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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

NA PRESENTE PANDEMIA, A MÃO DE DEUS CASTIGA? – Luiz Sérgio Solimeo

31 de julho de 2020

Jesus Cristo expulsa os vendilhões do Templo – Giotto di Bondone, séc. XIV. Capella degli Scrovegni, Pádua.

 Luiz Sérgio Solimeo

 Para alguns altos prelados, Deus jamais castiga. Dizer que o flagelo da atual pandemia possa ser um castigo divino seria, para eles, uma coisa pagã. Foi o que declarou em recente entrevista Dom Mario Delpini, atual sucessor de São Carlos Borromeu na arquidiocese de Milão. O repórter perguntou-lhe se “devemos implorar a Deus por socorro porque, como dizem alguns pregadores, é Ele quem envia o flagelo do vírus”. A resposta do arcebispo foi surpreendente: “Essas são teorias sobre Deus, que eu não sei de onde veem, e que não compartilho. A oração agora não pretende pedir a Deus que remova um castigo que Ele mesmo enviou; nós não temos um Deus irado que deve ser acalmado. Para mim, isso parece uma concepção muito pagã”.1

O Cardeal Antônio Marto, bispo de Leiria-Fátima, Portugal, se pronunciou do mesmo modo. Questionado se concordava com os padres, e mesmo cardeais, que alegavam ser o coronavírus um castigo de Deus, ele respondeu, em flagrante contraste com a mensagem de Fátima: “Isso não é cristão. Só o diz quem não tem na sua mente ou no seu coração, por ignorância, fanatismo sectário ou loucura, a verdadeira imagem de Deus Amor e Misericórdia revelada em Cristo”.2

Outro prelado, o Cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, também parece dar pouco valor à oração durante uma pandemia. Com relação ao desejo de alguns fiéis, de que as missas sejam permitidas aos fiéis nas igrejas, ele comentou: “Religião não é mágica, onde apenas fazemos orações e pensamos que as coisas vão mudar. Deus nos deu um cérebro e o dom da inteligência, e temos que usá-los neste momento”.3

O Pe. Raniero Cantalamessa, OFMCap. [foto abaixo], Pregador da Casa Pontifícia desde 1980, também negou, em sermão na noite da Sexta-Feira Santa na Basílica de São Pedro vazia, que a atual pandemia pudesse ser um castigo de Deus: “Deus é nosso aliado, não o aliado do vírus! […] Se esses flagelos fossem castigos de Deus, seria inexplicável, por que eles atingem bons e maus; e porque, geralmente, os pobres sofrem as maiores consequências. São eles mais pecadores que outros?”.4

Não existem razões para uma punição?

Como podem esses eclesiásticos ter tanta certeza de que a pandemia de coronavírus não é uma manifestação da ira de Deus, pelos muitos pecados hodiernos? E certeza também de que não é um castigo ou um aviso de Deus?

A apostasia impressionante da sociedade moderna, em relação à verdade do Evangelho, leva muitos a se perguntarem se Deus não está enviando uma mensagem à humanidade por meio do coronavírus. Ele poderia estar dizendo: “Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te” (Apoc. 3,19).5

Poderia Deus estar mostrando Seu supremo descontentamento com a amoralidade, a libertinagem, a perda de fé e o pecado hoje reinantes?

Se considerarmos apenas o aborto voluntário, por exemplo, não poderia a pandemia ser um castigo divino pelo sangue de milhões de vítimas inocentes, que sobe ao Céu clamando a Deus por justiça? “Eles derramaram o sangue dos santos como água ao redor de Jerusalém. E não houve quem os sepultasse. Vinga, ó Senhor, o sangue dos Teus santos, que foi derramado sobre a terra”.6

As declarações dos eclesiásticos acima mencionados resultam de uma falsa noção da misericórdia e justiça divinas, e estão em contradição com a doutrina católica e a Tradição. Por isso parece oportuno relembrar alguns pontos doutrinários e responder a algumas objeções.

“Se a pandemia de coronavírus pode ser explicada cientificamente, não pode ser uma intervenção divina”.

