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domingo, 26 de abril de 2020

O TETRAPLÉGICO SUSCITADO POR DEUS PARA COMPOR A SUBLIME SALVE RAINHA – Plinio Maria Solimeo


26 de abril de 2020


         Plinio Maria Solimeo


            Hoje em dia tudo é pretexto para o aborto, sobretudo quando o feto apresenta anomalias congênitas tidas como insanáveis. O que dizer então quando o ultrassom prenuncia um menino tetraplégico, com os membros e o tronco totalmente paralisados? Que mãe em nossos dias tem coragem e fé suficientes para permitir que ele nasça?  
            Pois foi o que ocorreu no início do século XI com Hermann Contractus, ou Hermano Contraído ou Aleijado, que se tornou um dos maiores gênios já vistos pelo mundo.
            Esse menino tão disforme, incapaz de caminhar ou de se movimentar, e consequentemente incapacitado para qualquer estudo, nasceu no dia 18 de julho de 1013 em Altshausen, na Alemanha.          
Diante de condições tão desfavoráveis, não sabendo como lidar com o filho, seus pais resolveram entregá-lo aos sete anos de idade aos cuidados dos monges beneditinos do mosteiro de Reichenau [foto ao lado], na ilha do mesmo nome, no lago de Constança, onde possuíam um orfanato para meninos. Naquela época de fé, os monges receberam o infeliz Hermann com compaixão e amor, por verem nele uma criatura de Deus. 
             Comenta o site espanhol Religion em libertad, do qual extraímos esta matéria: “Em qualquer civilização não cristã, de qualquer época e latitude, uma pessoa como Hermann teria sido eliminada, ou não teria nascido. Por que seus pais decidiram não eliminá-lo? Por que os monges de Reichenau decidiram não eliminá-lo? Por que ele, nas dramáticas condições de dor física em que vivia, não pediu para ser eliminado? Mons. Luigi Giussani assim nos explica: ‘Porque para ele Deus era incomensuravelmente mais pertinente e existencialmente mais vivo do que para nós. Só Cristo dá um sentido de Deus tão concreto, poderoso, incisivo, dominante e apaixonante’. Sim, só Cristo dá. E uma sociedade que renega este aporte não é uma sociedade mais evoluída ou mais moderna. É apenas uma sociedade mais pobre e mais cínica”.       
Como reagia Hermann à sua quase total paralisia à medida que crescia? Esse aleijado não era um revoltado contra a sua sorte, contra o mundo e contra todos, como se poderia supor em nosso mundo igualitário, mas, por meio de sua profunda fé, aceitava com espírito sobrenatural o quinhão que a Providência lhe reservara, sabendo dar um sentido à sua existência apesar das dificuldades cotidianas decorrentes de uma dor física que lhe causava um sofrimento contínuo. Por isso era uma pessoa alegre, afável, mansa, humilde e acessível; em resumo, era feliz em meio a todas suas limitações.
            Quando os monges começaram a lhe ensinar as primeiras letras, perceberam que Herman possuía uma inteligência muito acima da média, o que o levava a aprender a ler e escrever com facilidade. Então o fizeram estudar. Aprendeu latim, grego e árabe e se tornou perito em várias ciências. Fez-se monge aos vinte anos e passou o resto de sua vida na Abadia que o acolhera.
            Desdobrando-se em solicitude, os bondosos monges haviam construído para ele uma cadeira transportável que lhe permitia ser levado para onde necessitasse. Nela, entretanto, devia permanecer sempre em uma posição, pois qualquer movimento lhe era doloroso.
   
        As limitações de Hermann não o impediram de escrever numerosos livros, entre eles o Chronicon, onde compilou pela primeira vez os eventos desde o nascimento de Cristo até o tempo em que vivia, quando esses dados estavam espalhados em diversas crônicas. Ele os ordenou de acordo com os anos da era cristã. Um de seus discípulos, Bertoldo de Reichenau, continuou o trabalho.

            Hermann escreveu também obras espirituais dedicadas a religiosas e sacerdotes; tratados sobre a ciência da música; diversas obras sobre geometria e aritmética; as gestas de Conrado II e de Henrique III; compôs o Ofício litúrgico de alguns santos (São Gregório Magno, Santa Afra de Augusta, Santos Gordiano e Epímaco e Wolfgang de Regensburg). Além disso, escreveu sequências sobre a Virgem Maria, a Cruz e a Páscoa.
            Quando no final da vida ficou cego, Hermann começou a escrever hinos religiosos, tanto a letra quanto a música, a mais conhecida das quais é asublime antífona Salve Regina (Salve Rainha). Compôs também a letra e música da Alma Redemptoris Mater, que uma alma bem formada não pode ouvir sem profunda emoção.
             Comenta Religion en Libertad“Enquanto compunha o canto da Salve Regina e escrevia o verso gementes et flentes in hac lacrimarum Valle (gemendo e chorando neste vale de lágrimas), Hermann se referia também ao sofrimento que lhe causava sua própria condição física. É incrível que um dos raros hinos que sobreviveram à reforma litúrgica post-conciliar, e que ainda se canta nas igrejas há mais de mil anos, seja precisamente composto por um tetraplégico, um incapaz, uma pessoa que a mentalidade de hoje definiria como ‘indigna de viver’; mais ainda, inclusive ‘indigna de nascer’, e que, com toda probabilidade, na sociedade atual, seria abortada. O fato de que se continue a cantar há mais de um milênio a Salve Regina parece realmente uma dádiva de Deus”.
         
