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quarta-feira, 4 de maio de 2022

A MORTE O QUE É? - Ignácio de Loyola Brandão



A morte o que é?

Ignácio de Loyola Brandão


Para quem prega programação para tudo, a vida desmente. Tudo determinado, muda-se em um instante. Um mês atrás tive um encontro com Marco, pri-mo-irmão, mais irmão que primo, ele parecia ter vencido um câncer. Ao sair, combinamos nos revermos logo. Dez dias atrás estávamos com tudo pronto para irmos a Minas, queríamos o silêncio e o verde. íamos descer para o carro, veio a notícia, Marco tinha morrido.

Em vez de irmos para Minas, fomos para Araraquara. Estava desnorteado. Os primos Zezé e Marco tomaram-se irmãos de coração e mente. Breves insights.

Em 1966, eu tinha 30 anos e Marco 14. A Ferroviária disputava a primeira divisão, após ter caído da Especial. Na sexta, em São Paulo, eu terminava meu expediente na Última Hora e seguia para a Estação da Luz, entrava em meu leito do vagão-dormitó-rio (coisa boa que acabou) da Companhia Paulista e seguia: 5 da manhã, em Araraquara, meu tio José me esperava com o Marco. Seguíamos, agora no vagão-restaurante, para Rio Preto, onde naquele sábado havería jogo da AFE contra o América. Certa vez, no vestiário, intervalo de jogo, Marco e eu vimos umas laranjas, avançamos, o roupeiro adverbe depois. Outra vez em Franca, vimos Tião Macalé colocando um martelo na sunga e entrando em campo. Felizmente, não usou. Em Batatais levamos uma surra de sombrinha da torcida feminina, senhoras de meia-idade. Em Taquaritinga, os carros de Araraquara tinham pneus furados. Não se brincava, era guerra. Curtos episódios pitorescos de uma vida cheia deles, nas relações entre o Marco e eu. Ele era marido de Valéria, pai de Isado-ra, Júlia e Carol, esta a chef do Las Chicas, após ter feito carreira com Carla Pernambuco. Caravana para a formatura da Carol no Senac, em Aguas de São Pedro, mostrava a união dos Brandão. Quando tomei posse na Brasileira de Letras, lá estavam o Marco e Zezé à frente do clã em peso, os de Araraquara e os de Bauru. Meu último encontro com Marco se deu um mês atrás na casa de Carol. Conversamos por horas, tomando um litro de Campari. Ele morria de rir de uma excursão em navio de cruzeiro, fracassada por causa da pandemia e da revolta de passageiros que saqueavam comida e estocavam nos camarotes. Comédia pura não fosse tragédia. Os Brandão traduziam e traduzem tudo em riso. Última aventura hilariante em vida. Marco se foi. Perdi um irmão. Araraquara lotou o velório, até o prefeito Edinho estava. A amizade levou aquela multidão em sábado de céu azul. Sei, a morte é certeza. Uma coisa me obceca: no instante final sabemos que estamos morrendo? Como fica nossa mente? Apaziguada ou ansiosa? Enigma que me obceca. ?

Uma coisa me obceca: no instante final, sabemos que estamos morrendo? Como fica nossa mente?

O Estado de S. Paulo , 01/05/2022

 https://www.academia.org.br/artigos/morte-o-que-e

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 d ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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terça-feira, 3 de maio de 2022

ROMANCE EM TEMPO DE TERNURA – Cyro de Mattos



                             Romance em Tempo de Ternura

                                Cyro de Mattos

              

            Aníbal Machado estreou em 1944 com Vila Feliz, contos que seriam acrescidos de mais sete histórias inéditas, formando o volume de Histórias Reunidas (1959). Compendiado como autor de obras-primas com os contos “A Morte da Porta-Estandarte”, “O Iniciado do Vento” e “Viagem aos Seios de Duílio”, publicou ainda a coletânea Cadernos de João (1957), em que reúne breves meditações lírico-filosóficas e poemas em prosa. João Ternura (1965, rapsódia romanesca, teve publicação póstuma, após lendária gestação durante o período de quarenta anos.

