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sábado, 27 de abril de 2019

VIDA LONGA AO LIVRO – Vitor Tavares*


O Dia Mundial do Livro, é a ocasião perfeita para fazermos uma reflexão sobre a sua importância, sobre os desafios do setor, e também para celebrarmos as conquistas.

Antes de qualquer coisa, precisamos ter claro que o livro é um objeto de democratização e cidadania. Por isso, é fundamental que a leitura seja encarada com seriedade e responsabilidade.

O livro e a leitura se tornam fortes e permanentes em um ambiente economicamente saudável, de segurança jurídica e de liberdade de pensamento. Por isso, devemos aproveitar o momento para rever modelos, pensar em alternativas e fortalecer toda cadeia produtiva e criativa do livro.

Todos os setores da economia vivem um momento de transformação. Neste cenário, a atualização de modelos de negócios, em especial do livro, é urgente. O fato é que os diversos produtos da indústria criativa disputam o tempo das pessoas. Na última edição da pesquisa Retratos da Leitura (2016), o hábito da leitura fica em 10º lugar quando o assunto é o que gosta de fazer no tempo livre, atrás de assistir TV, ouvir música, acessar a Internet, entre outros.

O livro é, em sua essência, um objeto de várias possibilidades, ele pode chegar ao leitor em diversos formatos: no tradicional formato impresso, já tão querido e aceito pelos leitores; no formato digital, que facilita a portabilidade, ou em audiolivro, que permite o acesso ao conteúdo do livro durante outras atividades. As possibilidades estão aí, mas é necessário entender o desejo do leitor e oferecer o livro da forma esperada.

O momento é instigante: ao passo que devemos superar obstáculos, o terreno é fértil para criar novas oportunidades. Rever modelos tradicionais que temos praticado há muito tempo, repensar a consignação, ampliar os canais de distribuição, incentivar a criação de novos pontos de vendas e atualizar a experiência de compra nas livrarias é tarefa fundamental agora.

A situação pela qual o setor livreiro passa me faz lembrar uma antiga campanha das padarias de São Paulo: "Pão se compra na padaria". Claro que o comportamento do consumidor não é estabelecido por uma simples frase, acontece que juntamente com a frase quebraram-se vários paradigmas. A padaria passou a ser um local de convivência, com mais possibilidades e mais atenta às necessidades de seus clientes. Todo o varejo, em seus diversos segmentos tem buscado uma fórmula parecida, na qual o ponto de venda não fique restrito à venda do produto, mas se torne um ponto de contato com as pessoas, com atendimento ágil e qualificado, transformando-se em um amplificador de vendas. Para isso, é importante que o relacionamento entre loja e público se dê de forma rápida e sem ruídos. Na experiência da loja, seja ela virtual ou presencial é que o cliente se tornará sua melhor propaganda ou seu pesadelo.

Temos uma grande missão: tornar o mercado forte e exigir do poder público a priorização da educação e a formação de leitores para quem sabe, no futuro, possamos ter um país que ofereça oportunidades para todos, repleto de profissionais preparados para o seu desenvolvimento.

Que o livro, instrumento para transformação de pessoas, nos inspire a transformar o mercado.

*VITOR TAVARES é o presidente da Câmara Brasileira do Livro

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sexta-feira, 26 de abril de 2019

UMA ORAÇÃO AO ETERNO QUE MORA NOS CORAÇÕES – Wagner Borges



Que você encontre o amor mais lindo dentro do seu próprio coração. Que você veja seus filhos como presentes do Eterno. Que você ainda se encante com as coisas mais simples da vida. Que você não se iluda com as luzes temporárias do mundo. Que você saiba tirar sábias lições de vida dos reveses.

Que você perdoe, mesmo que ninguém entenda. Que você veja cada dia como uma benção de luz e recomeço... Que nada possa afastá-lo de seus melhores propósitos. Que você escute música e se sinta agradecido. Que você não se esqueça de seus pais e honre-os com sua atenção. Que você seja justo, sem jamais perder seu coração e sua canção. Que você não se apegue ao passado; há tanta coisa para aprender...

 Que você não se esqueça de quem lhe ajudou; gratidão é sabedoria. Que você conserve seus amigos verdadeiros; eles são joias de sua vida. Que você segure seus filhos no colo, como o Eterno segura as estrelas. Que você veja seu parceiro (a) como um presente da vida. Que você chore, se for preciso, mas que suas lágrimas sejam lindas. Que você ria, principalmente de si mesmo; alegria é fundamental! Que você não tenha ódio em seu coração, pois isso empobrecerá sua canção. Que você supere suas provas, com coragem e inteligência.

