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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

SIMPLICIDADE E EMOÇÃO DO CONTISTA ALEILTON FONSECA – Cyro de Mattos


          Baiano nascido em Firmino Alves (1959), município do Sul da Bahia,   criado em Ilhéus, Aleilton Fonseca reside há anos na  cidade de Salvador. Graduado em Letras pela Universidade Federal da Bahia,  fez mestrado na Universidade Federal da Paraíba e Doutorado  na Universidade de São Paulo. É professor titular Pleno da Universidade Estadual de Feira de Santana, onde leciona Literatura Brasileira. Já publicou  25 livros, entre volumes de  poesia, ensaio, conto e romance. Na galeria de suas criações figuram os romances   Nhô Guimarães (2006), O pêndulo de Euclides (2009) e o livro de ensaio O arlequim da pauliceia (2012), entre outros.   Faz parte de várias antologias do conto, poesia e ensaio, no Brasil e exterior.  Entre outras premiações, obteve o Terceiro Lugar no Prêmio da Fundação Cultural do Estado da Bahia, com Jaú dos bois e outros contos, em 1977,  e o Prêmio   Nacional Herberto Sales,  da Academia de Letras da Bahia, com O canto de Alvorada, em 2001.

            Um de seus volumes de contos,  O desterro dos mortos (2001),  apresenta doze histórias revestidas de calor humano, que oferecem uma leitura prazerosa, pontuada com uma linguagem simples e plena de camadas líricas no seu conteúdo  Nhô Guimarães”, a primeira delas,   embrião do romance homônimo, conta a história  de “um homem de sobejas importâncias. Um distinto doutor, do sertão e da cidade, duas vezes lugareiro, muito conhecedor das estradas gerais.”  Fica visível que a narrativa, de apelos aos falares da gente rural no interior mineiro, retrabalhada em sua entonação cantante,   foi motivada pelo propósito de homenagear o  estupendo escritor e ficcionista Guimarães Rosa. A figura do escritor mineiro vai sendo erguida pouco a pouco com sua humanidade  no texto que flui com sabores na fala, usando para isso o contista das lembranças  e entretantos que afloram do personagem Manu e sua mulher, além dos amigos do homenageado. As histórias “O sorriso da estrela”, “O avô e o rio” e “Jaú dos Bois”  reaparecem em  O desterro dos mortos,  vindas do pequeno volume  Jaú dos bois e outros contos.

            Não é preciso ser íntimo das questões estéticas, crítico com  formação acadêmica, para perceber que os contos de Aleilton Fonseca possuem como singularidades a marca da simplicidade na escrita para externar a emoção,  qualidades que se aderem ao texto  infiltradas  de esperança e ternura.  Essa relação inseparável entre o discurso simples, sem experimentalismos, penetrado de afetividades,  é  posta   com sabedoria pelo contista  na escrita para que se faça a leitura da vida tocada com rapidez e visibilidade, impregnada de emoção causada pela cena.

            Na relação inseparável de que se vive e morre, sempre, aflições  e solidões são ultrapassadas,  ternuras  nos ritos de passagem  informam como as estações  amadurecem a infância,   existem noutras terras conduzidas pela morte  sob o peso do enigma. Histórias  urdidas pela chama do amor  em  adolescentes  irrompem para o voo de anjos terrenos alçados às nuvens, paixões de adultos  resvalam por entre fissuras e rupturas em suas verdades pungentes, impondo a separação amarga sem volta.
  
           Afirma-se que literatura é a matéria verbal que expõe  uma experiência de vida. Esse conceito ajusta-se aos contos de Aleilton Fonseca de maneira eficaz e sóbria.  Em O desterro dos mortos,  a  matéria verbal disposta  para dizer do imaginário configura significados colhidos  através de uma experiência colhida pelo contista no teatro da vida. Expressa    histórias que nos remetem ao real imaginado, em alguns momentos  com sensações semelhantes a que se tem nos contos tradicionais de reis,   tanto é  o encantamento  provindo do estado psicológico dos personagens,  o   surgimento da paz no final sempre bem achado,  indicativo   de uma janela que se abre para a luminosidade da vida.
   
            De outro viés, entre a dor e o amor, a paz que irá emergir de  momentos agudos  mostra como a vida é um sofrido aprendizado. O personagem depara-se com as incompreensões absurdas da morte, como é visto  nos contos “O sorriso da estrela”,  “Para sempre”  e  O desterro dos mortos”, nas relações  passionais que  atritam e separam,   na fumaça que ativa a doce lembrança da infância,   para que  saiba quanto  a dor   é capaz de reverter   momentos contrários em  sonos serenos  sob luares de relva.

