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sábado, 21 de outubro de 2023

O Amigo Jorge Amado 

Cyro de Mattos                                             .    



 

              Enviei o primeiro livro que escrevi para Jorge Amado, seguindo conselho do amigo João Ubaldo Ribeiro, companheiro de geração. Não esperava que viesse alguma opinião dele sobre o meu pequeno volume de contos, riscado anos depois de minha bibliografia por ter sido escrito por autor imaturo. O texto envelheceu cedo. Fiquei surpreso por ver um livro de autor desconhecido ser apresentado à Academia Brasileira de Letras com palavras favoráveis do consagrado romancista Jorge Amado.  

             Outros livros meus foram merecedores de artigos com elogio por parte de Jorge Amado. Eram opiniões impressionistas, mas abonadas com a sensibilidade de quem mais conhece os caminhos do fazer literário na recriação da vida. E mais: ele publicava os artigos que escrevia sobre meus livros em jornais importantes como A Tarde, Jornal de Letras (Rio), Suplemento do Jornal do Brasil, Jornal do Comércio (Rio) e Suplemento Literário de Minas Gerais.    

            Esses gestos do criador de Tocaia Grande (Record,1984) aconteceram com outros escritores, emergentes, com obra em andamento, consagrados, baianos ou não. Ele sempre enriquecia o companheiro de letras com suas opiniões, sem esperar nada em troca. Prefácios, orelhas, artigos, depoimentos, apresentações à Academia Brasileira de Letras, um legado literário da melhor qualidade está aí espalhado com o abono do escritor tão lido e traduzido em língua portuguesa sobre livros de nossos escritores. Textos que formam um valioso legado, se coligidos, servindo como importante contribuição à nossa literatura.                

               Com João Ubaldo Ribeiro era diferente. Certa vez, o autor maiúsculo do romance Viva o povo brasileiro (Nova Fronteira, 1984), disse-me que não escrevia prefácio ou   artigo para quem recorresse aos seus préstimos porque podia não gostar do livro e aí o suplicante, que certamente queria receber elogio, poderia com a sua sinceridade se tornar um inimigo dele. Além disso, não queria se desconcentrar de seu ofício, sempre estava escrevendo um livro ou texto, não ia deixar de lado o que estava escrevendo e centrar-se sobre quem devia abrir seus próprios caminhos com suas ferramentas e crenças, sem se apegar na muleta alheia, mas acreditando nas suas qualidades.  

         Neste sentido, sempre concordei e respeitei as atitudes de João Ubaldo. Ele se tornou um dos meus amigos prediletos, criatura do bem, espírito alegre, colega inesquecível da turma de 1962, na Faculdade de Direito da UFBA. Nunca quis me aproveitar de meu bom relacionamento com o consagrado ficcionista e receber dele a opinião favorável de meus escritos. Fiz minha carreira literária com os meus textos publicados em livros, meus prêmios relevantes, que tornaram minha obra com mais visibilidade. Enviei em vários casos os originais de meus livros para as editoras, sem temer que fossem aprovados ou não para publicação, depois da leitura crítica do conselho editorial.   

       Ao escrever sobre Palhaço Bom de Briga (L&PM Editores, 1993), um dos meus livros para as crianças, em artigo publicado em forma de missiva, dirigida ao romancista Josué Montelo, então presidente da Academia Brasileira de Letras, Jorge Amado chegou ao ponto de lembrar meu nome para fazer parte daquela importante instituição das letras brasileiras. Houve exagero. Só mesmo Jorge, com o seu coração doce como mel de cacau, podia distinguir assim meu nome, em gesto que comovia, servia como incentivo para que eu nunca desistisse em minha jornada literária. Embora eu já fosse autor nessa época de mais de vinte livros, entre volumes de contos, poesia e literatura infantojuvenil. Havia conquistado alguns prêmios literários importantes e, entre eles, o Prêmio Nacional Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, por unanimidade, para o meu livro Os Brabos (Civilização Brasileira, 1979), o da Associação Paulista dos Críticos de Artes para O Menino Camelô (Atual Editora, 1992, 12ª. Edição), Menção Honrosa do Jabuti para Os Recuados (Editora Tchê!1987) e várias vezes fui agraciado com o primeiro lugar nos certames  promovidos pela União Brasileira de Escritores (RJ).            