Que você abra seu coração para o amor, como a flor se abre para o sol. Que você beije alguém amado como os raios solares beijam as flores. Que você faça amor com luz nos olhos e gratidão pelo presente. Que você não prenda quem quer ir embora.  Amor não é gaiola! Que você se atreva ser você mesmo, mas, sem arrogância! Que você jamais se esqueça de que há um Poder Maior em todas as coisas. Que você ore, em espírito e verdade, sem medo de se abrir para o Céu. Que você converse com o Eterno, de coração a coração, sem dramas.

Que você olhe para a lua cheia, extasiado, como uma criança. Que você sinta o cheiro do café e se sinta cada vez mais vivo. Que você tome um chá de olhos fechados e pense em algo bom. Que você se recicle, se areje, para não criar teias de aranha em sua vida. Que você tenha a idade que seu espírito lhe disser, sem medo de rugas. Que você não envelheça sem amadurecer; jamais deixe de rir de uma piada!

Que você sempre trate bem a sua criança interior; criança é vida! Que você sempre desconfie quando a música não o encantar mais. Que você perceba o perigo de ser tomado pela irritação descabida. Que você não perca tempo com fofocas e nem se exaspere com tolices. Que você saiba valorizar pessoas de energia limpa e toques legais. Que você se atreva a andar com um sol na cara e um grande amor no peito. Que você não se engane com as aparências; há muita gente boa neste mundo. Que você não olhe raça, religião, sexo ou cultura; veja o Eterno em cada ser.

Que você jamais ache que perdeu algo ou alguém; o Todo está em tudo! Que você veja luz nessas linhas; a mesma luz que está em seu coração. Que você escute alguma canção querida e se sinta muito bem. Que você seja feliz, mesmo que ninguém entenda. Então, que sua luz silenciosa siga... para abrir outras flores por esse mundão de Deus, como deve ser.




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A UM AMIGO JAPONÊS - Marco Lucchesi



 Minha história secreta com o país do sol nascente

Os meus cumprimentos nesse princípio de outono, sob uma luz intensa e nítida, que é como devem começar as cartas nipônicas, marcadas pela estação do ano.

Minha relação com o Japão começou na meninice, com um manual de conversação e uma pequena gramática. Se a pronuncia me faltava, a memória de uma trintena de kanjis abria-me as portas para os desenhos da língua. Ainda jovem, capturava em ondas curtas a Radio Tokyo Internacional. Sucedeu-se depois a incurável paixão da síntese, despertada pelos haicais e as tankas, tesouros de toda a poesia. As páginas de Lafcadio Hearn e Fosco Maraini chegaram tardias; ao contrário da ópera de Puccini, do teatro No e Kabuki, das considerações da filosofia zen, essas que invocam imagens de alto impacto, entre Kurosawa e Hokusai.

Preparei um número especial da revista Poesia Sempre dedicada ao Japão, enquanto me perdia nas páginas irredutíveis de Mishima, e Tanikawa, Yoshimasu e Tanizaki. Meu japonês é apenas rudimentar, intermitente, com idas bissextas a Kenneth Henshall, espécie de botânica para memorizar kanjis.

Passei do plano das ideias ao real, quando fui convidado a proferir palestra nos cem anos da cátedra de português na Tokyo University of Foreign Studies. Guardo paisagens duradouras e uma visita memorável à casa do poeta Tanikawa Shuntaro, que me dedicou um livro e um chá, cujo sabor não se perdeu, em companhia da professora Donatella Natili, o meu Virgílio nas bandas do sol nascente. Tratamos do Brasil, quando o poeta esteve, aqui no Rio, na década de sessenta. Magro, mal se alimenta. Vive apenas de meditação. Disse-lhe de minha viagem à Índia. E umas flores imensas, uma chuva botticelliana de flores em milhares de santuários. Leite e manteiga. Falamos de Shiva, de Prajna. Esteve no Rio, carnaval dos anos de 1960.

Não falei da Butterfly, de Puccini, nem da Íris, de Mascagni. Um Japão sequestrado pelo Ocidente. Um sequestro musical sublime. E ao deixar a sua casa, em verso de seu livro Coca Cola Lesson: “Um menino chegou de manhã para aprender palavras”.

Essa é uma parte, caro amigo, da minha secreta história com o Japão.

