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segunda-feira, 20 de julho de 2020

A CIDADE E O CORONAVÍRUS – Cyro de Mattos


A Cidade e o Coronavírus
Cyro de Mattos

          Quando a cidade comemora outro ano de emancipação política, falam do progresso e vocação de seu povo para o trabalho. A cidade vive o clima de festa e desperta muito cedo com a descarga de foguetes que crepitam no céu. Os moradores sabem que a cidade é antes de tudo raiz que se aninha no peito e seiva que escorre no esforço dos dias.

          É trama com ânsia e sonho. Acontece nas mãos generosas do padeiro, no feijão preparado pela cozinheira, que o ano todo tem calo e calor nas mãos. Na colher do pedreiro. No sermão do padre, na filarmônica tocando na praça, convidando o povo para voar na valsa. Na cuia do cego, na cartilha da professora. Na bola do menino que quebrou a vidraça do vizinho. Com os namorados que passeiam de mãos dadas no jardim. Na rua, na loja, no armazém, no banco, a cidade com o seu modo de estipular o mundo.

          Na guerra da palavra em tempo de eleições quando a vitória é uma questão de vida ou morte. No jornal televisivo que dá a notícia boa ou má, sempre veloz, indo de canto a canto. Nos dias de hoje, desse terrível coronavírus e de um governo executivo que se nutre de ódio com um presidente incendiário, certamente a notícia fere e deixa o brasileiro atônito.
     
          Com sangue nas veias que sangram todos os dias, a cidade anda às vezes triste, os pés descalços, adormece embaixo de marquises. Atropela na dura lei da vida, converte-se em tempo de violência e miséria, que cada vez mais assusta.

          Com vários jornais, emissoras de rádio, canais de televisão, colégios, hospitais, ruas e avenidas asfaltadas, universidade como brasa verdejante em seu novo dizer da lavra, a cidade vive agora a época da automação, da moderna sociedade de massas. Sabe que hoje o mundo é uma aldeia global, não podendo desviar-se dessa sintonia. Mas na cidade ainda encontramos a maneira sensível de alguns conceberem a vida com a razão e a emoção na mais completa leitura do mundo através da arte da palavra.  Existem aqueles que lambem as palavras e se alucinam. Falam de coisas agudas. Tentam com a palavra permanecer na vida, negando a morte.

          Mas ninguém imaginaria que a cidade fosse interrompida no seu fluxo de vida com essa guerra do coronavírus. Agora todos andam de máscara quando uma necessidade impõe que vá comprar algo necessário na farmácia.  Em nossas casas vivemos recolhidos na quarentena.  A notícia na televisão informa os estragos que o coronavírus vem fazendo aos frágeis seres humanos. A cidade está vazia. Vivemos um clímax de filme de ficção científica. De pesadelo e desalento. As ruas desertas.  Impiedoso, sorrateiro, veloz, o coronavírus ataca todo o planeta e não se satisfaz com as vítimas que mata a todo instante.

           Mas venceremos essa impiedosa guerra bacteriana, esperando-se que no próximo ano estejamos comemorando o dia de aniversário da cidade com abraços, euforia de risos no rosto aberto de contente, sem faltar as badaladas do sino na catedral de São José, o padroeiro da cidade, e a descarga de foguetes no céu.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários expressivos no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.
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domingo, 19 de julho de 2020

TEMPOS DO CORONAVÍRUS – Cyro de Mattos


Tempos do Coronavírus
Cyro de Mattos


     Ninguém imaginaria que as cidades fossem interrompidas no seu fluxo de vida com essa guerra do coronavírus. Agora todos andam de máscara quando uma necessidade impõe que vá comprar algo necessário na farmácia ou supermercado. Cuidado, cuide-se com os demais, lave sempre as mãos, com álcool ou sabão, mas não esqueça o ritual, se viver é perigoso, agora é muito mais. Esse tipo de cautela pode ser providencial, vai salvar a sua vida.
   
