Quando a cidade comemora outro ano de emancipação política,
falam do progresso e vocação de seu povo para o trabalho. A cidade vive o clima
de festa e desperta muito cedo com a descarga de foguetes que crepitam no céu.
Os moradores sabem que a cidade é antes de tudo raiz que se aninha no peito e
seiva que escorre no esforço dos dias.
É trama com ânsia e
sonho. Acontece nas mãos generosas do padeiro, no feijão preparado pela
cozinheira, que o ano todo tem calo e calor nas mãos. Na colher do pedreiro. No
sermão do padre, na filarmônica tocando na praça, convidando o povo para voar
na valsa. Na cuia do cego, na cartilha da professora. Na bola do menino que
quebrou a vidraça do vizinho. Com os namorados que passeiam de mãos dadas no
jardim. Na rua, na loja, no armazém, no banco, a cidade com o seu modo de
estipular o mundo.
Na guerra da palavra em tempo de eleições quando a vitória é
uma questão de vida ou morte. No jornal televisivo que dá a notícia boa ou má,
sempre veloz, indo de canto a canto. Nos dias de hoje, desse terrível
coronavírus e de um governo executivo que se nutre de ódio com um presidente
incendiário, certamente a notícia fere e deixa o brasileiro atônito.
Com sangue nas veias que sangram todos os dias, a cidade
anda às vezes triste, os pés descalços, adormece embaixo de marquises. Atropela
na dura lei da vida, converte-se em tempo de violência e miséria, que cada vez
mais assusta.
Com vários jornais, emissoras de rádio, canais de televisão,
colégios, hospitais, ruas e avenidas asfaltadas, universidade como brasa
verdejante em seu novo dizer da lavra, a cidade vive agora a época da
automação, da moderna sociedade de massas. Sabe que hoje o mundo é uma aldeia
global, não podendo desviar-se dessa sintonia. Mas na cidade ainda encontramos
a maneira sensível de alguns conceberem a vida com a razão e a emoção na mais
completa leitura do mundo através da arte da palavra.Existem aqueles que lambem as palavras e se
alucinam. Falam de coisas agudas. Tentam com a palavra permanecer na vida,
negando a morte.
Mas ninguém imaginaria que a cidade fosse interrompida no
seu fluxo de vida com essa guerra do coronavírus. Agora todos andam de máscara
quando uma necessidade impõe que vá comprar algo necessário na farmácia.Em nossas casas vivemos recolhidos na
quarentena.A notícia na televisão
informa os estragos que o coronavírus vem fazendo aos frágeis seres humanos. A
cidade está vazia. Vivemos um clímax de filme de ficção científica. De pesadelo
e desalento. As ruas desertas.Impiedoso,
sorrateiro, veloz, o coronavírus ataca todo o planeta e não se satisfaz com as
vítimas que mata a todo instante.
Mas venceremos essa
impiedosa guerra bacteriana, esperando-se que no próximo ano estejamos
comemorando o dia de aniversário da cidade com abraços, euforia de risos no
rosto aberto de contente, sem faltar as badaladas do sino na catedral de São
José, o padroeiro da cidade, e a descarga de foguetes no céu.
...............
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da
Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários expressivos no
Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.
Ninguém imaginaria que as cidades
fossem interrompidas no seu fluxo de vida com essa guerra do coronavírus. Agora
todos andam de máscara quando uma necessidade impõe que vá comprar algo
necessário na farmácia ou supermercado. Cuidado, cuide-se com os demais, lave
sempre as mãos, com álcool ou sabão, mas não esqueça o ritual, se viver é
perigoso, agora é muito mais. Esse tipo de cautela pode ser providencial, vai
salvar a sua vida.
Em nossas casas vivemos
recolhidos nessa repetitiva e irritante quarentena, que tem como um de seus
propósitos fazer com que nossa roupa fique apertada com os quilinhos que de
repente ganhamos.A notícia na televisão
informa os estragos que o coronavírus vem fazendo aos frágeis seres humanos. As
cidades estão vazias. Vivemos um clímax de filme de ficção científica. De
pesadelo e desalento.
