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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
domingo, 29 de dezembro de 2024
O Menino e o Júri do Menino
Cyro de Mattos *
Era uma festa. A notícia vinha como manchete na primeira
página do único jornal da cidade. Repetia-se pelo alto-falante do Serviço
Regional de Propaganda Comercial. Na semana do júri era comentado, nos mínimos
detalhes, o crime de morte que o homem aparentemente calmo havia cometido. Pela
boca do povo na feira, rua do comércio, barbearias e alfaiatarias. Na
privacidade dos lares pelo chefe de família exemplar. O homem ia pegar muito
anos de cadeia, não merece outra sorte quem mata uma mulher indefesa quando
estava dormindo, diziam os que tomavam partido pela condenação do réu. Uma
mulher infiel deve pagar com a vida, a honra do homem nesses casos não deve
ficar manchada, afirmavam os que queriam que o réu fosse absolvido. O padre na
missa das sete, no domingo, rogava a Deus que iluminasse os jurados que iam
compor o conselho de sentença para que julgassem de sã consciência. Aplicassem
a boa justiça, não absolvessem um criminoso nem condenassem um inocente. Na
dúvida, os jurados votassem a favor do réu, ele observava, os povos civilizados
vinham ensinando isso como sabedoria ao longo dos anos.
Um poeta do povo escrevia folhetos sobre o júri do marido
que matou a mulher na cama com sete facadas porque desconfiou que a esposa
tinha um caso com o vizinho do sobrado em frente. O bicho-homem enfurecido
sacou da peixeira afiada e desferiu golpes medonhos e ainda bebeu o sangue da
mulher infiel e amada, informava em versos pungentes o poeta popular. Vendia
centenas de folhetos nos pontos mais movimentados da cidade.
O pai levava o filho para assistir o júri.
Quem quisesse assistir sentado no auditório chegasse cedo à
sala maior do fórum onde aconteciam as sessões do júri. Nas cadeiras da frente
sentavam os parentes do réu e, no lado oposto, na mesma fileira, os da vítima.
O pai dizia que no júri estavam em cena duas tragédias: a da família da vítima
e a do réu. Às vezes, a mãe da vítima desmaiava quando o promotor de justiça
exaltava as qualidades da esposa que sempre se dedicara ao marido, vítima de
ciúme cego do réu que, no gesto covarde e traiçoeiro, ceifava a vida daquela
que sempre honrara o lar sagrado. O pai do réu, visivelmente inconformado com
as palavras proferidas pelo promotor, controlava-se na cadeira para não rebater
a ofensa ao filho, injusta sob vários aspectos. Passava o lenço no rosto,
temendo que o filho, tão jovem, fosse pegar trinta anos de prisão, passando
quase uma vida sem liberdade.
No meio do povo, do lado de fora, o pai colocava o filho nos
ombros. Queria que o menino observasse o juiz de direito interrogar o réu,
algemado, cabisbaixo. Olhasse bem o advogado daquele réu impressionar os
jurados com a palavra inflamada. Desfiar argumentos convincentes, que
arrancavam murmúrios das pessoas na sala abafada, até mesmo aplausos. O juiz
batia na sineta, pedindo ordem e silêncio, do contrário ia suspender a sessão
por falta de condições para prosseguir os trabalhos. O pai queria que o filho prestasse
atenção ao promotor de justiça, o seu jeito de olhar sério, acusando o réu que,
matando a mulher, matava a sociedade, que não quer ser ofendida da maneira
terrível como havia sido, afirmando que somente Deus põe e dispõe da vida desde
que o mundo foi habitado por seres humanos.
O quarteirão da rua onde ficava o fórum permanecia sempre
cheio de curiosos quando era dia de júri. O povo ouvia pelo alto-falante
instalado no poste da esquina as vozes que vinham da defesa ou da acusação lá
dentro do fórum. Os apartes se sucediam durante a sessão do júri, que entrava
pela madrugada quando se tratava de caso rumoroso. A certa altura do júri, se
algum gaiato ousasse dar uma gargalhada por causa de um aparte da defesa ou
acusação sem sentido, logo ia se arrepender. Podia ser autuado em flagrante por
crime de desacato à autoridade do juiz. Recomendava-se nessa hora guardar o
sorriso no bolso, mais tarde soltá-lo com os amigos no bar quando então fosse
lembrada a cara feia que o juiz fazia ante os aplausos arrancados da plateia
pelo advogado de defesa, com mais um aparte inteligente.
O pai queria que o filho fosse estudar em Salvador e
voltasse depois formado como advogado. Um advogado respeitado, desses que
impressionam com a oratória imbatível na tribuna do júri. Conseguem a soltura
do réu em crime hediondo quando todos afirmam que nem um milagre podia salvar
da cadeia o homicida. Advogado que não atua no júri não fica famoso, dizia o
pai, ressaltando que morre o homem fica a fama.
O pai não gostou quando anos depois o filho disse que podia
até ser um advogado importante, mas gostaria mesmo era de ser escritor. Um
contador de histórias.
*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Autor de 70 livros pessoais e, entre eles, cinco de crônicas. Também editado no exterior. Advogado e jornalista. Colabora quinzenalmente com a revista da crônica Rubem, há mais de quinze anos editada pelo jornalista e cronista Henrique Fendrich em Brasília, como homenagem a Rubem Braga, o melhor cronista do Brasil. Conquistou o Prêmio Casa das Américas em 2023 com o livro Infância com Bicho e Pesadelo e outras histórias.