Esta é a objeção usual à intervenção de Deus. Se a ciência pode explicar a natureza e as consequências do coronavírus (SARS-Cov-2), não haveria necessidade de considerar a intervenção divina. Entretanto, embora a ciência positiva possa explicar a mecânica dos desastres naturais, ela não explica seu significado transcendente.

Excluir qualquer intenção divina nos eventos, seria negar que “todas as coisas, na medida em que participam da existência, devem igualmente estar sujeitas à providência divina”.7 Caso contrário, Deus teria feito a criação sem fim e propósito, portanto não seria sábio; ou então Ele seria incapaz de intervir em sua própria criação, portanto não seria onipotente. Mas isso equivaleria a negar sua existência, pois a simples possibilidade de um Deus imperfeito contradiz a própria noção de Deus. Ou Ele é um Ser absolutamente perfeito, ou o próprio conceito de Deus não faz sentido.

Toda a Criação está sob o poder do governo divino, e sujeita aos sábios desígnios de Deus. [Foto: Frederico Viotti / Vitral da igreja de São Sulpício, Fougeres (França)].

 Nada na criação escapa ao governo de Deus

De fato, Deus não apenas criou todos os seres por meio de um ato soberano de sua divina Vontade, mas os sustenta na existência e os guia para o fim para o qual os criou, a saber, Sua glória extrínseca, sem entretanto tirar a liberdade das criaturas racionais. Em outras palavras, toda a Criação está sob o poder do governo divino, e sujeita aos sábios desígnios de Deus. Como ensina São Tomás de Aquino:

“Deus é governador e causa dos seres; pois a Ele pertence produzi-los e dar-lhes a perfeição, o que tudo é próprio de quem governa. Ora, Deus é, não a causa particular de um gênero de seres, mas a causa universal, da totalidade dos seres. Por onde, assim como nada pode existir sem ser criado por Deus, assim também nada há que lhe possa escapar ao governo. […] Por onde, como nada pode haver que não se ordene à bondade divina como fim, segundo do sobredito se colhe, impossível é a qualquer ser subtrair-se ao governo divino”.8

São Tomás explica ainda que, embora esse governo divino seja direto e imediato do ponto de vista do desígnio, isso não significa que Deus não possa usar meios secundários para a execução final de seus planos. Consequentemente, Ele pode usar os anjos ou até homens para intervir na História. Ele pode usar as forças naturais e as leis físicas, que são derivadas da natureza dos seres quando Ele os criou, e seus relacionamentos entre si.9

No entanto, apenas porque Deus normalmente se utiliza dessas causas secundárias para executar seus planos, isso não significa que Ele não esteja direcionando, de maneira superior, todas as coisas para o seu verdadeiro propósito, que é a sua glória. Deus geralmente age na História sem suspender as leis da natureza, mas orientando-as na obtenção de resultados específicos. Por exemplo, quando o Profeta Elias orou pedindo pela chuva em Israel, que estava sofrendo com uma seca terrível, Deus fez com que muitas nuvens se juntassem e chovesse fortemente (1 Reis 18, 41-45). Em outras ocasiões Ele suspendeu as leis da natureza, como, por exemplo, quando os israelitas cruzaram o Mar Vermelho (Ex 14, 16).

De fato, a perfeição absoluta de Deus exige que Ele aja continuamente na História. Isto é abundantemente confirmado pelas Sagradas Escrituras e pelos escritos dos Padres e Doutores da Igreja. Portanto, ao analisar a atual catástrofe, o governo de Deus no mundo deve ser levado em consideração.

● “Deus é a própria bondade, portanto, jamais castiga os homens”.

Esta é outra objeção comum ao castigo divino. No entanto, se levada à sua consequência lógica e última, negaria o dogma da existência do inferno.

Visto que Deus é o Ser absolutamente perfeito e a causa de toda perfeição, Ele deve ter em Si todas as perfeições possíveis.10 Assim, Ele não é apenas infinitamente bom e misericordioso, mas também infinitamente justo.

