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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023
A perda de dona Cleo
O falecimento da
professora Cleonice Berardinelli, aos 106 anos de idade, foi uma perda muito
sentida pela Academia Brasileira de Letras. Sobretudo porque ela representava
uma atenção toda especial com a língua portuguesa, que prezava acima de tudo.
Dona Cleo, como era
conhecida, lecionou na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de
Janeiro e na Universidade de São Paulo. Nessas duas instituições notabilizou-se
pelo domínio extraordinário da vida e da obra do escritor e poeta Fernando
Pessoa. Lembro bem de um trabalho do acadêmico José Paulo Cavalcanti sobre
Pessoa, examinado e muito elogiado por Dona Cleo. Certamente isso ajudou muito
quando ele se candidatou à Casa de Machado de Assis.
Considerada uma das
maiores especialistas do mundo em literatura portuguesa, Dona Cleo lecionou por
mais de 50 aos na Faculdade Nacional de Filosofia, sendo autora de obras
magistrais como 'Antologia de Teatro de Gil Vicente'(1971), 'Fernando Pessoa,
Obras em Prosa' (1975 e 'Sonetos de Camões', de 1980, todas muito bem
sucedidas.
Ela sucedeu na ABL
outra grande figura da língua portuguesa , que foi o escritor mineiro Antônio
Olinto, um dos diretores do tradicional 'Jornal de Letras'. Deve-se registrar
que ela foi homenageada no cinema com o documentário 'O vento lá fora', em que
apareceu ao lado da Cantora Maria Betânia, lendo sobre a obra de Fernando
Pessoa.
Dona Cleo, no Rio,
fez todos os cursos teóricos e se diplomou sob a orientação do maestro Oscar
Lorenzo Fernandez, que foi seu professor de piano. Já aos 98 anos de idade ela
recebeu o Prêmio Faz Diferença de 'O Globo' na categoria prosa. Como se pode
perceber, a doutora Cleonice Berardinelli foi uma figura de múltiplas
qualidades, daí a admiração por ela granjeada. Trabalhou com grandes mestres da
nossa literatura, como Fidelino de Figueiredo, em São Paulo, e depois Thiers
Martins Moreira, no Rio de Janeiro. Em todos esses mestres deixou impressões
indeléveis. A cultura brasileira ficou muito a dever a ela.
Tribuna do Sertão, 07/02/2023
https://www.academia.org.br/artigos/perda-de-dona-cleo
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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL,
eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17
de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos
Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia
Brasileira de Letras em 1998 e 1999.
* * *
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
Tempos de Carnaval
Cyro de Mattos
O Carnaval no Rio de Janeiro não é o mesmo de Olinda,
Recife, Salvador e outras cidades brasileiras. Conservando o elemento comum que
os une, a participação coletiva que se extravasa na maior felicidade, o Carnaval
no Rio tem na escola de samba sua marca pessoal. Na ópera popular, a se exibir
na passarela do asfalto, sobressaem passistas, ritmistas, fantasias, carros
alegóricos, samba-enredo, bateria com um grande número de figurantes, alas de
baiana e comissões de frente. Figurações diversas que, em sua feição de cores e
luxo, impressionam vivamente e deslumbram a quem assiste. A vida dança ritmos
ardentes, solta desvairadas vibrações de corpo, cantos e prazeres numa
maravilhosa ventura em torno do sonho. Em Olinda e Recife, bonecos gigantescos
arrastam multidões sob o ritmo rápido do frevo. Passistas improvisam uma
coreografia individual e frenética.
Ao fechar o banco, o escritório, a indústria, o comércio, o
Carnaval é sempre o mesmo. Com a sua máquina de fazer alegria, inventar o
êxtase e o riso varre as formas de viver do mundo rotineiro, trazendo os ventos
da utopia para empurrar a onda humana que canta e pula na avenida. Em Salvador,
com ou sem turista, dinheiro ou sem dinheiro, vibra na tanga do índio, na
mortalha suada da moça, vocifera, trepida ao som do trio elétrico, mexe, remexe
sob a nova dinâmica dos ritmos negros, suaviza a vida quando passa numa onda
mística com o bloco “Filhos de Ghandy”.
