edsoleda Santos, Nacif Ganem, Manoel Araújo, Leonardo Alencar, Henrique Oswald, Riolan Coutinho, Edízio Coelho, Betty King, Francisco Liberato, Calazans Neto, Juarez Paraíso, José Maria, Sílvio Robatto, Genaro de Carvalho, Carlos Bastos, Raimundo Oliveira e outros.

          Considerando a idade biológica e afinidades culturais, o  elenco de intelectuais que formava a  Geração Revista da Bahia  pode ser ampliado  com os nomes de Luís Carbogini Quaglia, louvado contista do mar, Maria da Conceição Paranhos, poeta e ensaísta, Fernando Ramos e Guido Guerra, promissores romancistas,  José de Oliveira Falcón, o poeta de Canudos,  os cineastas Orlando Sena e Olney São Paulo e  o poeta Capinan.                                                                                                                                                       

            Na visão do ensaísta Cid Seixas, o mais importante lançamento de poesia na Bahia, no período compreendido entre 1964 e 1974, aconteceu com o livro ABC-reobtido, de Maria da Conceição Paranhos. O discurso da jovem poeta, com bases em pesquisa e   atualização estética, rejeitava os limites de certa retórica ornamental. Outro jovem intelectual baiano que desponta nas letras daquele período é Guido Guerra. Escritor de formação jornalística, ele trazia para a sua prosa de ficção os atritos e rupturas do homem cotidiano.

                A geração Revista da Bahia enfraqueceu com a ida de Alberto Silva, moderno crítico de cinema  e jornalista de um texto primoroso, para o Rio de Janeiro, em 1967, e logo a seguir a de Marcos Santarrita. Junta-se a isso o falecimento de Carlos Falk. Fui  para Itabuna onde exerceria a advocacia durante muitos anos. Permaneceram  em Salvador aquelas outras jovens vozes vocacionadas  para fazer da vida um consistente projeto literário e cultural.  

             Os sobreviventes da Geração Revista da Bahia dispersos,  sem contar com a força aglutinadora de Carlos Falck, presenças importantes de Alberto Silva e Marcos Santarrita,  já não tinham a mesma motivação para se encontrar  na Biblioteca Pública, localizada na Praça Tomé de Sousa,  nos botecos e bares da Rua da Ajuda, durante noites de sábado, na livraria Civilização Brasileira, na rua Chile, em final de tarde,  por onde toda a cidade passava na semana. 

            Quando então se discutia as questões de literatura atual, muitas vezes com veemência,  em torno de Kafka, Sartre, Brecht, Pessoa, Proust,  Joyce e Faulkner. Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Adonias Filho. Drummond, Jorge de Lima e Cecília Meireles. Era questionada a problemática social do indivíduo através do pensamento de Ortega y Gasset, Marx e Lukacs. A geopolítica do Brasil através dos estudos de Josué de Castro, a formação da família patriarcal brasileira com Gilberto Freire ou a evolução política do Brasil sob o método dialético marxista de Caio Prado Junior.

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Cyro de Mattos é ficcionista e poeta, publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha, Dinamarca e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro das Academias de Letra da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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sábado, 18 de março de 2023

O JARDIM DA PREFEITURA 

Por: Cláudio Apê Alves Freire.


 


Hoje, acordei mais nostálgico como de costume, retrocedi aos anos 60 e me deixei estar no jardim da antiga prefeitura de Itabuna: o famigerado Jardim da Prefeitura! 

Naqueles anos dourados, quando ainda adolescente, aquela legendária praça, era o point da juventude, onde tudo acontecia alusivo à paquera e modismos da época. Os dias de sábado e domingo, no turno da noite, funcionavam como uma apoteose dos acontecimentos semanais.

Entretanto, a preparação para aqueles momentos encantadores e prolíferos, já que muitos frequentadores constituíram famílias a partir dali, tinha seu start já na enfadonha segunda-feira, como se fosse um ritual.

 A expectativa era gradativa, à medida que os finais de semana se aproximavam. Preliminarmente, era preciso ter a “mina” já em vista. E, em caso de reciprocidade da garota, se desse mole ou bola, conforme terminologia da época, nada de titubear logo na abordagem, o papo tinha que ser fluente e interessante, para não ser tachado de porre. Para isso, ensaios eram fundamentais, a fim de se evitar vexames de última hora e expor a temida timidez. A aparência, também não podia ficar em segundo plano. As diretrizes e bases da paquera sempre preconizavam roupas da moda. Por exemplo: uma calça Lee, comprada na“ Ilha dos Ratos” em Salvador ou mesmo uma Topeka comprada nas Casas Sales ou em J.Rihan (de jovens e bons artigos) ,  combinadas com uma camisa de anarruga e uma botinha Calhambeque; caíam muito bem.  Perfume, sim, sempre ao gosto do usuário, podia ser o “Lancaster” ou a “English Lavander”.  Enfim, tudo tinha que ser criteriosamente programado, já que a concorrência era sempre acirrada, principalmente com os playboys oriundos de outras plagas, como Ilhéus, Salvador ou do sul do País.