Deus reserva a recompensa ou o castigo final e definitivo para a outra vida, como pode ser visto na parábola do trigo e do joio (Mt 13, 24-30). Mas Ele também castiga nesta Terra. Esta verdade é formalmente encontrada nas Sagradas Escrituras. Alguns exemplos são as pragas do Egito (Ex 7-8), o dilúvio (Gen. 6-8), a destruição de Sodoma e Gomorra (Gen. 19) e a destruição de Jerusalém (Mt 24, 1-2).

Deus julga e castiga os homens, e cada um individualmente

Estátua de Carlos Magno. São Paulo afirma que a “autoridade [terrena] está a serviço de Deus, […] não é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus, para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal” (Rom. 13, 4).

Além disso, São Paulo afirma que a “autoridade [terrena] está a serviço de Deus, […] não é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus, para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal” (Rom. 13, 4). Mas, como é evidente, nenhuma autoridade humana poderia ser um ministro ou agente da justiça divina, se o próprio Deus não aplicasse o castigo terrestre.

Segundo o Apóstolo, o homem não pode escapar à justiça divina, seja nesta vida ou na próxima: “Tu, ó homem […] pensas que escaparás ao juízo de Deus? […] Mas, pela tua obstinação e coração impenitente, vais acumulando ira contra ti, para o dia da cólera e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam a glória, a honra e a imortalidade; mas ira e indignação aos contumazes, rebeldes à verdade e seguidores do mal” (Rom. 2, 2-8).

Deus é misericordioso. Mas “sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem” (Lc 1, 50), proclama a Santíssima Virgem no Magnificat.

“Como a calamidade afetou tanto os bons quanto os maus, não pode ser um castigo divino — Deus jamais castigaria o bom”.

Para tratar adequadamente desta objeção, cumpre primeiro relembrar alguns ensinamentos básicos de nossa Fé católica:

a — Deus é o Senhor da vida: a Ele devemos nossa existência; e, assim como Ele livremente nos deu vida, é livre para no-la tirar. Não há injustiça quando Ele o faz, independentemente do estágio da vida, seja a de um bebê, de uma criança, de um adulto em pleno vigor, ou de alguém que atingiu a venerável velhice.

b — A vida e a felicidade eternas, não as terrenas, são nossos objetivos finais: além do mais, nossa vida terrena e a felicidade não são fins em si mesmas. Elas não são a principal razão de nossa existência. São o caminho, o meio para alcançarmos a vida eterna, que é nosso verdadeiro objetivo. Assim, São Paulo nos lembra: “Nós, porém, somos cidadãos dos céus” (Fip. 3, 20). O modo de agir de Deus se torna incompreensível quando perdemos de vista a vida eterna e a felicidade celestial.

c — Deus pune o pecado coletivo coletivamente: quando o pecado se generaliza e é grandemente tolerado, ou cometido por indivíduos muito representativos, ele compromete toda a família, a cidade, a região, a nação, e mesmo épocas históricas. Essa dimensão coletiva torna o pecado particularmente grave e ofensivo a Deus, trazendo como resultado o castigo divino também coletivo. Os bons e os maus sofrem: os primeiros, para se tornarem mais perfeitos; os segundos, como castigo por suas faltas e convite à conversão.

O vulcão Galeras ameaça com a sua erupção a cidade de Pasto, no sul da Colômbia. Foram feitas procissões pedindo a Deus que poupasse a cidade do castigo.

Santo Agostinho explica o castigo coletivo

O grande Santo Agostinho, bispo de Hipona, Doutor e Padre da Igreja, viveu durante as invasões bárbaras que provocaram a queda do Império Romano do Ocidente. De fato, os vândalos estavam assaltando as muralhas da sua cidade quando ele morreu.

Durante esse período conturbado, os romanos pagãos culparam a Igreja pelo colapso do Império e da Civilização. Argumentavam eles que, se o Império não se tivesse tornado cristão, Júpiter e os outros deuses de Roma o teriam salvo da destruição. Acrescentavam ainda que o Deus dos cristãos não era nenhum deus, pois não os havia poupado dos bárbaros.