        Em nossas casas vivemos recolhidos nessa repetitiva e irritante quarentena, que tem como um de seus propósitos fazer com que nossa roupa fique apertada com os quilinhos que de repente ganhamos.  A notícia na televisão informa os estragos que o coronavírus vem fazendo aos frágeis seres humanos. As cidades estão vazias. Vivemos um clímax de filme de ficção científica. De pesadelo e desalento.

          As ruas desertas.  Impiedoso, sorrateiro, veloz,  o coronavírus ataca todo o planeta e não se satisfaz com as vítimas fatais que vem fazendo a todo instante. Não bastasse exigir  o nosso confinamento, proibir  abraçar o amigo, impedir que o beijo em carícia de lenço  seja dado ao ente querido e a flor se entreabra no rosto com a expressão do sorriso.

      Horrível, infame, impiedoso, esse coronavírus. De onde veio essa minúscula criatura que não é vista a olho nu com sua fábrica da morte no lugar da vida? Para onde quer levar nossos assustados e tristes corações? Por causa dela, os pais ficam sem o filho, o marido sem a esposa, o neto sem a avó, o vizinho sem a vizinha. Ela não tem limite, até criança é agarrada por suas pinças venenosas. Quanto aos idosos nem é bom falar, são os que são levados mais depressa na onda dessa assassina, que mata e não enterra, de tão estúpida com a sua traiçoeira invenção da morte.

       Maneira de forjarmos uma estratégia com vistas a diminuir suas investidas pusilânimes, é ficarmos de quarentena, recolhidos em nossas casas, não formarmos grupos, evitarmos sair como antes, só mesmo quando necessário.  É preciso cautela até que se ache o antídoto para mandá-la para as funduras do pior abismo. Lugar que ela merece habitar para todo o sempre,  dormir e se alimentar de nada, como é de sua predileção.
 
       Como penso que a linguagem literária é a mais completa  como leitura do mundo e a literatura é  forma de conhecimento da vida  fundamental como o amanhecer, além de ser fonte de prazer, quando se tem em mãos um bom livro, bem escrito, que conte uma história com surpreendentes sentidos,  sugiro que alguns que  vão me ler nessa crônica reserve um pouco de seu tempo de quarentena e tente escrever histórias, crônicas, poemas,  como forma de conversar no seu estar no mundo,  tomando a palavra emprestada do sonho.  Mostre à esposa, ao filho, ao amigo, as histórias, as crônicas ou poemas que você escreveu. Qualquer um pode tentar. A beleza e o encantamento da vida estão em tudo. Com a arte da palavra, você também irá descobrir isso, tenho certeza.
     
      Afinal, todos nós, de poeta, médico e louco temos um pouco. Por que não de escritor, seja o nosso canto alegre, triste ou rouco?

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, França, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e de Ilhéus. Comendador da Ordem do Mérito do Governo da Bahia.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (193)

16º Domingo do Tempo Comum -19/07/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 13,24-43) 

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’
O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’
O dono respondeu: ‘Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!’”
Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”.
Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”.
Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo”.
Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!”
Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes.  Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:

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“Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,30)

Jesus costumava contar parábolas com frequência e as pessoas gostavam de ouvi-lo; suas parábolas, brotavam do chão da vida, estavam carregadas de vida e comprometiam as pessoas a viverem de um modo diferente, deixando-se inspirar por Aquele que é Fonte da Vida. Como relatos instigantes, as parábolas faziam emergir uma nova imagem de Deus e uma nova imagem do ser humano.

Sabemos que as imagens, que cada um guarda em seu interior, tem um peso e marcam a vida: elas podem fazer adoecer ou ativar uma vida sadia, podem alimentar medos ou despertar coragem, podem estreitar a vida ou expandi-la.... Todos temos experiências das funestas consequências das falsas imagens de Deus, que acabam alimentando, em cada um, uma auto-imagem atrofiada e paralisante. Jesus, com suas parábolas provocativas, desejava quebrar tais imagens nocivas e substitui-las por outras saudáveis.

