Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Irmão X. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Irmão X. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de dezembro de 2020

O NATAL DO APÓSTOLO – Chico Xavier



O Natal do Apóstolo...

 

1 Quando Simão Pedro foi arrancado aos grilhões do cárcere para o derradeiro sacrifício, sentia o coração varado de angústia, conquanto mostrasse o passo firme.

2 O velho apóstolo, que transpusera os oitenta de idade, levantava a cabeça branca, destacando-se na turba à maneira de um pai atormentado por filhos inconscientes.

3 Irmãos do Evangelho ladeavam-no, tristes, escondendo o próprio desespero, diante da serenidade com que ele, encanecido em duras experiências, se acomodava ao martírio.

4 Mulheres e crianças emaranhavam-se, cortejo adentro, para beijar-lhe as mãos. 

5 Transeuntes, ainda mesmo adversos ao Cristianismo nascente, fitavam-no, respeitosos, qual se vissem um soberano humilhado e pobremente vestido, a caminho de inesperado triunfo… 

6 E até soldados da escolta, recordando vários companheiros que Simão transfigurara, ao curar-lhes os parentes enfermos, abeiravam-se dele com veneração e carinho…

7 Apenas um dos pretorianos, Sertório Aniceto, destacado elemento na expedição, não poupava o sarcasmo.

8 Desejando quebrar a atmosfera de reverência e de êxtase que se fazia, desdobrava impropérios:

— Para diante, velho impudente! Judeu sujo! Lixo humano, que envergonharia os postes da arena!…

9 E mais à frente:

— Não abuse da crendice do povo! Ladrão imundo, chegou seu fim!…

10 Pedro, entretanto, contemplava o céu escaldante da tarde e orava em silêncio…

11 Sentia-se, agora, fatigado e incapaz! Compreendia que a Boa Nova exigia servidores robustos e rogava ao Cristo enviasse obreiros novos e valorosos para a vinha do mundo…

12 Mas não era só isso… No imo do coração, ardia-lhe a saudade do Mestre e ansiava retomar-lhe a companhia para sempre…

13 Escalando a colina, via não longe o Campo de Marte, assinalado pelo monumento de Augusto, as cintilações do Tibre espreguiçando ao sol, o casario imenso, as termas e os jardins; no entanto, regressava pela imaginação à Galileia distante, buscando Jesus em pensamento…

14 Revia o lago de Genesaré, em seus dias mais belos, e as multidões simples e generosas com que o Senhor repartia o pão e a verdade, o consolo e a esperança…

15 Por estranhos mecanismos da memória, respirava, de novo, o perfume das rosas de Betsaida, das romãzeiras de Dalmanuta, das quintas frutescentes de Magdala e dos pequenos vinhedos de Cafarnaum…

16 Apesar do calor reinante, rememorava a pesca e supunha-se envolvido pelo sopro da brisa, quando a barca sobrestava as ondas calmas.

17 Reconstituía, enlevado, as pregações do Divino Amigo e parecia-lhe jornadear de retorno à família das crianças e dos enfermos, das mães sofredoras e dos velhinhos que ele próprio lhe entregara ao coração…

18 Atingido o local do suplício, confiou-se automaticamente aos soldados que o desnudaram, e, como se estivesse hipnotizado pela ideia do reencontro, sofregamente aguardado, quase nada percebeu dos martelos, rudemente manobrados, que lhe apresavam pés e mãos ao lenho que se lhe erguera de improviso…

19 Em derredor, escutava os protestos velados das centenas de espectadores da lamentável exibição, de mistura com as preces dos companheiros agoniados… 

20 Detido, porém, na ânsia de repouso, Pedro não via que o tempo se escoava, sem que lhe desfechassem qualquer golpe…

21 Aqui e além, grupos em orações e lágrimas salientavam-se de mãos postas; contudo, a morte tardava… 

22 Aniceto, entretanto, não o perdia de vista, e, reparando que o crepúsculo baixava, atirou-lhe pontiagudo calhau à cabeça e gritou:

— Morre, bruxo!