Alguns anos depois, o célebre abade de Claraval, São Bernardo [quadro ao lado], ouvindo essa suave antífona enquanto entrava na catedral de Speyer, na Alemanha, extasiado, ajoelhou-se três vezes, exclamando em cada uma delas: Ó clemens, Ó pia, ó dulcis Virgo Maria! Essas exclamações foram acrescentadas à oração Salve Rainha, completando-a com chave de ouro.
Entretanto, o campo no qual Hermann mais revelou a grandeza de seu gênio foi o da astronomia. São dele dois dos mais importantes tratados sobre o astrolábio, o De Mensura Astrolabii e o De Utilitatibus Astrolabii, com instruções para a construção desse aparelho, na época grande novidade na Europa. Essas obras lhe valeram o epíteto de Prodigium saeculi (milagre do século). Sua fama fez com que o Imperador Santo Henrique III e o Papa Leão IX fossem visitá-lo no mosteiro de Reichenau.
             Continua Religión em Libertad“Dizia Giussani: ‘Como pode uma existência de sofrimento tornar-se tão rica e amável? Essa energia conferida pela adesão à realidade última das coisas permite utilizar também o que o mundo que nos rodeia considera inutilizável: o mal, a dor, o cansaço de viver, a incapacidade física e moral, o aborrecimento, inclusive a resistência a Deus. Tudo pode ser transformado e mostrar maravilhosamente os efeitos de sua transformação quando se vive em função da realidade verdadeira: se ‘se oferece a Deus’, como reza a tradição cristã. Oferecer a Deus qualquer miséria é o contrário da abdicação, de uma aceitação automática, de uma resignação passiva; é o vínculo, afirmado de maneira consciente e enérgica, da própria particularidade com o universal’. Hermann soube ser uma testemunha luminosa dessa transformação em seu oferecimento a Deus com uma serenidade que causou assombro entre seus contemporâneos”.
               Esse gênio santo e sofredor entregou sua bela alma ao seu Criador no dia 24 de setembro de 1054, com apenas 41 anos de idade. Seu fiel discípulo Bertoldo assim descreve seus últimos dias: “Quando, afinal, a bondade amorosa do Senhor se dignou libertar sua santa alma da tediosa prisão do mundo, ele teve uma pleurisia, e sofreu durante dez dias uma grande dor’. Em seu leito de morte, Hermann consolou seu discípulo, que o velava triste, com estas últimas palavras: ‘Não chores por mim, meu amigo. Sinta-te feliz e contente com meu destino. Pensa cada dia que tu também terás que morrer, e esforça-te para estar sempre preparado para esta eventualidade, e reflete sobre tua última viagem, porque não sabes nem a hora nem o dia que me seguirás, a teu queridíssimo amigo Hermann’. Dizendo isto, expirou”, após ter recebido a Sagrada Eucaristia.
               Embora tivesse sido imediatamente venerado como santo, o culto a Hermann Contractus só foi oficialmente confirmado pela Igreja em 1863, quando foi beatificado pelo imortal Papa Pio IX.

Texto da Oração
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve! A vós bradamos os degredados filhos de Eva; a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto de vosso ventre.
Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria.
Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
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PALAVRA DA SALVAÇÃO (180)


3º Domingo da Páscoa – 26/04/2020

Anúncio do Evangelho (Lc 24,13-35)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém. Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram. Então Jesus perguntou: “O que ides conversando pelo caminho?” Eles pararam, com o rosto triste, e um deles, chamado Cléofas, lhe disse: “Tu és o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias?”

Ele perguntou: “O que foi?” Os discípulos responderam: “O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo. Nossos sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto. Elas foram de madrugada ao túmulo e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos e que estes afirmaram que Jesus está vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porém, ninguém o viu”.

Então Jesus lhes disse: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?”

E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele. Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!” Jesus entrou para ficar com eles. Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. Então um disse ao outro: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros. E estes confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Evangelho, feita pelo salesiano Danilo Guedes:

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"Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido” (Lc 24,14)

Nossa vida é parte da História, e esta, por sua vez, é formada pelas histórias de nossas vidas, pontilhadas e marcadas pela presença de outras muitas histórias.