Santo Agostinho escreveu o livro “A Cidade de Deus” para defender a Igreja e fortalecer a fé nos corações. Nessa sua obra-prima ele explica o motivo dos castigos coletivos. Seu raciocínio pode ser resumido da seguinte forma:

1 — Como as nações como tais não passam para a vida eterna, elas são recompensadas ou castigadas nesta vida pelo bem ou pelo mal que praticam. Os bons e os maus sentem os efeitos da recompensa e do castigo.11

2 — Quanto aos bons, o castigo purifica neles o amor a Deus. Pode até levá-los das tribulações desta vida para a vida eternamente feliz do Céu. “Os bons têm ainda outra razão para sofrer os males temporais. É a mesma de Job: que o homem submeta o seu próprio espírito à prova, e comprove e conheça com que grau de piedade e com que desinteresse ama a Deus”.12

3 — Por outro lado, com frequência os bons são justamente castigados pelo egoísmo, falta de coragem e de zelo apostólico, que os impede de apontar para os maus o desacerto de seus caminhos: “Receiam pôr em perigo e perder a sua integridade e reputação, […] se comprazem nas adulações e temem a opinião pública, os tormentos da carne ou da morte, isto é, por causa dos grilhões de certas paixões e não por causa do dever de caridade”.13

4 — Quanto aos maus, eles são castigados pela “divina Providência que costuma, com guerras, purificar e castigar os costumes corrompidos dos homens”.14

Este é também o ensinamento de Santo Tomás, que afirma: “Justiça e misericórdia aparecem no castigo dos justos neste mundo, uma vez que pelas aflições são limpos de falhas menores, e eles são mais elevados das afeições terrenas a Deus. Da mesma forma, São Gregório diz: ‘Os males que nos pressionam neste mundo nos forçam a ir a Deus’”.15

Nossa Senhora de Fátima: uma advertência profética e maternal

Em 1917, Maria Santíssima apareceu em Fátima para advertir que, se o mundo não se convertesse e não fizesse penitência, seria castigado: “Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. […] Espalhará [a Rússia] seus erros pelo mundo […]; os bons serão martirizados, […] várias nações serão aniquiladas”.16

Independentemente de as causas da pandemia de coronavírus serem naturais ou provocadas pelo homem, não podemos excluir os sábios e insondáveis desígnios da Divina Providência. Pelo contrário, por todas as razões expostas acima, e de maneira particular pela mensagem de Nossa Senhora em Fátima, parece-nos que a prudência exige que consideremos com seriedade a possibilidade de que Deus esteja nos advertindo de nossas falhas e nos conclamando ao arrependimento.

Deus não quer a morte do pecador, mas a sua conversão.17 No entanto, se o mundo não atender ao chamado de conversão de Nossa Senhora, não ficaremos surpresos se tragédias ainda piores afligirem o mundo — a aniquilação de nações inteiras, por exemplo, como mencionado por Ela em Fátima.

Seja qual for o futuro que nos é reservado, devemos sempre lembrar que Nossa Senhora também predisse em Fátima a conversão definitiva da humanidade e sua vitória: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará!”.

Que a série de catástrofes que caíram sobre o nosso País e o mundo nos ajude a levar a sério o chamado maternal de conversão feito por Nossa Senhora, pois existe esta promessa divina: “Sê fiel até a morte, e te darei a coroa da vida” (Apoc. 2, 10).

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Notas:

* Este artigo encontra-se disponível em inglês no link: https://www.tfp.org/is-the-voice-of-god-resounding-in-the-present-pandemic/

Salvatore Cernuzio, “Delpini: Da Pagani Pensare a um Dio Che Manda Flagelli. A Milano Chiese Chiuse Mai ‘”, La Stampa, 16 de março de 2020, https://www.lastampa.it/vatican-insider/it/2020/03/16/news/delpini-da-pagani-pensare-a -un-dio-che-manda-flagelli-a-milano-chiese-chiuse-mai-1.38600147 . (Nossa ênfase).

João Francisco Gomes, “’Ignorância, Fanatismo ou Loucura.’ Cardeal António Marto Crítica Quem Diz Que Pandemia É Castigo de Deus”, Observador, 15 de abril de 2020, https://observador.pt/2020/04/15 / ignorancia-fanatismo-ou-loucura-cardeal-antonio-marto-critica-quem-diz-que-pandemia-e-castigo-de-deus /

Bernie Tafoya, “Cardinal Cupich Prepares For A First-Of-Its-Kind Easter Amid Coronavirus,” WBBM780.radio.com, Apr. 9, 2020, https://wbbm780.radio.com/articles/cardinal-cupich-prepares-for-a-first-of-its-kind-easter.

