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quarta-feira, 24 de julho de 2024

Domingo Azul da Infância  

Cyro de Mattos  

 


          Convencido de ser herói que desfruta na infância a mais pura glória, ele sabe que a mentira ontem alimentava o pequeno coração como verdade, totalmente honesta quando os gestos inauguram a vida feita de impulsos e asneiras. Cada amanhecer acena ao menino com tudo que é posto no rio para que seja conquistado e alimente líquidos segredos da natureza em transformação, enquanto dure a aventura das estações, a brotar dos verdes e certamente a desaparecer na queda dos maduros. 

          A cidade pequena vive sua infância tropeçando nas ruas enlameadas quando é chegado o tempo de chuva pesada. Lateja nas veias a vontade visível de como ela quer crescer através do trabalho de seu povo. Move-se pela riqueza de poucos abastados e o esforço da maioria pobre, mas sem miséria. É evidente que se mostra como uma cidade ainda acanhada nos gestos e nas coisas. Há pouco movimento de carro na rua, os primeiros sobrados começam a ser erguidos no local onde moram as famílias ricas. Essa cidade caminha nos dias atribulados sem hesitar nos passos incansáveis, tornozelos e pulsos no esforço dos que levantam coisas pesadas.  

            Mãos rústicas arrumam maxixes, quiabos e pimentões sobre a tábua rústica da mesa armada perto do ponto de ônibus.  O verdureiro carrega o tabuleiro na cabeça mercando pelas ruas couve, alface e coentro, alardeando o verde na semana, feito de verduras e legumes. Por onde passa, segue com a voz que não para, entoa uma música com notas vagarosas, quentes, que agrada a quem escuta. Merca seu produto batido pelos raios de sol, enquanto o verão aquece todas as coisas através do seu brilho trazido do infinito e que se reflete pelas pedras irregulares das ruas estreitas.        

           Entra e sai verão, o sol atira seus raios como flechas luminosas sobre todos os cantos da cidade. No inverno o aguaceiro bate no dorso do rio, escorrendo pelas valetas, deixando com lama as ruas sem calçamento.  No tempo de estio, a cidade esbanja ardor debaixo dos azuis do céu e por entre os verdes que gramam os barrancos do rio. Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos nas águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos rasgando fendas no silêncio da natureza. Era quando mais sorria. Isso acontecia quando o rio, pleno de inocências e purezas, tinha peixe em abundância.  

          Ah, a vida era compreendida com suas marcas ardorosa no verão, aconchegantes no sono quando o inverno chegava com suas toalhas esvoaçantes e envolvia na manhã fria a paisagem escondida no fumo das horas.  

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Cyro de Mattos - Escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e Itabuna.  Doutor Honoris Causa da UESC.

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quinta-feira, 18 de julho de 2024

 A Bahia de Bonde

Cyro de Mattos



 
O bonde não era apenas um meio de transporte para o moço vindo do interior, mostrava-se como uma diversão agradável, curtição pura, que fazia bem quando passava pelos locais pitorescos da cidade. O uniforme cáqui do motorneiro, fazendo parte do uso cotidiano chapéu e gravata borboleta, o barulho do condutor ao recolher o dinheiro das passagens, batendo as moedas umas contra as outras na mão, a figura marcante do vendedor de balas e bombons, com sua cesta de vime, a sensação deliciosa de viajar pendurado no estribo, tudo isso o impressionava quando estava viajando de bonde, em especial quando havia o desafio de subir e descer do transporte sobre trilhos ainda em movimento.

No domingo azul de verão, chamou-lhe a atenção, entre os passageiros, dois homens bigodudos no bonde, de fraque, gravata borboleta, usavam o chapéu da última moda. Certamente iam participar de alguma solenidade cívica, festa de formatura comemorada no salão nobre de alguma instituição.