A História, por si mesma, é provocante e nos fascina; ela tem um estranho poder de sedução. Nós nos reconhecemos nas histórias da História; isso nos facilita tomar consciência de onde estamos e quem somos, e nos ajuda a assumir decisões mais maduras frente aos desafios e surpresas que a vida nos reserva.

A vida só tem sentido quando se torna História, isto é, quando não se limita a repetir o passado, mas quando engendra algo novo e diferente a partir de uma História internalizada e saboreada.

É somente no nível mais profundo que o ser humano transforma seu “tempo” em história e seu “espaço” em encontro.

No relato dos “discípulos de Emaús”, o encontro com o Ressuscitado nos ajuda a “ler” a História, pessoal e coletiva, de uma maneira diferente e instigante. A história triste e fracassada dos dois discípulos adquire um novo sentido a partir da luz dos relatos bíblicos que o Peregrino traz à memória.

A partir da “memória bíblica”, eles são movidos a “re-ler” a própria história com novos olhos, re-construindo-a, dando a ela um novo significado e deixando-se impelir a escrever uma nova história.

Marcados pelo dinamismo da Ressurreição, cremos profundamente na força evocativa e transformadora da história; encontrar-nos com ela significa caminharmos para o interior do mistério da mesma história; significa também deixar-nos questionar, iluminar e mobilizar por ela.

Com isso, re-iniciamos um novo caminho de aventura, que consiste não só em receber e celebrar a história, mas atualizá-la, reescrevê-la, confirmá-la... Uma história com rosto de futuro... e um futuro inspirador.

A história se revela, assim, como um húmus vivente, uma atmosfera de graça, uma torrente subterrânea na qual se nutre todo o processo do seguimento de Jesus. Não é fora da História e de sua história que o(a) seguidor(a) de Jesus pode reconhecer a Vontade de Deus e escutar Seu apelo; porque “Deus se fez História” e só o Verbo Encarnado, agora Ressuscitado, pode ser “o verdadeiro fundamento da história” (S. Inácio). A partir do Jesus ressuscitado, a história de cada um e da humanidade inteira adquire uma nova luz e um novo sentido e se abre a um vasto horizonte de compromisso.

A história pessoal do cristão e a história do mundo tornam-se, portanto, o “lugar” habitual da experiência de Deus, a montanha da misteriosa sarça ardente que não se consome. 

Fazer memória das histórias não significa querer mudá-las, mas adquirir nova perspectiva, um novo olhar. Com freqüência, esta perspectiva nos ajuda a entender melhor nossa situação atual. Trata-se da “memória agradecida”: tudo tem sentido, nada é desperdiçado...

Quando a história é contada e re-contada, acontece a cura da memória. Em lugar de uma história opressiva e pesada, passamos a contar com uma “história redentora”. O momento da Graça é precisamente esse: quando, de repente, a perspectiva muda, encontramos um “novo sentido” e surge uma saída do emara-nhado de lembranças, emoções e histórias de fracassos e decepções.

Isso aparece claramente no relato evangélico deste domingo.

Na narrativa, o Forasteiro ajuda os dois discípulos a “desatar” o nó de suas lembranças traumáticas e a compor uma nova história. A história de Jesus, com seu fim decepcionante, tornou-se pesada e eles procuram fugir de Jerusalém e da terrível lembrança da morte do Mestre. Mas a história os acompanha na estrada. Não param de repeti-la. Mesmo quando dizem as palavras certas, a intensidade emocional da experiência não lhes permite ouvir a história de uma perspectiva diferente. 

Enquanto caminhavam, conversavam e discutiam com tal intensidade que nem perceberam a aproximação do forasteiro. Falar de maneira tão intensa de uma experiência recente demonstra que ela teve forte impacto na vida deles, mas o significado desta dura experiência está envolvido numa obscuridade.

Para eles, a história não faz sentido. A história de Jesus, com seu fim decepcionante, tornou-se agora traumática. Esforçam-se para encontrar a única coisa que vai ajudá-los a superar a dor, transformar a lembrança, permitir que continuem suas vidas, refugiando-se no passado.

Foi preciso discernimento por parte do Forasteiro para libertar seus discípulos daquela interpretação nociva da história. Ele reorienta a história sem diminuir a gravidade do que acontecera.

O Forasteiro não só reconta a história de Jesus, mas também tem de remodelar todas as histórias das relações de Deus com Israel. A “história pessoal” é “recontada” e considerada no contexto de uma história muito mais ampla; há uma ligação profunda entre todas as histórias, constituindo-se na grande História da Salvação. A descoberta desta nova perspectiva acontece como momento de graça que desce sobre eles.