Comunità Italiana, 24/04/2019

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quinta-feira, 25 de abril de 2019

NICODEMOS SENA LANÇA LIVRO DE POEMA POLÍTICO QUE UNE ARTE E COMBATE

Nicodemos Sena Lança 
Livro de Poema Político 
Que Une Arte e Combate


Ficcionista e editor da LetraSelvagem, o escritor Nicodemos Sena surpreende com mais uma atitude de seu talento literário, dessa vez faz sua estreia como poeta.  Ladrões nos Celeiros: Avante, Companheiros! é o longo poema,  de 72 páginas,  que o autor paraense lança na linhagem para a crítica de Um Navio Negreiro, de Castro Alves, ou dos poemas políticos de Bertolt Brecht e Maiakovski.

O livro foi lançado  em  25 de março deste ano,  a partir das 19h00, na Livraria Zaccara, Rua Cardoso de Almeida, 1356 - Perdizes - São Paulo-SP , e, na abertura do evento,
 o jornalista, historiador e escritor Leandro Carlos Esteves, autor do prefácio, falou  sobre o tema:
“Ética e estética: o papel da arte em face da injustiça social”. Trechos do livro foram dramatizados pela atriz Denise Andere.

A OBRA:

“Ladrões nos Celeiros: Avante, Companheiros!” foi escrita entre dezembro de 2017 e maio de 2018, sob o impacto da condenação e prisão do líder proletário Luiz Inácio Lula da Silva. Na linhagem de um “Navio Negreiro”(Castro Alves) ou dos “poemas políticos” de Beltolt Brecht e Vladimir Maiakovski.

Nesse longo poema de 72 páginas, obra de arte e de combate, Nicodemos Sena expõe as vísceras de um sistema político-social em franca decomposição, e reconstrói a esperança na sociedade por vir, libertada do medo, da intolerância e da fome.
 
O AUTOR:


Nicodemos Sena nasceu no município de Santarém do Pará, em 08.07.1958, e passou a infância entre índios e caboclos do Rio Maró, região de fronteira entre os estados do Pará e Amazonas (Amazônia brasileira).
Formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em direito pela Universidade de São Paulo (USP). Fez sua estreia literária em 1999, com o romance “A Espera do Nunca Mais - Uma Saga Amazônica” (Prêmio Lima Barreto-Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores, RJ).

Em São Paulo, escreveu o jornalista, professor e crítico Oscar D’Ambrosio:

A Espera do Nunca Mais desafia e devora o leitor desde o início. Feito sucuriju, abre sua bocarra e obriga a penetrar num universo denso. Não adianta resistir. Uma vez dentro da boca deste livro-serpente, o destino é conhecer os seus interstícios plenos de um fazer artístico solidamente urdido, elaborado com mãos de mestre.” (“Uma extensa e densa aula de Amazônia”. JORNAL DA TARDE, Caderno de Sábado, São Paulo, SP, 20.05.2000)
No Rio de Janeiro escreveu o escritor e crítico Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras:
“Eis um romance que invade a literatura brasileira com a força de um fenômeno da natureza.

Trata-se de uma saga amazônica chamada A Espera do Nunca Mais. Seu autor, Nicodemos Sena, tem o domínio da narrativa de ação e o talento de criar gente. Seus personagens representam a Amazônia com sua largueza e sua mistura, caboclo e floresta unidos num ecossistema geográfico-humano que retrata a nossa mais desconhecidamente forte região em que o Brasil se firma e se revela. É romance que deve ser lido. Nele, realidade e lenda se juntam com naturalidade. As palavras formam um estilo ínsito à grandeza das paisagens que descreve.” (JORNAL DE LETRAS n.29, 2000, RJ).

É, ainda, autor dos romances: “A Noite é dos Pássaros” (Prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras, e Menção Honrosa no Prêmio José Lins do Rego, da União Brasileira de Escritores, 2004, RJ); “A Mulher, o Homem e o Cão” (2009), incluído entre as “78 DICAS” do Guia da FOLHA, suplemento cultural do jornal “Folha de São Paulo” (29.05.2009), e “Choro por ti, Belterra!” (2017).

Nicodemos Sena é nome reconhecido dentro e fora da Amazônia, tornando-se verbete na “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional, DNL, Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001). Carlos Nejar, da Academia Brasileira de Letras, incluiu Nicodemos Sena em sua “História da Literatura Brasileira - da Carta de Caminha aos Contemporâneos”, entre os “grandes nomes na ficção surgidos no Brasil após a década de 1970” (Cap. 35, pág. 900, Fundação Biblioteca Nacional, RJ). É um dos 81 escritores analisados pela professora Nelly Novaes Coelho, titular de Literatura da Universidade de São Paulo (USP), no livro “Escritores Brasileiros do Século XX - Um Testamento Crítico” (2013).