As ruas desertas.Impiedoso, sorrateiro, veloz,o coronavírus ataca todo o planeta e não se
satisfaz com as vítimas fatais que vem fazendo a todo instante. Não bastasse
exigiro nosso confinamento,
proibirabraçar o amigo, impedir que o
beijo em carícia de lenço seja dado ao ente querido e a flor se
entreabra no rosto com a expressão do sorriso.
Horrível, infame, impiedoso, esse
coronavírus. De onde veio essa minúscula criatura que não é vista a olho nu com
sua fábrica da morte no lugar da vida? Para onde quer levar nossos assustados e
tristes corações? Por causa dela, os pais ficam sem o filho, o marido sem a
esposa, o neto sem a avó, o vizinho sem a vizinha. Ela não tem limite, até
criança é agarrada por suas pinças venenosas. Quanto aos idosos nem é bom
falar, são os que são levados mais depressa na onda dessa assassina, que mata e
não enterra, de tão estúpida com a sua traiçoeira invenção da morte.
Maneira de forjarmos uma estratégia com vistas
a diminuir suas investidas pusilânimes, é ficarmos de quarentena, recolhidos em
nossas casas, não formarmos grupos, evitarmos sair como antes, só mesmo quando
necessário.É preciso cautela até que se
ache o antídoto para mandá-la para as funduras do pior abismo. Lugar que ela merece habitar para todo o sempre,dormir e se alimentar de nada, como é de sua predileção.
Como penso que a linguagem
literária é a mais completacomo leitura
do mundo e a literatura éforma de
conhecimento da vidafundamental como o
amanhecer, além de ser fonte de prazer, quando se tem em mãos um bom livro, bem
escrito, que conte uma história com surpreendentes sentidos,sugiro que alguns quevão me ler nessa crônica reserve um pouco de
seu tempo de quarentena e tente escrever histórias, crônicas, poemas,como forma de conversar no seu estar no
mundo,tomando a palavra emprestada do
sonho.Mostre à esposa, ao filho, ao
amigo, as histórias, as crônicas ou poemas que você escreveu. Qualquer um pode
tentar. A beleza e o encantamento da vida estão em tudo. Com a arte da
palavra, você também irá descobrir isso, tenho certeza.
Afinal, todos nós, de poeta,
médico e louco temos um pouco. Por que não de escritor, seja o nosso canto
alegre, triste ou rouco?
..................
Cyro de Mattos é escritor e
poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado
em Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, França, Dinamarca, Rússia e Estados
Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia e de Ilhéus. Comendador da Ordem do Mérito do Governo da Bahia.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus contou outra parábola à multidão:
“O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto
todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi
embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar,
apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono e lhe
disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o
joio?’
O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os
empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’
O dono respondeu: ‘Não! Pode acontecer que, arrancando o
joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!
E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio
e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu
celeiro!’”
Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como
uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora
ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as
outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem
ninhos em seus ramos”.
Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos
Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de
farinha, até que tudo fique fermentado”.
Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes
falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta:
“Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde
a criação do mundo”.
Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus
discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!”
Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho
do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino.
O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o
diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. Como o
joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos
tempos: o Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles retirarão do seu
Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os
lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. Então
os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.
“Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,30)
Jesus costumava contar parábolas com frequência e
as pessoas gostavam de ouvi-lo; suas parábolas, brotavam do chão da vida,
estavam carregadas de vida e comprometiam as pessoas a viverem de um modo
diferente, deixando-se inspirar por Aquele que é Fonte da Vida. Como relatos
instigantes, as parábolas faziam emergir uma nova imagem de Deus e uma nova
imagem do ser humano.
