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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

POESIA DE NATAL - Cyro de Mattos

                      

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                Historinha do Menino Jesus

 

O galo cantou,

A vaca mugiu,

O burro zurrou,

A ovelha baliu.

 

A rosa acordou,

O peixe sorriu,

A cabra contou

Que a cobra sumiu.

 

Foi tanto balão

Que subiu ao céu,

Foi tanta canção

 

Que ventou ao léu,

Que até hoje luz

Do menino a cruz.

.......... 


 

Fala dos Bichos

 

 

O GALO:                    Jesus nasceu!

                                    Jesus nasceu!

                                                 Jesus nasceu!

 

O BURRO:                 Claro dia!

                                                Claro dia!

                                                Claro dia!

 

A VACA:                  Em Belém!

                                              Em Belém!

                                              Em Belém!

 

O CAMELO:           Água de oásis!

                                             Tâmara na areia!

                                              Brisa no caminho!

 

A OVELHA:           Verde que te quero bem!

                                             Verde que te quero bem!           

                                             Verde que te quero bem!

 

.................... 

 


                       O Pequeno Rei

 

São suas

As proezas

De acender

Uma estrela

Numa só mesa

De todas

As mãos.

...................... 



Adivinha

 

Me tira

Da solidão,

Me guia

Na vastidão.

No ar, no mar

E no chão

Sua estrela

Me clareia.

Se mora

No coração,

Me dá a mão

Na escuridão.

 

       (O Menino Deus)

 

......................... 

 



Oratório de Natal

 

De Belém

Vem a estrela,

A mais bela.

Tudo é glória,

Tudo é paz,

Tudo é amor.

Tudo é canto,

Nenhum pranto,

Tudo é flor.

Tudo é graça

Na manhã

Que me abraça.

 

 ...................





Os Pastores

 

Na colina

Ovelhas pastam,

Verdes hastes

Cantam hinos.

 

Há um arco no céu

De sete cores.

A flauta toca

Uma canção doce.

 

Quanto mais escuta

O ouvido se encanta.

De louvar o menino

A gente nunca cansa.

 

 .......................



Eu Creio Nessa Manhã

 

Por que os homens

Amam a droga

E não da abelha

Os favos de mel?

 

Por que os homens

Amam as balas

E não a paz

Sem nenhum fuzil?

 

                        Por que os homens

Só vêem o chão

E não a estrela

Em seus caminhos?

 

Viver amargos,

Viver sozinhos,

E do que mais

Os homens gostam.

 

Mas eu creio nessa manhã

Anunciada em Belém

Por um menino rei

Em seu berço de palha.

 

Eu gosto de ouvir

Sua canção na estrada

Falando duma união geral,

Que viver vale a pena

Quando a vida é uma dança

Com os homens como irmãos,

Cantando como passarinho,

Sorrindo como criança.

 

 .............................

 

O Menino e o Pássaro

 

 

                  O menino é pobre

E tem um pássaro

Que solta do bico

Uma canção que roda

Ao redor do mundo.

 

Faça neve ou sol,

O pássaro do menino

Segue pelos ares,

Voa pelos mares,

Pousa onde eu estou.

                       

 

 E um céu de ouro

Deixa sair do bico.

 

....................

 

 

Os Reis Magos

 

Por montanhas e vales,

Com ouro, incenso e mirra,

Chegam à manjedoura

Pelas mãos da estrela.

Três reis ajoelhados

E os bichos deitados,

Três reis que velam

O sono manso

Do menino na palha.

É a vigília mais bela

Da nova madrugada

Que desperta na relva.

Ó glória, ó paz, ó amor,

Os bichos todos cantam.

E os três reis sabem

Que não são dignos

De tocar naquela palha.

Sabem que o menino

Traz as sementes do Pai

Para plantar cirandas

Nas areias do deserto.

 

 ................

  


                     Natal das Crianças Negras

 

 

Viram o velho gordo

Com a barba branca

Na televisão da loja.

 

Moravam no morro,

O irmão queria um avião,

Uma boneca a irmã queria.