A história re-contada começa a reconstruir a humanidade deles, a esperança vai retornando, os corações vão se aquecendo, a alegria vai surgindo em seus rostos... O Forasteiro, ao criar um círculo de confiança, abriu “espaço terapêutico” para que os discípulos contassem sua história em segurança e começassem a re-alimentar uma nova esperança. Foi criado um ambiente de hospitalidade que culminou na Ceia.

É nesse ambiente que a taça do sofrimento transformou-se na “taça da esperança”.

Das cinzas brotaram a esperança, o entusiasmo e os sonhos... e eles apressaram-se a voltar para Jerusalém a fim de partilhar a descoberta de um novo sentido da história. 

A partir do fundamento da História (Jesus Cristo), contemplamos nossa própria história (pessoal e institucional): história que deve ser observada, lida, discernida. Tal experiência nos ajuda a abrir os olhos para a novidade inesgotável da vida, nos faz “aquecer o coração”, desperta em nós o desejo e mobiliza todas as nossas capacidades para um compromisso de ação transformadora na história pessoal e coletiva.
A História está sempre aberta, desafiando-nos, arrancando-nos de nosso imobilismo, despertando nossa criatividade para ser re-escrita de uma maneira diferente.

Nossa história pode ser poderosa motivadora de mudança; ela nos levanta quando estamos dispersos e sem direção; ela não é apenas relato do passado, mas parte viva do que somos agora; ela nos traz para “casa”, para nossa própria integridade e identidade.
Assim, a experiência pascal significa “conhecer”, “sentir” e “amar” a nossa própria história. É uma verdadeira experiência de Ressurreição.

Só assim a história se converte em “Epifania” (manifestação) de Deus e nos permite compreender, acolher e integrar tudo o que acontece, dentro e fora de nós.

Este é um tempo de Graça: o encontro vivo da “história” celebrada com o compromisso de construção da “nova história”, mais ousada e mais criativa. Trata-se de um momento tão fortalecedor e jubiloso que estremecemos reverentes diante do que celebramos.
Sem a luz da Ressurreição, nossa história, pessoal e coletiva, se reduz a eventos opacos, vazios, tristes...

Com a Ressurreição, a história se ilumina, se transfigura e nos desafia. A Ressurreição plenifica, dá sentido e costura os eventos, constituindo-se em “História de Salvação”. Ela nos faz ver o que todo mundo vê, mas de um “modo” diferente: vemos mais longe, vemos além, vemos mais fundo... 

Texto bíblico:  Lc 24,13-35
Na oração:   Diante da história pessoal e social, sinto-me desafiado? Paralisado(a)? com medo? Inquieto(a)?
                    Quanto de esperança carrego em meu interior?
                    O que me faz abrasar o coração diante de uma história que parece um fracasso?

Pe. Adroaldo Palaoro sj
   
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sábado, 25 de abril de 2020

DIZERES, DITADOS, PROVÉRBIOS




O uso do cachimbo faz a boca torta
A agulha veste os outros e vive nua
Ninguém vê a trava do seu olho
Vão-se os anéis, mas ficam os dedos
Para quem não tem gosto catinga é cheiro
Chumbo trocado não dói
Jacaré é o apelido dado ao moço que fica à porta das igrejas à espera da passagem da namorada.
Antes ser o ferrão do que ser o boi.
Quem viaja na garupa não dirige a rédea
É na casa dos pobres que os barbeiros aprendem
É melhor ouvir “fala rapaz” do que “cala-te rapaz”
O direito do anzol é ser torto
Quem está montado na razão não carece ter esporas
Não se muda de cavalo no meio do banhado
Entre os bois não há cornadas
Quem não tem o que fazer, cata pulgas, faz colher de pau e borda o cabo, derruba a casa e torna a erguê-la, ou põe o mundo a perder
Corda muito esticada, rebenta
Urubu quando está sem sorte, o de baixo suja no de cima.

FONTE: Folhinha do Coração de Jesus

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sexta-feira, 24 de abril de 2020

PLENITUDE - Péricles Capanema


22 de abril de 2020

Péricles Capanema

Não vai falar do covid-19? Tenha paciência, tratar de plenitude? Que atualidade tem isso? Calma, vou escrever sobre o covid-19. E por que escolhi logo plenitude? Sei, o assunto não dá manchete, parece do mundo da lua, desinteressante, frio. Incende para mim, precisa queimar; quanto mais, melhor.

