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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Assembleia Legislativa da Bahia 

Vai Homenagear Cyro de Mattos 

Com a Comenda Dois de Julho 


 

 No próximo dia 10 de agosto, às 15 horas, no plenário da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, em Salvador, o escritor e poeta Cyro de Mattos estará recebendo a Comenda Dois de Julho, a mais elevada honraria daquela Casa.  A concessão da Comenda resultou do pleito proposto pelo deputado Marcelinho Veiga. A Comenda Dois de Julho foi criada para homenagear aos que engrandecem a vida com a sua obra, contribuem com a progressão da Cultura, Artes e Ciências, na Bahia e no Brasil.  

Entre as personalidades que foram agraciadas com a Comenda Dois de Julho figuram os professores doutores Luís Henrique Dias Tavares e Cid Teixeira, a Iarolixá Mãe Stella de Oxóssi, o Reitor da UFBA João Carles Salles, o escritor Joaci Góes, presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, todos eles membros efetivos da Academia de Letras da Bahia. Também receberam a honraria o instrumentista Carlinhos Brown, professor doutor Albino Rubin, médium Divaldo Franco, diretor teatral Márcio Meireles, a cantora Margareth Menezes, o desportista Bobô e a baiana Marta Vasconcelos, Miss Universo.  

Cyro de Mattos é autor de 65 livros pessoais, de diversos gêneros, premiado no Brasil, Portugal, Itália, México e Cuba. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo das Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Salvador. Do Pen Clube do Brasil e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Editado também em Portugal (cinco livros), Itália (seis), França (um), Alemanha (1), Espanha (dois) e Dinamarca (um). Seus contos e poemas estão presentes em mais de quarenta antologias importantes publicadas no Brasil, França, Portugal, Estados Unidos, Rússia, Itália e Espanha. Seu livro Infância com Bicho e Pesadelo e Outras Histórias, Prêmio Internacional Casa das Américas, está sendo traduzido para o espanhol para em breve circular no continente da América Latina, numa edição do Fondo Editorial Casa de las Américas, de Havana, Cuba. 

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quinta-feira, 27 de julho de 2023

Aniversário da Cidade

Cyro de Mattos

 


                Comemora a cidade outro ano de emancipação política. Falam de seu progresso e vocação de seu povo para o trabalho. A cidade torna-se festiva e desperta muito cedo com a descarga de foguetes que crepitam no céu. Os moradores sabem que a cidade é antes de tudo raiz e seiva que escorrem no comercinho novo. É trama com ânsia e sonho. Antes aconteceu na légua do tropeiro, roupa do alfaiate, plaina do carpina, tenda do sapateiro. Nas mãos generosas do padeiro, no feijão preparado pela cozinheira, que o ano todo tem calo e calor nas mãos. Na colher do pedreiro. No sermão do padre, na filarmônica tocando na praça, convidando o povo para voar na valsa. Na cuia do cego, na cantiga da lavadeira, na cartilha da professora. Na bola do menino que quebrou a vidraça do vizinho. Com os namorados que passeiam de mãos dadas no jardim. Na rua, na loja, no armazém, no banco, a cidade com o seu modo de estipular o mundo. Na guerra da palavra em tempo de eleições, quando a vitória é uma questão de vida ou morte. No jornal que dá a notícia boa ou má, sempre veloz, indo de canto a canto.       

            Com sangue nas veias que sangram todos os dias, a cidade anda às vezes triste, os pés descalços, adormece embaixo de marquises. Atropela na dura lei da vida, converte-se em tempo de violência e miséria, que cada vez mais assusta.

             Com vários jornais, emissoras de rádio, canais de televisão, colégios, hospitais, ruas e avenidas asfaltadas, universidade como brasa verdejante em seu novo dizer da lavra, a cidade vive agora a época da automação, da moderna sociedade de massas. Sabe que hoje o mundo é uma aldeia global, não podendo desviar-se dessa sintonia. Mas na cidade ainda encontramos a maneira sensível de alguns conceberem a vida. Existem aqueles que lambem as palavras e se alucinam. Falam de coisas agudas. Tentam com a palavra permanecer na vida, negando a morte.