* * *
sexta-feira, 20 de dezembro de 2024
Papai Noel ontem e hoje
Cyro de Mattos
A cidade tinha pouco mais de quinze mil habitantes. Servira de burgo de penetração aos forasteiros que adentravam o continente na conquista e povoamento da terra. Tinha poucas ruas calçadas, um cinema, uma praça, pequena igreja, um ginásio, três bairros. O comércio era ativo na avenida principal. O rio corria manso no estio, era valente na enchente. Tinha peixe em abundância nas águas de fontes claríssimas.
Ninguém podia imaginar que um dia fosse inventada a televisão, na tela de um aparelho mágico se assistiria tudo que estava acontecendo no mundo. Os brinquedos seriam fabricados pelos meios eletrônicos como resultados dos avanços tecnológicos. Na pequena cidade respirava-se um clima de estábulo quando chegava o mês de dezembro. Comemorava-se o Natal como se a cidade fosse uma família grande. Todos, dos ricos aos mais humildes, integravam-se no clima da festa, que anunciava a vinda do menino para fazer a proeza de estrela iluminando uma só mesa com todas as mãos. Papai Noel existia no imaginário de cada criança. A mãe lembrava, na semana próxima ao Natal, que o filho fosse escrever a carta, colocasse no sapato quando for dormir, pedindo a Papai Noel o presente que você quer ganhar nesse ano. Foi o que o menino fez no mesmo dia, pedindo que queria ganhar uma bola de couro daquela vez para jogar futebol com os amigos no campo da praça Camacan.
Na véspera de Natal, a mãe disse que fosse dormir cedo, Papai Noel podia passar por aqui e se encontrasse você acordado não vai deixar seu presente no sapato. Ele só deixa o presente no sapato se o menino estiver dormindo, não podia esperar o garoto pegar no sono, tem muita criança para presentear naquele dia especial, consagrado ao nascimento do menino Jesus na manjedoura.
O velocípede, o jogo de botão, o dominó, o jogo de dama, o realejo e o pião que rodava na mão foram presentes que Papai Noel deixara quando acontecia o Natal. Estavam no baú onde também guardava as revistas de quadrinhos, guri e gibi.
Quando chegou finalmente a véspera de Natal, obedeceu ao conselho da mãe, foi dormir cedo, na certeza de que Papai Noel não ia se esquecer dele.
Acordou no outro dia com sono. O susto esplêndido teve quando clareava dia. Lá estava no par de sapatos a bola de couro como o presente de Papai Noel, que atendera o seu pedido.
O domingo brilhava com a sua luz forte que caía do céu sobre todas as coisas. De calção e peito nu, chamou os meninos para escolher os times para mais uma partida de futebol. Como dono da bola, na formação de seu time, tinha preferência para escolher os garotos que fossem os melhores jogadores.
De agora em diante, com esse privilégio, o time que escolhesse seria vencedor em todas as partidas no jogo de futebol. E isso tinha que agradecer ao Papai Noel.
Passados tantos anos, o homem idoso não esqueceu que Papai Noel mora em um lugar que neva. Chega no trenó puxado por renas. Entra pela janela para deixar no sapato o presente que o menino pediu, isso porque as casas da sua cidade não possuem chaminé.
Veste roupa vermelha, usa uma barba branca crescida, o gorro cobre os cabelos sedosos. Não faz rô, rô, rô, nem tira foto com a criança no supermercado. Não é pretexto para motivar as vendas no comércio nessa fase do ano. Não é um Papai Noel protagonista da sociedade consumista.
É um encantado, o homem idoso prefere esse, que faz bem, torna a vida viável como se fosse uma grande mentira de verdade.
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Cyro de Mattos é poeta, ficcionista e
Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É
também advogado.
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quinta-feira, 28 de novembro de 2024
sábado, 23 de novembro de 2024
O Jovem Juan Marcos Veio me Visitar Hoje
Cyro de Mattos
Neto do cronista Antônio Lopes e da artista plástica
Conceição Portela. Estuda biblioteconomia na UESC. Vocação promissora de poeta.
Domina o francês. Presenteei-lhe na oportunidade com meu livro De tes instants
dans le poème. edição bilíngue, publicação das Editions du Cygne, Paris,
Coleção Poesia do Mundo.
Enviei através desse jovem leitor para Seu Walter, vô
materno do poeta promissor, um homem de 95 anos, o meu livro Vinte Poemas do
Rio, aprovado três anos no vestibular da UESC. O vô materno de Juan enviou-me a
singela lembrança de sua autoria: Histórias de Seu Walter.
A vida é boa e bela com encontros dessa natureza.
(Recebi via WhatsApp do poeta Cyro de Mattos)
Cyro de Mattos é poeta, ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.
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quarta-feira, 20 de novembro de 2024
Dia do Negro
Cyro de Mattos é poeta,
ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil
e exterior. É também advogado.
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domingo, 10 de novembro de 2024
Nosso Herói Jipe e Maria Camisão
Por Cyro de
Mattos
Jipe
não era apenas mais um doido manso com suas esquisitices que habitou minha
infância cheia de sentimentos e graça. Era o mais querido por gente grande e
pequena. Hélio Pólvora, nascido em Itabuna, ficcionista dos melhores da moderna
literatura brasileira, dedicou-lhe o conto “No Peito o Motor”, que faz parte do
livro Estranhos e Assustados, publicado pela editora Francisco Alves, Rio,
1977. Teve várias edições, deu ao autor o Prêmio Nacional da Fundação Castro
Maia.