            Nota-se que o instrumental teórico de base acadêmica não interfere na luminosidade que se espraia nas criações do contista. Não força  a prosa  que  apresenta    maneiras suaves   de horizontes longínquos e próximos em seu dizer cativante.  Há um modo sempre oportuno   de  o contista dizer o drama,  uma solidariedade que dignifica o comportamento marcado  para designar os  quadros da morte, da solidão  que o tempo impõe em rigor de atitude   que  comanda.

            Vale ressaltar que uma  harmonia, a porejar sensibilidades e cargas emotivas na escrita,  decorre  de   situações vividas pelo personagem sob o choque das descobertas, relevâncias existenciais, cortes extraídos  no difícil gesto de viver. Olhares lançados pelo contista sobre  os personagens buscam  desvendar  para o mundo estados interiores, incompreensões do tangível e do que não se explica,  aclarar a situação conflituosa no drama.  Como conversa ao pé do ouvido puxa o leitor para dentro do texto,  remetendo-se ao contista  Machado de Assis, mestre  nessa atitude de aproximar a história de  quem a lê para assim torná-la mais verossímil na sua dinâmica.
 
           O contista sabe dosar com medidas certas o necessário para que o leitor seja envolvido  com ternuras e esperanças no assunto crítico vivido pelo personagem.  Em suas  reações tristes, situações de tormento,  o personagem desterra   pensamentos quando se vê com dificuldade para entender a vida.  Certa melodia,  que acompanha a altura do ritmo, a intensidade e  a dimensão dos  gestos, em perfeito equilíbrio enquanto duram no texto,   não dá chance para que o  vulgar e a pieguice descaracterizem  a escrita conduzida com simplicidade e emoção.

             O proseado que escorre do discurso enunciado com afetividades  contagia no seu ritmo, torna  o leitor  íntimo da problemática existencial do indivíduo.  Na escrita  apoiada em medidas rítmicas harmoniosas,  os significados e significantes formam unidades cadenciadas pelos  toques poéticos da vida sob os olhares líricos do narrador. Cenas marcadas de controvérsias,  contrapontos dos conflitos  são  construídos com pausas e respirações, breves e oportunas, para evitar que o vulgar nos fluxos e refluxos circule nas zonas do coração.

            As histórias de Aleilton Fonseca fornecem a  sensação  de que  entram pelos ouvidos e ficam  com seriedade ritmadas dentro de nós  sob puro  lirismo. Assim são construídas  com seus tremores e amores, como  feixes acesos  de humanidades múltiplas determinam simpatia entre o real e o sonho. Não precisam de questionamentos profundos nas razões de ser dos outros no mundo, e  porque dotadas de puro lirismo  simplesmente o coração as aceita, pulsam amores em atitudes e sentimentos. 

Referência
FONSECA, Aleilton. O desterro dos mortos, contos, Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2001.
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*Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Autor de 48 livros pessoais. É também editado no exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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DISCURSO DE JAIR BOLSONARO NO FÓRUM ECONÔMICO DE DAVOS



Ligue o vídeo abaixo:
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Leia na íntegra

“Boa tarde a todos!
Muito obrigado, professor Schwab!

Agradeço, antes de mais nada, o convite para participar deste fórum e a oportunidade de falar a um público tão distinto.

Agradeço também a honra de me dirigir aos senhores já na abertura desta sessão plenária.

Esta é a primeira viagem internacional que realizo após minha eleição, prova da importância que atribuo às pautas que este fórum tem promovido e priorizado.

Esta viagem também é para mim uma grande oportunidade de mostrar para o mundo o momento único em que vivemos em meu país e para apresentar a todos o novo Brasil que estamos construindo.

Nas eleições, gastando menos de 1 milhão de dólares e com 8 segundos de tempo de televisão, sendo injustamente atacado a todo tempo, conseguimos a vitória.

Assumi o Brasil em uma profunda crise ética, moral e econômica.

Temos o compromisso de mudar nossa história.

Pela primeira vez no Brasil um presidente montou uma equipe de ministros qualificados. Honrando o compromisso de campanha, não aceitando ingerências político-partidárias que, no passado, apenas geraram ineficiência do Estado e corrupção.

Gozamos de credibilidade para fazer as reformas de que precisamos e que o mundo espera de nós.

Aqui entre nós, meu ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, o homem certo para o combate à corrupção e o combate à lavagem de dinheiro.