 Notícias do Vaticano, “O Papa celebra a paixão do Senhor, como o pregador papal reflete na pandemia de Covid-19”, Vatican News, 10 de abril de 2020, https://www.vaticannews.va/en/pope/news/2020 -04 / papa-francis-paixão-do-senhor-cantalamessa-sermon-coronavirus.html.

As citações bíblicas são da Biblia Ave Maria.

Adaptação do Salmo 78: 3, 9–10, Tracto da Missa dos Santos Inocentes, Mártires, (dia da festa 28 de dezembro) antigo missal romano latino.

São Tomás de Aquino, Summa Theologica, I, q. 22, a. 2c.

Ibid., Q. 103, a. 5.

Ver Idem, Ibid., a. 6.

Assim, Santo Tomás diz: “Visto que Deus é a causa primeira e eficaz das coisas, as perfeições de todas as coisas devem preexistir em Deus de uma maneira mais eminente”. (I, q. 4 a. 2).

Ver A. Rascol, s.v. “Providence, S. Augustin”, em Vacant-Magenot-Amann, Dictionnaire de Théologie Catholique (Paris: Letouzey et Ané, 1936), vol. 13, col. 963.

Santo Agostinho, A Cidade de Deus, livro I, cap. IX. Tradução de J. Dias Pereira. 2.a Edição. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, 1996, p. 124.

Ibid.

Ibid., Cap. 1.

São Tomás, Summa Theologica, I, q. 21, a. 4.

Antonio Augusto Borelli Machado, As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, Editora Vera Cruz Ltda., 35ª edição, São Paulo, 1993, pp. 46-47.

Terei eu prazer com a morte do malvado? – oráculo do Senhor Javé –. Não desejo eu, antes, que ele mude de proceder e viva?” Ezequiel 18:23.


 http://www.abim.inf.br/na-presente-pandemia-a-mao-de-deus-castiga/


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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A ENCÍCLICA HUMANÆ VITÆ E A REVOLUÇÃO SEXUAL

30 de agosto de 2019


Uma condenação atual e perene
 Luiz Sérgio Solimeo

No dia 25 de julho de 2018, a Igreja celebrou o 50º aniversário da publicação da Encíclica Humanæ Vitæ, do Papa Paulo VI, lançada no contexto da revolução sexual de meados dos anos sessenta. A moda, a literatura e a indústria do entretenimento haviam contribuído para uma atmosfera em que a moral tradicional em matéria sexual foi subvertida. Isto se manifestou especialmente em filmes de Hollywood, na televisão, na descoberta e divulgação da pílula anticoncepcional e no advento da minissaia. 

(É proibido proibir)
Em maio de 1968, o surto de distúrbios estudantis na maioria das universidades do Ocidente deu à revolução sexual uma base ideológica, unificando e dando significado a toda uma gama de tendências desordenadas voltadas contra a moral tradicional. Essa base ideológica consistia numa mistura de anarquismo, marxismo e freudismo. Ela negava a ordem político-social, e qualquer forma de autoridade, civil, religiosa ou de lei moral. Um slogan pintado nas paredes do campus da Universidade de Paris-Sorbonne (É proibido proibir) condensava numa frase toda essa revolta. [foto ao lado]
Ao mesmo tempo, círculos católicos progressistas procuravam fazer com que a Igreja “se adaptasse” cada vez mais ao mundo. Inúmeros teólogos começaram a argumentar que a Igreja deveria mudar sua moral perene e abandonar a intransigência em questões sexuais, aceitando a “liberdade” sexual e o uso de contraceptivos artificiais. 