Depois do conto primoroso do conterrâneo Hélio, tive a ousadia de
escrever um texto de ficção breve sobre nosso herói do trânsito, que de repente
se achara que era de corpo e alma um jipe. O título do meu texto é “Um Jipe nas
Nuvens”. Faz parte do livro Nada Era Melhor, da Editus, 2017, é uma reunião de
contos curtos ou romancinho da infância, se quiserem. Jipe aparece no meu
romance Eterno Amanhecer, ainda inédito, com mais estaque.
Os meninos
de meu tempo consideravam os doidos mansos como uma gente indefesa, ingênua,
engraçada, sofrida, invenção do destino. Tanta consideração tínhamos por eles,
que meu livro Zurububuruna, Editora Batel, Rio, 2024, poesia satírica em
formato de cordel, sobre uma gente que habita com suas vilanias uma localidade
imaginária, é dedicado aos doidos mansos de minha terra, claro que na homenagem
não podia faltar nosso famoso Jipe.
Eis a dedicatória no meu livro Zurububuruna:
Aos doidos mansos de minha terra, que não fazem mal a uma mosca. Ingênuos, indefesos, perseguidos pelo fado. Incansáveis intérpretes da vida diária, riso do trânsito. Mula-Manca, Maria Camisão, Ciro Mergulhador, o tal Jipe falado. Zeles Carnavalesco, mais Chiranha, mais Paturi, meio azoado, entre outros, dedico com muito gosto esses versos de pé quebrado.
Maria Camisão
vestia uma camisa folgada, mangas compridas, de tão grande batia nos joelhos.
Ela era de estatura baixa, os cabelos sempre assanhados, a boca
desdentada. Alguns diziam que guardara
como lembrança meia dúzia de camisas do seu homem, um preto alto e forte. Vivia
do ganho da roupa que lavava para a família abastada. Nas horas de crise
aparecia na avenida do Cinquentenário. Revoltava-se, xingava a Deus e o mundo.
Comentava-se que ela havia ficado adoidada depois que o marido amanheceu enforcado
na cadeia, dizem que a mando do delegado Nero, que armara para ele uma cilada.
O delegado mandou que os dois soldados tomassem as caças moqueadas e prendessem
na feira o homem chamado Barba Preta.
Não demorou, não se sabe como, o delegado passou a ser o dono da rocinha
de cacau e cereais, que o negro Barba Preta havia plantado nas Salteadas.
Escrever sobre esses tipos curiosos de minha terra,
convenhamos, é atender com prazer no tempo o aceno das distâncias. O aceno dos
dias com sua graça e lamento. Eles preenchiam a minha infância como um episódio
relevante da vida, sem que nada me custasse
Cyro de Mattos é poeta, ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.
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sexta-feira, 8 de novembro de 2024
OAB-BA vai homenagear
Cyro de Mattos no dia 6
A Ordem dos Advogados da Bahia vai homenagear Cyro de Mattos com a Comenda Barachísio Lisboa no dia 6 de dezembro, às 18 horas, em cerimônia a ser realizada no auditório da OAB, Seção de Itabuna, na rua Rufo Galvão, 170, centro, em uma celebração por seus mais de 50 anos de exercício profissional, de maneira competente e ilibada, na Comarca de Itabuna e em outras da região do Sul da Bahia. O advogado exerceu a profissão nas áreas cível, trabalhista e penal, além de ter sido juiz classista da classe patronal na Junta de Conciliação e Julgamento de Itabuna.
O nobre causídico Barachísio Lisboa foi um dos advogados mais proeminente da segunda metade do século XX no Estado da Bahia, atuando nas comarcas do interior e no Tribunal de Justiça da Bahia. Nascido em Ituberá deixou vasta clientela que acorreu aos seus serviços profissionais, dando ensejo à criação do renomado grupo dos Advogados Associados do Escritório Barachísio Lisboa, localizado em Salvador, que já alcança três gerações de prestigiados profissionais do Direito, incluindo filhos, netos e bisnetos.
Cyro de Mattos é formado pela Faculdade de Direito da
Universidade Federal da Bahia. É também jornalista e escritor, publicado no
Brasil e exterior. Autor de 70 livros de diversos gêneros, premiado no Brasil e
exterior. Membro da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e
Academia de Letras de Itabuna, do qual é um dos fundadores e Presidente de
Honra. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Sobre a homenagem que lhe está sendo
prestada pela OAB-Bahia disse: “Recebi a notícia da homenagem pela OAB-BA
surpreso e assustado. Ainda advogo, muito pouco, só em causa própria quando o
pleito merece. O tempo vai nos levando, a gente continua trabalhando e
sonhando, acreditando no estado de direito e no milagre da literatura, dona da
linguagem que mais chega perto como forma de conhecimento para nos dizer o que
é a vida, a morte, o homem, esse desconhecido, que mata pelo prazer de matar,
às vezes nem enterra.”