Para isso, Ele usa uma pedagogia para nos provocar e dirigir nossa atenção para algo específico, que nos inquieta: quando nos sentimos incomodados com Suas imagens, isso significa que estamos sendo confronta-dos com imagens falsas de Deus e de nós mesmos, petrificadas em nosso interior. Algum aspecto nosso, que até então havia permanecido na sombra, é iluminado; agora somos capazes de nos ver de modo diferente. Essa transformação interior, de nossa visão e de nossos sentimentos, não pode ser alcançada por meio de meras palavras de ensinamento. Para isso, precisamos da arte das parábolas, pois elas desvelam, põem às claras, situações e modos fechados de viver, visões distorcidas, falsas verdades, ideias atrofiadas, crenças vazias..., que nos dão uma sensação de segurança e temos resistências em abrir mão de tudo isso. 

Como muitas outras parábolas, também a do “joio e do trigo” é um relato provocativo. Não só porque parece ir contra o “senso comum”, que aconselha arrancar o joio que impede o crescimento do trigo, mas porque é também uma resposta às críticas que o próprio Jesus recebia por sua atitude com relação àqueles que a religião tinha excluído. Não em vão Ele foi acusado de ser “amigo de publicanos e pecadores”.

Por outro lado, a parábola pode deixar transparecer as inquietações da comunidade de Mateus, preocupada por separar com clareza os “bons discípulos” daqueles que não eram. Como tantos grupos humanos, a tentação é marcar uma linha divisória, entre o “trigo” e o “joio”. Essa separação, no interior da comunidade cristã, acaba se projetando nas relações sociais, políticas, econômicas, culturais..., criando “muros” e “fronteiras” que esvaziam o processo de humanização.

Pois bem, seja porque se refira à vida histórica de Jesus, seja porque se tenha adaptado para responder a alguma polêmica comunitária posterior, o certo é que a mensagem da parábola não deixa lugar a dúvidas: “deixai crescer um e outro até a colheita!”. Por isso, a atitude sábia de deixar o “trigo e o joio crescerem juntos”, nos remete precisamente ao que temos de fazer com o nosso próprio “joio”: aceitá-lo, acolhê-lo, integrá-lo, reconhecê-lo como nosso, sem reduzir-nos a ele e sem nos deixar determinar por ele. Tal atitude implica um crescimento em integração e em humildade. Por mais estranho que pareça, a aceitação do “joio” nos humaniza, pois nos faz descer de nosso pedestal egóico – feito de exigência, perfeccionismo e de complexo de superioridade – e aproximar-nos de nosso ser verdadeiro.

Quanto mais nós nos conhecemos e conhecemos o Sol que nos habita (Deus), mais nos integramos e mais nos humanizamos.

Humanizar-se, não no sentido de ser mais virtuoso, brilhante, bem-sucedido, perfeccionista... Humanizar-se é também a capacidade de acolher-se frágil, vulnerável e, ao mesmo tempo, ativar o vigor, ser criativo, resistir, poder traçar caminhos... Fazer a síntese entre ternura e vigor.

Não pretendamos, pois, arrancar o joio; demonstremos com nossa vida que, ser trigo, é mais humano. 

Nossa vida está repleta da graça divina. Vivemos mergulhados na Graça que nos santifica.

Ser santo(a) é viver em plenitude nossa humanidade. É aprender a descobrir e a redescobrir a “presença de Deus em tudo e tudo em Deus” (S. Inácio).

Já foi dito que o ser humano nunca é tão grande como quando sabe reconhecer e aceitar sua fragilidade, sua limitação...  Reconhecer e aceitar sua própria “humanidade”, diante de Deus e dos outros, significa percorrer um caminho em direção a uma visão positiva, madura e profunda de si mesmo.