Vamos investir pesado na segurança para que vocês nos visitem com suas famílias, pois somos um dos primeiros países em belezas naturais, mas não estamos entre os 40 destinos turísticos mais visitados do mundo. Conheçam a nossa Amazônia, nossas praias, nossas cidades e nosso Pantanal. O Brasil é um paraíso, mas ainda é pouco conhecido!

Somos o país que mais preserva o meio ambiente. Nenhum outro país do mundo tem tantas florestas como nós. A agricultura se faz presente em apenas 9% do nosso território e cresce graças a sua tecnologia e à competência do produtor rural. Menos de 20% do nosso solo é dedicado à pecuária. Essas commodities, em grande parte, garantem superávit em nossa balança comercial e alimentam boa parte do mundo.

Nossa missão agora é avançar na compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade com o necessário desenvolvimento econômico, lembrando que são interdependentes e indissociáveis.

Os setores que nos criticam têm, na verdade, muito o que aprender conosco.

Queremos governar pelo exemplo e que o mundo restabeleça a confiança que sempre teve em nós.

Vamos diminuir a carga tributária, simplificar as normas, facilitando a vida de quem deseja produzir, empreender, investir e gerar empregos.

Trabalharemos pela estabilidade macroeconômica, respeitando os contratos, privatizando e equilibrando as contas públicas.

O Brasil ainda é uma economia relativamente fechada ao comércio internacional, e mudar essa condição é um dos maiores compromissos deste Governo.

Tenham certeza de que, até o final do meu mandato, nossa equipe econômica, liderada pelo ministro Paulo Guedes, nos colocará no ranking dos 50 melhores países para se fazer negócios.

Nossas relações internacionais serão dinamizadas pelo ministro Ernesto Araújo, implementando uma política na qual o viés ideológico deixará de existir.

Para isso, buscaremos integrar o Brasil ao mundo, por meio da incorporação das melhores práticas internacionais, como aquelas que são adotadas e promovidas pela OCDE.

Buscaremos integrar o Brasil ao mundo também por meio de uma defesa ativa da reforma da OMC, com a finalidade de eliminar práticas desleais de comércio e garantir segurança jurídica das trocas comerciais internacionais.

Vamos resgatar nossos valores e abrir nossa economia.

Vamos defender a família e os verdadeiros direitos humanos; proteger o direito à vida e à propriedade privada e promover uma educação que prepare nossa juventude para os desafios da quarta revolução industrial, buscando, pelo conhecimento, reduzir a pobreza e a miséria.

Estamos aqui porque queremos, além de aprofundar nossos laços de amizade, aprofundar nossas relações comerciais.

Temos a maior biodiversidade do mundo e nossas riquezas minerais são abundantes. Queremos parceiros com tecnologia para que esse casamento se traduza em progresso e desenvolvimento para todos.

Nossas ações, tenham certeza, os atrairão para grandes negócios, não só para o bem do Brasil, mas também para o de todo o mundo.

Estamos de braços abertos. Quero mais que um Brasil grande, quero um mundo de paz, liberdade e democracia.

Tendo como lema “Deus acima de tudo”, acredito que nossas relações trarão infindáveis progressos para todos.

Muito obrigado.”



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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

FEMINISTA – Ruth Manus


“Semana passada fui dar aula sobre assédio sexual num curso de pós graduação, em São Paulo. Cheguei na sala, composta predominantemente por advogados, e perguntei “Quem aqui se considera feminista?”. Silêncio. Uma moça levanta timidamente o braço. Dois ou três caras fazem comentários baixinho e riem.

Disse “Ok. Vou fazer duas leituras rápidas para vocês”. Continuei.

“Dicionário Houaiss da língua portuguesa: FEMINISMO: teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos.

Dicionário Jurídico da Professora Maria Helena Diniz: FEMINISMO: movimento que busca equiparar a mulher ao homem no que atina aos direitos, emancipando-a jurídica, econômica e sexualmente.”

Esperei um pouquinho e mudei a pergunta “Quem aqui pode me dizer que NÃO se considera feminista?”. Ninguém levantou a mão.

Pois é. Tenho a sensação de que 99% do mundo não entendeu até agora o que é feminismo. Porque se as pessoas entendessem, quase todo mundo teria orgulho de se dizer feminista. E o melhor: dizer “eu não sou feminista” seria considerado algo mais feio do que dizer “eu não gosto de filhote de golden”.