Serve de extroversão a milhares de pessoas e de fuga aos que
preferem à casa de praia ou de campo. Na Quarta-Feira de Cinzas, quando o coral
frenético silencia, o carnaval oferece a muitas pessoas uma oportunidade de
ganhar o sustento nessa incrível arte da sobrevivência. Muitos nesse Brasil
tropical e carnavalesco estão a postos para limpar o lixo da euforia.
Tempo de carnaval. O banco, o escritório, a indústria e o
comércio são substituídos por uma máquina de fazer alegria. Em Salvador de
Bahia, no antigamente, o corso passava pela Avenida Sete numa maravilhosa
ventura em torno do tempo perdido na história.
Improvisava figurações diversas, tinha feições de cores e luxo,
inventava uma ópera no desfile do carro alegórico, lembrava a Grécia antiga,
Veneza. O êxtase e o riso invadiam a Rua Chile. Começava a acontecer com a
guitarra elétrica na fóbica, puxando atrás pequena multidão, formada por gente
do povo nos intensos prazeres, vibrações de corpo que insinuavam uma dança
frenética. O bar Cacique, antes Bob’s, vizinho ao Cine Guarani e ao cabaré
Tabaris, era parada obrigatória do folião para o chope.
O moço do
interior impregnava-se no carnaval com sua forma extrovertida de conceber a
vida, não querendo saber do mundo rotineiro. A onda humana fantasiava-se para
cantar e dançar na avenida. Blocos antigos, afoxés, batucadas. Na tanga do
índio, na mortalha suada da moça, no amor da colombina. A vida era assim
embalada pelos ventos da utopia. Movimenta-se serena na onda mística do bloco
Filhos de Ghandy.
Tempo que
transformava o branco no preto, o pobre no rico, o sacro no leigo, de mãos
dadas passavam o padre e a freira. Não havia vencedores e vencidos, viver era
igual a se divertir. O folião, todo alegre, como não devia deixar de ser,
seguia pelo salão com a espada de pau. O olho tapado na cara de mau. E a cigana
que fingia ser definitivo o seu amor passageiro no carnaval. O chão cheio de confete, serpentina colorindo
o ar, a lança que perfumava a melindrosa em cada volta. Aqueles risos com mais
de mil palhaços no salão, pierrô fazendo suas juras, arlequim chorando pelo
amor da colombina no meio da multidão.
Vestido de
marujo o moço do interior, viajando pelo mundo de uma só cor, a da euforia. Na
Quarta-Feira de Cinzas, quando o coral silenciava, sem o sopro no apito da
alegria, descia da nau, que chegava ao porto, situado no jardim da Piedade.
Chegava de madrugada a nau empurrada pelos ventos da alegria, polvilhada de
fadiga pela cauda, puxando a manhã fresca e pura.
Foi nessa
viagem gasta na avenida que conhecemos a festa da alegria em Salvador. Aquele grande alvoroço tive nos dias que eram
apenas um cenário de euforia. Lindo marujo, de lá para cá haveria de perceber
que sobre outra onda foi rolar o mundo. Na orla nunca soubera por que tudo haveria
de acontecer sem agitação um dia, desligado do corpo da juventude, recolhido
nos braços de um idoso sem brilho. E, assim, sem cores e sons, fosse levado, em
silêncio, pelas marés da nostalgia.
Ressalte-se que em Itabuna antigamente os vizinhos
costumavam colocar cadeiras no passeio para desfiarem um dedo de prosa. Esse
costume servia para que estreitassem os laços de amizade, distraindo assim a
mente cansada dos afazeres diários. Com a lua clara resvalando sua prata no
calçamento, prosseguia a conversa animada entre os vizinhos, geralmente em
torno de um assunto interessante ligado à cidade, até quando fosse chegada a
hora de se recolherem no sono que descansa e reconforta. Numa dessas conversas
entre vizinhos, lá estava seu Zeca, o dono da farmácia, dizendo ao outro que o
começo do carnaval na cidade que tropeçava nas pernas remontava ao ano de 1908.