* * *
quinta-feira, 31 de outubro de 2024
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
Memória de Itabuna Agredida
Cyro de Mattos
Sugeri há dias, no “zap” de correspondência social da
Academia de Letras de Itabuna, que a entidade devia se manifestar com uma nota
de repúdio contra a demolição do prédio onde morou o comendador Firmino Alves,
fundador de Itabuna. Agora fico sabendo que a dose da danosa demolição foi
dupla. Demoliram a casa onde morou o poeta Firmino Rocha. Essas duas agressões
estúpidas foram dadas na cara da cidade, situada ali na praça Olinto Leoni,
local onde se encontra o esfacelado Centro Histórico de Itabuna. A Galeria
Walter Moreira, pintor renomado das paisagens e tipos da cidade, erguida também
na praça Olinto Leoni, foi demolida pela atual administração do município.
A demolição dos prédios que serviram de residência ao
Comendador Firmino Alves e ao poeta Firmino Rocha vêm na mesma esteira do que
aconteceu com o Castelinho, um primor de arquitetura colonial, representativa
da beleza antiga forjada no auge da lavoura cacaueira. Ressalte-se que o
Comendador mandou construir o Castelinho para dar à sua filha Áurea como
presente de casamento. Como se nada significasse, o destino desse prédio de
beleza antiga rara e importância histórica incontestável teve como final desastroso
o de ser engolido pela boca insaciável da ganância imobiliária
Quando em 2011 fomos presidente da Fundação Itabunense de
Cultura e Cidadania, demos parecer contrário à venda do prédio onde funcionou o
Ginásio Divina Providência, educandário que contribuiu para que jovens se
tornassem dignos cidadãos e profissionais valorosos. O prédio daquela
instituição de ensino fora tombado em 2008. Uma empresa se interessou em
adquirir à Sociedade de São Vicente de Paula, dona do imóvel, comprometendo-se
em construir no local um shopping que daria emprego a 600 pessoas. Edital do Executivo
Municipal determinou que fosse criada uma comissão para examinar o assunto. A
Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania não integrou essa comissão.
Consultada para que desse parecer sobre a questão, nos manifestamos para que o
Executivo Municipal desapropriasse o imóvel e em seu lugar instalasse o Museu
de Educação de Itabuna e o Memorial Lindaura Brandão, educadora que dedicou sua
vida para que sempre estivesse em pé com dignidade o educandário de grande
valor histórico no ensino e educação, locais e regionais.
Apesar de nosso parecer contrário à venda do prédio onde funcionou o Ginásio Divina Providência durante décadas, o negócio da venda do imóvel foi realizado, pasmem os céus, e um shopping que foi construído na metade do terreno apenas deu emprego a poucas pessoas. Conservou-se apenas a fachada do prédio construído na metade do terreno, e o seu interior foi destinado ao comércio.
Na época em que fomos presidente da FICC listamos uma série
de prédios históricos que deveriam ser objeto de tombamento por lei municipal,
incluindo-se nesta os imóveis onde residiram o Comendador Firmino Alves e o
poeta Firmino Rocha, localizados na praça Olinto Leoni. Não tive assistência
jurídica municipal eficiente para levar adiante o projeto de tombamento de
prédios com importância histórica para Itabuna. Não sei se os prédios listados
em minha gestão foram tombados posteriormente através de processo administrativo.
Estou de pleno acordo com os membros da Academia de Letras
de Itabuna que querem que o caso da demolição abrupta dos prédios onde residiu
o Comendador Firmino Alves e o poeta Firmino Rocha seja motivo de uma nota de
repúdio. E me associo também aos que desejam que o fato calamitoso seja levado
ao conhecimento do representante do Ministério Público para as medidas cabíveis
de lei e para que inclusive, por extensão, seja preservado o pouco que resta do
patrimônio histórico de uma cidade com papel importante na formação da
civilização cacaueira baiana.
Já não basta o que estamos fazendo com o rio Cachoeira?
Antes de fontes puríssimas e peixe em abundância, era chamado de pai dos
pobres, agora enfermo, afogando-se nas águas viscosas derramadas por bocas de
vômito. Pobre rio, de vida saudável outrora, habitado por gente simples, hoje
não passa de esgoto a céu aberto.
Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Jornalista com livros editados no exterior.
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quarta-feira, 9 de outubro de 2024
ALITA ENTREGA MEDALHA JORGE AMADO EM SOLENE CERIMÔNIA NA UESC
No próximo dia 11 de outubro de 2024, às 17:00, a Academia de Letras de Itabuna- ALITA, realizará a Outorga da Medalha Jorge Amado em uma cerimônia solene no Auditório Paulo Souto, na Universidade Estadual de Santa Cruz- UESC. Esta importante honraria, que celebra grandes contribuições para as artes, ciências e cultura, será concedida a duas personalidades de destaque que impactaram profundamente a região.
A ex-reitora da UESC, professora Renée Albagli, será homenageada por seu trabalho notável e transformador no campo do ensino superior, pesquisa e extensão. Sob sua gestão, a UESC passou por uma fase de expansão e consolidação acadêmica, especialmente com a ampliação do corpo docente e a criação de cursos pioneiros. Renée Albagli é amplamente reconhecida como uma das figuras mais influentes na história da educação superior da Bahia.
Além dela, a Santa Casa de Misericórdia de Itabuna será igualmente homenageada por sua contribuição inestimável na área da saúde, prestando assistência à população há mais de um século, com destaque para seu trabalho humanitário e sua dedicação à melhoria do atendimento médico e hospitalar na região.