Não vou perder tempo aqui dizendo que feministas não são mulheres que não se depilam, não usam soutien e não transam. Primeiro porque ser feminista não tem a ver com ser mulher, tem a ver com ser humano. Segundo porque nunca entendi que raio que os pelos têm a ver com posicionamentos ideológicos. Terceiro porque soutien serve para sustentar peitos, não para sustentar ideias. E quarto porque eu já vi gente deixar de transar por causa da igreja, por causa de promessa, por falta de opção, por infecção ginecológica, problemas de ereção… Mas por feminismo nunca vi. Alguém já viu?

Enfim. Acho que ser feminista não é bom ou ruim. Ser feminista é necessário. Uma vez ouvi uma amiga dizer “a mulher que diz que nunca foi discriminada é apenas uma mulher muito distraída”. É simples assim. Não precisamos ir até o Oriente Médio. Não precisamos ir até tribos africanas. Não precisamos ir ao sertão do nordeste. Não precisamos ir até a periferia de São Paulo. Não precisamos sair dos nossos bairros. O machismo que limita, que agride, que marginaliza, que ofende, que diminui, mora ao lado, dorme por perto.

E agora, quem poderá nos defender? O feminismo. O mesmo feminismo que nos tornou civilmente capazes e independentes perante a lei. O mesmo feminismo que nos possibilitou votarmos e sermos votadas. O mesmo feminismo que segue lutando diariamente por uma sociedade mais justa para mulheres, homens, mães, pais, filhas, filhos, trabalhadoras e trabalhadores.

No século XIX, as brilhantes irmãs Brontë escreviam através de pseudônimos masculinos por saberem que suas obras não seriam aceitas na sociedade se soubessem que as autoras eram mulheres. Se não fosse o feminismo eu provavelmente também não estaria escrevendo aqui neste momento. Pelo menos não como Ruth.

Nós precisamos falar sobre feminismo. Com nossos amigos, nossos pais, nossos filhos, grandes ou pequenos. É hora de falar sobre igualdade entre meninos e meninas. É hora de falar que meninas podem jogar bola e ter carrinhos e que meninos podem cuidar de bonecas. Quem não quer ter um filho feminista? Quem não quer que eles vivam num mundo de igualdade, no qual nem meninos nem meninas sejam massacrados pela truculência do machismo?

Nesse domingo, o tema da redação do Enem foi a violência contra a mulher. Milhões de jovens tiveram que parar para pensar sobre isso. Que avanço lindo. Pensar é sempre o primeiro passo. Perceber que a questão existe, que o tema não é antiquado e que, infelizmente, as questões de gênero estão muito longe de serem superadas. A violência persiste, a discriminação no ambiente de trabalho persiste, a desigualdade salarial persiste, a discriminação com as tarefas domésticas persiste, as pequenas (e não menos graves) agressões machistas do dia a dia persistem. Então a luta tem que persistir.

O feminismo não é de esquerda nem de direita. Não é só para mulheres nem é só para homens. Não é ameaça. Não é um estranho. Mas perceba que quando você trata os feministas na terceira pessoa do plural, excluindo-se deste rol, você está afirmando não fazer parte do grupo que prega a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Pense bem de que lado você quer estar.

Se você percebeu que é feminista, fique tranquilo. Nós não contaremos para ninguém. Mas, sabe? Se eu fosse você, eu sairia contando para todo mundo. Porque ser feminista é lindo, é importante, é sinal da inteligência e da decência de qualquer ser humano. Como diz o lindo livrinho da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (leiam, ele é pequenino e indispensável): Sejamos todos feministas. 

E o mundo será melhor a cada dia. Pode apostar.


Ruth Manus, professora universitária

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QUEM AQUECEU O CLIMA NO PERÍODO MEDIEVAL?



21 de Janeiro de 2019

O Período Quente Medieval atingiu todo o planeta, alcançando seu auge nos anos 1000-1200.

Estudo da Universidade de Hamburgo (Alemanha) confirmou o aquecimento do clima na América do Sul durante a Idade Média, embora ele não possa ser atribuído aos seres humanos, pois os índios só possuíam técnicas primitivas de sobrevivência.

O relatório se limita a confirmar que o clima planetário tem ciclos de aquecimento e resfriamento.

A contração das geleiras e ascensão da vegetação em zonas andinas, o abreviamento do inverno e a redução dos lagos resultaram de mudanças sem causa humana, mas o esquerdismo ambientalista insiste em nos fazer acreditar que o homem é sempre o responsável pelo aquecimento.