Em linhas muito gerais, vou discorrer sobre uma plenitude, a humana. Com temperança, buscar a própria plenitude, em qualquer âmbito (moral, cultural, financeiro), é direito humano. Devagar. Plenitude tem (apenas) a atualidade do perene; no caso, perenidade de enorme relevância. Semanas atrás, em escrito sobre objeto parecido, observei: “Eles são perenes. Com efeito, em muitos sentidos o que é verdadeiramente atual deixa ver sempre a nota do perene — eco do imorredouro no presente. O resto é só o momentâneo, o passageiro, o fugaz, o efêmero, o fugidio, sei lá o que mais. Realidades breves evanescentes, minguando rumo ao nada.”

Estou convencido, é imprescindível manter o assunto plenitude em lugar alto em nosso panorama mental. Jamais retirá-lo daí — providência simples, irriga todo o espírito. Se permanecer no horizonte de grande número de pessoas, vai estimular avanço civilizatório, será vacina contra retrocessos e atrasos que, em última análise, fortalecem a opção preferencial pela atrofia, parte integrante da política, já de séculos, mesmo que inconfessada, das correntes revolucionárias. Exemplos paroxísticos e próximos são Cuba e Venezuela. No século passado, foram macabros e didáticos exemplos (melhorando, advertências), celebrados pelos progressistas mundo afora, a Revolução Cultural Chinesa e o Camboja do Khmer Rouge — pelo menos, até a revelação, ainda hoje parcial, da realidade dantesca. Muita gente no Brasil, de alto a baixo da escala social, movida pela mitomania igualitária, fez a opção preferencial pela atrofia, não vai mudar nunca. Os partidos de esquerda e o “progressismo católico” estão abarrotados delas. E não só lá.

Otto Lara Resende comentava, Nelson Rodrigues era uma “flor de obsessão”. Com isso queria significar, o amigo repetia sempre alguns pontos. Batia, rebatia, martelava, reiterava, insistia, reafirmava, recordava, repisava as mesmas trilhas. Atalhos perenes. O dramaturgo recifense concedia ser e no, é isso mesmo. “Sou um obsessivo e houve alguém que me chamou de ‘flor de obsessão’. Exato, exato, e graças a Deus. O que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões.” Morreu 40 anos atrás, até hoje seus textos são dos mais lidos no Brasil. Ninguém se lembra, ou quase tanto, quais eram seus críticos. Depois de frigir os ovos, tem coisa mais atual que a perenidade?

Entre companhia vasta, ou seja, pessoas que viam utilidade na repetição, Nelson Rodrigues teve uma de especial relevo, Napoleão. “A repetição é a mais forte figura da retórica”, garantia. Para que serve a retórica? Persuadir. E o melhor instrumento para convencer seria a repetição, opinião de alguém com forte propensão de convencer pelo fuzil e chicote.

Acho também, pelo menos na confusão da atual quadra histórica, é indispensável repetir alguns assuntos (plenitude, um deles), mesmo com o recurso disfarçado pelo emprego de meios variados. Martelar até que os argumentos entrem e se acomodem na cachola. Pode parecer obsessivo; paciência, precisa. Um dia, quem sabe o tema da plenitude humana exploda nas manchetes, é anelo meu, seja tratado como valor que acho normal lhe seja atribuído; relevância dispensada por todos, claro, mas em especial pelos que decidem os rumos da nação.

Verdade, aspiro que seja preocupação central dos que decidem os rumos danação. Não estou aqui me referindo, todavia, sobretudo a quem tenha destaque no Executivo, Legislativo, Judiciário, empresariado, meios de divulgação, academia. Longe disso. Foco realidade diferente. Refiro-me em particular a gente espalhada em todos os meios sociais que, entre outros atributos, tenha amplitude de vistas, bom caráter, dotes de observação, pensamento próprio, esteja interessada no bem comum, saiba valorizar doutrina e movimentos de alma no público. Coloca-se, pela força dos fatos, à frente do povo, tem influência decisiva nos seus destinos.

Talentos, se quisermos, qualidades naturais, desde que não permaneçam latifúndio improdutivo, são o mais importante ativo de um povo, mais que qualquer outro. Em contas finais decidem seu bem-estar e presença na História. Florescê-los é o decisivo. Grandes benfeitores, quem os estimula, das sementes aos frutos; criminosos, quem os atrofia, impedindo que das sementes surjam árvores, plenitude daquelas.

Nas pessoas, nas famílias, nos grupos sociais, latejam talentos já plenamente desabrochados, outros pelo meio do caminho, outros ainda latentes, mananciais para aperfeiçoamentos futuros. Levá-los à perfeição, mesmo que relativa, cabe primeiramente às famílias, à escola, a instituições próprias, aos mais variados ambientes sociais. De maneira suplementar, ao Estado. Não é coisa de um dia. Acontece, qualidades em uma família levam duas, três gerações para se desenvolverem plenamente. Volto a Napoleão, “a educação de uma criança começa vinte anos antes de ela nascer, com o nascimento de sua mãe”. Infelizmente, em cada geração a imensa maioria das qualidades naturais não chega ao pleno florescimento, à plenitude, enfim. Mais ainda, não é raro, em cada geração, antigos reservatórios de conhecimentos, costumes, modos de fazer e de ver a vida de enorme valor acabam indo para o ralo, somem. E é preciso começar do chão outra vez.