Sabemos que as imagens, que cada um guarda em seu
interior, tem um peso e marcam a vida: elas podem fazer adoecer ou ativar uma
vida sadia, podem alimentar medos ou despertar coragem, podem estreitar a vida
ou expandi-la.... Todos temos experiências das funestas consequências das
falsas imagens de Deus, que acabam alimentando, em cada um, uma auto-imagem
atrofiada e paralisante. Jesus, com suas parábolas provocativas, desejava
quebrar tais imagens nocivas e substitui-las por outras saudáveis.
Para isso, Ele usa uma pedagogia para nos provocar e dirigir
nossa atenção para algo específico, que nos inquieta: quando nos sentimos
incomodados com Suas imagens, isso significa que estamos sendo confronta-dos
com imagens falsas de Deus e de nós mesmos, petrificadas em nosso interior.
Algum aspecto nosso, que até então havia permanecido na sombra, é iluminado;
agora somos capazes de nos ver de modo diferente. Essa transformação interior,
de nossa visão e de nossos sentimentos, não pode ser alcançada por meio de
meras palavras de ensinamento. Para isso, precisamos da arte das parábolas,
pois elas desvelam, põem às claras, situações e modos fechados de viver, visões
distorcidas, falsas verdades, ideias atrofiadas, crenças vazias..., que nos dão
uma sensação de segurança e temos resistências em abrir mão de tudo isso.
Como muitas outras parábolas, também a do “joio e do
trigo” é um relato provocativo. Não só porque parece ir contra o “senso
comum”, que aconselha arrancar o joio que impede o crescimento do trigo, mas
porque é também uma resposta às críticas que o próprio Jesus recebia por sua
atitude com relação àqueles que a religião tinha excluído. Não em vão Ele foi
acusado de ser “amigo de publicanos e pecadores”.
Por outro lado, a parábola pode deixar transparecer as
inquietações da comunidade de Mateus, preocupada por separar com clareza os
“bons discípulos” daqueles que não eram. Como tantos grupos humanos, a tentação
é marcar uma linha divisória, entre o “trigo” e o “joio”. Essa separação, no interior
da comunidade cristã, acaba se projetando nas relações sociais, políticas,
econômicas, culturais..., criando “muros” e “fronteiras” que esvaziam o
processo de humanização.
Pois bem, seja porque se refira à vida histórica de Jesus,
seja porque se tenha adaptado para responder a alguma polêmica comunitária
posterior, o certo é que a mensagem da parábola não deixa lugar a
dúvidas: “deixai crescer um e outro até a colheita!”. Por isso, a
atitude sábia de deixar o “trigo e o joio crescerem juntos”, nos remete
precisamente ao que temos de fazer com o nosso próprio “joio”: aceitá-lo,
acolhê-lo, integrá-lo, reconhecê-lo como nosso, sem reduzir-nos a ele e sem nos
deixar determinar por ele. Tal atitude implica um crescimento em integração e
em humildade. Por mais estranho que pareça, a aceitação do “joio” nos humaniza,
pois nos faz descer de nosso pedestal egóico – feito de exigência,
perfeccionismo e de complexo de superioridade – e aproximar-nos de nosso ser
verdadeiro.
Quanto mais nós nos conhecemos e conhecemos o Sol que nos
habita (Deus), mais nos integramos e mais nos humanizamos.
Humanizar-se, não no sentido de ser mais virtuoso,
brilhante, bem-sucedido, perfeccionista... Humanizar-se é também a capacidade
de acolher-se frágil, vulnerável e, ao mesmo tempo, ativar o vigor, ser
criativo, resistir, poder traçar caminhos... Fazer a síntese entre ternura e
vigor.
Não pretendamos, pois, arrancar o joio; demonstremos com
nossa vida que, ser trigo, é mais humano.
Nossa vida está repleta da graça divina. Vivemos
mergulhados na Graça que nos santifica.
Ser santo(a) é viver em plenitude nossa
humanidade. É aprender a descobrir e a redescobrir a “presença de Deus em
tudo e tudo em Deus” (S. Inácio).