Pelo estilo vigoroso e temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos), Nicodemos Sena já foi comparado a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico Veríssimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos (“Eu, o Supremo”) e o peruano José María Arguedas (“Os Rios Profundos”).

Como diretor da União Brasileira de Escritores (UBE/SP) participa, em 2011, da organização do Congresso Brasileiro de Escritores realizado em Ribeirão Preto (SP).

“Esse amor, essa generosidade, essa crença no futuro e na cultura é pouco encontrável, salvo entre os que têm a fala da terra, a memória misteriosa da selva, o espírito das fábulas e ousam povoar coletivamente os sonhos.” (Carlos Nejar, da Academia Brasileira de Letras, “A Tribuna”, Vitória, ES)

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Título: “Ladrões nos Celeiros: Avante, Companheiros!”
Autor: Nicodemos Sena
Editora: LETRASELVAGEM
Nº pág: 80
1ª edição
Ano: 2018
Preço: R$30,00
Contato: (12) 3426-3773
(12)992033836 (whatsapp)

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QUESTÃO DE DNA - Merval Pereira



A disputa aberta de poder em que o vice-presidente Hamilton Mourão está envolvido, não por acaso, não tem paralelos históricos pela violência das palavras empregadas por Olavo de Carvalho e seus pupilos, entre eles Huguinho, Zezinho e Luisinho, como passaram a ser conhecidos no meio político os filhos de Bolsonaro, que ele denomina carinhosamente como 01, 02 e 03, como se recrutas fossem. 

São os seus recrutas, “sangue do meu sangue”, e nada também acontece ali por acaso. Bolsonaro fala através de seu filho Carlos, o 02, especialista nas mídias sociais a quem Bolsonaro atribui grande parte de sua vitória. Quando Bolsonaro estava internado, depois da tentativa de assassinato que sofreu ainda na campanha eleitoral, Carlos já evidenciou o que achava de Mourão.

Tuitou afirmando que a morte do pai interessava não apenas aos inimigos declarados, mas a quem está por perto, principalmente após a posse. De lá para cá a disputa só fez escalar, inclusive porque Mourão assumiu o papel de moderador de um governo que vive de intrigas e embates permanentes como estilo de fazer política.

A paranoia familiar é alimentada pela história, pois nada menos que oito presidentes foram substituídos por seus vices desde o início da República, por motivos variados, desde a morte do titular até o afastamento por impeachment.

Desde o primeiro presidente, Deodoro da Fonseca, cujo vice Floriano Peixoto assumiu com sua renúncia e, em vez de convocar eleições, governou sob estado de sítio, até Temer, que, recusando o papel de “vice decorativo”, comandou uma conspirata política para assumir o lugar de Dilma, quando esta se enfraqueceu pelo fracasso econômico e se expôs ao cometer crimes de responsabilidade fiscal, a escolha dos vices sempre foi problemática.

Uma disputa aberta como a atual, mas não tão pouco sutil, aconteceu quando o general Figueiredo teve que viajar para a Clínica Cleveland para colocar pontes de safena. O político mineiro Aureliano Chaves assumiu o governo e fez o mesmo contraponto de Mourão em relação a Bolsonaro. Chegava cedo ao Palácio do Planalto, e saía altas horas da noite, a salientar a fama de preguiçoso de Figueiredo. O entorno do ditador não escondia a irritação, e acusava Aureliano de deixar a luz acessa no gabinete presidencial para dar a impressão de que trabalhava.

A eleição presidencial deste ano teve uma característica especial: o protagonismo de candidatos a vice. Os dois primeiros colocados nas pesquisas ficaram fora da campanha, um definitivamente, outro temporariamente. Lula por estar condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro, tornando-se inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Bolsonaro por ter sofrido um atentado a faca que quase o matou.

Muitos consideravam alguns candidatos a vice melhores que os titulares, como era o caso de Mourão, que já chamava a atenção por declarações polêmicas, mas com a fala mansa e o jeito de quem desejava a pacificação política.