             E o cronista, aprendiz das palavras que queimam como brasa, no momento que está concluindo a crônica, imagina o primeiro homem que pisou no chão de suas raízes. A noite daquele homem no navio misturando-se com as conversas de macho. As estrelas tão longe. Perdidas na abóboda do céu negro. O navio já se aproximando do porto de Ilhéus.

             Na viola do peito, Félix Severino do Amor Divino cantava baixinho, sem ninguém cantava.

 

Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Possui prêmios literários importantes. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Autor de mais de 50 livros de diversos gêneros.

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segunda-feira, 24 de julho de 2023

Graças à arte somos eternos

Godofredo de Oliveira Neto



Ela ignora  o espaço e a morte. O combate pela eternidade terá um final exitoso se houver uma verticalização na vida, um mergulho na alma, ali onde, justamente, nasce a chama artística.

Os escritores não ignoram que ao encontrar a “ voz interior”  o texto sai com mais densidade e literariedade.  A partir desse momento, não é mais propriamente o autor, aquele com o nome na capa do livro, a escrever; antes um narrador travestido de autor, agora o novo dono da caneta ou das teclas do computador. Uns vão chamar isso de concentração, outros de encontro com a alma, outros de encontro com  o divino, outros ainda de “ possessão” por um escritor já desaparecido, outros , simplesmente, de técnica inerente ao ofício de escritor. Todos têm consciência, porém, que o resultado daquele esforço cognitivo será atemporal.

Equacionar o conflito entre razão e emoção alojado na nossa mente é encontrar o humanismo. Se não houver o freio da razão só viceja a animalidade. A emoção deve sair dosada, como passando por um magnífico giclê dosador; muito afoga, pouco não pega. Ao artista traçar essas linhas demarcatórias ! Linhas que têm um jogo de cintura de artista para artista. A arte bamboleia sobre essa demarcação. Para esse traço não há tempo nem espaço.

Ao escrever, em 1516, o seu Sobre o melhor Estado e sobre a nova ilha Utopia, Thomas Morus cria um lugar diferente daqueles conhecidos por seus leitores, uma ilha onde não há desequilíbrios sociais e onde reina a igualdade. Morus retoma o estado ideal de Platão. A fabricação de um outro mundo basta para revelar os poderes incomensuráveis da arte e , por tabela, da condição humana. A fabulação de Morus é atemporal. No Sítio do Picapau Amarelo não se vê um patriarca a dar ordens. A personagem principal é Dona Benta. Não havia - e nem há, é pena - sociedade assim estruturada, com as mulheres no leme , pouco importa, vale a imaginação de Monteiro Lobato. O genial autor  hoje padece das opiniões racistas que, por tabela, maculam a sua obra.  Seu   Jorge, o iniciante escritor do conto “ O triunfo”, primeiro conto publicado pela Clarice, bem sabia das dificuldades, do balizamento, das impossibilidades, da finitude. Mas sabia da possível eternidade.

Machado de Assis trabalha bastante essa ansiedade advinda das limitações da condição de homens e mulheres diante do tempo. É que descobrir o real e a verdade equivale a achar um passaporte para a eternidade, por isso a fixação em relógios e olhares.

Em Dom Casmurro, por exemplo, a busca da verdade ou do real levam o narrador a sobrevalorizar os olhos da Capitu na esperança de que eles  sejam objetivos e frios, mas eles também são armas da emoção, por isso mentirosos. Lembremo-nos que o olhar da Capitu era “oblíquo e dissimulado”. E até no enterro do “amante”,versão de Bentinho: “Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas.” O tempo também poderia desvelar a verdade. Daí que o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas, do mesmo Machado, não seja “propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço”, como se lê no primeiro capítulo do admirável e engenhoso romance que, para os historiadores da literatura, iniciou a fase realista do fundador da Academia Brasileira de Letras. Ora, para rever a sua vida com objetividade, o narrador se posicionou fora do tempo e do espaço. Porque ambos relembram com dureza aos seres humanos a sua finitude.