          Jorge Amado exercia a amizade como uma coisa nata, tão dele. E me mostrava sempre que com as mãos nas mãos, o gesto desprovido de interesses pessoais, desligado da religião do egoísmo, tudo fica mais fácil. Com ele não entravam no exercício da vida a inveja e a intriga. Dava-me conta por isso que existia ainda o homem simples como o artista, embora fosse comum encontrar na vida o artista vaidoso e invejoso como o homem.  

          Dizia-se ateu, ele que era cristão porque fraterno, solidário, sincero, humaníssimo. Que coisa muito triste, a vida física de Jorge ter acabado. E tanta gente ruim existe neste mundo velho agindo sempre para fazer o mal porque habita nos lados escuros da vida. Gente com a alma venenosa, às vezes quando tem o poder da mídia nas mãos gosta de fazer o outro como seu refém por puro prazer ou para infundir medo ou para, excluindo as qualidades do ofendido, se afirmar com seus ressentimentos  

          Ainda bem que Jorge Amado deixou para milhares não o irracional como norma de comportamento, a perseguição canina das negações que infunde o medo, mas a esperança nas narrativas que mostram as verdades essenciais dos excluídos ligados à comédia da vida. Esse que nasceu numa pequena fazenda em Ferradas, bairro mãe de Itabuna, passou a infância e juventude em Ilhéus para ser um bem-amado cidadão do mundo com seus belos romances, em inacreditável peripécia porque assim devia ser.     

          Que privilégio ter sido amigo de Jorge Amado.  

 

Cyro de Mattos -Escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – O Amigo Jorge Amado, por Cyro de Mattos

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O Amigo Jorge Amado
Cyro de Mattos


            Conheci Jorge Amado nos idos de l959, em tarde de  autógrafos, na  antiga Livraria Civilização Brasileira, da rua Chile, Salvador. Na fila enorme dos que aguardavam a sua vez para receberem o autógrafo, eu lá estava, moço do interior, estudante da Faculdade de Direito  da UFBA. Estava nervoso. Vivia a expectativa de ver de perto o consagrado romancista baiano pela primeira vez. Quando chegou o momento de receber o  autógrafo de Jorge, aproximei-me com o exemplar de Gabriela, cravo e canela. E, timidamente, disse-lhe  que  era  grapiúna,  como ele vinha das terras ricas do cacau no Sul da Bahia. No mesmo instante da revelação do lugar de nascimento,  fez-se num  rosto largo e manso o sorriso alegre de quem acabava de ouvir algo que lhe tocava o coração. Com que prazer o autor de  Gabriela, cravo e canela  assinalou no livro ser  também grapiúna, das terras de Itabuna, das ricas plantações de cacau, do território onde uma saga havia sido forjada por homens rústicos  com suor, cobiça e morte.  Fazia assim com que eu sorrisse um belo sorriso e amasse ainda mais as minhas raízes grapiúnas.

            Seguia no rio da vida  e, em 1966, já no Rio de Janeiro,  publicava meu primeiro livro,  pequeno volume de contos, hoje riscado de minha  produção por ter envelhecido  o texto rapidamente.  Enviei o pequeno volume a Jorge Amado, seguindo conselho de um companheiro de geração, mas não esperando que viesse alguma opinião do autor de Terras do sem fim sobre o meu livro de estreia. Qual não foi a minha grata surpresa depois, por ver em curto espaço de tempo um livro de autor desconhecido  ser apresentado à  Academia Brasileira de Letras com palavras favoráveis do admirável romancista Jorge Amado.