 

Deixaram os chinelos

Na janela ao sereno.

Nada viram no outro dia.

 

Do ponto mais alto

Olhavam as nuvens alvas,

Mansas no azul do céu.

 

A cidade aos seus pés,

No jardim cada menino

O seu brinquedo exibia.

 

Aí então souberam

Como o mundo se escondia

                       De Jesus, Maria e José.

 

O Natal era a lágrima

Que descia do rosto

E uma canção desfaz


......................




                      Natal Permanente

 

                                                   

                   O burrim e seu viageiro,

O boi e seu mugido,

A vaca e suas tetas,

A ovelha e seu balido,

O galo e seu clarim

Estão dentro de mim.

 

Para que a vida

Seja sempre verde

Como na campina

Para que a vida

Seja sempre mansa

Como na colina.

 

Para que a vida

Como a do menino

No presépio posto

Seja sempre amiga

E em meu peito cresça.

 

...............................

  

O Campeador e o Natal

 

Estrela no chapéu

E de verde gibão,

No meu burrico

Incansável

Venço a solidão

  .....................


 

O Sino de Todo Mundo

 

Toca pro velhinho

Com seu passarinho,

Toca pro ceguinho

Com seu cachorrinho.

 

Toca pro peixinho

Todo douradinho

Dando mil saltinhos

Lá no ribeirinho.

 

Toca pro reizinho

No seu palanquinho

Com seu narizinho

Arrebitadinho.

 

Toca pro forte sol,

Toca pra meia lua,

Toca pro frio vento,

Toca até lá na chuva.

 

Toca em toda a cidade,

Toca com muito amor,

Toca bem no meu peito,

Toca aonde eu for.

 

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*Cyro de Mattos é autor premiado no Brasil e exterior.


* * *

 

O HOMEM EGOCÊNTRICO E O PRESENTE DE NATAL, por Paulo Henrique Américo de Araújo

23 de dezembro de 2020


Paulo Henrique Américo de Araújo

 

Quando o solitário dono da casa se levantou da cama, em decorrência da insônia, o fogo da lareira ainda persistia aceso, apesar da hora avançada naquela noite fria. A cabeça dele doía, ao aproximar-se das últimas brasas fumegantes. Algumas pressões no fole bastariam, para manter o calor por mais alguns minutos; e o sono voltaria logo — pensou ele. E sentou-se na poltrona da sala.


Aquele homem de meia idade costumava sentar-se na macia poltrona da sala, durante a noite, e entregar-se aos seus pensamentos. Realmente entretinha-se enquanto pensava, sobretudo porque o objeto de suas intermináveis reflexões era… ele mesmo! Aliás, nada fazia na vida, além dessa atividade: pensar em si.

Não trabalhava, pois as magras rendas herdadas do pai proporcionavam-lhe alimento suficiente e teto. Servia-lhe muito bem a casa pequena, porém confortável. Desde muito jovem havia rejeitado a ideia de constituir família. Quantas preocupações isso lhe traria… Mudara-se para uma cidadezinha do interior — a menor da região — precisamente para fugir dos vizinhos barulhentos, pedintes e vendedores, que enxameavam na capital. Mas nos últimos dias, uma movimentação anormal nas ruas causava-lhe alguns incômodos de cidade grande, dos quais fugira.

Entretanto, uma vida tão medíocre e vazia não o deixava tranquilo, pois tinha uma ambição intimamente ligada à atração por pensar em si: “Como sair deste apagamento? Como quebrar este anonimato letárgico e me tornar importante, famoso, alguém conhecido no mundo inteiro? Como fazer com que meu nome se torne célebre?” Seus devaneios conduziam-no sempre ao mesmo impasse, todas as noites, durante suas insônias, pois esse vazio lhe causava remorsos.