Hoje, em frangalhos, a família perdeu muito de sua capacidade formativa. Mas, de si, é a estufa natural para o florescimento das sementes. A seguir, de forma suplementar, outros grupos sociais. Todos somos, uns para os outros, em ocasiões próprias, mestres, modelos, regentes.

Ponto escamoteado, mas central, convém ser realçado, pois é foco difusor de excelência, um dos reflexos da plenitude. Nas mais variadas elites de um povo, elites de artesãos, de escritores, de empresários, de políticos, de diplomatas, de professores, de cozinheiros e cozinheiras, sociais, de financistas, de seleiros, o tempo vai depositando valioso acervo de perfeições humanas, necessárias ao bem comum, que é crime desconhecer, subestimar, a elas ser indiferente; mais ainda, atacar. Pelo contrário, o dever é estimulá-las com proporção, pois favorecem o aperfeiçoamento social.

Preciso fechar. Reflitamos sobre plenitude; pessoal, familiar, social. O mundo pós-pandemia será muito melhor, se dermos ao tema o lugar merecido.



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CLIMA RUIM NA POLÍTICA BRASILEIRA – JR Guzzo


      
 Por JR Guzzo



Há um clima ruim na política brasileira, possivelmente o pior até onde a memória alcança nos anos mais recentes. Já não estava bom antes da chegada do coronavírus ao Brasil, por volta de dois meses atrás, com o conflito cada vez mais aberto, mais rancoroso e mais intransigente entre o governo do presidente Jair Bolsonaro, de um lado, e as chefias que dão o tom à atuação do Congresso Nacional, de outro. O Judiciário, no meio, não tem a confiança de nenhuma das duas partes, e menos ainda da população; não tem estatura, nem moral, para mediar nada. Agora, com o desastre trazido pela epidemia, a disputa ficou ainda mais perniciosa. Será tão ruim quanto o vírus se ela degenerar em guerra.

É verdade que não se pode subestimar os altos teores de mentira que envolvem o presente confronto; é possível, de um lado e do outro, que haja mais gente fazendo cena para a plateia do que operando a sério para virar a mesa. Mas, do ponto de vista das cenas exibidas ao público, nunca a situação pareceu tão complicada como agora. Vai se ver mais adiante, inevitavelmente, se isso é mais uma batalha de Itararé, a que nunca aconteceu, ou se é uma briga à vera. No momento, o que temos é um estado de hostilidade declarada entre os poderes.

Este domingo foi um marco. Em Brasília, para surpresa e susto de muita gente, o presidente da República decidiu discursar diante de uma  multidão que se juntou em frente ao Quartel General do Exército – logo onde – pedindo “intervenção militar já”, fechamento do Congresso e do STF, a volta do Ato Institucional número 5, que boa parte dos manifestantes nem saberia explicar direito o que foi, e por aí afora. De cima de uma caminhonete, cercado por um cordão de isolamento composto por cerca de 200 militares do Exército, Bolsonaro veio com artilharia pesada. “Nós não vamos negociar nada”, disse ele. “Temos de acabar com essa patifaria. Esses políticos têm de entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro.”


Foram as palavras mais pesadas que Bolsonaro já utilizou em público desde o começo da briga com o Congresso. “É o povo no poder”, resumiu ele, enquanto oficiais do Exército tiravam selfies e sorriam para a multidão. Foi uma maneira de dizer ao mundo político que, no seu entendimento, a massa da população está com ele, e não com os deputados, senadores e magistrados – e que pretende apostar no apoio da rua para enfrentar o inimigo. Parece convencido, também, que as Forças Armadas estão fechadas com ele. (No mesmo momento, o general Edson Pujol, comandante do Exército, declarou que a epidemia é “uma das maiores crises vividas Brasil nos últimos tempos”. A “força terrestre está em sintonia com as necessidades e aspirações do país” disse ele. “Somos 220.000 combatentes dispostos a lutar”.)

O general Pujol estava falando da disposição dos militares em combater o vírus, mas é pouco provável que o Exército tenha se empenhado a sério em dissuadir os organizadores da manifestação de escolherem justamente o espaço púbico em frente ao Quartel General para pedir o fechamento do Congresso e do Supremo. Há o direito constitucional à livre expressão, é claro, e as Forças Armadas não podem impedir que as pessoas se manifestem – mas por enquanto ninguém ainda viu os militares assinarem proclamações de apoio ao deputado Rodrigo Maia, ou ao presidente do Senado, ou aos altos magistrados dos nossos tribunais superiores.