A criação da Medalha Jorge Amado foi idealizada pelo escritor Cyro de Mattos, presidente de honra da ALITA, e aprovada por unanimidade pelos membros da academia. A presidente da ALITA, Raquel Rocha, reforça a relevância do evento: “Reconhecer e homenagear aqueles que contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento de nossa região é uma forma de perpetuar o legado de Jorge Amado, que tão bem representou nossa cultura e nossa gente.”
A cerimônia contará com a presença de autoridades, intelectuais, membros da Academia e convidados especiais, consolidando este como um evento de grande importância cultural e social para a Bahia.
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quinta-feira, 3 de outubro de 2024
Escolha Aí Seu Candidato
Cyro de Mattos
Para vereador
Vote em Valdenor
Sempre com o eleitor
Na dor e no amor
Pinapá tem jeito
Na hora de votar
Prefeito Zé Preto
Cidadão perfeito
Pra vereador
Luís Bigodão
Ao seu dispor
De coração
Juca Magarefe
Com ele de novo
Pro que der e vier
Em favor do povo
Vá com Pilequinho
Promete e cumpre
Parceiro no chope
De dia e de noite
Totonho Ceguinho
Vote com atenção
Sou contra prefeito
Mafioso e trapalhão
Zezito Passarinho
Vereador melhor
Espanta a tristeza
Canta como curió
Não vá de trambique
Não vá nessa onda
Vereador porreta
O Tonico-Espoleta
Com cara de mau
Não é de brincadeira
Não explora o povo
Josevandro Ratoeira
Quer andar seguro
Sem temer ladrão
Ou bala perdida
Vereador Juca Leão
Prefeito preguiçoso
Trapaceiro e ladrão
Comigo não tem vez
Vereador Cassação
Vote em Chiranha
Vereador legal
Prefeito safado
Comigo apanha
Sou Juvenal
Não temo o furacão
Sou o pirata
Da cara de mau
Vote em Da-Banda
Cuidando da saúde
Do doente de asma
E da mulher grávida.
Caboclo Bem-te-vi
Defensor do índio
Filho de Jandira
E do cacique Inuri
Negro Quilombola
Confio na negrada
Não fique aí embaixo
Tomando pancada
Zi do Cassetete
Vereador atuante
Contra desmando
De gente cafajeste
Lembre Pastor Babá
Quando for votar
Ele tira seu coração
De qualquer aflição
Bom é Arimateia
Aqui no Pinapá
Casa e comida
Ele vai te dar
Contra o ímpio
Contra o pornô
Padreco Joca
Faça-me o favor
De Cafuringa
Tenha certeza
Cidade limpa
Sem catinga
Coveiro Jupará
É só me chamar
Cubro o fedor
Com a minha pá
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Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Possui prêmios literários importantes. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Autor de mais de 50 livros de diversos gêneros
segunda-feira, 30 de setembro de 2024
Eleições daquele tempo
Cyro de Mattos
Os comícios aconteceram naquele ano sem as ofensas pessoais
dos oradores, que costumavam fazer uns para os seus rivais com veemência. Prosseguiram num clima de paz, no centro
comercial e bairros, até mesmo nos distritos de Mutuns e Ferradas, onde sempre
terminavam em correria, pancadaria no meio dos zumbidos de bala.
O povo cada
vez mais ficava vivamente impressionado com os programas partidários,
divulgados também pelo alto-falante na medida em que o dia das eleições ia se
aproximando. Os candidatos esgoelavam-se no palanque, alguns no ponto máximo
das promessas disparadas até choravam, uns davam a entender que podiam desmaiar
a qualquer momento no meio das palavras que soltavam radiantes da garganta
empolgada. Propagavam com firmeza a chegada de ventos mais do que justos e
generosos para soprarem, constantemente, em qualquer sociedade que se dizia
civilizada.
Quem lá
esteve, no último comício da situação, custava a acreditar como na praça coube
tanta gente. Não havia lugar para uma agulha no ambiente abarrotado de gente jovem, amadurecida e
idosa, alguns mal podiam andar apoiados na bengala. Havia muitas faixas e
bandeiras desfraldadas, cartazes grandes com o retrato do Coronel mais abastado
da cidade, sério, bigode retorcido nas pontas, trajado com o uniforme da Guarda
Nacional.
Na noite
contagiada de euforia, com uma temperatura que chegava a 40 graus, parecia ali
a cidade uma só voz barulhenta, queimando as palavras recheadas de promessa. Os
mais empolgados não cansavam de dar vivas e aplaudir os candidatos a vereador,
quando então um deles era apresentado para pronunciar o discurso pela ordem de
chamada do locutor Timóteo, com a voz já rouca, mas ainda cheia de
entusiasmo.
Naquela noite com
muita alegria, quem poderia imaginar que alguém da oposição soltaria o boi
brabo para correr no meio da multidão que se apertava na praça. Foi aí, no
ponto mais arrojado do discurso daquele homenzarrão agitado, a rigor trajado
com o uniforme da Guarda Nacional, só faltando engolir o microfone, que de
repente se ouviu irromper do meio da multidão o grito ameaçador:
– Corre que
é boi brabo!
Não se viu
outra coisa do que gente correr para todos os lados. O palanque desabou com os
candidatos locais e a comitiva visitante. Homens sisudos meteram-se debaixo dos
carros. A gritaria generalizou-se com a multidão esparramada como num estouro
de boiada.