Havia um paradoxo intrigante entre seu modo de vida, feito de inação preguiçosa, e seus pensamentos dominados por ânsias egocêntricas. Seus sonhos voavam longe nas noites mal dormidas: a fama mundial poderia iluminá-lo depois de um grande feito de armas, ou talvez uma expressiva obra artística ou intelectual… mas não dispunha de talentos para tanto. Chegou mesmo ao delírio de planejar o assassinato de um governante qualquer, mas repelia-o a ideia de entrar para a história como um criminoso. Não queria chegar a tais extremos, e até a preguiça contribuía para não enveredar por aí. Difícil de explicar, mas assim são as paranóias das mentalidades incoerentes.

O homem remoía-se nessas cogitações, quando ouviu batidas na porta. Fingiu que não as escutava, e pensou indignado: Quem poderá ser a esta hora? Como pode alguém me atormentar tão tarde da noite?

As batidas se repetiram. Enraivecido, ergueu-se da poltrona, dirigiu-se à porta, e após destrancá-la abriu-a bruscamente:

— Que é?! — perguntou ao homem parado à entrada. Este, surpreso, explicou-se:

— Desculpe o incômodo, senhor. Vi a luz acesa, e venho lhe pedir ajuda.



“Temos viajado durante dias, minha esposa e eu. Chegamos tarde à vila, e não há hospedaria disponível onde possamos passar a noite”.

— Ajuda?! Sabe que horas são? Está me interrompendo num assunto muito importante, no qual tenho despendido muito tempo.

O homem à porta era um viajante. Pobre, mas digno e alinhado em seu porte; roupas simples, mas limpas. E insistiu:

— Peço perdão, mais uma vez. Temos viajado durante dias, minha esposa e eu. Chegamos tarde à vila, e não há hospedaria disponível onde possamos passar a noite.

Enquanto o viajante falava, o homem apertava os olhos para enxergar através da escuridão. Vendo mais atrás a jovem esposa do viajante, discerniu nela a apreensão no semblante. Tudo nela refletia delicadeza e respeito, e uma luz fugidia revelou sua gestação em estado avançado.

Um movimento de compaixão perpassou a alma daquele homem: esses não são andarilhos inconsequentes. Parece apenas boa gente em dificuldades.

Infelizmente, anos inteiros vivendo sob o jugo da autocontemplação e do ‘voltar-se para si mesmo’ bloqueavam nele a compaixão devida ao desafortunado casal. A gestação da jovem contribuía para a percepção de mais um fardo que lhe cairia nos ombros. Disse então asperamente:

— Irresponsável! Viajar assim com sua mulher gestante, sem previdência alguma! Tenho que resolver um problema, e não posso lhes dar atenção.

— Mas, senhor, apenas por esta noite… — insistiu o viajante, antes de ser interrompido pelo dono da casa.

— É minha última palavra. Se quiserem, procurem uma gruta ali mais adiante. Podem se alojar junto com os animais presos lá. Mas não digam a ninguém que lhes indiquei o local. Não quero me envolver em assuntos dos outros, os meus já me tomam muito tempo.

Vendo aquela resolução impiedosa, o viajante fez um gesto de despedida e caminhou em direção à esposa. Desatou seu burrinho de carga, que estava atrás de alguns arbustos, e caminharam em direção à gruta indicada pelo homem.

O infeliz egoísta fechou-se novamente em sua casa, sentou-se na poltrona, diante da lareira, e voltou à sua obsessão: tornar-se famoso em todo mundo.1

Mal sabia ele que ali perto, na pobre gruta que indicou, ocorreria o fato mais extraordinário de toda a História: o nascimento de Jesus Cristo Nosso Senhor. Quanta glória para esse homem, se ele tivesse recebido São José e a Santíssima Virgem em sua casa. Hoje seria reverenciado em todo o mundo nas festividades do Natal. Seu nome estaria gravado na eternidade, vinculado ao de quem recebeu em sua casa o Menino Deus que iria nascer.