Já foi dito que o ser humano nunca é tão grande como quando
sabe reconhecer e aceitar sua fragilidade, sua limitação... Reconhecer e
aceitar sua própria “humanidade”, diante de Deus e dos outros,
significa percorrer um caminho em direção a uma visão positiva, madura e
profunda de si mesmo.
Com isso, já não desperdiçamos as nossas energias para
tentar, inutilmente, afastar de nós algo que faz parte de nossa vida e que
devemos aprender a integrar, a preencher de sentido, a transformar...
Às vezes, no mal que queremos extirpar, há
um bem que não sabemos descobrir.
Com efeito, temos sempre a tentação de querer extirpar logo
e totalmente o “joio” do nosso coração, arriscando-nos a arrancar com
ele, pela raiz, os germes do bem que estão crescendo com dificuldade e que
exigem uma atitude muito diferente, isto é, paciência e delicadeza, capacidade
de intuição e clarividência, disponibilidade para alimentar uma sadia
tolerância para conosco.
Todo este processo de integração interior se faz visível na
integração com os outros com quem convivemos.
Parece claro que, nós seres humanos, ficamos incomodados com
o “diferente”, com aquele que sente, pensa e crê de outra maneira. Se
a isso agregamos a necessidade de “ter razão”, característica do ego,
pode-ríamos explicar a origem de tantas intolerâncias, fanatismos, juízos,
processos inquisitoriais e condenações... Tanto as religiões, como os grupos
sociais, insistem em ter tudo bem clarificado e estabelecido, para evitar
sobressaltos. Detrás de tudo isso, o que se busca é assegurar a sobrevivência e
defender-se da ameaça da insegurança ou da necessidade de mudanças. Sair das
próprias posições e convicções, no campo religioso, social, político, cultural...é,
para muitos, um processo doloroso.
A parábola que estamos comentando (joio e trigo) é um
chamado à tolerância e à paciência. A virtude da tolerância não é
sinônimo de “bonzinho amorfo”, nem constitui um relativismo suicida. Tolerância
é respeito e valorização da pessoa, acima das diferenças, acima das atitudes
contrárias e inclusive, segundo Jesus, frente às agressões recebidas: “Amai
vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”.
A personalidade fanática tende a ver a realidade dividida
completamente em duas: tudo é branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau,
“trigo e joio”; para ela, não existem outras tonalidades. Por isso, ela se
converte em juiz implacável que “salva” ou “condena”, assume atitudes fascistas
ou nazistas, com a ilusão da raça pura, da ideologia pura, da religião pura...
Niels Bohr, um dos grandes iniciadores da física quântica,
afirmou que “o oposto de uma verdade profunda pode ser também outra
verdade profunda”. E para ele não se tratava de uma crença ou de uma
opinião pessoal, mas de uma constatação, fruto de seus experimentos com
partículas sub-atômicas.
Há um fato inegável: ninguém é igual a outro, todos temos
algo que nos diferencia. Por isso existe a biodiversidade, milhões de formas de
vida. O mesmo e mais profundamente vale para o nível humano. Aqui as diferenças
mostram a riqueza da única e mesma humanidade. Podemos ser humanos de muitas
formas e devemos ser tolerantes, como toda a realidade é tolerante. A
intolerância será sempre um desvio e uma patologia e assim deve ser
considerada.
Texto bíblico: Mt 13,24-43
Na oração: O rigorismo não faz parte do caminho da
Graça; o caminho da graça se chama compreensão e tolerância. A melhor resposta
é dar a oportunidade para que o trigo amadureça; a melhor solução é abrir
possibilidade para que o joio seja transformado. É questão de saber esperar. E
disso, o amor é especialista.
- Frente ao “joio” presente em seu interior, que atitudes
assume: auto-julgamento? moralismo? intransigência?
- E frente ao “outro”, que “pensa, sente e ama de maneira
diferente”, como você se situa?
