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domingo, 9 de agosto de 2020

O PÁROCO – Coelho Neto

Tão velhinho! Pobre velho!

Vivia ali entre pastores, na alta serra gelada, espalhando bênçãos e esperanças.

            Não chores, filha! Deixa que as neves se derretam para que o teu noivo possa transpor o monte. Não desespere, pastor. Então, porque te morre um borrego, bradas assim contra o teu Deus? Não te lembras de Job? Não tens ainda tanta ovelha fecunda trincando a erva dos outeiros, bebendo a água das fontes?

            Por que choras, mulher?

            Levanta os olhos para o céu, ele lá está, é anjo entre os anjos do Senhor. Que melhor queres? Aqui seria zagal: tremeria ao frio, fugiria ao lobo e, muita vez, talvez chorasse à míngua vendo o embornal vazio ou tiritasse assentado à beira da cinza morta. Deixa-o lá! Falava à noiva triste, ao pegureiro bravio, à mãe chorosa, o velho pároco serrano.

            Tão velhinho! Pobre velho!

            Nem mais fugiam as pombas quando o viam entrar vagarosamente na velha igreja, iam- lhe à frente as pombas, arrulhando com familiaridade.

            A sua missa era longa. Tão velhinho!

            Já lhe custava pronunciar, e para ler então! Baixava a cabecinha branca e trêmula sobre as amarelecidas folhas do missal como se as beijasse. Às vezes, porém, ficava extasiado: os olhos longamente postos no crucificado e, quando os descia, estavam rasos de água.

            Grande santo!

            E morreu...

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Coelho Neto (Henrique Maximiano C. N.), fundador da Cadeira 2 da ABL. Recebeu os Acadêmicos Osório Duque-Estrada, Mário de Alencar e Paulo Barreto.  romancista, crítico e teatrólogo, nasceu em Caxias, MA, em 21 de fevereiro de 1864, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de novembro de 1934.


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terça-feira, 9 de julho de 2019

O BERÇO – Coelho Neto


           Entre violetas e rosas, pequenino e risonho, as mãozinhas cruzadas sobre o peito, Dedê, de cinco meses, dorme para todo o sempre.

            Veste-lhe o corpinho rechonchudo a mesma cambraia com que foi à pia; à cabecinha loura a mesma touca branca. Parece que esperam que acorde para levá-lo novamente à igreja. Babi, de três anos, guarda o pequenino irmão. Sabe que dorme lho disseram. Para não o despertar, pisa de manso, cautelosa, apertando nos braços Colombina.

            O sol faz um véuzinho de ouro e translúcido, para o rosto risonho de Dedê. Os círios empalidecem e as flores vão murchando junto ao corpinho frio do defunto.

            Batem palmas à porta. Babi estremece. Acerta mais Colombina e lança um olhar ao irmão, receosa de que tenha despertado. Mas Dedê não desperta: dorme, as mãozinhas cruzadas sobre o peito como rezando. Batem palmas de novo.

            Babi, cautelosa, em pontas de pé, vai a porta e coitadinha! Não consegue abafar um grito, dando com os olhos no velho negro que traz debaixo do braço, como um estojo, o pequeno esquife cor de rosa e branco , cercado de franjas de ouro. Babi não consegue sufocar um grito: bate palma, contente, deixa cair Colombina e entra a correr, anunciando:

            “Está aí o berço novo de Dedê! Está aí o berço novo de Dedê!”

            E, com voz de choro, agarrando-se às saias da avó trêmula, que vai compondo ramos para o pequenino, implora: “Mandas fazer um berço igual para mim , vozinha? Mandas fazer, vozinha?” E, para convencê-la, beija-lhe repetidas vezes a mão magra e a velha, soluçando, beija-lhe e os cabelos louros.

            Há dias, indo de visita à casa, encontrei-a silenciosa. Fora, no rosal, já não cantavam pássaros; dentro, no interior, berços não se balançavam. Senti que ali faltava alguma cousa... Não havia barulho.

            A mãe, viúva, de vez em vez, levantando a cabeça, punha os olhos no céu e baixava-os molhados; a velha não falava. Senti que ali faltava alguma cousa.

            Por acaso voltando os olhos descobri Colombina sobre uma peanha. Pobre Colombina! Lembrei-me, então, de Babi e perguntei por ela. A velhinha fitou-me. A mãe baixou os olhos soluçando.

            Teria a complacente avó satisfeito o desejo da criança? Teria a velha dado a Babi um berço cor de rosa e branco igual ao de Dedê? E não foi outra cousa... essas velhas avós fazem tantas vontades aos netinhos...


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COELHO NETO (Henrique Maximiano Coelho Neto) - romancista, crítico e teatrólogo, nasceu em Caxias, MA, em 21 de fevereiro de 1864, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de novembro de 1934. Fundador da Cadeira 2 da ABL, recebeu os Acadêmicos Osório Duque Estrada, Mário de Alencar e Paulo Barreto.

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