A IGREJA NÃO PODE MUDAR A LEI DE DEUS, EXPRESSA NA NATUREZA

Foi nesse clima de contestação que o Papa Paulo VI decidiu publicar uma encíclica sobre a contracepção — a Humanæ Vitæ.[1] A encíclica deu grande alívio aos fiéis católicos, ao mesmo tempo que provocava consternação nas hostes liberais, porque reafirmou, com toda clareza, a doutrina tradicional da Igreja sobre a natureza do casamento e a finalidade primária do ato sexual. Ao mesmo tempo condenou, de modo incisivo, o uso da pílula anticoncepcional ou de qualquer outro meio artificial de contracepção. 
A encíclica explica claramente que a Lei de Deus não pode ser mudada, uma vez que ela é expressa na própria natureza humana: “A Igreja não foi a autora dessa lei, e não pode portanto ser árbitra da mesma; ela é somente depositária e intérprete; nunca pode declarar lícito aquilo que não o é, pela sua íntima e imutável rejeição ao que se opõe ao verdadeiro bem comum do homem”.[2] 
A encíclica é baseada na lei natural e na Revelação, ambas manifestando a vontade de Deus. O Magistério da Igreja recebeu a missão não apenas de interpretar a Revelação, mas também a lei natural, portanto aborda a moral em todos os seus aspectos: “Jesus Cristo, ao comunicar a Pedro e aos Apóstolos a sua autoridade divina, e ao enviá-los a ensinar a todos os povos os seus mandamentos, constituiu-os guardas e intérpretes autênticos de toda a lei moral; ou seja, não só da lei evangélica, como também da natural, dado que ela é igualmente expressão da vontade divina, e que a sua observância é do mesmo modo necessária para a salvação”.[3]
Em conformidade com a lei natural e a Revelação, a Humanæ Vitæ enfatiza que a relação sexual, “é própria e exclusiva aos cônjuges”,[4] e, por sua própria natureza, é ordenada “para a procriação e educação dos filhos”.[5] Por isso, não hesita em afirmar: “Chamando a atenção dos homens para a observância das normas da lei natural, interpretada pela sua doutrina constante, a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida”.[6] 

Inúmeros teólogos começaram a argumentar que a Igreja deveria mudar sua moral perene e abandonar a intransigência em questões sexuais, aceitando a “liberdade” sexual e o uso de contraceptivos artificiais

CONDENANDO A LIMITAÇÃO ARTIFICIAL DA NATALIDADE 


Ao contrário da mentalidade antinatalista de hoje, que vê as crianças como obstáculos à felicidade conjugal, a encíclica recorda: “Sem dúvida, os filhos são o dom mais excelente do matrimônio e contribuem grandemente para o bem dos pais”.[7] E delineia a obrigação dos cônjuges de aderir às normas ditadas pela lei natural e divina: “Na missão de transmitir a vida, os pais não são, portanto, livres para procederem a seu próprio bel-prazer, […] mas devem conformar o seu agir com a intenção criadora de Deus”.[8] 
Quando o ato conjugal é praticado de tal maneira que “prejudique a disponibilidade para transmitir a vida que Deus, Criador de todas as coisas, nele inseriu segundo leis particulares, está em contradição com o desígnio constitutivo do casamento e com a vontade do Autor da vida humana”.[9] Em linguagem simples, está afirmado que pecam os que praticam o ato sexual impedindo artificialmente a procriação.
Assim, a Igreja não pode aceitar, mas deve condenar a contracepção: “Em conformidade com estes pontos essenciais da visão humana e cristã do matrimônio, devemos uma vez mais declarar que é absolutamente de excluir, como via legítima para a regulação dos nascimentos, a interrupção direta do processo gerador já iniciado; e sobretudo o aborto querido diretamente e procurado, mesmo por razões terapêuticas. É de excluir de igual modo, como o Magistério da Igreja repetidamente declarou, a esterilização direta, quer perpétua quer temporária, tanto do homem como da mulher. É ainda de excluir toda a ação que, em previsão do ato conjugal ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação”.[10]
Para se avaliar o alcance e a seriedade dessa condenação, o Papa deixou claro que estava falando como Doutor da Igreja Universal e sucessor dos Apóstolos. De fato, depois de expor os novos problemas do Magistério, ele afirma inequivocamente: “Por isso, depois de termos examinado atentamente a documentação que nos foi preparada, depois de aturada reflexão e de insistentes orações, é nossa intenção agora, em virtude do mandato que nos foi confiado por Cristo, dar a nossa resposta a estes graves problemas”.[11] 
Alguns teólogos liberais alegaram que o aspecto unitivo do ato conjugal, por si só, é suficiente para justificá-lo. E poderia ser dissociado do aspecto procreativo, justificando assim o uso da pílula anticoncepcional. A encíclica, ao contrário, reafirma que os aspectos unitivos e procreativos do ato conjugal são inseparáveis por sua própria natureza, como estabelecido pelo Criador. Portanto o homem não pode, por sua própria iniciativa, romper a conexão inseparável “entre o significado unitivo e o significado procreativo”, ambos inerentes ao ato conjugal.[12]
Tais teólogos invocam a teoria do “mal menor”, para justificar o uso da pílula anticoncepcional. No entanto, a encíclica explica que essa teoria não se aplica a este caso: “Nunca é lícito, nem sequer por razões gravíssimas, fazer o mal para que daí provenha o bem (Rom. 3, 8); isto é, ter como objeto de um ato positivo da vontade aquilo que é intrinsecamente desordenado, e portanto indigno da pessoa humana, mesmo se for praticado com intenção de salvaguardar ou promover bens individuais, familiares, ou sociais”.[13]