A Academia Brasileira de Letras comemora seus 123 anos
de fundação no dia 20 de julho, segunda-feira, em solenidade virtual. Em razão
das restrições impostas pela pandemia, a cerimônia ocorrerá exclusivamente pela
internet. O Acadêmico Alberto Venancio Filho será o orador oficial do evento,
que contará com a participação virtual dos Acadêmicos Marco Lucchesi,
Merval Pereira, Antônio Torres e Edmar Bacha, membros da atual Diretoria.
Também serão disponibilizadas mensagens gravadas por diversos acadêmicos em alusão
ao aniversário da ABL. Todo o conteúdo poderá ser acessado no site da
instituição, a partir das 17h do dia 20 de julho.
Na ocasião, será apresentado ao público o Selo Comemorativo
em homenagem aos 100 anos de nascimento do Acadêmico João Cabral de Melo Neto,
produzido pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. O presidente da ABL
também discursará sobre importantes protocolos firmados em prol da leitura com
instituições como a Marinha do Brasil e a Câmara dos Deputados.
Ao final da solenidade, haverá a apresentação da cravista
Rosana Lanzelotte em um concerto especial, no qual executará a Sonata em sol
maior de Sigismund von Neukomm.
Exposição
Outra ação promovida pela Academia Brasileira de Letras para
a comemoração do seu aniversário será a disponibilização de uma exposição
virtual em seu site. Realizada em uma reconstrução tridimensional da Biblioteca
Acadêmica Lúcio de Mendonça, a mostra exibirá fotografias de cerimônias de
posses de acadêmicos realizadas entre 1916 a 1969. O visitante terá a chance de
apreciar registros raros de grandes nomes da ABL, como Assis Chateaubriand e
Guimarães Rosa.
Então, um
homem opulento disse: “Fala-nos da Dádiva”
E ele
respondeu:
“Vós pouco
dais quando dais de vossas posses.
É quando
derdes de vós próprios que realmente dais.
Pois, o que
são vossas posses, senão coisas que guardais por medo de precisardes delas
amanhã?
E amanhã,
que trará o amanhã ao cão ultra prudente que enterra ossos nas areias
movediças, enquanto segue os peregrinos para a cidade santa?
E o que é o
medo da necessidade senão a própria necessidade?
Não é o
vosso medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede insaciável?
Há os que
dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem elogiados, e seu desejo
secreto desvaloriza seus presentes.
E há os que
pouco têm e dão-no inteiramente.
Esses
confiam na vida e na generosidade da vida, e seus cofres nunca se esvaziam.
E há os que
dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa.
E há os que
dão com pena, e essa pena é seu batismo.
E há os que
dão sem sentir pena nem buscar alegria e sem pensar na virtude.
Dão como, no
vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço.
Pelas mãos
de tais pessoas, Deus fala; e através de seus olhos, Ele sorri para o mundo.
É belo dar
quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser solicitado, por haver apenas
compreendido;
E para os
generosos, procurar quem receberá é uma alegria maior ainda que a de dar.
E existe
alguma coisa que possais conservar?
Tudo que
possuís será um dia dado.
Dai agora,
portanto, para que a época da dádiva seja vossa e não de vossos herdeiros.
Dizeis
muitas vezes: “Eu daria, mas somente a quem merece”.
As árvores
de vossos pomares não falam assim, nem os rebanhos de vossos pastos.
Dão para
continuar a viver, pois reter é perecer.
Certamente,
quem é digno de receber seus dias e suas noites é digno de receber de vós tudo
o mais.
E quem
mereceu beber do oceano da vida, merece encher sua taça em vosso pequeno
córrego.
E que mérito
maior haverá do que aquele que reside na coragem e na confiança, mais ainda, na
caridade de receber?
E quem sois vós para que os homens
devam expor seu íntimo e desnudar seu orgulho a fim de que possais ver seu
mérito despido e seu orgulho rebaixado?
Procurai ver,
primeiro, se vós próprios mereceis ser doadores e instrumentos do dom.