23 O apóstolo observou que o sangue esguichava, mas, sem qualquer reação, rendeu-se a invencível torpor, qual se fosse repentinamente anestesiado por brando sono.

24 Semelhante impressão, contudo, perdurou por momentos. O ancião, após desalgemar-se do corpo, identificou-se espiritualmente, livre e eufórico, ao pé dos próprios despojos, e, alheio à algazarra em torno, contemplou o firmamento, onde os astros se inflamavam, como se dedos invisíveis acendessem lumes deslumbrantes para uma festa no céu… 

25 Espantado, observou que um homem descia do alto, como que materializado pela fulguração das estrelas, e, decorridos alguns instantes de assombro, viu Jesus a dois passos, a endereçar-lhe o inolvidável sorriso.

26 — Mestre! — clamou, inclinando-se para beijar o chão que ele pisava. O Messias redivivo tomou-o nos braços e partiu, conchegando-o ao coração, qual se transportasse frágil criança.

27 Por várias semanas restaurou-se Pedro na estância de luz que o Cristo lhe reservara.

28 Junto dele, visitou paragens de inexprimível beleza, recolheu lições preciosas, presenciou espetáculos soberbos da grandeza cósmica e abraçou afeições inesquecíveis…

29 Quando mais integrado se reconhecia no Plano Superior, eis que o Celeste Companheiro lhe anuncia nova separação. Que o discípulo descansasse quanto quisesse, elevando-se às excelsas regiões… Ele, porém, devia ausentar-se…

— Senhor, aonde vais? — indagou o apóstolo, penosamente surpreendido.

30 E Jesus, indicando-lhe escuro recanto da vastidão, em que se adivinhava a residência planetária dos homens, informou, sereno:

— Pedro, enquanto houver um gemido na Terra, não me será lícito repousar…

— Então, Senhor, eu também…

31 E, como outrora, demandaram, juntos, os quadros de ação, em que se lhes evidenciasse o amor sublime…

32 Atraídos por centenas de vozes, atravessaram Roma, parando, por fim, em espaçoso cemitério da Via Ápia, mergulhado na sombra noturna…

33 A multidão cantava, glorificando o Senhor… Não obstante o Natal estivesse na lembrança de poucos, rememorava-se, ali, diante da imensidão constelada, a melodia dos mensageiros angélicos.

34 Simão, fremindo de emotividade, começou a chorar de alegria. Anelava ser bom, aspirava a ser irmão da Humanidade, queria auxiliar a construção do Reino de Deus e homenagear a manjedoura de Belém, ofertando algo de si mesmo, em louvor do Evangelho…

35 Nesse ínterim, aproximou-se Jesus e disse-lhe ao ouvido:

— Pedro, alguém te chama…

36 O apóstolo voltou-se e, admirado, enxergou na pequena comunidade um homem triste, carregando nos braços um pequenino agonizante… 

37 Era Aniceto, a rogar-lhe, mentalmente, se lhe compadecesse do filhinho que a febre devorava. Qual se lhe registasse a presença, expunha-lhe os remorsos que amargava e pedia-lhe perdão…

38 O antigo pescador não hesitou. Depois de oscular-lhe a fronte suarenta, afagou a criança atribulada, impondo-lhe as mãos, e, ali mesmo, magneticamente tocado por forças renovadoras e intangíveis, o menino despertou, lúcido e refeito, enlaçando-se ao pai, à feição da ave assustada que torna à segurança do ninho.

39 Aniceto, no íntimo, compreendeu o socorro e a bênção que recebia e, renovado, começou a cantar em lágrimas de júbilo: “Glória a Deus nas alturas, paz na Terra e boa vontade para com os homens!…” (Lc)

40 Para o rude legionário de César começava nova vida e para Simão Pedro o serviço continuou…

 

Chico Xavier. Irmão X

Livro Antologia mediúnica do Natal

* * *

segunda-feira, 23 de abril de 2018

ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO - A esmola da compaixão


A esmola da compaixão



De portas abertas ao serviço da caridade, a casa dos Apóstolos em Jerusalém vivia repleta, em rumoroso tumulto.