A festa naqueles idos era conhecida como “Domingo do Entrudo”.
O dono da farmácia informava que no começo os bailes
carnavalescos eram realizados no armazém da rua do comércio ou no Cine Odeon.
Com a inauguração do primeiro clube, em 1940, os bailes mudariam de cenário.
Durante quatro noites e duas matinês, foliões adultos e pequenos iriam ser
acolhidos agora nos salões de um clube. Ao lado do carnaval nas ruas, a folia
passava a contagiar no clube os blocos formados por senhores e senhoras,
rapazes e moças da elite. De bigode retorcido nas pontas, de braço dado com as
esposas, esses senhores sisudos davam voltas contínuas no salão. Bem
entusiasmados, não paravam de cantar as marchinhas “Linda Lourinha”, “Pirata da
Perna de Pau”, “As Pastorinhas”, “Touradas em Madri”, “Alá-Lá-Ô” e tantas
outras que ficaram famosas em nosso cancioneiro popular.
O Carnaval de ontem era do tempo da serpentina, confete e
lança perfume só para animar. Era o carnaval da musa colombina, pierrô
apaixonado, arlequim sonhador, palhaços que não paravam de brincar e soltar
piadas para as moças. Era o Carnaval dos quadros satíricos em que não faltavam
fantasias e brincadeiras bobas. Era comum a sátira ser usada por blocos e cordões.
Aproveitava-se um fato político, econômico, social ou esportivo com repercussão
no ano como assunto engraçado para animar o carnaval.
Pessoas de minha cidade, que pertencem a uma geração mais
velha, tem saudade do Carnaval daquele tempo. Uma dessas pessoas é seu Sessa.
Funcionário Aposentado do Banco do Brasil, outrora folião dos mais animados,
disse certa vez que nunca vai se esquecer daquele palhaço irrequieto e da
pastorinha enamorada. Daquele palhaço de calças folgadas e nariz de limão, que
não parava de pular e soltar piadas no salão quando a orquestra fazia uma pausa
para que os foliões descansassem um pouco.
Já vai longe o tempo em que o carnaval começava cedo, aos
sábados. Vestindo calça listrada, sem camisa, usando cartola e fraque, o Zé Pereira
aparecia tocando o bombo, com meninos sujos e afoitos atrás. Batia forte no
bombo o Zé Pereira, em frente às lojas e armazéns. Já vai longe esse tempo, o
Zé Pereira ordenava a toda voz aos comerciantes que fechassem suas portas. É
pra já! Cedo a folia vai tomar conta da cidade, ele ordenava.
Cyro de Mattos - Membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor
Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
* * *
terça-feira, 7 de fevereiro de 2023
NADA É PARA LEVAR
"Nada é pra levar,
tudo é pra comer aqui...
Você já se hospedou
em um hotel ‘tudo incluído’?
Lembro-me que
quando nos registramos naquele imponente resort, eles colocaram uma pulseira
verde maçã no nosso pulso. Explicaram-nos que não devíamos perdê-lo, pois ele
nos daria acesso a todas as instalações, que com ele podíamos desfrutar de tudo
o que havia dessa porta em diante.
E assim foi.
Todos os dias
podíamos percorrer aquele lugar incrível e tomar banho em qualquer uma de suas
lindas piscinas.
Também me lembro
que algumas pessoas preferem ficar no quarto, eu estava me perguntando como é
possível que não queiram desfrutar desse presente?
Se já está tudo
pago!
Naquele lugar
também tínhamos acesso aos diferentes restaurantes que faziam parte do
complexo. Havia uma variedade incrível de comidas, sobremesas e bebidas.
Só havia uma regra:
‘Nada se podia levar,
tudo era pra comer lá’
Assim é a Vida.
Ao nascer Deus nos
coloca uma pulseira chamada ‘Vida’
e através dela,
temos acesso a este mundo fascinante criado por ELE.