Como sair então desse impasse angustiante?  Lendo o Dom Casmurro, por exemplo. É que através da arte leitor e autor são atemporais, logo, eternos.

Facebook/Redes Sociais, 17/07/2023

https://www.academia.org.br/artigos/gracas-arte-somos-eternos

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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quarta-feira, 19 de julho de 2023

São Bilibeu

 José Sarney



Abril, chuvas mil. Maio, trovões e raio. Este é um ditado que se repete para definir o tempo das chuvas no Maranhão. O Padre Vieira foi quem primeiro definiu inverno/verão, o tempo das chuvas e o que não chove. Assim as estações, que no mundo são quatro, no Maranhão são duas. O diabo é que elas não coincidem nem com primavera, nem com verão, nem com outono, nem com inverno. No Maranhão se chama de inverno o tempo que chove, que vai de dezembro a junho, e de verão, o sem chuva, de junho a dezembro.

Isso faz com que as festas populares sejam influenciadas pelo tempo, e as estações de meteorologia, com as mudanças climáticas, não ajudam, não sabem mais prever as chuvas, que agora chovem no verão e nem sempre no inverno.

Evidentemente que o tempo tem influência em tudo, e as chuvas, muito mais. Nos folguedos populares do Maranhão, portanto, também. Como se entrelaçam com as datas festivas da Igreja, o carnaval é debaixo de chuva e o Natal é tempo de sol, embora as chuvas façam suas incursões, que a crença popular já conhece. Por exemplo, no 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora, sempre chove, e se diz que é o princípio do inverno, bem como o 20 de janeiro, São Sebastião, é quando começam as chuvas de pingo grosso e as chuvaradas que quebram todas as normas e chovem as 24 horas do dia.

Girão Barroso, um poeta brilhante do Ceará, que passou uma temporada em São Luís, definiu a nossa cidade como sendo “uma ilha, cercada de água por todos os lados, inclusive por cima.”

Mas o que eu queria mesmo falar era das festas de São João, que aconteciam em junho. Já hoje se prolongam por julho e se antecipam pela metade de maio. Se justifica como o treinamento da brincadeira, como é chamado popularmente o Bumba meu Boi. Mais do que o carnaval, é um tempo de festa, tambores, com suas variedades de ritmos e de batuques, que hoje já têm autonomia própria: o Boi de Matraca, que é acompanhado por dois pequenos retângulos de madeira, que acompanham o ritmo da música; o Boi de Tambor, que foi copiado dos terreiros de mina e acompanham os ritmos de cada um dos tambores; o Tambor de Pandeiros, o boi de música de sopro, que começou em Axixá, com a variante do tambor tradicional, que era só de percussão.

Acredito que o Maranhão seja o Estado mais rico em folguedos populares. De tudo o povo tira pretexto para criar uma brincadeira encantada, com suas histórias próprias.

Quem primeiro descobriu a riqueza do folclore maranhense, representado por essas imensas festas populares, foi Mário de Andrade, que, quando aqui passou, colheu o grande material que enriquece o Centro Cultural São Paulo. Hoje a eletrônica e outros meios de criação dos sons fizeram com que os ritmos se multiplicassem e cada um desses tomasse seu rumo próprio. E eu fiquei surpreendido, nos meus 93 anos, com São Bilibeu ainda vivo, fazendo safadezas na Baixada, onde também tem o nome de Santo Horácio, que desembarcou na casa de Antero Roxo, durante uma festa de carnaval, num lugar chamado Santeiro, no município de Viana, na Baixada Maranhense, região de lagos e campos, onde eu também nasci, na cidade de Pinheiro.

Ele é saudado “Bico-Bilico, bili-Bilibeu, santinho assanhado, calunguinha de breu!” A festa se mistura com o carnaval e tem motivos religiosos e africanos. Segundo Albani Ramos, Bilibeu é um santinho namorista, cujo trabalho pesado é mamar nos seios apojados das mulheres, depois de lhes garantir a mais impossível gravidez. Veste-se como homem, mas não tem preconceitos: também aparece como mulher. Afora isso, o santo protege os bichos de casa, os doentes e os perdidos. E as pessoas lhe fazem promessas e oferecem crias dos bichos que Bilibeu curou ou encontrou. E conclui Albani: “Aí o negrinho responde pela farra, que vai do Domingo à Terça-Feira Gorda, com levantamento de mastro, baile e ladainha, recitada num latim estropiado, conforme pertence a um festim carnavalesco.”