Eram doentes desiludidos que vinham rogar esperança, velhinhos sem consolo que suplicavam abrigo. Mulheres de lívido semblante traziam nos braços crianças aleijadas, que o duro guante do sofrimento mutilara ao nascer, e, de quando em quando, grupos de irmãos generosos chegavam da via pública, acompanhando alienados mentais para que ali recolhessem o benefício da prece. Numa sala pequena, Simão Pedro atendia, prestimoso. Fosse, porém, pelo cansaço físico ou pelas desilusões hauridas ao contato com as hipocrisias do mundo, o antigo pescador acusava irritação e fadiga, a se expressarem nas exclamações de amargura que não mais podia conter.

– Observa aquele homem que vem lá, de braços secos e distendidos? – gritava para Zenon, o companheiro humilde que lhe prestava concurso – aquele é Roboão, o miserável que espancou a própria mãe, numa noite de embriaguez… Não é justo sofra, agora, as consequências? E pedia para que o enfermo não lhe ocupasse a atenção.

Logo após, indicando feridenta mulher que se arrasava, buscando-o, exclamou, encolerizado:

– Que procuras, infeliz? Gozaste no orgulho e na crueldade, durante longos anos… Muitas vezes, ouvi-te o riso imundo à frente dos escravos agonizantes que espancavas até à morte… Fora daqui! Fora daqui!…

E a desmandar-se nas indisposições de que se via tocado, em seguida bradou para um velho paralítico que lhe implorava socorro:

– Como não te envergonhas de comparecer no pouso do Senhor, quando sempre devoraste o ceitil das viúvas e dos órfãos? Tuas arcas transbordam de maldições e de lágrimas. . . O pranto das vítimas é grilhão nos teus pés. . .

E, por muitas horas, fustigou as desventuras alheias, colocando à mostra, com palavras candentes e incisivas, as deficiências e os erros de quantos lhe vinham suplicar reconforto.

Todavia, quando o Sol desaparecera distante e a névoa crepuscular invadira o suave refúgio, modesto viajante penetrou o estreito cenáculo, exibindo nas mãos largas nódoas sanguinolentas.

No compartimento, agora vazio, apenas o velho pescador se dispunha à retirada, suarento e abatido.

O recém-vindo, silencioso, aproximou-se, sutil, e tocou-o docemente.

O conturbado discípulo do Evangelho só assim lhe deu atenção, clamando, porém, impulsivo:

– Quem és tu, que chegas a estas horas, quando o dia de trabalho já terminou?

E porque o desconhecido não respondesse, insistiu com inflexão de censura:

– Avia-te sem demora! Dize depressa a que vens…

Nesse instante, porém, deteve-se a contemplar as rosas de sangue que desabotoavam naquelas mãos belas e finas. Fitou os pés descalços, dos quais transpareciam ainda vivos, os rubros sinais dos cravos da cruz e, ansioso, encontrou no estranho peregrino o olhar que refletia o fulgor das estrelas…

Perplexo e desfalecente compreendeu que se achava diante do Mestre, e, ajoelhando-se, em lágrimas, gemeu aflito:

– Senhor! Senhor! Que pretendes de teu servo? Foi então que Jesus redivivo afagou-lhe a atormentada cabeça e falou em voz triste:

– Pedro, lembra-te de que não fomos chamados para socorrer as almas puras…

Venho rogar-te a caridade do silêncio quando não possas auxiliar! Suplico-te para os filhos de minha esperança a esmola da compaixão…

O rude, mas amoroso pescador de Cafarnaum, mergulhou a face nas mãos calosas para enxugar o pranto copioso e sincero, e quando ergueu, de novo, os olhos para abraçar o visitante querido, no aposento isolado somente havia a sombra da noite que avançava de leve.

Irmão X


 * * *