Com isso, já não desperdiçamos as nossas energias para tentar, inutilmente, afastar de nós algo que faz parte de nossa vida e que devemos aprender a integrar, a preencher de sentido, a transformar...

Às vezes, no mal que queremos extirpar, há um bem que não sabemos descobrir. 

Com efeito, temos sempre a tentação de querer extirpar logo e totalmente o “joio” do nosso coração, arriscando-nos a arrancar com ele, pela raiz, os germes do bem que estão crescendo com dificuldade e que exigem uma atitude muito diferente, isto é, paciência e delicadeza, capacidade de intuição e clarividência, disponibilidade para alimentar uma sadia tolerância para conosco.

Todo este processo de integração interior se faz visível na integração com os outros com quem convivemos. 

Parece claro que, nós seres humanos, ficamos incomodados com o “diferente”, com aquele que sente, pensa e crê de outra maneira. Se a isso agregamos a necessidade de “ter razão”, característica do ego, pode-ríamos explicar a origem de tantas intolerâncias, fanatismos, juízos, processos inquisitoriais e condenações... Tanto as religiões, como os grupos sociais, insistem em ter tudo bem clarificado e estabelecido, para evitar sobressaltos. Detrás de tudo isso, o que se busca é assegurar a sobrevivência e defender-se da ameaça da insegurança ou da necessidade de mudanças. Sair das próprias posições e convicções, no campo religioso, social, político, cultural...é, para muitos, um processo doloroso.

A parábola que estamos comentando (joio e trigo) é um chamado à tolerância e à paciência. A virtude da tolerância não é sinônimo de “bonzinho amorfo”, nem constitui um relativismo suicida. Tolerância é respeito e valorização da pessoa, acima das diferenças, acima das atitudes contrárias e inclusive, segundo Jesus, frente às agressões recebidas: “Amai vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”.

A personalidade fanática tende a ver a realidade dividida completamente em duas: tudo é branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, “trigo e joio”; para ela, não existem outras tonalidades. Por isso, ela se converte em juiz implacável que “salva” ou “condena”, assume atitudes fascistas ou nazistas, com a ilusão da raça pura, da ideologia pura, da religião pura...

Niels Bohr, um dos grandes iniciadores da física quântica, afirmou que “o oposto de uma verdade profunda pode ser também outra verdade profunda”. E para ele não se tratava de uma crença ou de uma opinião pessoal, mas de uma constatação, fruto de seus experimentos com partículas sub-atômicas.

Há um fato inegável: ninguém é igual a outro, todos temos algo que nos diferencia. Por isso existe a biodiversidade, milhões de formas de vida. O mesmo e mais profundamente vale para o nível humano. Aqui as diferenças mostram a riqueza da única e mesma humanidade. Podemos ser humanos de muitas formas e devemos ser tolerantes, como toda a realidade é tolerante. A intolerância será sempre um desvio e uma patologia e assim deve ser considerada.

Texto bíblico:  Mt 13,24-43
Na oração: O rigorismo não faz parte do caminho da Graça; o caminho da graça se chama compreensão e tolerância. A melhor resposta é dar a oportunidade para que o trigo amadureça; a melhor solução é abrir possibilidade para que o joio seja transformado. É questão de saber esperar. E disso, o amor é especialista.
- Frente ao “joio” presente em seu interior, que atitudes assume: auto-julgamento? moralismo? intransigência?
- E frente ao “outro”, que “pensa, sente e ama de maneira diferente”, como você se situa?

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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sexta-feira, 17 de julho de 2020

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS COMEMORA SEU 123º ANIVERSÁRIO EM FORMATO VIRTUAL

A Academia Brasileira de Letras comemora seus 123 anos de fundação no dia 20 de julho, segunda-feira, em solenidade virtual. Em razão das restrições impostas pela pandemia, a cerimônia ocorrerá exclusivamente pela internet. O Acadêmico Alberto Venancio Filho será o orador oficial do evento, que contará com a participação virtual dos Acadêmicos Marco Lucchesi, Merval Pereira, Antônio Torres e Edmar Bacha, membros da atual Diretoria. Também serão disponibilizadas mensagens gravadas por diversos acadêmicos em alusão ao aniversário da ABL. Todo o conteúdo poderá ser acessado no site da instituição, a partir das 17h do dia 20 de julho.