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domingo, 20 de janeiro de 2019

EDIFICAÇÃO E ESCÂNDALO – Péricles Capanema


19 de Janeiro de 2019
♦  Péricles Capanema

Durante longos períodos na Idade Média e, mesmo depois, o Papa agiu repetidas vezes como árbitro em conflitos de nações e povos. Dava a última palavra, acatada por imperadores, reis, outros dirigentes temporais. Não era função ligada intrinsecamente ao múnus petrino, mas, entre outros fatores, a enorme respeitabilidade do Soberano Pontífice o empurrava naturalmente, pela força das coisas, para o centro da vida temporal europeia.

Tarefa edificadora, outros tempos. A laicização da esfera civil limitou enormemente seu papel em tais matérias. A Santa Sé, relativamente, poucas vezes agiu como árbitro de forma oficial nos últimos tempos. Mas dessa longa e benéfica presença dos Papas em matérias temporais, ficou o hábito de ouvir o Soberano Pontífice, cuja voz não fere apenas os tímpanos dos católicos, mas de incontáveis pessoas interessadas em conhecer suas tomadas de posição, por sua evidente relação com o destino dos povos.

Contudo, ainda relativamente recente, em nossa época, tivemos eco importante da outrora grande relevância dos Vigários de Cristo na resolução de disputas temporais. Em fins de 1978, a Argentina e o Chile estiveram à beira de conflito armado por causa do Canal de Beagle, no sul do continente; brigavam pela posse das ilhas Picton, Lennox e Nueva.

Fracassados os esforços diplomáticos, em 21 de dezembro, tropas argentinas se puseram em marcha para ocupar as ilhas e, se necessário, até partes do Chile continental. O 4º Batalhão de Infantaria da Marinha tinha ordens para nelas desembarcar em 22 de dezembro. As consequências do conflito militar entre Argentina e Chile, imprevisíveis, mas certamente repercutiriam provavelmente por décadas em todas as Américas.

Basta alinhar o que hoje é admitido em suas linhas gerais. O alto comando argentino previa aproximadamente 50 mil baixas nas três primeiras semanas. O Equador entraria no lado da Argentina. O Peru e a Bolívia apoiariam a Argentina. Os chilenos pretendiam atacar a usina nuclear de Atucha. Não se sabe que posição tomaria o Brasil. A guerra com certeza deixaria sequelas destruidoras, traria dilacerações dificilmente suturáveis na América do Sul.

Poucas horas antes do choque, talvez minutos, Argentina e Chile aceitaram a mediação de João Paulo II, que enviou à região, como seu representante, o cardeal Antonio Samoré. Tendo como pano de fundo a respeitabilidade pontifícia, os dois países, depois de negociações difíceis, chegaram a um acordo, ilhas para o Chile e controle marítimo da área para os argentinos.

Em 29 de novembro de 1984 no Vaticano assinaram declaração conjunta de paz e amizade. Hoje, sem sequelas, são duas potências amigas. Ação papal edificadora ou edificante, se quisermos. Atitudes que constroem.

Viro a página, mas permaneço na América do Sul (e Central) e também em assuntos temporais. Na mensagem de Natal de 2018 (25 de dezembro), o Papa Francisco afirmou “que este tempo de bênção permita à Venezuela encontrar de novo a concórdia e que todos os membros da sociedade trabalhem fraternalmente pelo desenvolvimento do país, ajudando os setores débeis da sociedade”. Sobre a Nicarágua disse: “diante do Menino Jesus os habitantes da Nicarágua se redescubram irmãos para que não prevaleçam divisões e discórdias, mas que todos se esforcem em favorecer a reconciliação e em construir juntos o futuro do país”. Só.

Em 5 de janeiro, 20 ex-presidentes e chefes de governo latino-americanos, entre os quais Oscar Arias, Prêmio Nobel da Paz (1987), ex-presidente da Costa Rica, Eduardo Frei, ex-presidente do Chile, Vicente Fox e Felipe Calderón, ex-presidentes do México, César Gaviria, Andrés Pastrana e Álvaro Uribe, ex-presidentes da Colômbia, Fernando de la Rua, ex-presidente da Argentina, divulgaram severa carta que haviam enviado ao Papa Francisco. De forma serena e respeitosa se confessam escandalizados com a atitude papal por favorecer as ditaduras venezuelana e nicaraguense, assassinas da liberdade e promotoras da miséria popular. Diz a missiva:

“Conhecemos sua preocupação pelo sofrimento que hoje padecem, sem distinções, todos os venezuelanos e, agora, os nicaraguenses. Os primeiros são vítimas da opressão de uma narcoditadura militarizada, que pisa de maneira sistemática os direitos a vida, liberdade, integridade pessoal e, a mais, como consequência de suas políticas públicas deliberadas e de uma deslavada corrupção que escandaliza mundialmente, submete-os a fome generalizada e falta de remédios.