Enquanto o seu
coração palpitar, você terá a chance de desfrutar da Vida que Deus lhe dá. Mas
tal como aquele resort, neste mundo aplica a mesma regra: ‘Nada é para levar, tudo é para comer aqui’
A diferença entre
um hotel e um Resort é que o primeiro foi feito apenas para dormir e ficar
trancado e o segundo para percorrer e desfrutar.
A Vida não é um
hotel!
É um Resort
Por isso, não fique trancado no quarto da sua mente, dos
seus problemas, na amargura, na raiva, no medo, na dor ou na preocupação.
Se você está
respirando é porque ainda tem a pulseira...
Aproveite hoje tudo
de lindo que o Criador colocou para nós:
A natureza,
Um telhado,
Um trabalho,
A companhia de seus
entes queridos,
Seus amigos,
Alimento na mesa,
De uma deliciosa
sobremesa, uma saudação, um abraço. um beijo, um sorriso, um eu te amo, um eu
preciso de você, me perdoe...
Da possibilidade de
deixar o passado no passado.
De um eu te perdoo,
de um bom descanso e acima de tudo
aproveite, ao vivo!
Porque ninguém
viverá por você! ”
Na Vida é que você
vai usar a pulseira... "em Vida. "
A VIDA NÃO É PARA LEVAR, É PARA COMER AQUI!
(Recebi via WhatsApp, sem menção de autoria)
* * *
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023
À sombra dos escritos em flor
Lidaram com o autor
de 'Para o Lado de Swan' e a 'À sombra das moças em flor', mesmo sabendo da
fama de que a sua obra era considerada 'difícil'?
Como instituição
cultural de primeira grandeza, a Academia Brasileira de Letras não poderia
deixar de lidar, em certos momentos, com a vida e a obra do renomado escritor
francês Marcel Proust. Suas longas frases não assustaram escritores calejados
como Alceu Amoroso Lima, José Lins do Rego e a minha estimada Rachel de
Queiroz. Lidaram com o autor de 'Para o Lado de Swan' e a 'À sombra das moças
em flor', mesmo sabendo da fama de que a sua obra era considerada 'difícil'.
Outros autores,
como os amigos Rosa Freire d'Aguiar, minha colega da redação da revista
'Manchete', e Cláudio Aguiar ('O último romance de Proust') trataram do autor
dos sete volumes de 'Em busca do tempo perdido' com a propriedade e a
competência que deles se esperava. No caso deste último, pernambucano de boa
cepa, ele cria, o que pode ser uma notável obra de ficção, um livro em que um
contrabandista de obras de arte inglês envia a Olinda três auxiliares com a
missão de roubar os manuscritos do que seria o seu último livro. A trama,
situada em 1972, segue um caminho cheio de alternâncias ou reviravoltas.
A atual exposição
da obra de Proust, revivendo o que aconteceu na Biblioteca Nacional da França,
com a apresentação ação de 'Marcel Proust: La Fabrique de l'oeuvre' exibe um
mergulho na produção da sua obra-prima, com pinturas, roupas de época e
documentos descobertos recentemente. É o que acontece também na Biblioteca
Pública de Porto Alegre, com a mostra de documentos, manuscritos e rascunhos do
escritor francês.
Além do universo
estético do seu tempo, Proust foi um dedicado usuário da pintura e da música, o
que valoriza enormemente a sua extraordinária obra. Assim ele passa o tempo
todo perguntando se vai ou não começar o seu livro. Quando o leitor se dá conta
disso, a leitura já chegou ao fim.
Num primeiro
momento, Proust produz sequências de textos isolados. Só organiza a narrativa
num segundo momento. E assim ele desenvolve o seu trabalho, como se vê nas suas
impressionantes memórias, com as características proustianas de supressões,
deslocamentos e corta-cola da sua obra genial. A exposição de Porto Alegre
expressa isso de forma bastante competente, como quis o seu curador Gilberto
Schwartsman.
Site Chumbo Gordo,
01/02/2023
Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18, eleito
em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de
setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo
Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira
de Letras em 1998 e 1999.
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