Na ocasião, será apresentado ao público o Selo Comemorativo em homenagem aos 100 anos de nascimento do Acadêmico João Cabral de Melo Neto, produzido pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. O presidente da ABL também discursará sobre importantes protocolos firmados em prol da leitura com instituições como a Marinha do Brasil e a Câmara dos Deputados.

Ao final da solenidade, haverá a apresentação da cravista Rosana Lanzelotte em um concerto especial, no qual executará a Sonata em sol maior de Sigismund von Neukomm.

Exposição
Outra ação promovida pela Academia Brasileira de Letras para a comemoração do seu aniversário será a disponibilização de uma exposição virtual em seu site. Realizada em uma reconstrução tridimensional da Biblioteca Acadêmica Lúcio de Mendonça, a mostra exibirá fotografias de cerimônias de posses de acadêmicos realizadas entre 1916 a 1969. O visitante terá a chance de apreciar registros raros de grandes nomes da ABL, como Assis Chateaubriand e Guimarães Rosa.


16/07/2020


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A DÁDIVA – Gibran Khalil Gibran

A dádiva

          Então, um homem opulento disse: “Fala-nos da Dádiva”

          E ele respondeu:
          “Vós pouco dais quando dais de vossas posses.
          É quando derdes de vós próprios que realmente dais.
          Pois, o que são vossas posses, senão coisas que guardais por medo de precisardes delas amanhã?
          E amanhã, que trará o amanhã ao cão ultra prudente que enterra ossos nas areias movediças, enquanto segue os peregrinos para a cidade santa?
          E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?
          Não é o vosso medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede insaciável?
         
          Há os que dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem elogiados, e seu desejo secreto desvaloriza seus presentes.
          E há os que pouco têm e dão-no inteiramente.
          Esses confiam na vida e na generosidade da vida, e seus cofres nunca se esvaziam.
          E há os que dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa.
          E há os que dão com pena, e essa pena é seu batismo.
          E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria e sem pensar na virtude.
          Dão como, no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço.
          Pelas mãos de tais pessoas, Deus fala; e através de seus olhos, Ele sorri para o mundo.
          É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser solicitado, por haver apenas compreendido;
          E para os generosos, procurar quem receberá é uma alegria maior ainda que a de dar.
          E existe alguma coisa que possais conservar?
          Tudo que possuís será um dia dado.
          Dai agora, portanto, para que a época da dádiva seja vossa e não de vossos herdeiros.

          Dizeis muitas vezes: “Eu daria, mas somente a quem merece”.
          As árvores de vossos pomares não falam assim, nem os rebanhos de vossos pastos.
          Dão para continuar a viver, pois reter é perecer.
          Certamente, quem é digno de receber seus dias e suas noites é digno de receber de vós tudo o mais.
          E quem mereceu beber do oceano da vida, merece encher sua taça em vosso pequeno córrego.
          E que mérito maior haverá do que aquele que reside na coragem e na confiança, mais ainda, na caridade de receber?
          E quem sois vós para que os homens devam expor seu íntimo e desnudar seu orgulho a fim de que possais ver seu mérito despido e seu orgulho rebaixado?
          Procurai ver, primeiro, se vós próprios mereceis ser doadores e instrumentos do dom.
          Pois, na verdade, é a Vida que dá à Vida – enquanto vós, que vos julgais doadores, sois simples testemunhas.