Pois, na
verdade, é a Vida que dá à Vida – enquanto vós, que vos julgais doadores, sois
simples testemunhas.
E vós que
recebeis – e vós todos recebeis – não assumais nenhum encargo de gratidão, a
fim de não pordes um jugo sobre vós e vossos benfeitores.
Antes,
erguei-vos, juntos com eles, sobre asas feitas de suas dádivas.
Pois se
ficardes demasiadamente preocupados com vossas dívidas, estareis duvidando da
generosidade daquele que tem a terra liberal por mãe e Deus por pai.”
(O PROFETA)
Gibran Khalil Gibran
............................
VOLTA AO HOMEM E À NATUREZA
Como
explicar tal fenômeno?
Um artigo
desorientador de 13 de agosto de l965, a revista norte-americana Time atribui
seriamente o êxito de O Profeta a certas expressões de amor nele contidas, e
que facilitariam aos rapazes seduzirem as moças!
O êxito de O
Profeta repousa sobre bases muito mais sólidas.
A primeira
prende-se aos próprios temas nele tratados e ao quadro no qual são tratados.
Os temas são
de interesse humano universal: o amor, o casamento, a liberdade, a religião, os
filhos, o trabalho, a morte e outros assuntos análogos.
O quadro é o
vasto e livre quadro da Natureza: embora Al Mustafa pregue na praça do mercado,
temos a impressão, ao escutá-lo, de passear com ele nas florestas e nos prados.
Porque ele apresenta sempre suas ideias sob a forma de cenas da Natureza e dos
trabalhos do campos.
E este
retorno simultâneo à Natureza e aos assuntos básicos da Vida seduziu o leitor
moderno pelo efeito do contraste.
Numa época
em que os artistas e escritores procuram temas não somente originais, mas
sofisticados e além do nosso alcance, e em que abandonamos a Natureza e os
trabalhos da Natureza, Gibran reabriu a barragem atrás da qual se acumulava
nossa nostalgia inconsciente de outro tempo e outra vida.
Em Jesus, o
Filho do Homem, Gibran, falando dos sermões de Jesus, diz:
“Ele contava
uma história ou narrava uma parábola, e coisa iguais às Suas histórias e
parábolas sido ouvida na Síria. Parecia tecê-las com as estações, como o tempo
tece os anos e as gerações.
Começava uma
história assim: ‘Um lavrador foi ao campo para semear’.
Ou assim:
‘Havia, certa vez, um homem rico, que possuía muitos vinhedos’.
Ou assim:
‘Um pastor contou seu rebanho ao entardecer, e descobriu que faltava uma
ovelha’.
E tais
palavras levavam Seus ouvintes ao mais cândido de si mesmos e ao mais remoto
dos seus dias.
No fundo,
somos todos lavradores, e todos amamos os vinhedos. E nas pastagens de nossa
memória, há um pastor, e um rebanho, e a ovelha perdida.
E há a relha
do arado, e o lagar, e o pátio de debulhar.”
Não se pode
analisar melhor a arte que o próprio Gibran aplicou em O Profeta. Ele também
leva o leitor ao mais cândido de si mesmo e ao mais remoto dos seus dias. E ele
também parece tecer suas parábolas com o fio do tempo e das estações.
Eis o primeiro segredo do sucesso mundial
de O Profeta.
A Igreja comemora o dia de Nossa Senhora do Carmo em 16 de
julho; e o de Santo Elias, fundador da Ordem do Carmo, no dia 20. Para
relembrar ambas comemorações, segue trecho de uma conferência de Plinio Corrêa
de Oliveira realizada em 14-11-1970.
.
Nossa Senhora é a Rainha da Ordem do Carmo, a primeira Ordem
religiosa constituída de modo especial para o louvor d’Ela. A observância
oficial da Ordem do Carmo é a devoção da escravidão à Santíssima Virgem. Um dos
louvores que Ela recebe de todos os seus carmelitas no Céu é o cântico de seus
escravos de amor.