Adoração dos Pastores – Philippe de Champaigne, 1640. The Portland Art Museum.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira comentou, durante as festividades de um Natal, como Nosso Senhor procura atrair os homens para si nesse período abençoado: “Ele vai atrás de todos, meninos ou velhos, grandes ou pequenos, sábios ou ignorantes. Seja quem for, Ele vai atrás de todos. Pecadores, e às vezes pecadores imundos, Ele vai atrás deles e toca-lhes o coração, dizendo: ‘Meu filho, não queres vir a Mim? Nem agora queres vir a Mim? Pelo menos desta vez, pelo menos neste instante, deixa-te comover um pouco. Aqui estou Eu à tua procura, no interior de tua alma’”.2

Não sejamos como o egocêntrico do conto, que rejeitou o maior dos presentes de Natal. Abramos a morada de nosso coração ao Menino Jesus e à sua Mãe. Sobretudo, evitemos o pecado e estejamos atentos ao triste abandono por que passa a Santa Igreja Católica em nossos dias. Eis um símbolo cogente do abandono sofrido pela Sagrada Família.

Durante a noite sombria deste nosso século, temos obrigação, como católicos, de fazer atos de reparação e amor à Esposa Mística de Cristo — a Santa Igreja. Não deixemos que um exagerado ‘voltarmo-nos para nós mesmos’ provoque eventualmente nossa rejeição a Jesus, Maria e José, que batem à nossa porta.

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Notas

1.Anos atrás, o autor deste artigo ouviu este conto de um professor durante uma aula na faculdade. A história foi ligeiramente adaptada.

2.Trecho de conferência em 22 de dezembro de 1984. Sem revisão do autor.

3.Fonte: Revista Catolicismo, Nº 840, Dezembro/2020.

 

https://www.abim.inf.br/o-homem-egocentrico-e-o-presente-de-natal/

 

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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

JESUS CRISTO NO PRESÉPIO E NO SACRÁRIO

22 de dezembro de 2020



Padre David Francisquini *

 

            Cristo foi envolto em panos e reclinado numa manjedoura forrada com palhas, que se tornaram ornamentos do desejado das nações, do Menino-Rei cheio de aromas e encantos que nasce numa gruta em Belém.

            Um anjo do Céu anunciou a grande notícia para alegria dos pastores e regozijo de toda a corte celeste. Seu anúncio ecoou em todos os lares de aldeias, cidades e campinas, até no mais humilde casebre, pois Cristo nasceu como Salvador e Rei de todos os povos.

            O júbilo impera nos corações com as palavras proclamadas pelo Anjo: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade. A gruta nos faz lembrar o sacrário, pois como nela se encontrava o Deus vivo e verdadeiro, assim Ele quis ficar nos sacrários de todas as igrejas sob a forma da Hóstia consagrada.

            Jesus quis nascer numa manjedoura onde comiam os animais para compreendermos que Ele não nascera apenas como Salvador, mas também como nosso alimento. A representação de Jesus Cristo na História está posta diante de nossos olhos no Santo Presépio de Belém, enquanto no sacrário está representada como objeto de nossa fé, pois Ele vive conosco, pronto para nos receber e alimentar.



            Ao ser consagrado no altar durante a Santa Missa, o pão se transforma em corpo, sangue, alma e divindade do próprio Cristo que nos é dado como alimento, permanecendo conosco nesse peregrinar pela terra. O altar é o presépio em que Cristo está de braços abertos para nos saciar com sua carne divina e seu sangue precioso, pois Ele é o nosso celeste pelicano.

            Como Pai, pensa nos filhos mais que em Si, não mede sacrifício algum que possa beneficiar os filhos, pois lhes quer todo o bem. No altar do Sacrifício é o próprio Jesus Cristo que se imola dia e noite de braços abertos para não nos deixar desamparados nessa peregrinação. A fé nos ensina que o Divino Redentor que nasceu Menino está vivo no sacrário.

            A pequenez das crianças constitui grande atrativo para os nossos corações. Imaginemos Aquele mesmo a Quem os céus não puderam conter, exatamente por ser imenso e infinito, apresentar-se a nós como uma criança pequenina e frágil, para ter certa proporcionalidade conosco e assim Se fazer mais próximo de nós.