O
locutor Timóteo relatou no outro dia pelo alto-falante do Serviço Regional de
Propaganda Comercial o noticiário dos acontecimentos daquela noite tumultuada,
que de repente se tornou num corre-corre generalizado, cheia de rostos
medonhos, de aflição com os gritos repetidos, Deus me acuda, não me empurre, me
socorre, sai da frente, se não quiser ser pisado. Felizmente não houve mortes,
apenas alguns casos de ferimentos leves. Nada disso impediu que a situação
tivesse a vitória apertada nas urnas apuradas.
Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é
poeta e ficcionista. Possui prêmios literários importantes. Primeiro Doutor
Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Autor de mais de 50
livros de diversos gêneros
terça-feira, 17 de setembro de 2024
Nossa Biblioteca
Cyro de Mattos
A Câmara de
Vereadores engole a cada ano mais um espaço da Biblioteca Municipal Plínio de
Almeida. Não devia fazer isso. Essa pobre casa de livros, desassistida há anos
pelo poder público, tem um acervo desatualizado, sem condições ideais para
fomentar a leitura como pede uma cidade do porte cultural de Itabuna. Os que lá
atuam como serventuários do órgão nada têm a ver com essa situação lamentável.
Não recebem o apoio necessário para o eficiente desempenho da função, nem
sequer são reciclados em cursos pertinentes ao setor para que melhor sirvam
numa casa dessa natureza aos que procuram conhecer a vida através dos
livros. Certamente para isso lá não
estão.
Melhor deixá-los precários na função do expediente
repetitivo, subalternos ao descaso do poder público do que fazê-los ativos,
inquietos com as falhas na engrenagem. Se um dia quisessem virar a chave, não
se atrevessem nessa iniciativa temerária. No grau de revoltados impotentes
poderiam ser recompensados com o despejo do emprego.
Uma
cidade com cerca de 250 mil habitantes, uma rede de ensino abrangente, em nível
superior e secundário, com duas universidades, faculdades, escolas públicas e
particulares, ser tão frágil, de causar pena, quando o assunto é a Biblioteca
Municipal Plínio de Almeida. Uma lástima na sua prestação de serviços. Até quando os políticos, a Secretaria de
Educação e a Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania vão tomar consciência
de que são agentes institucionais do fomento ao saber e à cultura? Sempre
omissos ante um problema grave dessa natureza, como se nada de mais estivesse
acontecendo com a nossa biblioteca municipal. Espaço que não é nem lazer nem
fonte eficiente do saber.
Podem me
chamar de sonhador do que vou dizer adiante, sinto-me confortado com o elogio.
Lembro que os sonhadores do bem são necessários em qualquer dimensão da
vida. Itabuna devia ter uma biblioteca
com o acervo constituído de um livro para cada habitante. Para que assim fosse
dona desse espaço fértil, saudável, onde pudesse doar-se às suas gentes com a
mão cheia de livros, fazendo-se de fato útil ao pensamento e sentimento da
criatura humana na dura lei da vida. E assim desse seu contributo para se
aprender a andar melhor na existência, conhecer o que presta e o que não
presta, principalmente em tempo de eleição, na hora da escolha de seus
representantes, daqueles que soubessem de verdade reger seu destino político
com competência e ética nos dias do ano, como deve ser.
Vejo
assim a sugestão dada como o caminho plausível para tirar nossas gentes dos
caminhos obscuros da vida, na boa leitura respirando o ar sadio pelas ruas do
mundo e do saber. Através da conversa com os livros, tornando nossa biblioteca
espaço de convivência atuante, pródiga parceira no comportamento de rica troca
de significados.
Pobre cidade nossa, deveria ter uma biblioteca funcionando
com oficinas, lançamento de livros, teatrinho com meninos e jovens, bom não
esquecer os idosos, pois os velhos são gente boa, muito têm a nos dizer. Assim
fosse dotada de uma plataforma que valorizasse os autores da terra, com
palestras, encontros, seminários, saraus e recitais. Usasse o diálogo saudável
com os estudantes. Não permanecesse como algo de pouco proveito, nessa maneira
abominável que empobrece a vida, não sendo jamais a ideal para nos retirar da
parte obscura do ser e do estar na existência.
Itabuna de
um rio enfermo, como esgoto a céu aberto, que hoje chora água, um dia foi
chamado pai dos pobres. Cidade que respira os ares tristes pelo desfalque
contínuo do patrimônio histórico tecido de beleza antiga. E que vem sendo
dilapidado pelo descaso dos que cumprem preservá-lo como um tesouro
inestimável, conquistado com engenho e arte, labor e esforço ao longo dos
anos.
Itabuna, que
tem um povo vocacionado para o progresso, querendo fazer a vida com alma, força
e conhecimento. Minha cidade querida, usina de tantos valores humanos no ciclo
das estações, ó quão dessemelhante!