Em conformidade com a lei natural e a Revelação, a Humanæ Vitæ enfatiza que a relação sexual “é própria e exclusiva aos cônjuges”, e, por sua própria natureza, é ordenada “para a procriação e educação dos filhos”.

ADVERTINDO OS ESTADOS DE ÍNDOLE TOTALITÁRIA 

Quem analisa a Humanæ Vitæ não pode deixar de admirar a sabedoria da doutrina tradicional da Igreja, prevendo ao longo do tempo a situação a que chegaria o mundo moderno, com os Estados exibindo tendência sempre crescente de definir suas próprias normas para as famílias, resultando uma assustadora corrupção da moral. Por isso a encíclica enfatiza que o controle artificial da natalidade abre facilmente o caminho para a infidelidade conjugal e causa “um abaixamento geral dos padrões morais”, expondo particularmente os jovens à tentação. A advertência é clara: 
“Quem poderia reprovar um governo que aplicasse à solução dos problemas da coletividade aquilo que viesse a ser reconhecido como lícito aos cônjuges para a solução de um problema familiar? […] Portanto, não se querendo expor ao arbítrio dos homens a missão de gerar a vida, devem-se reconhecer necessariamente limites intransponíveis no domínio do homem sobre o próprio corpo e as suas funções; limites que a nenhum homem é lícito ultrapassar, seja ele simples cidadão privado ou investido de autoridade”.[14] 
Não há nada utópico na solução apresentada pela Humanæ Vitæ, e de fato é a única realmente coerente e eficaz. Por isso ela chama a atenção dos “educadores e de todos aqueles que desempenham tarefas de responsabilidade, em ordem ao bem comum da convivência humana, […] para a necessidade de criar um clima favorável à educação para a castidade, isto é, ao triunfo da liberdade sã sobre a licenciosidade, mediante o respeito da ordem moral”.[15] 
Observa ainda que a virtude da castidade, sem a qual a família está destinada a perecer, infelizmente é atacada de todas as formas: “Tudo aquilo que nos modernos meios de comunicação social leva à excitação dos sentidos, ao desregramento dos costumes, bem como todas as formas de pornografia ou de espetáculos licenciosos, devem suscitar a reação franca e unânime de todas as pessoas solícitas pelo progresso da civilização e pela defesa dos bens do espírito humano. Em vão se procurará justificar estas depravações com pretensas exigências artísticas ou científicas, ou tirar partido da liberdade deixada neste campo por parte das autoridades públicas”.[16] 

AGIR DE ACORDO COM ENSINAMENTOS PERENES 


Que São Joaquim e sua castíssima filha, a Virgem Maria,
iluminem a tantos que no meio da confusão dos dias atuais
correm o risco de encaminharem seus passos
pelos caminhos de perigosa e terrível perdição