             Na longa gestação do romance, cujo personagem tem uma alma impregnada de visões do mundo numa paisagem que não lhe é vulnerável, considera-se que o clima em que se cumpre viver pelo personagem conota no real coerência e naturalidade. Daí ser compreendido por particularidades pessoais onde pulsa a ternura. Na peregrinação para escrever o livro, contemporâneos que viveram no ambiente íntimo do criador de João Ternura   informaram que Aníbal Machado passou por momentos difíceis de sua jornada criativa, na iminência da conclusão ou engavetamento dos escritos.

Aníbal Machado ressalta na introdução de João Ternura:


 É possível que alguns leitores, de tanto ouvirem falar neste livro,

o recebam de pedras na mão. Especialmente os da geração mais

antiga. Tal seria a minha reação, se, em vez do autor, fosse aqui

o leitor (pág. 3).


            Valeu a pena a espera, tantas são as lições carregadas de humanismo que o herói terno-lírico transmite nas cenas fomentadas na rotina obediente ao seu próprio ritmo de contradições. Porque é simples, nascido cercado de desvelos, inquietações e expectativas, esse personagem solto na realidade aparentemente generosa constitui um grito lúcido contra a miséria da existência humana. Na pauta de egoísmo corriqueiro, em que   funciona a vida competitiva, o que ele vê não é um cenário desalentador, mas a necessidade que tem a natureza humana de seguir em frente, dentro de uma normalidade, que gera movimento e comportamento entranhados na rotina de expectativas e repressões.

             Através de gestos ingênuos, o personagem torna-se uma reflexão profunda da vida. Sem qualquer espécie de partidarismo ou pieguice, é cativante no itinerário das ocorrências que preenchem a biografia lírica cercada de intenções pequenas. Não se dá à reflexão em face de gestos desconcertantes, porque as contradições e dúvidas vêm desde os primeiros passos na infância quando o mundo adulto da incompreensão e insolência começa a existir até os momentos desagregadores das qualidades humanas.  Na cidade grande que esmaga, a vida mostra-se tal qual ela é, pulsa tendo como o principal os dias constituídos de indiferenças, incoerências que não fazem sentido diante do racional.

            Esse passageiro tranquilo, símbolo do vulgar ligado na ternura, “esse pobre João ternura que nas nuvens melhor ficaria, uma vez que sua simplicidade e inocência nem sempre encontravam resposta num mundo em que não conseguiu (e nem suportava) atingir a chamada idade da razão e das conveniências sociais que tão tristemente já alcançamos” (pág. 5). Ele não mede a vida com seus despropósitos porque a simplicidade é a tônica da sua mentira verdadeira, da qual emerge a vulgaridade das ideias, que nos sabem seres estranhos formados com a natureza das próprias conveniências. Até mesmo nas reações ingênuas diante da morte quando tinha a ilusão que poderia depois continuar de olhos abertos. Alguns anos em silêncio, sem direito à vida, a espiar com prazer a sucessão das novas gerações no Brasil progressista, com o seu crescimento material, a grandeza humana de seu povo, enfim, com os homens vivendo com simplicidade, cordiais nas atitudes para longe da exploração e do medo.

             Frágil e forte, o personagem do romancista mineiro acredita na inocência como uma coisa útil e, por ser terno, não se corrige com as decepções que a vida oferece.

           Aníbal Machado explica:

 E você pensa que ele vai se corrigir? Duvido. É possível que um dia ainda abra os olhos. Isso a poder de muita cabeçada. Precisa primeiro sofrer na pele, levar trancos. Mas esse diabinho parece que não sofre, nem toma conhecimento da realidade. Não analisa os fatos. Nem raciocina. Falta-lhe espírito objetivo... (pág.125). 