Tinha a sensação de que a cidade andava nos trilhos, surpreendia às vezes quando aparecia iluminada com pedaços do mar por algum recorte da paisagem espremida entre os prédios ou ao largo sem edifícios e casarões. Sentado no banco de madeira, na medida em que o bonde rolava pelos trilhos, o olhar curioso dirigia-se para casarões, sobrados, igrejas e jardins. Na orla, o mar espumejava com as suas jubas brancas, perto da praia, vidrilhando nos dias de verão. Era como uma piscina enorme na praia do Porto da Barra.

O melhor lugar para contemplar o cenário da Baía de Todos os Santos, que a natureza ofertava de graça no dia descaindo de azul, era quando se debruçava em uma das balaustradas laterais ligadas à plataforma do Elevador Lacerda. No desembarque pela parte da Cidade Alta, as pessoas tinham acesso à Praça Tomé de Sousa, também conhecida como Municipal.

Sentava na cadeira de uma das mesas postas no passeio, como extensão da lanchonete A Cubana, localizada perto da catraca na saída e entrada do elevador. Depois de tomar o copo de vitamina de abacate, acompanhada dos deliciosos bolinhos da lanchonete, da balaustrada avistava o Forte de São Marcelo lá embaixo na baía, erguido de dentro das águas mansas do mar. Nas proximidades lanchas na Marina, como berços embaladas pelo vento cadenciado nos movimentos brandos, barcos ancorados na tarde salgada. Para o

lado direito, as docas, o porto no vaivém do embarque e desembarque de gente e mercadoria, o cais com seus guindastes gigantescos, navios de carga como casas de ferro, vindos de mares longínquos.

Não se cansava de olhar a paisagem bonita de ver. Na península de Itapagipe, longe, a colina sagrada do Bonfim, com suas palmeiras imperiais, no alto ficava a igreja do padroeiro da cidade. Ia ficando a cada ano pequena para o grande número de fiéis vindos dos lugares mais distantes para conhecê-la com seus mistérios e graças. Encantados, os olhos queriam pegar a paisagem com o seu forte brilho, contornos e desenhos, iluminada em cima com um céu azul, embaixo com um mar também azul, ambos banhados da luz intensa, de cegar as vistas, só existente na Bahia. A cidade insinuada nas linhas do horizonte, balançando nas ondas, dos longes das águas era avistada pendurada nos casarões erguidos nos morros e encostas.

Seus olhos ficavam lavados de azul com a paisagem esplêndida que acabara de contemplar. Cheio de vida, a refletir no rosto jovem, caminhava até a Praça da Sé onde tomaria o bonde na direção da Rua Carlos Gomes. Vento morno soprava na tarde, aragem mansa envolvia-o nos passos que seguiam despreocupados.


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Cyro de Mattos é ficcionista e poeta, publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha, Dinamarca e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro das Academias de Letra da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

 Tempo de São João 

  Cyro de Mattos  

 


Meu pai tinha renda modesta. Havia acabado de adquirir uma avenida de casas populares, lá no último quarteirão da Rua do Quartel Velho. Segundo ele, a avenida era constituída de trinta casinhas, cada uma delas possuindo uma sala, um quarto, cozinha e banheiro. As casinhas estavam alugadas a sapateiro, lavadeira, mecânico, cozinheira, vendedor ambulante e outras pessoas de baixa renda na sua profissão. 

O dinheiro que meu pai passou a ganhar com as casinhas alugadas da avenida veio aumentar razoavelmente a sua renda, que  provinha até então do que ele vendia em seu quiosque num dos bairros da cidade: bebida, cigarro, charuto, manteiga e balas de jenipapo, que minha mãe fazia. 

Minha mãe era costureira e bordadeira de mão cheia. Costurava e bordava enxoval de noiva que fosse filha de família rica. Era também uma doceira fina. Dava ao meu pai não só o dinheiro que ganhava com os doces que fazia  mas também o que recebia com os enxovais que costurava e bordava para as noivas. Ajudava assim a meu pai nas despesas diárias que ele tinha para sustentar a família. 