            Guiados por essa mesma Fé, o gemido de Jesus Cristo no desconforto físico daquela noite fria e das asperezas das palhas da manjedoura de Belém nos conduz a pensar no mais alto dos panoramas, ou seja, a contemplá-Lo e adorá-Lo. Da mesma forma deveremos fazê-lo sob as espécies eucarísticas.

            Essa criança plena de inocência e pureza, por ser Filho do Padre Eterno e de Maria Santíssima, bendita entre todas as mulheres, quis Se tornar homem e Deus para resgatar a humanidade do pecado de nossos primeiros pais por sua vida, paixão e morte. Ele mesmo quis ficar envolto nos véus eucarísticos, ao alcance de todos nós.

            O Infante Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnou-se no seio puríssimo de Maria para nos salvar com sua morte no madeiro da Cruz. Daí a nossa confiança n’Ele, pois veio para reinar nos corações, concedendo-nos graças nas trilhas do heroísmo e da luta. A fé nos guia na trajetória da vida presente para a futura. O Natal é o marco da História, cheio de esperança e certeza.

            O mundo pagão se desfez com o nascimento de Cristo para dar lugar a uma era cheia de luz que iluminou o mundo, a civilização e a cultura cristãs. Hoje, com o novo paganismo, vivemos o mesmo pesadelo de outrora, se não pior, quando o mundo se debatia e se contorcia sem esperança.

            Nos estertores dessa civilização agonizante, com todos os problemas que a afligem, é o mesmo Jesus Cristo e sua Mãe Santíssima que batem nas portas de nossos corações. Por que Maria, a Mãe admirável de Deus Filho? Porque tendo sido Ela quem nos trouxe Jesus, também será Ela quem O fará reinar sobre toda a Terra.

            Aquela mesma que ofereceu a Jesus o seu sangue virginal pelo seu coração materno, tornando-se o sacrário da divindade, a arca da aliança, será Ela quem fará Jesus reinar sobre as nações e os povos. Não podemos encontrar Jesus sem Maria e nem Maria sem Jesus.

            Se o laço que une um ao outro é tão íntimo, a história da salvação não está desligada deles. As virtudes trazidas por Jesus na gruta de Belém serão disseminadas por todos os cantos do orbe por Maria, quando Ela passar a reinar nos corações.

            Sendo Ela o elo entre Deus e os homens, será Ela quem ligará a Terra a Deus. Que neste Natal envolto em borrascas que nos enche de apreensões, ilumine-se em nós uma lâmpada inextinguível, uma confiança plena de que Cristo reinará no mundo por meio de Maria.

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* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/jesus-cristo-no-presepio-e-no-sacrario/


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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

FERNANDO LEITE MENDES, O CRONISTA A SE RESGATAR



Fernando Leite Mendes, o cronista a se resgatar

Henrique Fendrich*

 

Uns querem a crônica alienada como um poema informal e libertado. Outros preferem fazê-la fragmento de conto e nada mais. Pois de mim a crônica faz o que ela quer. (Fernando Leite Mendes)

 

          Há um time de grandes cronistas mais ou menos célebres, tido como a “geração de ouro da crônica”, mas também há nomes que ficaram esquecidos com o passar dos anos e cujo resgate pode evidenciar que eles não faziam feio em meio aos “medalhões” do gênero. Cyro de Mattos e Ivo Korytowski se propuseram a resgatar um desses nomes, o jornalista e escritor baiano Fernando Leite Mendes (1931-1980), de atuação na TV Tupi, e organizaram “O gigante e a bicicleta e outras belas crônicas” (Via Litterarum, 2020), obra que dá boas mostra da produção desse cronista.

          Fernando é cronista que se destaca pela elegância da sua linguagem e pela cultura de suas referências, assemelhando-se, nisso, ao Henrique Pongetti, outro cronista de sucesso e talento que, no entanto, mal é lembrado nos dias de hoje. Fernando apresenta notável acento lírico, como aquele que mais se valoriza em cronistas como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. Algumas de suas crônicas são perfeitos poemas em prosa (vide “A monja e os sinos”).