Mas o que quero dizer é que o carnaval e o São João do Maranhão são os melhores e mais autênticos do Brasil, com o Tambor de Crioula, o Curiá da dona Tetê e o carnaval, que traz modos e gingados, desde o tempo em que açorianos saltaram no Brasil com o boi que se derramou pelo Brasil no Boi Bumbá do resto do Nordeste, no Boi de Mamão de Santa Catarina e no nosso Bumba meu Boi, acompanhado do Tambor de Crioula, com as dançantes de saia rodada.

Imirante, 11/07/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/sao-bilibeu

 

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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sexta-feira, 14 de julho de 2023



Estrada Minha  

Cyro de Mattos

Venho do tempo das águas puríssimas do rio Cachoeira,
 Do cacau ensacado carregado no lombo do burro,
as tropas passistas em andadura ritmadas na sua melhor música,
Ferradas tinha ares bucólicos de pacata vila, flutuava na memória
como bairro-mãe de todos os bairros da cidade que nasceu
 como um burgo de penetração na época da conquista da terra.
 As ruas da cidade tinham cheiro de cacau vindo de dentro
 dos armazéns de portas largas. Venho da escola primária
Lúcia Oliveira onde aprendi o Abecê, caligrafia, aritmética.
 Também venho do tempo do mata-borrão, da goma
 para colar a carta, da máquina datilográfica. Do Natal
 com as quermesses na pequena praça, “vai correr! vai correr!
faça seu jogo, ganhe seu presente com a sorte”, bradava o homem
encarregado de vender os bilhetes. São João rimava licor com canjica, 
de porta em porta, os fogos como jogos alegres no chão e no céu.
Nos carnavais do Grapiúna Tênis Clube, lá estava o moço de Peter Pan,
animada era a noite ali numa forma festiva de comemorar a vida.
De tudo isso venho, de muito mais, agora dormindo o sono do amor.
Irremediável no fumo das horas. Quanta saudade de mim!

 

Cyro de Mattos - Baiano de Itabuna. Escritor e poeta, Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.

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segunda-feira, 10 de julho de 2023

 

Um Embaixador Mexicano no Rio

        Cyro de Mattos

 




                Graças à literatura tenho feito bons amigos. O último deles foi há poucos anos. É um americano, erudito, sensível, atencioso, qualidades inconfundíveis de seu caráter. Professor Emérito da Universidade de Austin, Texas, Fred Ellison tem um amor forte pelo Brasil. O abraço rico que vem dando há anos ao nosso País manifesta-se no ensino de língua e literatura brasileira nos Estados Unidos, passa pelo ensaísmo lúcido e alcança traduções admiráveis de autores importantes de nossas letras, como Rachel de Queiroz, Helena Parente Cunha, Adonias Filho e Affonso Romano de Sant´Anna. Para minha sorte, alguns poemas de minha lavra levam a marca da tradução exemplar do caro amigo.

“Brasilianista” dos melhores, Fred Ellison proporciona agora em “Alfonso Reyes e o Brasil” (Editora Topbooks, Rio, 2002) estudo substancioso sobre a temporada que o embaixador-poeta mexicano passou entre nós, morando no Rio, cidade que tanto o encantou desde que aqui chegou. O assunto encontra no americano o ensaísta maior. A pesquisa criteriosa do espírito sensível, que caminha de mãos dadas com o discernimento para erguer na escrita agradável uma vida intelectual plena de reflexões, projeções, esperanças e realizações em chão brasileiro.