Cyro de Mattos é jornalista, cronista, contista, romancista,
poeta e autor de livros para crianças. Publicado em Portugal, Itália, França,
Espanha, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos. Premiado no
Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor
Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
terça-feira, 3 de setembro de 2024
quinta-feira, 29 de agosto de 2024
sexta-feira, 26 de julho de 2024
Olimpíadas
Cyro de Mattos
Historiadores falam das Olimpíadas como jogos esportivos nacionais realizados primeiro na Grécia. A tradição informa que eram organizadas pelo próprio Júpiter, deus supremo, o dono dos céus, também pai dos deuses e dos homens. Esse espírito esportivo, que enlaça os continentes no planeta terra, com grande emoção e curtição pura, só podia mesmo vir dos céus. Eram realizados em Olímpia, na Élade, e, de todas as partes da Grécia, África, Ásia e Sicília, acorriam espectadores para assistir os Jogos. Duravam cinco dias e aconteciam no verão, de cinco em cinco anos. Acredita-se que a primeira Olimpíada foi realizada no ano 776 a.C.
Dão conta os cronistas de cinco espécies de provas nos primeiros Jogos Olímpicos: corrida, saltos, luta, lançamento de disco e lançamento de dardo. Vê-se desse modo que há milênios o ser humano vem procurando mostrar agilidade, força corporal e ímpeto como qualidades de seu heroísmo. As Olimpíadas ofereciam também concursos de música e eloquência. Dava-se assim aos poetas, músicos e escritores oportunidade para que ficassem famosos. A fama dos vencedores espalhava-se pelos pontos distantes da Grécia.
O atleta supera os limites nos Jogos Olímpicos. Corre como o vento, ora resistindo, ora saltando barreiras. O importante é o corpo desenvolver na raia o ritmo nervoso, para superar desejos de ser tanto quanto o raio. O amor alcança graça e beleza no vazio do espaço quando se trata de salto ornamental na piscina. Pássaro que desce em harmonia de músculos, pele infiltrada de sonho que não recusa o prazer em contato com a água, tornando-se mergulho divinizante da matéria inebriada por sublime conjunção de um instante esplêndido.
A força vira um guindaste quando sustenta o peso enorme com habilidade, um e outro se unindo no impulso da esperança, que quer se consagrar vitoriosa no pódio. Esforço que se nutre do ideal de ser alguém poderoso, reconhecer-se inscrição no que é entrega com todas as forças que se consegue reunir, para sentir finalmente que em volta a vida é a marca da conquista. Pelas mãos e pés num movimento de peixe, que agita a água, o atleta consegue ser lancha. Ao ver a bandeira subir vagarosa sob o hino da pátria, essa sensação que tenho na cadeira diante da televisão é canção de bonança.
As mãos ficam leves no levantamento, defendem com denodo, descem com violência na bola, como se quisessem enterrá-la na quadra adversária. Não se alimenta de indecisões o tempo que urge a vitória, balançando-se com a plateia entusiasmada. As mãos ficam rápidas, fazem coisas incríveis quando a bola tem por meta ser lançada em fração de segundos para cair na cesta.
Nas Olimpíadas surgem alguns heróis inesperados, mas o que predomina como regra é a vitória daqueles que são anunciados como favoritos. Técnicos e atletas dizem que preparo físico, precisão e vontade são requisitos essenciais para quem quiser ocupar o pódio. Uma das coisas que mais impressiona no maior espetáculo esportivo deste planeta é esse milagre de fazer do mundo uma ciranda. A vida, a vida, a vida. Unem-se povos do mesmo sangue, desunidos há décadas por forças ideológicas, como no caso das Coreias do Norte e do Sul em Seul.
Acontecem milagres que surpreendem a humanidade. Nos jogos realizados na Alemanha foi derrubado o mito da superioridade da raça ariana diante de Hitler quando o atleta negro americano Jess Owen correu entre atletas brancos e venceu as corridas. O jogador Mágico Johnson jogou com a aids em todas as partidas, transmitindo só felicidade com jogadas incríveis, que culminavam em cestas maravilhosas.
O que ressoa das Olimpíadas como hino do convívio ideal e do amor é esse espírito pelo qual se mostra que o ser humano quando quer pode ser um companheiro alegre, tão do mundo. Não importa a raça, a vida em volta é uma dança. Plena, sem vazios, contradição e exclusão. Em espaço rico é ocupada pela harmonia de ser prazer com sustos magníficos, que se reconhecem nítidos no lado azul da canção. Copula a vida no voo, salto, nado, mergulho, dardo, arremesso, corrida, em quantas formas se invente como uma flor ou bola que no mundo rola.
As Olimpíadas acontecem para que a vida em luz humana se recuse a andar por aí no mundo com cada um só pensando em si.
Cyro de Mattos é baiano de Itabuna. Escritor e poeta, Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.
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quarta-feira, 24 de julho de 2024
Domingo Azul da Infância
Cyro de Mattos
Convencido de ser herói que desfruta na
infância a mais pura glória, ele sabe que a mentira ontem alimentava o pequeno
coração como verdade, totalmente honesta quando os gestos inauguram a vida
feita de impulsos e asneiras. Cada amanhecer acena ao menino com tudo que é
posto no rio para que seja conquistado e alimente líquidos segredos da natureza
em transformação, enquanto dure a aventura das estações, a brotar dos verdes e
certamente a desaparecer na queda dos maduros.
A
cidade pequena vive sua infância tropeçando nas ruas enlameadas quando é
chegado o tempo de chuva pesada. Lateja nas veias a vontade visível de como ela
quer crescer através do trabalho de seu povo. Move-se pela riqueza de poucos
abastados e o esforço da maioria pobre, mas sem miséria. É evidente que se
mostra como uma cidade ainda acanhada nos gestos e nas coisas. Há pouco
movimento de carro na rua, os primeiros sobrados começam a ser erguidos no
local onde moram as famílias ricas. Essa cidade caminha nos dias atribulados
sem hesitar nos passos incansáveis, tornozelos e pulsos no esforço dos que
levantam coisas pesadas.