            Em sua maneira de contar com o mundo sem merecer inconformismos, vê-se que João Ternura acha tudo natural, a cegueira de lidar com a vida sem ver nela o sofrimento o absorve de tal maneira que suas relações com o cotidiano chegam a dar pena. Ele está sempre consciente de que entrou na vida inconsciente como qualquer um de nós. Não entrou nesta briga pensando em Dom Quixote, mas apenas trazendo como arma e bagagem uma maneira ingênua para sentir os seres humanos como agentes naturais das coisas que precisam ser alcançadas. Nessa visão desprevenida de que viver é rolar na vida com simplicidade, sem se importar com as agruras, manter com ele qualquer tipo de conversa que analise a realidade tal qual ela é não será proveitoso. Ele não pode entender, por exemplo, que há em cada esquina pelo menos meia dúzia de desgraçados precisando de socorro. Não consegue conceber o mundo como um nunca acabar de murros, com os fortes, em geral estúpidos, pisando nos fracos.

             Na escrita reveladora de candura, contradições e desconcertos, a fabulação sincopada em cada episódio sugere o ambiente necessário para revelar o conflito contado em determinadas passagens. Com isso quer traduzir a criatura humana em seus becos sem saída, prisões e medos.  Mostrá-la com a certeza de que quando se tem a natureza moldada com humildade a vida só pode ser vista no plano da realidade oposta à dos valores materiais,  não permitindo que se pise nela com a vontade de deter as coisas postas no mundo para satisfazer desejos e ambições.

              João Ternura nos faz refletir sobre a humanidade caminhando nas pegadas da distância de uns para com os outros, projetando-se tranquila, aparentemente generosa, na expressão feliz o rosto dá a entender da existência de uma realidade proveitosa. Como portador da brandura, esse personagem intrigante informa sobre o nosso gosto de apertar o nó na garganta, sem variar nosso apetite voraz  persistente de pender para o egoísmo, que vem de longe.

            O personagem lírico-vulgar resulta de inegável força criativa de autor experimentado, consistente em sua experiência de vida com bases humanísticas. Sabe valorizar sua mensagem pela atualidade vista nos gestos primitivos dos que se dizem civilizados, vivendo em ritmo tumultuado de hoje, cada vez mais intenso e veloz da cidade grande, “insone, cruel... maravilhosa ao longe, terrível ao perto. O texto que se move para a ingenuidade do personagem distante da realidade exterior, atinge momentos oníricos de rara beleza, de sonho sustentado na gravidade do diálogo difícil de ser formado nas zonas da morte onde tudo se dissolve.

             A economia vocabular, usada como uma constante para suportar o ritmo sugestivo da narrativa, a linguagem descontínua, composta de aforismos, artifícios, inversão de frases, acrobacias conscientes nas palavras, todas essas invenções formais com soluções só encontráveis na melhor ficção brasileira situam João Ternura num fluxo de beleza no qual se integram as fronteiras da poesia e do prosaico.

            Como adianta um escritor da época, não é exagero afirmar que em sua construção afetiva encontra-se aqui a síntese do comportamento literário de Aníbal Machado. A mesma síntese cristalizada na escrita de Histórias Reunidas ou Cadernos de João. Nesse livro póstumo do escritor mineiro, o excelente prosador sente-se como que à vontade. O pleno domínio da escrita poética novamente emerge do espírito sensível com sutilezas líricas, no plano de imagens o sonho circula saliente sob o ritmo que prende.  Ora acelerado, ora lento, irrompe nas passagens da prosa depurada com fragmentos, vozes e figuras de um mundo incompreensível que nos impinge viver como estranhos e assustados. Trata-se de texto com técnica renovadora do discurso literário, mostrado como o real transfigurado no literário passa a se identificar com a poesia imbricada na vida.