Meu pai chegava lá em casa de cara fechada. Só pensava em ficar rico. Sofria muito para sustentar a família.  

Um dia, escutei ele dizer à minha mãe: 

- Ser pobre e a pior desgraça da vida. É comer mal, vestir mal, dormir mal, não ter casa para morar nem dinheiro para comprar remédio quando a pessoa fica doente. 

- O que é isso, homem de Deus – disse minha mãe. – Temos vida humilde, mas nunca passamos privações com muita gente nesta vida. 

Ora essa! Nada disso que meu pai dizia sobre o pobre interessava-me. O que me importava mesmo era ter um amigo para brincar, fosse pobre ou rico, branco ou preto, gordo ou magro. 

Estou contando essas coisas agora de meu pai para que saibam de que não adiantava esperar por ele, achando que naquele ano ia comprar fogos para eu soltar no São João. Ele estava sempre dizendo que comprar fogos para soltar no São João era mesmo que queimar dinheiro num abrir e fechar de olho. 

Não queria ficar olhando os outros meninos soltando fogos no São João, lá em nossa rua ou em qualquer canto da cidade. Por isso mesmo teria que arranjar uma maneira de ganhar algum dinheiro para comprar os fogos de São João. 

Pensei em vender revistas e jornais velhos aos donos de armazém na Rua da Lama. Sabia que jornal velho servia para enrolar certas coisas que os donos de armazém vendiam. Tinha observado um dia seu Júlio Sergipano enrolando sabão no balcão do armazém com uma folha de jornal velho. Pensei também em vender garrafas ao dono de uma pequena fábrica de vinagre perto da nossa casa. 

Ia de casa em casa, procurando por revistas e jornais velhos, garrafas grandes e pequenas. Dona Creusa, a mulher de Seu Miranda, o funcionário do banco, era quem mais me dava revistas e jornais velhos.  Dona Jô, a esposa do dono da casa de ferragens, uma mulher gorda, de pernas arqueadas, era quem mais tinha garrafas arrumadas em caixotes.  Às vezes chegava a encher um saco grande com tanta garrafa que ela me dava. 

Com o dinheiro que ganhava, vendendo garrafa, revistas e jornais velhos, ia comprando os fogos para soltar no São João. Guardava-os numa caixa de sapato, que escondia debaixo da cama para que meu pai não os descobrisse.  Se ele descobrisse que eu estava comprando fogos para soltar no São João, certamente ia argumentar zangado: “Do menino se faz o homem, tenha juízo. Guarde seu dinheiro para usar com as coisas sérias e não para queimá-lo com fogos no São João. É uma grande besteira o que você quer fazer, muitas vezes já lhe disse isso”.  

Esperava meu pai dormir no quarto ao lado e, quando percebia que ele estava ferrado no sono, apanhava debaixo da cama a caixa de sapato com os fogos que vinha juntando para soltar no São João. Ficava examinando pacientemente os fogos que tinha comprado com dificuldade. Passava e repassava-os diante de meus olhos deslumbrados, mesmo sabendo que ainda eram poucos: chuva de prata, chuva de ouro, cobrinha, estrelinha, fósforo de cor, traques de menino e vulcão. 

Os dias demoravam de passar até chegar o mês de São João, embora desejasse que voassem o mais rápido possível. De vez em quando ia olhar na folhinha quantos dias faltavam para chegar o São João. Fazia as contas e via que faltavam quase três meses para a chegada da festa do santo que tinha um carneirinho, como uma vez tinha visto a imagem num quadro emoldurado, pendurado na parede da Vidraçaria Santo Antonio, numa das esquinas da rua do comércio.  

Quando percebi no mês de maio que não estava mais conseguindo garrafas para vender, nem revistas e jornais velhos, eu tive então aquela ideia de vender minhas revistas em quadrinhos, além dos dois álbuns de figurinhas, um com os jogadores de futebol dos times do Rio e o outro com os artistas do cinema americano. 