Se não podem contar com a devoção das Forças Armadas, muito menos é o povo nas ruas que vai salvar os políticos numa briga de verdade, não é mesmo? Nem eles acreditam nisso. A coisa realmente não está boa.

J.R. GUZZO jornalista


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quinta-feira, 23 de abril de 2020

PROTEÇÃO ESPIRITUAL: POR QUE PRECISAMOS DELA? - Luiza Fletcher



Proteção espiritual

Proteção espiritual – A importância de se proteger energeticamente
Nós somos almas que viemos ao mundo em corpos físicos. Aqueles de nós que compreendem este fato, entendem que a vida é muito mais do que apenas o que experimentamos nesses corpos.

Em nossa vida em sociedade, nós nos deparamos com várias situações diariamente. Muitas vezes, nós nos sentimos desconfortáveis e de certa maneira “descarregados” ​​quando alguma pessoa se aproxima demais. É como se ela alcançasse nossas auras e, dessa maneira, deixasse nosso campo de energia vulnerável, e assim nós absorvemos todas as energias que elas emanam.
Essas energias podem ser positivas ou negativas, mas é essencial fazermos um trabalho para nos protegermos das influências da negatividade. Precisamos também aprender a proteger nossos campos de energia ao nos relacionarmos em nosso dia a dia, para não absorvermos problemas desnecessários que não são de nossa responsabilidade.

  
Estou realmente protegido?

Quando estamos espiritualmente desprotegidos, os sintomas se manifestam tanto em nossos corpos emocionais quanto nos mentais.
Para ajudá-lo a identificar como você se encontra, colocamos abaixo uma lista de alguns sintomas de um campo de energia desprotegido:
Falta de paciência
Irritabilidade
Fraqueza diante da influenciabilidade
Comportamento defensivo ou agressivo
Pesadelos frequentes
Fanatismo
Desvalorização do próprio eu e supervalorização do outro
Dores físicas, especialmente na parte de trás do pescoço e pulsos.

Construindo a própria proteção

Abaixo estão algumas maneiras de construir a sua própria proteção. Encontre a que mais funciona para você e mantenha-se firme!
Cuide de sua saúde mental, emocional e espiritual
Certifique-se de beber muita água
Dê preferência às roupas que possuem cores que ajudam na proteção energética. Alguns exemplos são: violeta, azul, ouro, prata.
Desenvolva a técnica de visualização, ela pode ajudá-lo a transformar energias negativas em positivas.
Use ou carregue consigo cristas de proteção, como Olho de Tigre, Ametista, Olho de Falcão.
Esperamos que estas dicas o ajudem a fortalecer sua proteção espiritual, pois precisamos cada vez mais.



LUIZA FLETCHER

Redatora do site O Amor, onde sua missão é promover a reflexão e ajudar a aproximar as pessoas do amor...
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quarta-feira, 22 de abril de 2020

A POESIA MANSA DE CONCEIÇÃO NUNES BROOK – Cyro de Mattos


A Poesia Mansa de Conceição Nunes Brook
Cyro de Mattos

          Filha do pecuarista Isaac Nunes e Dona Rosalva, Conceição Nunes Brook nasceu em Ibicaraí onde viveu a infância, preenchida de brincadeiras e coisas naturais na música da inocência.   Mudou-se para Salvador onde a moça de beleza radiante foi eleita Miss Glamour Girl.  Quando morou no Rio mais tarde foi estudante da PUC.  Casada com um norte-americano, de quem teve três filhos, mudou-se para os Estados Unidos.

          Sempre se sentiu estranha nos Estados Unidos, a alma com seus bemóis líricos em compasso brasileiro não aceitava os sons de uma paisagem humana distante, permeada de cenas diferentes. Pouco lhe dizia no íntimo, que pulsava no Brasil.  Era ave presa na solidão dos vazios, sem plumagem, nem bondoso canto   nos caminhos da indiferença.   Tornou-se uma criatura estranha, sem ajuste no cenário que não lhe dizia respeito, sem conexão da alma, a  motivar o disfarce onde não havia tempo para renascer.  Era natural que o tempo fosse parado, “todo o ser disperso com medo do amanhã.”

          Avistava Nova York sem as substâncias que correm nas veias, vindas da infância e das lembranças fraternas, que viravam agora a mulher sozinha na difícil arte de camuflar. Via Nova York como serpente traiçoeira, de bote armado na esquina, a que fere, queima e cega, tritura e devora “inocentes e deslumbrados mortais.”  Separada do marido, voltou ao Brasil, vindo a falecer anos depois, vítima de doença cancerígena.