          A exemplo de Paulo Mendes Campos, ele também usa a crônica como forma de fazer certos exercícios poéticos, entre os quais se destaca “Uma carga de esperança”, crônica sobre um caminhão em que viajavam várias freiras. A partir disso, o cronista parte para especulações líricas sobre aquele evento, nas quais revela a visão mais humanizada que tinha da religião. Há ainda “A alma e a carta”, verdadeiro esparramo lírico a valorizar o “literário” na crônica.

          Fernando Leite Mendes também se mostra um grande criador de cenários. A partir de um evento específico (o despejo de uma velha senhora, um suicídio na Torre Eiffel), ele como que dá um giro de 360 graus para retratar o entorno e assim mostrar tudo o que acontece conjuntamente à história que relata. A sensibilidade do seu olhar deixa essas pequenas histórias ainda mais bonitas.

          Também ele se ocupa de notícias dos jornais, também ele capta, em meio a fatos frios e objetivos, a centelha de vida e poesia que merece ser eternizada, subvertendo os valores-notícia que costumam orientar a produção jornalística. “O burro sumiu” lembra muito a forma como o Braga tratava as notícias. Nem se diga que não estava atento aos eventos do seu tempo, mas mesmo a ditadura recém-inaugurada recebeu dele não um artigo, e sim uma crônica em forma de alegoria, a sua defesa, como cronista, diante da tirania vigente.

          A passagem do tempo, indissociável ao próprio conceito de crônica, também não lhe escapa, e, como é tradição, também há aqui e ali um passarinho (se bem que o fim deles possa não ser muito bom nas crônicas de Fernando). Às vezes, a crônica exigia um conto infantil de Fernando, às vezes uma história divertida do cotidiano, uma análise brejeira dos costumes da sociedade, e dessas obrigações todas o escritor não se furtava e as realizava a contento.

          Fernando cultivou a crônica com paixão durante grande parte da vida e essa pequena mostra evidencia o seu talento e o acerto do seu resgate.

*Henrique Fendrich,

jornalista, cronista,

editor da Revista

da Crônica Rubem,

Curitiba

 

** Fernando Leite Mendes 

é baiano nascido em Ilhéus. 

Homem de inteligência inquieta, 

cronista maior esquecido, 

atuou com destaque na televisão, 

teatro, cinema, rádio e jornal, 

na década de 1950, Rio de Janeiro. 

Orador contagiante, 

com ele a palavra estava 

de bem com a vida. 

(Cyro de Mattos)

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A ESTRELA DE NATAL



domingo, 20 de dezembro de 2020

A ETERNIDADE DO INFERNO É TERRÍVEL, MAS JUSTA

17 de dezembro de 2020

Plinio Maria Solimeo


S
anto Afonso Maria de Ligório é um dos luminares da Igreja Católica. Moralista seguro, escritor incomparável, incansável missionário apostólico, propugnador da devoção a Maria Santíssima, foi também bispo e fundador da Congregação do Santíssimo Redentor destinada a trabalhar nas missões.

Esse santo, em suas missões, pregava a tempo e a contratempo sobre as verdades eternas, principalmente sobre as mais necessárias à nossa salvação. Uma delas não podia deixar de ser sobre os Novíssimos — isto é, a Morte de que ninguém está isento; o Juízo, que se lhe segue; o Inferno para os que não seguiram as leis de Deus; e o Paraíso, que é a recompensa demasiadamente grande para os que seguiram Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para tornar mais duradouro o proveito que as pessoas obtinham nas missões, ele escreveu várias obras. Uma das menos conhecidas é o seu livro Meditações para todos os dias do ano. Numa das profundas meditações sobre o inferno que traz nesse precioso livro, o santo tece algumas considerações sobre a eternidade do mesmo. Julgamos de muita utilidade para nossos leitores católicos, pois esclarece didaticamente muitas dúvidas a respeito.