Cinquenta anos após a publicação da Humanæ Vitæ, seus ensinamentos continuam válidos como sempre, e indiscutivelmente se aplicam ao debate sobre o “casamento” homossexual e inúmeras outras aberrações, que tanto ameaçam a família e a própria vida humana. Em meio a essa cacofonia, que obedece a comandos ocultos, deve ser sempre reafirmada a doutrina católica sobre o propósito do ato sexual, e, portanto, do casamento. 
Baseada na imutabilidade da natureza humana, na Sabedoria e Vontade divinas, a doutrina católica prega hoje aquilo que sempre pregou e sempre pregará até o fim dos tempos. Tal pregação nem sempre é popular. De fato, a Humanæ Vitæ foi recebida com desânimo e desprezo pelos promotores da revolução sexual. Mas desprezo à verdade não torna a verdade menos verdadeira. Ao condenar a revolução sexual, num chamado constante para retornar à verdadeira natureza do casamento, a voz sempre coerente e perene da Igreja se destaca ainda mais em meio ao caos moral. 
Estamos em tempos difíceis, ainda mais deteriorados após a Amoris Lætitia. Mas a encíclica de Paulo VI permanece um farol para os que são fiéis ao ensinamento perene da Igreja. Hoje, infelizmente, muitos teólogos, inclusive bispos e cardeais, querem mudar essa doutrina perene. Há até rumores de que o Papa Francisco teria convocado uma comissão para estudar a história da Humanæ Vitæ, presumivelmente com a intenção de modificá-la. 
De nossa parte, aconteça o que acontecer, teremos sempre como norma de vida e combate os princípios imutáveis da lei natural e da Revelação.

____________ 
Notas
1. CARTA ENCÍCLICA HUMANAE VITAE DE SUA SANTIDADE PAPA PAULO VI, 25 de julho do ano de 1968, http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_25071968_humanae-vitae.html. Durante a comemoração do 40º aniversário, Bento XVI enfatizou: “Quarenta anos depois da sua publicação, aquele ensinamento não só manifesta a sua verdade inalterada, mas revela também a clarividência com a qual o problema é tratado”. (Discurso aos participantes do congresso internacional organizado pela Pontifícia Universidade Lateranense por ocasião do 40º aniversário da Encíclica Humanae Vitae, em 10 de maio de 2008: http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2008/may/documents/hf_ben-xvi_spe_20080510_humanae-vitae.html.

2. HV, nº 18. As citações da Humanae Vitae referem-se ao número do parágrafo da encíclica apresentado no site do Vaticano: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_25071968_humanae-vitae.html
3. HV, nº 4.
4. HV, nº 8.
5. HV, nº 9.
6. HV, nº 11.
7. HV, nº 9.
8. HV, nº 10.
9. HV, nº 13.
10. HV, nº 14.
11. HV, nº 6. Inúmeros teólogos são da opinião de que a condenação da contracepção é uma doutrina infalível. Por exemplo: Pe. M.R. Gagnebet, O.P., “The Authority of the Encyclical Humanae Vitae” (“A Autoridade da Encíclica Humanae Vitae”), em www.ewtn.com/library/Theology/AUTHUMVT.HTM; Pe. John Hardon, S.J., “Contraception: Fatal to the Faith” (“Contracepção: Fatal à Fé”), em www.catholic-pages.com/morality/fatal.asp; Pe. Brian W. Harrison, O.S., revisão de Humanae Vitae e Infallibilità: il Concilio, Paolo VI e Giovanni Paolo II (“Humanae Vitae e Infalibilidade: o Concilio, Paulo VI e João Paulo II”), por Ermenegildo Lio, O.F.M. (Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 1986), em www.rtforum.org/lt/lt12.html; Pe. Joseph H. Ryder, S.J., “Pope Paul VI’s Encyclical Humanae Vitae as an Infallible Definition of Doctrine” (“A Encíclica Humanae Vitae do Papa Paulo VI como uma Definição Infalível de Doutrina”), Social Justice Review, em www.socialjusticereview.org/articles/humanae_vitae.php.
12. HV, nº 12.
13. HV, nº 14.
14. HV, nº 17.
15. HV, nº 22.
16. Id. Ibid.


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