          Publicou dois livros de poesia, Teu rosto de bem-me-quer, pela Editora Itapuã, Salvador, 1978, e Me basta uma janela, Editora Record, Rio de Janeiro, 1984, com o desenho da capa e ilustrações internas do consagrado Carlos Bastos.  Chama a atenção   que poeta desconhecido, jovem, sem convívio na ambiência literária da época, em Salvador e no Rio, tenha conseguido a proeza de ter publicado seu segundo livro de poesia por uma editora importante, de circulação nacional, sediada na metrópole carioca. Naquela época Rio e São Paulo funcionavam como tambores culturais do Brasil. E até hoje com um lirismo valioso em forma de carícia, embora de legado pequeno, continue sua poesia nem sequer referenciada com o   seu nome no dicionário de autores baianos, nem em antologias da poesia na região sul baiana.

          Há poetas que fazem da vida uma canção de versos mansos, na qual a inspiração reveste-se de ternura, pulsa na transpiração leve até nos momentos difíceis. A poesia de Conceição Nunes Brook é dessa natureza doce, de tristeza bondosa, tecida com os fios do sonho que se abriga na palavra terna para falar da vida com suas falhas.  Risca o instante no eterno tocado de partituras sentimentais, que pulsam antigas e batem no agora ferido.

           Um dos poemas belos do livro, “Lamento da Esposa Esquecida”, versos que soam como gemidos do vento, que fere e não tem volta, a poeta diz do marido ausente, a quem gostaria de falar, como o ar que entra pela fresta. Lembrar “do ritmo manso da respiração do nosso filho a dormir” e mais, que ele visse “as duas borboletas tênues que há pouco pousaram em minha janela e voaram juntas num amor fugaz e eterno, pois são curtas as suas vidas”.

          Longe de ser uma poesia hermética, mas figurativa em sua estética definida com clareza, apoiada em unidades rítmicas leves, Conceição Nunes Brook faz de cada poema uma música, um leve sentido, tocado pela vida transformada no mais belo sonho. No encanto envolve com seus dizeres reveladores de segredos, angústia, confissões tristes, impressões alimentadas de esperança, como se fosse seu propósito final guardar esse transe transmitido pela musa mansa  no coração como um manual de delicadeza perfeito.  Até quando aparece em momento grave, a vida sobreposta na areia dos caminhos passageiros, emerge de uma luz, que leve e distante  esquecerá de quem se foi, mas apesar disso se conserva como suave nesta distância da alma.

          Ante a certeza que a vida é falha, limitada, contraditória, a gerar o medo e o amor, ruídos comuns da solidão,  imperfeições das ausências que não se explicam, essa poesia se basta quando enxerga  a vida através de uma janela. É desta janela que reparte os sentimentos, captura temas e momentos de acordes graves.  Para ler o que enxerga com o coração, em suas circunstâncias, basta essa janela aberta no imaginário, que aflora de dentro de si como densa e pungente fantasia.

          Dessa janela é que avista a vida a galopar em ágeis montarias no jóquei, o vermelho das flores nos galhos de esplêndido dia, o Cristo  de braços abertos para os espantos filtrados em máquinas fotográficas, a lembrança das vacas mansas e brancas a ruminar o tempo em mansidão nos  campos verdes  da fazenda paterna. Ali, nesta janela, sabe a sonho e choro como momentos essenciais da existência, ternuras e decepções inevitáveis, que deixam no final a harmonia perfeita do poema merecido.

          Leitora constante de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Cesário Verde, Shakespeare e Walt Whitman, mostra-se em algumas epígrafes no poema nessa boa companhia. Cônscia de que, como Ann M. Lindberg, somos todos ilhas em um mar comum, essa baiana de Ibicaraí diz no verso as coisas mais simples e menos intencionais, pois nela o frágil é forte, alimenta-se da verde esperança.

          Sua poesia é necessidade vital, como dormir, comer, sonhar, habita o tempo intervalar entre viver e morrer.  Sempre mirando essa flor com desvelo, impressa no chão de bondade triste, diz no poema “Inevitável” de sua crença:


Uns morrem de amor
Eu faço poesia
Uns marcham em protesto
Meu lema é a poesia
Uns se suicidam
Ou são homicidas
Meu ópio é a poesia
Uns se desesperam
Meu grito é a poesia
Uns morrem no exílio
Meu país é a poesia
Uns dão volta ao mundo
Meu barco é a poesia
Uns trancam-se mudos
Meu silêncio é a poesia
Uns,  danças e festas
Meu canto é a poesia
Uns ganham medalhas
Meu prêmio é a poesia
Ou são condenados
Minha pena é a poesia
Uns pedem socorro
Meu amparo é a poesia,
Uns querem resposta
Quanto a mim:
Me basta a poesia.

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Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Publicado em inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, russo. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro titular da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. 

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