O que significa a eternidade do inferno? Que ele nunca acaba, que não tem fim. Diz Santo Afonso [quadro ao lado]: “As penas da vida presente passam, porém as da outra vida não passarão nunca; estarão [como que] sempre principiando”. Ele afirma então que, num exorcismo, um sacerdote perguntou aos demônios há quanto tempo estavam no inferno. Um deles respondeu: “Desde ontem”. Surpreso, o exorcista perguntou: “Mas como?! Faz mais de cinco mil anos que vocês foram condenados!” Respondeu o demônio: “Ó, se soubesses o que quer dizer eternidade, bem compreenderias que, em comparação dela, cinco mil anos não são senão um instante”.

Santo Afonso passa a responder uma objeção muito corrente: “Como castigar com uma pena eterna um pecado que dura apenas um momento?”. Ele interpela ao interlocutor: “E como é que o pecador pode ter a audácia de ofender, por um prazer momentâneo, uma Majestade infinita?”.

Sobretudo, continua o santo missionário, “até a justiça humana, como diz São Tomás, mede a pena não pela duração, mas pela qualidade do crime”. Pelo que a ofensa feita a um Deus infinito, merece um castigo infinito. Ora, “como a criatura humana, por ser finita, não é capaz de sofrer uma pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena em infinita em sua duração”.

Por outro lado, argumenta o santo que “esta pena deve necessariamente ser eterna, porque o condenado não pode satisfazer mais por seu pecado. Nesta vida o pecador que se arrepende, pode satisfazer por seus pecados, porquanto podem lhe ser aplicados os merecimentos de Jesus Cristo. Mas disto fica excluído o condenado; e visto não poder aplacar a Deus e ser eterno o seu estado de pecado, a pena também deve ser eterna”. Além disso, “ainda que Deus quisesse perdoar, o réprobo não quereria ser perdoado, porque sua vontade está obstinada e confirmada no ódio contra Deus. Por isso o mal do réprobo é incurável, porque ele recusa a cura”.

Quantas almas se perdem nos nossos dias, por não querer meditar nas penas do inferno enquanto têm tempo para emendar-se!

Exclama o grande missionário: “Eis aí o estado lastimoso dos pobres condenados no inferno: ficarão encerrados eternamente nesse cárcere de tormentos, sem que haja para eles esperança de sair. Depois de passados milhões e mais milhões de séculos, os desgraçados perguntarão aos demônios: ‘Quando acabarão estes clamores, esta infecção, estas chamas, estes tormentos?’. E hão de responder-lhe os demônios: ‘Nunca! Nunca!’. ‘E quanto tempo durarão?’ A terrível resposta é: ‘Sempre! Sempre!”

Pelo que conclui com emoção o santo bispo e Doutor da Igreja considerando nossos pecados:

“Ó meu amado Redentor Jesus! Se atualmente eu estivesse condenado como mereci, não haveria mais esperança para mim, e estaria obstinado no ódio contra Vós, ó meu Deus, que morrestes para me salvar. Que inferno seria para mim o ter que odiar-Vos, a Vós que tanto me tendes amado, que sois a beleza infinita, digno de amor infinito! Se estivesse no inferno, achar-me-ia em tão miserável estado, que nem quisera o perdão que me ofereceis agora. Agradeço-Vos, meu Jesus, a bondade que tivestes para comigo e, já que posso ainda esperar o perdão e amar-Vos, quero reconciliar-me convosco, quero amar-Vos. Arrependo-me de todas as ofensas que Vos fiz, ó Bondade infinita, e perdoai-me. Que mal me fizestes, ó Senhor, para que Vos houvesse de odiar como inimigo na eternidade? Quem foi jamais tão meu amigo a ponto de fazer e padecer por mim o que Vós, ó meu Jesus, haveis feito e sofrido por meu amor? Não permitais que me aconteça cair de novo em vosso desagrado e perder o vosso amor. Prefiro morrer a cair nesta extrema desgraça. Ó Maria, abrigai-me sob o vosso manto, e não permitais que saia debaixo dele para alguma vez me revoltar contra Deus e contra Vós!”.

 

https://www.abim.inf.br/a-eternidade-do-inferno-e-terrivel-mas-justa/

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