O que significa, neste caso, ser “escravo de amor”? É a
condição da pessoa que desejou ter uma fidelidade perfeita e completa; que
desejou renunciar a seus haveres e direitos; que desejou renunciar a si mesmo,
inclusive aos bons méritos de suas boas obras; que depositou tudo nas mãos de
Nossa Senhora; e quis viver só para Ela, a fim de que, nessa união, Ela fizesse
tudo, como Senhora de tudo.
A Ordem do Carmo tem a vocação de ser tão unida à Santa Mãe
de Deus, que pode ser chamada de Ordem dos escravos da Santíssima Virgem. No
Céu, com certeza, essa Ordem deve ter um lugar especial junto a Ela. Deve ser o
Céu dos Céus, um lugar eleitíssimo, o melhor dos lugares para os filhos
carmelitas que Ela suscitou para serem seus escravos até o fim do mundo, sob a
direção do máximo escravo d’Ela que foi Santo Elias — esse homem incomparável e
assombroso, que voltará no fim de toda a História para travar as últimas
batalhas por Deus.
Peçamos a Santo Elias, em união com todos os santos da Ordem
do Carmo, que ele se constitua nosso especial chefe, pai e senhor, e auxilie as
almas cambaleantes, dando fervor e claridade aos espíritos indecisos, firmeza à
vontade fraca.
Prossegue intensa nos Estados Unidos a campanha de destruição
de estátuas simbólicas. Foram derrubadas estátuas de Cristóvão Colombo; várias
estátuas de generais heróis na Guerra Civil sofreram a mesma sorte, também
algumas de São Junípero Serra. Estátua de São Luís IX, rei da França, foi
rapidamente recolhida em Saint Louis para não ser vandalizada. E ainda
ameaçadas estátuas dos chamados pais fundadores da nação líder do Ocidente. A
destruição continua, nada parece escapar à fúria vandálica. Além de arrancadas
violentamente dos pedestais, têm sido corrente, para completar a liturgia
caricata, cusparadas, chutes, berros, pinturas afrontosas. Não são raras
mutilações e decepações.
A mensagem lampeja clara: a figura dos homenageados evoca
realidades já não mais toleráveis. Primeiro o símbolo e depois as realidades simbolizadas
serão banidos da superpotência. Acusam-nos de representar uma civilização
escravocrata, imperialista, genocida, opressora, em especial de negros e
índios. Um passo a mais: é a civilização europeia que está no cadafalso. Outro
passo na mesma direção: é a civilização cristã europeia. E a fonte última da
Europa cristã é Nosso Senhor Jesus Cristo. Questão de tempo, chegarão lá, as
estátuas de Jesus Cristo, símbolo de sua doutrina e Igreja, também serão
abatidas.
Aliás, já estamos nas primeiras etapas de tal demolição
revolucionária e — não convém evitar o qualificativo — satânica. Coerente com o
espírito do movimento, foi o que sintomaticamente já anunciou o escritor Shaun
King, ativista social, fundador do “Real Justice PAC” e apoiador do movimento “Black
lives matter”: as imagens de Jesus Cristo também precisam ser derrubadas, pois
lembram “uma forma de supremacia branca”. Imposição da justiça real,
parece, ditadura dos novos tempos.
No começo, o vozerio pela derrubada virá da extrema
esquerda, de movimentos anarquistas e assemelhados, como já exigido por Shaun
King. Depois, vozeadas do centro ecoarão os protestos, propondo a medida como
necessidade de harmonia social. No fim, uma suposta maioria centrista achará
melhor tirar todas as estátuas de Nosso Senhor dos lugares públicos para
preservar o caráter laico do Estado. E, no trajeto, algumas estátuas serão
vandalizadas, sem nenhuma punição, forma de impor celeridade maior ao processo
demolidor. Alguns, com subestima, às vezes calculada, dirão, são atos isolados
de mero alcance simbólico, que não mexem no fundo das realidades que importam,
as quais continuarão as mesmas. Serão as mãos que apagam, as vozes que
adormecem a reação.