Admitiu intervenção militar mesmo fora da Constituição, falou até em autogolpe. Curioso é que sua escolha foi comemorada por Eduardo Bolsonaro, o 03, que disse que foi bom ter escolhido um candidato “faca na caveira” - referindo-se ao símbolo do Bope - para não valer a pena pensar em impeachment.

No discurso pouco antes de ir para a reserva, que lhe valeu uma advertência do comandante do Exército, general Villas Bôas, que ele chama de VB, seu amigo de infância, disse sobre o governo petista: “Os Poderes terão que buscar uma solução. Se não conseguirem, chegará a hora que nós teremos que impor uma solução”.

De lá para cá, Mourão vem afinando o tom, se aproximando do pensamento médio do cidadão de classe média, condenando a censura à imprensa, por exemplo,  ou avaliando que a saída do ex-deputado Jean Wyllys era ruim para a democracia, com bom-senso e sem a visão tosca do grupo bolsonarista comandado por Olavo de Carvalho, que chamou Mourão de “moleque analfabeto” ao ser definido pelo vice como “astrólogo”.

Perguntado recentemente sobre as razões dessa mudança, Mourão disse que se devia à compreensão do papel institucional do cargo para o qual foi eleito. Estar na vice-presidência pelo voto, aliás, foi citado por ele como uma diferença fundamental com os militares do período ditatorial.

Que, aliás ele não renega, dizendo que era um momento de guerra. E também, assim como Bolsonaro, considera o torturador Brilhante Ulstra “um herói”, embora tenha se abstido de falar no assunto ultimamente.

                                                            O Globo, 25/04/2019


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Merval Pereira – Oitavo ocupante da cadeira nº 31 da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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quarta-feira, 24 de abril de 2019

COMPUNÇÃO - Péricles Capanema


24 de abril de 2019

Péricles Capanema

Era pouco antes das sete da noite, segunda-feira pacata de abril, e de repente em Paris o fogo, parecendo vomitado do inferno, estralejou violento no madeirame da catedral de Notre-Dame de Paris. Subia, ardia, baixava, lambia e devorava o que encontrava, diante de espectadores aterrados. O mundo, estarrecido e aturdido, julgava ter diante dos olhos o que não podia acontecer. Continuou por horas o espetáculo dantesco.

Pouco a pouco, na capital francesa, depois do choque inicial, pairou o silêncio, a dor, aqui e ali magotes rezavam e entoavam cânticos. Houve também silêncio, dor, desnorteamento, orações no mundo inteiro. Perplexidade. Por fim, cintilou uma nota de alívio. As duas torres estavam salvas. Aos poucos, foi sendo divulgado que muita coisa não tinha sido consumida pelas labaredas. Acidente? Atentado? Por enquanto é prematuro concluir.

Perdoem o chavão, tentei ouvir o silêncio, explicitar o imponderável. Pus atenção nas reações do povo de Paris e do mundo inteiro. De forma particular, nos magotes em torno da catedral crucificada pelas chamas. Havia um denominador comum, a compunção, muito relevante na multidão que rezava e cantava hinos religiosos.

Não pretendo aqui repetir o que outros já comentaram com talento, em especial, valor simbólico, perda, prognósticos. Foco em outro ponto, tem relação próxima com a compunção que, esperançado, observei surpreso.

Imaginei situações diversas, comparações, sempre admitindo a origem acidental do incêndio. Tudo muda, existindo mão criminosa. Se o fogo tomasse a catedral da Milão, também joia da arquitetura gótica, que reações desencadearia entre os milaneses? Na Itália? No mundo? E se o incêndio fosse na catedral de Colônia? Em Chartres? Em Reims? Catedral de Sevilha? Basílica de São Marcos? Na própria catedral de São Pedro? Como reagiriam os nacionais? Como reagiria o mundo?

Ampliei a figuração. Fogo na abadia de Westminster? No Kremlin? Na estátua da Liberdade? No Taj Mahal? Na Esfinge ou nas pirâmides? De que forma reagiria o mundo?

Lembrei-me do horror mundial quando o Estado Islâmico — no caso, de forma criminosa estruiu dezenas de sítios arqueológicos no Iraque e na Síria.

Entre nós, se o fogo acabasse com o Cristo Redentor? A imagem da Aparecida?

Existe, parece-me certo, em muitos aspectos, traços mais fortes, uma comoção maior, por ter sido Notre-Dame de Paris. Tem relação com o templo, extraordinária expressão da alma medieval, com a ordem temporal cristã, com a França. E com seus reflexos na cultura ocidental.