Mas, voltemos ao nosso cenário, Jardim da Prefeitura. Conforme dito, nos finais de semana, o desfile, sempre em círculos horários ou anti-horários, de acordo com o flerte, começava pontualmente às 20 horas e terminava, para as moiçolas sob rigorosas vigilâncias dos pais, impreterivelmente, às 22 horas, sob pena de serem submetidas à “brados retumbantes” e castigos pela desobediência. Para aqueles mais libertos, que podiam ultrapassar o horário “regulamentar” ou quando soltavam o “Homem nu” na praça, conforme de praxe, eram disponibilizadas duas emblemáticas programações as quais, às vezes, adentravam a madrugada do dia subsequente. 

A primeira, para os que tinham carro, era sintonizar a Rádio Mundial do Rio de Janeiro e ouvir a todo volume o programa intitulado, “Ritmos de Boite”, apresentado pelo precocemente falecido DJ Newton Alvarenga Duarte , o Big Boy. No programa, o DJ apresentava os sucessos de cantores e famosas bandas da época, como: Johnny Rivers, George Benson, Scott McKenzie, Beatles, Rolling Stones, The Mamas and The Papas, Herman’s Hermits , The Cowsills e outros.

A segunda programação, após o desfile do jardim, era a domingueira dançante do Itabuna Clube. Nesta, ao som dos conjuntos (como se chamava à época) Lord Ritmos, Os Grapsons e Joel Carlos, os casais se exibiam na dança dos mais diversos ritmos. Entre esses pares, destacavam-se os irmãos Humberto e Simone Netto, dando “calientes” shows nas músicas caribenhas; os irmãos Biró e Vera Apê, nos twist; Duduca Paixão e as mais diversas parceiras, no rock n’roll; e, Ceiça Sá e Gilsinho Rodrigues, nos boleros deslizados no bem cuidado salão encerado com cera Parquetina. Tudo isso ocorria, sob o vigilante olhar do rigoroso gerente do clube o Sr. Jacinto, que ao vestir algumas calças pouco compatíveis com a sua compleição física, ficava numa dúvida atroz: não sabia se reclamava dos casais que dançavam excessivamente coladinhos ou se ajeitava, as suas frouxas calças, colocando-as no prumo devido. Verdadeiro dilema, coitado!

Hoje em dia, apesar da praça ainda existir (Praça Olinto Leone), os points para esses fins mudaram de localização, principalmente com o advento do shopping center aliado às mudanças comportamentais dos jovens dos tempos modernos.

Entretanto, os programas citados, assim como outros (cinemas, teatros, piscinas do GTC e as lindas praias da vizinha cidade de Ilhéus) da então progressista cidade de Itabuna dos anos 60, preenchiam o tempo e os anseios dos jovens da terra, sem nada dever às grandes metrópoles do Brasil. Daí, a imensa saudade que todos os atores juvenis sentem daquela época de plena e irrestrita felicidade. Por isso é perfeitamente justificável esse meu acesso nostálgico neste dia, por saber que tudo alusivo àqueles tempos dourados, se iniciava na querida e saudosa praça do JARDIM DA PREFEITURA.

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quinta-feira, 16 de março de 2023

NOTA DE UTILIDADE PÚBLICA  


Depois dos 60 anos, pode-se experimentar muitos tipos de doenças.

- Mas, o que mais me preocupa é a doença de Alzheimer.

- Não apenas porque eu não poderia cuidar de mim mesmo, mas,  porque isso causaria muitos inconvenientes para os membros da minha família.

- Um amigo médico ensinou a outro amigo, um exercício com a língua que é eficaz para reduzir o aparecimento da doença de Alzheimer, e esse exercício também é útil para reduzir e melhorar:

1 - Peso corporal

2 - Hipertensão

3 - Coágulo sanguíneo no cérebro

4 - Asma

5 - Miopia

6 - Zumbido no ouvido

7 - Infecção na garganta

8 - Infecção do ombro / pescoço

9 - Insônia

 

Os movimentos são muito simples e fáceis de aprender. Todas as manhãs, quando você lavar o rosto, na frente de um espelho, faça o seguinte exercício:

- Estique a língua e mova-a para a direita e depois para a esquerda por 10 vezes seguidas.