Napoleão com o príncipe Metternich com durante a reunião em
Dresden em 26 de junho de 1813. Quadro de Woldemar Friedrich (1900).
Símbolos não importam? Pulo as décadas, retorno para longe.
Em 23 de junho de 1813, Napoleão encontrou Metternich em Dresden [quadro acima].
Ali se jogava a sorte da Europa, a vida, quem sabe, de milhões de homens. Foram
quase quatro horas de conversa, por vezes amável, por vezes tensa e ríspida. De
um lado, o general representante da investida revolucionária. Do outro, o
representante da Europa conservadora. Em certo momento de tensão, os dois em
pé, Napoleão gritou ameaças e atirou o chapéu no chão. Ele era imperador, o
outro, apenas ministro. Esperou um gesto de cortesia de Metternich, recolhendo
e lhe devolvendo o chapéu. Nada. O corso passou ao lado do chapéu, empurrou-o
com o pé. O chanceler austríaco não se mexeu, fingiu nada ter percebido,
continuou a argumentar. Napoleão ameaçou:
— Para um homem como eu, a vida de um milhão de homens, vale
nada.
Metternich olhou o chapéu no chão. Continuou Napoleão:
— Perdi 300 mil homens na Rússia, entre eles não havia mais
que 30 mil franceses. Os outros, italianos, poloneses, alemães.
O ministro atalhou:
— Vossa Majestade se esquece que fala a um alemão.
Napoleão sentiu o golpe, apanhou o chapéu e o enfiou na
cabeça. Derrota simbólica enorme. Ao se despedir, Metternich lhe disse: “Majestade,
sua situação está perdida. Pressentia-o, quando cheguei. Agora, levo comigo a
convicção”.
O encontro de Dresden, pleno de frases e gestos simbólicos
repercutiu. Repercute até hoje. É visto como um dos marcos importantes da queda
de Napoleão. A Europa tomou um rumo detestado pelo imperador da França. Um
gesto simbólico, a recusa de apanhar um simples chapéu (no caso, indício de
temor e traço de subserviência) até hoje é vista como resumo de uma reunião de
mais de três horas. Gestos simbólicos têm efeito enorme, são lances da guerra
cultural. Além da importância em si, são observados como atitudes
prenunciativas.
Será derrota enorme para a Cristandade que diante das
estátuas derrubadas (no frigir dos ovos o que está sendo atacado é a
Cristandade), não haja resposta à altura com desagravos proporcionais e revide
legais, mas altamente significativos.
Donald Trump está em campanha pela reeleição. Qual estátua
os dirigentes da sua propaganda escolheram como a mais representativa para
simbolizar sua causa e, portanto, para ser vista como alvo a ser derrubado
pelos adversários? À primeira vista, seria alguma de um “foundigng father”. Ou
alguma célebre na Europa pelo valor artístico.
Nada disso, foi selecionada a do Cristo Redentor do
Corcovado, braços abertos para o mundo, inaugurada em 1931, eco lídimo do
movimento pela realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ato de enorme
simbologia, visto pelos chefes da campanha presidencial republicana como de
forte repercussão eleitoral. O fato é conhecido. Em propaganda divulgada por
todo o país, encimada pelo Cristo do Corcovado, o texto dizia: “O
Presidente deseja saber quem o apoiará contra a esquerda radical”. Está
dado a entender, queiramos ou não, estamos diante de uma batalha universal.
Dia virá, e não está longe, em que se exigirá no Brasil a
derrubada da estátua do Cristo Redentor do Corcovado. A exigência virá de
grupos ideológicos, inflamados pelas mesmas doutrinas que hoje trabalham nos
Estados Unidos pela destruição de suas raízes históricas e aparecimento de uma
sociedade rasa e ateia, parecida com o mundo comunal imaginado por Marx como
etapa final do comunismo.