          E vós que recebeis – e vós todos recebeis – não assumais nenhum encargo de gratidão, a fim de não pordes um jugo sobre vós e vossos benfeitores.
          Antes, erguei-vos, juntos com eles, sobre asas feitas de suas dádivas.
          Pois se ficardes demasiadamente preocupados com vossas dívidas, estareis duvidando da generosidade daquele que tem a terra liberal por mãe e Deus por pai.”
          
         
(O PROFETA)
Gibran Khalil Gibran

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VOLTA AO HOMEM E À NATUREZA

          Como explicar tal fenômeno?
          Um artigo desorientador de 13 de agosto de l965, a revista norte-americana Time atribui seriamente o êxito de O Profeta a certas expressões de amor nele contidas, e que facilitariam aos rapazes seduzirem as moças!
          O êxito de O Profeta repousa sobre bases muito mais sólidas.
          A primeira prende-se aos próprios temas nele tratados e ao quadro no qual são tratados.
          Os temas são de interesse humano universal: o amor, o casamento, a liberdade, a religião, os filhos, o trabalho, a morte e outros assuntos análogos.
          O quadro é o vasto e livre quadro da Natureza: embora Al Mustafa pregue na praça do mercado, temos a impressão, ao escutá-lo, de passear com ele nas florestas e nos prados. Porque ele apresenta sempre suas ideias sob a forma de cenas da Natureza e dos trabalhos do campos.
          E este retorno simultâneo à Natureza e aos assuntos básicos da Vida seduziu o leitor moderno pelo efeito do contraste.
          Numa época em que os artistas e escritores procuram temas não somente originais, mas sofisticados e além do nosso alcance, e em que abandonamos a Natureza e os trabalhos da Natureza, Gibran reabriu a barragem atrás da qual se acumulava nossa nostalgia inconsciente de outro tempo e outra vida.
          Em Jesus, o Filho do Homem, Gibran, falando dos sermões de Jesus, diz:
          “Ele contava uma história ou narrava uma parábola, e coisa iguais às Suas histórias e parábolas sido ouvida na Síria. Parecia tecê-las com as estações, como o tempo tece os anos e as gerações.
          Começava uma história assim: ‘Um lavrador foi ao campo para semear’.
          Ou assim: ‘Havia, certa vez, um homem rico, que possuía muitos vinhedos’.
          Ou assim: ‘Um pastor contou seu rebanho ao entardecer, e descobriu que faltava uma ovelha’.
          E tais palavras levavam Seus ouvintes ao mais cândido de si mesmos e ao mais remoto dos seus dias.
          No fundo, somos todos lavradores, e todos amamos os vinhedos. E nas pastagens de nossa memória, há um pastor, e um rebanho, e a ovelha perdida.
          E há a relha do arado, e o lagar, e o pátio de debulhar.”
          Não se pode analisar melhor a arte que o próprio Gibran aplicou em O Profeta. Ele também leva o leitor ao mais cândido de si mesmo e ao mais remoto dos seus dias. E ele também parece tecer suas parábolas com o fio do tempo e das estações.
          Eis o primeiro segredo do sucesso mundial de O Profeta.


APRESENTAÇÃO
Mansuor Challita

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quinta-feira, 16 de julho de 2020

A ORDEM DO CARMO E A FIDELIDADE PERFEITA

16 de julho de 2020


Virgem do Carmo – Isabel Martos, séc. XIX. 

Coleção Particular, Sevilha (Espanha).


A Igreja comemora o dia de Nossa Senhora do Carmo em 16 de julho; e o de Santo Elias, fundador da Ordem do Carmo, no dia 20. Para relembrar ambas comemorações, segue trecho de uma conferência de Plinio Corrêa de Oliveira realizada em 14-11-1970.
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Nossa Senhora é a Rainha da Ordem do Carmo, a primeira Ordem religiosa constituída de modo especial para o louvor d’Ela. A observância oficial da Ordem do Carmo é a devoção da escravidão à Santíssima Virgem. Um dos louvores que Ela recebe de todos os seus carmelitas no Céu é o cântico de seus escravos de amor.