Desse livro emerge todo o clima intelectual e emotivo que o embaixador-poeta mexicano teve pelo Brasil durante os sete anos em que aqui esteve. Abordam-se como nenhum intelectual brasileiro tentou fazer até hoje, o que não deixa de ser omissão lamentável, as múltiplas atividades e relações culturais que Alfonso Reys empreendeu em prol do Brasil. Foram anos em que ele, morador do Rio, dedicou-se de modo afetuoso às relações diplomáticas e à cultura brasileira, em namoro intenso, de quem escreveu contos, poemas e ensaios tendo como ponto de referência nossas coisas e gente.

              O livro de Fred Ellison é leitura obrigatória para quem quiser saber sobre a vida cultural do Brasil nos anos 30. Reconhecer intelectuais do círculo de relações de Alfonso Reyes, bem como suas atuações culturais em nossas artes e letras. Cecília Meireles, Oswald de Andrade, Renato Almeida, Di Cavalcanti, Portinari, Cícero Dias, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Alceu Amoroso Lima, estes foram alguns de nossos homens de letras e artes que se tornaram amigos desse embaixador e escritor de extração renascentista. Manuel Bandeira fala do mexicano com afeto em “Rondó dos Cavalinhos”, no almoço de despedida oferecido por diplomatas e entidades brasileiras no Jóquei Clube do Rio, e no outro poema “Rondó do Palace Hotel”, no qual os dois últimos versos, “Por alguém que não está presente/ No hall do Palace”, dizem respeito a Alfonso Rey



            O diplomata mexicano teve ânsias de entrar em contato com os intelectuais brasileiros assim que aqui chegou. No início, nossos homens de letras não foram tocados pelos acenos do mexicano, que nunca escondeu nas intenções e atitudes a inquieta admiração pelos brasileiros e sua paisagem. Momentos de amizade foram se fazendo com nitidez pouco depois, e, dos encontros que continuavam, a oportunidade era dada ao intercâmbio de ideias, informações e juízos críticos consistentes.

          Até hoje pouco se sabia da atuação e amor desse notável embaixador-poeta- mexicano pelo nosso País. Acredito que o mesmo se deu com a minha geração nos anos 60. No livro de Fred Ellison, através de entrevista concedida a Aurélio Buarque de Holanda, posso sentir como esse embaixador mexicano teve no Brasil uma temporada das mais felizes de sua vida, contribuindo para isso dois elementos essenciais: o homem e a natureza. “Tudo do melhor em minha existência”, ele assinalou, em momento de puro encantamento. E, nessa admiração contagiante pelo Brasil, de um estrangeiro enamorado do Rio, cada vez mais, tantos foram os elogios que todos os mexicanos quiseram vir ao Brasil como embaixador e desse modo lhe tomaram o posto.

Río de olvido

Alfonso Reyes


Río de Enero, Río de Enero:

fuiste río y eres mar:

lo que recibes con ímpetu

lo devuelves devagar.

 

Madura en tu seno al día

con calmas de eternidad:

cada hora que descuelgas

se vuelve una hora y más.

 

Filtran las nubes tus montes,

esponjas de claridad,

y hasta el plumón enrareces

que arrastra la tempestad.

 

¿Qué enojo se te resiste

si a cada sabor de sal

tiene azúcares el aire

y la luz tiene piedad?

 

La tierra en el agua juega

y el campo con la ciudad,

y entra la noche en la tarde

abierta de par en par.

 

Junto al rumor de la casa

anda el canto del sabiá,

y la mujer y la fruta

dan su emanación igual.

 

El que una vez te conoce

tiene de ti soledad,

y el que en ti descansa tiene

olvido de lo demás.

 

Busque el desorden del alma

tu clara ley de cristal,

sopor llueva el cabeceo

de tu palmera real.

 

Que yo como los viajeros

llevo en el saco mi hogar,

y soy capitán de barco

sin carta de marear.

 

Y no quiero, Río de Enero,

más providencia en mi mal

que el rodar sobre tus playas

al tiempo de naufragar.

 

—La mano acudió a la frente

queriéndola sosegar—.

No era la mano, era el viento.

No era el viento, era tu paz..

 

 

*Do livro Romances del Río de Enero, 1932.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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