            Mas João Ternura não é apenas um texto com a forma apurada em sua grandeza técnica. Nas páginas de um discurso lírico bem construído, a vida pulsa com sentimentos que se mostram precisos nos momentos em que se desenham como achados felizes. É sentimento esteticamente realizado com sua mensagem forte formulada no diálogo aceso para iluminar o ser perdido na memória primitiva do tempo. O clima que se apreende no mundo singular de João Ternura muito se identifica com o espírito de seu criador. É como se o diálogo do personagem lírico-vulgar com a rotina das coisas não se esgotasse em si mesmo perante o lado incompreensível da vida. E fosse o grito lúcido do espírito tranquilo do próprio Aníbal Machado. Da razão penetrante e sentimento poético que se atraem e se unem para dizerem que o homem quando vive apoiado em padrão frágil de comportamento, imbuído de ternura, desligado da realidade exterior em seu lado cruel, não tem salvação para o pobre coitado, a vida deixa que se vá em sua clausura de alheamento até sucumbir acossado pela sua própria simplicidade.

             Ler essa fábula moderna, percorrer o texto rico de significados e significantes, é rever a figura de Aníbal Machado. O homem culto, sensível, atencioso, de bons préstimos. Durante anos influenciou geração de contemporâneos por meio de artigos, conferências, diálogos e sugestões. Como testemunham dois escritores de seu tempo, foi um escritor que compareceu à lide literária dotado de simplicidade, não se preocupando com o poder e a glória, não usando ressentimentos para ferir o talento dos companheiros de militância artística.

             Por ser criatura sem vaidades, cada vez mais rara entre os habitantes do país das letras, onde infelizmente circula o duvidoso como se fosse o verdadeiro, já podemos também dizer, como bem lembrou Carlos Drummond de Andrade, ao concluir a leitura do lendário livro, que ficamos sem saber se o criador de “João Ternura morreu efetivamente ou se é apenas uma de suas mágicas.”

 

REFERÊNCIAS

                        MACHADO, Aníbal. João Ternura, romance, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1965.

                      -----------------------------Histórias reunidas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1959.

                      ------------------------Cadernos de João, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro,1957.

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Balada em Prosa de Aníbal Machado”, in João Ternura, José Olympio Editora, 1957.

 

 * Cyro de Mattos é escritor premiado e publicado no exterior.

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segunda-feira, 2 de maio de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Albérico Souza -Advertindo



Advertindo

Albérico Souza

 

Não temas se rebrama e se encapela

O mar da vida, assustador, feroz;

As naus da vida não velejam sós,

Se sopram ventos e se vem procela.

 

No além o Chefe dos poderes vela,

E a tempestade lhe obedece a voz;

Pois Ele ordena que ela passe e após,

Que frui bonança, o coração revela.

 

Sê forte e luta contra a vil fraqueza,

não sejas nunca da amargura presa.

Não tenhas medo, oh não fiques triste!

 

Levanta os olhos, fita o céu grandioso,

Enxuga o pranto, faz-te jubiloso,

E não te esqueças: o teu Deus existe.

 

(A CHAVE DA FELICIDADE E A SAÚDE MENTAL- Marcelo J. Fayard - Capítulo 11 - Emoções e enfermidades.)



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Agora - Direto da avenida Paulista. O Brasil acordou

domingo, 1 de maio de 2022

AO VIVO: PRESIDENTE BOLSONARO SE UNE A MANIFESTAÇÃO EM BRASÍLIA E FAZ PR...

PALAVRA DA SALVAÇÃO (263)



3º Domingo da Páscoa – 01/05/2022


Anúncio do Evangelho (Jo 21,1-19)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus.

Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram: “Também vamos contigo”.

Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite. Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma coisa para comer?” Responderam: “Não”.

Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da barca, e achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem metros. Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão. Jesus disse-lhes: “Trazei alguns dos peixes que apanhastes”.

Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu.

Jesus disse-lhes: “Vinde comer”. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe.

Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”

Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. E disse de novo a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas ovelhas”. Pela terceira vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?”

Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.

Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu cingias e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir”. Jesus disse isso, significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: “Segue-me”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

 

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Ligue o vídeo abaixo, e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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A Ressurreição revela sua força transformadora nos fracassos

 


Imagem: Sieger Koder

 

“Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite” (Jo 21,3) 

vida é constituída de momentos de luta e de coragem, de sonhos e de esperança, de vitórias e de derrotas. Este é o material com o qual são construídas nossas histórias, pessoais e coletivas.

Todos nós já vivemos experiências de fracassos, quando tudo desmorona, quando tudo nos é tirado, quando perdemos o chão, quando parece que evapora tudo aquilo sobre o qual tínhamos investido todo o nosso amor e toda a nossa energia e criatividade.

Mas, no horizonte da Ressurreição, o fracasso tem seu lugar. Ele pode ser percebido como chance para crescimento ou amadurecimento, ou pode ser integrado à luz de outras experiências positivas. Aprendemos mais pelos nossos fracassos do que pelos nossos êxitos.

O fracasso pode ser, à luz da Ressurreição, des-velador da natureza do ser humano, que vai amadurecendo, superando o sentimento infantil de onipotência, descendo do pedestal de sua soberba para tornar-se mais humano, mais amoroso, mais confiante... Os fracassos podem se revelar como ocasião privilegiada para ativar outros recursos humanos que não tiveram chance de se expressarem.

Integrar os fracassos significa assumir as perdas ou carências que aparecem como uma negação de vida, mas que contém potencial de nova vida, de crescimento, de maturação pessoal. Em definitiva, de criativida-de humana, base da evolução pessoal e social.

Em nosso contexto social, o fracasso é vivido como uma perda de prestígio e poder. Mas se o situamos no horizonte da Ressurreição, ele pode ser elaborado saudavelmente e, então, poderemos descobrir que o fracasso pode ser fonte de fecundidade. A Ressurreição nos ajuda a re-siginificar, a re-ler, a re-interpretar todos os nossos dramas, crises, feridas, fracassos... Tudo é acolhido, tudo é integrado, tudo é mobilizado para dar um novo passo em direção a um novo futuro de vida.

Há um relato que sempre nos impacta muito e que aparece no capítulo 21 do evangelho de João. Trata-se da aparição do Ressuscitado aos discípulos no lago da Galiléia.

Normalmente nosso imaginário concebe a Ressurreição como uma grande “apoteose”; mas, se algo está ausente nas aparições do Ressuscitado, tal como os evangelhos nos relatam, é precisamente a apoteose.

O dicionário Houaiss da língua portuguesa a define como o ápice, o momento mais importante de um acontecimento, o apogeu, a glorificação, o júbilo, o entusiasmo, o cume... Mas, por mais que busquemos algo disso nos relatos pascais, não é possível encontrar nenhum rastro de semelhantes exaltações, resplen-dores, arrebatamentos...

Ao relatar como o Ressuscitado se conectava com os seus amigos e amigas, o que nos assombra é sua discreta maneira de fazer-se próximo, de surpreender-lhes em seus trajetos habituais, de lhes saudar com o “Shalon” de cada dia, de apresentar-se sob as aparências mais comuns: um trabalhador de parques e jardins, um forasteiro desinformado a quem é preciso atualizá-lo sobre os últimos acontecimentos, um desconhecido ocioso que, a partir da margem do mar, pergunta como foi a pescaria.

Mas há um dado constante nos relatos das Aparições do Ressuscitado: Ele se faz presente no meio do fracasso, da dor, da tristeza, da ferida..., e, aos poucos, vai iluminando a situação dramática de cada pessoa ou do grupo, vai reconstruindo vidas despedaçadas, vai abrindo horizonte de sentido e confirmando a missão de prolongar o “movimento de vida” iniciado na Galiléia.

No relato pascal deste domingo, o evangelista João revela que, à primeira vista, parece que a situação dos discípulos não tinha mudado; eles tinham perdido sua condição de seguidores, tocaram fundo na decepção que a morte lhes produziu e atrofiaram o sonho no qual acreditavam que estavam fundadas suas vidas.