            Outros livros meus vieram e foram merecedores de artigos com elogio por parte  de Jorge Amado. Não deixavam de ser opiniões sob a ótica impressionista,  mas  espontâneas,  o que interessava. Verdadeiras, simples e profundas, abonadas com a  sensibilidade de quem mais  conhece os caminhos do fazer literário na recriação da vida. E mais: ele  publicava os artigos que escrevia sobre aqueles livros em jornais importantes como A Tarde, Jornal de Letras (Rio), do saudoso Elysio Condé, Jornal do Comércio (Rio) e Suplemento Literário de Minas Gerais.

             Tais gestos do criador de Quincas Berro d’Água aconteceram também com outros escritores, alguns  emergentes, outros com obra em andamento ou consagrados, baianos ou não. O romancista João Ubaldo Ribeiro sabe do que falo  agora. E Guido Guerra, Sonia Coutinho, Florisvaldo Mattos, Ildásio Tavares, Hélio Pólvora, Jorge Medauar e Vasconcelos Maia.  Ele nunca atropelava, sempre enriquecia o companheiro de letras com suas opiniões, sem esperar nada em troca. Nada tomava na guerra neurótica, muitas vezes diabólica, que é a da literatura, infelizmente. Prefácios, orelhas, artigos, depoimentos, apresentações à Academia Brasileira de Letras, um legado literário da melhor qualidade em língua portuguesa sobre livros de nossos autores. Textos que,  se forem coligidos,  dariam   valiosos livros como uma importante contribuição à cultura  brasileira e ao corpo de nossas letras.

              Ao escrever sobre um dos meus livros destinados às crianças, artigo que foi publicado no jornal A Tarde, em forma de missiva dirigida ao romancista Josué Montelo, então presidente da Academia Brasileira de Letras, Jorge Amado chegou ao ponto de  lembrar meu nome para fazer parte daquela tão importante instituição cultural. Houve exagero. Só mesmo Jorge, com o seu coração de mel de cacau,  alma com  ardor e verdor  de marinheiro baiano, onde habitava um sol com sua flor gigantesca,  podia distinguir meu nome de maneira tão  generosa, que comovia e servia como incentivo  para que eu continuasse em minha jornada de ser escritor.

              Exercia a amizade como uma coisa nata, tão dele. E nos mostrava sempre com os  gestos fraternos para o deleite doce e meigo dos dias  que com mãos nas mãos tudo fica mais claro. Com ele não entravam  no exercício da vida a intriga, a inveja e o despeito.

             Dava-me conta por isso que existia  ainda  o homem simples como o artista, embora fosse comum encontrar na vida   o artista vaidoso como o homem.

            Dizia-se ateu, ele que era tão cristão porque terno, solidário, sincero: humaníssimo. E o contador de histórias? Você não escreveu nada sobre isso? Perguntou-me Mariza, minha esposa, para quem eu li trechos dessa crônica, cada vez que parava e buscava força para prosseguir, de tão estranho que achava a vida ter perdido esse raro amigo. Disse-lhe: você sabe mais do que eu. Fascinante, mágico, dramático, lírico. Ele dava dignidade aos excluídos. . Encantava  da primeira à última página através da  escrita sensual. Recriava a vida como poucos quando emprestava a palavra ao real e o ao sonho.

            Que coisa muito triste, a vida física de Jorge ter acabado. Tanta coisa, tanto caso, tanta verdade deixou  para o leitor espantar para longe o tempo ruim. Esse que nasceu numa pequena fazenda em Ferradas, que foi distrito e hoje é  bairro do município de Itabuna, passou a infância e juventude em Ilhéus para ser um bem-amado cidadão do mundo, em inacreditável peripécia porque assim devia ser.


(Do livro Um grapiúna em Frankfurt, crônicas, Dobra  Editorial, SP, 2013)




Cyro de Mattos - Ficcionista e poeta. Publicado em inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, russo. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. É membro titular da Academia de Letras da Bahia,da Academia de Letras de Ilhéus e membro fundador da Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz-UESC.

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