Não seria difícil vender meus álbuns de figurinhas entre os meninos lá da rua. Tanto o álbum de jogadores de futebol como o de artistas de cinema eram cobiçados por muitos meninos da cidade. Ambos estavam completos,  

  tinha conseguido preenchê-los com todas as figurinhas de jogador de futebol ou de artista americano. Mas as revistas em quadrinhos? Tinha minhas dúvidas se ia conseguir vender algumas delas, qualquer menino lá da rua já havia lido todas elas. 

Depois de resistir uns dias, vendi os dois álbuns de figurinhas ao filho do juiz por um bom preço. E, sem esperança, fui vender depois minhas revistas em quadrinhos no passeio do Cine Itabuna. Para a minha satisfação, vendi todas elas nos quatro domingos do mês de maio. Espalhados no passeio do cinema, sempre vendia meus gibis e guris velhos aos outros meninos antes de começar a primeira sessão da matinê. 

Tive então um susto esplêndido quando chegou o mês de junho e percebi que possuía agora seis caixas de sapato cheias de fogos, podendo naquele ano de inverno frio soltá-los não só nos dias de São João mas também no São Pedro. 

Enquanto fui menino nunca deixei de soltar fogos nas festas de São João e São Pedro. Sempre dava um jeito para arranjar o dinheiro para comprar os fogos. Soltava-os e queria soltar mais. Nunca estava satisfeito. Lá pras nove horas da noite, lembrava de ir com a turma de amigos soltar balõezinhos na beira do rio. Era uma sensação de vitória fascinante no exato momento em   que acendíamos o balão e víamos o vento levá-lo vagaroso acima do rio. Tínhamos certeza que os balõezinhos que subiam, às vezes oscilando, conquistavam as estrelas e a lua, lá no alto do céu. 

Ah, aquelas noites de junho, o coração tanto queria. Crepitavam dentro de mim antes que chegassem com as fogueiras acesas nas ruas. Pipocavam com bombas e foguetes. Esbanjavam-se com licor e canjica. 

 

CYRO DE MATTOS é escritor e poeta. Editado no exterior. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz -Uesc.

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sexta-feira, 21 de junho de 2024

Meu São João

 Cyro de Mattos

 


          Os preparativos dos comes e bebes começam cedo. O porco abatido pelo vaqueiro é esfolado com água quente, depois cortado em pedaços que vão ser assados no forno. As vísceras são aproveitadas para quem gosta de sarapatel. A carne bovina do churrasco nunca falta. Mulheres descascam espigas de milho verde, São João sem canjica e licor não rima. A mulher do dono da fazenda faz como sempre vários tipos de licor para a festa. De leite, carambola, pitanga, laranja, tangerina, banana, cacau, tamarindo, jabuticaba e o imbatível jenipapo. O dono da fazenda manda armar uma fogueira grande no pasto, perto da casa-sede. De uns dois metros, para ser queimada a noite toda, as fagulhas constantes subindo para o alto. Ele acha que fogueira grande aquece mais os corações na animação da festa.

           Folhas de palmeira são colocadas nos mourões de cada cancela e nos postes da rede de energia elétrica. Os filhos do dono da fazenda enfeitam com bandeirolas o alpendre e o salão de dança. Dessa vez as bandeirolas têm as cores verde e amarela, é dia de jogo pela Copa do Mundo de Futebol. O Brasil vai enfrentar a Argentina. Se vencer o jogo, vai dar um grande passo para ir até a partida final e, com a ajuda dos deuses, poderá se sagrar mais uma vez campeão mundial de futebol. Ao anoitecer, tudo já está pronto para a festa. A mesa grande arrumada com os pratos de canjica, bolo de aipim, de batata-doce, de milho verde e fubá; cocada de cacau, de coco, pamonha, amendoim cozido; doce de leite, arroz-doce, pipoca, balas de banana e jenipapo com açúcar e outras iguarias para a gente grande e a meninada.