Mãos rústicas arrumam maxixes, quiabos e pimentões sobre a tábua rústica da
mesa armada perto do ponto de ônibus. O verdureiro carrega o tabuleiro na
cabeça mercando pelas ruas couve, alface e coentro, alardeando o verde na
semana, feito de verduras e legumes. Por onde passa, segue com a voz que não
para, entoa uma música com notas vagarosas, quentes, que agrada a quem escuta.
Merca seu produto batido pelos raios de sol, enquanto o verão aquece todas as
coisas através do seu brilho trazido do infinito e que se reflete pelas pedras
irregulares das ruas estreitas.
Entra e sai verão, o sol atira seus raios como flechas luminosas sobre todos os
cantos da cidade. No inverno o aguaceiro bate no dorso do rio, escorrendo pelas
valetas, deixando com lama as ruas sem calçamento. No tempo de estio, a
cidade esbanja ardor debaixo dos azuis do céu e por entre os verdes que gramam
os barrancos do rio. Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos nas
águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos rasgando fendas no
silêncio da natureza. Era quando mais sorria. Isso acontecia quando o rio,
pleno de inocências e purezas, tinha peixe em abundância.
Ah, a vida era compreendida com suas marcas
ardorosa no verão, aconchegantes no sono quando o inverno chegava com suas
toalhas esvoaçantes e envolvia na manhã fria a paisagem escondida no fumo das
horas.
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Cyro de Mattos - Escritor e poeta. Premiado no Brasil,
Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia,
Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo das Academias de
Letras da Bahia, de Ilhéus e Itabuna.
Doutor Honoris Causa da UESC.
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quinta-feira, 18 de julho de 2024
A Bahia de Bonde
Cyro de Mattos
No domingo azul de verão, chamou-lhe a atenção, entre os
passageiros, dois homens bigodudos no bonde, de fraque, gravata borboleta,
usavam o chapéu da última moda. Certamente iam participar de alguma solenidade
cívica, festa de formatura comemorada no salão nobre de alguma instituição.
Tinha a sensação de que a cidade andava nos trilhos,
surpreendia às vezes quando aparecia iluminada com pedaços do mar por algum
recorte da paisagem espremida entre os prédios ou ao largo sem edifícios e
casarões. Sentado no banco de madeira, na medida em que o bonde rolava pelos
trilhos, o olhar curioso dirigia-se para casarões, sobrados, igrejas e jardins.
Na orla, o mar espumejava com as suas jubas brancas, perto da praia,
vidrilhando nos dias de verão. Era como uma piscina enorme na praia do Porto da
Barra.
O melhor lugar para contemplar o cenário da Baía de Todos os
Santos, que a natureza ofertava de graça no dia descaindo de azul, era quando
se debruçava em uma das balaustradas laterais ligadas à plataforma do Elevador
Lacerda. No desembarque pela parte da Cidade Alta, as pessoas tinham acesso à
Praça Tomé de Sousa, também conhecida como Municipal.
Sentava na cadeira de uma das mesas postas no passeio, como
extensão da lanchonete A Cubana, localizada perto da catraca na saída e entrada
do elevador. Depois de tomar o copo de vitamina de abacate, acompanhada dos
deliciosos bolinhos da lanchonete, da balaustrada avistava o Forte de São
Marcelo lá embaixo na baía, erguido de dentro das águas mansas do mar. Nas
proximidades lanchas na Marina, como berços embaladas pelo vento cadenciado nos
movimentos brandos, barcos ancorados na tarde salgada. Para o
lado direito, as docas, o porto no vaivém do embarque e
desembarque de gente e mercadoria, o cais com seus guindastes gigantescos,
navios de carga como casas de ferro, vindos de mares longínquos.
Não se cansava de olhar a paisagem bonita de ver. Na
península de Itapagipe, longe, a colina sagrada do Bonfim, com suas palmeiras
imperiais, no alto ficava a igreja do padroeiro da cidade. Ia ficando a cada
ano pequena para o grande número de fiéis vindos dos lugares mais distantes
para conhecê-la com seus mistérios e graças. Encantados, os olhos queriam pegar
a paisagem com o seu forte brilho, contornos e desenhos, iluminada em cima com
um céu azul, embaixo com um mar também azul, ambos banhados da luz intensa, de
cegar as vistas, só existente na Bahia. A cidade insinuada nas linhas do
horizonte, balançando nas ondas, dos longes das águas era avistada pendurada
nos casarões erguidos nos morros e encostas.
Seus olhos ficavam lavados de azul com a paisagem esplêndida que acabara de contemplar. Cheio de vida, a refletir no rosto jovem, caminhava até a Praça da Sé onde tomaria o bonde na direção da Rua Carlos Gomes. Vento morno soprava na tarde, aragem mansa envolvia-o nos passos que seguiam despreocupados.
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Cyro de Mattos é ficcionista e poeta, publicado em Portugal,
Itália, França, Alemanha, Espanha, Dinamarca e Estados Unidos. Premiado no
Brasil, Portugal, Itália e México. Membro das Academias de Letra da Bahia, de
Ilhéus e de Itabuna. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de
Santa Cruz.