- Desde que ele começou a exercitar sua língua diariamente, houve uma melhora na retenção de seu cérebro.

- Sua mente ficou clara e produtiva, e outras melhorias aconteceram

- 1 Ver melhor de longe

- 2 Sem tonturas

- 3 Maior bem-estar geral

- 4 Melhor digestão

- 5 Pouca gripe 

- 6 Ele se sente mais forte e mais ágil.

 Notas:

- O exercício da língua ajuda a controlar e prevenir a doença de Alzheimer.

A pesquisa médica descobriu que o exercício tem uma conexão com o grande cérebro.

Quando nosso corpo se torna velho e fraco, o primeiro sinal que aparece é que a nossa língua fica rígida, por isso tendemos a mordê-la.

- Ao exercitar a sua língua, você estimulará o seu cérebro.

Cada pessoa que recebe este boletim informativo deve repassar, para  ajudar a combater a doença de Alzheimer e melhorar qualidade de vida das pessoas e acabar com tremores nas mãos e pernas.

 

Vivendo e aprendendo. Compartilhe!

(Recebi via WhatsApp, sem menção de autoria)

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O espelho biseautê

Ignácio de Loyola Brandão

 


Para Paulo Caruso, amigo de uma vida. Abri o e-mail de Raquel Naveira, escritora mato-grossense, veio uma poética crônica. Ela, assim que publica na sua terra, envia aos amigos. Fui atraído pela frase: 'Restaurou a antiga penteadeira, com o espelho de cristal bisotado e a banqueta de couro, que ficava no quarto dela, a sua mãe'. Bisotado. Há quanto, quanto tempo não lia, sentia, esta palavra?

Vi dona Maria do Rosário, diante da penteadeira - também se dizia psyché - com espelho bisotado, às vezes chamado de bisotê. Depois, Fanny Marracini ensinaria que em francês é biseauté. O que significava? Por mais que olhasse para o espelho, não entendia, só via mamãe feliz. Papai me dizia, 'não sei o que é, mas sua mãe quando se senta na penteadeira, fica tão bonita'. Seria o biseautê? Mas o que era aquilo?

Perguntava, não respondiam. Desconfiei que não soubessem, ou fosse coisa que criança não podia saber. Quantas vezes eu entrava na sala, todos murmuravam 'tem criança' e se calavam.

Custava me explicarem o que era biseautê? Ou bisotado? Essa coisa que fazia mamãe bonita, feliz quando saía para o cinema, para a reza na matriz, para uma festa? Mal ela saía, eu ia para o quarto e ficava a olhar para o espelho, para meu rosto, a fim de saber se eu estava mudado, era mais bonito. Não, não estava, era feio. Esquisito, me condenavam.

Um dia, percebi que na margem do espelho havia um pequena região diferente. Um mínimo rebaixo. Chanfrado, disse vovô Vital. Quando me olhei nele, me vi bonito. Somente naquela moldura. Assim descobri o que era biseautê. Beleza. Cada vez que entrava no quarto, me olhava naquele estreito território, onde eu era bonito. Seria o mesmo com mamãe?

Um dia, vi mamãe pentear o cabelo, passar ruge, apanhar uma bola de vidro com quatro letras, Coty, passar o perfume, meu pai entrou: 'Você está mais linda do que nunca!'. Seria também aquele perfume?

Um dia, dia mais horrível, a funcionária que ajudava na faxina deixou cair o cabo do escovão que dava brilho no assoalho, e o espelho partiu-se em mil. A dor de mamãe. 'Meu espelho, me fazia tão linda.' Ajudei a pegar os cacos, encontrei pedaços do bisotado. E se eu guardasse um pedacinho dele, poderia mudar minha cara quando estivesse sozinho? Mudando a cara, as meninas da classe sorririam para mim, afilhado dono do bar me daria um naco do lanche dela, tão apetitoso. Um dia, a professora leu minha redação, chamava-se composição, e disse: 'Nota cem. A melhor redação do ano. Quero que todo mundo leia para saber como se faz'. Tirei meu espelho do bolso, olhei, ouvi: 'Você é o menino mais bonito da classe', dito pela Neuce, irmã da professora Lourdes.


É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'.

O Estado de S. Paulo, 12/03/2023

 

https://www.academia.org.br/academicos/ignacio-de-loyola-brandao

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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