Por associação, lembrei-me de discurso pronunciado pelo cardeal Eugênio Pacelli, futuro Pio XII, na ocasião legado pontifício, na catedral de Notre-Dame de Paris — 13 de julho de 1937. Foi leitura minha anos atrás, na ocasião fiquei impressionado.

Recolhi alguns pequenos extratos: “Como exprimir, meus irmãos, tudo o que evoca no meu espírito, na minha alma, igual na alma e no espírito de todo católico, até direi, em toda alma reta e em todo espírito culto, o nome de Notre-Dame de Paris! Porque aqui é a própria alma da França, a alma da filha primogênita da Igreja”.

O Purpurado diz que ali ecoam as vozes de Clóvis, de santa Clotilde, de Carlos Magno, sobretudo a voz de São Luís IX. Ele parece escutá-las. E se pergunta a causa de tanto simbolismo em Notre-Dame. O futuro Pio XII pôs de lado raça e determinismos como causas: “É inútil invocar fatalismo ou determinismo racial. À França de hoje que lhe pergunta, a França de outrora responderá dando a tal herança seu nome verdadeiro: vocação”.

Vocação, chamado providencial, realidade superior, imponderável por vários lados, evocada de forma incomparável por Notre-Dame de Paris. Na compunção pela agressão ao símbolo, ainda que de forma germinativa, havia abertura para o simbolizado, a vocação da França.

O impulso extraordinário para reconstruir a catedral, expresso em doações gigantescas (família Pinault, grupo LVMH, família Arnault, família Bettencourt-Meyers, grupo L’Oréal, Apple, para citar alguns grandes doadores) é sintoma do horror que causou na opinião francesa e mundial a devastação do incêndio. Tem importância ímpar.

Traz, porém, no bojo uma ameaça: tornar fashion, prestigioso, o movimento pela reconstrução. Com isso, facilmente poderá sair do foco a compunção. Iria minguando, chegaria até ao esquecimento. Semente de restauração, a compunção vale mais que qualquer riqueza.


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OS FILHOS, Por Denise Dias


Dormem na cama dos pais até quando querem. 
Largam mamadeira e chupeta quando querem. 
Só comem o que querem. 
E dai? 
Que mal faz?

Anti-Social aos 11 anos.
Melhor celular a cada Natal. 
Surdos com seus fones de ouvido. 
Centenas de amigos virtuais.
Não pensam nos riscos. 
Festa social? 
Se não for top, nem vou.
Alto grau de exigência. Conseguem tudo o que querem. 
E daí? 
Que mal faz?

Os pais não precisam brincar,
O celular faz isso;
Os pais não precisam buscar nas festas,
O Uber faz isso; 
Os pais não precisam cozinhar, 
O Ifood faz isso; 
Os pais não precisam nem educar, 
A escola integral faz isso. 
E daí? 
Que mal faz?

Nem pensam que tudo o que o filho quer é "um puxão de orelha" e uma bronca: "hoje não é dia de festa! 
Vai comer comida que presta!
Criar filhos está mais fácil, mais cômodo, afinal, a criança resolve tudo com cliques na tela. 
E daí? 
Que mal faz?

Ler para o filho? 
Cantar música e fazer cafuné? Luxo para poucos. 
Os pais estão desconectados. Precisam de ajuda, mas só aceitam quando a bomba explode. 
Pais e filhos sob o mesmo teto, mas diálogo zero. 
Nem um filme juntos,
Mas sempre conseguem aquela selfie de família perfeita; 
Afinal, o que importa é mostrar que é feliz,
Ter mil curtidas;
Mal sabem o que é um jogo de tabuleiro. 
Pensar virou uma coisa que dói. 
Fazer criança pensar parece que é fazê-la sofrer.

E o que você quer ser quando crescer? 
Youtuber. 
Blogueira. 
Vlogueira. 
Digital influencer. 
Estudar, entrar na faculdade, se especializar... Imagina! Não sei esperar. 
Não sei ouvir não,
Não sei o que é frustração e rejeição. 
Culpa de quem? 
Ops! Não se pode falar nisso. 
Não pode é mais nada. 
Não pode dar palmada, não pode falar alto, nem em pé com a criança. 
Não pode castigá-lo. 
Não pode nem falar não. 
E o tempo passando. 
Os filhos crescendo. 
Drogas e suicídio aumentando.

Querem tudo para já.
Bem no esquema "venha a nós o vosso reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no Céu".

 E ai do adulto que não disser "amém”.

Denise Dias, Terapeuta

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