          Dois caldeirões com milho cozido são colocados em cima da mesinha. Nos cantos da sala, grandes cestas estão cheias com espigas de milho verde, laranja e tangerina. O aparelho de som vem tocando apenas música de forró o dia todo. O dono da fazenda faz questão que Luiz Gonzaga seja o mais tocado na festa. Há anos que o rei do baião fixou morada no coração do menino, acompanhou o moço através daquela fala ritmada que diz do mundo feito de gente simples com seus casos de amor, alegria e tristeza. Ressoa no íntimo do homem idoso uma voz candente, que entoa a sina cumprida pela gente nordestina, caminhando no esforço dos anos pela amplidão da terra rachada pelo sol. Sem a voz inconfundível e a sanfona generosa de Luiz Gonzaga, que embala a festa com o tradicional baião, e ainda xaxado, xote e xamego, o São João não tem graça para o dono da fazenda.

         Faróis acesos de uma camionete na estrada anunciam que já vêm chegando os primeiros convidados. Antes de a camioneta passar a última cancela, os convidados são saudados com foguetes que riscam o céu e estouram na noite fria de inverno. Os compadres estão acabando de chegar com os filhos, abraços e beijos no alpendre misturam-se com vivas a São João. Daí a pouco instante vêm chegando em outros carros parentes, amigos do dono da fazenda e da sua mulher. A noite fica barulhenta, os mais jovens vão para o salão de dança onde a festa está sendo puxada pelo som quente do Trio Nordestino.

           Lá fora no pasto, a fogueira está queimando em homenagem ao santo, o forró então começa para valer, é visível nos rostos que todos estão de bem com a vida. Esta é uma festa que os trabalhadores também vêm participar com o dono da fazenda e os convidados. A noite do inverno vira embalo de alma sanfoneira, sonora água ardente e licor caprichado que se bebe com satisfação. É arrasta-pé da moçada, quadrilha improvisada, calor de vozes por entre gaiatices e sorrisos. Move-se com cantiga, requebros de cintura e passos nos corpos suados. A ordem do dono da fazenda é para ninguém parar de dançar enquanto houver música de forró escorrendo no salão.

          Aquecida no embalo da festa, a noite vai passando acesa de balão, riscada por foguete que lá no alto pipoca doze tiros nas descargas estrepitosas. Fere os tímpanos com pipocos de Adrianino, bomba, faz chover ouro e prata. Desenha flores e lágrimas com fogos de artifício. A noite vai sendo coberta de fumaça no terreiro, puxando pela cauda a madrugada, que chega em tons cinzentos sem que ninguém perceba. É quando os convidados começam a deixar a festa. Há promessa do dono da fazenda de que para o ano vai ter mais, será ainda melhor, não esqueçam.

          Afinal são décadas que essa alegria em homenagem ao santo vem se repetindo na fazenda São Bernardo, em Ferradas. É a festa que mais o dono da fazenda gosta. Quando era pequeno, ele vinha de ônibus até a vila de Ferradas. De lá até a fazenda vinha a pé, trilhando por um acesso estreito, atravessando roças vizinhas, para participar da festa em homenagem ao santo na fazenda iluminada a gás de lampião.

          Restam agora da fogueira poucos paus que ainda queimam, o resto é cinza e nada mais. Na casa-sede com janelas e portas fechadas, a mulher e os filhos estão ferrados no sono. O silêncio da manhã é quebrado de vez em quando pelo pipoco de alguma bomba que vem lá do vizinho. O dono da fazenda segue com o rosto de sono na direção do curral para ver a tirada do leite. Hoje, no dia do santo, o vaqueiro está tirando o leite no curral com as vacas ouvindo música de São João pelo rádio. O dono da fazenda fica contente com isso.

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Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta

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