O que significa, neste caso, ser “escravo de amor”? É a condição da pessoa que desejou ter uma fidelidade perfeita e completa; que desejou renunciar a seus haveres e direitos; que desejou renunciar a si mesmo, inclusive aos bons méritos de suas boas obras; que depositou tudo nas mãos de Nossa Senhora; e quis viver só para Ela, a fim de que, nessa união, Ela fizesse tudo, como Senhora de tudo.

A Ordem do Carmo tem a vocação de ser tão unida à Santa Mãe de Deus, que pode ser chamada de Ordem dos escravos da Santíssima Virgem. No Céu, com certeza, essa Ordem deve ter um lugar especial junto a Ela. Deve ser o Céu dos Céus, um lugar eleitíssimo, o melhor dos lugares para os filhos carmelitas que Ela suscitou para serem seus escravos até o fim do mundo, sob a direção do máximo escravo d’Ela que foi Santo Elias — esse homem incomparável e assombroso, que voltará no fim de toda a História para travar as últimas batalhas por Deus.

Peçamos a Santo Elias, em união com todos os santos da Ordem do Carmo, que ele se constitua nosso especial chefe, pai e senhor, e auxilie as almas cambaleantes, dando fervor e claridade aos espíritos indecisos, firmeza à vontade fraca.


  
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quarta-feira, 15 de julho de 2020

O CRISTO REDENTOR DO CORCOVADO NA MIRA – Péricles Capanema

15 de julho de 2020


Péricles Capanema

Prossegue intensa nos Estados Unidos a campanha de destruição de estátuas simbólicas. Foram derrubadas estátuas de Cristóvão Colombo; várias estátuas de generais heróis na Guerra Civil sofreram a mesma sorte, também algumas de São Junípero Serra. Estátua de São Luís IX, rei da França, foi rapidamente recolhida em Saint Louis para não ser vandalizada. E ainda ameaçadas estátuas dos chamados pais fundadores da nação líder do Ocidente. A destruição continua, nada parece escapar à fúria vandálica. Além de arrancadas violentamente dos pedestais, têm sido corrente, para completar a liturgia caricata, cusparadas, chutes, berros, pinturas afrontosas. Não são raras mutilações e decepações.

A mensagem lampeja clara: a figura dos homenageados evoca realidades já não mais toleráveis. Primeiro o símbolo e depois as realidades simbolizadas serão banidos da superpotência. Acusam-nos de representar uma civilização escravocrata, imperialista, genocida, opressora, em especial de negros e índios. Um passo a mais: é a civilização europeia que está no cadafalso. Outro passo na mesma direção: é a civilização cristã europeia. E a fonte última da Europa cristã é Nosso Senhor Jesus Cristo. Questão de tempo, chegarão lá, as estátuas de Jesus Cristo, símbolo de sua doutrina e Igreja, também serão abatidas.

Aliás, já estamos nas primeiras etapas de tal demolição revolucionária e — não convém evitar o qualificativo — satânica. Coerente com o espírito do movimento, foi o que sintomaticamente já anunciou o escritor Shaun King, ativista social, fundador do “Real Justice PAC” e apoiador do movimento “Black lives matter”: as imagens de Jesus Cristo também precisam ser derrubadas, pois lembram “uma forma de supremacia branca”. Imposição da justiça real, parece, ditadura dos novos tempos.

No começo, o vozerio pela derrubada virá da extrema esquerda, de movimentos anarquistas e assemelhados, como já exigido por Shaun King. Depois, vozeadas do centro ecoarão os protestos, propondo a medida como necessidade de harmonia social. No fim, uma suposta maioria centrista achará melhor tirar todas as estátuas de Nosso Senhor dos lugares públicos para preservar o caráter laico do Estado. E, no trajeto, algumas estátuas serão vandalizadas, sem nenhuma punição, forma de impor celeridade maior ao processo demolidor. Alguns, com subestima, às vezes calculada, dirão, são atos isolados de mero alcance simbólico, que não mexem no fundo das realidades que importam, as quais continuarão as mesmas. Serão as mãos que apagam, as vozes que adormecem a reação.