Os segundos, em meados do ano, foram vítimas de onda de repressão com quase 300 mortos e 2.500 feridos. De modo que nos preocupa o chamado de Vossa Santidade à concórdia, já que no contexto atual pode entender-se sua fala como um pedido aos povos, que são vítimas, para que entrem em acordo com seus algozes; no particular, o caso venezuelano, com um governo que causou 3.000.000 de refugiados, numa diáspora que a ONU julga chegará a 5,4 milhões de pessoas em 2019”.

Lembra a seguir o texto, com base em João XXIII, que os que oprimem não contribuem à unidade.

A censura dos 20 presidentes e chefes de governo é gravíssima: para eles, o Papa Francisco está equiparando vítima e algoz, opressores e oprimidos. Com isso favorece o opressor e o algoz. É acusação de conduta escandalosa, demolidora.

Poucos dias depois da carta, em 8 de janeiro, documento oficial da Conferência Episcopal Venezuelana declarou ilegítimo o novo governo Maduro que se iniciaria no dia 10 de janeiro. Afirma o texto:

“É um pecado que clama ao céu querer manter a toda custa o poder e pretender prolongar o fracasso e ineficiência dessas últimas décadas. É moralmente inaceitável. A convocação [da eleição presidencial] foi ilegítima como o é a Assembleia Nacional Constituinte imposta pelo Poder Executivo. Portanto a pretensão de iniciar um novo período presidencial em 10 de janeiro de 2019 é ilegítima”. E reconheceu a Assembleia Nacional como único poder legítimo: “A Assembleia Nacional, eleita com o voto livre e democrático dos venezuelanos, atualmente é o único órgão do poder público com legitimidade”.

No dia 10 de janeiro tomou posse o novo governo, festejado ruidosamente por representantes da China, Rússia, Cuba, Irã, Turquia, Vietnam, Coreia do Norte, (Gleisi Hoffmann, presidente do PT, estava lá, o PC do B também mandou representante, havia ainda outros enviados da extrema esquerda brasileira), — ausentes a maior parte dos países da América do Sul, União Europeia, OEA, Estados Unidos. No meio daquela “societas sceleris” (a expressão brota incoercível, já que ali se reuniam para promover um governo opressor), com luz soturna brilhava monsenhor George Koovakod, encarregado de negócios da Santa Sé, enviado especial, a quem Nicolás Maduro agradeceu a presença no início do discurso. Vem natural à mente a denúncia de Paulo VI de 7 de dezembro de 1968 do “misterioso processo de autodemolição” que se havia instalado na Igreja Católica.

Edificação e escândalo. As intervenções papais nos assuntos temporais edificavam, isto é, construíam. Nossa época tem deixado claro que, para escândalo dos fiéis, podem também demolir. Paro por aqui, as palavras faltam; morrem na boca, sufocadas pelo respeito filial. Deus tenha pena de nós.



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ITABUNA CENTENÁRIA, Curtas e boas - Amorecos, se acalmem!...


Leio aqui uma enxurrada de gente cobrando a tal da investigação, já exigindo pena de morte para o Flávio Bolsonaro, todos revoltadíssimos que ainda não houve conclusão dos fatos!

Calma minha gente, antes disso tem o assassinato do Celso Daniel, tem os fundos de pensão saqueados, tem o enriquecimento dos filhos do Lula, da filha da Dilma, tem a filha do Cunha, tem o BNDES, tem os 12 processos do Renan Calheiros, que não andam, tem a roubalheira do Aécio e da Dilma, do Lindberg e da Gleisi, tem o Temer e sua trupe, tem os saqueadores da Lei Rouanet, tem a morte do Teori Zavaski, tem o caso Marielle, tem a tentativa de assassinato do Bolsonaro, etc. etc. etc.

Vocês estão achando que só porque a Globo quer ferrar com o governo vai furando a fila assim?

Nananinanão, ela nunca cobrou nada nesses 30 anos sem ser a morte da Marielle, de corrupção de seus protegidos, ZERO!

Amorecos, se acalmem, vamos com calma, não entrem na pilha, e deixem de ser manipuláveis!


(Recebi via WhatsApp – autor não mencionado)

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