Novamente eles se encontram junto à praia e entre redes, como no começo; o vazio, o abandono, a solidão, a escuridão da noite, a rotina de um trabalho cansativo e ineficaz, dominam a paisagem do texto; novamente a dureza de cada dia, em um cotidiano sem a presença de Jesus.

Mas, um “estranho”, muito cedo, da margem do lago, atreve-se a provocá-los, fazendo uma pergunta onde mais doía: “moços, tendes alguma coisa para comer?”

Diante de um “não” ríspido, o Ressuscitado faz um convite ousado: “Lançai a rede à direita da barca e achareis”. É como se dissesse: mudem de atitude, pesquem de maneira diferente, busquem outros lugares, saiam da rotina, sejam criativos... Também para lançar a rede existem dois lados: um lado conhecido e rotineiro; e outro lado alternativo e novo. Revendo o passado, os discípulos reconheceram que estavam trabalhando no lado errado, determinados pelo peso de uma tradição que não os deixava crescer.

Saber escutar os outros sempre pode ser útil. O pior é a auto-suficiência que leva a acreditar que sabe tudo. Até o conselho de um desconhecido pode ser princípio do êxito.

A nova consciência transforma tudo. A vida ganha a plenitude da rede, torna-se vida em abundância.

Uma frugal refeição e a presença que se faz companhia foram a estratégia encontrada por Jesus para retomar o movimento de vida que fora bloqueado pela sua paixão; ao mesmo tempo, tornam-se o ambiente favorável para confirmar a missão dos seus mais íntimos, sobretudo de Pedro, que passara por uma profunda experiência de fracasso: negara a amizade com Jesus.

Há algumas brasas, que recordam aquela fogueira em torno da qual, alguns dias antes, o velho pescador jurou não conhecer Jesus, negando-o três vezes. Agora, junto ao fogo irmão, Jesus lavará com misericórdia a fraqueza de Pedro, transformando para sempre seu barro frágil em pedra fiel. 

O relato deste domingo (3º da Pásco) nos revela que é do meio do fracasso que pode brotar o impulso para uma adesão mais radical Àquele que no fracasso “desceu” ao mais “inferior” (“infernos”) da condição humana, Àquele que “se fez fracasso” para se fazer mais solidário com todos os fracassados da história.

Assim aconteceu com Pedro e os seus companheiros. Foi no contexto do fracasso (morte de Jesus, retorno à profissão de pescadores, pescaria infrutífera...) que Pedro foi perguntado três vezes sobre o “amor”.

Foi também nesse contexto que Pedro teve chance de se deixar reconstruir em sua identidade pela presença do Ressuscitado; também por três vezes expressa a radicalidade de seu amor à pessoa de Jesus Cristo, que se faz visível na identificação com Ele e na confirmação de sua missão: “apascenta minhas ovelhas”.

As perguntas de Jesus a Pedro nos revelam que a cura das feridas emocionais é, antes de tudo, um caminho novo que envolve afeto, amizade, amor.

Antes, um Pedro valente o suficiente para cortar a orelha do servo do Sumo Sacerdote com a espada, mas que perde a valentia em seguida, a ponto de negar conhecer o próprio Jesus.

O Pedro que emerge deste contato terapêutico com o Ressuscitado é um Pedro corajoso, decidido, mas também muito mais amoroso, humano, pronto para exercer o “ministério do cuidado” do rebanho, confiado pelo Ressuscitado. 

Texto bíblico:  Jo 21,1-19

Na oração: O encontro com o Ressuscitado possibilita re-ler a vida, ressignificar fatos, “reci-clar” perdas e feridas, “processar” fracassos..., para sair do “fatal ponto morto” e entrar no movimento expansi-vo da Vida.

- Diante das crises, feridas, fracassos..., qual é a sua tendência? Tentar deletá-los através do retorno ao cotidiano normótico (voltar a pescar)? Ou oportunidade para um despertar a outras dimensões da vida, mais ricas e ousadas?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2565-a-ressurreicao-revela-sua-forca-transformadora-nos-fracassos

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