Napoleão com o príncipe Metternich com durante a reunião em Dresden em 26 de junho de 1813. Quadro de Woldemar Friedrich (1900).

Símbolos não importam? Pulo as décadas, retorno para longe. Em 23 de junho de 1813, Napoleão encontrou Metternich em Dresden [quadro acima]. Ali se jogava a sorte da Europa, a vida, quem sabe, de milhões de homens. Foram quase quatro horas de conversa, por vezes amável, por vezes tensa e ríspida. De um lado, o general representante da investida revolucionária. Do outro, o representante da Europa conservadora. Em certo momento de tensão, os dois em pé, Napoleão gritou ameaças e atirou o chapéu no chão. Ele era imperador, o outro, apenas ministro. Esperou um gesto de cortesia de Metternich, recolhendo e lhe devolvendo o chapéu. Nada. O corso passou ao lado do chapéu, empurrou-o com o pé. O chanceler austríaco não se mexeu, fingiu nada ter percebido, continuou a argumentar. Napoleão ameaçou:

— Para um homem como eu, a vida de um milhão de homens, vale nada.

Metternich olhou o chapéu no chão. Continuou Napoleão:

— Perdi 300 mil homens na Rússia, entre eles não havia mais que 30 mil franceses. Os outros, italianos, poloneses, alemães.

O ministro atalhou:

— Vossa Majestade se esquece que fala a um alemão.

Napoleão sentiu o golpe, apanhou o chapéu e o enfiou na cabeça. Derrota simbólica enorme. Ao se despedir, Metternich lhe disse: “Majestade, sua situação está perdida. Pressentia-o, quando cheguei. Agora, levo comigo a convicção”.

O encontro de Dresden, pleno de frases e gestos simbólicos repercutiu. Repercute até hoje. É visto como um dos marcos importantes da queda de Napoleão. A Europa tomou um rumo detestado pelo imperador da França. Um gesto simbólico, a recusa de apanhar um simples chapéu (no caso, indício de temor e traço de subserviência) até hoje é vista como resumo de uma reunião de mais de três horas. Gestos simbólicos têm efeito enorme, são lances da guerra cultural. Além da importância em si, são observados como atitudes prenunciativas.

Será derrota enorme para a Cristandade que diante das estátuas derrubadas (no frigir dos ovos o que está sendo atacado é a Cristandade), não haja resposta à altura com desagravos proporcionais e revide legais, mas altamente significativos.

Donald Trump está em campanha pela reeleição. Qual estátua os dirigentes da sua propaganda escolheram como a mais representativa para simbolizar sua causa e, portanto, para ser vista como alvo a ser derrubado pelos adversários? À primeira vista, seria alguma de um “foundigng father”. Ou alguma célebre na Europa pelo valor artístico.

Nada disso, foi selecionada a do Cristo Redentor do Corcovado, braços abertos para o mundo, inaugurada em 1931, eco lídimo do movimento pela realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ato de enorme simbologia, visto pelos chefes da campanha presidencial republicana como de forte repercussão eleitoral. O fato é conhecido. Em propaganda divulgada por todo o país, encimada pelo Cristo do Corcovado, o texto dizia: “O Presidente deseja saber quem o apoiará contra a esquerda radical”. Está dado a entender, queiramos ou não, estamos diante de uma batalha universal.

Dia virá, e não está longe, em que se exigirá no Brasil a derrubada da estátua do Cristo Redentor do Corcovado. A exigência virá de grupos ideológicos, inflamados pelas mesmas doutrinas que hoje trabalham nos Estados Unidos pela destruição de suas raízes históricas e aparecimento de uma sociedade rasa e ateia, parecida com o mundo comunal imaginado por Marx como etapa final do comunismo.


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